9 de junho de 2018

Conheça os "Zangbetos": Um Exemplo de Alta Magia Praticada na África ou um Forte Instrumento de Controle Social?

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Por Marco Faustino

Provavelmente, essa é uma das matérias mais pedidas por vocês desde o terceiro trimestre do ano passado, quando começou a circular um determinado vídeo sobre "Zangbetos" nas redes sociais, mais precisamente através do Facebook. Quando se procura por esse termo na internet, rapidamente as pessoas se deparam com "materialização", "telecinésia", "alta magia africana", "bruxaria real" e tantas outras palavras e frases, que tentam definir ou explicar a "mágica" por trás dos grandes cones de folhas secas de palmeira-ráfia girarem "sozinhos", como se espíritos entrassem dentro das armações e promovessem um verdadeiro espetáculo, tanto para moradores locais quanto para turistas. Além disso, muitas dessas estruturas também deixam os mais variados "presentes" no chão durante suas "apresentações", embora muitos desses presentes sejam claramente "mecanizados". Em alguns vídeos é possível ver, por exemplo, uma estrutura vazia sendo montada na frente de todos e, pouco tempo depois, a mesma começa a girar enlouquecidamente. Assim como acontece com todo bom truque de mágica, a maioria das pessoas fica impressionada com o que vê. Se adicionarmos o estereótipo perpetuado ao longo dos séculos, e que muitos ainda têm enraizado, embora seja incorreto e preconceituoso, de que os africanos são povos "atrasados", que possuem inúmeros "mistérios", e cujos costumes, tradições e religiões estão impregnadas de rituais obscuros, cria-se um cenário ainda mais sombrio e aterrador, não é mesmo?

Entretanto, de antemão, é necessário dizer para vocês, que os "Zangbetos" não são um exemplo de alta magia praticada na África, não giram sozinhos devido a supostos espíritos ancestrais, e os objetos deixados não são fruto de qualquer tipo de materialização. O objetivo principal desta matéria não é exatamente desmentir (embora seja inevitável diante da extensa pesquisa realizada) o que vem sendo propagado há muito tempo em diversos blogs na internet brasileira e mundial, mas mostrar a vocês a realidade sobre quem são os "Zangbetos", como eles provavelmente surgiram do ponto de vista histórico, a razão pela qual ainda existem, e a função que ainda exercem nas sociedades de diversos países africanos, a exemplo da Nigéria, Benim, Gana e Togo. Esse é o motivo pelo qual vale muito a pena ler e acompanhar cada detalhe dessa "pequena" saga sobre os "Zangbetos". Uma matéria comprometida com uma informação de qualidade, confiável e segura para todos aqueles que realmente desejam aprender e conhecer um pouco mais sobre esses peculiares personagens da África Ocidental. Vamos saber mais sobre esse assunto?

OBS: Essa matéria foi originalmente publicada no dia 26/04/2018, porém havia sido ocultada no dia seguinte em razão da realização do especial de 2 milhões de inscritos. Assim sendo, a matéria original voltou a ser exibida normalmente neste blog, desde o dia 06/06/2018.

Uma Rápida Introdução ao Culto a Zangbeto: Um Peculiar e Importante Componente da Cultura e da Sociedade Ogu


Evidentemente, as primeiras informações que precisamos repassar a vocês é o significado da palavra "Zangbeto", o que isso representa, e de qual cultura ou sociedade o mesmo faz parte. Pois bem, a palavra "Zangbeto" significa "Pessoa(s) da Noite", uma vez que é formado por duas outras palavras: "Zan" (Noite) e "Gbeto" (Pessoa ou Pessoas). Porém, a maior parte das fontes consultadas para realizar essa matéria aponta, que "Zangbeto" significa "Homem da Noite", uma vez que haveria o envolvimento predominante e direto de membros masculinos da sociedade Ogu por trás desse misterioso culto.

A palavra "Zangbeto" significa "Pessoa(s) da Noite", uma vez que é formado por duas outras palavras: "Zan" (Noite) e "Gbeto" (Pessoa ou Pessoas). Porém, a maior parte das fontes consultadas para realizar essa matéria aponta, que "Zangbeto" significa "Homem da Noite", uma vez que haveria o envolvimento predominante e direto de membros masculinos da sociedade Ogu por trás desse misterioso culto.
Por outro lado, em um contexto mais amplo, podemos dizer que a palavra "Zangbeto" representa atualmente uma espécie de culto religioso tradicional entre o povo Ogu, que habita diversas regiões de alguns países da África, a exemplo da Nigéria, da República do Benim, Togo, Gana e Gabão. A maior concentração de praticantes deste culto está localizada no Sudoeste da Nigéria e na República de Benim, na África Ocidental, onde o mesmo evoluiu de um nível de vigilantismo local para um mecanismo de controle social muito mais amplo, engajado no policiamento comunitário, na mediação de conflitos e no emprego da justiça. Essa espécie de culto possui um rico sistema de símbolos materiais, ideológicos, liderança, organização e modos de operação, que tornam um eficiente mecanismo informal de controle social, servindo também para preencher a lacuna entre os defeitos estruturais e as desvantagens nos mecanismos formais, e no nível de criminalidade e delinquência entre o povo Ogu.

Portanto, o "Zangbeto" destaca a força dos mecanismos informais de controle social como fatores críticos para a obtenção de baixos índices de criminalidade nas organizações, e sociedades, além de otimizar as oportunidades de crescimento e produtividade nas mesmas. De qualquer forma, para chegar nesse nível de compreensão, que vai muito além de uma mera apresentação artística, é necessário entender como tudo isso teria começado e evoluído com o passar do tempo.



De acordo com o livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts", editado por David O. Ogungbile, professor sênior de Religião Comparada (ramo do estudo das religiões dedicado à comparação sistemática entre as doutrinas e práticas religiosas) do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade Obafemi Awolowo, em Ife-Ife, na Nigéria, a tradição oral menciona, que o "Zangbeto" seria um espírito do mar, que as pessoas costumavam visitar antes de se aventurarem nas águas do mar, porém, em um determinado momento, ele teria saído do mar vestido com folhas de palmeira-ráfia.

Devido ao conselho do Oráculo de Ifa (uma espécie de sistema divinatório de cunho religioso) ele teria sido atraído para fora do mar e passado a morar em um Palácio Real, em terra firme, por assim dizer. Desde então, o "Zangbeto" não teria qualquer outro símbolo, exceto seu traje de folhas de palmeira-ráfia juntamente com algumas máscaras contendo chifres de animais e com diversos desenhos na altura da cabeça. Ainda segundo o livro, sacrifícios seriam ofertados ao "Zangbeto" nas praias, e os anciões dizem que ainda o consultam, com certa frequência, quando necessário.

Capa do livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts", editado por David O. Ogungbile, professor sênior de Religião Comparada (ramo do estudo das religiões dedicado à comparação sistemática entre as doutrinas e práticas religiosas) do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade Obafemi Awolowo, em Ife-Ife, na Nigéria
Já em um artigo acadêmico intitulado "Philosophical Significance of Myths and Symbols: Zangbeto Cult" publicado no periódico "International Journal of Humanities, Social Sciences and Education" (IJHSSE), em novembro de 2014, Maduabuchi F. Dukor, professor e PhD em Filosofia da Universidade Nnamdi Azikiwe, na Nigéria, forneceu maiores detalhes sobre essa tradição oral. Segundo Maduabuchi, o Zangbeto seria um espírito que saiu do mar Ohu, e se estabeleceu na terra Ogu, adjacente à fronteira marítima, na República do Benim.

Segundo o mito, quando o espírito saiu do mar, o mesmo trouxe para coisas boas e bons presságios para a população, assim como: boa saúde, coco, tecnologia para pescar e construir casas e outros bens essenciais à vida. Uma "prova" da vinda desse espírito do mar seria representada pelos aglomerados de coqueiros, que embelezaram de maneira estética as praias em terras Ogu, na região de Benim e Badagry, na Nigéria. Parece, portanto, que as coisas boas em Badagry e em terras Ogu, assim como o coco e a paz são, para a população, um sinal da eterna presença deste espírito. Maduabuchi considerou o culto atual a Zangbeto como uma espécie de movimento carismático inspirado no espírito do mar.

Artigo acadêmico intitulado "Philosophical Significance of Myths and Symbols: Zangbeto Cult" publicado no periódico "International Journal of Humanities, Social Sciences and Education" (IJHSSE), em novembro de 2014, Maduabuchi F. Dukor, professor e PhD em Filosofia da Universidade Nnamdi Azikiwe, na Nigéria.
Voltando ao livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts", é mencionado que o "Zangbeto" também é muito valorizado pelo povo Ogu por sua capacidade de assumir diferentes formas durante suas apresentações, que seriam chamadas de "Baile de Máscaras dos Zangbetos" (algo que também pode ser chamado de "Culto Mascarado a Zangbeto"). São essas apresentações, que geralmente vemos retratadas em inúmeros vídeos espalhados na internet, principalmente no YouTube. Para exemplificar isso, segundo o livro, existe um festival que acontece na cidade nigeriana de Badagry, anualmente, entre julho e agosto, e dura cerca de nove dias. No sexto dia do festival a Zangbeto, são oferecidas orações e um porco é abatido na praia como sacrifício pela paz e pela harmonia.

Dizem também, que o culto religioso e seus membros possuem poderes mágicos, que aumentam o desempenho de seus papéis na sociedade. É muito importante notar, que o livro também menciona que os "Zangbetos" formam uma espécie de "sociedade secreta", e que têm seu próprio templo, do qual normalmente saem para realizar suas tarefas de patrulhamento, atuando como vigias noturnos em diversos vilarejos ou em rituais de dança durante os festivais. Apesar do ritual ser predominantemente masculino, o livro aponta que mulheres, que passaram da idade de ter filhos (geralmente acima de 45 anos, muito embora essa não seja uma idade exata), também acompanham as festividades.

O "Zangbeto" também é muito valorizado pelo povo Ogu por sua capacidade de assumir diferentes formas durante suas apresentações, que seriam chamadas de "Baile de Máscaras dos Zangbetos" (algo que também pode ser chamado de "Culto Mascarado a Zangbeto").
São essas apresentações, que geralmente vemos retratadas em inúmeros vídeos espalhados na internet, principalmente no YouTube. Para exemplificar isso, segundo o livro, existe um festival que acontece na cidade nigeriana de Badagry, anualmente, entre julho e agosto, e dura cerca de nove dias.
Dizem também, que o culto religioso e seus membros possuem poderes mágicos, que aumentam o desempenho de seus papéis na sociedade. É muito importante notar, que o livro também menciona que os "Zangbetos" formam uma espécie de "sociedade secreta"...
...e que têm seu próprio templo, do qual normalmente saem para realizar suas tarefas de patrulhamento, atuando como vigias noturnos em diversos vilarejos ou em rituais de dança durante os festivais. A foto acima mostra um templo Zangbeto em Porto-Novo, no Benim.
No livro é mencionado que as pessoas, mesmo contando com forças policiais governamentais oficiais, ainda recorrem aos "Zangbetos", uma vez que elas acreditam que os mesmos são dotados de poderes sobrenaturais, que poderiam ajudar a pacificar as comunidades. As apresentações dos "Zangbetos" não são seriam remuneradas, ou seja, não teriam um aspecto financeiro envolvido, mas serviriam para alimentar a crença que seus membros fazem parte da sociedade, e que têm como objetivo identificar os maus atos ou comportamentos de uma pessoa (ou grupo de pessoas) na sociedade, sendo que tais situações seriam reveladas para as demais através de suas apresentações.

Assim sendo, um dos deveres dos "Zangbetos" é procurar por perpetradores dos males, especialmente aqueles que usam a escuridão para perpetuar o mal. No livro também é mencionado, que os "Zangbetos" possuem diversos truques, acrobacias e pantonímias, que servem basicamente para entreter e divertir o público.

Resumindo? Basicamente, até o presente momento podemos perceber que, segundo a tradição oral, de maneira totalmente genérica, o "Zangbeto" seria uma espécie de "ser" ou "espírito" ancestral do mar, que veio para a terra, e acabou sendo ainda mais venerado do que já era, através da inserção de inúmeros elementos religiosos, formando uma espécie de culto. Esse culto é praticado por diversos participantes, primordialmente do sexo masculino, que geraram uma "sociedade secreta", em diversas regiões onde membros do povo Ogu habitam. Esse culto tem como objetivo fazer com que os "Zangbetos", que nesse caso seriam reproduções da imagem original do próprio "ser" ou "espírito" coberto de folhas de palmeira-ráfia, vigiem os vilarejos durante a noite e a madrugada (normalmente entre às 23h e às 5h da manhã, sendo que durante esse período são montados bloqueios nas estradas, em pontos estratégicos), atuando como uma espécie de força policial informal, e exercendo, portanto, um importante controle social. Durante o dia, as apresentações ou festivais são realizados nas comunidades para reforçar a crença nos "Zangbetos" como promotores da ordem.

Assim sendo, um dos deveres dos "Zangbetos" é procurar por perpetradores dos males, especialmente aqueles que usam a escuridão para perpetuar o mal
É muito importante destacar nesse ponto, que o livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts" menciona que membros do sexo masculino desse culto, ou seja, pessoas de carne e osso, utilizariam o traje composto de folhas de palmeira-ráfia e máscaras, para patrulhar as ruas durante a noite e a madrugada. Portanto, fica bem explícito que existiria realmente uma pessoa por baixo do traje, independentemente ou não de seus supostos poderes sobrenaturais.

Já um guia turístico chamado "Benin: The Bradt Travel Guide", do escritor Stuart Butler, informa algo um pouco diferente. Segundo Stuart, os "Zangbetos" seriam homens fantasiados em transe, cujos corpos seriam temporariamente ocupados por espíritos, que possuem o conhecimento do que as pessoas fazem, quando pensam que ninguém está olhando. Os "Zangbetos" são muito peculiares e frequentemente são chamados de "palheiros dançantes" em folhetos turísticos, devido a sua aparência de "palheiro cônico", além do hábito de aparecer em performances para turistas e apresentações de dança. Durante suas atividades, os "Zangbetos" seriam seguidos de perto por assistentes, que atuam como intérpretes e como controladores de multidões, mas que, por estarem em contato próximo com os espíritos e os deuses, também possuem "poderes mágicos", incluindo a capacidade de fazer "coisas", assim como engolir cacos de vidro sem se ferir.

Já um guia turístico chamado "Benin: The Bradt Travel Guide", do escritor Stuart Butler, informa algo um pouco diferente. Segundo Stuart, os "Zangbetos" seriam homens fantasiados em transe, cujos corpos seriam temporariamente ocupados por espíritos, que possuem o conhecimento do que as pessoas fazem, quando pensam que ninguém está olhando.
Para completar, Stuart menciona que os "Zangbetos" dispensariam qualquer forma de julgamento tradicional, ou seja, eles teriam um poder próprio de julgar as pessoas pelos seus atos, sendo que os crimes considerados muito graves, poderiam ser punidos com a pena de morte. As mulheres também seriam terminantemente proibidas entre os "Zangbetos" (qualquer tentativa de participação seria punida com a morte), e entrada de não-membros nos templos também seria proibida. Novamente, apesar de estarmos falando de um mero guia turístico, que não pode ser considerado como uma fonte confiável de informação, temos mais um indicativo, que existe uma pessoa de carne e osso por baixo do traje utilizado pelos "Zangbetos".

O Culto a Zangbeto: A Mais Provável e Identificável Origem Histórica Remonta ao Século XVII


Para falar da mais provável origem histórica do que atualmente conhecemos como culto a Zangbeto, escolhi o ótimo artigo de Dominic Okure, PhD em Antropologia Cultural, do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Ibadan, na Nigéria, que teve um artigo intitulado "Symbolism and social control of Zangbeto among the Ogu of Southwestern Nigeria" ("O simbolismo e controle social do Zangbeto entre os Ogu do Sudoeste da Nigéria", em português) publicado na edição de junho de 2016, do periódico online "Cultural Anthropology and Ethnosemiotics" (CAES).

Para falar da mais provável origem histórica do que atualmente conhecemos como culto a Zangbeto, escolhi o ótimo artigo de Dominic Okure, PhD em Antropologia Cultural, do Instituto de Estudos Africanos da Universidade de Ibadan, na Nigéria, que teve um artigo intitulado "Symbolism and social control of Zangbeto among the Ogu of Southwestern Nigeria" publicado na edição de junho de 2016, do periódico online "Cultural Anthropology and Ethnosemiotics" (CAES).
Segundo Dominic, existem diversas interpretações sobre a origem do culto a Zangbeto. Todas elas estão parcialmente ancoradas na crença Ogu na reencarnação, e também parecem fundamentadas na visão que os espíritos ancestrais podem assumir formas humanas para interagir com os vivos. Há, no entanto, uma narrativa, que contém elementos históricos, que traça os "Zangbetos" até um certo homem chamado Te-Agbanlin, da cidade Abomey, a antiga capital do Reino de Daomé (atualmente a República do Benim). Te-Agbanlin teria sido filho de Zeririgbe, irmão do Rei de Allada, que migrou para Porto Novo (atual capital de Benim) como agricultor profissional em busca de novas fazendas no século XVII. Quando ele se estabeleceu em Porto Novo, por volta de 1684, ele conheceu habitantes locais que eram Nagô (ou Iorubás, um dos maiores grupos étnico-linguísticos da África Ocidental). Confira abaixo a história que foi contada pelo Chefe Francis Agoyon, líder da comunidade Ogu em Makoko, no estado nigeriano de Lagos, em julho de 2011:
"Te-Agbanlin pediu ao chefe do vilarejo de Aklon um pedaço de terra para se instalar, que ao menos acomodasse a pele de antílope que ele carregava, que era praticamente do tamanho do seu corpo. Quando lhe foi concedida a liberdade de escolha, ele cortou a pele do antílope em minúsculos pedaços, juntou-os para fazer uma longa corda com a qual ele cercou uma vasta porção de terra, na qual ele construiu uma enorme edificação. Na verdade, seu nome, 'Te-Agbanlin', significa 'perna de antílope', uma vez que ele era alto e magro. Para manter animais selvagens e invasores humanos afastados de sua edificação, ele projetou e ergueu figuras de 'Azo', que posteriormente se tornariam o 'zanho' ('casa da noite', algo que iremos falar daqui a pouco) na entrada da mesma. Com o chifre de um antílope, ele fez um equipamento semelhante a uma trombeta, que ele soprava para produzir um som aterrorizante, que assustava homens e animais. Com o passar do tempo, o chifre de antílope se tornou uma marca singular dos Zangbetos."


Há, no entanto, uma narrativa, que contém elementos históricos, que traça os "Zangbetos" até um certo homem chamado Te-Agbanlin, da cidade Abomey (na foto), a antiga capital do Reino de Daomé (atualmente a República do Benim). Te-Agbanlin teria sido filho de Zeririgbe, irmão do Rei de Allada...
 ...que migrou para Porto Novo (atual capital de Benim, na foto)
como agricultor profissional em busca de novas fazendas no século XVII.
Segundo Dominic, foi através dessa engenhosa e criativa ação, que Te-Agbanlin, emergiu a ideia de uma organização institucionalizada de segurança comunitária, tendo o "Azo" como seu principal símbolo, que mais tarde se tornaria a estrutura dos "Zangbetos" que conhecemos atualmente. No entanto, com o desenvolvimento da sociedade e o surgimento de estruturas organizacionais e sociais mais complexas, outros elementos dos valores socioculturais Ogu, incluindo as crenças religiosas, foram incorporados ao "Zangbeto" para lhe dar sua forma e conteúdo atuais.

Acreditava-se, por exemplo, que os espíritos ancestrais habitavam a estrutura (atualmente conhecida por zanho) construída por Te-Agbanlin, que posteriormente foi transformada em "Zangbeto" com mobilidade e poder sobrenatural. Simplificando? Não haveria nenhum espírito ancestral oriundo do mar ou nada de sobrenatural na origem dos "Zangbetos". Lembrando que toda a história foi contada por um líder comunitário Ogu, ou seja, alguém que, teoricamente, conhece a história do seu próprio povo.

Por outro lado, é essencial considerar, que a origem do culto a Zangbeto vai além de meros antecedentes históricos, e inclui a firme crença na reencarnação e a forte conexão entre o povo Ogu e seus espíritos ancestrais. Em segundo lugar, o "Zangbeto" emergiu da necessidade de segurança e proteção das forças físicas e espirituais inimigas. Sempre foi um aspecto integral e funcional da cultura Ogu, onde quer que eles sejam encontrados. Essas duas considerações definem o significado e a função do culto a Zangbeto na cultura contemporânea Ogu. Conforme já vimos e veremos por diversas vezes nesta matéria, o culto a Zangbeto serve como um agente de socialização através da comunicação e prevenção do crime através do vigilantismo. Aplica a paz através da mediação, resolve questões de conflito entre partidos e enfraquece os julgamentos através da coerção social. Também protege objetos e propriedades de vândalos através de seus diversos símbolos.

