17 de janeiro de 2018

O Trágico Fim do Povo Asteca e a "Peste Negra" na Europa: Novas Descobertas Podem Reescrever os Livros de História?



Por Marco Faustino
Email para contato: marcofaustino@gmx.de

Em outubro do ano passado, comentei sobre um surto mortal de peste em Madagascar, na África. Talvez vocês não saibam, mas todos os anos há cerca de 600 casos de peste nessa ilha, que acabou ficando famosa pela animação de mesmo nome da DreamWorks. Embora a infecção não seja nenhuma novidade para aqueles que vivem nessa ilha ao largo da costa sudeste da África, o surto de peste do ano passado foi bem diferente de ocasiões anteriores. Além de acontecer mais cedo do que o esperado, o tipo de peste que atingiu o país não era o mais comum. Normalmente, os casos disseminados são bubônicos, que é um tipo de infecção bacteriana disseminada por pulgas. No entanto, no ano passado, cerca de 70% dos casos estavam relacionados a peste pneumônica, que se dissemina através do contato de pessoa para pessoa, sendo considerada muito mais mortal. Uma pessoa infectada, sem tratamento adequado, pode morrer em apenas 18 horas. Na época, diversos veículos de comunicação, principalmente tabloides britânicos, passaram a temer, que a peste pneumônica acabasse se espalhando para países vizinhos e até mesmo para outros continentes, através de matérias extremamente alarmistas e sensacionalistas. Para vocês terem uma ideia, tentaram até mesmo colocar a culpa em uma antiga tradição malgaxe: a de exumar os corpos de entre queridos, envolver os restos mortais em uma nova mortalha, e dançar segurando seus corpos antes de devolvê-los ao seu local de descanso. De qualquer forma, pesquisei a fundo toda aquela situação e mostrei a vocês que a realidade por trás do surto era bem diferente do que estavam divulgando na imprensa. Vale muito a pena conferir (leia mais: Uma Antiga Tradição de "Dançar com Cadáveres" vem Provocando um Surto Mortal de "Peste Negra" em Madagascar, na África?).

Agora, um novo estudo foi divulgado sobre a "peste negra", onde pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, disseram que a alta taxa de mortalidade em algumas cidades europeias, incluindo Londres, em meados do século XIV, não teria sido em decorrência das pulgas do rato-preto, mas devido a pulgas e piolhos presentes nos corpos das próprias pessoas, ou seja, que a "peste negra" teria sido propagada de pessoa para pessoa. Isso é algo, que simplesmente poderia reescrever nossos livros de história! Além disso, saiu um outro estudo referente ao trágico fim da civilização asteca. Muitas pessoas pensam até hoje, que os colonizadores europeus teriam sido responsáveis por uma matança desenfreada de povos ou civilizações antigas, sendo que as verdadeiras causas teriam sido as doenças trazidas pelos colonizadores. No entanto, um novo estudo teria descoberto a mais provável causa da morte de milhões de astecas, uma bactéria chamada salmonela, presente em alimentos ou água contaminada. Esse é um outro estudo totalmente independente do primeiro, ou seja, não tem nenhuma relação com a "peste negra", mas que também teria potencial para reescrever nossos livros de história. Vamos saber mais sobre esses assuntos?

A "Peste Negra" Teria se Disseminado Através dos Seres Humanos ao Invés dos Ratos? Novo e Surpreendente Estudo Aponta que Possivelmente Sim!


Assim que entrei para a SSA (Sociedade Secreta dos AssombradOs), em junho de 2015, publiquei uma história sobre como a "peste negra" acabou levando os sobreviventes para os famosos pubs ingleses. De acordo com Robert Tombs, professor de História da Universidade de Cambridge, a "peste negra" foi uma devastadora pandemia que dizimou praticamente a metade da população da Grã-Bretanha medieval, porém ela também teve um "efeito colateral" surpreendente, e bem inusitado sobre a cultura inglesa. Ela inadvertidamente deu origem ao nascimento do pub inglês, tal como conhecemos hoje em dia.

