26 de fevereiro de 2021

William H. Mumler: O Homem Que Fotografava Fantasmas


A ascensão da fotografia como disciplina artística durante o século XIX, inspirou a múltiplas gerações de fotógrafos na experimentação de diversas técnicas para melhorar os longos tempos de exposição e a qualidade das imagens. Certamente assim foi o início de William H. Mumler, quem chegou a produzir múltiplas fotografias de espíritos ao longo de sua carreira e passou à história como precursor das fotografias de fantasmas.

O grande negócio das fotografias de espíritos

William Mumler 
Mumler nasceu em 1832 e começou como gravador de ornamentos em Boston, EUA.

No entanto, a sua verdadeira paixão era a fotografia, que naquele tempo começava a se consolidar.

A primeira fotografia de um fantasma que ele obteve, segundo suas próprias palavras, foi resultado de um acidente enquanto experimentava novos produtos químicos para desenvolver uma placa fotográfica em um estudo de alguns amigos.

Depois de tomar uma fotografia de si mesmo, uma selfie, ele quase caiu de costas ao revelar e encontrar uma mulher sentada junto a ele.

foto do jornalista Moses A. Dow
com espírito - Por vezes
considerada a primeira
fotografia de fantasmas da história.
De acordo com a história publicada em um jornal local em 21 de novembro de 1862, onde foi detalhado o estranho passatempo de Mumler, ele mencionou ter experimentado uma "peculiar sensação de tremor no braço direito" enquanto segurava a imagem que acabava de revelar.

Depois, disse ter sido invadido por uma "intensa sensação de esgotamento".

Ao observar pela primeira vez a fotografia, não só concluiu que havia captado um fantasma, mas também o identificou como sendo o espírito de uma prima falecida.

Ao contar sua experiência a alguns espiritistas da cidade, esses indivíduos aproveitaram a descoberta e solicitaram fotografias deles mesmos.

Entre várias dezenas de fotografias que tomou Mumler, só algumas revelaram imagens adicionais de indivíduos que os espiritistas reconheceram como familiares ou conhecidos já falecidos.

Aqui, é preciso frisar que a qualidade dessas "fotografias de fantasmas" era bem mais precária do que Mumler conseguia obter "com modelos vivos".

É mais, houve pessoas que solicitaram várias fotografias, mas as figuras fantasmagóricos reveladas raramente eram as mesmas.

A prova da existência do além-túmulo

Para muitos, a descoberta de Mumler era uma revelação. Os argumentos do espiritismo naquele tempo pareciam se consolidar ao encontrar uma forma de provar a existência do além-túmulo. Imagine a emoção das pessoas ao saber que seus familiares, a quem acreditavam ter perdido para sempre, os rodeavam o tempo todo em sua forma espiritual. Ficaram tão encantados com essa ideia, que simplesmente recusavam qualquer sugestão de que poderia ter algum truque por trás.

Fotografia tirada por William Mumler
O Dr. Ammi Brown, um partidário de William Mumler, garantiu ante diversos jornalistas que havia examinado pessoalmente o dispositivo do fotógrafo sem conseguir encontrar indício algum que sugerisse a existência de uma fraude. Como se não bastasse, disse ainda:

"se estas fotografias, supostamente imagens de espíritos, são uma fraude, trata-se de um engano que supera o talento de todos os prestidigitadores e necromantes do presente e do passado".

Depois de alguns céticos acusarem a Mumler de gerar suas fotografias de fantasmas mediante uma dupla exposição em placas fotográficas, este os convidou a que levassem suas próprias placas aos experimentos e, efetivamente, os espíritos continuavam aparecendo nas placas reveladas.

Enquanto que alguns fotógrafos reproduziam o efeito fantasmagórico sobrepondo dois negativos e revelando em uma só fotografia, aparentemente ninguém era capaz de explicar como Mumler conseguia o mesmo com uma só placa.

Fotografias, fantasmas e arte

Estas fotografias eram algo digno de admiração. Um homem chamado Luther Parks solicitou uma dessas fotografias de fantasmas, no resultado aparecia ele e outra imagem mais tênue de um belo espírito feminino com uma coroa de flores sobre a cabeça. Em outro trabalho, uma mulher identificada somente como "Sra. Snow" aparece junto a uma imagem fantasmagórica de seu irmão falecido, quem segurava um instrumento musical em suas mãos (o homem fabricou esses artigos por toda a sua vida).

