30 de outubro de 2017

Uma Antiga Tradição de "Dançar com Cadáveres" vem Provocando um Surto Mortal de "Peste Negra" em Madagascar, na África?


Por Marco Faustino

Não me lembro da última vez, que trouxe algum caso relacionado a chamada "Peste Negra" (muito embora a doença não seja mais chamada assim e explicaremos o porquê mais a frente) para vocês. Lembro apenas que, muito antes de começar a escrever para vocês, publiquei na SSA (Sociedade Secreta dos AssombradOs), no Facebook, uma história sobre como a peste negra acabou levando os sobreviventes para os famosos pubs ingleses. De acordo com Robert Tombs, professor de História da Universidade de Cambridge, a peste negra foi uma devastadora pandemia que dizimou praticamente a metade da população da Grã-Bretanha medieval, porém ela também teve um "efeito colateral" surpreendente, e bem inusitado sobre a cultura inglesa. Ela inadvertidamente deu origem ao nascimento do pub inglês, tal como conhecemos hoje em dia. Robert Tombs disse em uma conferência no Festival de História de Chalke Valley, o maior do Reino Unido, em junho de 2015, como a "peste negra" (mais conhecida como "peste bubônica"), que atingiu a Inglaterra em 1348 e matou milhões, foi seguida por um período de salários bem maiores e um crescimento industrial na fabricação de cerveja, onde a resiliência britânica se destacou. Vale lembrar nesse ponto, que a resiliência é um conceito psicológico emprestado da física, definido como a capacidade de um indivíduo lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas.

Segundo Robert Tombs, a sociedade, sem dúvida alguma, foi abalada pelo trauma que a pandemia trouxe, visto que vítimas tinham furúnculos e abscessos agonizantes, pústulas em suas pernas e sob suas axilas, e fortes dores de cabeça, mas a sociedade não entrou em colapso, como se imaginaria diante de tal situação. Os mortos foram enterrados de maneira apropriada e escavações mostraram que muitos não foram simplesmente atirados em poços, mas foram enterrados em sepulturas individuais de forma ordenada. Isso prova que a família e a Igreja se preocupavam com a situação. Essa resiliência criou até mesmo a oportunidade para um período de maior liberdade e prosperidade. Os salários aumentaram, os preços caíram, e o poder de compra dos trabalhadores atingiu um novo recorde. A renda real subiu em 250% entre 1300 e 1450, e atingiu um nível em 1500, que não seria ultrapassado até a década de 1880. Ao contrário da maior parte do restante da Europa, os salários ingleses permaneceram altos. Uma consequência disso foi que a cerveja ficou em alta, ou seja, a fabricação de cerveja tornou-se mais comercial, sendo que bares e cervejarias para beber e jogar surgiram, e o pub inglês "nasceu" por assim dizer. A fabricação de cerveja sempre foi uma grande indústria. Era geralmente uma casa de campo em que as mulheres fabricavam a cerveja, porque a água nem sempre era segura para beber, então a cerveja era a bebida padrão. Aquela desconhecida senhora havia se tornado uma fabricante de cerveja em tempo integral, e sua casa havia se tornado uma casa pública (vale ressaltar que o termo pub deriva de public house, ou seja, casa pública) e qualquer pessoa poderia frequentar para beber, talvez comer, e certamente socializar.

Entretanto, epidemias não costumam gerar avanços sociais ou econômicos para um determinado país. Um exemplo claro disso é Madagascar. Talvez vocês não saibam, mas todos os anos há cerca de 600 casos de "peste negra" nessa ilha, que acabou ficando famosa pela animação de mesmo nome da DreamWorks. Embora a infecção não seja nenhuma novidade para aqueles que vivem nessa ilha ao largo da costa sudeste da África, o surto de peste deste ano é bem diferente de ocasiões anteriores. Além de acontecer mais cedo do que o esperado, o tipo de peste que atinge o país não é a mais comum. Normalmente, os casos disseminados são bubônicos, que é um tipo de infecção bacteriana disseminada por pulgas. No entanto, neste ano, cerca de 70% dos casos estão relacionados a peste pneumônica, que se dissemina através do contato de pessoa para pessoa, sendo considerada muito mais mortal. Uma pessoa infectada, sem tratamento adequado, pode morrer em apenas 18 horas. Recentemente, diversos veículos de comunicação passaram a temer, que a peste pneumônica acabe se espalhando para países vizinhos e até mesmo para outros continentes. Já o governo local alega, ainda que timidamente, que estaria no controle da situação. E no meio de mais de 120 mortes registradas desde agosto, e milhares de infectados, o governo vem colocando a culpa em uma antiga tradição malgaxe: exumar os corpos de entre queridos, envolver os restos mortais em uma nova mortalha, e dançar segurando seus corpos antes de devolvê-los ao seu local de descanso. Contudo, será que essa prática é mesmo a responsável por todo esse recente caos? Aliás, muitos moradores locais alegam que tudo isso não passa de uma mentira do governo! Vamos saber mais sobre esse assunto?

Entenda o Caso: O Recente e "Incomum" Surto de "Peste Negra", que Já Matou Mais de 120 Pessoas e Infectou Milhares de Outras em Madagascar, na África!


Em meados de setembro, poucos veículos de comunicação estavam comentando sobre o surto de peste em Madagascar. Porém, desde aquela época, era possível notar que o surto deste ano era ligeiramente diferente dos demais. Um exemplo disso foi a curta notícia publicada pelo site da rede de televisão australiana SBS, em 16 de setembro. Na notícia era mencionado que, de acordo com um representante da Organização Mundial da Saúde (OMS), um surto de peste pneumônica havia matado cerca de cinco pessoas em Madagascar.



Foto mostrando uma parte da cidade de Antananarivo, a capital de Madagascar
Foto mostrando alguns moradores e o vilarejo de Moramanga, em Madagascar
Embora conhecida por muitos como uma doença da Idade Média que devastou a Europa, a peste, em sua forma bubônica, ainda é endêmica em países tais como Madagascar, República Democrática do Congo, e o nosso vizinho, o Peru. Especificamente em Madagascar, cerca de 600 casos de peste são relatados todos os anos, a maioria em sua forma bubônica, onde o contágio ocorre através da picada de uma pulga encontrada em mamíferos de pequeno porte ou roedores (geralmente o rato-preto, muito embora outros roedores e mamíferos também possam abrigar tais pulgas), que acabam carregando o patógeno como hospedeiro intermediário. Já a variante pneumônica é bem mais rara e muito mais fatal, visto que um paciente sem tratamento pode morrer em até 24 horas após o surgimento dos primeiros sintomas.

Um jornal local chamado "L'Express de Madagascar" chegou a mencionar, que muitos cidadãos fizeram uma verdadeira corrida as farmácias na tentativa de comprar antibióticos, com medo da situação se agravar. De fato, a situação iria mesmo se agravar.

Especificamente em Madagascar, cerca de 600 casos de peste são relatados todos os anos, a maioria em sua forma bubônica, onde o contágio ocorre através da picada de uma pulga encontrada em mamíferos de pequeno porte ou roedores (geralmente o rato-preto, muito embora outros roedores e mamíferos também possam abrigar tais pulgas), que acabam carregando o patógeno como hospedeiro intermediário
Embora conhecida por muitos como uma doença da Idade Média que devastou a Europa, a peste, em sua forma bubônica, ainda é endêmica em países tais como Madagascar, República Democrática do Congo...
...e o nosso vizinho, o Peru
No dia 28 de setembro, o site de notícias "Medical Xpress" divulgou um número oficial um pouco mais alarmante, fornecido naquele mesmo dia por Mamy Lalatiana Andriamanarivo, ministro da Saúde de Madagascar: 19 mortos e mais de 85 pessoas possivelmente infectadas. De acordo com Mamy, a "temporada de peste" havia começado mais cedo e de forma mais brutal este ano.

