26 de fevereiro de 2021

William H. Mumler: O Homem Que Fotografava Fantasmas


A ascensão da fotografia como disciplina artística durante o século XIX, inspirou a múltiplas gerações de fotógrafos na experimentação de diversas técnicas para melhorar os longos tempos de exposição e a qualidade das imagens. Certamente assim foi o início de William H. Mumler, quem chegou a produzir múltiplas fotografias de espíritos ao longo de sua carreira e passou à história como precursor das fotografias de fantasmas.

O grande negócio das fotografias de espíritos

William Mumler 
Mumler nasceu em 1832 e começou como gravador de ornamentos em Boston, EUA.

No entanto, a sua verdadeira paixão era a fotografia, que naquele tempo começava a se consolidar.

A primeira fotografia de um fantasma que ele obteve, segundo suas próprias palavras, foi resultado de um acidente enquanto experimentava novos produtos químicos para desenvolver uma placa fotográfica em um estudo de alguns amigos.

Depois de tomar uma fotografia de si mesmo, uma selfie, ele quase caiu de costas ao revelar e encontrar uma mulher sentada junto a ele.

foto do jornalista Moses A. Dow
com espírito - Por vezes
considerada a primeira
fotografia de fantasmas da história.
De acordo com a história publicada em um jornal local em 21 de novembro de 1862, onde foi detalhado o estranho passatempo de Mumler, ele mencionou ter experimentado uma "peculiar sensação de tremor no braço direito" enquanto segurava a imagem que acabava de revelar.

Depois, disse ter sido invadido por uma "intensa sensação de esgotamento".

Ao observar pela primeira vez a fotografia, não só concluiu que havia captado um fantasma, mas também o identificou como sendo o espírito de uma prima falecida.

Ao contar sua experiência a alguns espiritistas da cidade, esses indivíduos aproveitaram a descoberta e solicitaram fotografias deles mesmos.

Entre várias dezenas de fotografias que tomou Mumler, só algumas revelaram imagens adicionais de indivíduos que os espiritistas reconheceram como familiares ou conhecidos já falecidos.

Aqui, é preciso frisar que a qualidade dessas "fotografias de fantasmas" era bem mais precária do que Mumler conseguia obter "com modelos vivos".

É mais, houve pessoas que solicitaram várias fotografias, mas as figuras fantasmagóricos reveladas raramente eram as mesmas.

A prova da existência do além-túmulo

Para muitos, a descoberta de Mumler era uma revelação. Os argumentos do espiritismo naquele tempo pareciam se consolidar ao encontrar uma forma de provar a existência do além-túmulo. Imagine a emoção das pessoas ao saber que seus familiares, a quem acreditavam ter perdido para sempre, os rodeavam o tempo todo em sua forma espiritual. Ficaram tão encantados com essa ideia, que simplesmente recusavam qualquer sugestão de que poderia ter algum truque por trás.

Fotografia tirada por William Mumler
O Dr. Ammi Brown, um partidário de William Mumler, garantiu ante diversos jornalistas que havia examinado pessoalmente o dispositivo do fotógrafo sem conseguir encontrar indício algum que sugerisse a existência de uma fraude. Como se não bastasse, disse ainda:

"se estas fotografias, supostamente imagens de espíritos, são uma fraude, trata-se de um engano que supera o talento de todos os prestidigitadores e necromantes do presente e do passado".

Depois de alguns céticos acusarem a Mumler de gerar suas fotografias de fantasmas mediante uma dupla exposição em placas fotográficas, este os convidou a que levassem suas próprias placas aos experimentos e, efetivamente, os espíritos continuavam aparecendo nas placas reveladas.

Enquanto que alguns fotógrafos reproduziam o efeito fantasmagórico sobrepondo dois negativos e revelando em uma só fotografia, aparentemente ninguém era capaz de explicar como Mumler conseguia o mesmo com uma só placa.

Fotografias, fantasmas e arte

Estas fotografias eram algo digno de admiração. Um homem chamado Luther Parks solicitou uma dessas fotografias de fantasmas, no resultado aparecia ele e outra imagem mais tênue de um belo espírito feminino com uma coroa de flores sobre a cabeça. Em outro trabalho, uma mulher identificada somente como "Sra. Snow" aparece junto a uma imagem fantasmagórica de seu irmão falecido, quem segurava um instrumento musical em suas mãos (o homem fabricou esses artigos por toda a sua vida).

Fotografia tirada por William Mumler
Em outra encomenda, o "Sr. Taylor" solicitou uma fotografia em que seu filho, falecido recentemente, aparecesse sentado sobre uma de suas mãos (elevada enquanto a fotografia era tomada). Evidentemente, na fotografia que Mumler entregou aparecia o espectro de um menino como havia solicitado o cliente.

No entanto, nas fotografias de fantasmas não só apareciam familiares. Em uma das fotografias de um "conhecido cidadão de Boston", se manifestou a inconfundível imagem do recém falecido estadista Daniel Webster. E, ainda que muitas das imagens de fantasmas não eram nítidas, a maioria se convencia de que  apareciam familiares mortos nas fotografias.

Ninguém sabia a técnica utilizada por Mumler para conseguir aquelas impressionantes fotografias. De fato, outros fotógrafos de Boston tentaram reproduzir a técnica usando o mesmo equipamento, mas os resultados nem chegavam perto.

Um repórter escreveu em um artigo como ele mesmo proporcionou sua própria placa fotográfica a Mumler, passando pela captura da imagem, até a revelação da mesma. No final, o resultado foi outra fotografia de fantasma. O repórter concluiu que a produção dessas imagens de espíritos era um mistério, e que sua realização era algo que nem a investigação de fraude ou a filosofia tinham capacidade de responder.

Uma mina de ouro sobrenatural

No entanto, Mumler não era o único da família que lucrava com o paranormal. Hannah, sua esposa, oferecia seus próprios serviços como médium e uma lista de padres para o cliente que o solicitasse. Essa mulher afirmava ter canalizado em múltiplas ocasiões o famoso médico Benjamin Rush, quem supostamente proporcionou a ela diversas curas para uma variedade de doenças. Por sua posição, o espectro de Benjamin Rush junto a ela nas múltiplas fotografias tomadas por seu esposo, consolidou sua popularidade como psíquica.

Fotografia tirada por William Mumler
No começo de 1863, as fotografias de fantasmas de Mumler já eram famosas em toda a América do Norte e na Europa. O Photographic News, um popular jornal com sede em Londres que publicava novidades sobre o mundo da fotografia, chegou a fazer uma resenha do trabalho de Mumler, mas com uma nota advertindo a possibilidade de que fosse uma fraude.

É certo que Mumler havia formado uma base sólida de seguidores, mas a Photographic Society of America rapidamente tomou uma postura declarando que "os parecidos com espíritos são uma fraude e um engano grosseiro". A contraparte britânica apoiou essa postura. Contra Mumler também se levantou ninguém menos que P.T. Barnum*, o artista circense lembrado por seus célebres golpes no mundo do entretenimento. Em 1866, Barnum publicou um livro intitulado Humbugs of the World ("Farsas do Mundo") onde no capítulo "spiritual photographing" acusava a Mumler de ser "pura fumaça".

*P.T. Barnum ou Phineas Taylor Barnum1810 - 1891 foi um norte-americano apresentador circense, político, escritor e empresário lembrado por promover célebres embustes como a "Sereia de Fiji" e pela fundação Barnum & Bailey Circus (1871-2017). NDT.

A "Sereia de Fiji" é um dos embustes
mais famosos de Barnum.
No entanto, o negócio das fotografias fantasmagóricas de Mumler seguiu crescendo e com o tempo ele se mudou a Nova Iorque, onde os mais proeminentes especialistas em fotografia não conseguiram encontrar indício algum de fraude no seu trabalho.

William Mumler não podia ter trabalhado em uma época mais propícia para o sucesso do seu negócio. Os Estados Unidos estava mergulhado em uma terrível guerra civil resultando em milhares de mortos e, em consequência, familiares desesperados por encontrar alguma prova de que havia vida após a morte.

Fotografia tirada por William Mumler
A grande indústria que cresceu em torno das fotografias de espíritos como consequência da guerra só fez com que muitos deixassem de lado a sua incredulidade. Outros fotógrafos também começaram a produzir suas próprias fotografias de fantasmas ao ver os suculentos lucros que obtinha Mumler.

Essa concorrência nem sequer afetou o negócio do fotógrafo, pois a demanda era enorme e Mumler se dava o luxo de cobrar muito mais caro por suas "fotografias espirituais autênticas".

Porém, nem tudo é pra sempre. Quando o prefeito de Nova Iorque, A. Oakley Hall, ouviu os rumores sobre o trabalho de Mumler imediatamente encomendou uma investigação. O marechal (Marshal) Joseph Tooker, foi disfarçado ao negócio de Mumler e solicitou uma de suas fotografias de fantasmas.

O resultado: uma imagem do próprio Tooker com uma figura que seria seu sogro, segundo o próprio Mumler. Tooker disse que a fotografia "não mostrava ninguém que tivesse visto ou conhecido" e o prendeu sob acusação de fraude e embuste.

O polêmico julgamento de William Mumler

Em abril de 1869, Mumler se apresentou ante o juiz Joseph Dowling com duas acusações de fraude e uma de roubo menor. Segundo o promotor, Mumler defraudou os seus clientes "mediante truques e aparelhos com falsas pretensões, proporcionando certas fotografias que garantia terem sido produzidas por meios espirituais e sobrenaturais, por mais que as tenha gerado na verdade por meios científicos e químicos de uso comum por indivíduos dedicados à arte fotográfica".

P.T. Barnum
A parte conflitiva para o promotor era determinar se Mumler havia cometido fraude de propósito, ainda que não restava nenhuma dúvida de que era responsável por inflacionar os valores de seu trabalho. No entanto, aquele julgamento se converteu em uma batalha polarizada: os que acreditavam no espiritismo e os que negavam. E no meio de toda a polêmica estavam as célebres fotografias de Mumler.

Esse foi o primeiro julgamento em que "fotografias de fantasmas" foram apresentadas como evidência em um tribunal. Assim, os especialistas em fotografia analisariam a forma com que Mumler criava essas fotografias para determinar se realmente ele tinha a habilidade sobrenatural de fotografar o além. Ao longo de duas semanas, mais de vinte imagens passaram por uma rigorosa análise.

É complicadíssimo ressaltar os pontos mais altos do julgamento, mas sem dúvida, o depoimento de P.T. Barnum figura entre esses. O consumado homem de espetáculos era extremamente hábil cativando à audiência, inclusive em um tribunal, e se aproveitou da sua eloquência para convencer os ali presentes, de que as fotografias de Mumler eram uma fraude.

