1 de setembro de 2017

O "Homem-Atômico": A Incrível História do Ser Humano Mais Radioativo do Mundo que Desafiou os Cientistas Durante Anos!


Por Marco Faustino

Uma das matérias mais interessantes que fiz esse ano, e que possuía alguma relação com a radioatividade, sem dúvida alguma foi aquela sobre David Hahn, um escoteiro norte-americano que resolveu tentar construir um reator nuclear no quintal de sua própria casa. Sua ideia e proposta surgiu meramente de um livro de ciências que ele adorava ler, e resultou em um incidente, no qual seu "laboratório" improvisado chegou a ter cerca de 1.000 vezes mais do que a dose considerada aceitável de radiação. Isso aconteceu no ano de 1994, quando David, ainda adolescente e com 17 anos de idade, tentou construir um reator regenerador nuclear caseiro. Ele conduziu experimentos, obviamente em segredo, em um galpão de jardinagem, no quintal da casa de sua mãe, em Commerce Township, no estado do Michigan. Por mais que seu reator nunca tenha atingido a massa crítica, ele atraiu a atenção da polícia local ao ser abordado em relação a um outro problema, e ao encontrarem um determinado material em seu veículo. David, no entanto, alertou que o material era radioativo, e o local acabou tendo que sofrer uma descontaminação por parte da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, cerca de 10 meses depois. Na época que publiquei o material, em maio desse ano, mostrei a vocês quais eram os planos de David, o que ele realmente pensava da energia nuclear, e como ele conseguiu de forma tão simples, porém engenhosa, criar algo assim em casa. Vale muito a pena conferir aquela matéria (leia mais: O Caso David Hahn: O Escoteiro Norte-Americano que Tentou Criar um "Reator Nuclear" no Quintal da Sua Própria Casa!).

Também no mês de maio, falamos sobre um incidente ocorrido na "Reserva Nuclear de Hanford" ou "Depósito Nuclear de Hanford", o local mais contaminado dos Estados Unidos em termos de radioatividade. Um túnel subterrâneo dessa instalação havia colapsado, em um trecho de cerca de seis metros de extensão, justamente onde ficavam armazenados resíduos nucleares altamente radioativos. Como resultado, o material teria sido exposto, colocando em risco não somente os funcionários que trabalhavam no local, mas também os moradores de cidades próximas, devido aos ventos que podiam conduzir as partículas para essas cidades, e provocar a temida "precipitação radioativa". Aliás, esse incidente quase gerou a evacuação de um total de 300.000 pessoas. Felizmente, no entanto, tudo conseguiu ser resolvido sem maiores danos ou prejuízos, tanto para a população quanto para o meio ambiente (leia mais: O Colapso de um Túnel com Material Radioativo Provoca Tensão no "Depósito Nuclear de Hanford", o Mais Contaminado dos Estados Unidos!).

Agora, resolvi abordar um assunto, que voltou a ser comentado recentemente, sobre um homem chamado Harold R. McCluskey, que era operador sênior de processos químicos na chamada "Plutonium Finishing Plant" ("Instalação de Processamento Final de Plutônio", em português), localizada dentro do sítio nuclear de Hanford (também conhecido como "Reserva Nuclear de Hanford"), no estado norte-americano de Washington (estado localizado na Costa Oeste, e que faz divisa com o Canadá), na década de 1970. O motivo? Bem, em uma noite de agosto de 1976, Harold estava realizando um processo destinado a separação do amerício, um subproduto do plutônio, em uma glove box (um equipamento que permite a manipulação de materiais em um ambiente controlado viabilizando a otimização dos processos envolvidos), quando tudo explodiu. Como consequência, Harold recebeu uma dose de radiação cerca de 500 vezes maior do que o limite da dose ocupacional permitida, fazendo com que ele recebesse o indesejável título de "homem mais radioativo do mundo". Ele sobreviveu ao acidente, mas nos anos que se seguiram ele contraiu uma infecção renal, teve quatro ataques cardíacos, e precisou realizar uma cirurgia de catarata em ambos os olhos. É justamente sobre sua inacreditável história de sobrevivência, que desafiou a ciência até o seu último suspiro, que vocês conferem a partir de agora. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Pouco Sobre o Sítio Nuclear de Hanford, no Estado Norte-Americano de Washington


Antes de começarmos a abordar sobre Harold R. McCluskey, nada melhor do que contar para vocês o que é chamado "Sítio de Hanford" (também chamado de "Depósito Nuclear de Hanford" ou "Reserva Nuclear de Hanford"). Utilizarei uma parte do texto que já havia publicado sobre o mesmo, acrescentando algumas informações adicionais sobre a Instalação de Processamento Final de Plutônio, combinado?

