18 de setembro de 2017

Carta do Diabo? Cientistas Teriam Mesmo Decifrado uma Misteriosa Carta Escrita por uma Freira Possuída pelo Diabo, na Itália?

Inscreva-se no canal clicando no botão abaixo:
.
Gostou? Então inscreva-se no canal para acompanhar os novos vídeos que for lançando. Basta clicar neste link: http://goo.gl/CWAIes

Por Marco Faustino

Há pouco mais de uma semana, apresentamos a vocês uma história no mínimo estranha. Um usuário chamado Ricardo L. nos avisou através de nossa página no Facebook sobre uma história de que crucifixos satânicos estariam sendo espalhados ao redor do mundo. Um texto publicado naquela época, em português, dizia que um "padre exorcista" das Filipinas teria alertado contra a circulação de "falsos terços satânicos" e crucifixos que, segundo ele, teriam sido "projetados para enganar os católicos, e para que os espíritos malignos os assombrassem". Esse tal padre tinha um nome: Ambrosio Nonato Legaspi, supostamente um padre e ex-exorcista do departamento "Libera Nox", de uma diocese do país. Ele teria alertado as pessoas através de um programa de rádio a serem cautelosas, porque esses tais terços poderiam estar "amaldiçoados", Além disso, de acordo com um site de cunho católico das Filipinas chamado "CBCP News", Ambrosio Nonato teria dito, que os terços teriam sido "consagrados" por um grupo "Illuminati" para espalhar o Mal. Portanto, qualquer um que os usasse tais objetos seria "perseguido pelos espíritos malignos." Outro sacerdote desse tal departamento "Libera Nox", chamado Philippe de Guzman, teria dito durante esse mesmo programa de rádio, que os "terços satânicos" teriam emblemas, tais como: uma cobra enrolada ao redor da cruz, um pentagrama, e um Sol contendo raios, e que todos seriam símbolos ocultos ou satânicos. Contudo, fomos atrás de cada detalhe dessa história para vocês, e o resultado provavelmente surpreendeu ou irá surpreender a muitos. Vale muito a pena conferir (leia mais: Terços Satânicos? A Estranha História Divulgada por uma Congregação Religiosa das Filipinas que vem Repercutindo nas Redes Sociais!).

Agora, eis que surgiu uma história ainda mais estranha. Foi amplamente mencionado na mídia internacional e até mesmo brasileira, mediante as mais diversas, chamativas e até mesmo peculiares manchetes, de que cientistas italianos teriam decifrado uma misteriosa carta de uma freira italiana, do século XVII, e que teria sido escrita enquanto a freira estava possuída pelo Diabo durante uma determinada madrugada, no Monastério de Palma di Montechiaro, na Itália. Apelidada de "Carta do Diabo", conta-se que a mesma foi o resultado de luta extenuante com o Diabo e que, ao acordar, a freira teria sido encontrado com o rosto coberto de tinta e com a carta bem a sua frente. Essa carta sempre foi um grande mistério e ninguém nunca tinha decifrado-a anteriormente. Isso até que cientistas (ou pesquisadores, dependendo do veículo de comunicação consultado) do Centro de Ciências do Museu de Ludum, na Itália, utilizassem um programa da Deep Web (nome dado para uma parte da internet que não consegue ser acessada facilmente pelos tradicionais mecanismos de busca, garantindo assim uma certa privacidade e anonimato para seus frequentadores) para decodificar a carta. Alguns sites chegaram a mencionar que a carta citava o rio "Estige", que "Deus havia sido criado pelo homem", e que até mesmo a freira poderia sofrer de esquizofrenia. Porém, essa é realmente a realidade por trás dessa história? Será que verdadeiramente contaram tudo o que vocês precisavam saber para ficarem bem informados? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como Toda Essa História Começou a Circular na Mídia Britânica, e nos Demais Países que Fazem Uso de Veículos de Comunicação Britânicos como Principais Fontes de Informação?


