12 de abril de 2020

Caso Gloria Ramirez: A Mulher Mais Tóxica da História



Em 1994, após uma mulher chamada Gloria Ramires dar entrada num hospital nos EUA, vinte e três pessoas passaram mal e cinco precisaram ser hospitalizadas. Logo foi divulgado que Gloria liberava uma fumaça tóxica, que infectou as pessoas. O que aconteceu naquele dia no hospital? O que se sabe é que esse o único caso até hoje registrado com essas características no mundo...

Assombrados, esse foi o tema vencedor na enquete que fiz com os membros do canal assombrado alguns dias atrás. A história é muito interessante, e nunca tinha ouvido falar. Você pode ver aqui a transmissão ao vivo que fiz estudando esse material. Vamos agora entender esse mistério chamado Glória Ramirez...

O Começo da Tragédia

Glória Ramírez era uma mulher de 31 anos com dois filhos. Ela padecia de um câncer cervical em fase terminal. No entanto, sua vida piorou ainda mais na noite de 19 de fevereiro de 1994, quando foi transladada de urgência ao Hospital Geral Riverside, em Riverside, Califórnia, EUA.

Uma vez dada entrada, informaram aos médicos sobre os batimentos cardíacos irregulares e a dificuldade para respirar. Enquanto a levavam ao hospital, os paramédicos forneceram a ela oxigênio e injetaram medicamentos intravenosos.

Naquele momento em que Glória Ramírez foi atendida pelos médico, ela se encontrava semiconsciente, com fala ininteligível, respiração fraca e o coração acelerado. Para aliviar esses sintomas, a equipe médica decidiu injetar uma mistura de medicamentos de ação rápida, incluindo sedativos e substâncias para reduzir os batidos cardíacos.

Apesar dos esforços, o quadro de Glória não melhorou e os médicos tiveram que lançar mão do desfibrilador (equipamento eletrônico cuja função é reverter um quadro de fibrilação auricular ou ventricular através de uma corrente elétrica no paciente). Nesse momento, vários dos presentes notaram um brilho oleoso que cobria o corpo da paciente, ao mesmo tempo que percebiam um cheiro frutado que lembrava alho, que pensaram emanar da boca de Glória.


Para obter sangue para análise, uma enfermeira chamada Susan Kane esfregou o braço direito de Ramirez com álcool, inseriu um cateter e anexou uma seringa. E foi aí que a rotina frenética e ordeira da sala de emergência começou a desmoronar. Quando a seringa encheu, Kane notou um cheiro químico no sangue. Kane entregou a seringa a a fisioterapeuta Maureen Welch e se inclinou para mais perto da mulher que estava morrendo para tentar rastrear a fonte do odor, que parecia amônia. Ela passou a seringa para Dr. Julie Gorchynski, uma médica residente que notou partículas incomuns da cor de manila (amarelado) flutuando no sangue - uma observação ecoada por outro profissional do hospital, Humberto Ochoa,

Julie Gorchynski, dando uma entrevista durante
o período que ficou hospitalizada.
Kane virou-se para a porta da sala de trauma e balançou. Pegue ela! alguém gritou. Ochoa se lançou em direção a Kane, a pegou e gentilmente guiou seu corpo mole ao chão. Kane disse que seu rosto estava queimando, e ela foi colocada em uma maca e retirada do trauma. Gorchynski também começou a se sentir enjoada. Reclamando que estava tonta, saiu da sala de trauma e sentou-se à mesa de uma enfermeira. Um membro da equipe perguntou a Gorchynski se ela estava bem, mas antes que ela pudesse responder, ela caiu no chão. Agora ela era a segunda integrante da equipe de emergência de Riverside sendo levada para longe da sala de trauma em uma maca. Gorchynski tremia intermitentemente; repetidamente, ela parava de respirar por alguns segundos, respirava algumas vezes e depois parava de respirar novamente - uma condição conhecida como apneia. Enquanto isso, de volta ao primeiro trauma, Welch se tornou a terceira a sucumbir. Lembro-me de ouvir alguém gritar, diz Welch. Então, quando acordei, não consegui controlar os movimentos dos meus membros.

