2 de setembro de 2019

O Mistério da Explosão de Dentes


Eis aqui um pequeno e envolvente mistério que apareceu pela primeira vez nas páginas do Dental Cosmos, o primeiro periódico acadêmico norte-americano para dentistas, em 1860.

W.H. Atkinson, um dentista na Pensilvânia, escreveu ao jornal para relatar três casos estranhos e similares que ele havia encontrado durante um período de quarenta anos enquanto exercia a prática.

O primeiro caso foi do reverendo D.A., que morava em Springfield, no Condado de Mercer, na Pensilvânia. No final do verão de 1817, ele de repente desenvolveu uma dor de dente insuportável.

"Às nove horas da manhã de 31 de agosto, o canino superior direito, ou o primeiro bicúspide, começou a doer, aumentando em intensidade a tal ponto que o deixou literalmente selvagem. Durante sua agonia, ele corria aqui e ali, no vão esforço de conseguir alguma trégua; uma vez enfiou a cabeça no chão como um animal enfurecido, e em outra vez, cutucou  a cabeça sob o canto de uma cerca, e novamente possesso de dor, mergulhou a cabeça no fundo da água fria; o que deixou sua família tão alarmada que eles o levaram à cabana e fizeram todo o possível para que ele se recompusesse".

Não é um considerado um comportamento digno de um clérigo, por certo que essa dor de dente deve ter sido escruciante.

"Mas tudo se mostrou inútil, até que às nove horas da manhã seguinte, enquanto ele caminhava em um delírio selvagem, houve um estalo agudo, como um tiro de pistola, estilhaçando o dente em fragmentos, dando ao pobre homem um alívio instantâneo.
Nesse momento, ele se virou para a esposa e disse: 'Minha dor acabou.'" E o seu dente também diga-se de passagem. Seu dente havia explodido como uma "pequena" bomba.

"Ele foi para a cama e dormiu profundamente durante todo o dia e a maior parte da noite seguinte; após o qual ele ficou bem e racional. "

Segundo o Dr. W.H. Atkinson escreveu na época:
"Ele está vivendo atualmente e tem uma lembrança vívida do incidente angustiante."

Dentes do tipo não explosivo.


O segundo caso ocorreu 13 anos depois; a vítima dessa vez foi uma senhora chamada Letitia D., do Condado de Mercer, na Pensilvânia:

"Este caso pode não ser tão claro ou totalmente rastreado como o primeiro, mas é muito parecido, terminando com explosão repentina, dando alívio imediato. O dente posteriormente se desfez em pedaços; era um molar superior."

Um exemplo final ocorreu em 1855, também no Condado de Mercer (havia algo na água da Pensilvânia?), da senhora Anna P.A.:

"Houve uma simples divisão ântero-posterior, causada pela intensa dor e pressão da polpa inflamada. Um estouro repentino e agudo e alívio instantâneo, como nos outros casos, ocorreram no canino superior esquerdo. Ela está viva e saudável, e é mãe de uma família de belas garotas."

Apesar do Dr. W.H. Atkinson frisar que ficaram bem, e ainda que algumas lendas urbanas aqui do Brasil, mencionam dores de dente tão excruciantes que culminam em suicídio, ou aquela lenda urbana contada no sul do país sobre o menino que morreu de dor após sua gengiva dobrar de tamanho por causa de um procedimento dentário mal feito, o fato é que não se espera que estes três pequenos incidentes contados aqui, poderiam ser fatais. Dolorosos sim, mas não letais.

Segundo o Dr. W.H. Atkinson:
"A meu ver, o mineral, a planta e o animal, devidamente interrogados, nos ensinam a verdade não adulterada. Esses dentes estourados, sob a imensa pressão da força acumulada, ensinam muitas lições valiosas: filosóficas para aqueles que são capazes de compreendê-las e práticas para quem está quieto e disposto a ouvir 'sua voz'; mas para os teimosos e auto-suficientes, apenas lições de espanto e admiração em branco."