De acordo com o professor Robert Tombs, a "peste negra" foi uma devastadora pandemia que dizimou praticamente a metade da população da Grã-Bretanha medieval, porém ela também teve um "efeito colateral" surpreendente, e bem inusitado sobre a cultura inglesa. Ela inadvertidamente deu origem ao nascimento do pub inglês, tal como conhecemos hoje em dia
Robert Tombs é professor de História da Universidade de Cambridge, na Inglaterra
Robert Tombs disse em uma conferência no "Festival de História de Chalke Valley", o maior do Reino Unido, como a "peste negra" (mais conhecida como "peste bubônica"), que atingiu a Inglaterra em 1348, e matou milhões de pessoas, foi seguida por um período de salários bem maiores e um crescimento industrial na fabricação de cerveja, onde a resiliência britânica se destacou.

Vale lembrar nesse ponto, que a resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de um indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas.

Robert Tombs disse em uma conferência no "Festival de História de Chalke Valley", o maior do Reino Unido, como a "peste negra" (mais conhecida como "peste bubônica"), que atingiu a Inglaterra em 1348, e matou milhões de pessoas, foi seguida por um período de salários bem maiores e um crescimento industrial na fabricação de cerveja, onde a resiliência britânica se destacou
Segundo Robert Tombs, a sociedade, sem dúvida alguma, foi abalada pelo trauma que a pandemia trouxe, visto que vítimas tinham furúnculos e abscessos agonizantes, pústulas em suas pernas e sob suas axilas, e fortes dores de cabeça, mas a sociedade não entrou em colapso, como se imaginaria diante de tal situação. Os mortos foram enterrados de maneira apropriada e escavações mostraram que muitos não foram simplesmente atirados em poços, mas foram enterrados em sepulturas individuais de forma ordenada. Isso prova que a família e a Igreja se preocupavam com a situação.

Essa resiliência teria criado até mesmo a oportunidade para um período de maior liberdade e prosperidade. Os salários aumentaram, os preços caíram, e o poder de compra dos trabalhadores atingiu um novo recorde. A renda real subiu em 250% entre 1300 e 1450, e atingiu um nível em 1500, que não seria ultrapassado até a década de 1880. Ao contrário da maior parte do restante da Europa, os salários ingleses permaneceram altos. Uma consequência disso foi que a cerveja ficou em alta, ou seja, a fabricação de cerveja tornou-se mais comercial, sendo que cervejarias e bares para que as pessoas pudessem beber e jogar surgiram, ou seja, o pub inglês "nasceu" por assim dizer (as estalagens já existiam muito antes disso, mas as finalidades eram um pouco diferentes).

Essa resiliência teria criado até mesmo a oportunidade para um período de maior liberdade e prosperidade. Os salários aumentaram, os preços caíram, e o poder de compra dos trabalhadores atingiu um novo recorde. A renda real subiu em 250% entre 1300 e 1450, e atingiu um nível em 1500, que não seria ultrapassado até a década de 1880.
Uma consequência disso foi que a cerveja ficou em alta, ou seja, a fabricação de cerveja tornou-se mais comercial, sendo que cervejarias e bares para que as pessoas pudessem beber e jogar surgiram, ou seja, o pub inglês "nasceu" por assim dizer.
Vale ressaltar nesse ponto, que fabricação de cerveja sempre foi uma grande indústria. Era geralmente uma casa de campo em que as mulheres fabricavam a cerveja, porque a água nem sempre era segura para beber, então a cerveja era a bebida padrão. Aquela desconhecida senhora havia se tornado uma fabricante de cerveja em tempo integral, e sua casa havia se tornado uma casa pública (o termo "pub" deriva de "public house", ou seja, casa pública), e qualquer pessoa poderia frequentar para beber, talvez comer, e certamente socializar.

Agora, a "peste negra" voltou a ser destaque na mídia. Aliás, antes de comentar sobre o estudo, é importante dizer que, atualmente, não devemos usar mais o termo "peste negra" e sim tão somente "peste". De acordo com Lucille Blumberg, consultora do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul, a "peste negra" ou "morte negra" são termos referentes ao que ocorreu na Idade Média, quando a doença matou milhões de pessoas na Europa. Porém, 1346 foi antes da era dos antibióticos. No século XIV, os dedos das mãos e dos pés das pessoas podiam ficar negros devido à infecção no sangue. Atualmente, a peste é uma doença tratável com antibióticos comumente usados. Uma vez que estou tratando do evento ocorrido no século XIV, optei por usar o termo "peste negra", combinado? Sem mais delongas, vamos ao que interessa.