Glória Ramirez


Sangue Tóxico

Humberto Ochoa estava tralhando na emergência
e ajudou a socorrer as pessoas que passaram mal.
O próprio acabou não sofrendo nenhum sintoma.
Após o colapso de Welch, vários outros funcionários começaram a dizer que se sentiam doentes e os administradores do hospital declararam uma emergência interna. Ochoa ordenou que a equipe evacuasse todos os pacientes da sala de emergência para o estacionamento do hospital. Uma equipe mínima ficou para trás para ajudá-lo em uma luta desesperada para salvar a vida de Ramirez. Sua pressão sanguínea continuou a cair e seu pulso estava ficando mais fraco. Ochoa e outros três administraram repetidamente choques elétricos e drogas, mas seus esforços para estabilizar Ramirez falharam. Às 20h50, Ochoa declarou-a morta. Dois membros da equipe transferiram o corpo para uma ante-sala de isolamento adjacente ao trauma.

Do lado de fora, no estacionamento, a equipe do hospital tratava pacientes e colegas doentes sob o brilho alaranjado das lâmpadas de enxofre. Por causa da preocupação de que o pessoal atingido tivesse sido derrubado por um produto químico nocivo, eles foram despidos para a roupa de baixo e suas roupas foram embrulhadas em sacos plásticos. Gorchynski continuou a sentir tremores e apneia. Kane agitou os braços, e seu rosto ainda ardia. Enquanto isso, Sally Balderas, uma enfermeira profissional que havia voltado para dentro para ajudar a levar o corpo de Ramirez para a sala de isolamento, começou a vomitar e sentiu uma sensação de queimação na pele. Logo ela estava tão mal que também estava deitada em uma maca.

No total, 23 dos 37 funcionários da sala de emergência apresentaram pelo menos um sintoma. Cinco foram hospitalizados pelo resto da noite. Balderas sofreu crises de apneia durante uma hospitalização de dez dias. Gorchynski, a mais gravemente enferma, passou duas semanas em terapia intensiva, onde, além de apneia, sofria de hepatite, pancreatite e necrose avascular, uma condição na qual o tecido ósseo não tem sangue e começa a morrer. No caso dela, a necrose avascular atacou os joelhos, restringindo-a a muletas por meses. É preciso uma toxina potente para fazer tudo isso, diz Sheldon Wagner, toxicologista clínico da Oregon State University.

Naquela noite surreal, o Riverside General Hospital passaria a figurar em jornais e programas de TV por semanas, pois a possibilidade assustadora de um corpo humano liberando fumaça tóxica capturava a imaginação do público. Também desencadeou uma das investigações mais extensas da história forense - detetives médicos de dez equipes locais, estaduais e federais examinaram dezenas de possíveis culpados, de gás venenoso de esgoto a histeria em massa.

Imagem mostrando os doentes no estacionamento do hospital, retirados da sala de emergência onde ela estava.


Começam as Investigações

O primeiro em cena, chegando ao hospital por volta das 23 horas, foi uma equipe de materiais perigosos do condado de Riverside. A equipe de materiais perigosos estava atrás de uma arma fumegante - algum tóxico volátil que ainda pode estar à espreita no ar da sala de emergência. Eles procuraram por uma série de substâncias químicas nocivas, incluindo sulfeto de hidrogênio e fosgênio. Para alívio dos administradores do hospital, a equipe de materiais perigosos não detectou nenhum desses produtos químicos na sala de emergência.

Seis dias depois, em uma câmera especialmente construída, o Serviço de Medicina Legal do Riverside, cujos patologistas ficaram com a incômoda tarefa de realizar uma autópsia em Ramírez sem uma pista do que o corpo estava abrigando - talvez um patógeno fugitivo, um produto químico tóxico, ou nada, vestiram roupas herméticas e desapareceram em uma câmara de exame selada para trabalhar no corpo. Surgiram 90 minutos depois, com amostras de sangue, tecido, uma bolsa de ar e segurando um caixão de alumínio com o corpo. Após isso foram desinfectados. Uma operação que você geralmente só vê em filmes.