Fotografia tirada por William Mumler
Em outra encomenda, o "Sr. Taylor" solicitou uma fotografia em que seu filho, falecido recentemente, aparecesse sentado sobre uma de suas mãos (elevada enquanto a fotografia era tomada). Evidentemente, na fotografia que Mumler entregou aparecia o espectro de um menino como havia solicitado o cliente.

No entanto, nas fotografias de fantasmas não só apareciam familiares. Em uma das fotografias de um "conhecido cidadão de Boston", se manifestou a inconfundível imagem do recém falecido estadista Daniel Webster. E, ainda que muitas das imagens de fantasmas não eram nítidas, a maioria se convencia de que  apareciam familiares mortos nas fotografias.

Ninguém sabia a técnica utilizada por Mumler para conseguir aquelas impressionantes fotografias. De fato, outros fotógrafos de Boston tentaram reproduzir a técnica usando o mesmo equipamento, mas os resultados nem chegavam perto.

Um repórter escreveu em um artigo como ele mesmo proporcionou sua própria placa fotográfica a Mumler, passando pela captura da imagem, até a revelação da mesma. No final, o resultado foi outra fotografia de fantasma. O repórter concluiu que a produção dessas imagens de espíritos era um mistério, e que sua realização era algo que nem a investigação de fraude ou a filosofia tinham capacidade de responder.

Uma mina de ouro sobrenatural

No entanto, Mumler não era o único da família que lucrava com o paranormal. Hannah, sua esposa, oferecia seus próprios serviços como médium e uma lista de padres para o cliente que o solicitasse. Essa mulher afirmava ter canalizado em múltiplas ocasiões o famoso médico Benjamin Rush, quem supostamente proporcionou a ela diversas curas para uma variedade de doenças. Por sua posição, o espectro de Benjamin Rush junto a ela nas múltiplas fotografias tomadas por seu esposo, consolidou sua popularidade como psíquica.

Fotografia tirada por William Mumler
No começo de 1863, as fotografias de fantasmas de Mumler já eram famosas em toda a América do Norte e na Europa. O Photographic News, um popular jornal com sede em Londres que publicava novidades sobre o mundo da fotografia, chegou a fazer uma resenha do trabalho de Mumler, mas com uma nota advertindo a possibilidade de que fosse uma fraude.

É certo que Mumler havia formado uma base sólida de seguidores, mas a Photographic Society of America rapidamente tomou uma postura declarando que "os parecidos com espíritos são uma fraude e um engano grosseiro". A contraparte britânica apoiou essa postura. Contra Mumler também se levantou ninguém menos que P.T. Barnum*, o artista circense lembrado por seus célebres golpes no mundo do entretenimento. Em 1866, Barnum publicou um livro intitulado Humbugs of the World ("Farsas do Mundo") onde no capítulo "spiritual photographing" acusava a Mumler de ser "pura fumaça".

*P.T. Barnum ou Phineas Taylor Barnum1810 - 1891 foi um norte-americano apresentador circense, político, escritor e empresário lembrado por promover célebres embustes como a "Sereia de Fiji" e pela fundação Barnum & Bailey Circus (1871-2017). NDT.

A "Sereia de Fiji" é um dos embustes
mais famosos de Barnum.
No entanto, o negócio das fotografias fantasmagóricas de Mumler seguiu crescendo e com o tempo ele se mudou a Nova Iorque, onde os mais proeminentes especialistas em fotografia não conseguiram encontrar indício algum de fraude no seu trabalho.

William Mumler não podia ter trabalhado em uma época mais propícia para o sucesso do seu negócio. Os Estados Unidos estava mergulhado em uma terrível guerra civil resultando em milhares de mortos e, em consequência, familiares desesperados por encontrar alguma prova de que havia vida após a morte.