A primeira morte teria ocorrido no dia 23 de agosto, quando um passageiro teria morrido em um táxi público a caminho de uma cidade na costa leste do país. Duas outras pessoas, que entraram em contato com o passageiro também morreram, enquanto outros dois sucumbiram à doença na região central da ilha. Curiosamente, o ministro também disse que uma jovem, que morreu devido a peste em Antananarivo, a capital do país, aparentemente havia estado envolvida em uma cerimônia local, que consiste em exumar os corpos de familiares, envolvê-los em uma nova mortalha e dançar com os mesmos (explicaremos maiores detalhes daqui a pouco).

No dia 28 de setembro, o site de notícias "Medical Xpress" divulgou um número oficial um pouco mais alarmante, fornecido naquele mesmo dia por Mamy Lalatiana Andriamanarivo, ministro da Saúde de Madagascar: 19 mortos e mais de 85 pessoas possivelmente infectadas. De acordo com Mamy, a "temporada de peste" havia começado mais cedo e de forma mais brutal este ano.
Vale ressaltar nesse ponto, que Madagascar vem sofrendo surtos de peste todos os anos, desde 1980, muitas vezes devido aos ratos, que fogem dos incêndios florestais. A alta incidência em Madagascar também foi atribuída a falta de condições básicas de higiene e um sistema de saúde ineficaz. Obviamente, como era de se imaginar, essa situação é ainda mais grave em favelas e prisões do país. Conforme mencionamos anteriormente, a peste pode ser curada com antibióticos, mas pode ser fatal dentro de 24 horas se afetar os pulmões.

No dia seguinte (29), o site da revista norte-americana "Newsweek" disse que o ano de 2013 havia sido o pior em número mortes, cerca de "apenas" 20 pessoas, ou seja, o ano de 2017 estava caminhando para ser o pior de todos os anos desde 1980. No entanto, esse é um dado questionável, porque em 2015, por exemplo, foram noticiadas mais de 70 mortes em decorrência da peste em Madagascar (entre setembro de 2014 e fevereiro de 2015). De qualquer forma, em setembro desse ano, as autoridades de saúde não chegaram a emitir nenhum alerta sobre um eventual risco da peste se espalhar para outros países.

Um jornal local chamado "L'Express de Madagascar" chegou a mencionar, que muitos cidadãos fizeram uma verdadeira corrida as farmácias na tentativa de comprar antibióticos, com medo da situação se agravar. De fato, a situação iria mesmo se agravar.
Foto mostrando mostrando um morador de Antananarivo
tentando se proteger ao utilizar uma máscara cirúrgica no rosto
Em Antananarivo tornou-se comum ver pessoas andando pelas ruas usando tais máscaras.
A notícia publicada pela "Newsweek" também ressaltou, que a peste ocasionalmente ocorria nos Estados Unidos, visto que somente este ano teria havido cerca de três casos confirmados de peste bubônica no estado do Novo México, e testes realizados em pulgas coletadas em dois condados do Arizona deram positivo para a Yersinia pestis, a bactéria que causa a peste bubônica.

No dia 30 de setembro, o site "Voice of America" divulgou as declarações de Tarik Jasarevic, um porta-voz da OMS, que se mostrou muito preocupado com a situação que Madagascar vinha enfrentando. De acordo com Tarik, normalmente o país lidava com casos de peste bubônica, e a infecção era geralmente confinada a áreas rurais, mas este ano havia se espalhado por grandes áreas urbanas e cidades portuárias. Ambas as formas, bubônica e pneumônica, tinham sido reportadas em Antananarivo e nas cidades portuárias de Majunga e Toamasina.

No dia 30 de setembro, o site "Voice of America" divulgou as declarações de Tarik Jasarevic, um porta-voz da OMS, que se mostrou muito preocupado com a situação que Madagascar vinha enfrentando
De acordo com Tarik, normalmente o país lidava com casos de peste bubônica, e a infecção era geralmente confinada a áreas rurais, mas este ano havia se espalhado por grandes áreas urbanas e cidades portuárias. Na foto cima vemos algumas casas sem nenhum tipo de saneamento básico em Antananarivo, a capital de Madagascar
Ainda segundo Tarik, "a temporada de peste" ocorria em Madagascar anualmente, entre os meses de setembro e abril, porém este ano, do dia 23 de agosto até o dia 28 de setembro, tinham sido reportados 104 casos, sendo que metade deles eram da forma pneumônica. O porta-voz classificou o surto como muito perigoso, e que precisava ser controlado rapidamente.

Esses números iriam piorar drasticamente ao longo do tempo. No dia 4 de outubro, a OMS emitiu uma nova atualização do surto de peste em Madagascar. Até o dia anterior (3), havia um total de 194 casos (suspeitos, prováveis e confirmados), e cerca de 30 óbitos (uma taxa de letalidade de 15,5%), que foram reportados em 20 distritos de 10 regiões do país. Desse total, 124 casos e 21 óbitos (taxa de letalidade de 16,9%) apresentaram a forma pneumônica da doença. Oito pessoas que trabalhavam em um centro de saúde na cidade de Tamatave também contraíram a peste pneumônica. Somente no dia 3 de outubro foram relatados 37 novos casos, incluindo 2 óbitos.

Distribuição geográfica dos casos de peste em Madagascar até o dia 3 de outubro de 2017
Para vocês terem uma ideia, a peste não atingiu apenas os moradores do país. Durante um campeonato de basquete chamado "Coupe des clubs champions de l'océan Indien", realizado em Madagascar entre os dias 23 de setembro e 1º de outubro, e que envolve primordialmente algumas nações próximas ao país, o treinador de basquete de Seychelles (um arquipélago e um país localizado ao norte de Madagascar) acabou morrendo devido a peste pneumônica. Além disso, um membro da equipe de basquete da África do Sul também contraiu a doença que, ao menos nesse caso, não foi fatal.

Na época, os riscos de disseminação associados a este torneio estavam sendo avaliados, assim como todos os participantes estavam sendo monitorados. Uma vez que a peste pneumônica se espalha pelo ar, ou seja, através do contato de gotículas respiratórias infectadas provenientes de uma mera tosse, havia um temor, ainda que velado, da mesma se espalhar para outros países.

Durante um campeonato de basquete chamado "Coupe des clubs champions de l'océan Indien", realizado em Madagascar entre os dias 23 de setembro e 1º de outubro, e que envolve primordialmente algumas nações próximas ao país, o treinador de basquete de Seychelles (um arquipélago e um país localizado ao norte de Madagascar) acabou morrendo devido a peste pneumônica.
Entretanto, na atualização do dia 4 de outubro, com base nas informações disponíveis até aquele presente momento, a OMS disse que o risco de propagação internacional da peste aparentava ser muito baixo. A OMS também se mostrou contra qualquer restrição em relação as viagens para Madagascar ou comercialização com outros países, dizendo apenas que os turistas deviam ser informados sobre o atual surto de peste, e que a mesma era endêmica em Madagascar. De qualquer forma, a nota informava que o risco regional era considerado moderado devido aos voos internacionais frequentes para ilhas localizadas no Oceano Índico.

No dia 6 de outubro, a notícia sobre o surto chegou até o site do jornal norte-americano "The New York Times". No texto intitulado "Fearsome Plague Epidemic Strikes Madagascar" ("Espantosa Epidemia de Peste Atinge Madagascar", em português), o jornalista Donald G. McNeil Jr. comparou o surto com aos estágios iniciais da crise do Ebola, na África Ocidental, em 2014: uma doença letal normalmente confinada a áreas rurais pouco povoadas atingiu grandes cidades, e se espalhou de forma altamente transmissível. Escolas, universidades e outros edifícios públicos em Madagascar estavam sendo fechados para que as autoridades pudessem dedetizar os ambientes, com o objetivo de as matar pulgas, que podem levar a infecção. O governo também proibiu grandes encontros públicos, incluindo eventos esportivos e concertos, além da visita de familiares nas prisões.