Entrando definitivamente em nosso assunto principal, aprendemos na escola que a "peste negra" foi disseminada por ratos, que carregavam pulgas infectadas em seus corpos, não é mesmo? Porém, talvez seja necessário que os livros escolares sejam alterados. O motivo? Bem, um novo estudo sugere que os roedores foram injustamente culpados pela praga, que matou milhões de pessoas na Europa medieval. Aparentemente, a "peste negra" não foi disseminada por ratos imundos, mas por piolhos e pulgas transportados pelos próprios seres humanos!
Entrando definitivamente em nosso assunto principal, aprendemos na escola que a "peste negra" foi disseminada por ratos, que carregavam pulgas infectadas em seus corpos, não é mesmo? Porém, talvez seja necessário que os livros escolares sejam alterados.
Um novo estudo sugere que os roedores foram injustamente culpados pela praga, que matou milhões de pessoas na Europa medieval. Aparentemente, a "peste negra" não foi disseminada por ratos imundos, mas por piolhos e pulgas transportados pelos próprios seres humanos!
Pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, criaram um modelo matemático sobre como as pessoas morreriam se os ratos fossem os verdadeiros vilões. Contudo, as taxas de mortalidade em nove cidades europeias, incluindo Londres, não coincidiam. Se as pulgas de ratos realmente espalhassem a peste bubônica, os especialistas esperavam ver pouquíssimas pessoas morrendo, ao menos logo no início do que se tornaria uma pandemia. Assim sendo, os números aumentariam, à medida que os ratos carregando as pulgas infectadas morressem, fazendo com que essas mesmas pulgas partissem rumo aos seres humanos #partiupandemia.

Entretanto, os registros de mortes sugerem que a falta de banho por parte da maioria dos cidadãos talvez tenha servido de "combustível", ao aumentar significativamente o poder de propagação da peste negra. A maioria das pessoas, provavelmente já tinham suas próprias pulgas e piolhos, quando a peste chegou à Europa, em 1346, porque tomavam banho com pouca frequência.

Pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, criaram um modelo matemático sobre como as pessoas morreriam se os ratos fossem os verdadeiros vilões. Contudo, as taxas de mortalidade em nove cidades europeias, incluindo Londres, não coincidiam
Entretanto, os registros de mortes sugerem que a falta de banho por parte da maioria dos cidadãos talvez tenha servido de "combustível", ao aumentar significativamente o poder de propagação da peste negra. A maioria das pessoas, provavelmente já tinham suas próprias pulgas e piolhos, quando a peste chegou à Europa, em 1346, porque tomavam banho com pouca frequência. A foto acima mostra o que seriam "piolhos do corpo" na pele de uma pessoa.
A foto acima mostra o que seria uma pulga cujo principal hospedeiro é o ser humano
"Para sete das nove cidades medievais, o modelo que melhor descreve os focos da peste medieval era assumindo que os ectoparasitas humanos - pulgas humanas e piolhos do corpo - tenham sido a principal maneira pela qual a peste se espalhou. Mesmo assumindo um rato para cada pessoa nas cidades medievais, que provavelmente era 10 vezes o número real de ratos, as taxas de mortalidade não se encaixam", disse o biólogo computacional Boris Schmid, do Centro de Síntese Ecológica e Evolutiva da Universidade de Oslo.

O estudo foi publicado no periódico "Proceedings of the National Academy of Sciences" (PNAS), que é periódico científico oficial da Academia de Ciências dos Estados Unidos
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"Para sete das nove cidades medievais, o modelo que melhor descreve os focos da peste medieval era assumindo que os ectoparasitas humanos - pulgas humanas e piolhos do corpo - tenham sido a principal maneira pela qual a peste se espalhou. Mesmo assumindo um rato para cada pessoa nas cidades medievais, que provavelmente era 10 vezes o número real de ratos, as taxas de mortalidade não se encaixam", disse o biólogo computacional Boris Schmid.
A "Peste Negra de 1348" entrou para a história por matar metade da população de Londres, em cerca de apenas 18 meses, com até cinco camadas de corpos sendo empilhados em valas comuns, muito embora muitas pessoas tenham recebido um enterro adequado, conforme mencionei anteriormente. Quando a "Grande Peste de 1665" se abateu sobre a cidade, cerca de um quinto da população londrina morreu, sendo que as vítimas eram trancadas em suas casas, e uma cruz vermelha era pintada na porta com as palavras: "Senhor, tende piedade de nós".

