11 de agosto de 2018

A "Bateria de Bagdá": Uma Civilização Extraterrestre Teria Fornecido "Energia Elétrica" Para Seres Humanos há mais de 2000 Anos?



Por Marco Faustino
Email para contato: marcofaustino@gmx.de

OBS: Esta matéria foi originalmente publicada em 23 de fevereiro de 2018, porém a mesma está sendo realocada para a data corrente (11/08/2018) em virtude da realização do especial em vídeo referente a "Bateria de Bagdá".

Um físico alemão chamado Otto von Guericke, por volta de 1670, projetou e construiu a primeira máquina eletrostática, constituída essencialmente de um globo de enxofre, que podia ser girado e friccionado com a mão. O atrito fazia a esfera acumular eletricidade estática, que podia ser descarregada na forma de faíscas. Isso o levou a teorizar a natureza elétrica do que se conhecia por "meteoros luminosos", em especial dos relâmpagos. Von Guerick observou também, utilizando a sua máquina, que pequenos pedaços de papel atraídos pela mesma entravam em contato com ela, e eram, em seguida, repelidos. Ele concluiu que corpos eletrizados tanto podiam provocar atração quanto repulsão. Esta observação foi uma das mais importantes para a compreensão da natureza da eletricidade. Avançando na linha do tempo, em 1786, o anatomista italiano Luigi Galvani dissecou uma rã sobre sua mesa, na qual se encontrava uma máquina eletrostática. Galvani observou contrações nos músculos do animal no momento em que seu assistente, por acaso, tocou com a ponta de seu bisturi no nervo interno da coxa da rã, no mesmo momento em que o gerador estava liberando centelhas. Após a casual descoberta, Galvani imediatamente iniciou uma série de experiências, a fim de entender o motivo pelo qual as patas da rã se contraíam. Então, Galvani passou a defender uma teoria que tentava explicar esse fato: a teoria da "eletricidade animal". Segundo Galvani, os metais eram apenas condutores da eletricidade, que na realidade estaria contida nos músculos da rã.

Com a publicação dos resultados das experiências de Galvani, em sua obra intitulada "Comentários sobre a força elétrica nos movimentos musculares", divulgada em 1791, Alessandro Volta foi incentivado a pesquisar tal fenômeno chegando na verdadeira explicação, culminando assim na construção da chamada "Pilha de Volta". A "Pilha de Volta", ou "pilha voltaica", foi a primeira bateria que podia continuamente prover uma corrente elétrica a um circuito. Ele colocou um disco de cobre por cima de um disco de feltro embebido em uma solução de ácido sulfúrico e, por último, um disco de zinco; e assim sucessivamente, empilhando (daí o nome "pilha") essas séries até formar uma grande coluna. O cobre, o feltro e o zinco tinham um furo no meio e eram enfiados numa haste horizontal, sendo assim conectados por um fio condutor. Os dois acontecimentos – a descoberta acidental de Galvani e a construção da pilha de Volta – marcaram radicalmente a evolução das concepções sobre a eletricidade e do magnetismo. A partir dessa época, passou-se a ser chamado de galvanismo o estudo dos efeitos produzidos por corrente elétrica. Aliás, todos os aparelhos que produziam eletricidade a partir de processos químicos (ou seja, capaz de produzir energia elétrica através de uma reação química) passaram a ser chamados de células voltaicas, pilhas galvânicas ou, simplesmente, pilhas.

Entretanto, muitos sites de teóricos da conspiração, de pseudoarqueólogos ou até mesmo de cunho ufológico costumam alegar que a história está errada, e que verdade é escondida da população (ironicamente as pessoas que costumam dizer isso, geralmente são aquelas que mais propagam e lucram com as mentiras que inventam). Segundo alguns sites, a primeira pilha ou bateria inventada pelo homem foi a chamada "Bateria de Bagdá", que na verdade é uma série de três artefatos encontrados juntos em uma escavação realizada no vilarejo de Khujut Rabu, perto de Bagdá, no Iraque, na década de 1930. Alguns sites mencionam que mais "baterias" teriam sido encontradas, e que "ligando-as em sequência" mostraria perfeitamente que os povos da Antiga Mesopotâmia já dominavam a eletricidade muito antes do nascimento de Cristo. Outros, no entanto, tentam alegar que a "Bateria de Bagdá" utilizaria uma tecnologia muito avançada para o seu tempo, e que mesma, com certeza, teria sido proveniente de seres extraterrestres. Contudo, será mesmo que as casas possuíam energia elétrica há milênios atrás? As "baterias" alimentariam alguma "nave extraterrestre"? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Começando a Entender o Caso: As Informações um Tanto Quanto Imprecisas, que são Comumente Divulgadas na Internet Sobre a "Bateria de Bagdá"


Geralmente, não se encontram muitas informações confiáveis e precisas sobre a "Bateria de Bagdá" ao fazer uma rápida busca na internet. Os primeiros resultados costumam apontar para sites de curiosidades gerais, sites de cunho conspiratório ou então blogs de baixa credibilidade, que tratam o caso de maneira muito superficial e até mesmo incorreta. Porém, é possível encontrar algumas informações preliminares razoavelmente interessantes.

Em um artigo da "Rational Wiki" (uma enciclopédia virtual, cujos objetivos declarados são criticar e desafiar a pseudociência e o movimento anticiência) é mencionado, que um arqueólogo alemão chamado Wilhelm König teria encontrado três artefatos (uma espécie de vaso de argila, uma chapa de cobre enrolada, e uma haste de ferro) na coleção do Museu Nacional do Iraque, em 1938. Contudo, dependendo da fonte que você consultar, também é possível ler que o próprio Wilhelm König teria encontrado tais objetos em uma escavação realizada em Khujut Rabu, um vilarejo nos arredores de Bagdá, em 1936.

Em um artigo da "Rational Wiki" (uma enciclopédia virtual, cujos objetivos declarados são criticar e desafiar a pseudociência e o movimento anticiência) é mencionado, que um arqueólogo alemão chamado Wilhelm König teria encontrado três artefatos (uma espécie de vaso de argila, uma chapa de cobre enrolada, e uma haste de ferro) na coleção do Museu Nacional do Iraque, em 1938.


Entretanto, dependendo da fonte que você consultar, também é possível ler que o próprio Wilhelm König teria encontrado tais objetos em uma escavação realizada em Khujut Rabu, um vilarejo nos arredores de Bagdá, em 1936.
A própria "Rational Wiki" alega, por exemplo, que não há documentação confiável sobre a escavação arqueológica, nem informações suficientemente claras sobre a estratigrafia (ramo da Geologia que estuda os estratos ou camadas de rochas, buscando determinar os processos e eventos que as formaram) para datar os artefatos a partir de seus contextos arqueológicos. Ainda assim, os artefatos foram declarados por Wilhelm König como pertencentes a civilização Parta (entre 247 a.C e 224 d.C), muito embora o estilo cerâmico, por assim dizer, seria semelhante aquela utilizada pela civilização Sassânida (entre 224 d.C e 650 d.C, ou seja, um período de tempo bem diferente).

Apesar dos partas terem sido guerreiros bem habilidosos, eles não eram conhecidos por terem tanto apreço assim pela ciência. Vale lembrar nesse ponto que, na época da descoberta dos artefatos por Wilhelm König ainda não existia, por exemplo, a datação por carbono-14, algo que foi descoberto apenas em 1947, pelo químico norte-americano Willard Libby, e nenhum outro método de datação mais avançado. Em uma matéria realizada pela BBC, em 2003, o Dr. St John Simpson, curador sênior responsável pelas coleções pré-islâmicas do Irã e da Arábia no Museu Britânico, disse que a escavação e contexto original dos artefatos não foram bem documentados, e as evidências que apontam para esses intervalos de tempo eram muito rasas. Resumindo? Seriam artefatos que nunca teriam passado por um processo de datação confiável, e com pouquíssimas informações sobre seu contexto histórico, praticamente uma oopart.