A notícia também informava que a OMS havia calculado, que os antibióticos enviados ao país (cerca de 1,2 milhões de doses), além de outras 244.000 doses que estavam a caminho, seriam suficientes para tratar 5.000 pacientes e proteger outras 100.000 pessoas que poderiam ter sido expostas. Equipamentos de proteção pessoal e de desinfecção, semelhantes aqueles utilizados durante epidemias de Ebola, também seriam enviados. Os profissionais de saúde locais seriam treinados para tratar com segurança os pacientes, rastrear todos os seus contatos, e oferecer-lhes antibióticos profiláticos. Cerca de US$ 1,5 milhão havia sido liberado pela OMS para conter o surto, sendo que havia o apelo por mais US$ 5,5 milhões.

Escolas, universidades e outros edifícios públicos em Madagascar estavam sendo fechados para que as autoridades pudessem dedetizar os ambientes, com o objetivo de as matar pulgas, que podem levar a infecção. O governo também proibiu grandes encontros públicos, incluindo eventos esportivos e concertos, além da visita de familiares nas prisões.
Foto mostrando o trabalho de diversos profissionais
durante o processo de dedetização de uma escola na cidade de Antananarivo

Oficiais do Ministério da Saúde Pública instalando armadilhas para ratos
em uma escola de ensino fundamental em Antananarivo
Vocês também podem conferir mais imagens através de um vídeo publicado pelo site de notícias "Voa News" em seu próprio canal, no YouTube (em inglês, mas é possível ter uma boa ideia da situação):



Em junho, devido lenta resposta à crise do Ebola, o Banco Mundial emitiu títulos para criar um "fundo de segurança" de US$ 500 milhões para combater pandemias chamado "Pandemic Emergency Financing Facility", mas o mesmo cobre apenas vírus e somente seis famílias virais que acreditam representar as maiores ameaças, incluindo: Ebola, SARS, Gripes Pandêmicas, Febre de Lassa, Febre do Vale do Rift e Febre Hemorrágica da Crimeia-Congo. O fundo também terá uma reserva de caixa de US$ 58 milhões, que pode ser usado para combater doenças não cobertas pelo fundo, porém essa reserva não deve estar disponível até o ano que vem.

O site da revista "Newsweek" também voltou a publicar uma atualização sobre o caso no dia 9 de outubro, contando com as declarações de Peter Small, um clínico especializado em doenças infecciosas e diretor fundador do Instituto Global de Saúde da Universidade Stony Brook, em Nova York, e que vem trabalhando em Madagascar há vários anos. Segundo Peter, o surto atual era um exemplo de como a pobreza tinha o poder de fazer com que voltássemos no tempo e regredirmos como sociedade. Ele também disse que era dolorosamente previsível, que esta doença da antiguidade estivesse matando pessoas em um dos países mais pobres do mundo.

Peter Small, um clínico especializado em doenças infecciosas e diretor fundador do Instituto Global de Saúde da Universidade Stony Brook, em Nova York, e que vem trabalhando em Madagascar há vários anos
Embora as autoridades norte-americanas não tivessem expressado nenhuma preocupação com a situação em Madagascar até aquele momento, isso não queria dizer que uma grande nação como os Estados Unidos estavam livres da mesma. Segundo Peter, a única razão pela qual os Estados Unidos possuem apenas alguns casos de peste e não epidemias, é porque eles investiam em um sistema de saúde pública. No entanto, se o país continuasse investindo cada vez menos em saúde pública, esses casos poderiam virar epidemias nos Estados Unidos.

Stephen Morse, um professor de epidemiologia voltado para doenças infecciosas, na Universidade de Columbia, também disse à revista "Newsweek", que ele concordava que esses surtos enfatizavam a importância da saúde pública, e demonstrava o que poderia acontecer quando essas medidas são comprometidas. Stephen disse acreditar que, sempre que tivermos um surto de séria magnitude, o mesmo obviamente pode ter a capacidade de se espalhar, então o mais importante era tomar medidas de saúde pública o mais rapidamente possível.

Stephen Morse, um professor de epidemiologia voltado para doenças infecciosas, na Universidade de Columbia, também disse à revista "Newsweek", que ele concordava que esses surtos enfatizavam a importância da saúde pública, e demonstrava o que poderia acontecer quando essas medidas são comprometidas
No dia 12 de outubro, a OMS emitiu um novo relatório para atualizar a situação em Madagascar. No total havia 684 casos (suspeitos, prováveis e confirmados) e 57 óbitos. Além disso, outros números impressionavam: cerca de 18 (81,2%) de 22 regiões do país, incluindo áreas tradicionalmente não endêmicas, tinham sido afetadas. O Distrito de Antananarivo Renivohitra estava sendo a localidade mais afetada, com mais de 60% dos casos.

Era possível notar no texto, que estava sendo realizada uma grande operação para conter o surto, uma vez que milhares de médicos estavam sendo mobilizados e treinados, sendo que até mesmo a USAID (acrônimo em inglês para "Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional"), a UNICEF, e a Cruz Vermelha também estava dando suporte logístico e financeiro, além de contribuir com equipamentos, medicamentos, profissionais capacitados etc.

Distribuição geográfica dos casos de peste em Madagascar até o dia 12 de outubro de 2017
Distribuição de casos confirmados, prováveis e suspeitos de peste,
em Madagascar, entre os dias 1º de agosto e 12 de outubro de 2017
Paralelamente, o estigma social também era um grande vilão a ser combatido.  Apesar de muitos membros da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) terem ido para Madagascar para ajudar a controlar o surto, Elhadj As Sy, secretário-geral da IFRC, disse em entrevista a agência de notícias Reuters, no dia 20 de outubro, que o pânico havia aumentado, e estava intensificando a vergonha que as pessoas sentiam por estarem infectadas. Ele também disse que muitos voluntários estavam trabalhando em comunidades para convencer as pessoas a buscarem ajuda médica.

Paralelamente, o estigma social também era um grande vilão a ser combatido.  Apesar de muitos membros da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC) terem ido para Madagascar para ajudar a controlar o surto...
...Elhadj As Sy, secretário-geral da IFRC, disse em entrevista a agência de notícias Reuters, no dia 20 de outubro, que o pânico havia aumentado, e estava intensificando a vergonha que as pessoas sentiam por estarem infectadas.
Ele também disse que muitos voluntários estavam trabalhando em comunidades
para convencer as pessoas a buscarem ajuda médica.
Naquele mesmo dia (20), a OMS emitiu um outro relatório, o quinto desde que foi avisada sobre o surto pelas autoridades de Madagascar, com números ainda mais impressionantes. Entre 1º de agosto e 19 de outubro desse ano, já tinham sido relatados um total de 1.297 casos (suspeitos, prováveis e confirmados) incluindo 102 óbitos (embora a taxa de letalidade tenha caído para 7,9%). Desse total, 846 casos (65,2%) foram classificados clinicamente como peste pneumônica, 270 (20,8%) como peste bubônica, houve um caso de peste septicêmica, e cerca 180 casos ainda não tinham sido especificados até aquela ocasião. Dos 846 casos de peste pneumônica, 91 (10,8%) foram confirmados, e 407 (48,1%) foram considerados como prováveis.

Além disso, algumas medidas de segurança foram detalhadas nesse quinto relatório. Foi informado que, desde o dia 8 de outubro, a OMS e o Ministério da Saúde Pública de Madagascar tinham dado início a ações em pontos de entrada do país para evitar a propagação internacional da peste. No Aeroporto Internacional de Antananarivo, essas medidas incluíam: o preenchimento de um formulário de saída do país (para identificar os passageiros em risco); a medição da temperatura de passageiros que estivessem deixando o país, e o encaminhamento de passageiros que estivessem com febre até um centro médico do aeroporto para passarem por uma consulta. Os passageiros com sintomas compatíveis com peste pneumônica estavam sendo imediatamente isolados no aeroporto, e também estavam passando por um teste de diagnóstico rápido, que fornece o resultado em apenas 15 minutos. Vale ressaltar nesse ponto, que indivíduos sintomáticos não tinham permissão para viajar.