Por outro lado, é essencial considerar, que a origem do culto a Zangbeto vai além de meros antecedentes históricos, e inclui a firme crença na reencarnação e a forte conexão entre o povo Ogu e seus espíritos ancestrais. Em segundo lugar, o "Zangbeto" emergiu da necessidade de segurança e proteção das forças físicas e espirituais inimigas.
Acredito que também vale muito a pena mencionar, que existe uma outra origem para os Zangbetos, ao menos em relação a Nigéria, e que também não tem nenhuma relação com o sobrenatural ou com qualquer tipo de "alta magia africana". Essa origem foi mencionada em um estudo realizado por Rashidi Akanji Okunola, do Departamento de Sociologia da Universidade de Ibadan, na Nigéria, e por Matthias Olufemi Dada Ojo, do Departamento de Sociologia da Universidade Crawford, em Igbesa, também na Nigéria. Intitulado "Zangbeto: The Traditional Way of Policing and Securing the Community among the Ogu People in Badagry, Nigeria" ("Zangbeto: A Tradicional Forma de Policiar e Proteger a Comunidade entre o Povo Ogu em Badagry, na Nigéria", em português), o mesmo foi publicado em 2013 no periódico científico "Issues in Ethnology and Anthropology".

No estudo foi mencionado, que os Zangbetos teriam emergido como um grupo que visava proteger a cidade costeira de Badagry, na Nigéria, contra incursões externas. Em meados do século XIX, os reinos e estados vizinhos estavam interessados em ganhar o controle de Badagry, porque, com seu porto marítimo, era um elo estratégico no comércio transatlântico e um terminal para as rotas comerciais provenientes do interior. Considerando a história e a localização estratégica de Badagry, era lógico que um grupo como o Zangbeto fosse formado para proteger a cidade de seus poderosos vizinhos. De qualquer forma, em um determinado momento da linha do tempo, o Zangbeto expandiu seu escopo para incluir o entretenimento. Assim sendo, o Zangbeto tornou-se sinônimo de entretenimento cultural e o grupo foi estimulado a atuar em funções estatais.

A Estrutura, a Organização e a Simbologia Por Trás dos Zangbetos


A estrutura, categorias e diversos símbolos dos "Zangbetos", tanto na forma de uma estrutura mascarada, quanto de uma organização ou culto são alguns dos muitos elementos, que definem o seu lugar único e funcionalidade entre o povo Ogu. É importante enfatizar, desde o início, que os vários simbolismos do culto a Zangbeto são tão profundamente enraizados em sua forma e estrutura organizacional, que só podem ser devidamente discutidos em tais contextos.

A Estrutura de um Zangbeto


O chamado "Baile de Máscaras dos Zangbetos" (ou "Culto Mascarado a Zangbeto") é composto por algumas estruturas formais, que são visíveis em vários tamanhos, cores e especificações. O simbolismo formal de Zangbeto está contido em seus trajes, geralmente feitos de fibras especiais de folhas de palmeira-ráfia, que são tingidas com as cores desejadas, e posteriormente secas para serem utilizadas. Na maioria das culturas da África Ocidental, as folhas de palmeira - especialmente as folhas frescas - são símbolos de poder, e são tipicamente associadas à espiritualidade e magia tradicionais.

Assim sendo, esse material do traje elenca prontamente o Zangbeto ao reino espiritual, de modo que sua pureza e poder nunca são passíveis de questionamentos. Os corantes, que podem variar entre o vermelho, o verde, o amarelo, o roxo ou marrom (ou então uma mistura dessas cores), são obtidos a partir de uma mistura de algumas ervas especiais conhecidas por suas qualidades mágicas especiais, juntamente com algum corante local. Em alguns casos, uma tinta a óleo comum pode ser usada após o devido "tratamento ritualístico" da mesma.

O simbolismo formal de Zangbeto está contido em seus trajes, geralmente feitos de fibras especiais de folhas de palmeira-ráfia, que são tingidas com as cores desejadas, e posteriormente secas para serem utilizadas. Na maioria das culturas da África Ocidental, as folhas de palmeira - especialmente as folhas frescas - são símbolos de poder, e são tipicamente associadas à espiritualidade e magia tradicionais.
Essas cores, que transcendem os domínios da estética comum, são altamente simbólicas. Elas representam os vários aspectos da vida na ordem natural, tais como: vitalidade, fertilidade, progresso, dor, sacrifício, maturidade, entre outros. Elas também significam, que o Zangbeto compreende muitos aspectos da vida. As tiras de palmeira-ráfia, também conhecidas como "zanshan", são dispostas em um traje em formato de cone (semelhante a um chifre), que seria usado ou habitado pelo "espírito", com algumas outras vestimentas que, às vezes, são ligadas à parte superior (cabeça), e que servem a propósitos diferentes.

Esse traje é conhecido como "zanho", que significa literalmente "casa da noite". Isso dá ao Zangbeto a aparência de uma "casa em movimento". Às vezes, especialmente durante procissões ritualísticas (chamadas de "homa"), o "zanho" é feito de cordões de grama ou folhas de bananeira, que simbolizam a destruição e também criam a impressão de escuridão. Isso intensifica a grandiosidade do Zangbeto.

Exemplos de "Oho yin-yin Ataho". O traje dos "Zangbetos" é conhecido como "zanho", que significa literalmente "casa da noite". Isso dá ao Zangbeto a aparência de uma "casa em movimento". Às vezes, especialmente durante procissões ritualísticas (chamadas de "homa"), o "zanho" é feito de cordões de grama ou folhas de bananeira, que simbolizam a destruição e também criam a impressão de escuridão. Isso intensifica a grandiosidade do Zangbeto.
Existe também uma máscara coberta de grossos fios de palmeira-ráfia, quase invisíveis para os espectadores, a partir do qual o "espírito" opera. Esses trajes simbólicos são sagrados e, portanto, os não iniciados e as mulheres não devem ter contato com ele sob nenhuma circunstância, a menos que certos rituais sejam realizados. Ao contrário da maioria dos outros "cultos mascarados", o Zangbeto não deveria possuir, ao menos em tese, partes do corpo identificáveis, embora isso fique bem claro em inúmeros vídeos e fotos disseminados na internet (veremos isso no decorrer desta matéria). Não deveria aparecer membros (mãos e pernas) ou rosto. Perante o público, o Zangbeto é capaz de operar com tamanha agilidade e facilidade, que sua performance serve para intensificar o elemento de "mistério". Além de fortalecer a identidade mística do Zangbeto, esta forma simbólica protege o próprio Zangbeto de ameaças limitantes, assim como a semelhança humana e o gênero, tornando-o uma "entidade" neutra, mas inclusiva.

Nem todo "zanho", no entanto, é igual. Na maioria das comunidades Ogu existem quatro diferentes tipos ou categorias identificáveis de "Zangbetos" em termos de designação e simbolismo. É exatamente isso que veremos a partir de agora.

Zanholu


O Zanholu é o "Chefe" ou "Rei" de todos os outros "Zangbetos". Geralmente, ele é maior e mais alto que os demais. O Zanholu normalmente aparece apenas uma única vez a cada três anos durante o "Grande Festival dos Zangbetos"; na posse de um "Aholu" (uma espécie de "Rei" local) ou cerimônia funerária de altos chefes ou membros do alto escalão dos "Zangbetos", assim como o "Zangan" (sacerdote-chefe dos Zangbetos). O Zanholu é celebrado como um espírito, que vive no mar, e geralmente vem de sua profundeza. Ele emerge diretamente das águas no interior de uma determinada localidade por volta da meia-noite. Vale ressaltar nesse ponto, que os assentamentos do povo Ogu geralmente estão localizados em áreas costeiras ou próximos a rios, o que "facilita" o aparecimento do Zanholu.

Confira abaixo um vídeo publicado em um canal de terceiros, no YouTube, mostrando o que seria um Zanholu:



O "Aholu" e seus membros do alto escalão dão as boas-vindas, e o escoltam em direção a um determinado vilarejo. O Zanholu normalmente permanece invisível e incomunicável na comunidade por cerca de três dias antes de aparecer para o público em geral. Talvez seja por isso, que o Zangbeto é erroneamente mencionado por algumas pessoas como se sua origem tivesse sido a partir do mar, assim como já mencionamos anteriormente.

Ataho


Existe também o Ataho, que é o mais popular e o mais comumente visto na hierarquia dos "Zangbetos", especialmente durante manifestações culturais e festividades locais. O Ataho é bem espetacular e impressionante devido suas habilidades de dança e atos mágicos durante as apresentações. Por exemplo, há apresentações em que é colocado fogo em um Ataho. Em seguida, é colocado um outro traje (zanho) por cima das cinzas e, instantaneamente, o mesmo se torna um "Zangbeto" repleto de "vida" e "movimento". Um Ataho também pode "dar à luz" a um "Zangbeto" mais jovem durante as apresentações, sendo que nesse caso um "Zangbeto" mais jovem surge por baixo do "Ataho" maior. Esse ato de "dar à luz" é mais um dos simbolismos dos "Zangbetos".

Um Ataho também pode "dar à luz" a um "Zangbeto" mais jovem durante as apresentações, sendo que nesse caso um "Zangbeto" mais jovem surge por baixo do "Ataho" maior. Esse ato de "dar à luz" é mais um dos simbolismos dos "Zangbetos".
Segundo o Alto Chefe Metonu Nugboweyon, da comunidade de Ajido, em Badagry, na Nigéria, esse é um sinal de aumento de produtividade, que os "ancestrais" outorgam à terra por sua presença. Também é sinal de mistério sobre o gênero dos "Zangbetos".

Em uma declaração dada em 2012, Nugboweyon disse que esse era um sinal de abundância. Ainda segundo ele, um homem não pode dar à luz. Portanto, os "ancestrais" não são nem homens nem mulheres, e teriam o poder para fazer qualquer coisa. Seria por essa razão, que os "Zangbetos" não seriam homens e nem mulheres, mas poderiam ser ambos ao mesmo tempo.

O Ataho, que é o mais popular e o mais comumente visto na hierarquia dos "Zangbetos", especialmente durante manifestações culturais e festividades locais.
É bem significativo que, sendo essencialmente um culto masculino, o Zangbeto encarna e celebra um aspecto da vida que pertence exclusivamente à mulher. O equilíbrio de gênero no culto aos "Zangbetos", reflete a neutralidade de gênero dos espíritos ancestrais. Isso acaba facilitando a aceitação dos "Zangbetos" por todos, independentemente do gênero. Embora isso não implique necessariamente que o culto a Zangbeto esteja aberto a homens e mulheres em igualdade de condições, isso enfatiza a inclusão de gênero em relação aos mesmos, e demonstra, de certa forma, a oposição dos "ancestrais" à discriminação contra as mulheres.

Oho yin-yin Ataho


A terceira categoria de "Zangbeto" na hierarquia é chamada Oho yin-yin Ataho. Este Zangbeto é menos complexo em seu formato (seu traje, por assim dizer), porém é mais ágil e notável em suas habilidades de dança e exibições acrobáticas. Assim sendo, o Oho yin-yin Ataho é geralmente um símbolo da juventude, conforme demonstrado pela sua agilidade e falta de complexidade.

A terceira categoria de "Zangbeto" na hierarquia é chamada Oho yin-yin Ataho. Este Zangbeto é menos complexo em seu formato (seu traje, por assim dizer), porém é mais ágil e notável em suas habilidades de dança e exibições acrobáticas.
Uma espécie de "janelinha" muito comum em todos os trajes de "Zangbetos",
algo que irei comentar na parte final desta matéria.
Simboliza que os "ancestrais" não possuem apenas a vitalidade e agilidade da juventude, mas também têm os poderes e prerrogativas de conferir estas qualidades à comunidade. Costuma-se mencionar localmente que, no reino dos espíritos, a idade não é um fator preponderante.

Ohosi


Outro membro da família dos "Zangbetos" é o Ohosi, uma espécie de versão guerreira dos "Zangbetos". Ele também é referido como "Ogbo" ("Bode", em português), devido sua obstinação e comportamento inflexível. Esse "Zangbeto", em particular, é um símbolo de força, bravura e resiliência para o povo Ogu em geral. Essa seria a razão pela qual o mesmo é usado como "símbolo de todos os Zangbetos", ao menos na maioria dos casos, quando uma representação é erguida em locais públicos. Há indícios de que o nome e a função deste "Zangbeto" têm algumas ligações interculturais com Oshosi (Oxóssi), o orixá da caça, florestas, dos animais, da fartura, e do sustento.

Há outras características notáveis sobre o Ohosi, que intensificam seu mistério e grandiosidade, e que são dignas de serem mencionadas. Em primeiro lugar, no idioma Ogu as palavras com finais "si" são geralmente indícios de palavras que apresentam gênero feminino. Portanto, é notável que um guerreiro obstinado, que simboliza força, masculinidade e resiliência tenha um sugestivo nome feminino. Em segundo lugar, Ohosi sempre é visto carregando "chifres com cabelo trançado". Esta também seria uma característica feminina exibida por um guerreiro, que simboliza a masculinidade.

Ohosi sempre é visto carregando "chifres com cabelo trançado". Esta também seria uma característica feminina exibida por um guerreiro, que simboliza a masculinidade.
Portanto, este aspecto dos "Zangbetos", mais uma vez enfatiza fortemente o elemento de equilíbrio de gênero dentro do culto e neutralidade de gênero dos "espíritos ancestrais". Isso indica, que a plenitude da força humana não reside exclusivamente nos gêneros masculinos ou femininos, mas na harmonia entre ambos.

Como se Tornar um Zangbeto?


Teoricamente, qualquer homem com mais de 18 anos, que pertença a sociedade Ogu, pode se tornar um "Zangbeto". Na verdade, de acordo com o Alto Chefe Metonu Nugboweyonm, que também é membro do "comitê administrativo" de Badagry, a filiação ao culto a Zangbeto seria algo obrigatório para todos os homens do povo Ogu. No entanto, é importante fazer uma clara e honesta distinção entre os dois tipos ou categorias de filiação a esse culto.

Existe uma filiação ordinária, ou seja, comum, através de identidade externa, solidária e inclusiva, que envolve o pagamento de um token, uma simples iniciação e aquisição de um nome codificado secreto, que serve como uma senha para o iniciado. O nome codificado é fornecido na iniciação. Essa filiação serve para fornecer certas "imunidades" ao membro em relação as restrições, que normalmente são impostas a não-membros. Essa filiação ordinária ao culto a Zangbeto também costuma ser aberta a homens, que não pertencem ao povo Ogu, mas que moram em comunidades Ogu, diante de certas condições, é claro. Esta é uma característica única no culto a Zangbeto, que a distingue da maioria dos cultos mascarados da Nigéria e da África Ocidental.

Teoricamente, qualquer homem com mais de 18 anos, que pertença a sociedade Ogu, pode se tornar um "Zangbeto". Na verdade, de acordo com o Alto Chefe Metonu Nugboweyonm, que também é membro do "comitê administrativo" de Badagry, a filiação ao culto a Zangbeto seria algo obrigatório para todos os homens do povo Ogu.
Em outro nível, existe a filiação no chamado "círculo interno", que implica na participação e no compromisso de solidariedade grupal no culto. Essa filiação geralmente acontece através de processos de observação, escolha e iniciação, e não está aberta a todos, ou seja, é basicamente feito através de um convite após um processo seletivo interno e particular. 

Essa filiação dá aos iniciados o direito de se tornar e ascender na hierarquia dos "Zangbetos". Também serve como uma medida de integração social e solidariedade entre a casta masculina Ogu. Consequentemente, nem todo homem pode se tornar, de fato, um "Zangbeto". Além disso, embora não haja, "teoricamente",  benefícios financeiros por pertencer à organização (algo que veremos, que não é bem assim, mais a frente), os membros têm um orgulho especial em sua participação na mesma, mantendo uma coesão interna, solidariedade e disciplina culturais em suas funções. Eles também são regidos por certas regras de conduta.

Em outro nível, existe a filiação no chamado "círculo interno", que implica na participação e no compromisso de solidariedade grupal no culto. Essa filiação geralmente acontece através de processos de observação, escolha e iniciação, e não está aberta a todos, ou seja, é basicamente feito através de um convite após um processo seletivo interno e particular.
Outro elemento único relativo à filiação ao culto a Zangbeto é que, embora seja um culto masculino, existe um nível,  no qual uma certa categoria de mulheres é admitida em seus círculos internos. Essas mulheres desempenham papéis bem significativos na organização. Elas são admitidas e iniciadas no culto com base em considerações como maturidade física e psicológica, assim como suas capacidades em manter segredos. Além de realizar certos aspectos de vigilância para os "Zangbetos", as mulheres Zangan desempenham papéis muito ativos em outras áreas da organização. Suas identidades geralmente não são divulgadas por razões de segurança, entre outros motivos.

Este aspecto do culto é bem significativo quanto único, pois permitiu que o mesmo explorasse os dois mundos (masculino e feminino) e extraísse o melhor de suas riquezas. Aliás, essa informação contradiz o que foi mencionado pelo guia turístico, no início desta matéria, onde dizia que a participação de mulheres poderia ser punida com a morte. Essa é a razão pela qual guias turísticos não são fontes confiáveis, quando se decide estudar um determinado assunto.

Organização e Liderança Dentro do Culto a Zangbeto


O "Zangan" supervisiona o culto a Zangbeto. Devido à grande importância deste cargo, o "Zangan" é escolhido pelos membros do grupo após uma consulta com o "Aholu" ("Rei" local) ou com o "Totagan" (Regente do "Rei"). Embora o "Zangan" possua cargo vitalício, a posição é rotativa entre os grupos de mesmo parentesco representados no culto, e não pode ser herdada. O "Zangan", portanto, é uma espécie chefe-geral ou sacerdote-chefe do culto a Zangbeto, respondendo diretamente ao "Aholu" ou o "Totagan", e também desempenha funções legítimas de um membro do conselho dirigente.

O "Zangan" é o mediador entre o "Zangbeto" e a comunidade em questões sensíveis, aconselha o "Aholu" ou "Totagan", e representa pessoas abaixo dele no nível de hierarquia. Assim sendo, o "Zangan" costuma ser uma pessoa de integridade comprovada. O "Aholu" como líder do povo é o ponto de referência em todas as questões sociopolíticas, culturais, organizacionais, culturais e outras relacionadas à comunidade.
O "Zangan" é o mediador entre o "Zangbeto" e a comunidade em questões sensíveis, aconselha o "Aholu" ou "Totagan", e representa pessoas abaixo dele no nível de hierarquia. Assim sendo, o "Zangan" costuma ser uma pessoa de integridade comprovada. O "Aholu" como líder do povo é o ponto de referência em todas as questões sociopolíticas, culturais, organizacionais, culturais e outras relacionadas à comunidade.
Cada "Zangbeto" tem um ou mais assistentes ou guarda-costas masculinos conhecidos como "Kregbetos", que significa, literalmente, "Homens do Dia". Eles são os responsáveis por dar as diretrizes ou orientações às multidões a partir do que é mencionado pelos "Zangbetos", e coordenar a sequência de eventos dos "Zangbetos" durante apresentações públicas. Os "Kregbetos" dominam as artes simbólicas dos "Zangbetos", e estão sempre em posição de interpretar seus humores e inclinações, bem como transmiti-las à multidão.

Existe também o "Kogan", que está um posto acima do "Kregbeto", mas um posto abaixo do "Zangan". O "Kogan" é como um supervisor ou superintendente em aspectos logísticos e cerimoniais da organização. O "Kogan" não acompanha necessariamente o "Zangbeto" durante as apresentações, embora eles geralmente estejam presentes. No entanto, eles cuidam do santuário e ajudam o "Zangan" em assuntos cerimoniais. Assim como os membros do círculo interno do culto a Zangbeto, o "Kregbeto" e o "Kogan" também precisam ser homens de integridade comprovada dentro do culto, da comunidade e da sociedade em geral.

