24 de agosto de 2019

O Pão Maldito de Pont-Saint-Esprit


Pont-Saint-Esprit  (pronuncia-se "Pôn-santes-prrí") é uma pequena comuna francesa de 10.00 habitantes, situado às margens do rio Ródano na fronteira entre a Provença e o Languedoc. Um daqueles lugares agradáveis onde nunca acontece nada... Até que acontece...

Eis que do dia para a noite, centenas de vizinhos literalmente enlouqueceram. Durante vários dias, aquele recanto calmo do sudeste francês, virou um ensaio do fim do mundo.

Charles Granjhon, de 11 anos, tentou estrangular a sua mãe; um homem tentou se afogar enquanto gritava que seu estômago estava sendo devorado por serpentes; outro vizinho clamava "Eu sou um avião!" antes de saltar pela janela do segundo andar.

Dois anos depois, um cientista norte-americano, Frank Olson, se suicida saltando do décimo andar de um prédio em Manhattan, EUA...

Horror e Sofrimento

Em agosto de 1951. Todos estavam em choque no povoado de Pont-Saint-Esprit. Centenas de pessoas normais pareciam estar em plena possessão demoníaca. O lugar antes pacato, transbordava de convulsões, euforia, hiperatividade motriz, visões, alucinações, ilusões sensoriais e delírios violentos.

Segundo a revista Time, entre as pessoas afetadas, os delírios iam crescendo. As pessoas se retorciam freneticamente em suas camas, gritando que "flores vermelhas brotavam do próprio corpo"... Outros repórteres que foram ao lugar, descreveram homens e mulheres arrancando suas roupas e correndo sem rumo pelas ruas. A imprensa expressou: "cenas saturadas de horror e de sofrimento".

A noite do 25 de agosto de 1951, foi particularmente tétrica. As ruas de Pont-Saint-Esprit explodiram de sirenes de ambulância e gritos dementes. No hospital, as freiras não davam conta de controlar os doentes. Um desses pacientes, passa a noite toda de pé em sua cama tentando achar uma porta na parede para escapar.

Outro alerta às freiras para que não se aproximem da sua cama, já que está em chamas e ele não quer que elas se queimem. Um morador da cidade de 43 anos, se atira pela janela do segundo andar gritando "Eu sou um avião!". Ao cair, ele fratura uma perna. Porém, em seu delírio o pobre homem não percebe, não sente a dor e foge correndo pelos campos circundantes.

Capa da revista Life - 10 de setembro de 1951- Note o olhar perdido e alucinado do idoso sendo carregado.  








Um trauma indelével

No site da BBC, o carteiro Leon Armunier descreve anos depois como sentiu de repente náuseas e alucinações enquanto fazia sua ronda: "como fogo e serpentes se enroscando em meus braços". Ele foi transladado ao hospital com uma camisa de força e compartilhou a habitação com três adolescentes acorrentados a suas camas como único modo de mantê-los controlados. 

"Alguns dos meus amigos tratavam de pular pela janela, se agitavam violentamente... Gritando, e o som das camas metálicas saltando pra cima e pra baixo... O ruído era terrível...". 

Leon Armunier ainda treme, tantos anos depois, ao lembrar daquele pesadelo. Diz que preferiria morrer a repetir o que vivenciou.

Duas semanas depois, a normalidade voltou ao povoado. Deixando para trás o delírio que afetou a mais de 300 pessoas, provocando a morte de 7 pessoas. 2 por suicídio. Dúzias de afetados nunca mais saíram daqueles dias malditos e ficaram internados em hospitais psiquiátricos para sempre.

"30 dos 150 pacientes intoxicados pelo pão ruim de Pont-Saint-Esprit ficam loucos e devem ser internados"

O Pão Maldito

Ninguém estava interessado em dar ao fenômeno mais corda do que o necessário, mas algo tão extraordinário, tampouco podia ser jogado para debaixo do tapete. Logo em seguida uma investigação foi iniciada. Os três médicos locais Albert Gabbaï, Champeau e Vieu, haviam chegado a uma conclusão: a culpa era do pão maldito.

Os sintomas da epidemia encaixavam bem com o ergotismo, também chamado de envenenamento por cravagem, envenenamento por Ergot, Fogo de Santo Antônio, fogo do inferno, ou dança de São Vito, Desde a Idade Média existem referências a esse fenômeno, relacionado com a ingestão de pão de centeio em mau estado.

Os médicos franceses investigaram até situar o início da epidemia na padaria de Roch Briand, na Grand-Rue (Rua Maior) do povoado, que havia utilizado farinha contaminada.

Por precaução, foram fechadas as 8 padarias do povoado. Pouco depois a polícia científica de Marselha confirma: Era o pão.

Em poucos dias o British Medical Journal publica o preto no branco: intoxicação produzida pelo fungo do esporão-do-centeio (Claviceps purpurea), um precursor natural do LSD*
Tudo foi concluído muito rapidamente.

*LSD é a sigla de Lysergsäurediethylamid, palavra alemã para a dietilamida do ácido lisérgico, que é uma das mais potentes substâncias alucinógenas conhecidas.