Bem, o "Sítio de Hanford" ocupa uma área de 1.518 km², praticamente o mesmo tamanho da cidade de São Paulo (que possui 1.521 km²), e fica localizado dentro do condado de Benton, no estado norte-americano de Washington (não confundir o nome com a capital norte-americana, visto que a mesma fica do outro lado do continente e não possui nenhuma relação com o referido estado). Esse sítio era ainda maior, possuía cerca de 1.770 km², e incluía áreas dos condados de Grant e de Franklin.

O "Sítio de Hanford" ocupa uma área de 1.518 km², praticamente o mesmo tamanho da cidade de São Paulo (que possui 1.521 km²), e fica localizado dentro do condado de Benton, no estado norte-americano de Washington (não confundir o nome com a capital norte-americana, visto que a mesma fica do outro lado do continente e não possui nenhuma relação com o referido estado)
Mapa mostrando algumas das instalações do Sítio Nuclear de Hanford
Uma parte do terreno foi devolvida a iniciativa privada, e atualmente conta com pomares e campos irrigados, muito embora a localidade seja um ambiente desértico, com uma baixíssima precipitação anual, e não há permissão para que civis passem ou trafeguem livremente pelo local, exceto que estejam em passeios guiados, que são comumente realizados no local.



Esse sítio era ainda maior, possuía cerca de 1.770 km², e incluía áreas dos condados de Grant e de Franklin
A criação de Hanford começou em março de 1943 e chegou a empregar cerca de 44 mil trabalhadores (em junho de 1944). A construção das instalações nucleares avançou rapidamente. Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, em agosto de 1945, já havia sido construído cerca de 554 prédios em Hanford, incluindo três reatores nucleares (105-B, 105-D e 105-F) e três instalações de processamento de plutônio. Vale ressaltar nesse ponto, que a localidade surgiu como parte do "Projeto Manhattan", sendo o lar do primeiro reator de produção de plutônio em larga escala no mundo (o reator 105-B). O plutônio fabricado no local foi usado na primeira bomba nuclear, testada no Sítio Trinity: a chamada "Fat Man", a bomba que foi detonada sobre Nagasaki, no Japão.

Vale ressaltar nesse ponto, que a localidade surgiu como parte do "Projeto Manhattan", sendo o lar do primeiro reator de produção de plutônio em larga escala no mundo, o reator 105-B (na foto, mostrando sua construção)
Durante a Guerra Fria, o projeto foi expandido, totalizando nove reatores nucleares e cinco grandes complexos de processamento de plutônio, que produziram plutônio para a maior parte das mais de 60 mil armas construídas para o arsenal nuclear dos Estados Unidos.

A tecnologia nuclear desenvolveu-se rapidamente durante este período, e os cientistas de Hanford produziram as principais realizações tecnológicas da época. Muitos procedimentos iniciais de segurança e práticas de deposição de resíduos radioativos eram inadequados, e documentos governamentais confirmaram que as operações em Hanford teriam liberado quantidades significativas de materiais radioativos no ar e no rio Columbia.

Foto antiga mostrando uma "fazenda de tanques subterrâneos",
com 12 dos 177 tanques de armazenamento de resíduos gerados em Hanford
A instalação denominada "PUREX" foi a principal responsável pela produção de plutônio-239 durante a Guerra Fria, um material fissionável que pode ser utilizado em bombas para criar explosões nucleares. Varetas de combustível de urânio foram irradiadas em reatores nucleares em Hanford para formar o plutônio-239, e posteriormente encaminhadas para a unidade da "PUREX" para o seu devido processamento. As varetas de combustível foram dissolvidas em ácido para separar o plutônio do urânio e dos rejeitos nucleares.