Cada "Zangbeto" tem um ou mais assistentes ou guarda-costas masculinos conhecidos como "Kregbetos", que significa, literalmente, "Homens do Dia". Eles são os responsáveis por dar as diretrizes ou orientações às multidões a partir do que é mencionado pelos "Zangbetos", e coordenar a sequência de eventos dos "Zangbetos" durante apresentações públicas.
Existe um santuário para o Zangbeto em cada localidade ou bairro. É onde os trajes (os zanhos) e outros aparatos de culto, incluindo instrumentos musicais, são respeitosamente mantidos. Além disso, e especialmente antes de apresentações importantes, assim como o principal festival relacionado aos "Zangbetos", quando o Zanholu aparece, um grupo de seus membros (também considerados como "caçadores") ocasionalmente se reúne em um santuário central. O mesmo está localizado em um bosque local, onde outros emblemas cerimoniais e ornamentos são mantidos para realizar seus rituais sagrados.

Na entrada do bosque há uma estátua para Legba (um Vodu precursor), a força operacional dentro do "Zangbeto". Este símbolo indica, que somente membros iniciados podem entrar no bosque.

O Grupo Sociocultural "Ogu"


Vamos fazer um rápido desvio para falar sobre o grupo sociocultural Ogu, que comumente é referido como "Egun". Embora o idioma desses povos já tenha sido chamado de Gu, Gugbe ou Egun, no artigo intitulado "Symbolism and social control of Zangbeto among the Ogu of Southwestern Nigeria" ("O simbolismo e controle social do Zangbeto entre os Ogu do Sudoeste da Nigéria", em português), Dominic preferiu aplicar o termo "Ogu" tanto para se referir ao povo quanto ao seu idioma, uma vez que, de fato, não haveria justificativa para atribuir diferentes nomenclaturas. Aliás, isso é consistente com outros grupos linguísticos como o Iorubá, o Efik, o Hausa, o Ibibio, o Igbo e outros na Nigéria, por exemplo, que possuem a mesma designação tanto para as pessoas quanto para seus idiomas.

Na verdade, já chegaram a mencionar que o termo "Egun" seria uma corrupção do termo "Gu" devido a contatos interculturais com os Iorubás durante o aumento do comércio de Oyo (a captura de escravos, lembrando que os grandes reinos africanos compostos por negros prosperam justamente com o tráfico de escravos negros) durante o século XVIII, que fez com que diversos grupos de Iorubás migrassem e assentassem, onde atualmente é a cidade de Badagry, no estado de Lagos, na Nigéria.

Regiões de Gana e Benim com raízes Ogu
As maiores comunidades Ogu no estado nigeriano de Lagos
O Ogu é um idioma dos Ajas (povos nativos de Benim e de Togo), que compartilha um certo nível de inteligibilidade mútua com os idiomas "Ewe" e "Fon", que é falado nas regiões entre o baixo Volta, no sul de Gana, e o extremo norte da Nigéria pela fronteira Nigéria-Benim. É também uma unidade da família de idiomas "Kwa" da África Ocidental. Por sua vez, o idioma "Kwa" constitui uma subfamília da família Nigero-Congolesa, que também é falada em Benim e Togo, e que pertence a família Congo-Kordofaniano. Uma narrativa recente ligou os idiomas "Ewe", "Fon" e "Gu" (Ogu) a uma ancestralidade primordial em comum, que remonta a Cam (segundo filho de Noé na Bíblia cristã). No entanto, alguns estudiosos já opinaram dizendo que certas teorias africanas sobre as origens, incluindo aquelas com "sabor caímico" podem ter sido influenciadas pelo desejo de estabelecer igualdade étnica entre diferentes grupos ou então afirmar a superioridade de um grupo perante aos demais. Por mais que os traços culturais entre os povos possam ter outras explicações, é importante ressaltar que o povo Ogu possuem um idioma à parte, sendo possível rastrear sua origem até a República do Benim.

Devido a certos traços transculturais entre os povos, alguns estudiosos sugeriram uma origem em comum para os povos Iorubá e Ogu. Isso, no entanto, tem sido contestado com evidências linguísticas e históricas, juntamente com aqueles que ligam o povo Ogu de Badagry com os refugiados das guerras de Daomé (um antigo reino africano pré-colonial situado onde atualmente é a República do Benim) do século XVIII.
Comunidades Ogu no estado de Ogun, na Nigéria
O povo Ogu, na África Ocidental, está assentado principalmente ao longo das regiões desde Porto Novo e Weme, na República do Benim, até os assentamentos Awori, ao longo do riacho Badagry, nas cidades de Ojo e Lagos, na Nigéria. Na Nigéria, a quantidade de membros chega a 15% da população do Estado de Lagos, e eles vivem principalmente nas cidades de Igbobele, Kweme, Aivoji, Iweseme e aldeias do eixo de Badagry. Seu domínio também inclui várias aldeias e vilarejos como Apa, Gberefu, Topo, Ajara, Erekiti, Ajido e muitos outros.

A produção de sal também incentivou o desenvolvimento de algumas aldeias e assentamentos do povo Ogu. Como exemplo, podemos citar a aldeia de Bapo, em Igbogbele, que era bem conhecida como um local de produção de sal. Membros do povo Ogu também são encontrados nas comunidades Yewa de Mowo, Ipokia, Igbeji e Ijofin, no Estado de Ogun, embora em uma proporção marginal (pouco significativa), enquanto alguns bolsões muito menores de comunidades Ogu também podem ser encontrados em algumas partes de Abeokuta e Ifo, também no Estado de Ogun.

O Tríplice Simbolismo do Culto a Zangbeto na Cultura Ogu


Além dos simbolismos inerentes à estrutura formal e organizacional do culto a Zangbeto, conforme mencionado anteriormente, há também outros aspectos da estrutura sociocultural da Ogu em que ela prospera. Sendo um elemento distintivo e indiscutivelmente um dos mais celebrados da cultura Ogu, o mesmo mantém a característica principal de sua estrutura organizacional, onde quer que seus membros morem. Isso acaba influenciando todos os aspectos da vida das pessoas. A tradição do Zangbeto entre o povo Ogu, ao longo dos anos, se expressa em três principais aspectos.

Em primeiro lugar, é uma organização que fornece segurança e mantém a lei e a ordem dentro da comunidade. Em segundo lugar, é um culto que incorpora, preserva e celebra a presença de "espíritos ancestrais" entre as pessoas. Em terceiro lugar, é um disfarce cultural que emociona, diverte e perpetua a herança e identidade do povo Ogu. É nesse "tripé" compreendido por um sistema de organização, um sistema de veneração religiosa e um sistema cultural, que o culto a Zangbeto estabelece e sustenta seu simbolismo e poderosa influência em toda a comunidade Ogu.

O Simbolismo em Termos de Organização


O "Zangbeto" é considerado como a força policial do "Aholu". Isso é porque tem sido e continua sendo uma força poderosa, e um elemento indispensável de segurança e manutenção da lei e da ordem dentro das comunidades Ogu. Esse aspecto do "culto mascarado" é a essência de sua fundação e existência, e também se destaca como o mais distinto e valioso de seus simbolismos e funções. Como o próprio nome sugere, o "Zangbeto" ("Homem da Noite") desempenha a função de vigilante noturno, patrulhando localidades, vigiando pessoas e lares, detectando ladrões e feiticeiros, além de fazer justiça. Acredita-se que, através de uma combinação de sua "força física" e "poderes espirituais", o mesmo afasta elementos indesejáveis ​​da comunidade com facilidade.

Teoricamente, o "Zangbeto" não seria o responsável por criar regras para as comunidades, porém, ao mesmo tempo, não receberia ordens de ninguém. Ele operaria dentro dos limites das regras substantivas da comunidade em relação aos conjuntos de comportamentos, que são geralmente aceitos ou são considerados desviantes e precisam de um certo controle. A posse de poder material ou político não exclui ninguém da vigilância do "Zangbeto", nem torna ninguém imune as suas sanções. Ninguém estaria acima do "Zangbeto", nem mesmo a mais influente pessoa de uma comunidade.

Teoricamente, o "Zangbeto" não seria o responsável por criar regras para as comunidades, porém, ao mesmo tempo, não receberia ordens de ninguém. Ele operaria dentro dos limites das regras substantivas da comunidade em relação aos conjuntos de comportamentos, que são geralmente aceitos ou são considerados desviantes e precisam de um certo controle.
Atualmente, para vocês terem uma ideia, o Zangbeto, como organização, é membro da Estrutura Informal de Policiamento do Estado de Lagos (LSIPS). Conforme já foi demonstrado em diversos estudos e artigos acadêmicos, o Comando da Polícia do Estado de Lagos reconhece o Zangbeto (especialmente dentro da região de Badagry) como um grupo de vigilantes comunitários com licença para prender criminosos e apresentá-los a força policial formal para serem devidamente indiciados e, eventualmente, processados pelo Estado.

O Simbolismo em Termos de um Sistema de Veneração Religiosa


Acredita-se que o Zangbeto (assim como "Oro" e o "Egungun" entre os Iorubás) seja a reencarnação de ancestrais, que continuam a proteger e apoiar seus descendentes. Confira o que disse o Chefe Emmanuel Shokoti, líder da comunidade Ebute-Oko, na região da Baía de Tarkwa, no estado nigeriano de Lagos, em uma declaração concedida em agosto de 2011:
"Todo homem negro tem uma maneira de prestar respeito aos seus ancestrais e manter seu espírito vivo na comunidade... Este é o caso de Zangbeto, que representa os ancestrais de todos os Ogu, em todos os lugares."
Vestir o traje (o "zanho") permite que a "estrutura mascarada" ou "mascarado" seja possuída(o) pelo espírito ancestral, que por sua vez possui um conhecimento especial sobre as ações e motivações das pessoas. É por isso que o "zanho" é considerado mais do que apenas uma fantasia ou uma obra de arte; seria também uma casa de encontro entre o mundo dos ancestrais e o nosso mundo, por assim dizer. Aliás, há uma forte convicção entre os Ogu de que o próprio símbolo (estátua) do Zangbeto em si não é apenas um motivo de reverência, mas também tem o poder de afastar os inimigos e potenciais intrusos. Assim sendo, erguer uma estátua de Zangbeto em alguns locais estratégicos entre determinadas comunidades Ogu vai além da mera estética. Além disso, até mesmo um único fio de ráfia extraído do traje de um "Zangbeto", que é chamado de "zanshan", é altamente simbólico e cheio de poder místico. Acredita-se que um único fio possui os mesmos poderes do próprio Zangbeto. É frequentemente usado para impor restrições em lugares e itens, designando-os como proibidos. Como se não bastasse, o "zanshan" do "zanho" de um Ohosi chega a ser usado na imposição de sanções e para o cumprimento de "decisões judiciais".

Acredita-se que o Zangbeto (assim como "Oro" e o "Egungun" entre os Iorubás) seja a reencarnação de ancestrais, que continuam a proteger e apoiar seus descendentes.
O "Zangbeto" constitui uma sociedade secreta com um estrito código sigiloso em determinados assuntos. A "estrutura mascarada" ou "mascarado" tem a capacidade de revelar segredos do mal e assustar feiticeiros e bruxas. De acordo com alguns escritores, o "Zangbeto" evoca um poder que diz ter habitado a Terra muito antes do aparecimento do homem e fornece uma fonte de sabedoria e continuidade. Os representantes dos espíritos dos ancestrais Zangbeto são mediadores entre as gerações do presente e as ancestrais. O "Zangbeto" também protege as comunidades contra os maus espíritos, epidemias, fome, feitiçaria e malfeitores, assim como garante o bem-estar, a prosperidade e a produtividade de toda a comunidade. As orações e bênçãos oferecidas pelos "Zangbetos" são consideradas eficazes, e as pessoas costumam ser vistas oferecendo dinheiro ao "Zangbeto" em troca de tais bênçãos. Esse é um detalhe interessante, porque apesar das apresentações não serem cobradas, a própria população oferece dinheiro, algo que pode denotar, ainda que de forma velada, um interesse financeiro em ser um "Zangbeto".

Embora raramente seja ouvido, exceto durante o vigilantismo ou em uma oração, o "Zangbeto" projeta a si mesmo na forma de uma voz. Ele usa uma versão especial do idioma Ogu, que difere significativamente do uso diário. Esse uso de uma linguagem especial imediatamente a distingue do reino da vida cotidiana. Mencionam que sua voz é muito enérgica e intensa. Ela seria horrenda, "sobrenatural", e tão incrivelmente assustadora, que o ouvinte não conseguiria deixar de associá-la a algo de cunho "sobrenatural" ou, no mínimo, extraterrestre. Essa voz serve como uma força poderosa, que atrai o respeito e a reverência de todos pelos "Zangbetos".

O Simbolismo em Termos de Cultura


Além dos festivais anuais, os "Zangbetos" ocasionalmente fazem apresentações públicas para celebrar a cultura Ogu. Tais apresentações são realizadas, por exemplo, durante funerais de membros ou altos chefes, ou em alguns casos, para receber visitantes eminentes ou simplesmente para entreter as pessoas. Nessas ocasiões, a música e as canções, juntamente com os "kregbetos", mulheres e crianças acompanham os "Zangbetos". Além disso, as mulheres desempenham um papel notável ao entoar o apelido dos "Zangbetos" ("mlayin"), cantando e dançando, algo que, por sua vez, estimula e extrai tudo o que houver de melhor da "estrutura mascarada" ou do "mascarado". Em tais ocasiões um "Ataho" também dá à luz. Além disso, o "zanho" que abriga o Zangbeto é ocasionalmente erguido do chão e virado de cabeça para baixo para mostrar que não há ninguém além de um espírito dentro. Isso intensifica a autoridade do "Zangbeto" sobre o povo e permite que ele sirva como um efetivo mecanismo informal de controle social. Contudo, iremos mostrar daqui a pouco, que existem pessoas, em transe ou não, no interior desses trajes, e que tudo não passa de um truque de ilusionismo.

O poder e a eficácia geral da organização "Zangbeto" deriva amplamente da solidariedade orgânica interna, que existe em sua estrutura organizacional, e entre a organização e a comunidade. Isso significa que, dentro da própria organização existe um elemento da sociedade, e entre a organização e a comunidade Ogu, dentro da qual ela funciona, há uma ação recíproca de compromisso e aceitação que não pode ser facilmente negligenciada. Este elemento, que fortalece o "Zangbeto" na prevenção, apreensão e punição de comportamentos criminosos e desviantes, assim como na garantia da ordem geral da comunidade, é considerado vital para a criação de modelos de controle social funcionais e eficazes.

O poder e a eficácia geral da organização "Zangbeto" deriva amplamente da solidariedade orgânica interna, que existe em sua estrutura organizacional, e entre a organização e a comunidade. Isso significa que, dentro da própria organização existe um elemento da sociedade, e entre a organização e a comunidade Ogu, dentro da qual ela funciona, há uma ação recíproca de compromisso e aceitação que não pode ser facilmente negligenciada
Um dos pontos-chave sobre a eficácia e a força do "Zangbeto" no processo de controle social é a percepção positiva do povo Ogu, baseada nas formas de atuação e no relacionamento com a comunidade. Os "Zangbetos" não carregam nenhuma arma física, nem se envolvem em confrontos violentos. Por outro lado, opera de forma eficaz. Isso implica que o controle social efetivo deve ser primeiramente orientado para a comunidade; deve ser derivado de relações positivas entre os agentes de controle e a comunidade; também deve se basear na percepção positiva mútua, e não no uso da força. Isso se aplica especialmente ao policiamento, uma vez que, como um conceito, ele é governado pelas mesmas variáveis, usos e interpretações como controle social, de modo que um é frequentemente usado para descrever o outro. Isso requer um alto nível de tolerância, tranquilidade e neutralidade. Não deve ser partidário, e precisa ser acomodador de outros pontos de vista. Também não deve ser tendencioso e menos coercitivo. Em segundo lugar, para que o controle social seja efetivo, ele deve operar através das normas e sistemas de valores que são familiares e significativos para as pessoas cuja vida ele procura regular e salvaguardar. Em outras palavras, fatores culturais e sociais, em todas as suas peculiaridades, devem ser considerados de maneira adequada.

O culto a Zangbeto e seus métodos de operação estão profundamente enraizados nas normas socioculturais Ogu e no sistema de valores, que também estão intimamente ligados à religiosidade. O fracasso do sistema formal de controle social e seus diversos órgãos na Nigéria, por exemplo, é o resultado de sua alienação (em conteúdo e forma) das pessoas e seus valores.

O culto a Zangbeto e seus métodos de operação estão profundamente enraizados nas normas socioculturais Ogu e no sistema de valores, que também estão intimamente ligados à religiosidade. O fracasso do sistema formal de controle social e seus diversos órgãos na Nigéria, por exemplo, é o resultado de sua alienação (em conteúdo e forma) das pessoas e seus valores
Segundo Dominic Okure (artigo "Symbolism and social control of Zangbeto among the Ogu of Southwestern Nigeria"), os atuais esforços de controle social da Nigéria parecem subestimar o fato de que o estilo de vida dos nigerianos é fundamentalmente diferente de suas contrapartes ocidentais ou europeias. Modelos estrangeiros de controle social podem não ser eficazes na regulação de relacionamentos dentro dos contextos sociais e culturais nigerianos. Por outro lado, a persistência de sistemas de controle social como o "Zangbeto" expõe as inadequações dos sistemas formais de controle. Para obter justiça, por exemplo, é preciso investir muito em tempo, dinheiro e outros procedimentos burocráticos, o que muitas vezes resulta em humilhação, sendo que a maioria das pessoas não pode pagar. Qualquer esforço de controle social, seja ao empregar a justiça, na prevenção e controle do crime ou na aplicação da lei, que siga as regras de conduta oficiais, e que não reflitam os valores e aspirações tradicionais do povo, provavelmente não será eficaz, e nem mesmo resiliente a longo prazo.

A importância das considerações culturais na avaliação da dinâmica dos mecanismos e teorias de controle social nos esforços para desenvolver modelos eficazes de controle para diferentes tipos de sociedades não pode ser superestimada. A singularidade das sociedades e a diversidade nas normas que orientam seus sistemas de valores não podem ser ignoradas na criação de seus modelos de controle social. A adoção e aplicação de modelos unitários ou idênticos de controle social para toda e qualquer sociedade não é capaz de produzir resultados igualmente tangíveis. Mesmo dentro do espaço sociocultural da Nigéria, que é relativamente homogêneo em termos de visão básica de mundo, existe tal diversidade nos sistemas de valores, que modelos similares de controle social talvez não alcancem a mesma eficácia em diferentes regiões. O sucesso ou a eficácia do "Zangbeto "como um aparato de controle social deriva principalmente do fato de que ele está profundamente enraizado nas tradições culturais e no sistema de crenças do povo Ogu.

O Controle Social e os "Cultos Mascarados" da África Ocidental


O controle social é geralmente percebido na forma de processos e mecanismos colocados em prática dentro de uma sociedade para regular o comportamento com objetivo de moderar a infração das regras estabelecidas. Assim sendo, ele indica como uma sociedade precisa garantir que as regras, que governam a conduta humana, sejam cumpridas formalmente e informaticamente através de agentes tais como: família, parentes, empregadores, colegas de trabalho, funcionários do governo, líderes locais, tribunais, polícias, penitenciárias, exército, religião e, mais recentemente, mídias de massa, mídias sociais, entre outras.

Cada grupo de pessoas, na forma de um domínio cultural, desenvolveu maneiras de lidar com questões de controle social e resolução de conflitos em suas próprias circunstâncias. Portanto, a chave para entender o sistema de controle social de uma cultura é entender a norma na qual ela se baseia. Enquanto no "mundo ocidental" os mecanismos de aplicação da lei e outras medidas de controle social formais ou estatais parecem ter conseguido uma certa confiabilidade, ao menos em grande parte dos países desenvolvidos, eles não são igualmente bem-sucedidos na maioria das sociedades africanas. Embora pareça anacrônico tentar explicar essa lacuna ou disparidade puramente em termos de diferenças culturais, isso serve para demonstrar a inadequação de uma adoção e aplicação unilateral de modelos ocidentais no avanço socioeconômico e político por parte de sociedades "não ocidentais".

O controle social é geralmente percebido na forma de processos e mecanismos colocados em prática dentro de uma sociedade para regular o comportamento com objetivo de moderar a infração das regras estabelecidas.
Entre as sociedades da África Ocidental, os "cultos mascarados" sempre desempenharam um papel significativo no controle social. Embora isso seja menos óbvio atualmente em algumas sociedades do que em outras, o poder dos "cultos mascarados" continua sendo uma força poderosa. Isso ocorre porque os mascarados ainda não foram identificados como indivíduos particulares dentro da sociedade. Sua identidade mística e a percepção de sua ligação próxima aos reinos ancestrais reduziram significativamente os preconceitos em suas operações, abrindo-os para uma ascensão espiritual ou sobrenatural por parte da população. Os "mascarados" da África Ocidental geralmente conseguem obter um extremo respeito em suas configurações tradicionais não apenas por causa de sua percepção como seres ancestrais etéreos, mas também porque acredita-se que incorporam sabedoria, força e pureza sobrenaturais, e estão acima da mesquinhez humana. Assim como as sociedades secretas, de modo geral, os "cultos mascarados" ocupavam um lugar proeminente no processo de desenvolvimento das sociedades africanas tradicionais e, através de seus modos de operação caracterizados por poderes ritualísticos, participavam de forma singular nos processos de paz, controle social e governança da sociedade.  