Sinceramente, ser mal informado costuma ser muito pior do que não ter nenhuma informação. Isso porque geralmente muitas pessoas acreditam que dominam um assunto simplesmente ao consultar um artigo em enciclopédias virtuais (a exemplo da "Wikipedia" ou "Wikipédia", como quiserem), ao ler o título de uma notícia (geralmente sensacionalista) ou então ao ler muito rapidamente e de forma superficial alguns parágrafos traduzidos a partir de uma única fonte (geralmente uma agência de notícias internacional) em sites ou portais de notícias brasileiros. Afinal de contas, são exatamente esses mecanismos, que uma pessoa dispõe para tentar se manter informada, diante de um dia a dia agitado, tendo que desempenhar inúmeras tarefas etc. Contudo, ler uma única notícia não é, e nunca será, sinônimo de estar bem informado. Um dos melhores exemplos práticos sobre essa questão é justamente o caso que abordarei ao longo dessa postagem, e que tentarei manter o mais curto e objetivo possível para vocês. De qualquer forma, essa primeira parte é importante para vocês terem uma noção de toda essa dinâmica.

Bem, toda essa história de que "cientistas teriam decodificado com a ajuda de um programa encontrado na Deep Web, uma misteriosa carta escrita no século XVII, por uma freira italiana possuída pelo Diabo", no Reino Unido, começou através de uma rápida notícia publicada no dia 7 de setembro pelo site do jornal britânico "The Times", que por sua vez exige do leitor, um rápido cadastro para ser acessada (assim como as demais notícias). É algo simples de ser feito, mas como muitos não fazem esse cadastro, quando a fonte da informação é o "The Times", as pessoas acabam lendo um conteúdo "adaptado" em sites de tabloides britânicos, que por sua disseminam para o restante do mundo.

Bem, toda essa história de que "cientistas teriam decodificado com a ajuda de um programa encontrado na Deep Web, uma misteriosa carta escrita no século XVII, por uma freira italiana possuída pelo Diabo", no Reino Unido, começou através de uma rápida notícia publicada no dia 7 de setembro pelo site do jornal britânico "The Times", que por sua vez exige do leitor, um rápido cadastro para ser acessada.
Vamos conferir o que foi publicado inicialmente pelo "The Times":

"Uma carta escrita em código por uma freira italiana do século XVII, no qual ela alegava ter sido ditada pelo Diabo, foi decifrada por cientistas ao utilizar um algorítmo de quebra de código após séculos de tentativas em vão. Acredita-se que a freira, Irmã Maria Crocifissa della Concezione, tenha gritado e desmaiado enquanto escrevia cartas no convento de Palma di Montechiaro, que ela disse ter sido o plano ardiloso de Lúcifer para convencê-la a servir o Mal ao invés de Deus.

Foto do Monastério de Palma di Montechiaro, na comuna italiana de Agrigento, na região da Sicília, na Itália
Uma dessas cartas sobreviveu ao tempo, escrita em uma mistura complexa de alfabetos arcaicos, que durante muito tempo desafiou os quebradores de código, até que pesquisadores do Centro de Ciências Ludum, na Sicília, voltassem suas atenções a um algorítimo que eles descobriram na Deep Web.

Foto do que a mídia britânica chamou de "Centro de Ciências Ludum"...
...que na verdade é o "Museu Interativo de Ciências Ludum", ou seja, não é um centro científico, mas um museu voltado ao público infantojuvenil com dezenas de atividades lúdicas envolvendo diversos campos da ciência, tais como a física e a química.
'Ouvimos falar sobre o programa, no qual acreditamos que seja usado por serviços de inteligência com o intuito de quebrar códigos. Preparamos o programa ao adicionar o grego antigo, o árabe, o alfabeto rúnico e o latim para tornar legível alguma parte da carta, e mostrar que isso é realmente demoníaco', disse Daniele Abate, diretor do centro.

A carta, que descreve Deus, Jesus e o Espírito Santo como 'pesos mortos' sarcasticamente afirma que 'Deus pensa que pode libertar os mortais'. É acrescentado que 'esse sistema não funciona para ninguém', e vai ainda mais longe ao alegar que Deus e o Zoroastro foram inventados pelo homem.

'Pessoalmente acredito que a freira tinha um bom domínio de idiomas, o que lhe permitiu inventar o código, e talvez tenha sofrido de uma condição semelhante a esquizofrenia, o que a fez imaginar diálogos com o Diabo', continuou.