A planta da "PUREX" ocupa um espaço maior do que três campos de futebol, erguendo-se a 20 metros acima do solo e 12 metros abaixo dele, possuindo mutos de concreto de até 6 metros de espessura para proteger os trabalhadores da radiação proveniente da edificação. De acordo com o site oficial, essa instalação foi construída durante o início da década de 1950, e entrou em operação em 1956. Desde esse ano até 1972, e novamente entre 1983 e 1988, a "PUREX" processou cerca de de 75% do plutônio produzido em Hanford. Alguns cientistas acreditam que mais plutônio foi processado na "PUREX", do que em qualquer outra instalação no planeta, uma vez que a mesma processou mais de 70 mil toneladas de varetas de combustível de urânio durante suas operações.

Foto antiga mostrando o interior da instalação denominada PUREX
A edificação está vazia há quase 20 anos, mas permanece altamente contaminada. Diversos vagões ferroviários que foram utilizados para transportar as varetas de combustível irradiadas dos reatores nucleares de Hanford para serem processadas na "PUREX", acabaram sendo temporariamente enterrados dentro de túneis próximos a unidade. Assim como o restante das estruturas de Hanford, a "PUREX" está programada para ser descontaminada, demolida e alguns dos seus destroços removidos. Os vagões enterrados juntamente à instalação também deverão ser descontaminados, removidos e permanentemente enterrados. É mais uma questão de tempo (muito tempo mesmo), e como não poderia deixar de ser, muito dinheiro.

Dentro do Sítio Nuclear de Hanford também existe a chamada "Plutonium Finishing Plant" (também conhecida como "PFP" ou simplesmente "Instalação de Processamento Final de Plutônio", em português), que representava o fim da linha (o procedimento final) associado a produção de plutônio em Hanford. A instalação também era conhecida como "Z-Plant" devido ao fato de que nenhuma atividade relacionada à produção de plutônio em Hanford seria realizada após o processamento do plutônio no local. A instalação iniciou suas atividades em 1949 com o propósito de ajudar Hanford a fabricar plutônio metálico para ser utilizado em armamentos.

Já a instalação denominada como "Plutonium Finishing Plant" (também conhecida como "PFP") representava o fim da linha (o procedimento final) estava associada a produção de plutônio em Hanford. A instalação também era conhecida como "Z-Plant" devido ao fato de que nenhuma atividade relacionada à produção de plutônio em Hanford seria realização após o processamento do plutônio no local
Para vocês terem uma noção, todo o trabalho preparatório para a descontaminação da PFP foi considerado o mais arriscado do sítio de Hanford, sendo que a instalação composta por quatro prédios principais (de um total de mais de 60 prédios ou instalações) até hoje é considerada o setor mais perigoso para a vida humana do complexo. Parece pequeno se comparado a "PUREX", mas não deixe a aparência da mesma enganar vocês.

De qualquer forma, todo o processo de demolição do setor começou em novembro do ano passado, sendo que a segunda principal instalação, a "Americium Recovery Facility" ("Unidade de Recuperação de Amerício", em português, mas também conhecida por "Sala McCluskey", algo que vocês irão entender o motivo daqui a pouco) foi iniciado em janeiro desse ano, e finalizada no mês de março. A terceira das quatro principais instalações foi demolida em julho, sendo que a demolição do último dos principais prédios começou no mesmo mês, e deve ser concluída nesse mês de setembro.

A História de um Homem Chamado Harold R. McCluskey: O Ser Humano Mais Radioativo do Mundo


Em 30 de agosto de 1976, um homem chamado Harold R. McCluskey estava trabalhando na Reserva Nuclear de Hanford, no estado norte-americano de Washington, quando uma explosão química o cobriu de material radioativo. Incrivelmente, Harold McCluskey, que na época tinha 64 anos de idade, sobreviveu ao que se acredita ser uma das maiores doses de radiação já registradas de amerício-241, e se tornou conhecido como o "Homem-Atômico". Algo ainda mais notável, é que ele ainda viveria mais 11 anos e acabaria morrendo devido a uma doença cardiovascular pré-existente, ou seja, por algo que não tinha nenhuma relação com o incidente que havia sofrido, e pasmem, sem nenhum sinal de câncer em seu corpo.