Distribuição geográfica dos casos de peste em Madagascar até o dia 18 de outubro de 2017
Evolução da distribuição de casos confirmados, prováveis e suspeitos de peste,
em Madagascar, entre os dias 1º de agosto e 18 de outubro de 2017
Alguns dos países vizinhos, assim como Comores, Maurícia e a África do Sul, colocaram em prática medidas para proteger suas populações, incluindo uma triagem realizada durante o processo de entrada no país, além do fornecimento de informações aos passageiros sobre como procurar ajuda médica em caso de sintomas, entre outras medidas preventivas. Contudo, no dia 11 de outubro, o Ministério da Saúde de Seychelles anunciou (em um comunicado de imprensa em seu site) diversas medidas contra a peste pneumônica, entre elas a restrição de voos entre Madagascar e Seychelles. No dia 17 de outubro, Irlanda, Hong Kong e os Emirados Árabes Unidos passaram a avisar seus moradores sobre os riscos de viajar a Madagascar nesse momento.

Entretanto, foi somente as vésperas do sexto relatório da OMS, emitido em 26 de outubro, que atualizou os números para 1.309 casos e 93 óbitos (uma taxa de letalidade ainda menor, cerca de 7%), que a mídia internacional realmente começou a dar importância ao surto. Desde a última quarta-feira (25) aumentou significativamente o número de veículos de comunicação que passaram a divulgar o que vem acontecendo em Madagascar. O motivo? Uma simples notícia publicada pela agência Reuters. Foi somente a partir desse momento, que o surto ganhou o destaque que merecia.

Distribuição geográfica dos casos de peste em Madagascar até o dia 20 de outubro de 2017
Evolução da distribuição de casos confirmados, prováveis e suspeitos de peste,
em Madagascar, entre os dias 1º de agosto e 20 de outubro de 2017
O texto publicado pela Reuters, no dia 26 de outubro, contava com números fornecidos pelas autoridades do país e ligeiramente diferentes do sexto relatório que seria divulgado pela OMS: 124 mortes e 1.192 casos suspeitos, ou seja, mostrava uma evolução em relação a última estatística da OMS, que contava com dados até o dia 20 de outubro. Conforme dissemos anteriormente, o mais preocupante é que o surto havia começado mais cedo do que o habitual, e atingido áreas urbanas e não rurais. Além disso, dois terços dos casos eram de peste pneumônica, a forma mais mortal da doença. De acordo com o Escritório Nacional de Gestão de Riscos e Desastres de Madagascar, o número total de casos já era 3 vezes maior que a média anual. Além disso, o texto apontava que a OMS estimava que seriam necessários US$ 9,5 milhões para combater o surto, porém apenas US$ 3 milhões tinham sido angariados até o momento.

Apesar dos números, a disseminação da peste estava relativamente estável, ao menos de acordo com a Dra. Charlotte Ndiaye, representante da OMS em Madagascar, em entrevista concedida para a emissora norte-americana CNN. Ela disse que cerca da metade das mortes estavam ocorrendo nas comunidades, e não nos centros de saúde, o que demonstrava que era necessário trabalhar mais no sentido de ajudar as pessoas a entenderem que o tratamento estava disponível, e que elas precisavam ir até os postos de saúde o mais rapidamente possível.

Apesar dos números, a disseminação da peste estava relativamente estável, ao menos de acordo com a Dra. Charlotte Ndiaye, representante da OMS em Madagascar, em entrevista concedida para a emissora norte-americana CNN
De qualquer forma, a OMS fez questão de ressaltar em seu sexto relatório, que o risco de disseminação regional continuava sendo moderado devido às ilhas vizinhas e aos países do Sul e do Leste Africano. O risco de disseminação global ainda era considerado muito baixo. Isso não impediu, no entanto, que uma parte da imprensa interpretasse o surto de maneira caótica e alarmista, além de tentar apontar que uma tradição cultural pudesse ser a responsável pelo surto de peste em Madagascar. É exatamente isso que vocês conferem a seguir.

Uma Antiga Tradição Cultural Foi a Responsável Pelo Recente Surto de "Peste Negra" em Madagascar?


É realmente bem difícil entender o que se passa na cabeça de alguns jornalistas ao redor do mundo. Um exemplo disso foi a notícia publicada no site da renomada agência de notícias AFP (Agence France-Presse), que serviu como combustível para que inúmeros sites de notícias divulgassem que uma antiga tradição cultural malgaxe, a de "dançar com os mortos", pudesse ser a responsável pelo recente surto de peste em Madagascar. O texto foi publicado na última quinta-feira (26) e simplesmente sumiu do site da AFP na manhã de ontem (29). Contudo, ainda é possível acessá-lo através do cache do Google.

Inicialmente foi mencionado que, em Madagascar, cerimônias em que as famílias exumam os restos mortais de seus parentes, os envolvem em uma nova mortalha, e dançam com os cadáveres eram um ritual sagrado. Porém, um surto de peste, que assolou a nação dessa ilha no Oceano Índico gerou alertas de que o "espetáculo macabro", conhecido como o "giro dos ossos" ou do corpo, apresentava um sério risco de contaminação. O texto também mencionava que, no sábado anterior, um dia quente e ensolarado, uma dessas procissões envolvendo esse ritual serpenteava pelas ruas de um vilarejo nos arredores de Antananarivo, em uma atmosfera "carnavalesca" e "febril" até o cemitério local. Para centenas de moradores da comunidade havia chegado a hora da "famadihana", o nome local para essa cerimônia. Esse costume singular, originário de comunidades que vivem nos planaltos de Madagascar, atrai multidões a cada inverno para honrar os mortos e seus desejos mortais.

Inicialmente foi mencionado que, em Madagascar, cerimônias em que as famílias exumam os restos mortais de seus parentes, os envolvem em uma nova mortalha, e dançam com os cadáveres eram um ritual sagrado. Porém, um surto de peste, que assolou a nação dessa ilha no Oceano Índico gerou alertas de que o "espetáculo macabro", conhecido como o "giro dos ossos" ou do corpo, apresentava um sério risco de contaminação
O texto também mencionava que, no sábado anterior, um dia quente e ensolarado, uma dessas procissões envolvendo esse ritual serpenteava pelas ruas de um vilarejo nos arredores de Antananarivo, em uma atmosfera "carnavalesca" e "febril" até o cemitério local
Para centenas de moradores da comunidade havia chegado a hora da "famadihana", o nome local para essa cerimônia. Esse costume singular, originário de comunidades que vivem nos planaltos de Madagascar, atrai multidões para honrar os mortos e seus desejos mortais.
"É um dos rituais mais difundidos de Madagascar. É necessário assegurar a harmonia cósmica... isso satisfaz nosso desejo de respeitar e honrar os antepassados para que possam ser abençoados e um dia retornar", disse o historiador Mahery Andrianahag à AFP.

À frente da procissão, Andry Nirina Andriatsitohaina, de 18 anos, esperava ansiosamente o grande momento, sendo que uma banda uniformizada tocava trompetes em alto e bom som.

"Estou extremamente orgulhoso de recondicionar os ossos da minha avó e de todos os nossos antepassados. Vou pedir-lhes bênçãos e sucesso nos meus exames escolares", disse Andry.