Ainda assim, os artefatos foram declarados por Wilhelm König
como pertencentes a civilização Parta (entre 247 a.C e 224 d.C)...
...muito embora o estilo cerâmico, por assim dizer, seria semelhante aquela utilizada pela civilização Sassânida (entre 224 d.C e 650 d.C, ou seja, um período de tempo bem diferente).
Aliás, para quem nunca ouviu falar desse termo, saiba que oopart (acrônimo em inglês para "Out of Place Artifact") é uma terminologia para denominar um objeto de interesse histórico, arqueológico ou paleontológico, que se encontra em um contexto não usual e aparentemente impossível, o qual tende a desafiar a cronologia da história convencional. Geralmente ooparts são utilizadas para dar apoio as descrições religiosas da pré-história, as teorias dos antigos astronautas ou a existência de civilizações desaparecidas que possuíam o conhecimento e tecnologia mais avançada do que a nossa. É importante destacar, que um grande número de ooparts já foram refutadas como sendo produtos de fenômenos tais como palimpsesto, pareidolia, falsificação ou simplesmente devido a ignorância a respeito da cultura que as produziram. Confiram abaixo, alguns exemplos:
De qualquer forma, compreender o esquema da "Bateria de Bagdá" é relativamente bem simples. Consistia em um vaso de argila com cerca de 14 cm de altura, com uma abertura superior com pouco mais de 3 cm de diâmetro, contendo um cilindro fechado na parte inferior (onde também havia uma pequena camada de betume) feito a partir de cobre, e uma única haste de ferro no meio. Conforme vocês podem notar é um artefato bem pequeno. No topo, a haste se projetava a poucos centímetros para fora do vaso, isolando-a do cobre por betume. Caso o vaso fosse preenchido com algum líquido, o mesmo entraria em contato tanto com a haste de ferro, quanto o cilindro de cobre. Alguns sites mencionam que, posteriormente, outros vasos com configurações semelhantes também teriam sido descobertos por Wilhelm König, e levados para o Museu Nacional do Iraque. Esses mesmos sites não sabem dizer quantos vasos teriam sido descobertos, mas estimam que seriam entre dez e doze vasos semelhantes. Nada além disso.

Foto mostrando uma réplica para tentar ilustrar a configuração interna da "Bateria de Bagdá"
Por mas incrível que pareça, não há muitas informações sobre quem o autor da descoberta, Wilhelm König. No site Wikiwand, por exemplo, é mencionado que ele era um pintor austríaco, que posteriormente se tornou arqueólogo. Ele teria pisado pela primeira vez no Iraque, em 1930, como assistente durante uma escavação realizada em Uruk (uma das mais antigas e importantes cidades da Babilônia). Em 1931, ele teria se tornado assistente técnico no Museu Nacional do Iraque, chegando a ocupar o cargo de chefe do laboratório (ou diretor, dependendo da fonte consultada) do museu, em 1934.

Em 1938, Wilhelm König teria publicado um artigo chamado "Ein galvanisches Element aus der Partherzeit?", no volume nº 14, do periódico "Forschungen und Fortschritte" (comentarei sobre o estudo na parte final desta matéria), sobre os três artefatos. König ofereceu uma hipótese de que, juntos, os objetos formavam uma espécie de célula galvânica (uma bateria), sendo utilizada, talvez, em um processo de eletrodeposição (ou galvanoplastia, que basicamente é o ato de revestir uma peça metálica com um outro metal). Em sua passagem pelo Museu Nacional do Iraque, ele observou uma série de objetos de prata oriundos do Antigo Iraque, revestidos com camadas de ouro muito finas, e especulou que os objetos tinham sido galvanizados. Ele precisou retornar à Viena, em fevereiro de 1939, devido um episódio de envenenamento do sangue (bacteremia, septicemia ou sepse), e escreveu um livro em 1940 chamado "Im verlorenen Paradies. Neun Jahre Irak" ("Perdido no Paraíso: Nove Anos no Iraque", em português, algo que também comentarei na parte final desta matéria). No entanto, devido a Segunda Guerra Mundial, Wilhelm König teria praticamente no esquecimento, assim como sua descoberta, durante um bom período de tempo.

Wilhelm König precisou retornar à Viena, em fevereiro de 1939, devido um episódio de envenenamento do sangue (bacteremia, septicemia ou sepse), e escreveu um livro em 1940 chamado "Im verlorenen Paradies. Neun Jahre Irak" ("Perdido no Paraíso: Nove Anos no Iraque", em português, algo que também comentarei na parte final desta matéria)
No artigo da "Rational Wiki" também é possível ler, que a hipótese citada por König teria sido baseada, em parte, pela observação de que a haste de ferro aparentava estar corroída devido ao suposto contato com uma substância ácida. Porém, temos dois pequenos problemas nesse ponto: nunca foram descobertos quaisquer objetos antigos, que tivessem sido galvanizados, e os objetos de prata revestidos de ouro vistos por König, na verdade (ao menos pelo que se conhece atualmente), teriam sido criados a partir de um método chamado "fire-gilding", um processo pelo qual uma amálgama de ouro (uma mistura de ouro e mercúrio) é aplicada a superfícies metálicas, sendo o mercúrio posteriormente volatilizado, deixando um fina camada de ouro contendo 13 a 16% de mercúrio. Para piorar a situação, não há qualquer evidência da utilização de fios ou condutores, uma vez que o vaso era vedado com betume, e nem qualquer outra tecnologia ou equipamento, que precisasse de eletricidade como fonte de energia. Resumindo? Se era realmente uma bateria, com o intuito de gerar energia elétrica, precisaríamos de cabos ou condutores, e algum equipamento, é claro, que precisasse de eletricidade para funcionar (daqui a pouco comentarei melhor sobre isso).

Apesar do três artefatos nunca terem sido corretamente datados, tampouco analisados como deveriam ao longo do tempo, muitos passaram a acreditar, que vinho, suco de limão, suco de uva ou vinagre teria sido utilizado como uma solução ácida para gerar uma corrente elétrica através dos supostos "eletrodos" de cobre (o cilindro) e ferro (a haste). Porém, será que essa configuração permitiria mesmo a geração de energia? É justamente isso, que vamos conferir a partir de agora.

Alguns Experimentos que Foram Realizados ao Longo do Tempo, com Réplicas Criadas da "Bateria de Bagdá", Tentando Provar a Plausibilidade do seu Funcionamento como "Bateria"


Agora que vocês conhecem as informações que são comumente encontradas na internet, vamos ver se a configuração da "Bateria de Bagdá" poderia mesmo gerar energia elétrica. Em um site chamado "Museum of Unnatural Mystery", assim como em diversos outros sites na internet, é informado que um engenheiro elétrico chamado Willard F. M. Gray, que trabalhava no Laboratório de Alta Tensão da General Electric, da cidade de Pittsfield, no estado norte-americano de Massachusetts, teria criado algumas réplicas da chamada "Bateria de Bagdá". Quando preenchidas com um eletrólito, os dispositivos teriam produzido cerca de 2 volts.

No entanto, existe muita imprecisão sobre esse experimento. Algumas fontes mencionam que Willard teria produzido apenas uma réplica e utilizado sulfato de cobre como solução ácida. Já outras fontes mencionam, que ele teria testado uma única réplica com diversas soluções ácidas (sulfato de cobre, ácido acético e ácido cítrico), e obtido entre 1,5 e 3 volts.

Foto do centro da cidade de Pittsfield, no estado de Massachusetts, na década de 1950.
Para tentar solucionar o que realmente teria acontecido encontrei uma notícia publicada no tabloide nova-iorquino "PM", em 9 de julho de 1944. A notícia foi escrita por Willy Ley, um escritor de ficção científica, que havia comentado pela primeira vez sobre a descoberta de Wilhelm König, em um artigo publicado na edição de março de 1939, da revista norte-americana "Astounding Science Fiction" (comentarei sobre isso na parte final desta matéria, visto que Willy é um dos personagens principais quando o assunto é "Bateria de Bagdá"). Confira a notícia abaixo:

Para tentar solucionar o que realmente teria acontecido encontrei uma notícia publicada no tabloide nova-iorquino "PM", em 9 de julho de 1944. A notícia foi escrita por Willy Ley, um escritor de ficção científica, que havia comentado pela primeira vez sobre a descoberta de Wilhelm König, em um artigo publicado na edição de março de 1939, da revista norte-americana "Astounding Science Fiction".
Desde então, o artigo escrito por Willy Ley já tinha sido republicado cerca de cinco vezes. Contudo, logo após a publicação na revista "Astounding Science Fiction", o caso chamou a atenção de Willard F. M. Gray, que além de trabalhar em uma unidade da General Electric, em Pittsfield, também tinha conexões com um museu da cidade, o Museu Berkshire. Assim sendo, Willard resolveu colocar a teoria em prática, ou seja, testar se a descoberta de Wilhelm König era, na verdade, elementos que possibilitavam a galvanização de objetos. Aparentemente, foi realizada uma única réplica com as mesmas dimensões e, após consultar alguns arqueólogos, ficou decidido utilizar sufalto de cobre como solução ácida. O conjunto teria funcionado bem, mas somente por um curto período de tempo, e não foi informado quantos volts a réplica conseguiu gerar. De qualquer forma, o experimento teria sido considerado um sucesso. Na época, Willy chegou a mencionar, que se um artesão habilidoso conseguisse fazer com que diversos vasos funcionassem ao mesmo tempo, o conjunto poderia permitir que camadas de ouro fosse aplicadas em objetos de prata.

É interessante ressaltar nesse ponto, que o Laboratório de Alta Tensão da General Electric ficava no interior de um gigantesco complexo destinado a fabricação de transformadores de alta potência. O complexo possuía cerca de 100 prédios, e empregava mais de 10.000 pessoas em seu auge. Porém, é importante notar, que nada indica que o experimento ocorreu no interior dessa unidade, muito provavelmente o mesmo aconteceu nas instalações do Museu Berkshire ou então na casa do próprio Willard F. M. Gray.