Incrivelmente, Harold McCluskey, que na época tinha 64 anos de idade, sobreviveu ao que se acredita ser uma das maiores doses de radiação já registradas de amerício-241, e se tornou conhecido como o "Homem-Atômico"
Naquela noite de verão, Harold havia celebrado o seu 40º aniversário de casamento com sua esposa, chamada Ella, antes de assumir o turno que ia da meia-noite até as 8h da manhã na Unidade de Recuperação de Amerício da Instalação de Processamento Final de Plutônio, no Sítio Nuclear de Hanford. Ele estava de bom humor, visto que uma greve que durou entre quatro e cinco meses na instalação nuclear havia terminado.

Harold, que na época era operador sênior de processos químicos, precisava retomar seu trabalho, que lhe proporcionava cerca de US$ 16.000 anuais (atualmente esse valor seria equivalente a US$ 68.000 ou R$ 215.000), na produção de um subproduto do plutônio chamado amerício-241, uma substância altamente radioativa, e comumente utilizada em detectores de fumaça e armamentos militares (muito embora sua utilização atualmente seja muito mais ampla).

Naquela noite de verão, Harold havia celebrado o seu 40º aniversário de casamento com sua esposa, chamada Ella, antes de assumir o turno que ia da meia-noite até as 8h da manhã. Ele estava de bom humor, visto que uma greve que durou entre quatro e cinco meses na instalação nuclear havia terminado
Na época, Harold era operador sênior de processos químicos, algo que lhe proporcionava cerca de US$ 16.000 (atualmente esse valor seria equivalente a US$ 68.000 ou R$ 215.000) por ano, na produção de um subproduto do plutônio chamado amerício-241, uma substância altamente radioativa, e comumente utilizada em detectores de fumaça (muito embora sua utilização seja bem mais ampla)
O amerício-241 era extraído em um caixa de aço hermeticamente fechada (conhecida genericamente como glove box), sendo que Harold manipulava os controles do lado de fora. Contudo, o compartimento ainda continha o ingrediente ativo para o processo de extração, uma resina embebida em amerício, que havia sobrado durante o período de greve. Harold McCluskey ficou extremamente desconfortável com a adição de ácido nítrico para iniciar o processo de extração diante dessa condição considerada inadequada e potencialmente perigosa.

O amerício-241 era extraído em um caixa de aço hermeticamente fechada (conhecida como glove box),
sendo que Harold manipulava os controles do lado de fora
Contudo, o compartimento ainda continha o ingrediente ativo para o processo de extração, uma resina embebida em amerício, que havia sobrado durante o período de greve. Harold McCluskey ficou extremamente desconfortável com a adição de ácido nítrico para iniciar o processo de extração
"Eles nos avisaram quando construíram a instalação que, se tentássemos realizar o processo quando a resina tivesse mais de 3 meses a partir da data de fabricação, tudo explodiria", disse Harold, em um artigo publicado em dezembro de 1984, na revista norte-americana "People". Ele inclusive questionou seu chefe, e protestou diante da situação. Porém, seu chefe ignorou seus apelos, e disse para ele seguir em frente mesmo assim. A resina deveria ser utilizada em até 90 dias, mas já estava parada dentro do compartimento a 135 dias, ou seja, 45 dias além do recomendado.

Harold tinha cursado apenas o equivalente ao Ensino Médio, mas estava trabalhando no mesmo emprego há 30 anos, e estava prestes a se aposentar. Ele chegou a dizer na entrevista, que não tinha escolha a não ser obedecer as ordens, visto que corria o risco de ser demitido, e sua situação financeira iria ser fortemente abalada.

Localização exata da Unidade de Recuperação de Amerício da Instalação de Processamento Final de Plutônio,
no Sítio Nuclear de Hanford
Exatamente as 2h45 da madrugada, Harold ouviu um estranho ruído, que instantaneamente gelou sua espinha. O compartimento que estava manuseando se encheu com uma fumaça marrom e o ruído, semelhante a um assobio, se intensificou. Harold sabia que aquilo estava prestes a explodir, tentou se virar para escapar, mas foi atingido a cerca 1,5m de distância da explosão. A máscara de proteção respiratória de Harold foi arrancada do seu rosto, centenas de pedaços de metal radioativo, vidro com chumbo e borracha foram arremessados contra sua pele, o ácido queimou seu rosto, cegando-o temporariamente. Isso sem contar as partículas radioativas que cobriram o seu corpo e sua roupa.