"É um dos rituais mais difundidos de Madagascar. É necessário assegurar a harmonia cósmica... isso satisfaz nosso desejo de respeitar e honrar os antepassados para que possam ser abençoados e um dia retornar", disse o historiador Mahery Andrianahag à AFP.
À frente da procissão, Andry Nirina Andriatsitohaina, de 18 anos, esperava ansiosamente o grande momento, sendo que uma banda uniformizada tocava trompetes em alto e bom som.
"Estou extremamente orgulhoso de recondicionar os ossos da minha avó e de todos os nossos antepassados. Vou pedir-lhes bênçãos e sucesso nos meus exames escolares", disse Andry.
Em frente ao mausoléu familiar, os homens reunidos cavaram a terra e abriram a porta do túmulo enquanto as mulheres e as crianças olhavam. Um a um, os restos mortais envoltos em uma mortalha foram passando por cima da cabeça das pessoas, e foram cuidadosamente colocados sobre um tapete onde foram recondicionados ou "revirados" em novas mortalhas. Oly Ralalarisoa, 45 anos, foi dominado pela emoção.

"Estou tão feliz de poder exumar meu tataravô.  Isso significa que seus descendentes podem pedir bênçãos para os próximos nove anos", disse Oly Ralalarisoa. Os parentes geralmente convidam os moradores do vilarejo para participarem da cerimônia e da procissão, assim como das festividades musicais e alimentares, mas o recondicionamento do corpo é um assunto puramente familiar. Os mortos podem ser "recondicionados" mais de uma vez, mas apenas a cada cinco, sete ou nove anos, e podem ser envoltos em diversas mortalhas se diferentes partes da família ou entes queridos quiserem honrá-los.

Em frente ao mausoléu familiar, os homens reunidos cavaram a terra e abriram a porta do túmulo enquanto as mulheres e as crianças olhavam. Um a um, os restos mortais envoltos em uma mortalha foram passando por cima da cabeça das pessoas, e foram cuidadosamente colocados sobre um tapete onde foram recondicionados ou "revirados" em novas mortalhas
Os parentes geralmente convidam os moradores do vilarejo para participarem da cerimônia e da procissão, assim como das festividades musicais e alimentares, mas o recondicionamento do corpo é um assunto puramente familiar
Os mortos podem ser "recondicionados" mais de uma vez, mas apenas a cada cinco, sete ou nove anos, e podem ser envoltos em diversas mortalhas se diferentes partes da família ou entes queridos quiserem honrá-los.
Bem próximo estava uma mulher chamada Isabel Malala Razafindrakoto, que tinha lágrimas nos olhos enquanto segurava o corpo envolvido de seu filho, que morreu com apenas três anos de idade.

"Estou feliz em ver o meu filho mais uma vez, e cumprir meu dever", disse Isabel. O ritual costumeiro, ao contrário de um ritual religioso, pode ser chocante para alguns, mas para aqueles que participam, é uma intensa festa acompanhada de música, dança e canto, alimentada por bebidas alcoólicas. À medida que a cerimônia no cemitério de Ambohijafy chegava ao fim, os corpos foram cuidadosamente devolvidos para seus locais de repouso após uma última dança.

Bem próximo estava uma mulher chamada Isabel Malala Razafindrakoto (na foto), que tinha lágrimas nos olhos enquanto segurava o corpo envolvido de seu filho, que morreu com apenas três anos de idade
O ritual costumeiro, ao contrário de um ritual religioso, pode ser chocante para alguns, mas para aqueles que participam, é uma intensa festa acompanhada de música, dança e canto, alimentada por bebidas alcoólicas
Assim que o ritual terminou, os tapetes utilizados foram levados pelos participantes veteranos, que irão armazená-los debaixo dos seus colchões até a próxima "famadihana". Cuidar desses tapetes muitas vezes é visto em Madagascar como algo que traz boa sorte. Porém, alguns médicos advertem que eles também podem transmitir germes e infecções. E, numa época em que Madagáscar está enfrentando o seu surto mais letal da peste em anos, essa prática teria aumentado o medo entre os funcionários da saúde.

Os epidemiologistas do Ministério da Saúde de Madagascar teriam observado há muito tempo, que a "temporada de peste" coincide com o período em que as cerimônias famadihanas são realizadas, entre julho e outubro. O problema é que a matéria publicada pela AFP falhou em um ponto crucial, as cerimônias famadihanas remontam o século XVII, ou seja, somente a realização dessas cerimônias não explica o atual surto e muitos menos os números recordes de casos desde 1980.

Assim que o ritual terminou, os tapetes utilizados foram levados pelos participantes veteranos, que irão armazená-los debaixo dos seus colchões até a próxima famadihana. Cuidar desses tapetes muitas vezes é visto em Madagascar como algo que traz boa sorte. Porém, alguns médicos advertem que eles também podem transmitir germes e infecções
E, numa época em que Madagáscar está enfrentando o seu surto mais letal da peste em anos, essa prática teria aumentado o medo entre os funcionários da saúde.
"Se uma pessoa morre de peste pneumônica e, então, é enterrada em um túmulo que é posteriormente aberto para uma famadihana, a bactéria ainda pode ser transmitida e contaminar quem manipula o corpo", disse Willy Randriamarotia, chefe de gabinete do Ministério da Saúde. Para limitar esse risco, existem regulamentações, que determinam que as vítimas da peste não podem ser enterradas em um túmulo que possa ser reaberto e, em vez disso, seus restos mortais devem ser mantidos em um mausoléu anônimo. De qualquer forma, a mídia local relatou vários casos de corpos sendo exumados secretamente. Apesar dos sérios riscos divulgados pelas autoridades, poucos em Madagascar questionam as cerimônias.

"Não quero imaginar os mortos como objetos esquecidos. Eles nos deram a vida. Sempre vou praticar o giro dos ossos dos meus antepassados, com ou sem peste. A peste é uma mentira", disse Helene Raveloharisoa, uma frequentadora regular dessas cerimônias. Uma outra mulher, chamada Josephine Ralisiarisoa foi ainda mais contundente ao dizer que o risco havia sido exagerado.

"O governo em exercício está com pouco dinheiro para as próximas eleições (em 2018), então eles inventam coisas para conseguir empréstimos financeiros", disse Josephine. Aproveite também, e confira um vídeo mostrando um pouco dessa cerimônia, que foi publicado um canal de terceiros, no YouTube, em 2007:



Assim como esse outro, também publicado no YouTube, porém em outro canal, em 2015:



Apesar não saber exatamente a razão pela qual a AFP apagou essa notícia do site. É possível claramente notar que essa estranha tradição nem de longe é a principal responsável pelo recente surto de peste em Madagascar. O principal responsável é a pobreza atrelada a uma série de outros fatores ambientes e de saúde pública. Evidentemente, a tradição pode agravar o problema, mas com certeza a situação é muito maior do que isso. Aliás, isso me lembrou muito a tentativa da mídia e do governo russo, no ano passado, quando tentaram culpar o povo Nenets por um surto de varíola, quando a situação era muito mais grave e indicava um grande descasco por parte do governo russo na vacinação de renas, entre outros fatores ambientes (leia mais: Será Verdade que a Rússia Estaria Enfrentando um "Apocalipse Zumbi" Devido a uma Superbactéria na Sibéria?).

Em um estudo publicado no periódico "PLOS Medicine", em 2008, foi apontado que países mais pobres com um saneamento básico precário, além de outras práticas de risco, podiam ajudar a espalhar a infecção: "A África está particularmente em risco por uma série de razões. As comunidades rurais pobres geralmente vivem muito próximas de roedores, que são amplamente caçados e comidos em muitas áreas endêmicas da peste. As superstições, a falta de dinheiro e a distância das instalações de saúde muitas vezes levam a atrasos na busca de cuidados de saúde e tratamento adequado. O sistema de saúde pública em grande parte da África é mal organizado e equipado, e a crise política e a desorganização social impedem melhorias."