Planta do Complexo Industrial da General Electric em Pittsfield, em 1968
Visão aérea de uma parte do complexo industrial da General Electric, em 1967.
Visão aérea do prédio que abrigava Laboratório de Alta Tensão (O chamado "Prédio nº 9"), por volta de 1970
O prédio que abrigava o Laboratório de Alta Tensão não existe mais,
visto que acabou sendo demolido há alguns anos.
Infelizmente, não encontrei maiores informações além do que foi publicado no tabloide "PM", e que fossem minimamente confiáveis sobre o experimento de Willard, que teria sido realizado em algum momento entre 1939 e 1944 (algumas fontes dizem que teria sido em 1940, já outras citam apenas a década de 1940). Tudo que encontrei foi um editorial escrito por ele no periódico "Journal of the Electrochemical Society", em setembro de 1963. Além disso, algumas fontes mencionam, que a réplica utilizada por Willard teria ficado em exposição no Museu Berkshire, em Pittsfield. Tentei contato com o Museu Berkshire, que me confimou que a réplica está realmente em exposição no museu. A Lesley, gerente sênior de comunicação do museu, me respondeu hoje (23/02), poucos minutos antes da publicação desta matéria, e disse que me enviará uma foto da réplica. Assim que ela enviar, publicarei a imagem para vocês, combinado?

"Baterias elétricas, 2.000 anos atrás!!! Surpreso? Na verdade, não é para tanto. Havia alguns trabalhadores bem inteligentes na antiga cidade de Bagdá, Pérsia (atualmente, o Iraque). Eles faziam um bom trabalho em aço, ouro e prata. Vocês podem se perguntar o que isso tem a ver com baterias elétricas. Aparentemente, vasos de cobre, alguns com 4.000 anos de idade, foram desenterrados há vários anos, e eram revestidos de ouro e prata. Alguns até mesmo tinham sido revestido de antimônio. Ocasionalmente, nos sentimos um pouco presunçosos sobre nossos imensos avanços na ciência nuclear e coisas do gênero, mas quando nos deparamos com alguns objetos antigos, eles nos fazem colocar os pés no chão, e nos humilham. Será sempre assim", disse Willard F. M. Gray.
Infelizmente, não encontrei maiores informações além do que foi publicado no tabloide "PM", e que fossem minimamente confiáveis sobre o experimento Willard, que teria sido realizado em algum momento entre 1939 e 1944. Tudo que encontrei foi um editorial escrito por ele no periódico "Journal of the Electrochemical Society", em setembro de 1963.
Aliás, é importante ressaltar que, depois disso, o artigo de Wilhelm König aparentemente foi redescoberto apenas na década de 1960, e foi cogitado, principalmente, durante uma verdadeira enxurrada de histórias sobre "antigos astronautas" desencadeadas por um dos livros mais vendidos do autor Erik von Daniken, "Chariots of the Gods" ("Carruagens dos Deuses", em português), e logo apareceram declarações, que as "Baterias de Bagdá" eram usadas para tudo: desde a galvanoplastia de joias e moedas; para gerar um choque elétrico aparentemente sobrenatural, quando associada a figura de um ídolo ou templo; para alimentar lâmpadas elétricas dentro das pirâmides, e até mesmo para alimentar o famoso Farol de Alexandria. E, de acordo com os fãs de discos voadores, uma vez que os antigos Mesopotâmios não teriam conhecimento para fazer uma bateria ou usar eletricidade, eles só poderiam ter obtido essa informação de "outra pessoa", talvez alguma raça de extraterrestres tecnologicamente avançada, que tivesse visitado a Terra em tempos antigos.

Em 1978, o Dr. Arne Eggebrecht, ex-diretor do Museu Roemer e Pelizaeus, um museu arqueológico de Hildesheim, na Alemanha, teria supostamente realizado um experimento ao conectar diversas réplicas juntas, e usado suco de uva como solução ácida. Ele alegou ter conseguido depositar uma camada muito fina de prata (apenas um milésimo de milímetro de espessura) sobre um objeto. Outros pesquisadores, porém, contestaram esses resultados, e não conseguiram replicá-los. Aliás, há quem diga que a "Bateria de Bagdá" teria sido exposta no museu em 1978, razão pela qual teria despertado a atenção do Dr. Arne Eggebrecht.

O Dr. Arne Eggebrecht durante um Encontro Anual do CIPEG (Comitê Internacional para a Egiptologia)
em Moscou, na Rússia, em 1991. O Dr. Arne Eggebrecht faleceu em fevereiro de 2004.
"Não existe qualquer documentação escrita sobre os experimentos, que ocorreram em 1978", disse a Dra. Bettina Schmitz, em entrevista à BBC, em 2013. Na época, a Dra. Bettina era uma pesquisadora do Museu Roemer e Pelizaeus.

"Os experimentos sequer foram documentados por fotos, o que realmente é uma pena. Procurei nos arquivos do museu, e falei com todos os envolvidos em 1978, porém não obtive resultados", completou.

"Não existe qualquer documentação escrita sobre os experimentos, que ocorreram em 1978", disse a Dra. Bettina Schmitz, em entrevista à BBC, em 2013. Na época, a Dra. Bettina era uma pesquisadora do Museu Roemer e Pelizaeus.
Na verdade, tudo o que temos em relação a esse experimento é um segmento de um episódio da série britânica "Arthur C. Clarke's Mysterious World", que foi exibida em 1980. No terceiro episódio, chamado "Ancient Wisdom", exibido em 16 de setembro daquele ano, podemos ver o Dr. Arne Eggebrecht, citado como diretor do "Museu da Alemanha Ocidental", com uma réplica da "Bateria de Bagdá", que ele preenche com o líquido proveniente de uvas verdes frescas maceradas com um pequeno pilão. Utilizando uma espécie de voltímetro é possível ver que seu experimento gera quase 0,5 volt. Confira o vídeo abaixo, que foi publicado por um canal de terceiros, no YouTube (em inglês, sendo que a parte que nos interessa começa em 17:36):



Assim sendo, para provar que os antigos povos da Mesopotâmia poderiam galvanizar objetos, o Dr. Arne Eggebrecht mergulhou a parte inferior de uma pequena estátua de prata em uma solução de cianeto de ouro, e conectou o conjunto à réplica da "Bateria de Bagdá". De acordo com a narrativa, após "poucos minutos" já seria possível ver uma parte da estátua completamente dourada, porém não é mostrado o processo acontecendo em tempo real. O Dr. Arne Eggebrecht também especulou, que os museus poderiam conter muitos itens antigos catalogados como se fossem de ouro puro, quando, na verdade, seriam simplesmente galvanizados.

Aliás, é interessante notar que, aparentemente, o artefato original conhecido como "Bateria de Bagdá" teria ficado naquela época (por volta de 1980), em exposição no então Museu Pré-Histórico de Munique, na Alemanha. Atualmente, no entanto (desde o ano 2000), o museu passou chamado de "Bavarian State Archaeological Collection" (Archäologische Staatssammlung). O museu é considerado uma das mais importantes coleções arqueológicas, e de história cultural, na Alemanha.

Aliás, é interessante notar que, aparentemente, o artefato original conhecido como "Bateria de Bagdá" teria ficado naquela época (por volta de 1980), em exposição no então Museu Pré-Histórico de Munique, na Alemanha.
Detalhes do artefato original apelidado de "Bateria de Bagdá"
Atualmente, no entanto (desde o ano 2000),
o museu passou chamado de "Bavarian State Archaeological Collection" (Archäologische Staatssammlung).
O museu é considerado uma das mais importantes coleções arqueológicas,
e de história cultural, na Alemanha.
Na matéria realizada pela BBC sobre a "Bateria de Bagdá", em 2003, foi mencionado que estudantes de História Antiga da Faculdade Smith, em Northampton, Massachusetts, no Estados Unidos, sob a orientação da Dra. Marjorie Senechal, professora de Matemática e História da Ciência e Tecnologia (atualmente professora emérita da referida faculdade) também tinha criado réplicas da "Bateria de Bagdá". O experimento teria sido realizado em 1999, e utilizado vinagre como solução ácida. A bateria teria produzido cerca de 1,1 volts por um determinado período de tempo não mencionado.

"Não acredito que alguém possa dizer, com certeza, para qual finalidade elas eram usadas, mas elas podem ter sido baterias, porque funcionam", disse, na época, a Dra. Marjorie Senechal.