Daniele Abate, diretor do Museu de Ciências Ludum
'Isso não impediu inúmeras seitas satânicas interessadas, de entrarem em contato comigo desde que publiquei nossas descobertas', completou."

Agora, vamos conferir o que foi publicado nos tabloides britânicos, pegando como exemplo o texto divulgado pelo "Daily Mail", no dia seguinte (8), que recebeu mais de 9 mil compartilhamentos:

"Uma carta do século XVII escrita por uma freira siciliana, que alegou ter sido possuída por Lucifer, foi finalmente traduzida graças à Deep Web. A carta codificada foi escrita por Maria Crocifissa della Concezione, no convento de Palma di Montechiaro, em 1676, e ela alegou que tinha sido escrita por Satanás usando suas mãos. Cerca de 340 anos depois, um grupo italiano de cientistas da computação desembaralhou o código usando um programa de descriptografia, que ele encontraram na Deep Web, e foi descoberto que a mesma carrega uma mensagem diabólica, descrevendo Deus e Jesus como 'pesos mortos'.

Notícia publicada pelo "Daily Mail", no dia seguinte (8), que recebeu mais de 9 mil compartilhamentos
Irmã Maria Crocifissa della Concezione nasceu como Isabella Tomasi, em 1645, mas foi rebatizada quando entrou no convento beneditino em Palma di Montechiaro com cerca de 15 anos de idade. Em uma manhã de 1676, ela acordou coberta de tinta e com a misteriosa carta a sua frente, dizendo às irmãs que ela tinha sido possuída por Satanás, e que o mesmo a obrigou a escrever uma mensagem.

As freiras acreditaram nela e, por mais que elas - e as gerações de freiras que vieram posteriormente - não tivessem conseguido entender o código, elas mantiveram a carta em exposição no convento. Muitas pessoas tentaram decodificá-la ao longo dos anos, mas ninguém tinha conseguido, ao menos não até agora. Isso porque uma equipe do Centro de Ciências Ludum, em Catania, na Sicília, usou um programa na Deep Web para descriptografar a carta.

Foto mostrando os espaços interativos do Museu de Ciências Ludum
'Ouvimos falar sobre o programa, no qual acreditamos que seja usado por serviços de inteligência com o intuito de quebrar códigos. Preparamos o programa ao adicionar o grego antigo, o árabe, o alfabeto rúnico e o latim para tornar legível alguma parte da carta, e mostrar que isso é realmente demoníaco', disse Daniele Abate, diretor do centro, para o 'The Times'.

A Irmã Maria se tornou uma grande adepta em linguística durante seus anos no convento, e os cientistas acreditam que a carta, na verdade, esteja escrita em um idioma criado por ela - uma miscelânea dos alfabetos que conhecia. Usando essa teoria como base, a equipe adicionou ao programa todo e qualquer idioma, que ela pudesse ter tido contato ao longo do tempo: o Latim, o antigo e o moderno Grego, e até mesmo o idioma do povo Yazidi. Ao identificar caracteres semelhantes, aqueles dos alfabetos que Irmã Maria poderia ter conhecido, os cientistas poderiam começar entender suas palavras. 

O grupo traduziu 15 linhas da carta e descobriu que a mesma discute a relação entre humanos, Deus e Satanás. Eles dizem que a carta é desconexa e não é inteiramente consistente e compreensível. Isso apoia a teoria dos cientistas modernos que, ao invés de ser 'possuída pelo diabo', Irmã Maria sofria de esquizofrenia ou transtorno bipolar.

Daniele Abate realizando experiência perante um público de jovens e adolescentes no Museu de Ciências Ludum
Mais uma foto de Daniele Abate realizando uma série de experimentos
para um publico particularmente de crianças e seus respectivos pais
A carta descreve Deus, Jesus e o Espírito Santo como 'pesos mortos' e diz que 'Deus pensa que pode libertar os mortais.'. Também diz que Deus foi inventado pelo homem, acrescentando que 'esse sistema não funciona para ninguém', Outra frase diz: 'Talvez agora, Estige é certo', em referência ao rio Estige, que separa a Terra e o Submundo na mitologia grega e romana."