Fotografia tirada por William Mumler
A grande indústria que cresceu em torno das fotografias de espíritos como consequência da guerra só fez com que muitos deixassem de lado a sua incredulidade. Outros fotógrafos também começaram a produzir suas próprias fotografias de fantasmas ao ver os suculentos lucros que obtinha Mumler.

Essa concorrência nem sequer afetou o negócio do fotógrafo, pois a demanda era enorme e Mumler se dava o luxo de cobrar muito mais caro por suas "fotografias espirituais autênticas".

Porém, nem tudo é pra sempre. Quando o prefeito de Nova Iorque, A. Oakley Hall, ouviu os rumores sobre o trabalho de Mumler imediatamente encomendou uma investigação. O marechal (Marshal) Joseph Tooker, foi disfarçado ao negócio de Mumler e solicitou uma de suas fotografias de fantasmas.

O resultado: uma imagem do próprio Tooker com uma figura que seria seu sogro, segundo o próprio Mumler. Tooker disse que a fotografia "não mostrava ninguém que tivesse visto ou conhecido" e o prendeu sob acusação de fraude e embuste.

O polêmico julgamento de William Mumler

Em abril de 1869, Mumler se apresentou ante o juiz Joseph Dowling com duas acusações de fraude e uma de roubo menor. Segundo o promotor, Mumler defraudou os seus clientes "mediante truques e aparelhos com falsas pretensões, proporcionando certas fotografias que garantia terem sido produzidas por meios espirituais e sobrenaturais, por mais que as tenha gerado na verdade por meios científicos e químicos de uso comum por indivíduos dedicados à arte fotográfica".

P.T. Barnum
A parte conflitiva para o promotor era determinar se Mumler havia cometido fraude de propósito, ainda que não restava nenhuma dúvida de que era responsável por inflacionar os valores de seu trabalho. No entanto, aquele julgamento se converteu em uma batalha polarizada: os que acreditavam no espiritismo e os que negavam. E no meio de toda a polêmica estavam as célebres fotografias de Mumler.

Esse foi o primeiro julgamento em que "fotografias de fantasmas" foram apresentadas como evidência em um tribunal. Assim, os especialistas em fotografia analisariam a forma com que Mumler criava essas fotografias para determinar se realmente ele tinha a habilidade sobrenatural de fotografar o além. Ao longo de duas semanas, mais de vinte imagens passaram por uma rigorosa análise.

É complicadíssimo ressaltar os pontos mais altos do julgamento, mas sem dúvida, o depoimento de P.T. Barnum figura entre esses. O consumado homem de espetáculos era extremamente hábil cativando à audiência, inclusive em um tribunal, e se aproveitou da sua eloquência para convencer os ali presentes, de que as fotografias de Mumler eram uma fraude.

P.T. Barnum e o general Tom Thumb
Além disso, frisou que nenhum dos clientes de Mumler parecia ter manifestado curiosidade sobre os fantasmas aparecerem vestidos com a mesma roupa que estava na moda na Terra.

Acontece que, curiosamente, as roupas que vestiam os supostos mortos evoluíam conforme as tendências dos vivos, ainda que estivessem mortos há muitos anos. Também fez uma recontagem de sua experiência com Mumler e a facilidade com que imagens podiam ser falsificadas.

O depoimento de Barnum seduziu todos os presentes incluindo a imprensa, no qual, o advogado de defesa tentou subtrair sua autoridade questionando sobre o tempo que Barnum levava ganhando a vida com embustes. Barnum se esquivou habilmente da pergunta**, e então o questionaram sobre suas numerosas fraudes**. No entanto, nada disto teve efeito e Barnum deixou a cena triunfante.

**Uma frase frequentemente atribuída a P.T. Barnum: "Nasce um trouxa a cada minuto" ("There's a sucker born every minute"). No entanto, não há evidências de que ele tenha realmente proferido tal frase, que seria uma contradição com seu tipo de negócio. Barnum não era do tipo que menosprezava seus clientes. Algumas fontes afirmam que a frase seria do famoso vigarista Joseph ("Paper Collar Joe") Bessimer.

A conclusão do julgamento

Depois da exposição de toda a evidência disponível, tanto a defesa como o promotor se centraram em extensos argumentos que cobriam os pormenores de todas as questões que surgiram durante o julgamento.