A pandemia se espalhou pela Europa durante os séculos XIV e XIX, acreditando-se, é claro, que viesse das pulgas, que se alimentavam do sangue de ratos infectados, antes de picar os seres humanos e transmitir a doença aos mesmos. A "Peste Negra de 1348" matou 1/3 da Europa em apenas alguns anos (cerca de 25 milhões de pessoas naquela época), mas os especialistas modernos desafiam a visão dominante de que os ratos causaram a doença. Eles apontam que os ratos não eram tão comuns no norte da Europa, que foi atingido igualmente pela peste, assim como o restante da Europa, e que a peste se espalhou mais rapidamente do que os seres humanos poderiam ter sido expostos às pulgas.

Quando a "Grande Peste de 1665" se abateu sobre a cidade, cerca de um quinto da população londrina morreu, sendo que as vítimas eram trancadas em suas casas, e uma cruz vermelha era pintada na porta com as palavras: "Senhor, tende piedade de nós".
Os pesquisadores noruegueses, que também criaram um modelo matemático para pulgas e piolhos humanas, descobriram que seu gráfico das taxas de mortalidade se aproximava das mortes registradas em artigos e relatórios do governo daquela época. Isso teria espalhado a peste de forma muito mais eficiente, porque as pessoas que dormiam nas mesmas camas teriam sido mordidas pelas mesmas pulgas e piolhos.

"Foi há menos de uma década, que os cientistas e historiadores aceitaram que a 'peste negra' foi definitivamente uma versão da peste, embora uma forma variante da bactéria tenha agido de maneira diferente da peste atual", disse o professor Mark Bailey, um historiador e especialista em Peste Negra, da Universidade de East Anglia, na Inglaterra.

"Foi há menos de uma década, que os cientistas e historiadores aceitaram que a 'peste negra' foi definitivamente uma versão da peste, embora uma forma variante da bactéria tenha agido de maneira diferente da peste atual", disse o professor Mark Bailey, um historiador e especialista em Peste Negra, da Universidade de East Anglia (na foto), na Inglaterra.
"Isso explica o porquê a 'peste negra' se comportou de forma diferente da forma moderna da doença, se espalhando muito rápido e na época errada do ano. A sugestão de que os ectoparasitas, assim como pulgas e piolhos humanas, transportaram a doença medieval também explicaria sua rápida disseminação, sendo que esse estudo fornece motivos muito robustos para aceitar essa teoria. Isso apenas mostra como a ciência está reformulando nossa compreensão da história", completou.

Em entrevista a BBC, o professor Nils Stenseth, da Universidade de Oslo, disse que eles tinham bons dados sobre a taxa de mortalidade dos surtos ocorridos em nove cidades da Europa, e que a partir disso, ele podiam criar modelos da dinâmica da doença. Para Nils Stenseth, a conclusão foi muito clara: o modelo envolvendo piolhos do corpo era o que melhor se encaixava. Seria improvável que se espalhasse tão rápido se fosse transmitido por ratos.

O professor Nils Stenseth também disse, que o estudo era principalmente de interesse histórico - usando a compreensão moderna da doença para descobrir o que aconteceu durante uma das mais devastadoras pandemias da história da humanidade. Porém, ele ressaltou, que "é sempre bom entender o máximo possível sobre o que se passa durante uma epidemia se você pretende reduzir a mortalidade no futuro". De acordo com ele, o estudo sugere que, para evitar uma disseminação futura, a higiene é o mais importante. O estudo também sugere, que se uma pessoa estiver doente, não deve entrar em contato com muitas outras pessoas, ou seja, que a pessoa doente deve ficar em casa.