É possível claramente notar que essa estranha tradição nem de longe é a principal responsável pelo recente surto de peste em Madagascar, mas a pobreza atrelada a uma série de outros fatores. Evidentemente, a tradição pode agravar o problema, mas com certeza a situação é muito ampla do que uma mera tradição cultural.
Portanto, não é surpreendente que, em escala global, a peste seja mais comum em locais como Madagascar, onde a renda per capita seja de apenas US$ 1.500. A peste apareceu na ilha em 1898 por meio de rotas comerciais e surgiram surtos quase todos os anos desde 1980. (Nas duas últimas décadas, Madagascar acabou sendo o recordista em número casos de peste no mundo).  Porém, há outros fatores que ajudam a propagar a peste: os seres humanos têm invadido áreas selvagens, colocando-os em contato com potenciais portadores da doença. E isso é tão verdadeiro para países mais pobres, quanto para lugares desenvolvidos, assim como os Estados Unidos.

Ainda de acordo com o estudo publicado no PLOS Medicine, os casos de peste no estado do Novo México passaram a ocorrer cada vez mais em áreas mais afluentes, ou seja, isso seria o resultado da construção de comunidades suburbanas em áreas anteriormente subdesenvolvidas, onde a peste circulava entre os animais selvagens.

Há Risco da "Peste Negra" se Espalhar para Outros Países, Incluindo o Brasil?


Apesar da OMS dizer que os riscos de uma disseminação global são muito baixos, isso também não impediu que diversos veículos de comunicação, principalmente os tabloides britânicos, alertassem com letras maiúsculas sobre os riscos da peste se espalhar pelo mundo, principalmente em relação a países vizinhos. O tabloide britânico "The Sun", por exemplo, fez isso ao publicar pontos isolados de toda essa história para mostrar que realmente haveria um certo temor.

Aliás, reparem no título da notícia: "DEATH IS COMING - Plague warning in NINE countries – including Brit holiday hotspots – amid fears BLACK DEATH could spread on flights from Madagascar" ("A MORTE ESTÁ CHEGANDO - Alerta de Peste em NOVE países - incluindo locais de veraneio para os britânicos - diante do medo que a PESTE NEGRA poderia se disseminar através de voos vindos de Madagascar", em português). Precisa dizer mais alguma coisa depois de tudo que acabei de informar a vocês? Complicado, não é mesmo?

Apesar da OMS dizer que os riscos de uma disseminação global são muito baixos, isso também não impediu que diversos veículos de comunicação, principalmente os tabloides britânicos, alertassem com letras maiúsculas sobre os riscos da peste se espalhar pelo mundo, principalmente em relação a países vizinhos.
Em entrevista ao tabloide, o Dr. Ashok Chopra, professor de microbiologia e imunologia da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, disse que a crise em Madagascar ainda não tinha atingido o seu pico. Além disso, ele advertiu que era possível que a "peste mortal" se disseminasse pela região devido os voos regulares que partem e chegam ao país.

"Se eles estiverem viajando a distâncias mais curtas, ainda estiverem no período de incubação, e possuírem a forma pneumônica, então eles poderiam disseminá-la para outros lugares. Não queremos ter que lidar com uma situação em que uma doença se espalha tão rápido ao ponto de ficar fora de controle", disse Ashok.

Em entrevista ao tabloide, o Dr. Ashok Chopra, professor de microbiologia e imunologia da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, disse que a crise em Madagascar ainda não tinha atingido o seu pico. Além disso, ele advertiu que era possível que a "peste mortal" se disseminasse pela região devido os voos regulares que partem e chegam ao país.
"A maioria dos casos no passado foi de peste bubônica, mas se você olhar para este surto em particular, 70% dos casos é de peste pneumônica, que é a forma mais mortal da doença. Se o tratamento não for fornecido em um período de tempo muito curto, essas pessoas acabarão morrendo", completou, acrescentando que a peste se espalhou "muito rapidamente", uma vez que o número de casos em Madagascar dobrou em uma semana.

Christine South, chefe das operações de emergência da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC), que está Madagascar, disse que havia a possibilidade de que alguém, que estivesse infectado. entrasse em um avião, mas que já estavam tomando medidas preventivas em países vizinhos. No entanto, ela acrescentou que acreditava que o surto de peste pudesse estar se estabilizando. A equipe médica teria uma compreensão mais clara sobre isso nos próximos dias.

De acordo com a OMS, os nove países ou territórios ultramarinos, que estariam em risco seriam: Quênia, Etiópia, África do Sul, Moçambique, Tanzânia, Reunião, Maurícia, Seychelles e Comores. Ainda de acordo com a OMS, a doença, que atingiu cidades intensamente povoadas, havia provocado um alarme falso em Seychelles depois que um viajante relatou sintomas da doença.

Christine South, chefe das operações de emergência da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC), que está Madagascar, disse que havia a possibilidade de que alguém, que estivesse infectado. entrasse em um avião, mas que já estavam tomando medidas preventivas em países vizinhos
No entanto, ela acrescentou que acreditava que o surto de peste pudesse estar se estabilizando.
A equipe médica teria uma compreensão mais clara sobre isso nos próximos dias.
É importante ressaltar nesse ponto, que a OMS já havia publicado anteriormente que o risco de propagação regional era considerado moderado, devido as frequentes viagens de pessoas por via aérea e marítima, para as ilhas vizinhas do Oceano Índico e outros países do Sul e do Çeste da África. Isso sem contar, é claro, as relações comerciais através dos portos de todos esses países. No entanto, propositalmente o "The Sun" não fez questão alguma de publicar que o risco global era considerado muito baixo, e nem sequer comentou as medidas que foram tomadas no Aeroporto Internacional de Antananarivo, assim como no restante do país, desde o início do mês de outubro.

Ao contrário do "The Sun", o site do jornal sul-africano "The Times" fez o dever de casa em conscientizar corretamente das pessoas sobre a realidade do surto em Madagascar ao apresentar sete razões pelas quais as pessoas não deveriam entrar em pânico. Confiram as mesmas abaixo, de acordo com a professora Lucille Blumberg, consultora do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul:

1. Acalme-se e Não Chame a Doença de "Peste Negra"


Nem mesmo os cientistas chamam a doença de Peste Negra. De acordo com Lucille é apenas "peste". Ela explicou que "peste negra" ou "morte negra" são termos referentes ao que ocorreu na Idade Média, quando a doença matou milhões de pessoas na Europa. Porém, 1346 foi antes da era dos antibióticos. No século XIV, os dedos das mãos e dos pés das pessoas podiam ficar negros devido à infecção no sangue. Atualmente, a peste é uma doença tratável com antibióticos comumente usados.

Nem mesmo os cientistas chamam a doença de Peste Negra. De acordo com Lucille é apenas "peste". Ela explicou que "peste negra" ou "morte negra" são termos referentes ao que ocorreu na Idade Média, quando a doença matou milhões de pessoas na Europa
Porém, 1346 foi antes da era dos antibióticos. No século XIV, os dedos das mãos e dos pés das pessoas podiam ficar negros devido à infecção no sangue. Atualmente, a peste é uma doença tratável com antibióticos comumente usados.
É importante ressaltar nesse ponto, que usei o termo "Peste Negra" pontualmente nessa postagem como forma de realmente atrair a atenção do leitor, porém na absoluta maioria das vezes em que necessitei falar no nome da doença foi usada apenas a palavra "peste".

2. A Peste Não se Espalhou Além das Fronteiras de Madagascar Durante os Últimos 3 Meses


A peste vem ocorrendo em Madagascar desde agosto, com cerca de 124 mortes, e não houve ocorrências em nenhum país vizinho. De acordo com Lucille, o sistema de saúde pública de Seychelles é tão bem organizado, que conseguiu identificar um caso suspeito, mas posteriormente foi  confirmado, através de testes laboratoriais, que o paciente não estava infectado.

A peste vem ocorrendo em Madagascar desde agosto, com cerca de 124 mortes, e não houve ocorrências em nenhum país vizinho. De acordo com Lucille, o sistema de saúde pública de Seychelles é tão bem organizado, que conseguiu identificar um caso suspeito, mas posteriormente foi  confirmado, através de testes laboratoriais, que o paciente não estava infectado
Isso demonstraria o nível de atenção nos países vizinhos para detectar possíveis casos. Ainda de acordo com Lucille, a África do Sul precisava, e estava preparada e vigilante.