A posição venerada de cultos mascarados também derivou da forte crença na vida após a morte e no culto de ancestrais, que estão amplamente espalhados entre as culturas da África Ocidental. Alguns estudos sobre "Egunguns" mascarados entre os Iorubás, apontaram que os "Egunguns" são uma das formas mais singulares de manifestar os ancestrais. A força e importância do "Egungun" como um culto deriva diretamente da forte crença na vida após a morte: a morte não é o fim da vida, mas um meio pelo qual a existência terrena atual é transformada em outra. É uma passagem para além desta vida.

Entre as sociedades da África Ocidental, os "cultos mascarados" sempre desempenharam um papel significativo no controle social. Embora isso seja menos óbvio atualmente em algumas sociedades do que em outras, o poder dos "cultos mascarados" continua sendo uma força poderosa.
Embora os "cultos mascarados" da África Ocidental e seus respectivos "disfarces" servissem a diversos propósitos, eles não tinham a função primária de servir como entretenimento. Eles eram essencialmente mediadores espirituais em questões de governança e controle social. Consequentemente, muitos estudos enfatizam os costumes e a estética, as artes orais e o idioma, a psicologia, o ritual e as apresentações, e suas funções sociais ocasionais, dando interpretações parciais ao fenômeno dos "cultos mascarados". Alguns "cultos mascarados" desempenham apenas uma dessas funções, assim como o gerenciamento de promessas, a imposição de sanções, a execução de sentenças ou a arbitragem e a solução de controvérsias. O "Zangbeto", por outro lado, executa tudo isso ao mesmo tempo, ou seja, torna todos os demais mecanismos de controle, formais e informais, praticamente redundantes.

Os Zangbetos na Sociedade Ogu Contemporânea: A Manutenção da Ordem Social e a Crença em Seus Supostos Poderes Sobrenaturais


De acordo com o livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts", o "Zangbeto" mantém a lei e a ordem na região de Badagry, na Nigéria, até hoje através de diversas formas. O Zangbeto preserva propriedades colocando objetos simbólicos e encantados nelas. Por exemplo, amuletos são amarrados em árvores frutíferas como a árvore-de-cola (que produz a "noz-de cola") e nas lavouras de milho como se fosse um "espantalho" para evitar que ladrões roubem em propriedades. Muitos membros da sociedade Ogu acreditam firmemente que, quem rouba da propriedade onde os "Zangbetos" protegem com seus encantos está fadado a adoecer ou até mesmo morrer. O "Zangbeto" também se envolve em questões de saneamento ambiental colocando folhas de bananeira secas em locais, onde o lixo não deve mais ser descartado, e a maioria obedece por medo de ser castigado de alguma forma. Da mesma maneira, membros do culto a Zangbeto utilizam de sacrifícios e rituais para afastar os males nas comunidades durante o surto de epidemias para apaziguar as forças destruidoras, que as pessoas acreditam serem responsáveis por tais ocorrências.

Outra função dos "Zangbetos" é satirizar os criminosos na sociedade. O trabalho envolve diversas ações de intimidação, dissuasão, descoberta e repressão. Durante o dia, os "Kregbetos" (mencionados no livro como "Kisonyitos") vão a mercados, bares, restaurantes, hotéis e feirões de venda e compra de veículos para observar os movimentos e os discursos das pessoas. Se necessário, um "Zangbeto" segue o movimento de um indivíduo suspeito de ter intenções criminosas. Qualquer ato criminoso detectado durante esse período será imediatamente relatado ao "Kogan", o supervisor ou superintendente em aspectos logísticos e cerimoniais. Se necessário, uma detenção pode ser efetuada, caso contrário, o local de descanso final do suspeito é vigiado de perto durante a noite. Os "Kregbetos" também observam o que um indivíduo diz com o objetivo de acabar com eventuais boatos e dar o feedback necessário aos governantes tradicionais.

Outra função dos "Zangbetos" é satirizar os criminosos na sociedade. O trabalho envolve diversas ações de intimidação, dissuasão, descoberta e repressão. Durante o dia, os "Kregbetos" (mencionados no livro como "Kisonyitos") vão a mercados, bares, restaurantes, hotéis e feirões de venda e compra de veículos para observar os movimentos e os discursos das pessoas.
Os "Zangbetos" também impõe uma espécie de toque de recolher nas cidades, normalmente entre às 23h e 5h da manhã do dia seguinte. Durante este período, bloqueios nas estradas são montados em locais estratégicos da cidade. Aqueles que entram ou saem da cidade são verificados periodicamente. Visitantes com intenções genuínas podem ser escoltados até seus destinos, enquanto os suspeitos de serem criminosos são detidos para prestar esclarecimentos. Além disso, uma patrulha a pé é montada na cidade. Os "Zangbetos" fazem uso de vários instrumentos para cumprir seu dever. Uma flauta é particularmente útil na solicitação da ajuda de outros "Zangbetos". Aliás, a comunicação sobre criminosos suspeitos também é transmitida através da flauta. Por exemplo, sempre que a flauta é soprada vigorosa e continuamente, é um pedido de ajuda. Outros estilos de assobio são restritos aos membros do culto. Sempre que precisam da ajuda de pessoas de fora do culto, isso se torna conhecido e as pessoas, especialmente os adultos do sexo masculino que estão armados, se juntam aos mesmos. Em uma situação como essa, geralmente a polícia é contatada. Essa parte é muito interessante, porque se encaixa perfeitamente com a origem histórica (não sobrenatural) dos "Zangbetos" e o chifre de antílope, que era usado como "trombeta" para afastar os inimigos.

É principalmente durante a noite, que as acusações e as punições são disseminadas pelos "Zangbetos". Os criminosos são presos durante o dia, e os suspeitos são "acusados" e "processados" durante o período da noite. Aqueles que são capturados à noite também são julgados antes do dia nascer. O "Zangan" lida com a maioria dos casos. Após o interrogatório, o acusado pode ser declarado culpado diante da prova apresentada, e uma multa é imposta. Aliás, o valor da multa varia com a gravidade da ofensa. O local do julgamento depende da localização do "Zangan" no momento em que o acusado for capturado. Tirando aqueles que foram capturados ou se tornaram suspeitos durante o dia, o "Zangbeto" institui justiça instantânea.

Se necessário, um "Zangbeto" segue o movimento de um indivíduo suspeito de ter intenções criminosas. Qualquer ato criminoso detectado durante esse período será imediatamente relatado ao "Kogan", o supervisor ou superintendente em aspectos logísticos e cerimoniais.
O "Zangbeto" reforça seu julgamento através da chantagem e das "maldições". Assim sendo, um acusado considerado culpado recebe um prazo para pagar a multa. Se ele falhar em agir de acordo com o julgamento dentro do período estipulado, um "Zangbeto" será colocado em sua residência. Se o culpado for inflexível, ele será chantageado em toda a região em que mora; seu crime será divulgado ao público e ele se tornará uma pessoa detestável na comunidade. Se for um caso "intratável", a pessoa será levada para a praia para ser amaldiçoada. A população de Badagry acredita no poder e na eficácia das maldições dos "Zangbetos", e isso incute um tipo de medo no coração das pessoas, e faz com que elas evitem ser amaldiçoadas por eles.

Para completar, em um artigo sobre o culto a Zangbeto, de Folasade Oyinlola Hunsu, da Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria, publicado em maio de 2011, a própria autora disse que seu primeiro contato com esse culto remontava a 1989, quando ela foi visitar sua futura sogra, pela primeira vez, em Badagry. Pouco antes de todos se retirarem para seus quartos durante a noite, sua futura sogra mostrou onde ficava o banheiro, que nesse caso era do lado de fora da casa. Porém, ela alertou que Folasade não deveria utilizá-lo durante esse período até o amanhecer, devido aos "Zangbetos", que eram tão poderosos, que podiam notar alguém vagando em um raio de 500 metros.

O Povo Ogu e os Espectadores das Apresentações Realmente Acreditam na Existência de um Espírito Ancestral por Baixo do "Zanho"?


A resposta para essa pergunta é um grande e sonoro "sim". Claramente, o principal objetivo das apresentações é mostrar para as demais pessoas, que existe um espírito ancestral por baixo do "zanho", tanto é que um dos pontos altos das apresentações é justamente quando é mostrado para a plateia que, aparentemente, não há ninguém no interior dos trajes. Em junho de 2014, foi publicada uma entrevista com Kirill Babaev, um conhecido linguista e etnógrafo russo, no site do "Museum of Ethnic and Traditional Headdress" ("World of Hat"),  no qual Kirill disse ter presenciado uma das apresentações dos "Zangbetos", na República do Benim. Ao descrever a cena, ele disse que chegou a levantar o "cone de palha" com uma das mãos, e percebido que não havia nada em seu interior, apesar de ter visto o mesmo girar diversas vezes, e aparentar ter alguém dentro da estrutura. Posteriormente, o "cone de palha" recomposto, teria voltado a girar novamente conforme a música ecoava.

Kirill disse que não tinha bebido e nem mesmo fumado nada, e que para os próprios africanos não havia mistério algum, ou seja, o próprio espírito do Zangbeto era o responsável por mover os "cones de palha". Segundo ele, fenômenos estranhos e sobrenaturais são inexistentes para os africanos, visto que eles "podem se comunicar diretamente com os antepassados ​​com facilidade, sem precisar de mediadores" como acontece em outros cultos ou religiões ao redor do mundo. Nesse ponto, no entanto, Kirill esqueceu completamente dos "Kregbetos", uma vez que populares não podem falar diretamente com os Zangbetos e, mesmo que pudessem, dizem que eles falam em uma "versão especial" do idioma Ogu.

Kirill disse ter presenciado uma das apresentações dos "Zangbetos", na República do Benim. Ao descrever a cena, ele disse que chegou a levantar o "cone de palha" com uma das mãos, e percebido que não havia nada em seu interior, apesar de ter visto o mesmo girar diversas vezes, e aparentar ter alguém dentro da estrutura. Posteriormente, o "cone de palha" recomposto, teria voltado a girar novamente conforme a música ecoava.
Ainda sobre a República do Benim, tivemos um interessante artigo, que foi publicado na revista alemã "Geo Magazin", e que foi republicado, em inglês, em março de 2016, no site do fotógrafo editorial Cameron Karsten, que foi o responsável pelas imagens durante a visita da equipe da revista para falar sobre Vodu. Durante uma visita a cidade de Allada (diga-se de passagem Allada foi a capital do Reino do Grande Ardra, um dos mais poderosos reinos da África Ocidental, até ter sido conquistado e incorporado ao Reino de Daomé), no departamento de Atlantique, a equipe se deparou com os "Zangbetos".

De acordo com as próprias palavras da equipe, eles assistiram aquela cultura de "outro mundo" com admiração. As pessoas se movimentavam ao redor dos "Zangbetos" e seus "assistentes" ajudavam a liberar o caminho para que os mesmos passassem. Em um determinado momento, o "cone de palha" parou, e o mesmo foi desmantelado. Para a surpresa da equipe, não havia nada dentro, exceto uma pequena cesta. Foi mencionado que somente os "Zangbetos" podiam dar a sentença de morte em um país tão desrespeitoso em relação as próprias leis quanto o Benim, mas que, de vez quando, os "Zangbetos" também agraciavam a população com presentes. Muitos esperavam, assim como a equipe, por riquezas, mas, em vez disso, havia uma dúzia de caranguejos vivos na cesta. Muitas pessoas correram desesperadas. Elas gritavam, pulavam e corriam em direções opostas. Uma vez que o vilarejo estava escondido em meio as montanhas, provavelmente a maioria jamais tinha visto um único caranguejo na vida. A maioria das pessoas estava aterrorizada. Porém, para cada "Zangbeto" que pregava "truques" na população, havia outros que gentilmente ofereciam presentes, tais como: arroz, milho, sodabi (bebida alcoólica local), gim, e cigarros, ou seja, as "necessidades básicas" da população local.

Durante uma visita a cidade de Allada (diga-se de passagem Allada foi a capital do Reino do Grande Ardra, um dos mais poderosos reinos da África Ocidental, até ter sido conquistado e incorporado ao Reino de Daomé), no departamento de Atlantique, a equipe se deparou com os "Zangbetos".
Muitos esperavam, assim como a equipe, por riquezas, mas, em vez disso, havia uma dúzia de caranguejos vivos na cesta. Muitas pessoas correram desesperadas. Elas gritavam, pulavam e corriam em direções opostas. Uma vez que o vilarejo estava escondido em meio as montanhas, provavelmente a maioria jamais tinha visto um único caranguejo na vida. A maioria das pessoas estava aterrorizada.
Apesar de muitos artigos acadêmicos indicarem direta ou indiretamente, a existência física de uma pessoa de carne e osso por baixo de traje em diversas ocasiões, a maioria das pessoas que assiste as apresentações e confia no culto a Zangbeto, acredita que realmente o espírito ancestral seja o responsável pelos movimentos e, consequentemente, por vigiar as comunidades no período da noite e madrugada. Aliás, é importante ressaltar um detalhe crucial nesse ponto. Há quem diga, que os inúmeros artigos acadêmicos de professores e doutores nigerianos em Estudos Africanos, sobre os "Zangbetos" não têm nenhum valor, porque simplesmente são membros da sociedade nigeriana, cuja maioria da população seria cristã ou muçulmana. Além disso, há quem diga, que a Nigéria seria inimiga dos seus vizinhos. Isso, infelizmente, não faz nenhum sentido quando aplicado ao objeto de estudo, e demonstra uma total e completa falta de leitura dos próprios artigos.

Se qualquer pessoa se der o trabalho de realmente ler os artigos disponíveis publicamente sobre esse assunto, assim como fiz, verá que a absoluta maioria tem uma inclinação muito favorável a existência dos "Zangbetos", uma vez que, efetivamente, eles ajudam a controlar o índice de criminalidade em diversas regiões, e em diversos países. Neste caso, não importa que haja uma pessoa ou um espírito no interior do "zanho". Ninguém, muito menos o governo, irá se importar com isso. Desde que haja ordem em meio ao caos social, e que a organização seja um pouco menos corrupta do que as forças policiais oficiais, não há porque essa discussão existir. Nenhum artigo científico ou acadêmico que consultei se preocupa com questão. Simples assim.

Os "Zangbetos" são Realmente Mais Confiáveis do que as Forças Policiais Oficiais? Existem Outras Atribuições na Sociedade por Parte dos "Zangbetos"?


Quando alguém se pergunta a razão pela qual "cones de palha" são reconhecidos pela população, como uma espécie de força comunitária de segurança, basta olhar a situação em termos de violência dos países nos quais a presença dos mesmos é mais notória, a exemplo da Nigéria (outros países serão citados, não se preocupem).

Em setembro de 2014, o site do jornal "Folha de São Paulo" publicou que, de acordo com a Anistia Internacional, a tortura e os maus tratos a presos são práticas comuns das forças de segurança da Nigéria. Segundo a entidade, que de 2007 a 2014 visitou prisões nigerianas e entrevistou pessoas que estiveram presas, os relatos de tortura no norte do país tinham aumentado consideravelmente nos cinco anos anteriores, quando começou uma operação militar de combate à milícia islâmica "Boko Haram". O número de vítimas de tortura por forças policiais e militares nesta operação era estimado entre 5.000 e 10 mil pessoas. Grande parte destas pessoas, acusadas de ter ligações com a facção, foi submetida a diversos tipos de maus tratos, como espancamento, extração de dentes e unhas, estupro e outras formas de violência sexual. Segundo o relatório, a maioria das vítimas não tinha acesso a defesa jurídica durante a detenção e muitas vezes eram obrigadas a pagar propinas para serem liberadas. Por meio de tortura, policiais extraíam confissões de crimes.

O número de vítimas de tortura por forças policiais e militares nesta operação era estimado entre 5.000 e 10 mil pessoas. Grande parte destas pessoas, acusadas de ter ligações com a facção, foi submetida a diversos tipos de maus tratos, como espancamento, extração de dentes e unhas, estupro e outras formas de violência sexual.
Entretanto, a violência policial e militar na Nigéria não acontece apenas na operação contra o Boko Haram. A prática acontece também na investigação de crimes comuns, embora a Nigéria seja signatária de tratados internacionais contra a tortura. De acordo com a Anistia Internacional, faltava à Nigéria uma lei que criminalizasse a tortura, além de investigações independentes sobre as denúncias de abusos cometidos por órgãos governamentais e outras medidas para coibir a prática.

Em junho de 2015, o alto comissário para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Zeid Ra’ad Al Hussein, mostrou sua preocupação com os relatos de abuso de poder das forças armadas nigerianas durante suas ofensivas. Zeid explicou que sua predecessora, Navi Pillay, já tinha alertado sobre atos cometidos pelas forças de segurança contados por vítimas que ela conheceu durante sua missão ao país. Segundo os relatos, esses abusos serviram para alienar as populações locais e criar o terreno necessário para favorecer o recrutamento por parte do "Boko Haram".

Entretanto, a violência policial e militar na Nigéria não acontece apenas na operação contra o Boko Haram. A prática acontece também na investigação de crimes comuns, embora a Nigéria seja signatária de tratados internacionais contra a tortura.
Mais recentemente, em dezembro do ano passado, o site do jornal norte-americano "The New York Times" publicou uma matéria intitulada "They Fled Boko Haram, Only to Be Raped by Nigeria’s Security Forces" ("Elas Fugiram do Boko Haram, Apenas para Serem Estupradas pelas Forças de Segurança da Nigéria", em português). No texto foi contada a história de uma adolescente chamada Falmata, que teve sua vida roubada pela guerra desde a sexta série, quando ela foi sequestrada de sua casa e estuprada repetidamente pelos combatentes do Boko Haram nos três anos seguintes. Então, finalmente ela conseguiu escapar se esgueirando pelo mato, enquanto seus sequestradores dormiam.

Com apenas 14 anos de idade, e sozinha, ela chegou a um acampamento para as vítimas da guerra. Um local que deveria ser seguro após tantos anos de abusos sexuais. Ela tinha acabado de se acomodar para finalmente ter uma noite tranquila de sono, quando ouviu passos do lado de fora de sua tenda. A voz era de um oficial de segurança, que a instruiu a sair. Assustada, ela obedeceu. Falmata disse que o oficial a levou para seus aposentos, e simplesmente a estuprou. Horas depois, após retornar para sua tenda, ela foi abordada por outro oficial, que também a estuprou.

No texto foi contada a história de uma adolescente chamada Falmata, que teve sua vida roubada pela guerra desde a sexta série, quando ela foi sequestrada de sua casa e estuprada repetidamente pelos combatentes do Boko Haram nos três anos seguintes.
O estupro tem sido um verdadeiro horror na guerra contra o "Boko Haram", que dominou a região nordeste da Nigéria ao longo dos últimos anos, e se espalhou além de suas fronteiras. Pelo menos 7.000 mulheres e meninas sofreram violência sexual do "Boko Haram", segundo estimativas das Nações Unidas. Os militantes sequestram e estupram jovens meninas, adolescentes e mulheres, distribuindo-as como se fossem "noivas" que, às vezes, são passadas de combatente para combatente. Porém, tal comportamento também acontece nas Forças de Segurança da Nigéria, e não somente na guerra. Dentro das cidades, em relação a crimes comuns, praticamente ninguém confia na polícia devido aos altíssimos índices de corrupção e violência praticada pelos próprios policiais. Sinceramente, não irei entrar em maiores detalhes, porque não tenho estômago suficiente para descrever as barbaridades que são cometidas pelos policiais. Portanto, é perfeitamente compreensível que a população prefira confiar em um "cone de palha" do que um policial na Nigéria. Obviamente, nem todos os policiais são corruptos, mas diante de tanta violência, é muito difícil saber em quem confiar. Em quem você iria preferir confiar?