Como essa força seria gerada localmente?

Screen shot do site Dental Cosmos.
Segundo o Dr. W.H. Atkinson:

1) "pelo aumento da quantidade de calorias livres* expandindo os constituintes moles da polpa."

2) "Pela desintegração de moléculas ou células que passam por mudanças químicas, gerando esses pequenos 'companheiros', que sempre tentam se afastar o mais possível, chamados 'partículas gasosas', no qual esforça a força produzida localmente e deve encontrar uma saída, mesmo em uma convulsão de pesos quase infinitos ou na remoção de imensa força oposta." 
(Que palavreado rebuscado... NDT.)

O que esse dentista vitoriano estava tentando sugerir, é que a explosão teria sido causada pelo acúmulo de um fluído (calórico) no interior do dente, talvez ocasionado por uma cárie.

*Calorias livres é uma hipótese que pode ser descartada imediatamente, pois se baseia em uma teoria científica obsoleta. Por muitos anos, acreditava-se que o calor consistisse de um fluido chamado "calórico", que era repelente. Ainda que isso tornaria plausível um aumento de pressão, hoje em dia sabemos que esse fluido não existe.

A segunda hipótese proposta pelo Dr. W.H. Atkinson, sugeria que a cárie no dente poderia ter causado um acúmulo de 'partículas gasosas', ou seja, gás, que teria causado a explosão do dente.

Um outro caso "explosivo"

Apenas um consultório odontológico vitoriano vazio.
Mesmo incomuns, essas histórias não são únicas. O British Dental Journal recentemente destacou um caso de seus arquivos, originalmente impresso em 1965, detalhando outras histórias de explosões de dentes ao longo da história.

O jornal incluiu um caso registrado em 1871 por outro dentista norte-americano, J. Phelps Hibler. Ele tratou uma jovem cuja dor de dente terminou espetacularmente quando o dente, um molar, "estourou com um impacto e relatou, que quase a derrubou". A explosão foi tão alta que ela ficou surda por alguns dias.

Embora tenha havido cinco ou seis casos relatados no século XIX, não houve nenhum caso documentado de explosão de dentes desde a década de 1920.

Hugh Devlin, professor de Odontologia Restauradora da Faculdade de Odontologia da Universidade de Manchester, diz que, é bastante comum que dentes se partam, mas ele nunca ouviu falar de um estouro.

Ele lembra que os exploradores da Antártica, na década de 1960, relataram que seus dentes quebravam espontaneamente, e que na época eram resultado do frio extremo - mas ele acredita que o verdadeiro culpado tenha sido nada mais que cárie causada pela dieta rica em açúcar.

Questionado sobre a segunda explicação do Dr. W.H. Atkinson, sobre acúmulo de gás dentro do dente, o professor Hugh Devlin respondeu cético:

"É altamente improvável que gás se acumule em um dente ao ponto de fazê-lo explodir. Os dentes são extremamente fortes. Os dentistas do século XIX não entendiam a cárie e pensavam que ela vinha de dentro do dente. Foi somente no século XX que começamos a entender que a cárie é causada pela dieta e pela formação de bactérias na superfície dos dentes."

The Terror

Esse mistério da explosão de dentes, foi mencionado no 5º episódio a 1ª Temporada da série The Terror, da AMC, que se passa no polo norte durante a malfadada expedição John Franklin, no qual, sugere que o frio seria o responsável:

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Então, qual é a explicação para esse fenômeno estranho? Apesar das sugestões e hipóteses, o fato é que ainda não se sabe. O Mistério dos Dentes Explosivos permanece sem solução

Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

http://www.bbc.com/future/story/20160301-the-gruesome-and-mysterious-case-of-exploding-teeth
https://quod.lib.umich.edu/d/dencos/acf8385.0002.001/333:78?page=root;rgn=main;size=100;view=image
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