Curiosamente, nenhum site publicou uma única imagem sequer da carta inteira, não mostrou a suposta tradução completa da carta, não mencionou qual seria esse programa utilizado, e nem questionou a eficácia do mesmo em termos de descriptografia diante de outros textos e códigos previamente criados e conhecidos pela humanidade (muitos utilizados em guerras ou por civilizações antigas). Será que ninguém testou o programa para ver se ele conseguia descriptografar códigos anteriormente utilizados para avaliar sua precisão e exatidão? Não há respostas para isso nas notícias divulgadas em inglês e em português sobre esse assunto.

As informações disponibilizadas (em inglês e português) foram meramente readaptadas ao longo do caminho, a exemplo do que foi recentemente publicado pelo site do jornal Extra em uma notícia intitulada "Partes de 'carta do diabo' do século XVII são decifradas com ajuda da internet obscura", onde o(a) responsável utilizou trechos do que foi publicado pela mídia internacional, citou Daniele Abate como se fosse mulher, distorceu as frases originalmente publicadas e citou uma publicação no Facebook, que foi traduzida com a ajuda da péssima tradução automática oferecida pela rede social.

A carta apelidada de "Carta do Diabo" (ou uma de suas cópias),
que teria sido escrito pela Irmã Maria Crocifissa della Concezione, em 1676
Enfim, toda essa história gerou uma grande onda de readaptações desenfreadas em sites brasileiros e internacionais de notícias. Se vocês já leram algo nesse sentido, provavelmente já se depararam com essas mesmas informações e tantas outras bem semelhantes. Até mesmo sites destinados a abordar assuntos envolvendo os mais diversos campos da ciência, assim como o "IFLScience", divulgaram esse caso, e com essas mesmas informações (muito embora o IFLScience esteja no mesmo patamar de sites, tais como: Mysterious Universe, Epoch Times, Buzzfeed etc., ou seja, tendem sempre mais a especulação do que uma abordagem séria e comprometida com a informação).

Entretanto, o que será que os italianos divulgaram sobre o caso? Nada melhor do que investigar o que foi publicado na mídia italiana para começar a mostrar a realidade por trás de toda essa história!

Uma Dose de Realidade em Relação a "Carta do Diabo" Supostamente Escrita por uma Freira Siciliana no Século XVII


Conforme era de se esperar, a história da suposta revelação do conteúdo da misteriosa "Carta do Diabo" repercutiu inicialmente e intensamente na mídia italiana, com destaque para o site do jornal "La Stampa", que publicou uma notícia sobre o assunto cerca de dois dias antes do britânico "The Times", no dia 5 de setembro. Posteriormente, outros sites italianos de notícias também abordaram esse mesmo tema.

No texto publicado pelo "La Stampa" foi mencionado que, no dia 11 de agosto de 1676, a Irmã Maria Crocifissa della Concezione teria sido encontrada no chão dos seus aposentos, com metade do rosto manchado com tinta preta, respirando de maneira ofegante, com a pena e o tinteiro sobre os joelhos e uma folha entre as mãos, que teria sido escrita em um alfabeto incompreensível. A carta, segundo o que a freira teria dito para as irmãs, teria sido ditada pessoalmente por Satanás, após uma luta extenuante com um grupo de demônios. Foi a partir disso, que teria começado um mistério, que chegou a levar um antigo jornal italiano, o "La Domenica del Corriere" (impresso entre 1899 e 1989) a fazer um concurso na década de 1960, oferecendo um mês de hospedagem gratuita na comuna de Agrigento para quem conseguisse traduzir a carta.