Na matéria realizada pela BBC sobre a "Bateria de Bagdá", em 2003, foi mencionado que estudantes de História Antiga da Faculdade Smith, em Northampton, Massachusetts, no Estados Unidos, sob a orientação da Dra. Marjorie Senechal, professora de Matemática e História da Ciência e Tecnologia (atualmente professora emérita da referida faculdade) também tinha criado réplicas da "Bateria de Bagdá"
A "Bateria de Bagdá" acabou sendo um dos temas de um episódio da série "MythBusters" (Os Caçadores de Mitos), que é exibida desde 2003, pelo Discovery Channel. No episódio número 29 (S03E06), exibido originalmente em 23 de março de 2005, a equipe do programa criou 10 vasos de terracota, todos feitos à mão, para atuar como baterias. O suco de limão foi escolhido como eletrólito (solução ácida) para ativar a reação eletroquímica entre o cobre e o ferro. Ao serem conectadas em série, as "baterias" produziram cerca de cerca 4,33 volts (o site oficial menciona, que cada vaso produziu cerca de 0,5 volt, e os dez vasos somados teriam resultado em quase 4,5 volts), sendo que o conjunto tinha energia suficiente para galvanizar um pequeno objeto, da noite para o dia, ou seja, muito além do que "poucos minutos" com uma única "bateria" criada pelo Dr. Arne Eggebrecht.

Felizmente, encontrei esse episódio disponível publicamente na internet! Confira o episódio em questão, que foi publicado em um canal de terceiros, no Dailymotion, no ano passado (em inglês, sendo que a parte que nos interessa aparece a partir dos 9 minutos de vídeo):

Ao final do experimento, a equipe declarou como plausível a questão sobre a galvanização de objetos. A galvanização do zinco sobre o cobre pareceu funcionar muito bem. Também foi considerada como plausível a utilização das baterias como uma forma de acupuntura. A eletricidade das baterias foi sentida através das agulhas de acupuntura, embora as mesmas ficassem bem quentes no decorrer do tempo. Nesse sentido, a equipe teorizou, que essa técnica poderia ser utilizada como uma forma de tortura. Por fim, a equipe também declarou como plausível a utilização das baterias no âmbito espiritual. Adam Savage, um dos apresentadores do programa ao lado de Jamie Hyneman, até 2016, teorizou que, se alguma energia fosse sentida por indivíduos de povos antigos (ou até mesmo ao notar um zumbido gerado pela corrente elétrica), os mesmos poderiam acreditar, que a energia teria origem divina, devido à falta de conhecimento sobre a eletricidade.

Entretanto, é possível notar, que o modelo de vaso utilizado no programa é bem maior do que aquele encontrado no Iraque, ou seja, a capacidade para gerar energia seria bem maior no exemplo proporcionado pela série de TV. Além disso, ao comentar sobre o programa em um podcast realizado em julho de 2011, o arqueólogo e professor norte-americano Kenneth Feder disse que nenhuma evidência arqueológica havia sido encontrada sobre eventuais conexões entre os recipientes (que seriam necessários para produzir uma determinada energia), e nem mesmo a utilização dos mesmos para uma eventual prática de galvanoplastia.

Ao comentar sobre o programa em um podcast realizado em julho de 2011, o arqueólogo e professor norte-americano Kenneth Feder disse que nenhuma evidência arqueológica havia sido encontrada sobre eventuais conexões entre os recipientes (que seriam necessários para produzir uma determinada energia), e nem mesmo a utilização dos mesmos para uma eventual prática de galvanoplastia.
Em entrevista à BBC, em 2003, o Dr. Paul Craddock, especialista em metalurgia do Antigo Oriente Próximo do Museu Britânico, disse que era uma pena, que ninguém tivesse encontrado nenhum tipo de fiação, o que significava que a interpretação da "Bateria de Bagdá" como "bateria", propriamente dita, poderia estar completamente errada.

Curiosamente, o Dr. Paul Craddock acreditava na possibilidade do artefato ser mesmo uma bateria, e que poderia haver mais exemplares a serem descobertos, algo que, diga-se de passagem, não aconteceu nos últimos 15 anos. Ele acreditava que poderiam existir outros exemplares, em outros museus ao redor do mundo, e que, devido a ausência de um ou outro item, não teriam sido interpretados como se fossem baterias (daqui a pouco voltaremos a falar sobre o Dr. Paul Craddock).

As Hipóteses Formuladas ao Longo do Tempo Para Explicar os Estranhos Artefatos Encontrados no Iraque


Nesta parte da matéria vou tentar mostrar a vocês, com um pouco mais de detalhes, algumas hipóteses que foram aventadas ao longo do tempo para tentar explicar o estranho artefato encontrado no Iraque. Vamos começar, é claro, pela hipótese do artefato ser uma eventual "bateria", suas eventuais utilizações e os principais problemas dessa hipótese.

1) O Conjunto de Artefatos Seria "Bateria Destinada a Abastecer Casas, Templos, Equipamentos ou Naves Espaciais"?


Com base na chamada Arqueologia Experimental (campo que tenta gerar e testar hipóteses arqueológicas, geralmente replicando ou testando a viabilidade das culturas antigas realizarem diversas tarefas ou façanhas) é amplamente difundido, que o objeto descoberto no Iraque, com algumas modificações, e a adição de uma solução ácida (eletrolítica), seja capaz de funcionar de forma semelhante a uma bateria. Também é amplamente mencionado, que diversas "baterias", em conjunto, seriam necessárias para a prática da galvanoplastia. No entanto, uma informação importante sobre a Arqueologia Experimental é que, demonstrar que algo é viável, não equivale a prova científica de que esse algo realmente aconteceu.

Simplificando? Qualquer pessoa pode tentar deduzir e reproduzir, por exemplo, a forma pela qual as pirâmides foram construídas ao utilizar equipamentos, ferramentas ou matérias-primas disponíveis e conhecidas na época. Porém, isso não significa que as mesmas tenham sido realmente construídas da forma idealizada. Entenderam? O mesmo se aplica ao artefato encontrado no Iraque.

Uma informação importante sobre a Arqueologia Experimental é que, demonstrar que algo é viável, não equivale a prova científica de que esse algo realmente aconteceu.
Ao longo do tempo, muitos sugeriram, que o artefato poderia ser uma espécie de bateria usada na Antiga Mesopotâmia, pelo simples fato de que réplicas modernas - com o atual conhecimento da galvanoplastia adquirido a partir da "Pilha de Volta"- foram testadas com sucesso nesse sentido. Porém, convenientemente, essas mesmas pessoas se esquecem, que existem inúmeros argumentos indicando justamente o contrário, ou seja, que a mesma não seria uma bateria. Eis alguns pontos muito básicos:
  • Se fosse uma bateria, então precisaria de cabos ou condutores para distribuir ou conectar a mesma em algum equipamento, que necessitasse de energia elétrica para funcionar. Porém, nunca foram encontrados indícios de quaisquer fios, condutores, equipamentos elétricos, motores, lâmpadas etc. Não existe absolutamente nada até hoje nesse sentido;
  • A "Bateria de Bagdá" não possui terminais. Embora a haste de ferro se projete para fora do tampão de betume (ou "asfalto", como queiram), o tubo de cobre não se projeta (daqui a pouco mostrarei o esquema original), tornando impossível conectar fios para formar um circuito. E, por falar em fios, embora o Antigo Oriente Médio usasse fios de ferro e prata na fabricação de joias, não há indícios de que fios tenham sido produzidos em comprimentos, que tornassem um circuito elétrico prático ou qualquer fio que tivesse sido fabricado com material isolante, que seria necessário para evitar curtos-circuitos;
  • A eventual geração de energia no interior do artefato seria química, ou seja, a produção de corrente elétrica seria baseada em dois metais, com diferentes potenciais eletrolíticos, e uma solução que permitisse a transferência de elétrons, conhecida como eletrólito (solução ácida). Essa solução, com o tempo, perde naturalmente a capacidade de reagir quimicamente, ou seja, diminui gradualmente a voltagem, sendo necessário a reposição da solução ácida. Resumindo? Para continuar gerando energia, seria necessário repor a solução. Porém, o artefato era selado no topo com betume (algo que conhecemos popularmente como asfalto), ou seja, é inviável repor a solução com algo vedado dessa forma. Aliás, não havia nenhum outro orifício no objeto, que permitisse a retirada ou reposição de uma eventual solução em seu interior;
  • Para gerar energia elétrica, tal como conhecemos atualmente, seriam necessários milhares e milhares de vasos ligados em sequência, e uma quantidade absurda de solução ácida sendo reposta continuamente e, ainda assim, provavelmente funcionaria por um curtíssimo período de tempo. Isso sem falar é claro, em um outro ponto altamente problemático: a amperagem. Considerando esse e os argumentos anteriores pode-se notar claramente, que a "Bateria de Bagdá" não é, nem de longe, uma forma de gerar energia elétrica para abastecer casas, templos, equipamentos ou naves espaciais.
Existe ainda um detalhe muito crítico em relação a hipótese da bateria, independentemente de qual fosse sua finalidade. Atualmente, existem diversos modelos hipotéticos espalhados na internet, de como seria o esquema necessário para gerar energia, confira alguns exemplos abaixo (figuras "A" e "B"), em relação a uma réplica da "Bateria de Bagdá" (figura "C"):

Esquema criado pela Faculdade Smith para exemplificar a "Bateria de Bagdá"
Esquema criado pelo site "Aquiziam" para exemplificar a "Bateria de Bagdá"
Réplica bem semelhante em relação ao esquema interno da "Bateria de Bagdá"
Notaram algo interessante? No esquema imaginado pela Faculdade Smith (figura "A"), a solução ácida preenche completamente o interior do vaso, porém esse esquema interno está incorreto, visto que o cilindro de cobre, que tinha sua base fechada por um disco de cobre e selada com betume. Podemos ver isso claramente na ilustração seguinte (figura "B"), porém a mesma também está incorreta por dois "pequenos detalhes". O criador da ilustração imaginou que deveria haver um tubo para que o gás gerado pela reação química escapasse, porém não havia tal orifício ou quaisquer indícios disso. Além disso, o tubo de cobre está projetado para fora do vaso, algo que não acontece com aquilo que foi originalmente encontrado.