Para Nils Stenseth, a conclusão foi muito clara: o modelo envolvendo piolhos do corpo era o que melhor se encaixava. Seria improvável que se espalhasse tão rápido se fosse transmitido por ratos.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde foram notificados 3.248 casos em todo o mundo, incluindo 584 óbitos, entre 2010 e 2015 (sendo que esse número irá aumentar substancialmente quando o atual surto em Madagascar terminar, visto que até o momento já ocorreram mais de 200 óbitos). Atualmente, os três países mais endêmicos são a República Democrática do Congo, Madagascar e o Peru. Já a "peste negra", no total, em séculos anteriores, teria sido responsável pela morte entre 75 e 200 milhões de pessoas somente na Eurásia. Assustador, não é mesmo?

O Povo Asteca Teria Sido Dizimado pela Salmonela? "Novo" e Surpreendente Estudo Indica que Possivelmente Sim, Mas Há Muitas Controvérsias e Mais Estudos Serão Necessários!


Muitas pessoas também crescem acreditando que os colonizadores europeus teriam desencadeado uma matança generalizada de civilizações inteiras, que habitavam diversas regiões da América Latina e da América Central, porém não é bem assim que a história nos conta. Evidentemente houve certos conflitos, mas nada se compara com uma arma mortal trazida nos alimentos, nos navios e nos corpos dos colonizadores: as doenças da Europa.

Para vocês terem uma ideia, estima-se que a varíola tenha dizimado com 8 milhões de astecas logo após a chegada dos colonizadores espanhóis, lembrando os astecas eram um povo que contava com 25 milhões de pessoas, ou seja, 1/3 da população asteca morreu por não ter os anticorpos necessários no combate a varíola ou qualquer outro tipo de tratamento. Um inimigo silencioso e fatal.

Muitas pessoas também crescem acreditando que os colonizadores europeus teriam desencadeado uma matança generalizada de civilizações inteiras, que habitavam diversas regiões da América Latina e da América Central, porém não é bem assim que a história nos conta
Para vocês terem uma ideia, estima-se que a varíola tenha dizimado com 8 milhões de astecas logo após a chegada dos colonizadores espanhóis, lembrando os astecas eram um povo que contava com 25 milhões de pessoas.
Recentemente, no entanto, após mais de 450 anos, cientistas acreditam que possam ter descoberto a causa de uma epidemia que atingiu a população asteca, no México, em 1545, algo que teria resultado na morte de até 15 milhões de pessoas, ou seja, sepultando de vez o destino da civilização asteca. Em um estudo publicado no periódico "Nature Ecology & Evolution", pesquisadores descreveram como o DNA extraído dos dentes de 29 esqueletos enterrados em um sítio funerário na região Sul do México revelou traços, previamente não identificados, da bactéria salmonela entérica.

A bactéria é conhecida por causar a febre entérica, no qual a febre tifoide é um exemplo da mesma. De acordo com o estudo, os sintomas se relacionam com aqueles mencionados nos registros daquela época. Esses registros descreviam que vítimas desenvolviam manchas vermelhas na pele, vômitos e apresentavam sangramento a partir de diversos orifícios pelo corpo. A epidemia foi apenas uma de diversas outras que atingiram a população indígena logo após a chegada dos europeus no início do século XVI.

Em um estudo publicado no periódico "Nature Ecology & Evolution", pesquisadores descreveram como o DNA extraído dos dentes de 29 esqueletos enterrados em um sítio funerário na região Sul do México revelou traços, previamente não identificados, da bactéria salmonela entérica. A foto acima mostra Ashild Vagene, co-autora do estudo, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana.
"Quando os europeus chegaram ao México, eles trouxeram muitas doenças diferentes. Houve dezenas de epidemias no Novo Mundo e o México foi particularmente atingido", disse Ashild Vagene, co-autora do estudo, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, em Jena, na Alemanha, em entrevista ao jornal britânico "The Independent".

"O que estamos falando é sobre a dizimação devastadora das populações indígenas por doenças previamente desconhecidas. As taxas de mortalidade talvez tenham sido de 80 ou 90% até 1600. Imagine que 9 em cada 10 pessoas tenham morrido, isso é quase inimaginável", disse a Dra. Caroline Dodds Pennock, professora em História Internacional na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, que não participou do estudo, também em entrevista ao jornal britânico "The Independent".