Conforme era de se esperar, a história da suposta revelação do conteúdo da misteriosa "Carta do Diabo" repercutiu inicialmente e intensamente na mídia italiana, com destaque para o site do jornal "La Stampa", que publicou uma notícia sobre o assunto cerca de dois dias antes do britânico "The Times", no dia 5 de setembro
Assim sendo, foi citado que a carta realmente teria sido decodificada por meio de um programa de descriptografia encontrado na "Deep Web", que por sua vez, segundo Daniele Abate, 49 anos, é um local onde seria possível encontrar de tudo: drogas, prostituição e até mesmo "programas usados por serviços de inteligência para decodificar mensagens secretas". Daniele comentou que a carta não era inteiramente consistente, nem compreensível, mas certamente estava relacionada com Deus e Belzebu. Ele também explicou que o algorítimo primeiramente identificava os caracteres semelhantes e, em seguida, comparava com as caracteres alfabéticos mais parecidos nos mais variados idiomas. Ainda de acordo com Daniele, cada símbolo da carta teria sido bem pensado e estruturado, já sua repetição poderia ter sido uma iniciativa deliberada e, talvez, inconsciente. O estresse da vida enclausurada no monastério era muito intenso, e a Irmã Maria Crocifissa della Concezione poderia ter sofrido de transtorno bipolar, ou seja, sem remédios e diagnósticos psiquiátricos adequados seria possível imaginar que ela acreditasse mesmo, que o demônio estivesse em sua mente.

Brasão da Família Tomasi di Lampedusa
Segundo o "La Stampa", para a Igreja Católica, naquela época, a carta era o resultado da luta contra inúmeros espíritos malignos, que decidiram usar a Irmã Maria Crocifissa, então beata, como um mero objeto ao fazê-la escrever uma mensagem pedindo a Deus para deixar os mortais viverem com seus pecados e parar de ser misericordioso. Aliás, toda essa luta teria sido relatada pela abadessa Maria Serafica (nascida Francesca Tomasi di Lampedusa, irmã de Isabella) após ouvir o relato de sua própria irmã. Tudo o que restou, no entanto, foram as 14 linhas misteriosas (sob custódia do Monastério Palma di Montechiaro, porém uma cópia da mesma é mantida nos Arquivos da Catedral de Agrigento). Ainda deveria haver mais duas mensagens de demônios, porém a freira não teria escrito as tais mensagens.

Aparentemente, a história parece ser verídica, não é mesmo? Porém, o "La Stampa" não fez questão de mencionar, que toda essa história sobre demônios possuindo uma freira, e fazendo-a escrever uma carta, na verdade, é baseada em uma espécie de lenda, que é muito popular na Sicília!

Historicamente, o que realmente se sabe, é que Isabella Tomasi di Lampedusa nasceu em 29 de maio de 1645 na antiga cidade italiana de Girgenti (atual Agrigento) e morreu em 16 de outubro de 1699 em Palma (atual Palma di Montechiaro). Ela era filha de Giulio Tomasi, primeiro príncipe de Lampedusa, e de Rosalia Traina, duquesa de Palma. Ela recebeu sua educação humana e cristã no âmbito de sua família, profundamente marcada pela experiência religiosa do século XVII. A educação religiosa ficou a cargo do seu tio, Carlo Tomasi, um clérigo teatino, que também a preparou para a primeira comunhão recebida em Palermo.  

Conta-se que, desde jovem, ela queria se tornar uma freira. Para atender a esse desejo, seu pai teria fundado o monastério, oferecendo e renovando seu palácio, ainda em construção, para atender às necessidades da vida monástica que se instalaria na nova Terra de Palma. O ato formal da fundação é datado de 6 de junho de 1657 com a concessão das autorizações necessárias pelo Papa Alexandre VII. Dois anos depois, em 12 de junho de 1659, na solenidade de Corpus Christi, o monastério foi entregue à pequena comunidade, que iniciou sua jornada de dedicação total ao Senhor. A condução do monastério, um trabalho delicado nos primeiros anos, foi confiado à irmã da duquesa Rosalia, a Irmã Antonia Traina.

O ato formal da fundação é datado de 6 de junho de 1657,
com a concessão das autorizações necessárias pelo Papa Alexandre VII (na imagem)
Desde o início, no entanto, a vida religiosa de Isabella foi marcada por problemas de saúde e, após três meses de uma vida enclausurada, ela foi forçada a retornar para casa para tentar se recuperar de uma febre intermitente. Somente após um ano, em 7 de outubro de 1660, é que ela conseguiu retornar. Durante o noviciado (período da formação de um religioso ou de uma religiosa que precede a emissão de seus votos) ela mudou seu nome para Irmã Maria Crocifissa della Concezione ("Maria da Cruz da Conceição", em português). A partir desse momento, ela aceitou e compartilhou as mortificações e macerações comuns a todas as freiras. Sua biografia relatou uma vida humilde e de atos de penitências extraordinárias. Sua atitude e suas experiências místicas extraordinárias causaram a desconfiança das autoridades eclesiásticas, que realizaram uma investigação canônica rigorosa para assegurar sua saúde mental e verificar a origem dos fenômenos que faziam parte de sua vida.