Sufocado e tentando respirar, ele inalou fumaça radioativa, que revestiu seus pulmões com amerício tóxico. Na ocasião, estima-se que Harold tenha sido exposto a dose cavalar de radiação: cerca de 500 vezes a dose ocupacional. De acordo com Dr. Bryce Breitensten, médico da "Hanford Environmental Health Foundation", um dos responsáveis pelo tratamento de Harold, ele absorveu a maior dose de amerício já registrada em um ser humano, em questão de apenas alguns minutos.

Trecho de uma matéria publicada na edição de abril de 1981 da revista Reader’s Digest
Artigo escrito pelo próprio Harold McCluskey e publicado pela revista Guideposts, em 1981,
contando como ocorreu o incidente nuclear
Harold chegou a ser socorrido, ainda em sua sala, que tinha um tamanho de uma garagem para dois carros, tendo suas roupas arrancadas e sendo lavado com água mesmo diante dos graves ferimentos. Ele foi transferido para o Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford, um prédio sem janelas na cidade de Richland, também no estado norte-americano de Washington, e a cerca de 40 km de Hanford, onde sofreu um outro banho, a recebeu uma dose de 1 grama de Ca-DTPA (dietilenotriaminopentacetato de cálcio trissódico).

Harold foi transferido para o Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford, um prédio sem janelas na cidade de Richland, também no estado norte-americano de Washington, e a cerca de 40 km de Hanford
Parte extena do Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford naquela época
Foto de uma das dependências internas do Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford naquela época
Vale lembrar nesse ponto, que o dietilenotriaminopentacetato (Zn-DTPA e Ca-DTPA) é um agente quelante usado nos casos de exposições aos elementos transurânicos plutônio, amerício e cúrio. O DTPA é usado como sal de cálcio ou zinco, e forma um produto quelado que é excretado pela urina. O DTPA possui uma meia-vida plasmática de 20 a 60 minutos e distribui-se no espaço extracelular. Uma pequena quantidade do fármaco apresenta-se ligada à proteína e não passa por metabolismo significativo ou acúmulo tecidual. O Ca-DTPA leva a uma taxa de eliminação de plutônio, por exemplo, cerca de 10 vezes maior quando comparado ao Zn-DTPA, de modo que o seu uso é preferível no tratamento inicial do paciente, quando disponível.

Em sua chegada, o corpo de Harold estava tão quente para ser manuseado, que ele precisou ser retirado da ambulância através de um equipamento operado remotamente, e foi imediatamente levado a um tanque de isolamento de concreto e aço.

Harold McCluskey recebendo um banho nas dependências do Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford, um prédio sem janelas na cidade de Richland, também no estado norte-americano de Washington
Funcionários do Centro de Descontaminação de Emergência de Hanford
avaliando a quantidade de radiação presente no rosto de Harold
Durante a primeira semana, ele recebeu dois banhos por dia e, posteriormente, ele recebeu um banho por dia durante dois meses. Durante os primeiros cinco dias, ele foi tratado com o Ca-DTPA e, após esse período, durante longos quatro anos, ele foi tratado com um total de 583 gramas de Zn-DTPA (quase 600 doses). O tratamento reduziu a deposição sistêmica para 500 kBq em vez dos 19 MBq, que ele acabou retendo em seu corpo, uma redução muito significativa. Porém, esse processo foi muito penoso.

Durante os primeiros cinco dias, ele foi tratado com o Ca-DTPA e, após esse período, durante longos quatro anos, ele foi tratado com um total de 583 gramas de Zn-DTPA (quase 600 doses)
Temporariamente cego e com sua audição severamente afetada pela explosão, Harold McCluskey passou as três primeiras semanas sem nenhum tipo de contato pessoal. Monitorado como se fosse um ser extraterrestre por enfermeiras, que usavam máscaras de proteção respiratória e roupas de proteção, ele não conseguia ver e nem entender claramente o que era mencionado. Para Harold tudo não passava de murmúrios sem nenhum significado.

Quase um mês após o incidente, sua família foi autorizada a se aproximar, porém a 30 metros de distância dele devido ao temor da radiação que ele ainda emanava.