O escritório do legista permaneceu de boca fechada sobre a análise que realizou nos dias que se seguiram. Uma coisa, no entanto, é certa: vários dias após a autópsia, o médico legista de Riverside ainda não encontrara nada de notável.

O escritório do legista construiu esta sala selada especial para investigar o corpo de Ramirez.


O Laboratório Nacional Lawrence Livermore Investiga o Caso

No dia 25 de março, o escritório dos Legistas de Riverside entrou em contato com Patrick M. Grant, vice-diretor do Centro de Ciência Forense, no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, em Livermore, na Califórnia, um local com aparelhos de ponta. Após aceitar participar do caso, Riverside enviou amostras de autópsia, em gelo seco, para o laboratório.

O plano que eles desenvolveram foi direto: analisar os compostos, orgânicos e inorgânicos, no sangue, bile e tecidos dos órgãos de Ramirez, incluindo coração, fígado, pulmões, cérebro e rins. A equipe também verificaria quaisquer gases que possam ter expelido.

Foi uma longa investigação, com uso de vários equipamentos. Até que após usar espectrografia de massa, encontraram moléculas incomuns, como amina, nicotinamida e  dimetilsulfona. Dimetilsulfona é uma molécula composta por um átomo de enxofre, dois carbonos, seis hidrogênios e dois oxigênio. É fabricado como um solvente industrial, mas às vezes também é produzido naturalmente em nossos corpos a partir de aminoácidos que contêm enxofre. Discriminada pelo fígado, a dimetilsulfona tem uma meia-vida no corpo de menos de três dias, para que pessoas saudáveis ​​nunca tenham quantidades mensuráveis ​​em seu sistema. Mas no sangue e nos tecidos de Ramirez havia uma grande concentração de dezenas de microgramas por mililitro, cerca de três vezes maior que a codeína nas amostras.

Mas o dimetilsulfona em si não podia nocautear uma sala de emergência; portanto, quando Andresen, diretor do Centro de Ciência Forense, voou para Riverside em 12 de abril para informar o legista, sua conclusão foi que ele não havia encontrado nada que parecesse um veneno. Andresen relembra alguns questionamentos ansiosos do médico legista, na esperança de encontrar algo, mas ele insistiu que parecia que Ramirez havia simplesmente tomado muita codeína e Tylenol, que em doses grandes  podem danificar o fígado. Ele também destacou as descobertas que o intrigaram: a amina que poderia ter causado o odor de amônia, a nicotinamida e a dimetilsulfona. Claramente, havia algo incomum acontecendo, mas nada que pudesse resultar na morte de Ramirez ou nos sintomas da emergência, diz Andresen. O legista ficou desanimado e sentiu que chegara ao fim da estrada também.

O Laboratório Nacional Lawrence Livermore é imenso e é um dos dois únicos lugares onde são projetadas as ogivas nucleares dos Estados Unidos da América. Foi no Centro Forense que fizeram uma investigação.


Finalmente Ocorre o Enterro

Olive Wood Memorial Park, em Riverside,
é um belo cemitério
Assim, depois da investigação, o corpo de Glória Ramirez foi finalmente entregue para a família. Seu corpo em decomposição foi liberado para uma autópsia e enterro independentes. O patologista da família Ramírez não conseguiu determinar a causa da morte porque seu coração estava ausente, seus outros órgãos estavam contaminados com matéria fecal e seu corpo estava muito decomposto.

Em 20 de abril de 1994 - dez semanas após sua morte - Ramirez foi enterrada no Olive Wood Memorial Park, em Riverside.

Cerca de 100 pessoas, a maioria parentes, compareceram ao culto no dia anterior, uma terça à noite. A família pediu às equipes de notícias da televisão que mantivessem suas câmeras do lado de fora. O reverendo Brian Taylor repreendeu o condado por não compartilhar os resultados de sua investigação sobre a morte dela com a família e pelo manuseio de seu corpo.