E não pensem, que a situação é muito diferente em países vizinhos ou relativamente próximos. Em fevereiro de 2015, uma notícia publicada no portal português "Sapo", indicava que os progressos na luta contra a violência infantil eram lentos e fragmentados na África. No texto foi mencionado o relatório de uma instituição independente africana chamada ACPf (Fórum de Políticas para a Criança Africana), onde dizia que a violência contra as crianças na África deveria ser analisada num contexto socioeconômico mais amplo, que incluía processos de urbanização, aumento da pobreza e desigualdade, fragmentação familiar e uma persistência de normas tradicionais que contradizem códigos contemporâneos de defesa dos direitos humanos. O meio escolar, polo de desenvolvimento das crianças, era um dos locais em que as mesmas estavam mais expostas a alguma forma de violência. Cerca de 92% dos alunos entrevistados no Togo, 86% de Serra Leoa, 73% do Egito, 71% de Gana, 60% do Quênia e 55% no Senegal e no Benim já tinham sido vítimas de violência de professores ou colegas. Complicado, não é mesmo?

O meio escolar, polo de desenvolvimento das crianças, era um dos locais em que as mesmas estavam mais expostas a alguma forma de violência. Cerca de 92% dos alunos entrevistados no Togo, 86% de Serra Leoa, 73% do Egito, 71% de Gana, 60% do Quênia e 55% no Senegal e no Benim já tinham sido vítimas de violência de professores ou colegas
Além disso, essa é a situação de alguns países da África Ocidental, de acordo com o Portal Consular, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, para quem deseja viajar e conhecer os mesmos. Lembrando, que a recomendação de viagem do Ministério das Relações Exteriores considera o contexto de infraestrutura, segurança e saúde, bem como a situação geral do país escolhido como destino, avaliando os riscos potenciais de uma viagem a cidadãos brasileiros.
  • Nigéria: Evitar viagens não-essenciais. Em caso de viagens essenciais, deve-se manter alto grau de cautela e evitar deslocamento ao nordeste da Nigéria ou à região do delta do Níger, por criminalidade intensa e terrorismo;
  • República do Benim: Viajar com alto grau de cautela;
  • Togo: Viajar com alto grau de cautela;
  • Gana: Viajar com alto grau de cautela.
Entretanto, essa situação nesses países não é recente. Para explicar um pouco melhor essa situação irei novamente recorrer aquele estudo realizado pelos autores Rashidi Akanji Okunola e Matthias Olufemi Dada Ojo, intitulado "Zangbeto: The Traditional Way of Policing and Securing the Community among the Ogu People in Badagry, Nigeria" ("Zangbeto: A Tradicional Forma de Policiar e Proteger a Comunidade entre o Povo Ogu em Badagry, na Nigéria", em português).

O estudo realizado pelos autores Rashidi Akanji Okunola e Matthias Olufemi Dada Ojo, intitulado "Zangbeto: The Traditional Way of Policing and Securing the Community among the Ogu People in Badagry, Nigeria" ("Zangbeto: A Tradicional Forma de Policiar e Proteger a Comunidade entre o Povo Ogu em Badagry, na Nigéria", em português).
O estudo inicialmente mencionou, fazendo uso de citações de outros estudos realizados por terceiros, que toda sociedade possui formas de garantir que seus membros mantenham as normas dentro da própria sociedade em vigor. Isso serve para evitar a ausência de normas, que pode trazer situações caóticas para a sociedade, e garantir que a paz e a ordem prevaleçam. Assim sendo, toda sociedade tem seus próprios meios de controlar os comportamentos sociais de seus cidadãos, a fim de alcançar esses objetivos desejados.

Antes dos colonialistas invadirem a terra, que mais tarde se chamaria "Nigéria", existiam sistemas tradicionais e eficazes de arbitragem e controle do crime em todas as comunidades. Havia instituições para fazer isso. Essas instituições exigiam restrições formais e informais. Restrições informais envolviam sanções, negação de fala, tabus, costumes, entre outras coisas. As formas formais envolviam leis, direitos de propriedade e constituições tradicionais não escritas. No entanto, com a introdução do sistema moderno de governo, a função de orientar e controlar as relações interpessoais na sociedade foi assumida pelo governo através dos legisladores, e dos poderes judiciário e executivo do governo, além de algumas agências de aplicação da lei, especialmente, a polícia. Infelizmente, a polícia da Nigéria vem sendo altamente criticada por várias agências de direitos humanos, por organizações comunitárias, pela imprensa e por vários acadêmicos, por sua incapacidade de conter a constante onda de crimes no país. Como resultado disso, diversos meios alternativos, assim como o uso de vigilantes, ganharam força ao longo do tempo. Entre eles podemos citar os "grupos de milícia": "Oodua People’s Congress", "Bakassi Boys", "Egbesu Boys" e "Arewa Youth Vanguard", que tentam funcionar como meios de prevenir e controlar o crime. No entanto, esses meios alternativos à polícia moderna também são caracterizados pelo uso excessivo da violência.

Como resultado disso, diversos meios alternativos, assim como o uso de vigilantes, ganharam força ao longo do tempo. Entre eles podemos citar os "grupos de milícia": "Oodua People’s Congress", "Bakassi Boys" (na foto), "Egbesu Boys" e "Arewa Youth Vanguard", que tentam funcionar como meios de prevenir e controlar o crime. No entanto, esses meios alternativos à polícia moderna também são caracterizados pelo uso excessivo da violência.
Para as cidades que não possuem "grupos de milícia", existem outros meios tradicionais de controle do crime. O Zangbeto é uma dessas forma tradicionais de controle do crime entre o povo Ogu de Badagry, na Nigéria. Segundo o estudo, o Zangbeto é um "culto mascarado", que serve o propósito de entretenimento cultural durante o dia, mas funciona como um poderoso mecanismo de policiamento e proteção da comunidade durante à noite. O estudo também analisou as possíveis maneiras de incorporar o Zangbeto em um sistema legal de controle da criminalidade na Nigéria e, especialmente, entre o povo Ogu, na comunidade de Badagry, para complementar os esforços da polícia da Nigéria, de modo a derrubar a taxa de criminalidade no país. Isso porque a polícia da Nigéria fracassou na prevenção e controle do crime. A polícia, que deveria ser executora da lei, passou a ser infratora da lei como resultado da corrupção, brutalidade e hostilidade para com os cidadãos.

Conforme dissemos anteriormente, as sociedades africanas tinham instituições que eram utilizadas na prevenção e no controle da criminalidade antes do contato com os colonialistas. Essas instituições podiam estar na forma de rituais, que prometiam segurança; poderia ser apenas um símbolo de proteção colocado em uma propriedade para proibir o roubo e a transgressão ou através de cultos que eram utilizados como sistemas de justiça política e criminal. Por exemplo, havia o culto a "Oro" no sistema político pré-colonial dos nativos iorubás, que desempenhavam essas funções. Assim sendo, o culto a Zangbeto seria apenas mais um desses cultos.

 Segundo o estudo, o Zangbeto é um "culto mascarado", que serve o propósito de entretenimento cultural durante o dia, mas funciona como um poderoso mecanismo de policiamento e proteção da comunidade durante à noite.
Segundo os autores, o estudo foi puramente empírico, e obteve resultados muito interessantes. Inicialmente, a maioria dos entrevistados considerou o Zangbeto como um importante e indispensável elemento do povo Ogu. A maioria dos entrevistados (31 de 40 pessoas) concordou fortemente, que o Zangbeto ainda permanecia muito relevante na comunidade de Badagry. A maioria dos criminosos, que geralmente eram presos pelos "Zangbetos", eram ladrões, assaltantes e, em algumas ocasiões, ladrões armados.

"Os grupos de Zangbeto foram muito úteis para nós nesta comunidade. Uma das áreas de atuação em que desfrutamos de sua prevenção e controle do crime comunitário é na área de prender os ladrões, especialmente à noite", disse um dos entrevistados.

Em algumas ocasiões, o Zangbeto foi mencionado na prevenção de casos de assalto à mão armada na comunidade.

"Ainda me lembro de alguns incidentes de assalto à mão armada no passado. Grupos de Zangbeto vieram em socorro das comunidades envolvidas e os ladrões armados foram impedidos de realizar suas operações. Então, posso dizer, com certeza, que eles realmente ajudaram as comunidades a conter o assalto à mão armada em Badagry", disse uma das entrevistadas.

"Os grupos de Zangbeto foram muito úteis para nós nesta comunidade. Uma das áreas de atuação em que desfrutamos de sua prevenção e controle do crime comunitário é na área de prender os ladrões, especialmente à noite", disse um dos entrevistados.
"Lembro-me do Sr. X que, sozinho, prendeu quatro assaltantes armados em seu bairro. Quando a polícia foi alertada sobre o assalto, eles chegaram ao local do roubo, mas depois saíram correndo, porque os ladrões estava armados. No entanto, o Sr. X, sendo um membro do grupo Zangbeto, saiu e confrontou os ladrões armados. Três dos ladrões foram presos naquele dia. O quarto foi preso no segundo dia pela intervenção de outros membros dos Zangbeto em seu bairro", disse um outro entrevistado. Essa parte é interessante, porque o Sr. X, talvez, fosse um "Kregbeto", um assistente dos "Zangbetos", ou seja, isso não quer dizer que o "cone de palha" prendeu uma pessoa armada, mas os membros do culto a Zangbeto, entenderam?

De acordo com o estudo, o "Zangbeto" e as forças do Mal não eram amigos. O "Zangbeto" teria o poder de inutilizar as operações de bruxas e feiticeiros durante a noite. Um dos entrevistados (homem, mais de 40 anos e cristão) admitiu que o "Zangbeto" podia deter o poder de bruxas e feiticeiros na comunidade. Nesse sentido, o Alto Chefe Ayemi disse que nenhum bruxa conseguia exercer sua influência, quando um "Zangbeto" estivesse fazendo sua ronda noturna. Sempre que o "Zangbeto" emanava seu som característico para anunciar a sua chegada, os poderes de bruxas e feiticeiros seriam anulados.

Ainda segundo o Alto Chefe Ayemi, um "Zangbeto" também pode ser invocado para banir determinadas pessoas "questionáveis" de uma comunidade. Nesse sentido, o nome da tal pessoa "questionável" seria repassado ao "Zangbeto" e, após sete dias de rituais, a tal pessoa sairá correndo da comunidade, porque não conseguiria resistir ao poder do "Zangbeto".

Ainda segundo o Alto Chefe Ayemi, um "Zangbeto" também pode ser invocado para banir determinadas pessoas "questionáveis" de uma comunidade. Nesse sentido, o nome da tal pessoa "questionável" seria repassado ao "Zangbeto" e, após sete dias de rituais, a tal pessoa sairá correndo da comunidade, porque não conseguiria resistir ao poder do "Zangbeto"
Um "Zangbeto" também pode ser chamado para mediar questões sobre locação de imóveis.

"Alguns inquilinos que são teimosos e problemáticos podem ser tratados com a intervenção de um Zangbeto. Se tais inquilinos se recusarem a pagar o aluguel, o Zangbeto pode ser usado para afugentar tais inquilinos teimosos e problemáticos da comunidade", disse um entrevistado.

De forma semelhante, um "Zangbeto" pode ser chamado para intervir na cobrança de dinheiro devido por pessoas na comunidade.

"O Zangbeto é um tradicional cobrador de dívidas. Um credor pode invocar o Zangbeto para intervir na cobrança de dinheiro por parte de um devedor. Então, o mesmo não não tem outra alternativa senão fazer o pagamento de tal dívida rapidamente. Assim, o conflito entre credor e devedor pode ser facilmente resolvido por um Zangbeto", disse um outro entrevistado.

Agora, vem a parte mais interessante do estudo, visto que uma das entrevistadas preferia os "Zangbetos" do que polícia da Nigéria.

 "Prefiro o Zangbeto à polícia da Nigéria. A polícia moderna na Nigéria não é confiável. Você não pode confiar neles de forma alguma. Porém, as pessoas do grupo (Zangbeto) são pessoas de boa conduta na comunidade. Nós os conhecemos e os apreciamos", disse uma entrevistada.

De acordo com o estudo, o "Zangbeto" e as forças do Mal não eram amigos. O "Zangbeto" teria o poder de inutilizar as operações de bruxas e feiticeiros durante a noite. Um dos entrevistados (homem, mais de 40 anos e cristão) admitiu que o "Zangbeto" podia deter o poder de bruxas e feiticeiros na comunidade.
O suposto poder espiritual que o "Zangbeto" possui é outra razão pela qual algumas pessoas preferem o "Zangbeto" à polícia da Nigéria.

"Prefiro o Zangbeto à polícia da Nigéria. As pessoas acreditam na força de seu poder. As pessoas os temem. Sua punição ao infrator é sentida imediatamente, não da maneira policial ou judiciária que é demorada, e muitas vezes não dá em nada", disse uma outra entrevistada.

A confiabilidade seria uma outra razão pela qual alguns dos entrevistados preferiam os "Zangbetos" do que a polícia da Nigéria. Eles admitiram que, em termos de confiabilidade e sinceridade, o grupo Zangbeto era muito melhor que a polícia nigeriana. Outro fator para preferir os "Zangbetos" à polícia da Nigéria, é que Zangbeto realizaria uma espécie de "serviço altruísta à comunidade", ao contrário da polícia da Nigéria, que geralmente era paga, na maioria das vezes, pelos serviços prestados à comunidade, além dos salários que recebiam do governo (a nossa famosa propina, se é que me entendem). Além disso, um grande número de entrevistados demonstrou o desejo, que o Zangbeto recebesse apoio legal do governo, especialmente do governo do Estado de Lagos, onde a comunidade de Badagry está situada.

"A aparência do Zangbeto geralmente provoca medo nas pessoas de mentalidade criminosa. Se os santuários a Zangbeto fossem montados em vários lugares da comunidade, os criminosos seriam lembrados das consequências de suas ações", disse um entrevistado.

Além disso, um grande número de entrevistados demonstrou o desejo, que o Zangbeto recebesse apoio legal do governo, especialmente do governo do Estado de Lagos, onde a comunidade de Badagry está situada.
Como conclusão, o estudo apontou que havia uma necessidade do governo rever algumas formas tradicionais pelas quais as responsabilidades da polícia podiam ser complementadas. Assim sendo, os autores recomendaram, que o governo estabelecesse um comitê nacional, que investigasse as formas tradicionais, que pudessem ser revividas e atualizadas para servir ao propósito de policiamento e proteção da sociedade nigeriana, uma vez que a segurança de vidas e propriedades era um grande problema a boa governabilidade do país.

Os autores também mencionaram, que queriam que essas formas tradicionais fossem legalmente reconhecidas (no sentido de oficializadas) por parte do governo. De qualquer forma, as atividades dessas formas tradicionais deviam ser monitoradas de perto pelo governo para evitar a violação de seus juramentos e códigos de conduta. O reconhecimento legal não deveria ser uma maneira de intimidar e oprimir as pessoas. As pessoas envolvidas em tal grupo tradicional de policiamento e segurança também deviam ser remuneradas. Além disso, equipamentos e instalações deviam ser fornecidos para um desempenho eficaz. No entanto, nada nesse sentido aconteceu até hoje.

Uma Força Policial Comunitária Informal com Aspiração a Milícia: Os "Zangbetos" são Realmente Tão Poderosos Assim? O Culto Realmente Não Possui Qualquer Objetivo Financeiro?


Se você acompanhou toda essa saga até esse momento, vai perceber que o culto a Zangbeto é cercado de algumas contradições, no mínimo, peculiares. Em um primeiro momento, houve que dissesse que as mulheres seriam proibidas de fazer parte do culto, passíveis, inclusive, de serem punidas com a morte. Porém, conforme vimos, as mulheres não apenas fazem parte do culto, como ocupam posições de relativo prestígio. Aliás, a própria apresentação dos "Zangbetos" valoriza os valores e a importância da mulher como provedora da vida.

Outro ponto bem contraditório é a questão dos supostos poderes sobrenaturais atribuídos aos "Zangbetos". Em primeiro lugar, é necessário questionar se um "cone de palha", circulando pelas ruas e estradas de terra de comunidades no interior da Nigéria, do Togo, do Benim ou qualquer outro país da África Ocidental, que não possua braços ou pernas "visíveis", e que esteja desarmado, seria realmente efetivo no combate a criminalidade. Do ponto de vista lógico, seria impossível. Afinal de contas, bastaria homens munidos com pedaços de madeira ou objetos perfurocortantes para fazer tremer qualquer "cone de palha", e coloca-lo para correr. Assim sendo, para coibir o crime "em nome do Zangbeto" existem os "Kregbetos", os tais assistentes que foram citados como os "guarda-costas" dos "Zangebtos". São eles que, supostamente orientados pelos "Zangbetos", realizam tais tarefas na prática. Se a situação for um pouco grave, um "Zangbeto" pode chamar outro através de uma flauta, o que implica automaticamente em mais "Kregbetos", ou seja, maior vantagem numérica. Agora, se a situação for muito grave, o culto conta com pessoas armadas, que não fazem parte do próprio culto.

Se você acompanhou toda essa saga até esse momento, vai perceber que o culto a Zangbeto é cercado de algumas contradições, no mínimo, peculiares. Em um primeiro momento, houve que dissesse que as mulheres seriam proibidas de fazer parte do culto, passíveis, inclusive, de serem punidas com a morte. Porém, conforme vimos, as mulheres não apenas fazem parte do culto, como ocupam posições de relativo prestígio.
Considerando tudo isso, se no interior do "cone de palha" está a personificação de um poderoso espírito ancestral, que não é homem ou mulher, por que o mesmo não utiliza seus poderes ancestrais para realmente anular forças do mal? Isso não acontece. Nada de paranormal ou sobrenatural é realizado, em tempo real, durante a vigilância por parte dos "Zangbetos". Na verdade, o que temos é todo um aparato de segurança para proteger, em primeiro lugar, o próprio "Zangbeto", por um motivo muito simples: existe uma pessoa de carne e osso, independentemente que esteja ou não em transe, debaixo do traje.

Para impor sua autoridade, membros do culto utilizam chantagens, pagamentos de multas e até mesmo humilhação pública para que os demais membros de uma comunidade rejeitem determinado indivíduo, ou seja, os "Zangbetos" utilizam comportamentos humanos, que não parecem ser condizentes com aquilo que se espera de espírito ancestral munido de uma sabedoria que transcende o tempo. Não encontrei nenhum relato ou testemunho credível de ninguém, que mencionasse ter presenciado algo "mágico" ou "sobrenatural", sendo realizado por parte dos "Zangbetos", exceto em suas apresentações, que são meramente artísticas.

Para impor sua autoridade, membros do culto utilizam chantagens, pagamentos de multas e até mesmo humilhação pública para que os demais membros de uma comunidade rejeitem determinado indivíduo, ou seja, os "Zangbetos" utilizam comportamentos humanos, que não parecem ser condizentes com aquilo que se espera de espírito ancestral munido de uma sabedoria que transcende o tempo.
É justamente na sequência desse questionamento inicial, que reside um ponto muito sensível e crítico. Anteriormente, foi mencionado que as apresentações dos "Zangbetos" não são seriam remuneradas, ou seja, não teriam um aspecto financeiro envolvido. Posteriormente, vimos que as pessoas, de fato, costumam dar dinheiro aos mesmos em troca de bênções. No entanto, a história não para por aí. Isso porque o culto a Zangbeto realmente possui um grande aspecto financeiro envolvido. Como isso acontece? Bem, não é tão difícil de explicar isso.

Segundo Maduabuchi F. Dukor (artigo "Philosophical Significance of Myths and Symbols: Zangbeto Cult"), o membro do povo Ogu, que desejar ser iniciado, precisar levar alguns materiais para sua iniciação, algo que varia de vilarejo para vilarejo. No vilarejo de Ajara, próximo da cidade de Badagry, seria solicitado os seguintes itens: uma garrafa de gim Ahan, ₦ 60,00 (cerca de R$ 0,57, devido a alta desvalorização da naira nigeriana), um pacote de folhas de palmeira-ráfia, lenha (para queimar à noite), um barril de vinho de palma (bebida alcoólica obtida a partir da fermentação alcoólica da seiva de várias espécies de palmeiras), e assim por diante.

Nesse ponto, podemos perceber que existe um claro interesse financeiro, e principalmente alcoólico no culto a Zangbeto. Aliás, não levem em consideração a desvalorização da moeda da Nigéria, porque não dá para comparar o estilo de vida da maior parte da população nigeriana com a brasileira, ou seja, ₦ 60,00 não é pouco dinheiro para boa parte da população.