Ela teria sido submetida a "métodos desconcertantes", assim como acontecia com demais religiosos, na esperança de provocar uma reação violenta ou outra forma de "orgulho ferido" para deduzir a origem não sobrenatural de eventos místicos. Ao final do processo, a resposta dos examinadores foi positiva, e as experiências de Irmã Maria Crocifissa foram consideradas de origem divina pela Igreja Católica. Entre essas experiências, Irmã Maria Crocifissa dizia que tinha visões de Jesus Cristo, de Nossa Senhora das Dores, de Santa Caterina da Siena, de Santa Rosa da Lima, de seu anjo da guarda, ou seja, visões clássicas que, de vez em quando, eram reportadas naquele período.

Reza a lenda, que Isabella teria vivenciado a Paixão de Cristo, começando na quinta-feira santa de 1678, e passado por todo o sofrimento inerente a Paixão durante 49 horas. Ao final, teria sido deixada uma marca de cruz em seu peito, algo notado pela primeira vez apenas na inspeção de seu corpo após sua morte. Dessa forma, o Monsenhor Francesco Ramirez, que teria estado presente no momento dessa inspeção, quis que a mesma fosse representada com uma cruz no coração.

Dessa forma, o Monsenhor Francesco Ramirez, que teria estado presente no momento dessa inspeção,
quis que a mesma fosse representada com uma cruz no coração
Contudo, entre todas essas experiências que teriam sido vivenciadas por Irmã Maria Crocifissa, duas chamam muito a atenção. A primeira é a de uma pedra que teria ficado suspensa no ar. Reza a lenda, que freiras tinham decidido construir uma capela para a Virgem Maria e cada uma havia preparado uma pedra com seu próprio nome para ser colocada na fundação da mesma. O Diabo, irritado, teria arremessado a pedra em direção a Isabella, que teria sido protegida pela mão abençoada da Santa Caterina da Siena, fazendo com que a pedra ficasse parada em pleno ar. Ainda hoje, essa tal pedra é mantida próxima de onde seus restos mortais são preservados.

O outro episódio, bem mais conhecido na Sicília, é justamente a "Carta do Diabo". Reza a lenda, que o Diabo teria forçado Isabella a escrever uma carta, cujo conteúdo fosse um ato de opressão contra Deus por sua misericórdia excessiva em relação aos pecadores. A única palavra legível seria uma expressão de lamento chamada "Ohimè", que teria sido escrita por Isabella ao se recusar a assinar o documento.

Imagem mostrando o local onde repousam os restos mortais da Irmã Maria Crocifissa,
dentro do Monastério de Palma di Montechiaro
Reza a lenda, que freiras tinham decidido construir uma capela para a Virgem Maria e cada uma havia preparado uma pedra com seu próprio nome para ser colocada na fundação da mesma. O Diabo, irritado, teria arremessado a pedra em direção a Isabella, que teria sido protegida pela mão abençoada da Santa Caterina da Siena. Ainda hoje, essa tal pedra é mantida próxima de onde seus restos mortais são preservados.
A única palavra legível seria uma expressão de lamento chamada "Ohimè",
que teria sido escrita por Isabella ao se recusar a assinar o documento.
Mais uma versão da "Carta do Diabo",
lembrando que a original estaria preservada no Monastério de Palma di Montechiaro
E as histórias sobre ela não param. Reza a lenda, que Irmã Maria Crocifissa durante seus momentos de êxtase conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Uma das histórias que contam é que clérigos e cardeais suspeitavam sobre uma presença periódica de uma mulher misteriosa nos aposentos do Cardeal Giuseppe Maria Tomasi (irmão de Isabella Tomasi) em Roma. Diversas denúncias teriam sido feitas ao Papa que, apesar de não querer acreditar no que ouvia, teria ido pessoalmente verificar a situação. Para seu espanto havia mesmo uma mulher no quarto do cardeal. O Papa teria ficado furioso, exigindo explicações por parte de cardeal, porém a mulher se identificou como sendo a Irmã Maria Crocifissa, conhecida pelo restante do mundo como Isabella Tomasi di Lampedusa.