Os dois filhos de Ramirez de um casamento anterior, Evelyn Arciniega, de 12 anos, e Angel Arciniega Jr., de 9, se aproximaram do altar com a irmã de Ramirez, Maggie Ramirez-Garcia, que leu um poema escrito por Evelyn. "Rosas são vermelhas, violetas são azuis...  A próxima vez que encontrar uma rosa vermelha, será apenas para você" - recitou ela. "Quando as estrelas brilharem, isso me lembrará você."

Coroas de flores flanqueavam o caixão cor de marfim; um pequeno crucifixo foi colocado sobre ele e um retrato de Ramirez posicionado à esquerda dele.

As autoridades do condado consideraram a morte de Ramirez a mais desconcertante da história local e disseram que divulgarão suas descobertas até o final do mês, o que realmente ocorreu. Um porta-voz do condado disse que o hospital não é a fonte da fumaça.

Em uma entrevista coletiva convocada em 29 de abril para revelar os resultados da autópsia, o médico legista Scotty Hill anunciou que Gloria Ramirez havia morrido de disritmia cardíaca provocada por insuficiência renal decorrente de seu câncer cervical. A investigação de sua morte, Hill disse, foi concluída. Quanto à doença nos trabalhadores do hospital e como isso pode estar relacionado a Ramirez, Hill concluiu que estudos toxicológicos exaustivos não identificaram nenhuma substância tóxica externa que teria contribuído para sua morte.

Jornal do dia 29 de abril noticiando que finalmente divulgaram a causa oficial da morte de Gloria Ramirez.


Foi Tudo Histeria em Massa?

Embora a investigação sobre a morte de agora estivessem oficialmente fechados, não havia explicação para o surto de doença entre os funcionários do hospital. O departamento de saúde do condado chamou o Departamento de Saúde e Serviços Humanos da Califórnia, que colocou dois de seus principais cientistas no caso, os médicos Ana Maria Osorio e Kirsten Waller. Eles entrevistaram 34 funcionários do hospital que estavam trabalhando na sala de emergência em 19 de fevereiro. Usando um questionário padronizado, Osório e Waller descobriram que as pessoas que desenvolveram sintomas graves como perda de consciência, falta de ar e espasmos musculares tendem a ter certas coisas em comum. Talvez sem surpresa, as pessoas que haviam trabalhado a menos de um metro de Ramirez e haviam tratado suas linhas intravenosas estavam em alto risco.

Essas descobertas, juntamente com os resultados da autópsia, a análise de materiais perigosos e os resultados anormais de exames de sangue da equipe do hospital atingida, levaram a um relatório oficial que o departamento de saúde divulgou em 2 de setembro. A conclusão: a equipe do hospital provavelmente experimentou um surto de doença sociogênica de massa, talvez desencadeada por um odor. Em outras palavras, eles foram abatidos pelo estresse e pela ansiedade. Para apoiar essa teoria da histeria em massa, Osório e Waller citaram a falta de evidências de um veneno e o fato de as mulheres terem mais probabilidade de sofrer sintomas graves, ambos sinais característicos da histeria em massa. Além disso, eles apontaram que nenhum dos paramédicos que tratou Ramirez na ambulância ficou doente - apesar dos quarteirões próximos e de terem tocado sua pele e parte de seu sangue após iniciar uma linha intravenosa. Contudo,

O relatório do departamento de saúde desencadeou outra enxurrada de notícias; estes incluíram Gorchynski e seu advogado, médico Russell Kussman, que denunciaram a conclusão da histeria em massa. Naquela época, Gorchynski havia aberto uma ação contra o Riverside General Hospital, o escritório do legista e vários outros, buscando US $ 6 milhões em danos. Um relatório sugerindo que Gorchynski experimentou sintomas psicossomáticos certamente não seria bom para ela no tribunal. "O relatório pode ser baseado na política ou na ignorância, mas não na ciência", disse Kussman ao New York Times. Estes são todos profissionais de emergência. Eles não se tornam histéricos por causa de um ataque cardíaco.