Na última foto (figura "C") podemos ver uma boa reprodução, ao menos em relação ao esquema interno do artefato. Podemos claramente perceber, que o espaço supostamente destinado a solução ácida (interior do cilindro) é muito menor que a parte interna do vaso, ou seja, não faz sentido desperdiçar o espaço restante sem preenchê-lo com mais solução ácida que, em tese, geraria mais energia (muito embora isso também dependa da qualidade dos materiais envolvidos, a capacidade condutora do fluido, ou seja, da solução ácida empregada, entre outros detalhes). Para não ser injusto, existe uma abertura na parte superior do cilindro de cobre que, talvez, fosse o elemento de ligação entre o interior do cilindro e a parte interna do vaso, mas curiosamente a utilidade dessa parte nunca foi mencionada em nenhum lugar. De qualquer forma, se a intenção fosse colocar solução ácida em toda a parte interna do vaso, porque fechar e selar a parte inferior do cilindro? Não faz sentido.

Para não ser injusto, existe uma abertura na parte superior do cilindro de cobre que, talvez, fosse o elemento de ligação entre o interior do cilindro e a parte interna do vaso, mas curiosamente a utilidade dessa parte nunca foi mencionada em nenhum lugar.
É muito importante ressaltar também que, durante um programa de entrevistas chamado "Science Friday ("SciFri"), que vai ao ar pela NPR (Rádio Pública Nacional dos Estados Unidos) todas às sextas-feiras, a Dra. Elizabeth Stone, professora de Arqueologia do Velho Mundo, Economia e Sociedades do Antigo Oriente Médio, Sociedades Complexas e Urbanismo, e uma especialista em arqueologia iraquiana da Universidade Stony Brook, afirmou que, após retornar da primeira expedição arqueológica no Iraque, após 20 anos, não conhecia um único arqueólogo que acreditava, que o artefato fosse mesmo uma bateria. A Dra. Elizabeth Stone foi questionada por um ouvinte, durante um programa que foi ao ar em março de 2012, sendo que a mesma é considerada uma autoridade em arqueologia iraquiana.

É muito importante ressaltar também que, durante um programa de entrevistas chamado "Science Friday ("SciFri"), que vai ao ar pela NPR (Rádio Pública Nacional dos Estados Unidos) todas às sextas-feiras, a Dra. Elizabeth Stone afirmou que, após retornar da primeira expedição arqueológica no Iraque, após 20 anos, não conhecia um único arqueólogo que acreditava, que o artefato fosse mesmo uma bateria
A hipótese mais fantasiosa de todas, sem dúvida alguma, é a de que grandes quantidades de "baterias de Bagdá" teriam sido utilizadas para alimentar lâmpadas elétricas (os fãs de "antigos astronautas" apontam para alguns hieróglifos egípcios que, segundo eles, representam lâmpadas elétricas em uso dentro das pirâmides). Muitos até mesmo alegam que o "Farol de Alexandria" possuía uma lâmpada elétrica. Não há, evidentemente, um único pingo de fundamento nisso. Nenhuma das peças é particularmente exótica ou tecnologicamente avançada. Os vasos de barro existiam na região há milhares de anos, e eram utensílios comuns na época. O betume (ou "asfalto" está naturalmente disponível na região, assim como o alcatrão e as bolhas de petróleo na superfície, e tem sido usado há muito tempo como material impermeabilizante. Os tubos de cobre eram frequentemente usados como invólucros de proteção para pergaminhos de papiro. E o ferro era um material comum para a época, usado para armas e ferramentas. portanto, não há nada particularmente singular sobre os materiais utilizados na "bateria", e eles não requerem nenhum conhecimento técnico avançado para serem construídos. Porém, na cabeça de quem acredita que seres de outros sistemas estelares ou galáxias pisaram na Terra para ensinar seres humanos a empilhar pedras (no caso das pirâmides, por exemplo), talvez faça sentido, que eles tenham ensinado a criar uma bateria, que gere apenas alguns míseros volts ao invés de ensinar como usar painéis solares ou criar usinas termelétricas.

Enfim, uma vez que essa possibilidade de gerar uma grande quantidade de energia elétrica é praticamente utópica, uma das melhores hipóteses para sustentar o artefato de Bagdá como uma autêntica bateria, é que a mesma seria usada para aplicar uma camada de ouro sobre a superfície de um objeto fabricado a partir de algum outro metal. Nesse ponto, novamente, existem fortes argumentos contrários.

2) O Conjunto de Artefatos Seria uma "Bateria Destinada a Galvanoplastia"?


Uma vez que a história sobre fornecer energia elétrica para o acendimento de lâmpadas ou maquinários ficou muito distante de uma realidade plausível, alguns pessoas passaram a questionar o uso do artefato encontrado para a prática da galvanoplastia,  a aplicação de uma fina camada de metal para uma outra superfície metálica, uma técnica que ainda é usada atualmente. A ideia é atraente, porque, essencialmente, reside em seu interior a mãe de muitas invenções: o dinheiro. Na fabricação de joias, por exemplo, uma camada de ouro ou prata é frequentemente aplicada para aumentar sua beleza e consequentemente seu valor comercial. Porém, existe um problema muito sério com essa hipótese: itens provenientes da mesma região onde a "Bateria de Bagdá" foi encontrada não foram tratados dessa maneira.

Em entrevista à BBC, em 2013, o Dr. Paul Craddock (lembram dele?) disse que, nos objetos vistos na região eram aplicados revestimentos de ouro a partir de uma amálgama de ouro e mercúrio (conforme explicado anteriormente). Aliás, todos os itens de ouro ou prata encontrados nos períodos mencionados mostram a assinatura química do vapor de mercúrio, e nenhum deles exibe as características dos revestimentos galvanizados. Se os partas ou os sassanídeos tinham conhecimento disso, seria bem provável que os romanos ou os bizantinos, ficariam sabendo disso e passassem a adotar tal prática. Assim como a história mostra, isso não aconteceu.

Uma vez que a história sobre fornecer energia elétrica para o acendimento de lâmpadas ou maquinários ficou muito distante de uma realidade plausível, alguns pessoas passaram a questionar o uso do artefato encontrado para a prática da galvanoplastia,  a aplicação de uma fina camada de metal para uma outra superfície metálica, uma técnica que ainda é usada atualmente. A ideia é atraente, porque, essencialmente, reside em seu interior a mãe de muitas invenções: o dinheiro.
Ainda segundo o Dr. Paul Craddock, nunca houve uma evidência irrefutável, que desse suporte a teoria da galvanoplastia. Além disso, para que a técnica pudesse ser executada, seria necessário a utilização de fios ou condutores, a reposição da solução contida no interior de cada vaso, a utilização de inúmeros vasos ligados em sequência etc. Tudo isso acaba recaindo nos pontos básicos, que refutam a possibilidade do artefato servir como uma autêntica bateria.

De acordo com David A. Scott, cientista sênior do Instituto de Conservação Getty, e chefe do laboratório de pesquisas do museu do instituto, "existe uma tendência natural para os escritores, que lidam com a tecnologia química, contemplarem esses objetos antigos singulares, de dois mil anos atrás, como acessórios de galvanoplastia, mas isso é claramente insustentável, pois não há absolutamente nenhuma evidência de galvanoplastia naquela região e naquele período de tempo".

3) O Conjunto de Artefatos Seria uma "Bateria Destinada a Práticas Medicinais ou Religiosas"?


Uma vez que abastecer casas ou aplicar camadas de ouro em objetos também se tornou um tanto quanto insustentável ao longo do tempo, algumas hipóteses alternativas começaram a ser divulgadas, na tentativa de manter o artefato como uma autêntica bateria.