P.T. Barnum e o general Tom Thumb
Além disso, frisou que nenhum dos clientes de Mumler parecia ter manifestado curiosidade sobre os fantasmas aparecerem vestidos com a mesma roupa que estava na moda na Terra.

Acontece que, curiosamente, as roupas que vestiam os supostos mortos evoluíam conforme as tendências dos vivos, ainda que estivessem mortos há muitos anos. Também fez uma recontagem de sua experiência com Mumler e a facilidade com que imagens podiam ser falsificadas.

O depoimento de Barnum seduziu todos os presentes incluindo a imprensa, no qual, o advogado de defesa tentou subtrair sua autoridade questionando sobre o tempo que Barnum levava ganhando a vida com embustes. Barnum se esquivou habilmente da pergunta**, e então o questionaram sobre suas numerosas fraudes**. No entanto, nada disto teve efeito e Barnum deixou a cena triunfante.

**Uma frase frequentemente atribuída a P.T. Barnum: "Nasce um trouxa a cada minuto" ("There's a sucker born every minute"). No entanto, não há evidências de que ele tenha realmente proferido tal frase, que seria uma contradição com seu tipo de negócio. Barnum não era do tipo que menosprezava seus clientes. Algumas fontes afirmam que a frase seria do famoso vigarista Joseph ("Paper Collar Joe") Bessimer.

A conclusão do julgamento

Depois da exposição de toda a evidência disponível, tanto a defesa como o promotor se centraram em extensos argumentos que cobriam os pormenores de todas as questões que surgiram durante o julgamento.

A culpabilidade de Mumler sobre a fraude já havia passado a segundo plano, e o debate parecia se centrar no espiritismo, a liberdade de religião, o benefício que havia trazido as fotografias de Mumler aos desconsolados clientes e a distinção entre crença e verdade.

No final, o juiz Dowling concluiu que, enquanto cabia a possibilidade de que Mumler enganava a seus clientes, não estava em disposição de atribuir responsabilidade alguma com a evidência proporcionada pelas testemunhas.

Assim, determinou que não o enviaria ao Grande Júri e o deixou em liberdade.

Nos últimos anos de William Mumler

Ainda que Mumler continuou no negócio das fotografias de espíritos, a imprensa não deixava de chamar ele de "embusteiro". Ele voltou para Boston profundamente endividado por causa dos honorários pagos por sua defesa. Quase ninguém mais solicitava os seus serviços ainda que essa classe de fotografia desfrutou de popularidade durante as seguintes décadas. Mas o estigma em torno do nome de Mumler quase levou ele à completa ruína. Inclusive aquelas fotografias antigas, adquiridas a preços exorbitantes, acabaram sendo leiloadas por centavos de dólar. Ele abriu um estúdio reduzido na casa da sogra na rua 170 W. Springfield St e sobreviveu graças à fotografia comum chegando a inventar um processo para produzir placas de foto-eletrotipagem (Em um processo semelhante ao da galvanoplastia. NDT.)

A fotografia de Mary Todd Lincoln realizada por Mumler.





No entanto, seguiu fazendo algumas fotografias de fantasmas. Uma de suas clientes mais célebres em seus últimos anos de vida foi Mary Todd Lincoln, a viúva do presidente norte-americano que se apresentou como a Sra. Lindall. Ainda que o homem que aparece na fotografia tenha pouca semelhança com Lincoln, Hannah a esposa de Mumler, teria ajudado a que Mary se convencesse de que era o seu esposo. Essa imagem proporcionou um fôlego a Mumler e trouxe novos clientes.

Em maio de 1885, o fotógrafo de fantasmas William H. Mumler morreu. Suas fotografias de espíritos foram distribuídas amplamente nos círculos espiritistas após sua partida, ainda que a maioria de especialistas em fotografia moderna tenha desmentido essas obras como meras falsificações.

Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

https://www.amazon.com/Apparitionists-Phantoms-Photography-Captured-Lincolns-ebook/dp/B01I4FPNG8/ref=tmm_kin_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=&sr=&dpID=51cOlW24gNL&preST=_SY445_QL70_&dpSrc=detail

https://web.archive.org/web/20170810172706/http://bitaites.org/bitaites/william-h-mumler-homem-nao-fotografava-espiritos

https://fhox.com.br/news/a-incrivel-historia-do-primeiro-fotografo-de-espiritos/

http://www.assombrado.com.br/2013/05/as-fotos-espiritas-de-william-h-mumler.html

https://books.google.com.br/books?id=L7Wx21p4f5IC&pg=PA379&lpg=PA379&dq=#v=onepage&q=Photographic%20Society%20of%20America&f=false
https://www.historynet.com/the-ghost-and-mr-mumler.htm
https://www.nytimes.com/2017/10/24/books/review/apparitionists-peter-manseau-william-mumler-biography.html
http://www.amphilsoc.org/exhibits/spirits/mumler.htm
https://archive.org/details/humbugsworld00barnrich/page/114
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=jxsvlD6HJRUC&q=photoelectrotype+plates+#v=snippet&q=photoelectrotype%20plates&f=false
https://en.wikipedia.org/wiki/William_H._Mumler
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=sF86DwAAQBAJ&q=+spiritual+photographing#v=snippet&q=spiritual%20photographing&f=false
https://books.google.com.br/books?id=yhYMAAAAYAAJ&printsec=frontcover&dq=Humbugs+of+the+World#v=onepage&q=Humbugs%20of%20the%20World&f=false
https://pt.wikipedia.org/wiki/P._T._Barnum
https://en.wikipedia.org/wiki/There%27s_a_sucker_born_every_minute

20 de fevereiro de 2021

El Duende de Zaragoza - O Mistério do Fogão que Falava



Em 1934, um estranho acontecimento dito paranormal em Saragoça, capital da comunidade autônoma espanhola de Aragão, chocou o país inteiro e foi alvo da primeira investigação oficial de um fenômeno paranormal na Espanha. A história do "Duende do Fogão" ou a "Casa do Duende da Boca do Fogão"*, cuja investigação terminou com um "carteiraço", encerrada à força de autoridade, segue sendo hoje um mistério sem solução. Em 1977, a casa foi derrubada e, em seu lugar, foi erigido um prédio batizado de "Edifício Duende".

*"La Casa del Duende de la Hornilla" no original, ou seja, Casa do Duende do Queimador do Fogão [Por onde sai a chama]. O fogão era a lenha mas utilizavam carvão como combustível e cujas auréolas do queimador, assim chamadas no Brasil, são chamadas de "Hornilla" na Espanha. Apesar de quase todas as fontes se referirem a vivenda como "casa" era na verdade um apartamento de um bloco com quatro andares. NDT.

O Duende de Saragoça

Ocorreu na cidade de Zaragoza (Saragoça) na Espanha e por certo que jamais um fenômeno paranormal havia causado tanta expectativa na sociedade espanhola. Milhares de pessoas seguiam com fervor o desenrolar dos fatos de uma vivenda no centro da capital aragonesa. Ao mesmo tempo, e pela primeira vez no país de Cervantes, policiais e juízes intervinham diretamente na investigação dos fatos.

O imóvel situado na rua Gascón de Gotor, número 2.
Saragoça despertava naquele 27 de setembro de 1934, às seis e meia da manhã, quando sonoras gargalhadas explodiram subitamente nas escadas de um velho imóvel situado na rua Gascón de Gotor, número 2. Muitos vizinhos saltaram de suas camas assustados, se perguntando qual era a origem do misterioso som. As sinistras gargalhadas foram se diluindo no silêncio da casa e terminaram por desaparecer ao cabo de alguns minutos. Os vizinhos ficaram ainda mais intrigados quando constataram que não se encontrava ninguém perambulando pelos corredores do prédio.

Naquele momento, todos se perguntavam sobre quem poderia ser o brincalhão. No entanto, essa pergunta ficaria sem resposta. Durante os dias seguintes só se ouviam ruídos estranhos altas horas da madrugada, quase ao amanhecer. Eram mais breves e soavam mais afastados, e por isso, a vizinhança não deu tanta importância. O fenômeno cessou três ou quatro dias depois e o desagradável assunto começou a cair no esquecimento.

Em 15 de Novembro de 1934, e de novo por volta da 6:00 manhã, Isabel, a inquilina do segundo apartamento à direita, ouvia a sua empregada de 16 anos, Pascuala Alcocer, que uma voz masculina chorosa havia lhe dirigido a palavra na cozinha, apesar dela se encontrar completamente só naquele momento e local do apartamento.

No dia seguinte, quando a garota fechava a tampa do forno do fogão, a própria dona do andar pôde ouvir um grito de homem que pronunciou um "ai!" de dor, e que a seguir exclamou: "Maria, vem!". 

Tomadas por um intenso pânico, as duas mulheres saíram esbaforidas pelos corredores do prédio pedindo ajuda. Alarmados pelos gritos de angústia, vários vizinhos apareceram pelas escadas de acesso ao segundo andar.

Era um fogão como este.
Pouco tempo depois, o grupo de pessoas voltava a escutar com nitidez a assustadora voz que surgia do queimador do fogão. Convencidos de que não se tratava de nenhuma piada macabra, decidiram se apresentar imediatamente na delegacia para denunciar o fato às autoridades.

A partir desse momento, a Polícia e a Guarda de Assalto começaram a investigar, pela primeira vez, um suposto fenômeno sobrenatural. Poucos minutos depois de terem dado queixa, um agente do Corpo Policial entrava na cozinha se dirigindo diretamente para a boca do fogão, ao mesmo tempo em que debochava a multidão que havia se reunido para presenciar a cena.

Pascuala Alcocer de 16 anos na época.
Ao tocar no registro da chaminé, a voz soltava murmúrios de dor.
Ao remover o interior do forno com o gancho destinado a tal efeito, soou de novo um som bronco, uma voz que soava distante gritou: "Ai, ai, que me machuca!".

Os deboches cessaram de imediato. Foi realizado um minucioso registro em toda a casa para comprovar se a misteriosa exclamação partia de alguma pessoa escondida em um dos andares superiores.

Como medida suplementar, vários guardas subiram ao telhado e cortaram as antenas de rádio, chegando inclusive a cavarem uma valeta ao redor do edifício para descobrir se havia algum cabo enterrado, no qual, não acharam nada.