O Papa teria feito uma pausa e sentido no coração que a mulher falava a verdade, porém ainda assim desconfiava dela. Afinal de contas, como ela poderia chegar em Roma sem ser notada, e ao mesmo tempo ainda estar em Palma di Montechiaro? A mulher não teria dado nenhuma explicação, dizendo apenas que estava tarde e que o sino do refeitório estava soando, ou seja, estava na hora de Isabella fazer sua refeição. O Papa não teria entendido como ela podia escutar o sino há quilômetros de distância, então Isabella teria pedido ao Papa para apoiar seus pés sobre suas sandálias, sendo que o sumo pontífice teria escutado o tal sino, mencionado pela mulher, badalando. Em seguida, no entanto, a mesma teria desaparecido sem deixar nenhum rastro.

Foto mostrando o altar principal do Monastério de Palma di Montechiaro
Reza a lenda, que no jardim do Monastério de Palma di Montechiaro existe um limoeiro, que teria sido plantado pela Irmã Maria Crocifissa, cujo suco desses limões seria a verdadeira razão para a cura de diversos enfermos que até hoje oram a Irmã Maria Crocifissa. Ela foi declarada como "Venerável Serva de Deus" pelo Papa Pio VI, em 15 de agosto de 1797 (o processo de beatificação foi iniciado em 1701). Contudo, o jardim também reserva outras lendas. Reza a lenda que, quando criança, Isabella teria visto as irmãs beneditinas do convento comprando ricota. Inocentemente, ela teria pensado em plantar um pouco da ricota para que brotasse uma árvore de ricota, e as demais irmãs não tivessem necessidade de comprá-la no mercado. Assim sendo, ela teria cavado um pequeno buraco no jardim com suas próprias mãos, colocado um pouco da ricota, coberto o buraco com um pano e ido dormir. No dia seguinte, enquanto ainda dormia, ela teria escutado o grito de felicidade de suas irmãs. Não havia germinado uma árvore, mas o buraco teria amanhecido repleto de ricota, como se tivesse multiplicado.

Por fim, também reza a lenda que havia uma linda oliveira no jardim, no qual Isabella costumava se proteger do Sol em seus momentos de repouso. Porém, no início do século XX, grande parte do jardim acabou sendo expropriado e transformado em praça pública. O único problema é que ninguém queria derrubar a tal árvore. Depois de um longo tempo teria surgido um homem chamado Francesco Caravotta, que resolveu dar o primeiro golpe com um machado. Ao fazer isso, uma lasca da árvore teria atravessado seu olho, o cegando. Acredita-se que a Irmã Maria Crocifissa ainda estivesse no local testemunhando a descrença do homem.

Reza a lenda, que no jardim do Monastério de Palma di Montechiaro existe um limoeiro, que teria sido plantado pela Irmã Maria Crocifissa, cujo suco desses limões seria a verdadeira razão para a cura de diversos enfermos que até hoje oram a Irmã Maria Crocifissa
Entretanto, como vocês puderam perceber, todas essas histórias, incluindo a "Carta do Diabo", principalmente da forma que ela é narrada, não passam de lendas ou relatos muito antigos, que acabaram sendo retransmitidos oralmente com o passar das gerações. Um exemplo claro, que a narrativa sobre a "Carta do Diabo" não passa de uma lenda é o artigo sobre a mesma, chamado "Lettera del Diavolo", na Wikipedia Italiana. Um extenso texto foi adicionado, porém não existe nenhuma fonte que comprove que tudo aconteceu, conforme vem sendo mencionado ao longo dos séculos. Não há nenhum estudo mais aprofundado, visto que o Monastério de Palma di Montechiaro até hoje é um dos poucos monastérios de clausura na Sicília, cujo acesso é praticamente impossível ao cidadão comum.