Temporariamente cego e com sua audição severamente afetada pela explosão, Harold McCluskey passou as três primeiras semanas sem nenhum tipo de contato pessoal. Monitorado como se fosse um ser extraterrestre por enfermeiras, que usavam máscaras de proteção respiratória e roupas de proteção, ele não conseguia ver e nem entender claramente o que era mencionado
Durante os cinco meses e meio seguintes, uma das poucas coisas que o mantinha vivo era sua fé, enquanto os médicos extraíam laboriosamente minúsculos pedaços de vidro e pedaços de metal de sua pele. Dos nove médicos que o tratavam, apenas quatro acreditavam que ele tinha uma chance de 50% de sobreviver, sendo que o restante apenas balançava negativamente suas cabeças.

Em outubro de 1976, Harold ainda estava exalando quantidades consideráveis de amerício a cada respiração. As enfermeiras passaram a esfregá-lo três vezes por dia, e raspavam cada centímetro de seu corpo todos os dias.

Processo de medição da quantidade de radiação presente no rosto de Harold McCluskey
Na imagem acima podemos notar que o lado direito do rosto de Harold foi o mais afetado pela explosão,
e consequentemente o mais exposto a radiação proveniente da mesma
Durante a entrevista para a revista People, Harold chegou a mencionar que a água radioativa dos seus banhos e as milhares de toalhas utilizadas provavelmente ainda estavam em algum lugar de Hanford, visto que não era possível enterrá-las ou descartá-las de forma natural. As grandes quantidades de Zn-DTPA também tinham feito com que seu braço esquerdo ficasse repleto de nódulos.

Foi uma longa jornada até ele ser transferido para um trailer, onde ele passou a viver com sua esposa e um cachorro, e que permaneceu durante um certo tempo estacionado nos arredores da instalação.

Durante os cinco meses e meio seguintes, uma das poucas coisas que o mantinha vivo era sua fé, enquanto os médicos extraíam laboriosamente minúsculos pedaços de vidro e pedaços de metal de sua pele
Dos nove médicos que o tratavam, apenas quatro acreditavam que ele tinha uma chance de 50% de sobreviver,
sendo que o restante apenas balançava negativamente suas cabeças.
Quando ele finalmente voltou para casa, no dia 14 de fevereiro de 1977, Harold McCluskey encontrou uma dor diferente. Em sua cidade natal, a pequena cidade de Prosser, que atualmente conta com pouco mais de 6 mil habitantes, ele passou a ser conhecido pelo apelido de "Homem-Atômico". Embora o tratamento tivesse removido grande parte do amerício de seu corpo (cerca de 80% do total absorvido), ainda restava o suficiente para disparar um detector de radiação. Justamente por isso, a população acreditava que Harold tivesse uma espécie de doença contagiosa.

Harold se aposentou, e pode ser visto durante muitos anos usando uma luva em uma das mãos para evitar qualquer possível contaminação, que ainda estivesse presente em seu corpo. Infelizmente, Harold foi tratado como um pária, uma pessoa à margem da sociedade, sendo excluído do convívio social. Alguns amigos, bem temerosos, ligavam para ele dizendo que gostavam dele, mas que nunca mais iriam aproximar de sua casa. Para vocês terem uma ideia, ele chegou a a frequentar cabeleireiros diferentes para evitar impactar negativamente o trabalho de alguém.



Quando ele finalmente voltou para casa no dia 14 de fevereiro de 1977, Harold McCluskey encontrou uma dor diferente. Em sua cidade natal, a pequena cidade de Prosser, que atualmente conta com pouco mais de 6 mil habitantes, ele passou a ser conhecido pelo apelido de "Homem-Atômico".
Após o incidente, Harold McCluskey teve sua parcela de problemas de saúde relacionada a radiação: uma infecção renal, quatro ataques cardíacos, passou por uma cirurgia de catarata em ambos os olhos, seguido de um transplante de córnea, e houve uma queda acentuada na contagem de plaquetas no sangue, o que acabou exigindo transfusões regulares.