O relatório do estado também irritou alguns dos outros funcionários da sala de emergência, incluindo Welch. Ela estava convencida de que nem ela nem ninguém naquela noite haviam participado da histeria em massa. Ela queria que alguém olhasse com mais atenção o caso e, em sua opinião, Livermore era o único laboratório envolvido sem interesse. Welch ligou para Andresen, diretor do Centro Forense, em Livermore e implorou para que ele desse outra olhada. Para ajudar a atraí-lo de volta ao caso, ela enviou a ele uma cópia de um álbum de recortes de material que havia acumulado, incluindo notícias, o relatório do legista de Riverside, documentos legais e relatórios de toxicologia.

Jornal L.A. Tymes do dia 7 de agosto de 1994 trazendo matéria onde informa que a Dr. Julie Gorchynski vai processar o Condado de Riverside em U$ 6 milhões por por estresse emocional, custos médicos e perda de ganhos.
Laboratório Nacional Lawrence Livermore Volta a Investigar

Andresen pediu a Patrick M Grant, que já tinha feita uma análise anterior das amostra das autópsia para reabrir o caso. Para refrescar a memória de Grant, ele também mostrou seus resultados, incluindo os intrigantes compostos que ele havia identificado. Andresen apresentou um artigo com os resultados da cromatografia gasosa e espectrometria de massa, um gráfico com picos semelhantes às leituras de terremotos em um sismógrafo e apontou para o pico de dimetilsulfona (ou Metil Sulfonil Metano).

Creme DMSO pode ser
comprado ainda hoje.
Grant ficou um pouco hesitante, mas aceitou, e a equipe forense descobriu que o dimetilsulfona vinha do dimetilsulfóxido ou DMSO). O DMSO apareceu na década de 1960, e rapidamente se popularizou entre os atletas como um remédio milagroso para aliviar a tensão muscular. Com o tempo, descobriram que a exposição prolongada gerava danos em algumas partes do corpo. É provável então, que Glória Ramírez tenha se aplicado DMSO para suportar a dor, substância absorvida pela pele que terminou na sua corrente sanguínea.

Quando Ramirez entrou em colapso (presumivelmente por insuficiência renal relacionada ao câncer) e foi colocada na ambulância, os paramédicos colocaram uma máscara de oxigênio em seu rosto. As moléculas de oxigênio inundaram sua corrente sanguínea, combinando-se com o DMSO em seu sistema, segundo os pesquisadores, para formar altos níveis de dimetilsulfona. Quanto mais altas as concentrações dos ingredientes necessários, mais reações químicas serão realizadas com mais eficiência; assim, com tanto oxigênio, nenhum DMSO foi deixado sem transformação. A substância se cristalizou e formou os fragmentos vistos no interior da seringa com a amostra sanguínea.

O Dimetilsulfona é uma substância relativamente inofensiva, exceto quando se acrescenta dois outros átomo de oxigênio à molécula, o que resulta em um produto químico desagradável chamado sulfato de dimetilo.

Os vapores do sulfato de dimetilo podem danificar as células dos tecidos expostos. Quando absorvido no organismo é capaz de gerar convulsões, alucinações, paralisia, coma e inclusive dano grave ao fígado, rins e coração.

Como teria ocorrido a transformação do Dimetilsulfona em Sulfato de Dimetilo? Se desconhece o mecanismo pelo qual o dimetilsulfona no corpo de Glória terminou como sulfato de dimetilo. Alguns pesquisadores supõem que a conversão foi promovida pela baixa temperatura na sala.

O Centro Forense em Livermore então então envia os resultados para Riverside. Eles só queríamos a opinião do médico legista, mas Riverside pegou o artigo e disseram: "Esta é a resposta". O Instituto Médico Legal de Riverside divulga em novembro daquele ano de 1994, o relatório, saudando sua conclusão como a provável causa dos sintomas dos trabalhadores do hospital. Isso pegou desprevenidos o pessoal de Livermore. Eles afirmam que nunca disseram que foi isso que aconteceu, apenas que as pessoas deveriam investigar.

É claro que nem todos concordaram com o estudo do Livermore. Vários cientistas apontaram erros, principalmente a temperatura para vaporizar o sulfato de dimetilo e também que os efeitos mais conhecidos dessa substância demoram várias horas para se manifestar, enquanto que o relatório oficial assinala que os sintomas apareceram nos minutos prévios à exposição.