Primeiras suspeitas

Pascuala Alcocer.
Em vista do resultado negativo das investigações oficiais que foram realizadas desde a terça-feira dia 20 à sexta-feira 23 de novembro de 1934, a Polícia supôs que devia se tratar de um excecional fato paranormal, e como se dava a circunstância de que a servente da casa, Pascuala Alcocer, estava presente "sempre" que a voz era ouvida, chegaram a afirmar que o fenômeno teria origem nela.

Quando na quinta-feira, dia 22, chegaram estas teorias aos ouvidos do psiquiatra Dr. Joaquín Gimeno Risse, endossado pelo médico Santiago Ramón y Cajal, declarou:

"Duvido de que não possa ter o fenômeno uma explicação racional. Lembro perfeitamente de que houve médiuns, em geral mulheres, que chegaram a realizar verdadeiros prodígios que ainda permanecem inexplicados; mas isso não quer dizer, nem muito menos, que eu qualifique de médium a essa garota sem a ter submetido antes a um demorado estudo". 

A polícia investigou o caso a fundo.
Sobre a origem da voz, o especialista assinalou: "Cabe a ventriloquia em uma histérica; cabe o que chamamos alucinações psicomotoras; e cabem uma porção de coisas patológicas que sem ver à jovem é impossível concretizar". 

E como a voz não era ouvida com regularidade, senão em intervalos, o Dr. Joaquín Gimeno Risse enfatizou: "Caso se trate de uma hipersensível tendo dias e horas, é o que se chama 'fraudes dos médiuns'; isto é, que sua hipersensibilidade aumenta ou diminui". 

Sem dúvida o psiquiatra se referia às pessoas dotadas que, quando experimentam uma diminuição de seus poderes paranormais, chegam inclusive à fraude para manter seu prestígio.

Enquanto isso, informado por seus agentes, o Comissário chefe de Vigilância Sr. Pérez de Soto já havia solicitado ao juiz de guarda, Sr. Pablo de Pablos, que investigasse o caso.

Estudantes debocham da polícia

Os estudantes foram multados pela
brincadeira - mas o caso seguia sendo
um mistério.
Ante a avalanche humana que se acotovelava na rua desde que se tornou público o acontecimento, o comissário ordenou a uma dupla de guardas que custodiassem o edifício.

Em frente ao velho portal da rua Gascón de Gotor se aglomeravam milhares de pessoas desejosas de ouvir as lamentações da novidade sobrenatural, ao mesmo tempo que gananciosos anunciantes inundavam o rádio e os jornais com grandes quantidades de publicidade que terminaram por fazer do "duende" algo popular.

Inclusive, um grupo de estudantes equipados com lanternas e lençóis, debocharam da vigilância policial e entraram pela parte traseira de um bar, depois de subornarem o dono do local, como fizeram alguns jornalistas, subindo totalmente cobertos com os lençóis no telhado para imitarem  "fantasmas" de forma bem tosca. A brincadeira custou aos jovens, uma multa de 50 pesetas.

Em uma coletiva de imprensa realizada durante a noite de sexta-feira 23 de novembro, o Governador Civil Otero Mirelis deixou claro que para ele, o "caso do duende" era um problema de ordem pública dizendo:

"Acho que já é hora de acabar com esse assunto para evitar consequências que podem ser lamentáveis".

A servente: a principal suspeita

Mesmo sem evidências, o caso foi "empurrado goela abaixo"
como simples "ventriloquismo inconsciente". 
Às quatro da tarde do sábado 24 de novembro, o juiz de guarda, D. Pablo de Pablos, em companhia dos forenses, D. Manuel Rost Mateo Ojer e D. Jaime Penella Murt, eram recebidos por Antonio Palazón, o dono da propriedade.

Enquanto o juiz inspecionava o edifício e trocava impressões com os inquilinos, os forenses procediam a examinar à garota de 16 anos, Pascuala Alcocer. Às sete da tarde deixavam o imóvel, aconselhando os seus moradores que fizessem o mesmo e ordenando aos agentes de Segurança que proibissem a entrada a toda pessoa estranha.

Aceitando a sugestão do juiz, os inquilinos desalojaram o imóvel três horas depois. O edifício ficou completamente esvazio ante a surpresa das pessoas que permaneciam dia e noite na rua. Enquanto policiais e vizinhos saíam pela porta principal, foi ouvida uma voz que disse: "Adeus, adeus".

Pascuala Alcocer foi investigada.
Mesmo longe do local, o fenômeno continuava.
Na manhã de segunda-feira 26, o Comissário Sr. Pérez de Soto declarava à imprensa que havia retirado a guarda do interior da moradia porque, segundo os relatórios redigidos pelos agentes que prestavam serviço na cozinha enfeitiçada, não voltaram a ouvir a voz desde que os proprietários abandonaram a casa no sábado 24, às dez da noite; "isto é, que uma vez desalojado o andar o fenômeno desapareceu", concluiu De Soto.

Figurou no relatório judicial, que naquela mesma segunda-feira foi emitido o relatório médico forense que descartava a empregada Pascuala Alcocer como possível origem do fenômeno. Descartaram também, que seria um fenômeno de ventriloquismo inconsciente supostamente provocado pela histeria da servente, pois o fenômeno ocorria também em sua ausência.

Os especialistas deixariam escrito: "Não descobrimos nela invencionices, tendência à mentira nem simulação. Afastada a garota da cozinha, a voz continua a ser ouvida. Não podemos provar nem mesmo que se trate de uma histérica, nem tampouco médium. Tanto a Polícia, como encanadores, eletricistas e pedreiros, fizeram diversas inspeções, não tendo encontrado instalação alguma que conduza à voz fantasmagórica".

Uma testemunha viva do caso

Arturo Grijalba
Arturo Grijalba era apenas uma criancinha de 4 anos de idade na época, quando a entidade falou com ele. Ele era o filho do proprietário do prédio e a única testemunha viva desse caso.

Enquanto a investigação estava em andamento, ele entrou na cozinha para conferir a tal voz. Ele observou que não haviam moradores no prédio. Somente policiais estavam do lado do fogão e ao redor do prédio, guardando o perímetro.

Quando Arturo se virou para o seu pai e disse: "Vamos pai, essa coisa é um loucura".
Inesperadamente, a voz do fogão respondeu:
"Não é uma loucura pequenino…" Todo mundo ouviu, inclusive os policiais e ficaram com medo.

Sessenta anos depois, Arturo descreve do seguinte modo um encontro com o duende: "O único que fazia era falar e adivinhar. Meu falecido pai uma vez perguntou ao duende: 
'Vem, se você é tão esperto, me diz quantos somos aqui?' 
A voz respondeu 'Treze!'. 
'Bah!, Errou!, somos doze'.
'Treze, são treze!' [retrucou a voz]. 
A polícia pediu para que Arturo Grijalba (o menino)
conversasse com a misteriosa voz.
Foram contar e de fato, éramos treze pessoas. 

No começo dissemos que não... mas não havíamos contado com uma criança de colo de um mês.".

Formalmente é dito que o duende fez sua última comunicação em Dezembro de 1934, quando Pascuala não estava trabalhando na casa.

Mas anos mais tarde, Arturo Grijalba foi questionado sobre isso e ele disse que aquilo não tinha nada ventriloquismo.
"Aquilo não era algo físico e o duende continuou falando pela boca do fogão até 1935." Arturo confirmou que devido ao medo, sua família acabou abandonando o prédio.

O que a voz dizia?

O vocabulário empregado pela misteriosa voz se limitava unicamente a nomes, palavras soltas, lamentos, gemidos, uma que outra pergunta e, em raras ocasiões, frases mais ou menos longas.

Uma das incógnitas que nunca ninguém soube explicar corretamente, foram o porquê de serem tão breves intervenções. Contam que era uma voz homem, ainda que algumas testemunhas e em uma que outra ocasião, ouviram um tom de parecido com o de uma mulher jovem, um "tom de voz de flauta". As exclamações mais célebres do duende foram:

Gemidos e lamentos quando alguém tocava na chave do registro da chaminé (o cano por onde passa a fumaça nesses fogões a lenha, geralmente possui uma válvula que controla a saída de fumaça. NDT.):

"Ai!".
"Bom dia".
"Já estou aqui, já estou aqui...!".
"Bom dia, camaradas".
"Já estou aqui. Covardes. Covardes".

Quando um fumante ofereceu um cigarro a outra pessoa: "Fumar, fumar".

Se uma criança chorava: "Não chores".

Ao acabar de jantar: "Já vou, já vou...".

Quando os curiosos perguntavam pelo duende: "Aqui estou já".

Medindo o cano da chaminé: "Não se incomodem, o diâmetro é de quinze centímetros".

A um arquiteto que ia alterar a chaminé: "Se mexer aí, me translado pra tua casa!".

A um visitante com barba: "Mas este senhor não sabe que existem em Espanha fábricas de lâminas de barbear?".

Quando um convidado pede o jornal Heraldo de Aragón para ver como estavam tratando do assunto: "O Heraldo não, que não traz nada, porque não se importa comigo...".

Nomes: "Maria, vêem".
"Isabel".
"Antonio".
"Trudis".

Se alguém apagava a luz para comprovar se o "duende" também via o interior da cozinha: "Luz... que não vejo".
"Não apague a luz".
"Não apaguem, que não se vê".

Quando alguém foi pegar aparas de madeira para o fogo: "Para que pegar lasca, se há
gás?".

Ao acender o queimador: "Não acenda o fogo, que me queimo".

Conversas com os inspetores:

"Quem és? Por que está fazendo isto? Quer dinheiro?".
-"Não".
-"Quer trabalho?".
-"Não".
-"O que você quer, homem?".
-"Nada; não sou homem".

À polícia: "Covardes, para que tanta gente e tantos guardas?".
"Já estão aqui os guardas!".

Quando um agente de Vigilância tirou a pistola do bolso do casaco para guardá-la no bolso da calça: "Com a pistola, não".

Adivinhando a chegada dos guardas: "Os guardas, os guardas".

Aos juízes municipais do distrito: "Sim".
"Não".
"Ladrões".

A toda a comunidade: "Cabrones!"** 
"Vou matar a todos os que vivem nesta casa".

Despedida: 
"Adeus, saúde".
"E por hoje, basta".
"Boa noite".

"Adeuuus, adeuuus".

**(Cabrones ou cabrón no singular quer dizer literalmente "cabrão", "bode", mas com o significado conforme contexto e ocasião de: babaca, chulo, corno, cretino, filho da put@, idiota, pentelho, safado, sacana, cafetão, garanhão, pé-de-pano... Em algumas ocasiões, soa como elogio, mas na maioria das vezes é xingamento mesmo. NDT.