3. Segundo Lucille, se você não está em Madagascar nesse momento, então suas chances de contrair a peste são praticamente zero


4. A África do Sul Está Preparada para Detectar um Eventual Caso


A África do Sul possui apenas um voo direto semanal vindo de Madagascar, sendo que os viajantes passam por uma triagem no aeroporto caso apresentem febre ou tosse, sendo que qualquer pessoa doente será encaminhada para uma clínica médica, no aeroporto, para exames. Madagascar também vem fazendo isso com todas as pessoas que deixam o país, e isso vem funcionando bem.

A professora Lucille Blumberg, consultora do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul
O Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul, por exemplo, possui testes especializados para detectar a peste. Se houver um caso na África do Sul, o país possui bons epidemiologistas que rastreiam os parentes, e colegas do paciente para oferecer antibióticos preventivos.

5. Se Você Precisar Viajar para Madagascar e Ficar Doente, Procure Imediatamente um Médico


Segundo Lucille, o surto em Madagascar é muito sério e pessoas estão realmente morrendo, porém o principal motivo para essas mortes é que as pessoas não estão recebendo o tratamento a tempo. Muitas pessoas podem até mesmo não saber que estão infectadas, e acreditar que estão apenas gripadas ou com tosse.

Segundo Lucille, o surto em Madagascar é muito sério e pessoas estão realmente morrendo, porém o principal motivo para essas mortes é que as pessoas não estão recebendo o tratamento a tempo. Muitas pessoas podem até mesmo não saber que estão infectadas, e acreditar que estão apenas gripadas ou com tosse
Então, se você for Madagascar e desenvolver tosse, febre ou inchaço na região da virilha, vá imediatamente ao médico. Os viajantes também devem aplicar repelentes, uma vez que a doença também é disseminada por pulgas.

6. Os Antibióticos Funcionam


Em uma época onde ocorre uma resistência crescente aos antibióticos, a peste permanece tratável com antibióticos comumente disponíveis. De acordo com Lucille, a peste não é resistente aos antibióticos.

7. O que Você Realmente Deveria se Preocupar ao Visitar Madagascar: Uma Velha Conhecida no Brasil, a Malária


Lucille Blumberg disse que é mais provável que uma pessoa contraia malária do que peste em Madagascar, ou seja, as pessoas precisavam tomar uma medicação profilática contra a malária. Ela disse que os viajantes podem voltar de Madagascar com febre e achar que estão com a peste, quando, na verdade, têm malária. Se a malária não for detectada no tempo, ela também pode ser mortal.

Lucille Blumberg disse que é mais provável que uma pessoa contraia malária do que peste em Madagascar, ou seja, as pessoas precisavam tomar uma medicação profilática contra a malária. Ela disse que os viajantes podem voltar de Madagascar com febre e achar que estão com a peste, quando, na verdade, têm malária. Se a malária não for detectada no tempo, ela também pode ser mortal.
Resumindo? As chances do surto de peste em Madagascar se espalhar para países vizinhos é moderada, mas uma série de medidas vêm sendo tomadas para conter o surto desde meados de setembro. Além disso, o risco desse surto se espalhar para países europeus e até mesmo para o Brasil é extremamente baixo e improvável diante dos dados atuais. É mais fácil morrer devido a malária do que peste, em Madagascar.

Aliás, não pensem que o Brasil não é um país totalmente livre da peste. A cidade de Fortaleza já teve uma epidemia de peste no século XIX, e na primeira metade do século XX. Na década de 1980, foram notificados 76 casos de peste bubônica nos estados do Ceará e na Paraíba, com a ocorrência de três mortes. Entre 1994 e 1997, foram confirmados laboratorialmente no Ceará três casos da doença: dois em Guaraciaba do Norte e um em Ipu. O último caso da doença no Ceará, por exemplo, foi confirmado em 2005, por exame sorológico, no município de Pedra Branca. Nesse ano, um alerta para notificação imediata de peste bubônica foi emitido em junho, pela Secretaria de Saúde do Ceará. A nota técnica da secretaria orientava "vigilância" em 42 cidades cearenses, ou seja, não precisamos tecnicamente importar a peste de países como o Peru ou Madagascar.

Um Pequeno Compilado Sobre o que Você Precisa Essencialmente Saber Sobre a "Peste Negra"!


Nessa última parte da postagem vamos dizer o que você precisa essencialmente saber sobre a peste. Aliás, esse pequeno compilado pode acabar também sendo útil para casos futuros. Em primeiro lugar, é necessário saber que a peste é causada pela bactéria Yersinia pestis, uma bactéria zoonótica geralmente encontrada em pequenos mamíferos (tais como ratos, esquilos, coelhos, marmotas, entre outros) e suas pulgas.

As pessoas infectadas com a Y. pestis geralmente desenvolvem sintomas após um período de incubação que varia entre um a sete dias. Existem duas formas clínicas principais de infecção pela peste: a bubônica e pneumônica. A peste bubônica é a forma mais comum, sendo caracterizada por gânglios linfáticos inflamados e doloridos também conhecidos como "bubões", que podem aparecer na região da virilha, axilas ou pescoço.

Em primeiro lugar, é necessário saber que a peste é causada pela bactéria Yersinia pestis, uma bactéria zoonótica geralmente encontrada em pequenos mamíferos (tais como ratos, esquilos, coelhos, marmotas, entre outros) e suas pulgas.
A peste bubônica é a forma mais comum, sendo caracterizada por gânglios linfáticos inflamados e doloridos também conhecidos como "bubões", que podem aparecer na região da virilha, axilas ou pescoço.
A peste é transmitida entre animais e humanos através da mordida de pulgas infectadas, do contato direto com tecidos ou materiais infectados, e da inalação de gotículas respiratórias infectadas de pacientes com peste pneumônica (tosse, espirro ou pelo simples ato de falar), sendo que a mesma pode ser uma doença muito grave em pessoas, com uma taxa de letalidade de 30% a 60% para a forma bubônica, e sempre é fatal em sua forma pneumônica, quando não tratada, é claro. O tratamento com antibióticos é eficaz contra a bactéria da peste, então o diagnóstico e o tratamento precoce podem salvar vidas. Entre 2010 e 2015 foram identificados 3248 casos em todo o mundo, incluindo 584 óbitos.

Historicamente, a peste era a responsável por pandemias generalizadas com uma alta mortalidade. Foi conhecida como a "Morte Negra" durante o século XIV, causando mais de 50 milhões de mortes na Europa. Hoje em dia, a peste é facilmente tratada com antibióticos e o uso de medidas preventivas simples para evitar a infecção. Atualmente, os três países mais endêmicos são a República Democrática do Congo, Madagascar e Peru (já tivemos casos de pestes em todos os continentes, exceto na Oceania).

Hoje em dia, a peste é facilmente tratada com antibióticos e o uso de medidas preventivas simples para evitar a infecção. Atualmente, os três países mais endêmicos são a República Democrática do Congo, Madagascar e Peru (já tivemos casos de pestes em todos os continentes, exceto na Oceania).
As pessoas infectadas com a peste geralmente desenvolvem uma "doença febril aguda" com outros sintomas sistêmicos não específicos após o período de incubação. Normalmente, começa com uma febre repentina, arrepios, dores na cabeça e no corpo, fraqueza, vômitos e náuseas. No caso da peste bubônica, a forma mais comum da peste, o bacilo Y. pestis entra no corpo através da mordida de uma pulga infectada, e viaja através do sistema linfático para o linfonodo mais próximo, onde acaba se replicando. O nódulo linfático torna-se inflamado, tensionado e dolorido. Nos estágios avançados da infecção, os gânglios inflamados podem se transformar em feridas abertas cheias de pus. Pode também ocorrer hemorragia interna nas extremidades do corpo, mais precisamente nos dedos das mãos e dos pés. Geralmente, o sangue dessas áreas acaba coagulando o que leva, infelizmente, a amputação dos dedos. Não irei colocar fotos do que pode acontecer com a pessoa que contrai a peste, mas vocês podem ver algumas imagens clicando aqui.