Em 23 de junho de 1997 foi publicado um artigo escrito por Patrick M Grant no prestigiado periódico Forensic Science International Volume 87, Issue 3, 23 June 1997, Pages 219-237. Ele foi revisado por pares e alguns autores começam a colocar em livros essa reação.

O artigo publicado do Grant em 1997 no Forensic Scienci International


A Hipótese do Laboratório de Metanfetamina

Alguns anos após o incidente, em 1997, o jornal New Times LA publicou uma possibilidade alternativa (veja as edições de 21 de maio de 1997 e 17 de setembro de 1997). A reportagem afirmava que um grupo de pessoas no interior do hospital, fabricava ilegalmente metanfetamina e a contrabandeava em bolsas intravenosas, uma das quais terminou acidentalmente no corpo de Glória Ramírez. A exposição a essa substância poderia ter causado esses sintomas.

Parecesse uma teoria da conspiração, e poucas pessoas acreditariam que em um hospital como esse existiria um laboratório ilegal de metanfetamina. No entanto, a hipótese surge a partir de que o Condado de Riverside foi um dos maiores pontos de distribuição de metanfetamina nos Estados Unidos.

Imagem ilustrativa de um laboratória de metanfetamina.


Família Ganha na Justiça

Em 25 de março de 1998 foi publicado no L.A. Tymes que o Condado de Riverside concordou em pagar US $ 350.000 para resolver uma ação movida por parentes de Glória Ramirez.

A família de Gloria Ramirez processou as autoridades do hospital e do condado, alegando que os médicos não a trataram corretamente na noite em que ela morreu. Eles também afirmam que as autoridades do hospital não a notificaram em 1991 que um exame de Papanicolaou mostrou que ela estava desenvolvendo câncer.

O juiz Richard Van Frank do tribunal do condado de Riverside ainda deve aprovar o acordo, que ele deve receber na segunda-feira.

As autoridades de saúde do condado não admitiram nenhuma irregularidade. O condado concordou com o acordo, em parte, para evitar levantar acusações sobre riscos à segurança no hospital, disse Peter Osinoff, advogado do condado.

Reportagem do Los Angeles Tymes do dia 25 de março de 1998 sobre o caso de causa da família.


Conclusão

Logicamente, para os forenses a possibilidade mais aceitada é a do DMSO. A possível explicação química para este incidente, por Patrick M. Grant, do Centro de Ciência Forense Livermore está começando a aparecer nos livros didáticos básicos de ciência forense.

Mas sua falha principal é a falta de comprobação de um mecanismo capaz de converter o dimetilsulfona em sulfato de dimetilo.

Por isso, a estranha história de Glória Ramírez figura como um dos maiores enigmas na história da medicina, e até hoje, pesquisadores não conseguem encontrar um envenenamento semelhante nos anais médicos, nem podem dizer se os hospitais devem se preocupar com casos futuros.
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Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

Fontes (acessadas em 06/04/2020):
Discover: Analysis of a Toxic Death
- L.A. Times: Woman at Core of Mystery Buried : Medicine: Gloria Ramirez is laid to rest two months after her death at a Riverside hospital, where fumes felled personnel. Her clergyman scolds the county for its handling of the case.
- L.A. Times: ‘Mystery Fumes’ Doctor to File $6-Million Claim : Medicine: Julie Gorchynski, who suffered knee damage in the bizarre incident, accuses Riverside County of stonewalling. Officials have said the hospital was not the source of the odor.
- L.A. Times: Riverside County Settles Suit Over Death in Hospital
- Wikipedia.en: Death of Gloria Ramirez
- Hektoen International: A case of toxic blood
- Forensic Science International: A possible chemical explanation for the events associated with the death of Gloria Ramirez at Riverside General Hospital
- Shared: The Mystery Of The "Toxic Woman" Who Made Everyone Around Her Sick
- Find a Grave: Gloria “The Toxic Lady” Ramirez
- Skeptoid: The Toxic Lady
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