O jornal Heraldo de Aragón.

A Direção-geral de Segurança pede notícias

Os jornalistas que naquela época examinavam a imprensa estrangeira que chegava a Madri, se assombraram ao ler no jornal britânico "The Times", um dos diários mais prestigiados do mundo, a referência sobre o acontecimento de Gascón de Gotor, como o "irônico duende".

Policiais e investigadores foram insultados pela misteriosa voz.
E como se o interesse do jornal londrino influenciasse nisso, durante as primeiras horas da madrugada da quarta-feira 28 de novembro de 1934, a Delegacia de Vigilância recebeu uma chamada telefônica da Direção-geral de Segurança solicitando informação sobre o estranho acontecimento.

Às 00:20 horas o duende voltava a se expressar, só que desta vez mal humorado dizendo: "Já estou aqui. Covardes. Covardes".

A delegacia comprovou essa nova intervenção e responderam ao seus colegas da Direção-geral de Segurança, um amplo dossiê o respeito do caso. O apartamento onde estava o "fogão enfeitiçado" voltou a ser ocupado pelas forças de segurança.

Na quinta-feira, dia 29 a Polícia, que até então impedia que entrassem na cozinha enfeitiçada, deu permissão ao vidente aragonês Tomás Menés, cuja visita teria sido filmada em um cinematógrafo. No entanto, essas filmagens se encontram perdidas.

Ao entender que o trabalho a realizar estava além de sua capacidade, o titular do Tribunal de Instrução Número 2, dom Pablo de Pablos, passou o assunto ao Juiz Autárquico do Distrito Terceiro, Dom Luis Fernando. Por sua vez, o governador civil, Dom Otero Mirelis, insistia em tom de ameaça para que a imprensa deixasse de falar do acontecimento. Ao que parece, a fama nacional e internacional que estava alcançando o fenômeno deixava em xeque o trabalho da polícia.
..
.
"Carteiraço Oficial" - A investigação é encerrada à força de autoridade

Curiosos se acotovelavam em frente ao prédio para ver o
desenrolar dos acontecimentos em uma contínua alteração
da ordem pública.
Com a chegada do novo juiz rumo da investigação se tornaria incerto. Na sexta-feira, dia 30 de Novembro e nos dois primeiros dias de dezembro de 1934 os órgãos oficiais privavam de informação os meios de comunicação.

Suspeitava-se que o juiz e sua equipe estavam levando a cabo algum tipo de experimento que permitisse a eles descobrir o que realmente estava acontecendo. E assim, o juiz Dom Luis Fernando sentenciou na segunda-feira dia 3 de dezembro:

"Primeiro quis ouvir a misteriosa voz. As experiências realizadas demonstram, com absoluta clareza, que a voz é devida a um fenômeno psíquico, que unicamente se produz em determinadas circunstâncias, por isso escuto a voz quando quero. Na cozinha da casa nos encontrávamos com a empregada dos antigos inquilinos, duas testemunhas e eu.
A voz deixou-se ouvir quantas vezes eu propus. Sob o ponto de vista científico não pode ser mais interessante e sugestivo, pois ainda que não é o primeiro que se produz, são muito poucos registrados pela história médica. Por agora não posso dizer mais, as atuações praticadas serão arquivadas hoje, por não ter sido encontrada a pessoa responsável pelos acontecimentos. O misterioso acontecimento ficou totalmente aclarado".

A tudo isso, o governador civil Otero Mirelis declarou:

"Com a habitação iluminada e a escuras, o resultado foi satisfatório. Tudo o que não seja reconhecer isto, é desejo de irritar e  enfurece, e adotar posições falsas que não quero qualificar".

Convidado pelo juiz, o Dr. Joaquín Gimeno Risse também escutou os lamentos do duende na tarde de segunda-feira dia 3. Suas declarações também foram surpreendentes:

"Por fim, ouvi a voz, se é que se pode chamar voz a um som apagado e que dá certa impressão de distância. Confirmo quanto ao que disse no primeiro dia, no ponto em que chegaram as coisas, o melhor que eu devo fazer é dar o assunto por encerrado e calar. Minha posição no assunto é perigosa, posso me proteger inclusive atrás do segredo profissional".

Uma morte na investigação

Asunción Jiménez Álvarez.
Na tarde de 25 de Novembro de 1934, chegou à cidade uma mulher chamada Asunción Jiménez Álvarez, uma médium de reconhecido prestígio convidada pela polícia a expulsar o espírito daquela casa.

O grupo que acompanhou a mulher, se sentou em um círculo em uma mesa, enquanto Asunción se concentrou unindo os polegares à espera de contactar com a entidade.

Ela então abriu os olhos e uma voz gutural e desagradável de homem, saiu de sua garganta. Depois ela caiu. Os demais participantes da sessão chamaram uma ambulância, mas quando o socorro chegou ela já estava morta. Asunción morreu misteriosamente, mas o assunto foi abafado pela imprensa.

Conclusão

Em nenhum momento pôde ser explicado por que a voz seguia sendo ouvida ainda que a empregada, acusada de "ventriloquismo inconsciente", não estivesse em casa.
Antonio Palazón, o dono do imóvel, contratou Pascuala Alcocer em seu novo domicílio e ali, jamais foram ouvidas as lamentações do duende. Para a opinião pública estava muito claro que a pressão política exercida sobre o assunto deixava em dúvida a legalidade das investigações.

Os primeiros forenses erigiram um relatório que descartava à garota como origem do fenômeno. Então, por que opinaram os seguintes forenses que era ela quem provocava a anomalia?
Não é maluquice pensar que durante os dias que experimentaram com ela, traçaram um plano para acabar com o assunto que estava se tornando um incômodo cada vez maior.

Edifício Duende.
A ideia era que, declarando que a empregada, quem já não residia no local, era a culpada, as pessoas deixariam de se acotovelar nas redondezas do prédio.

Mas o efeito foi contrário, pois o fenômeno continuava se manifestando e sem explicação, o prédio e redondezas permaneceu invadido pelos curiosos com o consequente escândalo e a contínua alteração da ordem pública.

Após dois meses de mensagens e ameaças, oficialmente, em uma fria noite de finais de dezembro de 1934, aquela voz se apagou sem motivo e nunca mais voltou a ser ouvida. (Extra-oficialmente, segundo Arturo Grijalba a voz teria continuado até o ano de 1935.)
Aquele velho edifício terminou sendo demolido, pondo fim definitivamente ao mistério que deu origem aquela extensa investigação.
Hoje, apenas o nome do novo imóvel que ocupa o novo prédio "Edifício Duende" evoca aquele tempo passado.

Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

http://www.elseip.com/
http://pedromariafernandez.blogspot.com/2010/12/el-duende-de-zaragoza.html
https://www.atlasobscura.com/articles/unconscious-ventriloquism-the-unsolved-mystery-of-the-zaragoza-goblin
https://www.thevintagenews.com/2018/05/30/goblin-stove/
https://books.google.com.br/books?id=FwuQSvFCJugC&pg=PA35&dq=Asunci%C3%B3n+Jim%C3%A9nez+%C3%81lvarez&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjD_rqlg8PkAhWYF7kGHU1qBWwQ6wEINjAB#v=onepage&q=Asunci%C3%B3n%20Jim%C3%A9nez%20%C3%81lvarez&f=false

12 de fevereiro de 2021

A Besta de Gévaudan

Besta de Benais 

Besta de Benais ou Besta da Touraine foi o incidente envolvendo um animal (ou animais) que perpetrou uma série de ataques a humanos. O primeiro ataque foi mencionado no final do inverno de 1693. (71 anos antes do caso da Besta de Gévaudan)

Vítimas e a Primeira série de ataques 

No final do inverno de 1693, uma criatura atacou uma criança de nove anos em Saint-Patrice. A vítima foi encontrada parcialmente devorada e apresentava indícios de um ataque de lobo. Cinco dias depois, uma mãe encontrou os restos mortais de sua filha Antoinette, de sete anos, nas charnecas de Continvoir. 

Em março de 1694, a fera fez duas novas vítimas, desta vez adultos, em Benais. Em abril, a besta matou uma garota de 17 anos em Les Essards, depois uma mulher de Restigné no dia seguinte e uma pastora de Saint-Patrice onze dias depois. Quatro novas vítimas aumentaram a lista em maio e oito de junho, incluindo uma mulher e seu filho em Bourgueil.

Besta de Benais

Monsieur de Miromesnil, mordomo da Touraine, organizou caçadas. De acordo com seu relatório de junho de 1693, em menos de seis meses "mataram em torno de Benais mais de setenta pessoas e feriram outras tantas". 

Apesar da investigação e caça à besta, duas pastoras foram massacradas em junho em Continvoir, um pai foi morto enquanto defendia sua filha em Ingrandes e três outras vítimas foram mencionadas em julho em Benais e Les Essards. No final de agosto, uma mulher de 64 anos foi devorada em Benais, assim como uma menina e duas outras mulheres em Bourgueil.

Até o inverno seguinte, os ataques cessaram, mas a população estava apavorada. Dois lobos foram mortos pelos aldeões, mas enquanto isso, um rapaz de 18 anos foi morto em Essards em dezembro e dois outros jovens em Saint-Michel-sur-Loire em janeiro de 1694. Uma última vítima foi relatada no início de agosto 1693, depois nada.

Segundo ataque 

Culparam os lobos

Em 9 de junho de 1751 (13 anos antes dos ataques da besta de Gévaudan), um jovem pastor foi atacado e devorado em Nouzilly, ao norte de Tours. "A besta" não havia sido vista, mas os lobos foram considerados culpados. O corpo do jovem foi horrivelmente mutilado de acordo com a descrição feita pelo padre dinamarquês encarregado de enterrar o corpo:

"O filho da Caridade que permaneceu querido seu meeiro dos Poços Vermelhos, mantendo as 6 vacas ali, foi devorado e despedaçado às oito horas da manhã pelos lobos carnívoros e eu o enterrei ao meio-dia e quinze. 

Os tristes restos de seu cadáver foram trazidos para a igreja, embrulhados em um avental de mulher e cobertos com suas roupas ensanguentadas. La Beste cortou sua traqueia e artéria e parte de sua bochecha direita, comeu uma coxa separada de seu corpo até o joelho; de modo que o osso dessa coxa, todo corroído pela parte superior, foi arrancado da carne como se tivesse sido propositalmente raspada com uma faca. 

A Besta, para devorar os intestinos, comeu todo o seu estômago e roeu suas costelas. De todas as suas vísceras, restaram apenas cerca de trinta centímetros de tripa e uma pequena parte do baço."