No vilarejo de Ajara, próximo da cidade de Badagry, seria solicitado os seguintes itens: uma garrafa de gim Ahan, ₦ 60,00 (cerca de R$ 0,57, devido a alta desvalorização da naira nigeriana), um pacote de folhas de palmeira-ráfia, lenha (para queimar à noite), um barril de vinho de palma (bebida alcoólica obtida a partir da fermentação alcoólica da seiva de várias espécies de palmeiras), e assim por diante.
Aliás, não levem em consideração a desvalorização da moeda da Nigéria, porque não dá para comparar o estilo de vida da maior parte da população nigeriana com a brasileira, ou seja, ₦ 60,00 é um bom dinheiro para boa parte da população.
Contudo, o aspecto financeiro e alcoólico do culto não se resume apenas ao iniciado, mas ao pagamento das multas, que são aplicadas aos supostos infratores perante o julgamento realizado pelos próprios "Zangbetos". Ainda segundo Maduabuchi F. Dukor, se um homem bater em sua esposa, e a mesma chorar ao ponto dos seus vizinhos serem testemunhas do ocorrido, um "Zangbeto" prenderia o homem, e lhe aplicaria uma multa de ₦ 20,00 (cerca de R$ 0,19) e uma garrafa de gim.

Acredita-se que isso sirva como um "impedimento" para evitar que outros briguem com suas esposas. Nem sempre, no entanto, a multa precisa ser paga em dinheiro vivo, uma vez que, dependendo da gravidade da acusação, o pagamento consiste em uma cabra ou um porco, uma cesta de alimento a base de milho (algo semelhante a nossa polenta, e que se chama "pap"), uma bebida alcoólica fermentada de palmeira-ráfia (Ogogoro), e assim por diante. De qualquer forma, as bebidas alcoólicas marcam uma forte presença no culto a Zangbeto.

Ainda segundo Maduabuchi F. Dukor, se um homem bater em sua esposa, e a mesma chorar ao ponto dos seus vizinhos serem testemunhas do ocorrido, um "Zangbeto" prenderia o homem, e lhe aplicaria uma multa de ₦ 20,00 (cerca de R$ 0,19) e uma garrafa de gim. A foto acima demonstra o processo artesanal e precário na fabricação de gim.
Foto mostrando o processo de fabricação da um barril do vinho de palma
(bebida alcoólica obtida a partir da fermentação alcoólica da seiva de várias espécies de palmeiras).
Nem sempre, no entanto, a multa precisa ser paga em dinheiro vivo, uma vez que, dependendo da gravidade da acusação, o pagamento consiste em uma cabra ou um porco, uma cesta de alimento a base de milho (algo semelhante a nossa polenta, e que se chama "pap")...
...uma bebida alcoólica fermentada de palmeira-ráfia (Ogogoro), e assim por diante. De qualquer forma, as bebidas alcoólicas marcam uma forte presença no culto a Zangbeto.
Diante desse cenário, ou seja, de uma força policial comunitária informal com uma forte aspiração a milícia, algumas situações invariavelmente podem fugir do controle, inclusive dentro do próprio culto a Zangbeto. Nesse sentido, é muito importante acompanhar o relato publicado em um blog chamado "Nancy Frey and Bruce Yoder", de uma família de missionários da Rede de Missões Menonitas, que por sua vez é uma agência missionária da Igreja Menonita dos Estados Unidos, que opera na Nigéria, Benim e Gana.

Na publicação de 27 de janeiro de 2009, o casal de missionários estava indo para um vilarejo chamado Zanzoun, no sul da República do Benim, que era conhecido pelo desrespeito as leis do país. Eles iam visitar uma igreja formada por ex-ladrões e bandidos, que resolveram largar o crime.

Diante desse cenário, ou seja, de uma força policial comunitária informal com uma forte aspiração a milícia, algumas situações invariavelmente podem fugir do controle, inclusive dentro do próprio culto a Zangbeto. Nesse sentido, é muito importante acompanhar o relato publicado em um blog chamado "Nancy Frey and Bruce Yoder", de uma família de missionários da Rede de Missões Menonitas, que por sua vez é uma agência missionária da Igreja Menonita dos Estados Unidos, que opera na Nigéria, Benim e Gana.
Segundo o casal, Zanzoun era conhecida por duas coisas: o papel predominante do "Zangbeto", e a prática frequente de vender, de maneira fraudulenta, lotes de terra. De acordo com eles, a "instituição Zangbeto" havia surgido no vilarejo há muitos anos para fornecer proteção as propriedades durante a noite. Eles mantinham a lei e a ordem. Se alguém fosse pego cometendo um crime, ele teria que pagar uma multa. Se a pessoa não pagasse, seria punida pelo "Zangbeto". Ao longo dos anos, esses vigias noturnos se tornaram os próprios ladrões, que eles deveriam parar. Eles tinham se tornado uma força dentro da comunidade, que ninguém se atrevia a desafiar. Os "Zangbetos" saíam em seus trajes, cobertos da cabeça aos pés e, às vezes, com chifres acima da cabeça. Eles também eram acompanhados por músicos tocando seus instrumentos rítmicos e seguidos por crianças risonhas e curiosas, que mantinham uma certa distância.

No vilarejo de Zanzoun, um grupo de pessoas havia aperfeiçoado a arte de vender terras, que não lhes pertenciam (assim como acontece aqui no Brasil). Eles levavam um comprador desavisado para lhe mostrar o terreno, em seguida o levavam para um escritório falso, onde ele recebia um documento falso de propriedade do terreno em troca de seu dinheiro. Quando a pessoa finalmente descobria, que havia comprado um pedaço de papel inútil, não encontrava mais as pessoas, que venderam as terras para ele. Certo dia, no entanto, uma figura proeminente desse grupo de golpistas foi até a cidade de Porto Novo, capital do Benim, para oferecer terras para um grupo de evangelistas, que já tinham ido até Zanzoun para pregar o Evangelho. O porta-voz desse grupo disse que seu pai estava gravemente doente e hospitalizado, e que por isso precisava vender algumas terras para pagar as contas médicas do pai. Esses evangelistas disseram que não tinham interesse em comprar terras, mas que se jovem estivesse disposto a dizer onde o pai estava internado, eles iriam até o local orar por ele. Além disso, se houvesse alguma receita médica, eles estavam dispostos a pagar os medicamentos do pai do jovem e, inclusive, as despesas hospitalares. O jovem, embora golpista e que não tinha nenhum familiar doente, ficou impressionado com o fato de pessoas que nunca conheceram sua família estarem dispostas a ajudá-lo sem receber nada em troca. O jovem resolveu se converter ao Cristianismo.

Ao longo dos anos, esses vigias noturnos se tornaram os próprios ladrões, que eles deveriam parar. Eles tinham se tornado uma força dentro da comunidade, que ninguém se atrevia a desafiar. Os "Zangbetos" saíam em seus trajes, cobertos da cabeça aos pés e, às vezes, com chifres acima da cabeça. Eles também eram acompanhados por músicos tocando seus instrumentos rítmicos e seguidos por crianças risonhas e curiosas, que mantinham uma certa distância.
Depois que ele tomou essa decisão, no entanto, houve uma reação adversa. Os outros membros do vilarejo não eram a favor de perder um dos seus principais agentes no esquema de fraude imobiliária. Para piorar a situação, o jovem era um "Zangbeto", e o "cérebro" por trás de tais atividades. Até mesmo seu próprio pai se voltou contra ele. Em um determinado ponto, depois que ele não fazia mais parte de suas atividades, a gangue o acusou de fraude imobiliária, e ele foi para a prisão por vários meses. Ainda assim, o jovem permaneceu no caminho do Cristianismo.

Para finalizar, em uma manhã, Bruce Yoder estava pregando o Salmo 73, quando um "Zangbeto" desceu por um caminho que passava em frente a igreja, onde ele estava pregando. Algumas crianças saíram correndo da igreja para observar e seguir a "figura de palha". Na visão de Bruce, sem ter a menor noção do que lhes aguardava mais a frente. Evidentemente, não podemos dizer que Bruce Yoder esteja mentindo, porque ele pertence a religião "A" ou "B". Ele simplesmente relatou o que estava acontecendo em sua região de atuação. E, seu relato, demonstra claramente o envolvimento de membros do culto a Zangbeto envolvidos com práticas criminosas no sul da República do Benim. Isso não quer dizer que todos agem dessa forma, mas infelizmente a estrutura miliciana dos "Zangbetos" favorece que esse tipo de situação ocorra.

Para finalizar, em uma manhã, Bruce Yoder estava pregando o Salmo 73, quando um "Zangbeto" desceu por um caminho que passava em frente a igreja, onde ele estava pregando. Algumas crianças saíram correndo da igreja para observar e seguir a "figura de palha". Na visão de Bruce, sem ter a menor noção do que lhes aguardava mais a frente.
A maior ironia disso tudo é que inúmeros estudos apontam a forte influência que o Cristianismo e o Islamismo exerceram sobre o culto a Zangbeto, através do processo conhecido como "Transculturação". Esse processo consiste na "modificação de uma cultura primitiva resultante do contato prolongado com uma cultura mais avançada". Segundo Maduabuchi F. Dukor (artigo "Philosophical Significance of Myths and Symbols: Zangbeto Cult"), existe pouquíssima dúvida de que a estrutura da tradição do Zangbeto tenha sido afetada tanto pelo Cristianismo quanto pelo Islamismo, uma vez que os membros do culto incluem muçulmanos, e Badagry foi a porta de entrada para o Cristianismo, na Nigéria, por exemplo. Por outro lado, é notável como certas tradições permaneceram intocadas diante do "ataque cultural" proveniente de outras nações ou religiões. De qualquer forma, é muito importante destacar, que os membros do culto a Zangbeto pertencem as mais diversas religiões e crenças, e todos eles conversam entre si.

Essa questão também foi mencionada por Rhyan Thomas, um profissional que fez carreira como fotógrafo da National Geographic, que visitou mais de 120 países, e deu a volta ao mundo inúmeras vezes. Em uma publicação em seu site pessoal, em dezembro de 2015, Rhyan, que possui mais de 60 anos de idade, disse que estava no vilarejo de Hlande, no Togo, o lar da tribo "Ewe". Ele disse que estava notando muitas coisas que não havia percebido, quando esteve no mesmo vilarejo, cerca de cinco anos antes. Ele disse que as crianças do vilarejo assistiam a uma cerimônia espetacular dos chamados "Zangbetos" totalmente perplexas e com absoluto temor. Segundo ele, na mente das crianças, os mesmos deviam ser criaturas enormemente poderosas, muito sábias e capazes de grandes façanhas.

Essa questão também foi mencionada por Rhyan Thomas, um profissional que fez carreira como fotógrafo da National Geographic, que visitou mais de 120 países, e deu a volta ao mundo inúmeras vezes. Em uma publicação em seu site pessoal, em dezembro de 2015, Rhyan, que possui mais de 60 anos de idade, disse que estava no vilarejo de Hlande, no Togo, o lar da tribo "Ewe".
Ele disse que estava notando muitas coisas que não havia percebido, quando esteve no mesmo vilarejo, cerca de cinco anos antes. Ele disse que as crianças do vilarejo assistiam a uma cerimônia espetacular dos chamados "Zangbetos" totalmente perplexas e com absoluto temor.
Durante a cerimônia, os "Zangbetos" giravam e giravam, cada vez mais rápidos, sendo impedidos por seus "assistentes" de colidirem com os moradores locais e espectadores. Então, em um determinado momento, os assistentes batiam nas laterais do palheiro, antes de erguê-los para mostrar que não existia ninguém debaixo do traje. Em vez de uma pessoa, outra coisa era geralmente revelada: um jovem crocodilo (muito vivo e veloz), uma estatueta com braços em movimento, um crânio animal que comia banana ou uma bebida alcoólica. O Zangbeto usava seus "poderes mágicos" para se "transformar".

Segundo Rhyan, surpreendentemente, as práticas espirituais de 10.000 anos, nas quais a religião vodu se baseava, continham elementos similares ao Cristianismo. De acordo com ele, essa poderia ser a razão pela qual, não apenas no Togo, mas em muitas outras partes do mundo, as práticas espirituais do povo Ewe, no sul do Togo, formavam uma mistura complexa de antigas tradições culturais e o Cristianismo. Os moradores de Hlande não viam nenhum conflito em participar primeiramente de uma missa, e posteriormente participar da cerimônia. Talvez para ressaltar a relação e o reconhecimento da amálgama de práticas espirituais cristãs e vodus há muito tempo estabelecidas naquela parte do mundo, Rhyan disse que Papa João Paulo II visitou o país vizinho, a República do Benim, em 1992, para se encontrar e dialogar com os sacerdotes e anciãos Vodu. Os adeptos do Vodu viram este evento como prova de legitimidade, um sinal claro de que os voduístas têm seu lugar ao lado da fé cristã. Após a visita do Papa, o movimento Vodu ganhou força e as práticas religiosas baseadas nesse antigo culto tornaram-se mais populares. Segundo Rhyan, naquele momento, em dezembro de 2015, aproximadamente metade da população do Togo praticava religiões indígenas, sendo que os voduístas ocupavam grande parte dessa fatia.

Durante a cerimônia, os "Zangbetos" giravam e giravam, cada vez mais rápidos, sendo impedidos por seus "assistentes" de colidirem com os moradores locais e espectadores. Então, em um determinado momento, os assistentes batiam nas laterais do palheiro, antes de erguê-los para mostrar que não existia ninguém debaixo do traje. Em vez de uma pessoa, outra coisa era geralmente revelada: um jovem crocodilo (muito vivo e veloz), uma estatueta com braços em movimento, um crânio animal que comia banana ou uma bebida alcoólica. O Zangbeto usava seus "poderes mágicos" para se "transformar".
Esse relato do Rhyan Thomas é muito interesse em diversos aspectos. Em primeiro lugar, ficou claro que, durante as cerimônias, embora todo e qualquer Zangbeto possua uma espécie de "janelinha" na parte frontal do traje (algo que comentarei daqui a pouco), a pessoa que está girando debaixo do "cone de palha" perde a noção do espaço, razão pela qual existem "assistentes" para devolvê-los para o espaço destinado a apresentação. Caso contrário, os "Zangbetos" iriam invadir o espaço destinado ao público. Consequentemente, iriam cair e toda a magia seria desfeita, quando o público notasse a presença de uma pessoa no interior do traje. Imaginem a confusão que seria.

Em segundo lugar, Rhyan mencionou que o assistente batia na estrutura antes de erguê-la, ou seja, isso indica que o assistente dava uma espécie de aviso para a pessoa que estava dentro do traje, que havia chegado o "momento de se esconder". Assim sendo, mais uma vez fica claro que existe uma pessoa de carne e osso, independentemente que esteja em transe ou não, dentro do traje, e dessa vez estamos falando do Togo, não da Nigéria.

Para completar, é necessário apontar um detalhe um tanto quanto previsível. É muito provável que a pessoa no interior do traje esteja muito mais alcoolizada do que em transe. No artigo publicado na revista alemã "Geo Magazin" é mencionada a seguinte passagem:
"Com forragens de palha anormalmente largas e rodopios imprudentes, esses giradores conseguem levantar mais plumas de poeira do que o Djagli (antigo deus guerreiro, protetor das aldeias contra a bruxaria), que adora uma poeira. Gim e sodabi, cuspidos de sua boca, reluzem em sua palha, conforme o sangue fresco de galinha escorre por suas coroas. Eles se movimentam de acordo com a música. E, assim como todas as coisas Vodu, eles possuem um suprimento aparentemente infinito de energia."
Foto mostrando o engarrafamento artesanal e precário do sodabi
A passagem acima denota claramente, que também existe o consumo de bebida alcoólica no interior do "zanho" durante algumas apresentações performáticas dos "Zangbetos".

As Imagens e os Vídeos Indicando e Efetivamente Mostrando a Existência de uma Pessoa de Carne e Osso no Interior do "Zanho"!


Finalmente, vamos nos encaminhando para a parte final desta matéria, onde mostrarei a vocês que, infelizmente, existe uma pessoa de carne e osso por baixo do traje dos "Zangbetos", e que tudo não passa de um truque de ilusionismo. Já vi muita gente alegar, que seria necessário visitar essas comunidades Ogu e tirar uma foto por debaixo do traje para mostrar que realmente existe uma pessoa debaixo do mesmo. Bem, não seja por isso. Embora viajar para esses países da África Ocidental seja um tanto quanto arriscado, por inúmeros motivos, isso não quer dizer que não temos material fotográfico ou audiovisual por parte de pessoas, que simplesmente resolveram ver de perto essas tais apresentações.

Vamos começar com algo leve e falar da experiência de viagem da Nellie, uma blogueira de viagens de aventura por profissão, que nasceu em Cingapura, e decidiu se tornar uma cidadã global por opção. Em seu blog chamado "Wild Junket", ela diz que está viajando pelo mundo desde 2003, e atualmente, possui a missão de viajar por todos os países do mundo. Em novembro de 2017, ela já tinha viajado para 120 países em todos os sete continentes, sendo que existem 193 estados membros das Nações Unidas neste exato momento. Ela é praticamente um autoridade quando o assunto é viagem de aventura, e o seu material audiovisual já foi apresentado no BBC Travel, CNN, National Geographic, Lonely Planet, entre outros.

Vamos começar com algo leve e falar da experiência de viagem da Nellie (na foto), uma blogueira de viagens de aventura por profissão, que nasceu em Cingapura, e decidiu se tornar uma cidadã global por opção.
Em sua viagem para a África Ocidental, Nellie foi conferir a cultura Vodu na República do Benim. Ela disse que, em sua jornada, ela aprendeu que o vodu não era uma magia negra ou uma feitiçaria maligna como retratada em filmes de Hollywood. Na verdade, é uma das religiões mais antigas do mundo, com centenas de anos de história. Os africanos ocidentais praticam o Vodu muito antes  do Cristianismo e o Islamismo serem introduzidos naquela parte do continente. Embora uma grande porcentagem dos africanos ocidentais seja atualmente cristã ou muçulmana, muitos ainda praticam paralelamente o Vodu. Oficialmente, haveria cerca de 35% de voduístas em Benim (considerado o lar do Vodu), mas esse número pula para 65%, uma vez muitos cristãos também recorrem aos sacerdotes vodu para curar seus problemas e responder a perguntas sobre o futuro.

Para os voduístas as danças e cerimônias são uma parte importante de sua religião. Quase todo final de semana, você encontrará vilarejos rurais em Benim realizando cerimônias para despertar os espíritos e agradecer às divindades. São celebrações coloridas e vibrantes que envolvem sacrifícios de animais e muito canto, dança, batuque e gim. Graças ao seu guia Ben, da "Jolinaiko Eco Tours", ela teve o privilégio de testemunhar uma impressionante cerimônia vodu numa pequena aldeia chamada Agbannakin, perto da fronteira togolesa, e próxima da cidade costeira de Grand Popo, no sul do Benim.

Graças ao seu guia Ben, da "Jolinaiko Eco Tours", ela teve o privilégio de testemunhar uma impressionante cerimônia vodu numa pequena aldeia chamada Agbannakin, perto da fronteira togolesa, perto da cidade costeira de Grand Popo, no sul do Benim.
Ela disse que ouvia os batuques antes mesmo de atravessarem o rio para chegar à aldeia. Era alto, rápido e repleto de energia. Aldeões - jovens e velhos, homens e mulheres - se reuniam em torno do templo vudu, dançando e tocando com fervor. A energia aumentava a cada batida do tambor, conforme o Zangeto emergia. Alto e massivo, o espírito mascarado estava coberto de palha colorida, crânios de animais e penas. Ele começou a correr descontroladamente em direção aos aldeões e começou a girar em um movimento hipnótico, fazendo com que suas palhas voassem em todas as direções. Um dos moradores locais explicou a Nellie que, quando Zangbeto aparece, sua apresentação garante a proteção da aldeia contra os maus espíritos e pessoas maliciosas. O movimento giratório da máscara simbolizava a limpeza espiritual da aldeia em todas as direções.

Ela disse que ouvia os batuques antes mesmo de atravessarem o rio para chegar à aldeia. Era alto, rápido e repleto de energia. Aldeões - jovens e velhos, homens e mulheres - se reuniam em torno do templo vudu, dançando e tocando com fervor.
A energia aumentava a cada batida do tambor, conforme o Zangeto emergia. Alto e massivo, o espírito mascarado estava coberto de palha colorida, crânios de animais e penas. Ele começou a correr descontroladamente em direção aos aldeões e começou a girar em um movimento hipnótico, fazendo com que suas palhas voassem em todas as direções.
De acordo com o guia turístico, o Ben, o Zangbeto representava os espíritos não humanos. Os indivíduos mascarados pertencem a uma sociedade secreta e mantêm sua identidade escondida. Os não iniciados não sabem quem eles são. Ela disse que ficou cética no começou e permaneceu prestando atenção para ver se conseguia ter um vislumbre da pessoa por baixo do traje.