Segundo a matéria publicada pela BBC, os chineses já tinham desenvolvido a acupuntura na época em que o artefato foi datado. Além disso, existe uma forma de acupuntura (embora recente), que é combinada com uma determinada corrente elétrica. Isso poderia explicar a "presença de objetos semelhantes a agulhas, que teriam sido encontrados juntamente com algumas 'baterias'" (iremos conferir se isso é mesmo verdade daqui a pouco). Contudo, uma vez que a voltagem gerada seria muito pequena, certamente a mesma seria ineficaz contra a dor, ainda mais considerando o bem documentado uso de outros "analgésicos" do mundo antigo, assim como a maconha, o ópio e o vinho. Também vale lembrar nesse ponto que, durante o experimento realizado pelo programa "Mythbusters", a eletricidade das baterias foi sentida através das agulhas de acupuntura, embora as mesmas ficassem bem quentes no decorrer do tempo.

Agora, se os partas eram excelentes guerreiros e não tinham tanto apreço assim pela ciência, eles realmente teriam chegado a esse ponto em termos medicinais? De qualquer forma, pouquíssimas pessoas acreditam nessa teoria.

Agora, se os partas eram excelentes guerreiros e não tinham tanto apreço assim pela ciência, eles realmente teriam chegado a esse ponto em termos medicinais? De qualquer forma, pouquíssimas pessoas acreditam nessa teoria.
Há quem acredite, a exemplo do Dr. Paul Craddock, que um conjunto de "baterias", conectadas em paralelo, poderia ter sido escondido dentro de uma estátua ou um ídolo metálico, para obter, talvez, uma "experiência divina".

Segundo o Dr. Paul Craddock, a estátua de uma divindade poderia ser "ligada", e então um sacerdote poderia fazer fazer perguntas para determinados indivíduos. Se alguém respondesse errado, e tocasse na estátua, receberia um pequeno choque ou talvez visse um pequeno e misterioso flash de luz azul. Ao responder de forma correta, o sacerdote poderia desconectar as bateria, e nenhum choque seria aplicado. Assim sendo, um indivíduo ficaria convencido do poder da estátua, do sacerdote e da religião.

É interessante ressaltar nesse ponto, que é sabido, que em templos da Antiga Grécia eram utilizados "truques tecnológicos" para produzir determinados efeitos, tais como portas que abriam sozinhas ou estátuas que se moviam, para causar medo ou respeito naqueles que os reverenciavam. Porém, até o presente momento não há evidências arqueológicas de que esse tipo de "truque" foi feito nas culturas parta ou sassânida.

Exemplo de estátua pertencente a cultura parta, que se encontra no Museu Nacional do Irã.
De qualquer forma, ainda segundo o Dr. Paul Craddock, mesmo que a corrente fosse insuficiente para aplicar um choque de verdade, a estátua poderia aquecer ou então poderia ocorrer um estranho formigamento nos dedos de alguém, que não soubesse do "truque" contido no interior da estátua. Contudo, até hoje não foi descoberta nenhuma estátua ou ídolo que tivesse tais vasos em seu interior. Resumindo, essa hipótese também é meramente especulativa, e não tem suporte a nenhuma descoberta nesse sentido. Apesar do experimento do "Mythbusters" também ter apontado a plausibilidade da questão religiosa, ainda assim não há nenhuma evidência histórica, que corrobore com essa hipótese.

4) O Conjunto de Artefatos Seria um Recipiente para o Armazenamento de Manuscritos?


Ironicamente, até hoje só existe uma hipótese formulada, que não faz com que o artefato funcione como uma autêntica bateria da antiguidade, sendo justamente essa hipótese a mais menosprezada por pseudoarqueólogos ou a mídia em geral: a utilização dos vasos como forma de armazenamento de pergaminhos de papiro. Tubos de cobre (assim como frascos de vidro) eram frequentemente utilizados como invólucros de proteção para papiros. Muitos arqueólogos sugerem, que o artefato nada mais é do que uma forma de armazenamento para pergaminhos de papiro, que eram enrolados na barra de ferro, e colocados no interior do cilindro de cobre. Posteriormente, esse conjunto era colocado no interior de um vaso de argila, e selado com betume para protegê-lo das chuvas e do tempo de um modo geral. A razão pela qual a haste estaria "oxidada"? Simples, a corrosão natural do ferro em decorrência do tempo.

Essa última hipótese parece bem simples, não é mesmo? Porém, talvez ela seja a resposta que procuramos. É justamente isso que vamos conferir a seguir.

Voltando no Tempo em Busca de Respostas: O Raro Artigo Publicado por Wilhelm König, a Passagem Escrita em seu Livro, e o Texto Publicado Pelo Escritor Willy Ley


Para tentarmos verdadeiramente entender toda essa história e o que a "Bateria de Bagdá" pode realmente representar, precisamos voltar no tempo, mas precisamente até o ano de 1938, e conferir o artigo "Ein galvanisches Element aus der Partherzeit?", publicado no periódico "Forschungen und Fortschritte". No entanto, é praticamente impossível encontrar esse artigo disponível publicamente na internet. Por outro lado, depois de uma longa jornada, finalmente consegui colocar as mãos no artigo publicado por Wilhelm König, algo que raramente se encontra em algum outro lugar.

Por outro lado, depois de uma longa jornada, finalmente consegui colocar as mãos no artigo publicado por Wilhelm König, algo que raramente se encontra em algum outro lugar. Não colocarei quaisquer links públicos para download do referido documento.
Inicialmente, König menciona que, em uma escavação do Museu do Iraque, em Khujut Rabu'a, a sudoeste de Bagdá, nos arredores de uma linha férrea que levava até Kirkuk, um artefato foi encontrado no Verão de 1936, sendo que a natureza do mesmo era desconhecida. O local onde o artefato foi encontrado pertencia a uma região de assentamentos, onde teriam sido encontrados objetos da era parta. O artefato consistia basicamente de um "jarro de argila", um cilindro feito de folha de cobre e uma barra de ferro. O "jarro" era oval, oblongo (figura geométrica que possui um comprimento maior do que sua largura), em argila queimada esbranquiçada, e tinha a base achatada (com 14 cm de altura, sendo que o diâmetro máximo era de 8 cm). A parte superior (pescoço do vaso) teria sido arbitrariamente removida, e possuía vestígios de asfalto. A abertura da parte superior tinha 33 mm de diâmetro.

O "jarro" era oval, oblongo (geométrica que possui mais comprimento que largura), em argila queimada esbranquiçada, e com base achatada (com 14 cm de altura, sendo que o diâmetro máximo é de 8 cm). A parte superior teria sido arbitrariamente removida, e possuía vestígios de asfalto. A abertura da parte superior tinha 33 mm de diâmetro.
No "jarro" havia um cilindro feito de folha de cobre (com 98 mm de altura e diâmetro de 26 mm). A extremidade inferior do cilindro era fechada por uma folha de cobre redonda. A conexão das bordas do cilindro, aparentemente, foi feita através de solda (solda macia). O composto metálico não podia mais ser determinado. Uma análise química mostrou um cobre bem puro, com traços de zinco, chumbo e ferro.

Dentro do cilindro de cobre havia um componente de ferro, em forma de haste (com 75 mm de comprimento). Ele estava completamente oxidado. Ele era preso por uma camada de asfalto, que se encontrava na borda superior do cilindro. Esse componente de ferro se projetava a cerca de 10 mm acima da camada de asfalto, e era mantido preso alinhado ao centro do cilindro, de modo que o mesmo ficava suspenso em seu interior (não encostava na base do cilindro). Na extremidade saliente da haste de ferro havia uma espécie de cobertura estratificada. Descendo, o núcleo de ferro apresentada uma erosão crescente. A mesma não chegava a tocar na base do cilindro, especialmente porque havia uma camada de asfalto de 3 mm de espessura na base do cilindro.

No "jarro" havia o cilindro feito de folha de cobre (com 98 mm de altura e diâmetro de 26 mm. A extremidade inferior do cilindro é fechada por uma folha de cobre redonda. A conexão das bordas do cilindro, aparentemente, foi feita através de solda (solda macia). Dentro do cilindro de cobre havia um componente de ferro, em forma de haste (com 75 mm de comprimento. Ele estava completamente oxidado. Ele era preso por uma camada de asfalto, que se encontrava na borda superior do cilindro.
Então, König começou a relatar, que quatro jarros de argila semelhantes tinha sido encontrados durante uma escavação do museu em Tel'Omar, perto da antiga cidade de Selêucia, sendo que três também continham um cilindro de cobre. Porém, em contraste com a descoberta citada acima, os jarros não possuíam um núcleo de ferro. Além disso, os cilindros de cobre eram fechados em ambas as extremidades e continham vestígios de fibras vegetais. König chegou a questionar se algum eventual "papiro" não tinha sido destruído durante a escavação. O quarto jarro possuía apenas um frasco de vidro quebrado e nenhum componente de metal. Curiosamente, König também citou, que era possível tão somente fazer suposições sobre o "dispositivo" encontrado em Khujut Rabu'a, mas seus componentes e o arranjo dos mesmos levava a sugerir, que pudesse ser uma espécie de dispositivo de galvanização.