Esse animal formidável se parecia com a "Besta de Gévaudan" em todos os pontos, inclusive comportamental. Como referência, basta tomar conhecimento da relação feita pela padre de Varennes: "Esses animais eram quase como um lobo, só que tinham bocas maiores. Quando viam as pessoas, lisonjeavam como um cachorro e depois pulavam em sua garganta ...".

Drama do passado de turaine por Berbard Briais.

Para a primeira série de ataques, parece ter sido obra de um casal de lobos particularmente agressivos que se confrontaram em sua maioria, com pastores isolados e mulheres idosas.

Besta de Sarlat

Besta Sarlat ou Lobo de Sarlat foi um animal por trás de uma série de ataques contra humanos na região de Perigord, na França do século XVIII.

Na primavera de 1766, uma dúzia de ataques fatais foram registrados nas aldeias ao redor de Sarlat. Um verdadeiro pânico tomou os habitantes daquela região, que começaram a falar de uma fera gigantesca sedenta de sangue humano e de um lobisomem. 

Besta de Sarlat

A besta fez cerca de quinze vítimas antes que os camponeses e os senhores organizassem uma caçada com mais de cem armas em 12 de junho de 1766, durante a qual, o animal foi encontrado e morto. 

Tratava-se de um lobo raivoso (hidrofobia) mas as pessoas não acreditaram nessa explicação e continuaram a acreditar que os ataques teriam sido perpetrados por um lobisomem.

Os interessados ​​no assunto não ignoram, entretanto, que a besta de Gévaudan é apenas a primeira besta na mídia, enquanto que outras bestas devoradoras de homens, todas também vorazes, permaneceram na sombra da história enquanto que em ocasiões, faziam mais vítimas.

A Besta de Gévaudan 


A Besta de Gévaudan foi uma criatura devoradora de homens que aterrorizou a antiga província de Gévaudan (consistindo do moderno departamento de Lozère e parte de Haute-Loire ), nas Montanhas Margeride do centro-sul da França entre 1764 e 1767. 

Os ataques, que cobriram uma área de 90 por 80 quilômetros, teriam sido cometidos por uma ou mais feras com dentes extraordinários ​​e caudas imensas, de acordo com testemunhas oculares contemporâneas. A maioria das descrições do período identifica a besta como um híbrido de lobo, cachorro ou cão-lobo.

As vítimas muitas vezes eram mortas tendo suas gargantas arrancadas. O Reino da França usou uma quantidade considerável de dinheiro e mão de obra para caçar os animais responsáveis, incluindo os recursos de vários nobres, soldados, caçadores reais e civis. 

Descrição

As descrições da época variam e os relatos podem ter sido exagerados devido à histeria pública, mas a besta era geralmente descrita como um canino parecido com um lobo com uma estrutura alta e esguia, capaz de dar grandes passos. 

Tinha uma cabeça alongada semelhante à de um galgo, com a ponta do focinho achatada, orelhas pontudas e uma boca larga assentada sobre um peito enorme. A cauda da besta também era notavelmente mais longa que a de um lobo, com um tufo na ponta. 


O pelo da besta era descrito como marrom-claro ou castanho-avermelhado, mas seu dorso tinha listras pretas e um padrão branco em forma de coração era notado em sua barriga. (Para a descrição detalhada vide o item "O Relatório Marin".)

O início

A Besta de Gévaudan cometeu seu primeiro ataque registrado no início do verão de 1764. Uma jovem chamada Marie Jeanne Vallet, que estava cuidando do gado na floresta Mercoire perto da cidade de Langogne, na parte leste de Gévaudan, quando viu a besta se aproximar dela. Os cães fugiram... No entanto, os touros do rebanho atacaram a fera, a mantendo sob controle. Os touros então revidaram novamente quando o monstro atacou pela segunda vez. Pouco depois, a primeira vítima oficial da fera foi registrada: Janne Boulet, de 14 anos, que foi mortoa perto da vila de Les Hubacs, nas proximidades de Langogne. 

Ao longo do restante de 1764 e 17645, mais ataques foram relatados em toda a região. Logo o terror tomou conta da população porque a besta estava repetidamente atacando homens, mulheres e crianças solitários enquanto cuidavam do gado nas florestas ao redor de Gévaudan. Relatórios observaram que a Besta parecia ter como alvo apenas as regiões da cabeça ou pescoço das vítimas.

No final de dezembro de 1764, começaram a circular rumores de que poderia haver dois animais por trás das mortes. Isso ocorreu porque houve um grande número de ataques em um curto espaço de tempo e porque muitos dos ataques pareceram ter ocorrido ou foram relatados quase que simultaneamente. Alguns relatos contemporâneos sugeriram que a criatura teria sido vista com um outro animal, enquanto outros relatam que a besta estaria acompanhada por seus filhotes.

Registro de alguns ataques da besta

A segunda vítima foi reportada em 8 de agosto de 1764, tinha também 14 anos e vivia na aldeia de Masmejean, paróquia de Puy-de-Laurent. Tanto esta como a outra morreram na cidade de Allier. As seguintes, desde finais de agosto até setembro de 1764, foram assassinadas nos arredores da selva Mercoire.

O administrador da Diócese de Mende, Etienne Lafont, que se encontrava em Marvejols no final de agosto, decidiu enviar a esse lugar alguns caçadores, liderados pelo senhor Mercier, como ajuda devido a que já se aproximavam a Langogne. No entanto, logo Lafont percebeu de que aquelas caçadas eram insuficientes, portanto, advertiu da situação ao senhor de Saint-Priest, ao intendente de Languedoc e ao conde de Montcan, governador da província. É este último quem deu a ordem ao capitão Duhamel, que se encontrava em Langogne com seus dragões, de que levasse a cabo a missão de conduzir as operações para caçar à besta.


No dia 7 daquele mês de agosto de 1764, descobriram que uma jovem fora assassinada no povoado de Apcher, paróquia de Prunières, e sua cabeça só foi encontrada oito dias depois. Ao dia seguinte, um pastor de vacas de 15 anos foi atacado próximo da Fage-Montivernoux. Naquele mesmo dia, a besta atacou a outro pastor, entre Prinsuéjols e o castelo da Baume, propriedade do conde de Peyre. No entanto, o rapaz se refugiou entre suas vacas, para conseguir se esconder da besta. 

Pouco depois, os caçadores que saíam de um bosque próximo perceberam que a besta ainda estava à espreita do jovem. Dois dos caçadores dispararam contra o monstro, que em duas ocasiões caiu e se levantou. Ninguém pôde capturá-lo, de modo que fugiu para o bosque. A caça, que foi organizada para o dia seguinte, também resultou em fracasso. Dois camponeses disseram que haviam visto a criatura sair mancando durante a noite. Assim, pela primeira vez, a besta foi ferida. 

Em outubro de 1764, a besta dirigiu seus ataques ao Sul, sendo a responsável pela morte de María Solinhac, atacada em Brouilhet, na cidade de Hermaux.

O heroísmo de J. Portefaix

Porém, pouco antes da chegada dos d'Enneval, em 12 de janeiro, a besta atacou sete meninos de Villaret, paróquia Chanaleilles. A luta e a coragem dos jovens pastores ficaram demonstrados nos arquivos anuais. 

Desde o aparecimento da besta, foi recomendou a não enviar meninos sozinhos para cuidar do gado. Os rebanhos naquela região eram compostos de vacas e ovelhas. No entanto, os homens estavam com frequência ocupados com o trabalho agrícola. Para evitar a situação vulnerável que se encontravam as crianças, foram formados grupos de jovens para o cuidado dos animais.

Ilustração do combate de J. Portefaix e seus conpanheiros contra a Besta. Bibliothèque nationale, Histoire de France, 1764.


Este é o caso dos sete filhos de Villaret, cinco meninos e duas meninas de oito a doze anos de idade. A besta atacou o grupo, girando em torno dos meninos que ficaram em uma posição defensiva. A criatura se apoderou de um dos garotos mais jovens, mas os outros conseguiram bater na besta com a ajuda de paus, até que o soltou. Mesmo assim, teve tempo de devorar uma parte da bochecha direita de sua vítima. 

Depois voltou ao ataque, elevando a Joseph Panafieu, o mais jovem, pelo braço e tratando de arrastá-lo. Naquele momento, um dos jovens sugeriu que fugissem, enquanto a besta estava ocupada, mas outro, Jacques André Portefaix, disse o contrário. 

A seguir, se apressaram a resgatar o seu desafortunado parceiro, tratando de picar os olhos da besta. Encontraram a forma de fazê-lo e conseguiram que a besta o soltasse. Depois, devido aos gritos, chegou um grupo de homens, mas a besta fugiu para um bosque próximo.

O senhor de Saint-Priest informou ao Sr. Averdy dessa luta e como prêmio pela sua valentia, o  Rei Luís XV se ofereceu para pagar a educação de Jacques Portefaix. Deste modo, em 16 de abril de 1765, Portefaix foi admitido nos "Irmãos da Doutrina Cristã", de Montpellier. Ali permaneceu até novembro de 1770, data na qual entrou para a Escola Real de Artilharia de Corps. Depois, se converteu em tenente com o nome de Jacques-Villaret, e morreu em 14 de agosto de 1785, à idade de 32 anos.

O heroísmo de Jeanne Jouve 

Naquele mês de março foi ouvido o depoimento da luta heroica de Jeanne Jouve por salvar a seus filhos. Jeanne Chastang, a esposa de Pierre Jouve vivia em Vessière (St. Albans). Em 14 de março de 1765, ao meio dia, se encontrava fora de sua casa com três de seus filhos. De repente, alertada por um ruído, percebeu que sua filha de 9 anos de idade acabava de ser capturada pela besta, a qual havia saltado por cima de um muro. Ao ver isto, Jeanne Jouve se lançou sobre a besta e com socos e pontapés, conseguindo que fazer com que o monstro soltasse a sua filha.

A besta então, investiu contra à mais jovem de seus filhos, uma menina de catorze meses, mas não conseguiu pegar a menininha porque a mãe a protegeu. Depois, a besta se lançou sobre o outro menino, Jean-Pierre, de 6 anos e o agarrou pelo braço. Jeanne Jouve se lançou novamente sobre a besta. A isso seguiu uma longa batalha, onde Jeanne Jouve foi lançada ao solo repetidas vezes, entre arranhões e mordidas. 

Gravura publicada em 1840 no Journal dês chasseurs. Ilustração do combate de Jeanne Jouve.