Em 1984, foi mencionado que Harold já não tinha mais força para nada. Ele havia se tornado incapaz de caçar, pescar ou fazer qualquer coisa que havia planejado para sua aposentadoria. Ele passou a escutar a bíblia por meio de fita cassete, e cuidava de suas rosas no jardim. Suas cicatrizes, cabelos brancos e olhos azuis o faziam parecer 15 anos mais velho do que ele realmente era. Seu corpo ainda emitia ondas radioativas suficientes para fazer um contador Geiger enlouquecer, visto que ele ainda tinha cerca de 10 vezes mais amerício-241 em seu corpo do que o encontrado em um único detector de fumaça. De acordo com o Dr. Eugene H. Carbaugh, especialista em Física da Saúde (uma área envolvida no reconhecimento, avaliação e controle de riscos para a saúde para permitir o uso seguro e a aplicação de radiações ionizantes), durante uma apresentação realizada em 2015, o processo de descontaminação foi extenso, difícil e nunca foi de fato completado.

Embora o tratamento tivesse removido grande parte do amerício de seu corpo (cerca de 80% do total absorvido), ainda restava o suficiente para disparar um detector de radiação. Justamente por isso, a população acreditava que Harold tivesse uma espécie de doença contagiosa.
Uma investigação sobre a explosão confirmou que a mistura de resina tornou-se instável exatamente como McCluskey havia alertado. Ele processou a Administração de Pesquisa e Desenvolvimento de Energia dos Estados Unidos (ERDA, sigla em inglês) no valor de US$ 975.000, que acabou convertendo-se para US$ 275.000 em 1977, além do custeio de todas as despesas médicas ao longo de sua vida. Ainda assim, de acordo com Ella, esposa de Harold, o governo recusou-se a pagar. Sendo uma ex-professora e enfermeira, Ella disse para o governo que eles não poderiam de fazer uma autópsia, quando ele morresse. O governo disse que não era justo, e então resolveram pagar o valor.

Embora Harold McCluskey tivesse evitado amplamente a mídia após o incidente, o Dr. Bryce Breitensten disse que Harold, às vezes, o acompanhava, quando ele dava palestras sobre o caso. Harold sempre permaneceu a favor da energia nuclear, desde que as regras de segurança fossem aplicadas. Ele chegou a dizer, que de vez em quando ficava enojado diante do que passou, mas que manter o rancor só iria piorar a situação. Ele não expressava raiva pelo que tinha acontecido, ao contrário de sua esposa. Em uma das últimas declarações de Ella para a revista People, a mesma mencionou que que os porta-vozes de Hanford e do Departamento de Energia dos Estados Unidos tentaram fazer com que tudo parecesse ser apenas um acidente industrial, como alguém que tivesse caído em uma serraria.

Ainda assim, de acordo com Ella, esposa de Harold, o governo recusou-se a pagar. Sendo uma ex-professora e enfermeira, Ella disse para o governo que eles não poderiam de fazer uma autópsia, quando ele morresse
Entretanto, tudo aquilo tinha sido uma catástrofe que arruinou a vida do Harold, que ironicamente morreu devido a uma doença cardíaca pré-existente, em 17 de agosto de 1987, aos 75 anos, e uma autópsia realizada não encontrou sinais de câncer. De qualquer forma, de acordo com o Dr. Eugene H. Carbaugh, se Harold tivesse vivido mais tempo, era possível que ele tivesse desenvolvido câncer.

Entretanto, tudo aquilo tinha sido uma catástrofe que arruinou a vida do Harold, que ironicamente morreu devido a uma doença cardíaca pré-existente, em 17 de agosto de 1987, aos 75 anos, e uma autópsia realizada não encontrou sinais de câncer
A Unidade de Recuperação de Amerício, posteriormente chamada de Sala do McCluskey pelos trabalhadores de Hanford, nunca mais operou novamente, porque as autoridades temiam que o ar fosse contaminado pela radiação. Em 2010, trabalhadores, equipados com roupas de proteção contra a radiação, começaram a limpar o local.

Posteriormente, os trabalhadores pulverizaram uma substância, que ajudou a unir o material radioativo às superfícies dos materiais. Somente depois que essas medidas preventivas foram colocadas em prática, é que o processo de demolição foi iniciado, quase seis anos depois.

Imagem do equipamento que explodiu diante de Harold McCluskey, em 2015, durante parte do
processo de descontaminação e desmantelamento da Unidade de Recuperação de Amerício
Mais uma imagem extraída de um pequeno vídeo que foi realizado em 2015
mostrando o interior da Unidade de Recuperação de Amerício
Para vocês terem uma ideia, durante a maior parte dos anos entre a explosão e demolição da sala onde tudo aconteceu, a porta da mesma permaneceu selada devido a atividade radioativa (embora o local tenha sido aberto em algumas ocasiões nos últimos anos, porém de forma muito restrita).