A transmissão de pessoa para pessoa da peste bubônica é rara, sendo que peste bubônica pode avançar e se espalhar para os pulmões, momento esse que passa a ser chamada de peste pneumônica. Qualquer pessoa com peste pneumônica pode transmitir a doença através de gotículas respiratórias infectadas para outras pessoas. Existe também a forma septicêmica, que ocorre quando a infecção acaba parando na corrente sanguínea.

No caso da peste bubônica, a forma mais comum da peste, o bacilo Y. pestis entra no corpo através da mordida de uma pulga infectada, e viaja através do sistema linfático para o linfonodo mais próximo, onde acaba se replicando. O nódulo linfático torna-se inflamado, tensionado e dolorido.
Os antibióticos e a terapia de suporte são eficazes contra a peste se os pacientes forem diagnosticados a tempo, sendo que antibióticos comuns para enterobactérias (gram-negativos entéricos) podem efetivamente curar a doença se forem administrados precocemente. De acordo com o CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos), não há nenhuma vacina que previna a peste, porém aqueles que planejam viajar para Madagascar ou países endêmicos devem tomar as seguintes medidas:
  • Utilizar repelente contra insetos, que informe sobre a proteção contra pulgas no rótulo, e que contenha, no mínimo, 25% de DEET (oficialmente conhecido como "N,N-dietil-meta-toluamida", um ingrediente ativo encontrado nas fórmulas de muitos repelentes);
  • Evitar o contato próximo com animais doentes ou mortos;
  • Evitar o contato próximo com pessoas gravemente doentes, especialmente pessoas que estejam tossindo sangue.
Além disso, de acordo com a OMS, não se deve matar os roedores antes das pulgas para evitar a peste, visto que isso fará com as mesmas saltem para novos hospedeiros. Recomenda-se também que as pessoas lavem constantemente as mãos com água e sabão ou álcool, sendo que ambientes maiores podem ser desinfectados usando água sanitária, que pode ser feita em casa ao diluir 1 litro de hipoclorito de sódio para 10 litros de água.

Recomenda-se também que as pessoas lavem constantemente as mãos com água e sabão ou álcool, sendo que ambientes maiores podem ser desinfectados usando água sanitária, que pode ser feita em casa ao diluir 1 litro de hipoclorito de sódio para 10 litros de água
De acordo com pesquisador Joseph Hinnebusch, cuja área de maior atuação é justamente a peste, nos Institutos Nacionais da Saúde (um conglomerado de centros de pesquisa que formam a agência governamental de pesquisa biomédica do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, com sede em Bethesda, Maryland), uma pessoa com peste pneumônica é um pesadelo em termos de saúde pública, porém há boas notícias.

Segundo Joseph, apesar dos pesares, a peste não é tão contagiosa quanto alguns outros agentes patogênicos, como a gripe ou o sarampo, e exige um contato próximo para se espalhar. As pessoas com a peste também ficam rapidamente doentes, assim sendo a doença geralmente não consegue viajar para tão longe, tal como o Ebola, que incuba no corpo por até 21 dias antes do surgimento dos primeiros sintomas.

De acordo com pesquisador Joseph Hinnebusch (na ponta direita da foto), cuja área de maior atuação é justamente a peste, nos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos, uma pessoa com peste pneumônica é um pesadelo em termos de saúde pública
"A peste também é facilmente evitável, uma vez que ocorre um surto e deveria ser fácil interrompê-la com medidas simples, assim como usar máscaras ou isolar as pessoas doentes para que não entrem em contato com outras pessoas. Ao contrário do Ebola, a peste é curável através de antibióticos. Precisaria haver um colapso total dos sistemas de saúde pública para que a epidemia saísse totalmente do controle", disse Joseph Hinnebusch, em entrevista para o site de notícias Vox.

Enfim, vou finalizar essa postagem com a frase publicada por Crawford Kilian, um especialista em doenças infecciosas, que comentou em seu blog que peste pneumônica em uma grande cidade é como o Ebola em uma grande cidade, ou seja, é melhor prevenir do que remediar. Aliás, essa frase de Crawford serve não apenas para a peste, mas para quase todas as doenças, não é mesmo? Espero que vocês tenham gostado da matéria, saiam devidamente informados daqui e possam disseminar esse conhecimento para parentes e amigos, visto que a informação é sempre a maior aliada de cada um e extremamente eficaz contra o medo e o preconceito.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/259181/1/Ext-PlagueMadagascar4102017.pdf
http://apps.who.int/iris/bitstream/10665/259239/1/Ext-PlagueMadagascar13102017.pdf
http://edition.cnn.com/2017/10/25/health/madagascar-pneumonic-plague-outbreak/index.html
http://nypost.com/2017/10/26/madagascar-plague-linked-to-ritual-dance-with-dead-bodies/
http://www.businessinsider.com/pneumonic-plague-black-death-outbreak-madagascar-2017-10
http://www.dailymail.co.uk/news/article-5018793/Plague-alert-Madagascars-dance-dead.html
http://www.newsweek.com/dancing-dead-plague-madagascar-693513
http://www.newsweek.com/how-shame-city-living-deadly-bacteria-killing-people-madagascar-689506
http://www.newsweek.com/plague-19-dead-madagascar-black-death-continues-spread-674562
http://www.newsweek.com/will-be-deadliest-year-plague-modern-history-680785

http://www.reuters.com/article/us-health-plague-madagascar-idUSKBN0LF1LI20150211
http://www.sbs.com.au/news/article/2017/09/16/plague-outbreak-kills-five-madagascar
http://www.who.int/csr/don/02-october-2017-plague-madagascar/en/
http://www.who.int/csr/don/26-october-2017-plague-seychelles/en/
http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs267/en/
http://www.who.int/mediacentre/news/releases/2017/antibiotics-plague-madagascar/en/
https://en.wikipedia.org/wiki/2017_Madagascar_plague_outbreak
https://medicalxpress.com/news/2017-09-plague-madagascar.html
https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/surto-de-peste-negra-na-africa-preocupa-oms-alarmante-diz-diretora-15306338
https://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/Ex-PlagueMadagascar20102017.pdf
https://reliefweb.int/sites/reliefweb.int/files/resources/Ex-PlagueMadagascar26102017.pdf
https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:Nxk0rGqVbRUJ:https://www.afp.com/en/news/23/plague-alert-over-madagascars-dance-dead+&cd=1&hl=en&ct=clnk&gl=br
https://www.afp.com/en/news/23/plague-alert-over-madagascars-dance-dead
https://www.nst.com.my/world/2017/10/295449/plague-alert-over-madagascars-dance-dead
https://www.nytimes.com/2017/10/06/health/madagascar-plague.html?_r=0
https://www.reuters.com/article/us-madagascar-plague-aid/red-cross-warns-stigma-could-worsen-madagascar-plague-outbreak-idUSKBN1CP1ID
https://www.scientificamerican.com/article/plague-kills-124-in-madagascar/
https://www.thesun.co.uk/news/4765804/plague-black-death-madagascar-warning-nine-british/
https://www.timeslive.co.za/news/south-africa/2017-10-27-7-reasons-why-you-dont-need-to-panic-about-the-plague/
https://www.voanews.com/a/plague-spreading-rapidly-in-madagascar/4050894.html
https://www.vox.com/science-and-health/2017/10/6/16435536/plague-madagascar-epidemic-2017
https://www.washingtonpost.com/world/africa/94-deaths-from-plague-in-madagascar-un-health-agency-says/2017/10/20/a822a13a-b59c-11e7-9b93-b97043e57a22_story.html?utm_term=.0a70a397812c
https://wwwnc.cdc.gov/travel/notices/alert/plague-madagascar
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