"Quando os europeus chegaram ao México, eles trouxeram muitas doenças diferentes. Houve dezenas de epidemias no Novo Mundo e o México foi particularmente atingido", disse Ashild Vagene (na foto), co-autora do estudo, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana, em Jena, na Alemanha, em entrevista ao jornal britânico "The Independent"
A causa da epidemia ocorrida entre 1545 e 1550 tem sido debatida há mais de um século. O sarampo, a peste pneumônica e a gripe já tinham sido sugeridas como possibilidades, mas os historiadores nunca chegaram a um consenso. A população indígena deu um nome ao surto: "cocoliztli", um termo genérico que significa "peste" na língua nativa dos astecas. Embora as estimativas variem muito, a epidemia provavelmente matou entre 5 e 15 milhões de pessoas, ou seja, até 80% da população. A mesma ocorreu apenas duas décadas após uma epidemia de varíola, que matou até 8 milhões de pessoas, logo após a chegada dos espanhóis, sendo considerada uma das epidemias mais devastadoras da história da humanidade. A epidemia afetou grandes áreas da regiões centrais do México e da Guatemala, e talvez tenha se estendido até o sul do Peru.

Ashild Vagene e sua equipe analisaram o DNA de dois conjuntos de esqueletos: 24 que foram enterrados em um cemitério intimamente ligado à epidemia chamada de "cocoliztli" e cinco encontrados em um cemitério que estava em uso antes dos colonizadores espanhóis chegarem em 1519. O DNA foi analisado utilizando um novo programa chamado MALT ("Megan Alignment Tool"), que permite aos cientistas pesquisar qualquer patógeno conhecido (mais de 2.700 genomas bacterianos modernos).

Ashild Vagene e sua equipe analisaram o DNA de dois conjuntos de esqueletos: 24 que foram enterrados em um cemitério intimamente ligado à epidemia chamada de "cocoliztli" e cinco encontrados em um cemitério que estava em uso antes dos colonizadores espanhóis chegarem em 1519
O DNA foi analisado utilizando um novo programa chamado MALT ("Megan Alignment Tool"), que permite aos cientistas pesquisar qualquer patógeno conhecido (mais de 2.700 genomas bacterianos modernos).
"Isso é revolucionário para o nosso campo de DNA antigo. Isso nos permite visualizar todos os patógenos que conhecemos atualmente sem ter que especificar um organismo. Podemos procurar pelo desconhecido, o que é maravilhoso", disse Ashild Vagene. A cepa de salmonela foi encontrada em 10 dos 24 esqueletos "pós-contato" e nenhum dos corpos "pré-contato", algo que Ashild descrever como uma "ótima descoberta".

"O DNA antigo nem sempre preserva muito bem. Ele quebra ao longo do tempo. Então, poder encontrar isso em 10 de 24 esqueletos, é algo significativo", continuou, acrescentando, que o fato de que vestígios também foram encontrados nos dentes é igualmente importante.

A cepa de salmonela foi encontrada em 10 dos 24 esqueletos "pós-contato" e nenhum dos corpos "pré-contato", algo que Ashild descrever como uma "ótima descoberta".
"A salmonela é uma bactéria que você normalmente contrai através de alimentos ou fontes de água contaminadas. Tudo começaria no intestino, então encontrá-la nos dentes sugere que a mesma entrou na corrente sanguínea. A doença se espalhou por todo o corpo", continuou. Isso sugere, portanto, que esses indivíduos não eram simplesmente portadores da doença, mas que teriam sido vítimas dela.

Mais pesquisas serão necessárias para determinar se a salmonela entérica foi a única causa da epidemia ou se outros vírus e patógenos também estavam presentes nesses corpos. Ashild Vagene também apontou, que sua equipe só estudou um único grupo de esqueletos de um sítio funerário.

"Nós simplesmente não sabemos se esse patógeno está presente em outras áreas (afetadas pelo surto)", explicou.

Mais pesquisas serão necessárias para determinar se a salmonela entérica foi a única causa da epidemia ou se outros vírus e patógenos também estavam presentes nesses corpos. Ashild Vagene também apontou, que sua equipe só estudou um único grupo de esqueletos de um sítio funerário.
Além disso, também não ficou claro se os europeus foram os responsáveis por introduzir a salmonela na população indígena. Contudo, diversos fatores apontam para esta conclusão. A salmonela entérica existia na Europa bem antes dos espanhóis terem conquistado a região, e os esqueletos "pré-contato" analisados no estudo não apresentavam vestígio do patógeno. Além disso, é possível que alguém carregue o patógeno sem apresentar sintomas.