Após mais de quatro décadas, o local onde Harold se tornou o "Homem-Atômico" acabou sendo finalmente desmantelado entre os meses de janeiro e março desse ano, fazendo com que mais um capítulo da história de Hanford chegasse ao fim.

Para vocês terem uma ideia, durante a maior parte dos anos entre a explosão e demolição da sala onde tudo aconteceu, a porta da mesma permaneceu selada devido a atividade radioativa (embora o local tenha sido aberto em algumas ocasiões nos últimos anos, porém de forma muito restrita)
Após mais de quatro décadas, o local onde Harold se tornou o "Homem-Atômico" acabou sendo finalmente desmantelado entre os meses de janeiro e março desse ano, fazendo com que mais um capítulo da história de Hanford chegasse ao fim.
Foto mostrando que a Unidade de Recuperação de Amerício havia sido completamente demolida
Aliás, a sala onde Harold trabalhava faz parte do primeiro dos quatro edifícios principais de todo o complexo, que por sua vez está previsto para ser completamente desmantelado nesse mês de setembro. Para maiores detalhes sobre o Sítio Nuclear de Hanford, vale apenas consultar a obra de Michele Gerber, autora do livro "On The Home Front: The Cold War Legacy of the Hanford Site", originalmente publicado em 1992, que também chegou a detalhar os eventos que levaram ao terrível incidente ocorrido com Harold McCluskey.

Por algum motivo, guardadas as devidas proporções, é claro, esse caso me lembrou Chernobyl, visto que ambas as situações são desencadeadas a partir de uma ordem proferida, que acabou resultando em acontecimentos irreparáveis. No caso de Chernobyl, na Ucrânia, um experimento que não deveria ter sido executado e uma ordem que não deveria ter sido saído da boca de nenhum ser humano em sã consciência condenou outros milhões de seres humanos, centenas de milhares de plantas e animais, e até hoje não é apenas um símbolo daquilo que não podemos deixar repetir, mas dentro do sarcófago reside toda a mentalidade daqueles que deveriam ter a todo custo impedido que tal procedimento acontecesse. Talvez existam mil razões pelas quais uma pessoa siga uma ordem, mas existe apenas uma e tão somente uma para não seguir quando estamos falando de energia nuclear.

No caso de Hanford, o operador sênior Harold McCluskey sabia exatamente o que poderia, e talvez invariavelmente iria acontecer, mas ainda assim seguiu as ordens que lhe foram dadas. Talvez ele não tenha sido, de fato, o homem mais radioativo do mundo, visto que não sabemos exatamente quantas atrocidades já foram feitas nesse mundo. O que sabemos é que isso sepultou sua dignidade para o resto de sua vida, mas o dano foi limitado a si próprio. Agora, e se estivéssemos diante de um ordem proferida hoje em dia? Será que o resultado seria o mesmo? Sinceramente gostaria dizer que não, mas não consigo fazer com que esse "não" saia da minha boca, e na verdade nem mesmo meu cérebro concorda ao imaginar esse "não". Sim, é possível que outras pessoas ordenem algo totalmente insano, quebrando todos os protocolos de segurança, e que suas ordens sejam prontamente atendidas. Talvez essa seja a melhor lição, quando vocês tomam conhecimento de histórias assim. Nunca obedeça a ninguém, que lhe proponha a fazer algo, que sabidamente poderá dar muito errado para si mesmo ou para outras pessoas. Nenhum dinheiro do mundo vale isso. Aquele que ordena raramente entra para história, mas não podemos dizer o mesmo de suas vítimas.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://articles.latimes.com/1987-08-22/news/mn-915_1_harold-mccluskey
http://gizmodo.com/the-tragic-tale-of-atomic-man-the-most-radioactive-hum-1601443536
http://people.com/archive/blasted-in-a-radiation-accident-eight-years-ago-harold-mccluskey-is-still-the-hottest-human-alive-vol-22-no-23/
http://www.atlasobscura.com/articles/hanford-site-mcclusky-room-radioactive-nuclear-demolition
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