Estranhamente não parecia haver nenhum pé debaixo do traje. Eventualmente, os aldeões viraram o traje de cabeça para baixo, mas não havia ninguém. Ela admitiu que ficou um pouco assustada com a situação, mas que isso não durou muito tempo.

Estranhamente não parecia haver nenhum pé debaixo do traje. Eventualmente, os aldeões viraram o traje de cabeça para baixo, mas não havia ninguém. Ela admitiu que ficou um pouco assustada com a situação, mas isso não durou muito tempo.
Outro espírito Zangbeto emergiu e começou a correr ainda mais desordenadamente ao redor do centro poeirento da aldeia. Os batuques eram ainda mais altos, e o moradores estavam dançando mais energicamente do que antes. Depois que o Zangbeto fez seus giros, alguns jovens aldeões o agarraram e o viraram de cabeça para baixo, desta vez revelando um pequeno caixão. Nellie disse que espantou com a visão de um caixão, esperando que não houvesse um cadáver dentro do mesmo.

Quando quatro homens abriram a tampa do caixão, um esqueleto de brinquedo de plástico (embora pareça ser feito de cerâmica) surgiu e lhe surpreendeu. Era um daqueles brinquedos de Halloween, que os americanos usariam na varanda de suas casas. Porém, o mesmo estava desempenhando um papel em uma cerimônia religiosa na zona rural da República do Benim. Nellie não sabia se ria diante do absurdo da situação ou se desaprovava o modo como as pessoas estavam sendo manipuladas pelo vodu. A dança e os batuques continuaram, com os espíritos de Zangbeto revelando objetos mais estranhos e obscuros sob suas máscaras. Um fetiche gigante (uma figura de argila com um pênis gigante), um pote de incenso e até mesmo uma figura de um homem árabe e seu bule de chá.

Quando quatro homens abriram a tampa do caixão, um esqueleto de brinquedo de plástico (embora pareça ser feito de cerâmica) surgiu e lhe surpreendeu. Era um daqueles brinquedos de Halloween, que os americanos usariam na varanda de suas casas. Porém, o mesmo estava desempenhando um papel em uma cerimônia religiosa na zona rural da República do Benim. Nellie não sabia se ria diante do absurdo da situação ou se desaprovava o modo como as pessoas estavam sendo manipuladas pelo vodu.
A dança e os batuques continuaram, com os espíritos de Zangbeto revelando objetos mais estranhos e obscuros sob suas máscaras. Um fetiche gigante (uma figura de argila com um pênis gigante), um pote de incenso e até mesmo uma figura de um homem árabe e seu bule de chá.
Nellie perguntou ao Ben o que os objetos representavam, e ele explicou de uma maneira trivial:  "Eles mostram os poderes mágicos do espírito Zangbeto". Resumindo? Todos aqueles objetos de madeira e plástico, que seriam normalmente usados no Halloween, nos Estados Unidos, eram a demonstração do "poder do Zangbeto". A visita de Nellie demonstra claramente que os objetos deixados pelo suposto "espírito ancestral" são bem mundanos e passíveis de serem fabricados localmente (como no caso do caixão de madeira) ou comprados em uma "loja de artigo de festas". Nada sobrenatural.

Entretanto, uma das melhores visitas, sem dúvida alguma foi de Gerald Hoedl, professor de Estudos Religiosos na Universidade de Viena e em Estudos Culturais na Universidade Humboldt, em Berlim. Em setembro de 2009, ele publicou em seu blog chamado "Culture & Religion" um relato de sua viagem ao Togo e a República do Benim.

Naquilo que chamou de "viagem de estudo", que ele fez com alguns estudantes realmente simpáticos, seu bom amigo Sewa Serge Sousthene Agbodjan-Prince e alguns bons cidadãos da Áustria até mesmo acima de sua idade, ele inicialmente citou, que a página do Museu Histórico de Abomey, em Benim, advertia o turista estrangeiro que, "em algumas áreas da cidade, as sociedades secretas chamadas 'Zangbeto' estavam encarregadas da segurança da meia-noite às 5h manhã. Portanto, os turistas não deviam sair sem seus documentos de identidade após a meia-noite, ou então sair com um iniciado." Ele também mencionou que os "Zangbetos eram representados por pessoas cobertas por uma máscara". Gerald publicou algumas fotos de "Zangbetos", que ele tirou no dia 8 de setembro de 2009, sendo que um, inclusive, estaria "andando sobre as águas".

Gerald publicou algumas fotos de "Zangbetos", que ele tirou no dia 8 de setembro de 2009...
...sendo que um, inclusive, estaria "andando sobre as águas"
No Benim e no Togo existe uma crença generalizada de que não há ninguém sob a máscara, mas que a armação "vazia" é empoderada por um espírito (uma pessoa lhe disse, que os iniciados estavam usando os espíritos dos recém-falecidos para desempenhar as tarefas). Aliás, havia explicações em abundância para isso, assim como de uma leiga católica em Lomé, que contou para Gerald que, na verdade, havia uma pessoa sob a máscara, mas que não era possível vê-la devido a um feitiço dos sacerdotes do culto a Zangbeto. Seja como for, um vigia noturno considerado como um espírito parecia ser mais eficaz do que um ser humano cumprindo essas tarefas relacionadas ao vigilantismo.

Depois de muitas negociações, Gerald conseguiu convencer, "financeiramente falando", um informante em Ouidah para conseguir assistir algumas iniciações relacionadas culto a Zangbeto. Nesse sentido, ele publicou dois vídeos bem curtinhos em seu canal no YouTube. Gerald disse que o primeiro mostrava um surpreendente senso de equilíbrio, e que não havia nada debaixo do traje:



O segundo vídeo também seria igualmente misterioso:



Nesse momento, vocês podem pensar que Gerald mostrou para as pessoas que os trajes seriam realmente manipulados por um espírito ancestral, não é mesmo? Porém, não foi bem isso que aconteceu alguns dias depois, no início de outubro de 2009, quando ele voltou a publicar outras fotos de sua viagem, que foram tiradas em 12 de setembro daquele ano. As fotos pertenciam a um membro do grupo chamado Erich Konecky. Abaixo, vocês podem conferir membros do grupo, que não temeram tocar no "espírito" ou não mostraram respeito suficiente para ficar longe dele, respectivamente:

Acima vocês podem conferir membros do grupo, que não temeram tocar no "espírito"
ou não mostraram respeito suficiente para ficar longe dele, respectivamente.
Gerald questionou como uma pessoa estaria girando, mantendo a si mesmo a "pesada" estrutura em equilíbrio. Porém, aqui mora um pequeno problema, porque o traje tem apenas uma "aparência pesada", mas ele é bem leve. Basta lembrar do etnógrafo russo Kirill Babaev, que relatou ter tido o privilégio de erguer a estrutura, algo que fez usando apenas uma das mãos.

Gerald questionou como uma pessoa estaria girando, mantendo a si mesmo a "pesada" estrutura em equilíbrio.
Porém, aqui mora um pequeno problema, porque o traje tem apenas uma aparência pesada, mas ele é bem leve. Basta lembrar do etnógrafo russo Kirill Babaev, que relatou ter tido o privilégio de erguer a estrutura, algo que fez usando apenas uma das mãos.
Tudo o que vemos na apresentação é uma encenação, assim como aquela quantidade de homens segurando de forma displicente o traje como se o mesmo fosse pesado, sendo que ele é bem leve. A última foto publicada por Gerald, no entanto, mostra perfeitamente, que existe uma pessoa debaixo do traje. É possível notar que existe uma pessoa camuflada debaixo do mesmo.

A última foto publicada por Gerald, no entanto, mostra perfeitamente, que existe uma pessoa debaixo do traje. É possível notar que existe uma pessoa camuflada debaixo do mesmo.
De qualquer forma, um dos elementos mais gritantes, e que mostram claramente que estamos diante de um truque de ilusionismo, é uma espécie de "janelinha", que todo e qualquer Zangbeto possui em maior ou menor grau, justamente na área frontal do traje, e na altura da cabeça de um ser humano normal. Algumas "janelinhas" são mais perceptíveis do que outras, mas todas possuem um meio de contato visual e frontal com o meio externo. Aliás, os "Zangbetos" sempre caminham justamente na direção de onde essa "janelinha" está apontada. A questão é: Um poderoso espírito ancestral precisaria mesmo "enxergar" por uma janelinha para saber em qual direção caminhar ou seguir? Ironicamente, apesar da "janelinha", muitos "Zangbetos" ficam meio que desorientados de tanto girar e devido ao consumo de bebida alcoólica no interior do traje, razão pela qual vemos muitos tropeçando ou então avançando em direção aos espectadores. Enfim, a "janelinha" também teria a função de fornecer um espaço livre para a respiração e comunicação verbal da pessoa que está no interior do traje.

É praticamente impossível não associar isso a famigerada tábua Ouija. O motivo? Bem, a paranormalidade da tábua Ouija estaria no fato de que um espírito, maligno ou não, seria o responsável por mover o indicador, que nesse caso poderia ser um copo ou uma tampinha de garrafa (não importa o objeto, desde que deslize facilmente). Porém, no especial que escrevi sobre a tábua Ouija mostrei um experimento bem documentado, que qualquer um pode repetir inúmeras vezes em casa. Se os participantes estiverem vendados praticamente nenhuma palavra consegue ser formada, quiçá uma frase que faça sentido. Assim sendo, se a alegação era que um espírito seria o responsável pelo movimento, por qual motivo a tábua Ouija se torna completamente inútil? O mesmo se aplica aos Zangbetos. Se a "janelinha" ou qualquer outro espaço destinado ao contato visual externo fosse tampado, com certeza teríamos um espetáculo muito confuso, com os "Zangbetos" totalmente descontrolados.

Confira abaixo alguns exemplos de Zangbetos, sendo que a maioria das fotos foram tiradas em vilarejos da República do Benim.

De qualquer forma, um dos elementos mais gritantes, e que mostram claramente que estamos diante de um truque de ilusionismo, é uma espécie de "janelinha", que todo e qualquer Zangbeto possui em maior ou menor grau, justamente na área frontal do traje, e na altura da cabeça de um ser humano normal.
Algumas "janelinhas" são mais perceptíveis do que outras,
mas todas possuem um meio de contato visual e frontal com o meio externo.
Aliás, os "Zangbetos" sempre caminham justamente na direção de onde essa "janelinha" está apontada. A questão é: Um poderoso espírito ancestral precisaria mesmo "enxergar" por uma janelinha para saber em qual direção caminhar ou seguir?
Ironicamente, apesar da "janelinha", muitos "Zangbetos" ficam meio que desorientados de tanto girar e devido ao consumo de bebida alcoólica no interior do traje, razão pela qual vemos muitos tropeçando ou então avançando em direção aos espectadores
A "janelinha" também teria a função de fornecer um espaço livre para a respiração e comunicação verbal
da pessoa que está no interior do traje.
Se a "janelinha" ou qualquer outro espaço destinado ao contato visual externo fosse tampado, com certeza teríamos um espetáculo muito confuso, com os "Zangbetos" totalmente descontrolados.
Mais uma foto mostrando a "janelinha" que os Zangbetos possuem.
Outra foto mostrando a "janelinha" que os Zangbetos possuem.
E, finalmente, uma foto mostrando alguns tipos bem estranhos de Zangbetos,
mas que também possuem a tal "janelinha" justamente na altura que ficaria a cabeça de uma pessoa no interior do traje.
Nesse ponto, algumas pessoas até mesmo poderiam dizer que, havendo uma pessoa no interior do traje, a mesma deixaria marca de pegada no chão de terra empoeirado. Porém, essas mesmas pessoas se esquecem de um pequeno detalhe: as palhas do traje do "Zangbeto" raspam consideravelmente contra o solo, funcionando como uma espécie de escova. Assim sendo, qualquer marca de pegada ou rastro deixado por uma pessoa é imediatamente "varrido" conforme o "Zangbeto" gira ou caminha.

Nesse ponto, algumas pessoas até mesmo poderiam dizer que, havendo uma pessoa no interior do traje, a mesma deixaria marca de pegada no chão de terra empoeirado. Porém, essas mesmas pessoas se esquecem de um pequeno detalhe: as palhas do traje do "Zangbeto" raspam consideravelmente contra o solo, funcionando como uma espécie de escova.
Outro detalhe fundamental, que podemos notar ao assistir aos inúmeros vídeos disponíveis sobre "Zangbetos" no YouTube, é que os "Zangbetos" se locomovem perfeitamente de acordo com a biomecânica da locomoção humana, ou seja, eles caminham exatamente da forma que uma pessoa caminharia ou se locomoveria, usando duas pernas de carne e osso.

É possível notar isso claramente no vídeo publicado no canal "Wendy Ma", denominado "West African Spirit Zangbeto Bewitches Beninese Funeral", no YouTube (a partir de 0:19 de vídeo):



O vídeo acima teria sido gravado no vilarejo de Avrankou, na República do Benim, e mostra um "Zangbeto" fora do contexto de suas apresentações para o público. É possível notar perfeitamente, como o traje se movimenta exatamente com a mesma dinâmica de uma pessoa de carne e osso, sendo que, inclusive, também é possível notar em diversos momentos dois pés logo abaixo do traje. Basta apenas prestar um pouco de atenção.

Já no vídeo intitulado "BENIN - An Elder Zangbeto Fetish Died", publicado no canal "lagoyave", em outubro de 2007, no YouTube, podemos ver uma situação, no mínimo, muito inusitada. A partir de 0:41, notamos o que seriam dois "Kregbetos" colocando frontalmente os rostos contra a "janelinha" do traje de dois "Zangbetos", como se estivesse conversando com os mesmos.



Nesse ponto, muitos podem alegar que a conversa entre o "Kregbeto" e o "Zangbeto" seria em uma versão especial do idioma Ogu, conforme já citado anteriormente. Essa hipótese, apesar de válida, não explica absolutamente nada o que viria a seguir.

Nesse ponto, muitos podem alegar que a conversa entre o "Kregbeto" e o "Zangbeto" seria em uma versão especial do idioma Ogu, conforme já citado anteriormente. Essa hipótese, apesar de válida, não explica absolutamente nada o que viria a seguir.
Isso porque, conforme estamos cansados de saber, a alegação de muitos daqueles que propagam que o "Zangbeto" é um exemplo de "alta magia africana" é que não existe nenhuma pessoa de carne e osso por baixo do traje. No entanto, a partir de 1:20, podemos ver dois "Zangbetos" aparentemente conversando através de suas "janelinhas". Isso é o que podemos supor, é claro.

No entanto, a partir de 1:20, podemos ver dois "Zangbetos" aparentemente conversando através de suas "janelinhas".
Isso é o que podemos supor, é claro
Esse detalhe é muito curioso, porque se formos considerar que existe a manifestação de um espírito ancestral no interior do traje, por qual razão ele precisaria se comunicar com ele mesmo através de uma "janelinha" de um outro traje? Aliás, mesmo que considerássemos, que são pessoas de carne e osso em transe, ou seja, possuídas pelo espírito ancestral Zangbeto isso não faria sentido nenhum, visto que a comunicação verbal entre ambos os trajes seria complemente desnecessária em se tratando do mesmo espírito ancestral.

Então, a partir de 3:57 podemos ver o que seria o "backstage" da apresentação dos "Zangbetos", que é o momento em que as estruturas se recolhem. Podemos observar diversas pessoas envolvidas no evento muito alegres, festivas e bebendo, muito provavelmente álcool. Quase um minuto depois, em 4:48 vemos um "Zangbeto" girando sem parar, até que ele para, e segue em direção justamente para onde a "janelinha" aponta. Isso denota claramente, que o "Zangbeto" se orienta através das janelinha, como se precisasse ver o caminho.

Quase um minuto depois, em 4:48 vemos um "Zangbeto" girando sem parar, até que ele para, e segue em direção justamente para onde a "janelinha" aponta. Isso denota claramente, que o "Zangbeto" se orienta através das janelinha, como se precisasse ver o caminho. Isso também não condiz com a ação esperada por parte de um espírito ancestral. Aliás, na sequência, o "Zangbeto" ainda chega a esbarrar e tropeçar em uma pessoa. Enfim, acredito que não é necessário mais nada em relação a esse vídeo.
Isso também não condiz com a ação esperada por parte de um espírito ancestral. Aliás, na sequência, o "Zangbeto" ainda chega a esbarrar e tropeçar em uma pessoa. Enfim, acredito que não é necessário mais nada em relação a esse vídeo.

Kumpo: Uma Estrutura Mascarada Semelhante ao Zangbeto, Porém Não é um Zangbeto e nem Pertence a Mesma Cultura!


Durante minha pesquisa, me deparei com mais uma situação inusitada. Muitos sites e vídeos no YouTube citam uma figura chamada "Kumpo", como se o mesmo fosse um Zangbeto, e alegam que seria impossível existir uma pessoa no interior do mesmo. Bem, primeiramente, temos fortes indícios de que também há uma pessoa no interior do "Kumpo". Em segundo lugar, o "Kumpo" não é exatamente um Zangbeto e nem mesmo pertenceria a cultura Ogu, ou seja, a princípio não teria nada a ver com essa matéria. Não irei me estender muito sobre o mesmo, mas acredito que seja importante que vocês o conheçam.

Durante minha pesquisa, me deparei com mais uma situação inusitada. Muitos sites e vídeos no YouTube citam uma figura chamada "Kumpo", como se o mesmo fosse um Zangbeto, e alegam que seria impossível existir uma pessoa no interior do mesmo
Lembram que eu disse que existem diversos cultos mascarados na África Ocidental? Pois bem, o "Kumpo" é mais um deles, assim como o "Zangbeto". Nesse caso, o "Kumpo" é uma figura tradicional na mitologia do povo Diola, em Casamansa (em francês, "Casamance"), uma região do Senegal localizada ao sul da Gâmbia e ao norte da Guiné-Bissau, cortada pelo rio Casamansa. Portanto, apesar de compartilhar uma certa semelhança estrutural e ocupacional não é um Zangbeto e não pertence a cultura Ogu.

Identificá-lo é bem simples, visto que o mesmo utiliza um traje composto por folhas de palmeira secas (geralmente na cor "bege" ou cor de "palha") e usa um pedaço de pau ou um bastão de madeira pontiagudo na altura da "cabeça". No início da dança, uma jovem mulher amarra uma bandeira colorida no "bastão". Então, o "Kumpo" inicia sua apresentação que pode durar vários minutos. Assim como o "Zangbeto", dizem que o mesmo fala uma linguagem secreta particular, e se comunica através de um intérprete com os espectadores.

Identificá-lo é bem simples, visto que o mesmo utiliza um traje composto por folhas de palmeira secas (geralmente na cor "bege" ou cor de "palha") e usa um pedaço de pau ou um bastão de madeira pontiagudo na altura da "cabeça".
O "Kumpo" encoraja a comunidade a agir como boas pessoas. Ele promove a participação de todos na vida da comunidade, e deseja que todos desfrutem da festa. Não participar da festa seria visto como um comportamento antissocial. Ninguém teria o direito de ficar sozinho. Segundo a tradição, o Kumpo não seria uma pessoa, mas uma espécie de "fantasma". Ele não deve ser tocado, sendo considerado até mesmo um sacrilégio olhar para as folhas de palmeira. Ele se defenderia contra os intrusos com seu bastão apontando e perfurando os inimigos.

Assim sendo, podemos notar que, assim como ocorre com os "Zangbetos", o propósito do culto mascarado a Kumpo seria proteger as aldeias de forças sobrenaturais malignas, e coordenar os trabalhos das comunidades. Além disso, de acordo com o site "Access Gambia", o Kumpo protegeria os homens durante os rituais de circuncisão, quando se acredita que estão mais vulneráveis.

No início da dança, uma jovem mulher amarra uma bandeira colorida no "bastão".
Então, o "Kumpo" inicia sua apresentação que pode durar vários minutos. Assim como o "Zangbeto" dizem que o mesmo fala uma linguagem secreta particular, e se comunica através de um intérprete com os espectadores.
De qualquer forma, o "Kumpo", assim como os "Zangbetos", não é um exemplo de "alta magia africana". Além da confusão que é feita por diversos sites e vídeos no YouTube, muitos insistem em dizer, que seria impossível haver uma pessoa de carne e osso dentro do "Kumpo". Será mesmo? Bem, vamos conferir um vídeo intitulado "Danses des Masques", que foi publicado pelo canal "adjicoly1", no YouTube:



Inicialmente, no vídeo, é possível ver o "Kumpo" caminhando exatamente da forma como uma pessoa de carne e osso faria e, pouco tempo depois, ele apoia o pedaço de pau, que mais parece com um bastão de madeira ou um cabo de vassoura (embora aparentemente simbolize uma espécie de "chifre"), e começa a girar para diversos lados, sempre mantendo o bastão como eixo de equilíbrio.