"Indivíduos aparentemente saudáveis poderiam ter viajado da Europa para o México sem saber que tinham a salmonela entérica nos corpos. Se as fezes de uma pessoa infectada entrassem em contato com o abastecimento local de água, isso poderia ter levado a uma rápida disseminação da doença", completou.

De qualquer forma, nem todo mundo concordou ou interpretou o estudo dessa mesma forma. Elizabeth Graham, professora de Arqueologia da "University College London" (UCL), ofereceu uma interpretação diferente das descobertas. De acordo com Elizabeth, as pessoas podem ter ficado doentes devido a uma doença diferente, ou seja, elas seriam menos capazes de cuidar de si mesmas e aumentar o risco representado pela salmonela.

De qualquer forma, nem todo mundo concordou ou interpretou o estudo dessa mesma forma. Elizabeth Graham (na foto), professora de Arqueologia da "University College London" (UCL), ofereceu uma interpretação diferente das descobertas
"A salmonela não foi necessariamente a causa da epidemia. Todos foram atingidos de uma só vez. Ninguém podia cuidar de ninguém. A salmonela pode ser um sinal de que as pessoas não conseguiam mais cuidar uma das outras", disse Elizabeth Graham, agradecendo, no entanto, pela realização da pesquisa e o desenvolvimento de ferramentas avançadas de análise de DNA que igualmente permitiriam que a mesma foi realizada.

Segundo Elizabeth, as doenças infecciosas são particularmente difíceis de identificar, uma vez que geralmente não afetam o esqueleto.

Prédio principal da da "University College London" (UCL)
"Até mesmo hoje em dia, o diagnóstico de doenças é difícil. É muito mais difícil tentar descobrir como as pessoas morreram há centenas de anos. Quase nenhum DNA consegue ser detectado em esqueletos de alguns anos atrás. Os métodos de detecção certamente melhoraram", continuou.

Quem também parece discordar dessa história é Caitlin Pepperell,
uma pesquisadora que estuda doenças infecciosas
na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos
"A salmonela provavelmente não é a história completa, e este estudo não responde todas as perguntas. Contudo, oferece evidências adicionais muito interessantes para o que estava acontecendo no vale do México, e após meados do século XVI", finalizou.

Quem também parece discordar dessa história é Caitlin Pepperell, uma pesquisadora que estuda doenças infecciosas na Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, e que não esteve envolvido com o estudo.

"Instintivamente, eu suspeitaria que haveria múltiplos agentes envolvidos nessa epidemia", disse Caitlin Pepperell, em entrevista ao site "National Geographic. Segundo a pesquisadora, diversos outros fatores podem ter contribuído para isso, muitos deles decorrentes do colonialismo, incluindo "interrupções no abastecimento de alimentos, a escassez de alimentos, as mudanças nas concentrações de populações e realocação de pessoas".

"É difícil ter certeza absoluta, porém acredito que a mesma provavelmente teve origem europeia, porque isso era algo novo para a população, e a atingiu severamente", disse Anne Stone da Escola de Evolução e Mudança Social da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, e que também não esteve envolvida no estudo.

Resumindo? Ainda temos nenhuma certeza se a salmonela realmente foi a principal causadora da morte de milhões de astecas em 1545. O estudo é promissor, mas ainda falta um longo caminho a ser percorrido, ao contrário do que muitos títulos e manchetes vêm apontando, inclusive aqui no Brasil.

Uma Descoberta que Não é Tão Recente Conforme Muitos Podem Estar Imaginando


Apesar de uma certa "euforia" por parte da mídia em relação a divulgação do estudo publicado no periódico "Nature Ecology & Evolution", é muito importante ressaltar que o mesmo não é completamente desconhecido da comunidade científica. Em fevereiro do ano passado, o próprio site da revista Nature havia publicado uma notícia sobre dois estudos, que tinham sido enviados para um repositório de artigos científicos chamado "bioRvix" (um local onde se envia artigos, antes que sejam revisados por pares e finalmente publicados em periódicos científicos).