A besta ainda com Jean-Pierre entre seus dentes, se preparava para escapar, foi quando os dois irmãos maiores que se preparavam para levar às ovelhas a pastar, apareceram e foram capazes de libertar o seu irmão menor e a besta fugiu. 

No entanto, Jean-Pierre, não resistiu aos graves ferimentos e sucumbiu várias horas depois. Como recompensa pelo seu ato heroico, Jeanne Jouve recebeu 300 libras como gratificação por parte do rei.

Ferida de morte?

Em 1 de maio de 1765, a besta se encontrava próxima do bosque de Rechauve, entre o Malzieu San Alban. Enquanto se preparava para atacar a um jovem pastor, eis que um irmão Marlet, da aldeia da Chaumette, localizada ao sudeste de St. Alban, viu desde a besta da janela de sua casa a uns 200 metros de distância. A seguir, advertiu aos seus dois irmãos e a todos os que estivessem dispostos a se armar, para sair da casa. 

A besta teria recebido dois disparos e teria caído, mas ainda ferida, conseguiu escapar. No dia seguinte, o caçador d'Enneval, foi ao lugar e seguiu o rastro, em companhia de vinte homens. Todo mundo pensou que a besta havia sido ferida de morte, mas a notícia de que uma mulher havia sido atacada e morta naquela tarde na paróquia de Venteuge, trouxe eles de volta à realidade.

Em 12 de janeiro de 1765, Jacques Portefaix e sete amigos foram atacados pela besta. Depois de vários ataques, eles afastaram o monstro, ficando agrupados. O encontro acabou chamando a atenção do Rei Luís XV, que concedeu 300 libras a Portefaix e outras 350 libras para serem compartilhadas entre seus companheiros. O rei também ordenou que Portefaix fosse educado às custas do estado. Ele então decretou que o estado francês ajudaria a encontrar e matar a fera.

Marie-Jeanne Valet - A donzela de Gévaudan 

No domingo 11 de agosto de 1765, foi organizada uma grande caçada. No entanto, essa data não está na história por esse fato, mas sim, pela façanha obtida pela "Dama de Gévaudan". Marie-Jeanne Valet, de 20 anos, servente do padre de Paulhac. 

Ela tomou prestada, junto com outras camponesas, uma escadinha para cruzar um pequeno rio, mas imediatamente, elas foram atacados pela besta. As outras retrocederam, mas a besta se lançou sobre Marie-Jeanne. 

Monumento em Auvers que representa o combate de Marie-Jeanne Valet.


Então, ela cravou sua lança no peito da fera que caiu no rio e desapareceu no bosque. A história chegou rapidamente a Antoine d'Enneval, quem foi ao local para ver a lança que estava coberta de sangue, e que os restos encontrados fossem similares aos da besta. 

Em uma carta dirigida ao ministro ele a chama de "A Donzela de Gévaudan".

NDT. Um detalhe que quase sempre fica de fora de artigos como este, é que Marie-Jeanne Valet teria tido parte de suas roupas rasgadas pela besta, e ela estaria com os seios de fora no momento em que cravou a lança.

Intervenção real - A caçada

O primeiro capitão Boulanger Duhamel dos dragões Clermont Prince (Luís de Bourbon, Conde de Clermont) e suas tropas logo foram enviados a Gévaudan. Ainda que extremamente zeloso em seus esforços, a falta de cooperação por parte dos pastores e fazendeiros locais impediu os esforços de Duhamel. Em várias ocasiões, quase atirou na fera, mas foi prejudicado pela incompetência de seus guardas.

A Besta de Gévaudan




Quando Luís XV concordou em enviar dois caçadores de lobos profissionais, Jean Charles Marc Antoine Vaumesle d'Enneval e seu filho Jean-François, o capitão Duhamel foi forçado a renunciar e retornar ao seu quartel-general em Clermont-Ferrand. Cooperar com o caçador d'Enneval era impossível, pois os dois diferiam muito em suas estratégias; Duhamel organizou expedições de caça aos lobos, enquanto que d'Enneval e seu filho acreditavam que a fera só poderia ser abatida com técnicas furtivas. 

Pai e filho d'Enneval chegaram a Clermont-Ferrand em 17 de fevereiro de 1765, trazendo com eles oito cães de caça que haviam sido treinados na caça de lobos. Nos quatro meses seguintes, a dupla caçou lobos eurasianos, acreditando que um ou mais desses animais era a besta. No entanto, quando os ataques continuaram, os D'Ennevals foram substituídos em junho de 1765 por François Antoine, único portador de arcabuz do rei e tenente de caça.

O primeiro abatido era um grande lobo cinzento...

Um lobo diferente...

Em 20 ou 21 de setembro de 1765, Antoine matou um grande lobo cinzento medindo 80 cm de altura, 1,70 m de comprimento e pesando 60 kg. A carcaça do animal recebeu o nome de Le Loup de Chazes em homenagem ao vizinho Abbaye des Chazes, era considerado muito grande para um lobo. Antoine declarou oficialmente: 

"Declaramos pelo presente relatório assinado por nossas mãos, nunca vimos um grande lobo que pudesse ser comparado a este. Por isso, acreditamos que este possa ser o animal terrível que causou tantos danos." 

O animal foi posteriormente identificado como o culpado pelos sobreviventes do ataque, que reconheceram as cicatrizes em seu corpo infligidas pelas vítimas que se defendiam. 

A primeira besta (lobo de Chazes) empalhada e em exibição perante o Rei Luís XV.

O lobo foi empalhado e enviado para Versalhes, onde o filho de Antoine, Antoine de Beauterne, foi saudado como um herói. Antoine ficou na floresta de Auvergne para perseguir a parceira da fera e seus dois filhotes adultos. Antoine conseguiu matar a loba e um filhote, que já parecia maior do que sua mãe. Ao exame do filhote, parecia ter um conjunto duplo de ergôs*, uma malformação hereditária encontrada na raça de cães Pastor-de-beauce (Bas-Rouge ou Beauceron). 

*NDT. Ergô = é conhecido em alguns lugares do Brasil como "unha-perdida" presente em alguns cães ditos "bons de caça".

Mais de uma besta?


O outro filhote foi baleado e acreditaram que teria morrido enquanto recuava por entre as rochas. Antoine voltou a Paris e recebeu uma grande quantia em dinheiro (mais de 9.000 libras), assim como fama, títulos e prêmios.

...mas não era verdadeira Besta de Gevaudán.

No entanto, em 2 de dezembro daquele ano, dois meninos foram atacados, um de 6 e um de 12 anos, sugerindo que a fera ainda estava viva. A besta tentou capturar o mais jovem, mas foi combatido com sucesso pelo menino mais velho. 

A Besta de Gévaudan

Logo depois, outros ataques fatais se seguiram e alguns dos pastores testemunharam que dessa vez, a besta não demonstrava medo algum em torno do gado. Mais uma dúzia de mortes ocorreram após ataques perto de La Besseyre-Saint-Mary.

Últimos ataques - A Besta de Chastel

A morte da criatura que acabou marcando o fim dos ataques é creditada a um caçador local chamado Jean Chastel, que atirou nela nas encostas do Mont Mouchet (agora chamada de la Sogne d'Auvers) durante uma caçada organizada por um nobre local, o marquês d'Apchier, em 19 de junho de 1767. 

Abbé Fabre reimprimiu o relato juramentado que dizia que Jean Chastel atirou na criatura com uma bala de grande calibre e combinação de chumbo grosso, feita por ele mesmo com prata, já que o caçador acreditava piamente que a besta era na verdade um lobisomem. Chastel atirou duas vezes e uma das balas atingiu em cheio o coração da besta.


A carcaça dessa segunda criatura foi então levada para o castelo do Marquês de Apchier, onde foi empalhada pelo Dr. Boulanger, um cirurgião de Saugues. O relatório post-mortem do Dr. Boulanger foi transcrito pelo tabelião Marin e é conhecido como o "Relatório Marin" sobre a besta. 

O relatório Marin

Este documento, escrito no castelo de Besques por Maître Marin, tabelião real, em 20 de junho de 1767, um dia após a morte da besta morta por Jean Chastel na sogne d'Auvers, foi encontrado pela Sra. Elise Seguin apenas em 1958 nos Arquivos Nacionais (pacote F 10-476, fundo agrícola, destruição de animais nocivos). Esse documento, ainda que levante questões, desvenda parte do mistério da besta.

"Hoje, vigésimo dia do mês de junho de mil setecentos e sessenta e sete, nós Roch Etienne Marin notário real, Bailly da Abadia Real de Chazes, St Arcons, do Baronato de Prades, Besques de Charraix, escrivão na subdelegação de Langeac, para o agrado do Monsenhor de Ballainvilliers, Intendente desta província de Auvergne, na ausência do Senhor Subdelegado, pelo que soubemos que o Senhor Marquês de Pchier, muito ocupado com a terrível devastação que tem há vários anos perpetrado uma besta feroz nas divisas desta província de Auvergne e de Gévaudan, por cujo aniquilamento foram feitas infinitas caçadas, mas sem sucesso, e que finalmente esta fera apareceu novamente na freguesia de Nozeyrolles e na freguesia de Desges no dia dezoito deste mês e devorou ​​uma criança nesse mesmo dia, o Marquês d'Apchier teria sido avisado e teria partido nesse mesmo dia, dezoito deste mês, às onze horas da noite, com alguns caçadores da sua casa e alguns outros de suas terras que ele montou às pressas, sendo doze ao todo. 

Tendo se transportado para a sua floresta na montanha de Margeride, postado sua gente, passado esta floresta e depois a do Sr. Marquês de Pons, este animal feroz apareceu às dez e quinze da manhã de ontem, dezenove do presente, a um desses caçadores chamado Jean Chastel do lugar e paróquia de Besseyre, que disparou um tiro neste animal do qual ele caiu morto na orla da floresta chamada Tenazaïre, na paróquia de Nozeyrolles. 

Tendo o senhor Marquês de Apchier mandado transportar este animal para o seu castelo em Besques, freguesia de Charraix, julgamos oportuno ir até lá para o verificar. E estando no castelo de Besques, o Marquês de Apchier nos apresentou este animal que nos parecia um lobo, mas extraordinário e muito diferente na sua face e nas suas proporções dos lobos que vemos neste país. Mais de trezentas pessoas de todas as partes que vieram vê-lo nos disseram isso. 