Identificado o fungo culpado, a polícia pôs mãos à obra. Seguir a pista da farinha era fácil, já que naquele tempo era um bem controlado pelo estado francês. Em 31 de agosto de 1951, detém a Maurice Maillet, moleiro de Saint-Martin-a-Rivière, a 28 km de Poitiers, quem forneceu o "veneno" ao padeiro de Pont-Saint-Esprit.7

Mas em outubro daquele ano, Maurice Maillet é posto em liberdade. As primeiras análises da polícia não eram corretas e na farinha fornecida pelo suspeito, não havia nenhum sinal do fungo maldito.


Padaria de Roch Briand


Revista Life com a foto do Maurice Maillet preso.

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Frank Olson

Se não era o pão, o que era afinal? As especulações foram várias, algumas à altura do delírio das vítimas... Apontaram para envenenamento por mercúrio e culparam o Papa, a Stalin ou à companhia de ferrovias.

Dois anos depois, em 28 de novembro de 1953, Frank Olson aparentemente se suicida saltando pela janela do décimo andar de um edifício de Manhattan, EUA.

Apesar da virada brusca nesta história, tudo está mais conectado do que parece.

A morte de um cientista em Nova Iorque lança luz sobre a possibilidade mais consolidada sobre os acontecimentos de Pont-Saint-Esprit. Sem estar confirmada oficialmente é claro, é a possibilidade mais aceita.

Em um primeiro momento, a morte de Frank Olson foi declarada como suicídio. Mais adiante podemos ver que não foi assim. Olson, um bacteriólogo que levava anos trabalhando para a Divisão de Operações Especiais da CIA, foi empurrado ao suicídio.

agência havia estado ministrando LSD a ele sem o seu conhecimento, provocando em Olson uma paranoia que o levou a saltar pela janela do hotel Penssylvania onde estava hospedado.

Ainda restam dúvidas se ele mesmo tenha se jogado, ou foi empurrado para que parecesse um suicídio.

Frank Olson teve preocupações morais sobre suas atividades e certa instabilidade emocional que levou à CIA a temer que ele falasse sobre seu trabalho.

Pont-Saint-Esprit, CIA e MK Ultra

Em 1938, o químico Albert Hofmann (1906-2008)
da Sandoz foi o primeiro a sintetizar o LSD.
Em 1951, ele foi enviado a Pont-Saint-Esprit
na posição de especialista.
Olson esteve trabalhando para o projeto MK Ultra, um sinistro programa secreto da CIA que incluía múltiplos experimentos, alguns dos quais continuam sendo desconhecidos. Entre os conhecidos, no qual, em 1975 uma comissão presidencial destampou o assunto, havia o controle mental mediante o uso de drogas, especialmente LSD. 

Tais drogas foram ministradas a cidadãos norte-americanos e estrangeiros sem seu consentimento. Incluindo ao próprio Frank Olson.

Em 1996, o jornalista investigativo Hank P. Albarelli Jr. é o primeiro que une Pont-Saint-Esprit e a morte de Olson, em seu livro "Um terrível erro: o assassinato de Frank Olson e os experimentos secretos da CIA durante a guerra fria" (A Terrible Mistake : The murder of Frank Olson and the CIA’s secret Cold War Experiments).

Hank Albarelli descobriu várias coisas realmente interessantes.

Quando o delírio tomou conta do povoado de Pont-Saint-Esprit, enviaram um grupo de especialistas em bioquímica dos laboratórios Sandoz, de uma sede próxima dali, na Basiléia, Suíça. O relatório desse grupo é o inspirador artigo do jornal médico britânico que coloca toda a culpa no esporão-do-centeio.

Segundo Albarelli, no momento daquela visita só haviam de 8 a 10 cientistas no mundo que conheciam a existência do LSD, e nesse grupo que visitou Pont-Saint-Esprit se encontrava um deles.

Ninguém menos que Albert Hofmann, o primeiro a sintetizar o LSD em 1938. Não só isso, naquele momento, ainda que quase ninguém sabia,  Sandoz estava auxiliando a CIA em suas atividades secretas, proporcionando à agência quantidades importantes de LSD e aconselhando sobre os seus usos.

Assim, a intoxicação de Pont-Saint-Esprit supostamente faria parte de um experimento secreto do exército dos Estados Unidos e da CIA dentro do projeto MK Ultra. O experimento teria sido feito sob a superintendência do departamento dirigido naquele momento por Frank Olson.

Conspiração?

Segundo Hank Albarelli, teriam preparado um experimento similar na rede de metrô de Nova York, mas que foi adiado para depois de ver o que acontecia na França.

E o que aconteceu na França é que, segundo um ex-cientista colega de Frank Olson:
"os resultados globais foram positivos, mas também comprovamos um efeito indesejável, ou que convém chamar agora de uma reação de 'cisne negro'. Não tínhamos previsto que morreriam várias pessoas".

Colocado dessa forma, tudo soa muito "conspiranóico" no entanto, existem evidências bastante sólidas por trás, naturalmente que não confirmadas e por mais estranho que pareça, é de longe a explicação mais razoável.

Além disso, o suposto experimento de Pont-Saint-Esprit não seria nem o primeiro nem o último do projeto MK Ultra. Um projeto cuja existência foi confirmada de forma oficial, vai desde o início dos 50 até o seu cancelamento, também oficial, em 1973.

Túmulos das vítimas do incidente em Pont-Saint-Esprit  


Tradução/Adaptação: Rusmea & Mateus Fornazari

Fontes:
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