A culpabilidade de Mumler sobre a fraude já havia passado a segundo plano, e o debate parecia se centrar no espiritismo, a liberdade de religião, o benefício que havia trazido as fotografias de Mumler aos desconsolados clientes e a distinção entre crença e verdade.

No final, o juiz Dowling concluiu que, enquanto cabia a possibilidade de que Mumler enganava a seus clientes, não estava em disposição de atribuir responsabilidade alguma com a evidência proporcionada pelas testemunhas.

Assim, determinou que não o enviaria ao Grande Júri e o deixou em liberdade.

Nos últimos anos de William Mumler

Ainda que Mumler continuou no negócio das fotografias de espíritos, a imprensa não deixava de chamar ele de "embusteiro". Ele voltou para Boston profundamente endividado por causa dos honorários pagos por sua defesa. Quase ninguém mais solicitava os seus serviços ainda que essa classe de fotografia desfrutou de popularidade durante as seguintes décadas. Mas o estigma em torno do nome de Mumler quase levou ele à completa ruína. Inclusive aquelas fotografias antigas, adquiridas a preços exorbitantes, acabaram sendo leiloadas por centavos de dólar. Ele abriu um estúdio reduzido na casa da sogra na rua 170 W. Springfield St e sobreviveu graças à fotografia comum chegando a inventar um processo para produzir placas de foto-eletrotipagem (Em um processo semelhante ao da galvanoplastia. NDT.)

A fotografia de Mary Todd Lincoln realizada por Mumler.





No entanto, seguiu fazendo algumas fotografias de fantasmas. Uma de suas clientes mais célebres em seus últimos anos de vida foi Mary Todd Lincoln, a viúva do presidente norte-americano que se apresentou como a Sra. Lindall. Ainda que o homem que aparece na fotografia tenha pouca semelhança com Lincoln, Hannah a esposa de Mumler, teria ajudado a que Mary se convencesse de que era o seu esposo. Essa imagem proporcionou um fôlego a Mumler e trouxe novos clientes.

Em maio de 1885, o fotógrafo de fantasmas William H. Mumler morreu. Suas fotografias de espíritos foram distribuídas amplamente nos círculos espiritistas após sua partida, ainda que a maioria de especialistas em fotografia moderna tenha desmentido essas obras como meras falsificações.

Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

https://www.amazon.com/Apparitionists-Phantoms-Photography-Captured-Lincolns-ebook/dp/B01I4FPNG8/ref=tmm_kin_swatch_0?_encoding=UTF8&qid=&sr=&dpID=51cOlW24gNL&preST=_SY445_QL70_&dpSrc=detail

https://web.archive.org/web/20170810172706/http://bitaites.org/bitaites/william-h-mumler-homem-nao-fotografava-espiritos

https://fhox.com.br/news/a-incrivel-historia-do-primeiro-fotografo-de-espiritos/

http://www.assombrado.com.br/2013/05/as-fotos-espiritas-de-william-h-mumler.html

https://books.google.com.br/books?id=L7Wx21p4f5IC&pg=PA379&lpg=PA379&dq=#v=onepage&q=Photographic%20Society%20of%20America&f=false
https://www.historynet.com/the-ghost-and-mr-mumler.htm
https://www.nytimes.com/2017/10/24/books/review/apparitionists-peter-manseau-william-mumler-biography.html
http://www.amphilsoc.org/exhibits/spirits/mumler.htm
https://archive.org/details/humbugsworld00barnrich/page/114
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=jxsvlD6HJRUC&q=photoelectrotype+plates+#v=snippet&q=photoelectrotype%20plates&f=false
https://en.wikipedia.org/wiki/William_H._Mumler
https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&id=sF86DwAAQBAJ&q=+spiritual+photographing#v=snippet&q=spiritual%20photographing&f=false
https://books.google.com.br/books?id=yhYMAAAAYAAJ&printsec=frontcover&dq=Humbugs+of+the+World#v=onepage&q=Humbugs%20of%20the%20World&f=false
https://pt.wikipedia.org/wiki/P._T._Barnum
https://en.wikipedia.org/wiki/There%27s_a_sucker_born_every_minute
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