Vários caçadores e muitas pessoas conhecedoras realmente nos indicaram que esse animal só se parece com o lobo pela cauda e pela retaguarda. Sua cabeça, como se verá nas seguintes proporções, é monstruosa; seus olhos possuem uma membrana peculiar que começa na parte inferior da órbita, vindo a critério do animal, cobrir o globo ocular. Seu pescoço é coberto por uma espessa cabeleira cinza-avermelhada, atravessada por algumas faixas pretas; tem uma grande marca branca em forma de coração no peito. 
Suas patas têm quatro dedos armados com unhas grandes que se estendem muito mais que as dos lobos comuns, tais unhas, assim como as patas que são muito grandes, principalmente as da frente, da cor das do veado. Isso nos pareceu uma observação notável porque, na opinião desses mesmos caçadores (palavra frisada no texto), pessoas conhecedoras e de todos os caçadores, lobos nunca foram vistos nessas cores. Também pareceu apropriado observar que suas costelas não se assemelham às do lobo, o que dava a este animal a liberdade de se virar facilmente, enquanto as costelas dos lobos sendo colocadas obliquamente não lhe permitem essa facilidade.

A mandíbula superior é guarnecida com seis dentes incisivos, sendo o sexto mais longo que os outros. Duas fileiras grandes afastadas dos incisivos e com 3,6 cm  de altura, com diâmetro de 1,3 cm, três dentes molares, um dos quais é bastante pequeno e dois grandes, um quarto molar maior que os outros e ao qual o quinto e penúltimo molar está quase unido, o qual é dividido em duas partes, uma das quais se estende perpendicularmente e a outra se estende horizontalmente no interior do palato e, finalmente, um sexto molar.

A mandíbula inferior é guarnecida com vinte e dois dentes: a saber, seis incisivos e de cada lado uma tanga semelhante aos superiores, sete molares: os primeiros muito pequenos e distantes da fileira, os três seguintes são maiores e semelhantes ao segundo e a terceiro molar superior, o quinto maior e mais longo é dividido em três partes das quais a anterior é menos longa, o sexto bastante grande tem duas eminências anterior e lateral, o sétimo é muito pequeno e quase igual.

Medidas da besta

Aqui estão algumas das dimensões da besta:

Comprimento da raiz da cauda ao topo da cabeça - 99  cm
Do topo da cabeça até entre os dois grandes ângulos dos olhos - 16,2  cm
Largura de orelha a orelha - 18,9  cm
Abertura da boca - 18,9  cm
Largura horizontal do pescoço - 23  cm
Largura do ombro - 29,7  cm
Largura da raiz da cauda - 23  cm
Comprimento da cauda - 21,6  cm 
Diâmetro da cauda - 9,5  cm
Comprimento da orelha - 12,2  cm
Largura da testa abaixo das orelhas - 16,2  cm
Comprimento do úmero - 22,5  cm
Comprimento do antebraço - 21,6  cm
Comprimento da mandíbula - 16,2  cm
Largura do nariz - 4  cm
Comprimento da língua a partir da raiz - 37,9  cm
Largura dos olhos - 3,4  cm
Largura da cabeça - 18,9  cm
Pernas traseiras da primeira à segunda junta - 19,4  cm
Da segunda à terceira junta até as unhas - 27  cm
Largura da perna - 12,2  cm
Da terceira junta à ponta da pata - 16,2  cm

Notamos uma ferida de 0,7 cm abaixo da articulação da coxa direita tanto interna quanto externamente e atingida com três chumbinhos. Nos foi assegurado que essa lesão deve ter sido a que foi infligida por Sieur de Lavédrine, escudeiro, por uma espingarda disparada há cerca de dois anos, mais outra velha ferida na coxa esquerda perto da articulação e mais uma velha ferida acima da pálpebra do olho esquerdo que parece ter sido feita por um instrumento afiado. Por fim, esse animal recebeu o golpe mortal com um tiro que perfurou o seu pescoço, cortou a traqueia-artéria e partiu seu ombro esquerdo.

Testemunhas que identificaram a verdadeira besta

Sobre o número de habitantes do campo aqui reunidos, o daqui em diante nomeados, reconheceram esse animal e asseguraram ser o mesmo que causou tantos estragos.

Pierre Aret de Servillanges, freguesia de Venteuges, disse que, na primavera de 1766, disparou o tiro de espingarda acima mencionado na perna esquerda.

Jean Pierre Loudes de la Veysseyre, freguesia da vila de Saugues, de 22 anos, disse que fez com que essa fera deixasse de segurar uma rapariga da aldeia de Sauzet na primavera de 1766, a cuja fera ela atingiu com uma baioneta.

Joseph Regourd, Jean Jacques Laurent e Baptiste Lonjon de Servillanges disseram que a fizeram abandonar o chamado Guillaume Barthélémy que ela havia surpreendido enquanto ele cuidava do gado.

François Laurent, de Vacheresse, freguesia de Venteuges, 32 anos, disse ter sido atacado por essa fera há cerca de três semanas.

Joseph Chassefeyre da localidade de Fraisse, freguesia de Chanaleilles em Gévaudan, disse que foi atacado por esse animal há um ano. A besta parou seus bois atrelados a uma carroça e ele teve grande dificuldade em se defender ainda que armado com uma picareta.

Antoine Plantin, de Servières, freguesia de Saugues, 40 anos disse que é o mesmo animal que lhe tirou a filha em 2 de Março, que a perseguiu a cerca de quinhentos passos, a perdeu de vista em um bosque e a sua filha foi devorada.

Barthélémy Simon de Servières, freguesia de Saugues, 22 anos, disse ser o mesmo animal que o atacou em uma pastagem no passado mês de Setembro e contra o qual disparou uma arma.

Laurent Vidal de Servières, de 17 anos, disse que esse mesmo animal o havia atacado em dois dias diferentes no passado mês de Maio, que felizmente estava armado com uma baioneta, caso contrário teria morrido. Acrescentou ter visto esse mesmo animal em um pasto cerca de quinze dias antes enquanto devorava o filho de Jacques Meyronneinc.

Antoine Laurent, de Servières, de 12 anos, disse que foi atacado por essa fera há um mês e que sem a ajuda de um homem ele teria morrido.

Jean Bergougnoux, da quinta de Montchauvet, freguesia de Saugues, de 48 anos, nos disse que essa fera é a mesma que devorou ​​um menino de nove anos em março de 1766, que ele perseguia por muito tempo, mas inutilmente. Ele acrescentou que essa besta o atacou em março passado, que ele teria sido devorado se não estivesse armado com uma pá.

Anne Chabanel de Viallevieille, freguesia de Saugues, de 17 anos, disse que essa mesma fera a atacou em Agosto de 1766 e que ela desferiu vários golpes de baioneta em vão.

Marguerite Dentil, de Viallevieille, 32 anos, disse que essa fera a atacou sua última quaresma e que sem o machado com que estava armada teria morrido.

Marie Reboul de la Veysseyre, 19, disse que era a mesma fera que a atacou na sua última quaresma e nos mostrou três feridas que ela sofreu acima do músculo em seu braço direito e outra de 16,2 cm de comprimento do topo do parietal na parte de trás da bochecha e arrancou a sua orelha. A cicatrização ainda não terminou.

Jean Chassefeyre de la Veysseyre, freguesia de Saugues, 44 anos disse que essa fera é a mesma que devorou ​​a dita Marie Reboul e que foi ele quem a enxotou.

Elisabeth Molhérat de la Veysseyre, de 28 anos, disse que foi a mesma besta que devorou ​​a dita Marie Reboul, em cujo auxílio ela correu com Jean Chassefeyre referenciado acima.

Antoine Dentil de la Veysseyre, de 14 anos, disse que foi atacado por essa mesma fera em um bosque no dia seis deste mês e que lhe desferiu vários golpes de baioneta.

Catherine Freycenet de la Veysseyre, 42 anos, disse que foi atacada por essa fera em julho de 1766.

Pierre Combeuil de la Veysseyre, de cerca de 22 anos, disse que viu essa fera há dois anos segurando uma criança de oito anos que ela havia abatido e que teria devorado sem que o pai da criança pudesse fazer nada.

Jean Teyssèdre da localidade de Meyronne, freguesia de Venteuges, de 29 anos, disse ter sido atacado duas vezes por esse mesmo animal em um intervalo de 18 meses.

Jean-Pierre Guilhe du Rouve, freguesia de Venteuges, 40 anos, disse que foi mordido por essa mesma fera na anca esquerda há dois anos.

Barthélémy Moussier de Mourennes, freguesia de Venteuges, de 15 anos, disse que foi perseguido por esse mesmo animal no dia 5 deste mês.

Jean-Baptiste Bergougnoux, de Vachellerie, freguesia de Paulhac en Gévaudan, disse que foi atacado por essa mesma fera duas vezes no passado mês de Maio.

Antoine Veyrier de Pompeyreinc, freguesia de Besseyre em Gévaudan, disse que foi atacado por essa fera no dia 5 deste mês.

Jean Bourrier do lugar de Pompeyreinc, de 12 anos, disse que estando em uma árvore, essa mesma fera vinha ao encalço de outra criança de sua idade, que correu para lá com um homem que por acaso estava por perto. E que essa besta, se vendo perseguida, fugiu às pressas.

Barthélémy Dentil de Septsols, freguesia de Besseyre, 50 anos, disse que essa mesma fera o teria atacado três vezes em um bosque no mesmo dia, em Abril passado e que a besta fez todos os esforços para raptar uma criança que estava ao lado dele.

Jacques Pignol, de Pontajou, freguesia de Venteuges, de 57 anos, disse que essa mesma fera, no passado mês de Maio, veio atacá-lo em uma campina e queria raptar um dos seus filhos que tinha nos braços.

Todo esse grande número de habitantes nos atestou que a devastação desse animal foi tão terrível que, desde as últimas celebrações da Páscoa, teria devorado, em diferentes locais nas divisas de Gévaudan e Auvergne, pelo menos vinte e cinco pessoas. 

Todas as manifestações acima foram feitas, citadas e proporções traçadas, pelo mestre Antoine Boulangier e Court - Damien Boulangier, mestres em artes cirúrgicas habitante da cidade de Saugues, na presença do Sr. Jean-Baptiste Aiguillon de Lamothe, médico habitante da vila de Saugues, na dissecação desse animal. Foi notado que a cabeça, deixava um vazio nas laterais, imitando perfeitamente a proa de uma embarcação e foi tirado do se estômago um osso que disseram ser a ponta do fêmur de uma criança. Eles também nos indicaram que esse animal têm seus olhos de um vermelho-cinábrio.