Ele ainda chegou a mencionar que, pessoas que trabalhavam com prata em Bagdá, até hoje, usavam um processo primitivo envolvendo o uso de zinco, mas que, por outro lado, não era possível determinar a origem do processo. De qualquer forma, para isso fosse possível teria-se que assumir, que o cilindro de cobre possuísse algum líquido, uma solução ácida em seu interior, ou seja, König não encontrou vestígios de líquidos ou soluções ácidas no interior do cilindro.

Ele ainda chegou a mencionar que, pessoas que trabalhavam com prata em Bagdá, até hoje, usavam um processo primitivo envolvendo o uso de zinco, mas que, por outro lado, não era possível determinar a origem do processo.
Ao final, König mencionou que havia sido informado recentemente, que E. Kühnel, então diretor dos Museus Estatais de Berlim, que na época coordenava escavações em Ctesiphon, próximo a Bagdá, havia encontrado em sítios arqueológicos pertencentes a civilização Sassânida, um número maior de recipientes similares contendo elementos de cobre e de ferro. König concluiu com a hipótese de que todos os achados tinham sido utilizados para a prática da galvanoplastia, e que pesquisas futuras precisavam ser realizadas para comprovar isso.

Cerca de dois anos depois, em seu livro chamado "Im verlorenen Paradies. Neun Jahre Irak" ("Perdido no Paraíso: Nove Anos no Iraque", em português), König também fez um breve comentário sobre os artefatos encontrados na escavação de 1936. Confira o mesmo abaixo:
"Algo bem peculiar foi encontrado, e após ter passado por diversas mãos, foi trazido até a mim. Um vaso, semelhante a um jarro feito de argila de coloração amarelo-claro, cujo pescoço do vaso havia sido removido, continha um cilindro de cobre que era sustentado firmemente pelo asfalto. O vaso tinha cerca de 15 cm de altura; o tubo cilíndrico de folha de cobre, fechado embaixo, tinha 26 mm de diâmetro, e 9 cm de comprimento. No interior, sustentado por uma espécie de tampão de asfalto, havia um haste de ferro completamente oxidada, cuja ponta superior se projetava 1 cm do tampão, e estava coberta com uma fina camada de metal cinza-amarelado, totalmente oxidado, que parecia chumbo. A extremidade inferior da haste de ferro não se estendia até o fundo do cilindro, sobre o qual havia uma camada de asfalto com cerca de 3 mm de profundidade. A questão sobre o que era essa descoberta rara foi recebida com a resposta mais surpreendente de todas, após todas suas partes terem sido trazidas juntas, e então examinadas separadamente. Só poderia ter sido um elemento elétrico. Seria apenas necessário adicionar uma solução ácida ou alcalina para completar o elemento."
Foto mostrando algumas páginas do livro "Im verlorenen Paradies. Neun Jahre Irak"
Diante de tudo que foi escrito por Wilhelm König, algumas coisas ficam bem claras. Em primeiro lugar, ele não participou da escavação arqueológica, cuja documentação e local exato não são conhecidos, ou seja, não conhecemos o real contexto histórico e arqueológico do que foi encontrado. Para piorar a situação, ele disse que, após passar por diversas mãos (e talvez diversas informações podem ser sido adicionadas ou subtraídas no decorrer do tempo), os objetos tinham chegado, juntos, nas suas mãos. Outro detalhe é que, por mais que ele tivesse uma tendência a acreditar que o conjunto fosse um dispositivo de galvanoplastia da antiguidade, ele citou a presença de fibras vegetais e um frasco de vidro quebrado no interior de um dos vasos posteriormente encontrados em outro local. Ele inclusive sugeriu, que isso, talvez, indicasse a presença de algum papiro, ou seja, reforça e muito a teoria de que a "bateria de Bagdá" e os demais vasos servissem apenas como recipientes para estocar pergaminhos. König também citou, que maiores pesquisas seriam necessárias, algo que aparentemente nunca aconteceu, embora as especulações sempre foram publicadas a todo vapor.

Uma vez que sempre existe uma barreira idiomática, principalmente quando as descobertas não são descritas em inglês, tantos os céticos quanto os teóricos da conspiração, aparentemente nunca se importaram em ir atrás de quem realmente começou com toda essa história, ou seja, o arqueológo e pintor austríaco Wilhelm König, que em nenhum momento citou civilizações extraterrestres, tecnologia avançada ou muito menos teorizou, que havia energia elétrica abastecendo casas na Antiga Mesopotâmia.

Entretanto, o que poucos sabem é que essa história começou a ser realmente disseminada a partir de um artigo de Willy Ley, na revista "Astounding Science Fiction". O grande problema é que a "Astounding Science Fiction" não era um periódico científico, e Willy Ley era basicamente um escritor alemão de ficção científica. Evidentemente, fui atrás, e consegui acesso a edição completa da revista "Astounding Science Fiction". Consequentemente, encontrei o artigo escrito por ele.

Índice da edição de março de 1939 da revista "Astounding Science Fiction".
Primeira parte do artigo escrito por Willy Ley
Segunda parte do artigo escrito por Willy Ley
Olhando por cima até parece que o artigo Willy Ley seria apenas uma descrição da descoberta de Wilhelm König, porém se qualquer pessoa ler atentamente irá descobrir as verdadeiras intenções do escritor. Inicialmente, Willy mencionou que, na época, havia razões para acreditar que as baterias elétricas eram, na verdade, conhecidas e utilizadas muito antes de Alessandro Volta e Luigi Galvani. Ele também disse que, aqueles que construíram essas baterias na época de Cristo ou até mesmo antes disso, muito provavelmente não tinham quaisquer concepções sobre as reações químicas envolvidas ou correntes elétricas como se conhecia na época da publicação do seu artigo. Willy disse, que as pessoas, no passado remoto, tinham apenas um conhecimento empírico das coisas. Aliás, segundo ele, o conhecimento de tais resultados estava confinado a uma região bem limitada, nos arredores da antiga cidade de Bagdá.

Então, Willy passou a descrever as dimensões do "dispositivo" basicamente da mesma forma que Wilhelm König, porém acrescentou que, por mais que o mesmo tivesse sido encontrado em meio as relíquias do Império Parta, não havia nenhuma explicação alternativa, exceto que o "dispositivo" fosse uma bateria elétrica. Willy chegou a mencionar os quatro vasos descobertos em Tel'Omar, mas faz uma tremenda confusão, proposital ou não, em relação a essa descoberta. Ele mencionou que três dos vasos tinham tubos de cobre semelhantes aquele descoberto em Khujut Rabu'a, que não tinham hastes de ferro, mas que próximo dos quatro vasos tinham sido encontradas hastes finas de cobre e ferro, que podiam ter sido usadas como fios condutores. Isso não é totalmente verdade, visto que essa informação foi deturpada. Conforme sabemos, König disse que, quatro vasos tinham sido descobertos em uma escavação do museu em Tel'Omar, perto da antiga cidade de Selêucia, sendo que três também continham um cilindro de cobre. Porém, em contraste com a descoberta em Khujut Rabu'a, os jarros não possuíam um núcleo de ferro e, além disso, os cilindros de cobre eram fechados em ambas as extremidades, e contiam vestígios de fibras vegetais. König chegou a questionar se algum eventual "papiro" não tinha sido destruído durante a escavação. O quarto jarro possuía apenas um frasco de vidro quebrado e nenhum componente de metal.

Conforme vocês podem perceber, Willy Ley ignorou completamente diversos detalhes e, principalmente, o fato de terem sido encontradas fibras vegetais no interior de alguns vasos, além da possível existência de papiros no interior dos vasos aventada por Wilhelm König.

Olhando por cima até parece que o artigo Willy Ley seria apenas uma descrição da descoberta de Wilhelm König, porém se qualquer pessoa ler atentamente irá descobrir as verdadeiras intenções do escritor
Ironicamente, Willy também fez uma colocação interessante, e forneceu uma explicação totalmente rasa e especulativa para a mesma. Ele estranhou o fato de que não há qualquer menção sobre a existência de "baterias elétricas" por parte de escritores e filósofos da Antiguidade, porém se considerássemos que as baterias e o respectivo uso das mesmas tivesse sido ocultado como um "segredo comercial", seria possível que ninguém soubesse da existência das mesmas. Como sempre há uma teoria conspiratória para tentar explicar o porquê ninguém ou outras civilizações anteriores também não fizeram uso do mesmo "dispositivo", e ninguém na Antiguidade relatou a existência de "baterias elétricas".

Enfim, essa é basicamente a versão que os norte-americanos, e a maioria dos investigadores céticos ou então teóricos da conspiração, com sorte, irão se deparar para formular as mais diversas teorias e especulações. Porém, pouquíssimas pessoas têm acesso ao artigo original de König, e conforme sempre digo, quando você sonega informações das pessoas é exatamente isso que acontece: a internet vira palco para um bando de abutres ganharem dinheiro, alguns vendendo livros, sobre as mais diversas hipóteses fantasiosas e sem qualquer base histórica ou arqueológica.