Obviamente, a apresentação pode impressionar aqueles que se encantam com a beleza do espetáculo. Porém, notem que o "Kumpo" sempre mantém uma parte do corpo, nesse caso as pernas e os pés em contato com o chão. Infelizmente, não existe nenhum vídeo disponível na internet, que mostre um "Zangbeto" ou um "Kumpo" flutuando no ar ou fazendo apresentações realmente inexplicáveis ou sobrenaturais. O mesmo acontece nesse outro vídeo intitulado "Danses des masques: Kumpa", publicado no canal "FADOUM", no YouTube:



Caso alguém tivesse alguma dificuldade em notar que existem "duas pernas" e "dois pés", de uma pessoa de carne e osso, debaixo do traje, bastaria acompanhar um outro vídeo disponibilizado por um usuário chamado "Patato sanchez", intitulado "Kumpo masque sacré de Casamance. Boukout 2016", no YouTube, que foi publicado intencionalmente em câmera lenta. Estranhamente, no entanto, o mesmo foi colocado em "modo privado" entre os dias 24 e 25 de abril deste ano, durante a realização desta matéria.

Em diversos momentos desse último vídeo, era possível notar perfeitamente os pés do "Kumpo" denotando que sim, existe uma pessoa de carne e osso no interior do traje, ao contrário do que tentam alegar na internet.

Em diversos momentos desse último vídeo, em câmera lenta, é possível notar perfeitamente os pés do "Zangbeto" denotando que sim, existe uma pessoa de carne e osso no interior do traje, ao contrário do que tentam alegar por aí.
De qualquer forma, o fato do vídeo anterior ter sido colocado em "modo privado", acabou me chamando a atenção para outro vídeos e suas particularidades. Assim sendo, confira os vídeos "Kumpo for Big Bang Festival" e "kumpo TIRAW agnack", que foram publicados por canais de terceiros, no YouTube:





No vídeo "Kumpo for Big Bang Festival" é possível ver nitidamente como um "Kumpo" anda e se movimenta da mesma forma que um ser humano comum, e exatamente igual as pessoas de carne e osso que o acompanham. Já no vídeo "kumpo TIRAW agnack" podemos ver nitidamente que o traje do Kumpo possui duas camadas de comprimentos bem diferentes. Enquanto uma primeira camada fica mais rente ao corpo da pessoa, que utiliza o traje, existe uma segunda camada de longas folhas secas que fica presa praticamente na parte superior da cabeça. É justamente essa segunda camada que, ao ser girada, perfaz todo o hipnótico movimento do "Kumpo". Além disso, a parte do "chifre" está localizada em uma espécie de "franja", sendo que a pessoa que está por baixo do traje precisa impulsionar para frente e então apoiá-lo contra o solo.

Já no vídeo "casamance 2009 fete diola", principalmente a partir dos 0:46 de vídeo, que o "Kumpo" claramente possui duas pernas. No decorrer do vídeo também fica evidente as duas camadas do traje do "Kumpo":



Se alguém tiver muita disposição e paciência para assistir as inúmeras apresentações, também irá encontrar diversos pontos, onde é possível ver a presença de pernas e pés das pessoas que estão no interior dos trajes. Esses são alguns exemplos de fotos ou trechos de vídeos, em que pessoas na internet encontraram tais detalhes:

Se alguém tiver muita disposição e paciência para assistir as inúmeras apresentações, também irá encontrar diversos pontos, onde é possível ver a presença de pernas e pés das pessoas que estão no interior da estrutura mascarada, tanto de um Kumpo, quanto de um Zangbeto.
Ah, quase ia me esquecendo, o Kumpo também possui a famosa "janelinha", assim como os Zangbetos, porém ela é menor e bem mais disfarçada para que as pessoas acreditem que seja um traje contínuo e massivo de folhas de palmeira secas.

Na foto acima podemos ver nitidamente a "janelinha" no traje do "Kumpo",
e a divisão entre as duas pernas de uma pessoa de carne e osso por baixo do traje.
Enfim, espero que tudo tenha ficado claro até esse momento.

Os "Zangbetos" Podem Andar Sobre as Águas ou Pilotar Motos?


Para encerrar essa matéria, ainda precisamos comentar sobre dois questionamentos muito comuns na internet. A primeira é a alegação de que os "Zangbetos" teriam o poder de "andar sobre as águas". Bem, não existe nenhum vídeo na internet, ao menos não disponível publicamente, que eu tenha sido capaz de pesquisar, que apareça um Zangbeto andando, caminhando ou flutuando diretamente em mar aberto, no meio de um lago ou em um corpo d'água mais profundo, por assim dizer.

Existe um vídeo no YouTube, intitulado "Makoko Masquerade Walks on Water", onde é possível ver um "Zangbeto" apoiado em uma espécie de "estrado de madeira", "cortiça" ou algum outro material, capaz de flutuar e suportar um determinado peso sobre o mesmo.



Em nenhum momento o "Zangbeto" anda, ele permanece parado e "sacode" algumas vezes, sendo que é difícil determinar se alguém está fisicamente chacoalhando a estrutura do outro lado da imagem ou não. Isso também demonstra, mais uma vez, que essas estruturas costumam ser bem leves, assim como aqueles que estão em seus interiores.

Também no YouTube, é possível conferir a chegada de um Zangbeto até o vilarejo de Possotomé, que fica às margens do Lago Ahémé, o segundo maior da República do Benim. Esse vídeo tem pouco mais de três minutos, porém é importante que vocês assistam o mesmo até o fim (irei comentar rapidamente sobre o mesmo a seguir):



No início do vídeo, podemos ver uma série de "Zangbetos" sendo levados de barco, provavelmente através do próprio Lago Ahémé. É justamente nesse ponto, que temos o primeiro questionamento. Se estamos falando de um espírito ancestral extremamente poderoso, porque é preciso que o mesmo seja transportado de barco? Existem diversos vídeos e fotos espalhadas na internet, que mostram os "Zangbetos" sendo transportados tranquilamente em embarcações.

No início do vídeo, podemos ver uma série de "Zangbetos" sendo levados de barco, provavelmente através do Lago Ahémé, o segundo maior lago do Benim. É justamente esse o primeiro questionamento. Se estamos falando de um espírito ancestral extremamente poderoso, porque é preciso que o mesmo seja transportado de barco?
Então, a partir de 1:47, vemos um "Zangbeto" sozinho no meio do Lago Ahémé. Porém é muito importante notar que existe uma estrutura, aparentemente de madeira, embaixo do mesmo. Esse detalhe é bem interessante, porque sua movimentação é extremamente lenta. A razão para isso é que não é nenhum espírito ancestral, que move o mesmo, mas a força dos ventos, que por sua vez "empurram" as águas do lago para uma determinada direção e, consequentemente, o próprio "Zangbeto" e sua estrutura subjacente.

Então, a partir de 1:47, vemos um "Zangbeto" sozinho no meio do Lago Ahémé. Porém é muito importante notar que existe uma estrutura, aparentemente de madeira, embaixo do mesmo.
Mais detalhes do "Zangbeto" e a estrutura, aparentemente de madeira, embaixo do mesmo.
Posteriormente, populares puxam aquele "estrado de madeira" para mais próximo da margem, juntamente com a estrutura mascarada. Em seguida, galinhas são sacrificadas e o sangue das mesmas é derramado sobre os chifres do "Zangbeto". Ao final de todo o processo, o "estrado de madeira" é retirado e o "Zangbeto" ganha vida, por assim dizer, seguindo seu caminho em terra firme.

Posteriormente, populares puxam aquele "estrado de madeira" para mais próximo da margem,
juntamente com a estrutura mascarada.
Em seguida, galinhas são sacrificadas e o sangue das mesmas é derramado sobre os chifres do "Zangbeto".
Ao final de todo o processo, o "estrado de madeira" é retirado e o "Zangbeto" ganha vida, por assim dizer,
seguindo seu caminho em terra firme.
Novamente, em nenhum momento, o "Zangbeto" é visto no meio de um lago, do mar ou de um corpo d'água, que tenha uma certa profundidade, sem que haja qualquer tipo de suporte abaixo do mesmo, denotando, portanto, que o "Zangbeto" não tem nenhum poder sobrenatural relacionado a "andar sobre as águas".

Já em uma outra foto, já postada anteriormente nesta matéria, aparece um Zangbeto em corpo d'água, porém é possível notar que a profundidade é bem baixa. Uma vez que a estrutura interna é oca, mesmo contendo uma pessoa, ainda assim sobram alguns bolsões de ar, permitindo boa parte da estrutura boiar na água, enquanto uma pessoa caminha tranquilamente por baixo da mesma até finalmente chegar em terra firme.

Em uma outra imagem, já postada anteriormente nesta matéria, aparece um Zangbeto em uma espécie de córrego, porém é possível notar que a profundida é bem baixa, ou seja, uma fez que a estrutura interna é oca, mesmo contendo uma pessoa ainda assim sobram alguns bolsões de ar, que permitem boa parte da estrutura boiar na água, enquanto uma pessoa caminha tranquilamente por baixo da mesma até a superfície
Para terminar de vez esta matéria, existem algumas apresentações em que os "Zangbetos" andam de moto. Sim, exatamente isso que você leu. Provavelmente, alguém, em algum momento, achou que essa seria uma ideia interessante, e assim a executou. Apesar de não ter encontrado nenhum vídeo nesse sentido, existem inúmeras fotografias, que demonstram tal apresentação:

Para terminar de vez esta matéria, existem algumas apresentações em que os "Zangbetos" andam de moto. Sim, exatamente isso que você leu. Provavelmente, alguém, em algum momento, achou que essa seria uma ideia interessante, e assim a executou.
Apesar de não ter encontrado nenhum vídeo nesse sentido, existem inúmeras fotografias,
que demonstram tal apresentação.
Mais uma foto mostrando um "Zangbeto" andando de motocicleta.
Repararam em um detalhe muito interessante nas apresentações motorizadas dos "Zangbetos"? Os trajes, como sempre, possuem as famosas "janelinhas". É extremamente provável, que o "Zangbeto" causaria um grande acidente caso não conseguisse ver para onde está indo, ou seja, não é um espírito ancestral, que resolveu se modernizar e se locomover de moto pelas comunidades da África Ocidental.

Resumindo? Tudo indica que as apresentações dos Zangbetos são meros truques de ilusionismo, que fogem totalmente ao seu propósito original, sendo que sempre haveria uma pessoa por baixo do traje. Não há nenhum indício de sobrenaturalidade, paranormalidade ou evidências de quaisquer ações inexplicáveis ou provocadas por supostos espíritos ancestrais. A melhor hipótese para quem ainda quiser acreditar na "alta magia africana", pelo menos em relação aos "Zangbetos" e ao "Kumpo", que nem era objeto desta matéria, seria se apoiar na ideia de que haveria uma pessoa de carne e osso em transe, ou seja, possuída pelo espírito ancestral. Porém, essa ideia, conforme já vimos exaustivamente ao longo desta matéria, possui inúmeros problemas, e não se encaixa em muito daquilo que é apresentado nos vídeos.

Comentários Finais


Para iniciar e perfazer boa parte deste comentário final, gostaria de usar as palavras de uma ex-voluntária chamada Katie do Peace Corps ("Corpo de Paz", em português), que por sua vez é programa de voluntariado coordenado pelo governo dos Estados Unidos. A missão declarada do Corpo da Paz inclui fornecer assistência técnica, ajudar pessoas fora dos Estados Unidos a entender a cultura americana e ajudar os americanos a entender as culturas de outros países. Katie lecionou inglês em algumas comunidades do Benim, entre 2012 e 2014, e de vez em quando publicava suas experiências em um blog. Ela sempre fez questão de dizer, que seus textos não refletiam a opinião, os valores ou crenças do Peace Corps, mas apenas dela própria. Assim sendo, em 13 de junho de 2013, ela publicou um texto dizendo que era difícil escrever sobre religião, especialmente quando não é a sua religião. Ainda mais quando é uma religião sobre a qual a maioria dos seus leitores não sabe absolutamente nada. Como você explica, como você ilustra, como você transmite um sistema de crenças que não é seu, e que seus leitores podem muito bem menosprezar. Katie queria falar sobre Vodu, mas estava preocupada que, ao fazer isso, as pessoas vissem os beninenses como supersticiosos, atrasados ou pouco inteligentes. Como exemplo, ela citou o "Zangbeto" dizendo que, eventualmente, ajudantes levantavam o traje do "Zangbeto" para mostrar que não havia ninguém ou então para mostrar um objeto, que seria a forma que o espírito tomou. Após algum tempo, eles levantavam novamente, de modo a aparecer outro objeto e demonstrar a nova forma do espírito. Segundo Katie, a maioria dos "ocidentais" passava muito tempo tentando descobrir se havia ou não uma pessoa dentro do traje, não acreditando que houvesse um espírito ancestral.

Entretanto, dizer isso na frente de um beninense seria um erro. Provavelmente, as pessoas tinham na cabeça a imagem de um beninense, que acreditava não haver uma pessoa por baixo do traje. Provavelmente, imaginava um aldeão, uma pessoa analfabeta ou com pouca exposição ao "mundo ocidental" acreditando nesse tipo de situação. Em alguns casos, as pessoas estavam certas em pensar isso. No entanto, os estudantes de colégios beninenses também se encaixavam na categoria de pessoas que, do fundo do coração, acreditavam na existência de um espírito. Homens e mulheres que têm diplomas, altos níveis de graduação, às vezes de universidades americanas ou europeias, acreditam realmente que não há ninguém por baixo do traje. Isso era diferente de alguns cristãos que ela conhecia que acreditavam na Bíblia, mas ao mesmo tempo sabem que o homem é resultado de um processo evolutivo. Já os beninenses acreditavam no Vodu da mesma forma como acreditavam que o céu é azul. Um outro exemplo era o "Oro", uma figura tradicional em sua área de atuação. Katie disse que não estava autorizada a vê-lo, mas se estivesse provavelmente veria um grupo de homens bêbados empunhando machetes, e com uma ferramenta que eles balançavam em torno de suas cabeças para fazer o som do "Oro". Quando ela disse que não podia ver o "Oro", era porque o mesmo matava pessoas. Todos os anos, em algum lugar da região do planalto, pelo menos uma pessoa morria, porque se colocava no caminho ou fazia oposição ao "Oro". Logicamente, o que realmente mata fisicamente as pessoas é um homem com um facão. Porém, para muitos isso não é o que mata as pessoas. "Oro" mata pessoas, porque o espírito "Oro" habita a pessoa que empunha o facão. A pessoa que segura o facão não é responsabilizada por suas próprias ações, porque é "Oro". A pessoa que segurava o facão não matou ninguém. Oro matou. Entenderam a lógica sombria?

De qualquer forma, Katie fez questão de dizer que não é todo mundo que acredita nessas coisas. Na verdade, a maioria das pessoas acreditava apenas em parte das tradições Vodu. Porém, quando as pessoas acreditavam em algo por lá, ou seja, no Benim, elas verdadeiramente acreditavam. Como exemplo, o voluntário que ficou com sua família anfitriã no ano anterior disse que, em certa noite, ele começou a assobiar, e o chefe da família pediu para que ele parasse antes que algo de ruim acontecesse. No Benim, assobia-se à noite para chamar espíritos e cobras, embora seja bem conhecido pelos "ocidentais" que as cobras tem uma audição rudimentar, não captando ondas sonoras pelo ar, não possuindo tímpano ou ouvido externo. Elas captam os sons através da mandíbula, e uma série de outros ossos do crânio, que transmitem as vibrações sonoras do chão ao ouvido interno. Contudo, isso é uma espécie de superstição, assim como as pessoas ao redor do mundo têm as próprias crendices em maior ou menor nível. Por fim, Katie expressou sua admiração por pessoas que acreditavam profundamente em algo.

Da mesma forma, o principal tema desta matéria não foi mostrar que existe ou não uma pessoa por baixo do traje, mas mostrar para vocês quem são os Zangbetos; onde atuam; como atuam; o que eles realmente ganham para fazer aquilo que fazem; a eficácia e a confiabilidade nos mesmos por parte da sociedade Ogu; seus simbolismos; suas estruturas sociais e orgânicas, além do poder que eles conseguiram ter ao longo do tempo, ou seja, exercendo um forte mecanismo de controle social. Evidentemente, ao falar sobre Zangbetos é impossível não entrar em maiores detalhes sobre a existência ou não de uma pessoa debaixo do traje. Assim sendo, acredito que tenha ficado bem claro, que realmente existe uma pessoa, que não está em transe e, provavelmente, consome uma boa quantidade de álcool em suas apresentações. Em geral, o traje não é pesado, sendo preparado internamente justamente para criar a ilusão da "materialização de objetos", assim como qualquer bom truque de mágica. Além disso, os Zangbetos não possuem qualquer tipo de poder sobrenatural ou paranormal. Não andam sobre as águas ou anulam o poder das forças do Mal. Também ficou bem explícito, que a péssima atuação do Estado, das forças policiais abusivas e corruptas e do péssimo sistema judiciário forneceram um vasto terreno, e contribuíram substancialmente para a manutenção de forças de seguranças informais, tais como os Zangbetos, além do surgimento de milícias. Uma realidade que não está tão distante assim do Brasil, apesar de ficar do outro lado do Oceano Atlântico. A única diferença é que não temos cones de palha por aqui, mas igualmente temos pessoas fazendo promessas de maior segurança de tempos em tempos, fazendo surgir dinheiro em seus próprios bolsos e contas no exterior ou realizando truques mais simples como aparecer dentaduras nas bocas dos mais humildes. Enquanto na África Ocidental os Zangbetos tentam ocultar quem são através de cones de palha, aqui vemos diariamente os nossos próprios Zangbetos usando terno e gravata e algumas vezes sem camisa apontando fuzis para o alto em plena luz do dia. Diante de tantos absurdos que vemos diariamente é mais difícil saber se realmente existe um ser humano por baixo dos nossos Zangbetos, do que na África Ocidental.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
Livro "Benin: The Bradt Travel Guide": https://books.google.com.br/books?id=qM4f8MNsCW4C&pg=PA30&lpg=PA30&dq=Zangbeto+trick&source=bl&ots=umR0Rcj9os&sig=rDnhE_EJ0UXHSDkrNCzY3297y5s&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwi9lc6_z9LUAhXJOSYKHSotCqE4ChDoAQhFMAc#v=onepage&q=Zangbeto%20trick&f=false
Livro "African Indigenous Religious Traditions in Local and Global Contexts": https://books.google.com.br/books?id=SQnOCgAAQBAJ&pg=PA259&lpg=PA259&dq=Zangbeto+trick&source=bl&ots=dFIT0jcV4o&sig=37ziuVsIMk30_9arNR3nGVM_gRM&hl=en&sa=X&ved=0ahUKEwi9lc6_z9LUAhXJOSYKHSotCqE4ChDoAQg9MAU#v=onepage&q=Zangbeto%20trick&f=false
http://agecon.unl.edu/cornhusker-economics/2014/huskers-in-benin-culture-and-agriculture-in-west-africa
http://cultrelhgh.blogspot.com.br/2009/09/zangbeto-magic-haystack.html
http://cultrelhgh.blogspot.com.br/2009/10/zangbeto-pictures.html

http://lavozdelmuro.net/el-unico-misterio-que-el-internet-no-ha-podido-resolver/
http://nai.diva-portal.org/smash/get/diva2:419980/FULLTEXT01.pdf
http://worldhat.net/en/news/sorcerers-against-their-will-interview-kirill-babaev-patron-magazine-april-2014
http://www.anthroserbia.org/Content/PDF/Articles/8217169b70374a94891b06b667c9d706.pdf 

http://www.restorationhealing.com/new-kilombo-blog/reviving-the-ancient-suppressed-higher-teachings-of-vodun/
http://www.rhyan-thomas.com/africa/2015/lome-togo
http://www.soitgoesmag.com/diary/archive-walking-voodoo-in-issue-2
http://www.taringa.net/posts/paranormal/14784518/Lo-mas-WTF-que-vi-en-mi-vida-Zangbetos.html
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/09/1517736-tortura-e-pratica-comum-de-forcas-de-seguranca-da-nigeria-diz-relatorio.shtml
https://br.pinterest.com/pin/75435362478368219/
https://cameronkarsten.blog/category/travel-film/
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