E nós, tendo solicitado a Monsieur le Marquis d'Apchier e Monsieur le Comte d'Apchier seu pai, se queriam esse animal nas mãos e sob a carga do Sieur Desgrignard brigadeiro da polícia de Langeac aqui presente, em nossa requisição com dois os cavaleiros de sua brigada, a serem enviados ao Monsenhor de Ballainvilliers, intendente desta província, os Srs. o Conde e o Marquês de Apchier responderam que Monsenhor de Ballainvilliers não estava atualmente em Clermont e que consideraram aconselhável manter esse animal e eliminá-lo les próprios da maneira mais adequada.

De tudo isso, lavramos a presente ata em quatro exemplares que assinamos com os referidos Sieurs de Lamothe, Boulangier e o referido Sieur Desgrignards e deixamos duas ao Marquês d'Apchier que as solicitou e uma terceira antes de ser enviada a Monsenhor de Intendente de Ballinvilliers.

Feito no referido dia e ano de 20 de junho de 1767."

NDT: Reza uma lenda que as carcaças empalhadas, se decompuseram em menos de 2 anos devido a que as entregaram nas mãos dos taxidermistas já em processo de putrefação. Não havia refrigeração na época. O que restou dos espécimes empalhados teriam sido incinerados.

Possibilidades

De acordo com estudiosos modernos, a histeria pública na época dos ataques contribuiu para a disseminação de mitos de que bestas sobrenaturais vagavam por Gévaudan, mas as mortes atribuídas a uma fera eram mais provavelmente obra de vários lobos ou matilhas de lobos. 

Em 2001, o naturalista francês Michel Louis propôs que o mastim de cor vermelha (Dogue-de-bordéus ou mastim francês) pertencente a Jean Chastel gerou a besta e sua resistência a balas pode ter sido devido a ele usar a pele blindada de um jovem javali, portanto, também contabilizando a sua cor incomum. 

Os ataques de lobos foram um problema muito sério durante a época, não apenas na França, mas em toda a Europa, com dezenas de milhares de mortes atribuídas a lobos apenas no século 18. 

Em 1765, em Soissons, um homem matou um logo com um forcado.

Na primavera de 1765, no meio da histeria de Gévaudan, uma série de ataques não relacionados ocorreu perto da comuna de Soissons, a nordeste de Paris, quando um lobo matou pelo menos quatro pessoas em um período de dois dias antes de ser rastreado e morto por um homem armado com um forcado, uma ferramenta agrícola. Tais incidentes eram bastante típicos em partes rurais da Europa Ocidental e Central.

Relatório Marin descreve a criatura como um lobo de proporções extraordinariamente grandes. Uma das primeiras hipóteses, avançou no momento dos acontecimentos, já que quem viu à besta a qualificou de animal exótico. 

Hiena?

Guy Crouzet sugeriu isso com prudência, além de que Gérard Mématory emitiu a hipótese de que esta hiena teria estado acompanhada, associando o animal exótico com a intervenção humana.

Efetivamente foi: Uma besta feroz, desconhecida no ambiente. O animal com mais frequência considerado seria a hiena que escapou da famosa feira de Beaucaire. 

Cogitaram que teria sido uma hiena.

Para reforçar a hipótese da hiena é que esta aparece em um pequeno fascículo que foi publicado em 1819 e vendido no Jardim das Plantas de Paris. Este fascículo anunciava a uma hiena trazida do oriente: 

"Este animal feroz e indomável é colocado na classe do lobo-cerval; ele mora no Egito, ele caminha pelas tumbas para rasgar os cadáveres; de dia ataca e devora homens, mulheres e crianças. Ele usa uma juba nas costas, barrada como o tigre real; esta é da mesma espécie que se vê no gabinete de História Natural e que devorou, em Gévaudan, grande quantidade de gente".

Apesar da interpretação amplamente aceita, baseada na maioria das pesquisas históricas, de que a besta era um lobo ou outro canídeo selvagem, várias hipóteses alternativas foram propostas, como um hipotético leão.

Mas muitos outros animais foram citados como sendo a Besta, como o carcaju (ou Glutão) ou um tigre. Também são sugeridos: um grande macaco da família dos cinocéfalos (como o babuíno) ou mesmo um urso. O autor Marc Saint-Val evoca, em seu ensaio La Malebête du Gévaudan, um ou mais tilacinos (Tigre-da-tasmânia), um marsupial carnívoro australiano importado para a França da Oceania.

Com base em certas descrições, seguidores da criptozoologia se perguntam se a besta não teria sido um dos últimos sobreviventes da mesonychia (Mesoniquídeo), uma espécie de "lobo com cascos", que desapareceu no Oligoceno superior (há cerca de 36 milhões de anos a 23 milhões de anos). 

"lobo com cascos" - Mesoniquídeo


Em 2017, o escritor Pierric Guittaut formulou a remotísisima hipótese de um "lobo -lince" resultante de uma hibridização com Canis dirus (Lobo-pré-histórico, lobo-terrível), um canino pré-histórico cujas características físicas correspondem às descrições da Besta.

Canis dirus Leidy, 1858 - esqueleto fóssil de lobo-terrível do Pleistoceno da América do Norte. (exibição pública, Museu de História Natural Sternberg, Hays, Kansas, EUA)

Hienodonte

Também foi proposto a remotíssima possibilidade da besta ter sido um Hienodonte, um gênero extinto de Hyaenodontes, um grupo de Creodontes carnívoros da família Hyaenodontidae, endêmicos em todos os continentes exceto América do Sul, Austrália e Antártida. Apareceram no Eoceno, há 42 milhões de anos e desapareceram no início do Mioceno, há 15.9 milhões de anos.

Representação artistica do Hienodonte.

No entanto, a ideia de que um animal tão grande pudesse escapar da detecção por milhares a milhões de anos é muito implausível.

Um sádico louco

O doutor Puech, ginecologista da faculdade de medicina de Montpellier avançou com essa hipótese em 1911. Segundo ele, os cadáveres abandonados pelo suposto sádico-maníaco-sexual teriam sido carcomidos pelos lobos. A presença de mistificadores cobertos por peles de lobo teria mantido a ideia de uma besta que "nunca existiu193".



Puech torna-se assim, o primeiro autor contemporâneo a apoiar a teoria do envolvimento humano no caso da Besta de Gévaudan, evocando assassinos que supostamente deixaram suas marcas bem humanas nas vítimas decapitadas assim como na encenação macabra composta por corpos encontrados nus e suas roupas "espalhadas" pelos caminhos.

De fato, figura em uma carta de Lafont de Saint-Priest:

"A mãe, esteve neste prado onde encontrou as roupas do menino sobre o caminho. Foi se informar a seu marido que, com a gente do povoado, correu toda a noite para fazer investigações e se encontraram à ponta do dia suas roupas num campo com um pedaço da camisa mas nunca pôde descobrir o cadáver. De noite, encontraram o cadáver, o qual estava totalmente nu."

Artimanhas similares são descritas por Antoine de Beauterne no processo verbal regido em 9 de setembro de 1765:

"Uma rapariga de 12 anos foi achada ontem pela noite, na Vachèlerie de Paulhac, encontramos uma parte de sua prenda de vestir totalmente rasgada e junto a ela um grande derramamento de sangue. Mais acima encontrou-se uma parte de suas anáguas totalmente deterioradas pelas dobras. Bem mais acima, no brejo, encontrou-se o cadáver dessa rapariga."

Esta hipótese responde de igual forma sobre os muitos casos de decapitações. Segundo o autor Michael Louis: "É uma aberração achar que um animal decapite suas vítimas. Desde um ponto de vista nutricional, a cabeça de um homem não seria uma das partes mais interessantes". Um total de 14 vítimas foram encontradas decapitadas. Entre estas, a jovem Agnés Mourgues:

"Em 21 de dezembro de 1765, uma rapariga de 11 anos, Agnès Mourgues de Marcillac, foi degolada e devorada. Encontrou-se ali sua roupa em pedaços e seu pequeno corpo nu, como se ela acabasse de nascer e terrivelmente mutilada: a cabeça separada do corpo; o pescoço, os ombros, o peito devorados, assim como a panturrilha de uma perna".

Cabe recalcar que nenhum escrito relata que um habitante de Gévaudan tenha visto à besta decapitar uma de suas vítimas. Segundo Gérard Ménatory, os casos de degolamento humano pelos animais existem. Mas quase nenhum caso de decapitação pode ser revelado. Nem a mandíbula de um lobo seria suficiente para fazer isto. 

Em 1962, Marguerite Aribaud-Farrère publicou um livreto, La Bête du Gévaudan, no qual acusava um sádico de ter cometido os assassinatos fingindo ser um lobisomem. Ela afirma que o criminoso, que se chamava "messire", teria vindo de "uma velha e poderosa família do sul da França". Na época, um de seus descendentes "tocou um tanto no poder". Em 1972, Alain Decaux adotou essa teoria para um programa de televisão e um artigo publicado na revista Historia.

Pacto com lobos - 2001

.

O número de vítimas difere de acordo com a fonte, mas um estudo de 1987 estimou que houve 610 ataques, resultando em 500 mortes e 49 feridos; 98 das vítimas mortas foram parcialmente comidas. Outras fontes afirmam que o animal ou animais, mataram entre 60 e 100 adultos e crianças e feriram mais de 30. A besta foi relatada como morta várias vezes antes que os ataques finalmente cessassem.

Tradução&Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

https://www.smithsonianmag.com/history/beast-gevaudan-terrorized-france-countryside-180963820/

https://www.forbes.com/sites/davidbressan/2017/06/28/terror-and-geology-the-beast-of-gevaudan/?sh=7f97778522c4

https://archive.org/details/monstersofgevaud0000smit

https://blog.nationalgeographic.org/2016/09/27/solving-the-mystery-of-the-18th-century-killer-beast-of-gevaudan/

https://www.loupsdugevaudan.com/decouvrir-les-loups/la-bete-du-gevaudan/#lightbox['La%20B%C3%AAte%20du%20G%C3%A9vaudan']/2/

https://fr.wikipedia.org/wiki/B%C3%AAte_du_G%C3%A9vaudan

https://betedugevaudan43.skyrock.com/781039285-Marie-Jeanne-Valet.html

https://touraine-insolite.clicforum.fr/t95-La-Bete-de-Benais.htm

http://web.archive.org/web/20150609110630/http://www.labetedugevaudan.com/pages/bete_sarlat.html

http://archive.wikiwix.com/cache/index2.php?url=http%3A%2F%2Fshoes.club.fr%2Frapport_marin.htm

https://books.google.com.br/books?id=muhZDwAAQBAJ&pg=PT241&lpg=PT241#v=onepage&q&f=false