O Drama Histórico Vivido pelo Museu Nacional do Iraque: Onde Foi Parar a Famosa "Bateria de Bagdá"?


Em março de 2003, os Estados Unidos realizaram uma ocupação ao território iraquiano sob a alegação de que o presidente Saddam Hussein mantinha um arsenal de armas químicas, que ameaçavam a paz mundial. Mesmo não provando a existência do arsenal bélico iraquiano, o governo norte-americano conseguiu promover o julgamento e a posterior condenação do ditador Saddam Hussein.

Apesar de toda e qualquer guerra ser devastadora para os seres humanos, a mesma se provou ser ainda mais devastadora para o Museu Nacional do Iraque, que acabou ficando "fechado" ao público, entre março de 2003 e fevereiro de 2015. O motivos das aspas é bem simples, o museu foi severamente saqueado durante e após a invasão norte-americana.

Uma foto de partir o coração ao ver tantos itens históricos e seculares quebrados e saqueados
Uma das entradas do Museu Nacional do Iraque completamente devastada.
Dezenas de milhares de peças, manuscritos e documentos foram saqueados.
As prateleiras do Museu Nacional do Iraque ficaram completamente vazias.
Em uma notícia publicada pela BBC, em 28 de fevereiro de 2015, foi mencionado inicialmente, que muitas antiguidades saqueadas durante a guerra já tinham sido recuperadas e restauradas, e que a reabertura do museu tinha sido uma resposta a um vídeo do Estado Islâmico, que mostrava estátuas sendo destruídas em Mosul. Na época, o então primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi prometeu punir os responsáveis.

Entretanto, essas palavras não mostravam, na realidade, o tamanho do problema. O Museu do Iraque estimava que cerca de 15 mil itens tinham sido saqueados devido ao caos gerado pela derrubada do regime de Saddam Hussein. Quase um terço tinha sido recuperado até fevereiro de 2015. A coleção do museu cobria 7.000 anos de história, sendo a Mesopotâmia - a forma pela qual o Iraque foi chamado por uma grande parte da história da humanidade - considerada o berço da civilização.

O Museu do Iraque estimava que cerca de 15 mil itens tinham sido saqueados devido ao caos gerado pela derrubada do regime de Saddam Hussein. Quase um terço tinha sido recuperado até fevereiro de 2015.
A coleção do museu cobria 7.000 anos de história, sendo a Mesopotâmia - a forma pela qual o Iraque foi chamado por uma grande parte da história da humanidade - considerado o berço da civilização.
Mais uma foto mostrando a tragédia histórica ocorrida no Museu Nacional do Iraque.
Em janeiro de 2016, o site ICSSI (Iniciativa de Solidariedade da Sociedade Civil Iraquiana) publicou que a chamada "Bateria de Bagdá" era um dos muitos artefatos que tinham saqueados, e que nunca mais retornaram ao Museu Nacional do Iraque.

Na verdade, milhares de outros artefatos únicos e manuscritos preciosos também foram saqueados. Também foi mencionado, que todos deveriam se esforçar para descobrir o paradeiro da "Bateria de Bagdá", e tentar rastreá-la pelo terreno indescritível do mercado negro, especialmente dentro de Israel e de outros países ocidentais.

Em uma notícia publicada pela BBC, em 28 de fevereiro de 2015, era mencionado inicialmente que muitas antiguidades saqueadas durante a guerra já tinham sido recuperadas e restauradas, e que a reabertura do museu tinha sido uma resposta a um vídeo do Estado islâmico, que mostrava estátuas sendo destruídas em Mosul. Na época, o então primeiro-ministro iraquiano Haider al-Abadi (na foto) prometeu punir os responsáveis.
Apesar de toda e qualquer guerra ser devastadora para seres humanos, a mesma se provou ser ainda mais devastadora para o Museu Nacional do Iraque, que acabou ficando "fechado" ao público, entre março de 2003 e fevereiro de 2015
Em última análise, a incrível "Bateria de Bagdá", e todo o seu mistério, deveria ser devolvida à sua casa legítima, o Iraque.

Comentários Finais


Sem dúvida alguma, a "Bateria de Bagdá" é um conjunto bem interessante e misterioso de artefatos. Por outro lado, muitos detalhes envolvendo sua descoberta e seu contexto histórico e arqueológico são nebulosos. Nunca foram realizadas análises mais aprofundadas, datações mais precisas ou uma investigação mais apurada sobre quem originalmente os descobriu, e sob quais condições. Diante das poucas informações existentes, podemos apenas fazer suposições e formular teorias sobre aquilo, que o conjunto poderia ou não representar em relação ao suposto intervalo de tempo que pertenceria. Não dá para afirmar, com certeza, por exemplo, que o conjunto servia para armazenar pergaminhos de papiro, porém essa alternativa, dentre todas as apresentadas é a que demonstra ser a mais provável e plausível atualmente. Apesar de ser tentador imaginar o conjunto como uma pilha voltaica da antiguidade, e viajar muito além ao pensar que pudessem ser ligadas em paralelo para fornecer energia elétrica em maior quantidade, existe uma série de fortes argumentos contrários a essa teoria. Aliás, apenas o tamanho do vaso, com apenas 14 cm de altura, por si só, já seria motivo de questionamento. Afinal de contas, se o eventual objetivo fosse mesmo gerar energia elétrica com o intuito de utilizá-la em algo prático, seja qual fosse sua finalidade, seria natural criar um conjunto bem maior do que isso. Contudo, aparentemente, nada muito maior foi encontrado até hoje.

Agora, ainda que remotamente pudesse ser uma bateria, a hipótese extraterrestre, aquela que menciona que seres de civilizações avançadas teriam vindo até o planeta Terra para ensinar esse conhecimento aos seres humanos soa bem absurda. Afinal de contas, teríamos que imaginar alienígenas descendo de suas naves espaciais altamente tecnológicas, oriundos de uma sistema estelar distante, talvez de outras galáxias, desembarcando na Terra, fazendo contato telepático com seres humanos e, em uma cena típica do filme "Ghost", ensinar os humanos a modelar vasos de barro, enrolar uma folha de cobre, colocar uma haste de ferro no meio, e adicionar uma solução ácida para, no final, gerar menos de 1 volt. É a mesma história sobre as pirâmides e os antigos astronautas, quando se imagina a mesma situação, porém o ensinamento seria sobre como empilhar pedras. Evidentemente, qualquer um pode acreditar nisso, e formular dezenas de teorias, hipóteses, imaginar imagens de foguetes em uma placa de pedra, quando, na verdade, são apenas animais, e assim por diante. Porém, é importante refletir o quão ilógico algumas coisas soam se realmente alguém parar, pensar, e principalmente, pesquisar seriamente sobre o assunto com um mínimo de bom senso.

A palavra "pesquisa" talvez seja a principal palavra que define esta matéria. Afinal de contas, esse é um curioso exemplo, onde a absoluta maioria dos chamados "céticos" e os "teóricos da conspiração" falharam. É incrivelmente raro você encontrar alguém, que mostre o que realmente foi escrito originalmente por Wilhelm König, o primeiro arqueólogo a documentar os artefatos, apresentar suas dimensões, alguns detalhes muito importantes, algumas outras descobertas semelhantes, porém com notáveis e relevantes diferenças, entre outros detalhes. Igualmente raro é alguém mostrar a vocês o que foi escrito por Willy Ley, escritor de ficção científica, que deturpou e ocultou algumas informações cruciais do texto de König, levando boa parte do mundo a acreditar em suas palavras. Daí em diante, tivemos apenas algumas pessoas, diante da Arqueologia Experimental, tentando realizar réplicas, muitas vezes imprecisas e sem levar em consideração a configuração original dos artefatos, uma vez que, por exemplo, diante do que foi encontrado, não havia como prender um "plug" no cilindro de cobre devido ao tampão de betume, ou seja, não teria como gerar energia elétrica dessa forma. Já na internet, a divulgação da história, na maioria dos casos, chega a ser lamentável, visto que sobra imprecisão e falta pesquisa. De qualquer forma, a matéria não serve apenas para mostrar a hipótese mais provável para explicar o conjunto de artefatos, mas para demonstrar o quão pesquisar sobre um assunto é importante. Enfim, espero que a matéria também sirva para iluminar a vida de vocês em relação as alegações fantásticas, que muitos fazem por aí. O objetivo de muitos paladinos, que criam ou inventam lucrativas histórias aleatórias, e que tentam pregar como verdadeiros pastores da revelação da verdade mundial, é justamente o contrário: manter você no escuro, completamente incapaz de pensar e refletir sobre o que falam.

Até a próxima, AssombradOs.

Pesquisa/Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
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https://www.sciencefriday.com/segments/archaeologists-revisit-iraq/
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