No texto intitulado "Collapse of Aztec society linked to catastrophic salmonella outbreak" ("Colapso da sociedade asteca relacionado a um surto catastrófico de salmonela") era informado justamente que, em um dos estudos, os pesquisadores disseram que recuperaram o DNA da bactéria salmonela de pessoas enterradas no México, ligadas a uma epidemia da década de 1540, que teria matado até 80% dos habitantes nativos do país. A Nature também informava, que duas grandes epidemias assolaram os astecas, em 1545 e 1576, matando entre 7 e 18 milhões de pessoas.

Em fevereiro do ano passado, o próprio site da revista Nature havia publicado uma notícia sobre dois estudos, que tinham sido enviados para um repositório de artigos científicos chamado "bioRvix" (um local onde se envia artigos, antes que sejam revisados por pares e finalmente publicados em periódicos científicos).
Em 2002, pesquisadores da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), na Cidade do México, propuseram que uma febre hemorrágica viral, exacerbada por uma seca catastrófica, estava por trás da dizimação dos astecas. Eles compararam a magnitude do surto 1545 com a da "peste negra" na Europa do século XIV.

No ano passado, no entanto, a Nature citou que o principal autor da descoberta era o geneticista evolutivo Johannes Krause, do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana. O sequenciamento adicional de fragmentos curtos e danificados de DNA dos restos mortais havia permitido à equipe reconstruir dois genomas de uma cepa de salmonela entérica conhecida como "Paratyphi C". Atualmente, esta bactéria causa febre entérica, uma doença semelhante a tifo, que ocorre principalmente em países em desenvolvimento. Se não for tratada, ela mata ente 10 a 15% das pessoas infectadas.

María Ávila-Arcos, uma geneticista evolutiva da UNAM, que não participou do estudo, exaltou o mesmo, mas não ficou convencida. Ela observou que algumas pessoas sugeriram, que teria sido um vírus e não uma bactéria a responsável pelo "cocoliztli", e que o mesmo não teria sido identificado devido ao método utilizado pela equipe.

No ano passado, no entanto, a Nature citou que o principal autor da descoberta era o geneticista evolutivo Johannes Krause (na foto), do Instituto Max Planck para a Ciência da História Humana
Já em relação a origem da salmonela encontrada nos corpos, Johannes Krause ressaltou um outro estudo publicado na "bioRxiv", cerca de uma semana antes, o que levantava a possibilidade que a salmonela "Paratyphi C" teria chegado ao México a partir da Europa. Uma equipe liderada por Mark Achtman, um microbiologista da Universidade de Warwick, em Coventry, no Reino Unido, coletou e sequenciou o genoma da cepa bacteriana dos restos mortais de uma jovem enterrada por volta de 1200, em um cemitério de Trondheim, na Noruega. De acordo com o estudo, essa seria a primeira evidência da cepa de salmonela, atualmente rara, e a prova de que ela circulava na Europa bem antes da colonização europeia do Novo Mundo.

No entanto, de acordo com um biólogo evolutivo da Universidade McMaster, em Hamilton, no Canadá, a existência de salmonela "Paratyphi C" na Noruega, 300 anos antes de aparecer no México, não prova que os europeus espalharam a febre entérica para os nativos mexicanos, embora seja uma hipótese razoável. Uma pequena porcentagem de pessoas infectadas com salmonela "Paratyphi C" carregam a bactéria sem adoecer, então os espanhóis aparentemente saudáveis poderiam ter infectado os mexicanos, que não possuíam resistência natural.

Nesse sentido, Johannes Krause destacou que "Paratyphi C" é transmitida através de material fecal, e um colapso da ordem social durante a conquista espanhola pode ter resultado em condições sanitárias precárias, algo que favoreceria a disseminação da salmonela. Enfim, esse é um assunto bem polêmico e bem complexo de ser analisado, visto que há mais de século os pesquisadores nunca chegaram a um consenso. De qualquer forma, é necessário cautela e não fazer nenhum tipo alarmismo diante do que foi divulgado. Novos estudos ainda serão necessários, e o debate está muito longe do fim.

Até a próxima, AssombradOs!

Pesquisa/Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://edition.cnn.com/2018/01/16/health/black-death-plague-spread-by-humans-intl/index.html
http://www.bbc.co.uk/news/science-environment-42690577
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-5263271/Possible-cause-colonial-era-Mexican-epidemic-identified.html
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