Resumindo? É muito difícil ter acesso aos documentos e saber o que acontecia, de fato, naquela época, de modo a obter um contexto sólido sobre quem era Isabella, e o que realmente desencadeava suas supostas atitudes. O que existe atualmente é uma crença baseada em uma lenda, não em algo concreto visto que o "documento" (se é que podemos chamar dessa forma, visto que o mesmo poderia fazer parte de algo bem maior e ter sido tirado do seu contexto original) não foi assinado com nenhum nome legível. Podemos identificar apenas a palavra "ohimé", que na verdade é uma expressão de tristeza, piedade ou preocupação. Para efeito prático, esse "Ohimé" poderia ser traduzido como "Ai de mim!", no nosso idioma. Entenderam?

Podemos identificar apenas a palavra "ohimé", que na verdade é uma expressão de tristeza, piedade ou preocupação. Para efeito prático, esse "Ohimé" poderia ser traduzido como "Ai de mim!", no nosso idioma. Entenderam?
Já em relação a suposta tradução da carta realizada pelo que a mídia disse ser o "Centro de Ciências" Ludum (devido ao nome que aparece em sua respectiva página no Facebook), mas que na verdade é o "Museu Interativo de Ciências" Ludum, que é dedicado a apresentar atividade lúdicas envolvendo os mais diversos campos da ciência para um público predominantemente infantojuvenil, existe uma série de problemas, sendo que alguns deles já foram citados anteriormente.

Isso ficou muito evidente em uma publicação do museu, em sua própria conta no Facebook, realizada no dia 12 de setembro, no qual é mencionado que eles tinham realizado esse projeto com todo respeito necessário, partindo da premissa, que a ciência e fé são duas coisas totalmente distintas e descobrir uma "verdade científica" não afetaria a fé das pessoas. Eles também disseram ter avaliado cuidadosamente o conhecimento semântico da escritora (baseado na suposição sobre quais idiomas ela poderia ter tido acesso), e a razão pela qual a mesma teria optado por escrever como meio de expressar sua comunicação. Além disso, eles não teriam ignorado seu "perfil psicológico".

Isso ficou muito evidente em uma publicação do museu, em sua própria conta no Facebook, realizada no dia 12 de setembro, no qual é mencionado que eles tinham realizado esse projeto com todo respeito necessário, partindo da premissa, que a ciência e fé são duas coisas totalmente distintas e descobrir uma "verdade científica" não afetaria a fé das pessoas
Segundo essa espécie de nota publicada pelo museu, muitas pessoas que alegam ter visões místicas, descrevem a experiência de forma bem mais estruturada, projetando partes de si mesmas. No caso de Isabella Tomasi, a lentidão da escrita estava relacionada ao gesto que sua mão traçou na folha de papel, porém seria altamente estruturada e favorecida pela geometria imposta por sinais linguísticos, alinhados lado a lado, e colocados na página em linhas paralelas. O museu citou que não tinham grandes expectativas sobre o resultado, e estavam esperando tirar o máximo proveito das palavras. O trabalho teria sido realizado por três pessoas, cujos nomes e qualificações não foram mencionadas, durante cerca de três meses, porém não de forma contínua. Então, eis o resultado completo:

"VI SIMBOLI CHE IO CHE CLAUSA LIVEGIO SO FONTE UNA DISGRAZIA , FORSE ORMAI CERTO STYGE XY< TLIYI VUODE POICHÈ DIO CRISTO ZOOASTRO , SEGUONO LE VIE ANTICHE O SARTE CUCITE DAGLI UOMINI . HOIMÈ, RISTORAMI. SERVIRE NESSUNO QUESTO È SISTEMA ZAVORRA SONO LE TRE , UN DIO CHE SENTO LIBERARE I MORTALI XI SONO PER QUESTO SEMPRE"

Sinceramente, as frases apontadas não aparentam ter cunho satânico, e apenas alguns trechos fazem algum sentido (porém não totalmente, mesmo em italiano) podendo ser perfeitamente frutos de uma meditação prolongada e um ato de penitência severo. Apesar de não terem chegado a uma conclusão definitiva sobre o que está escrito, eles (o museu) disseram que ficaram satisfeitos por "resolver um enigma centenário". No entanto, ao responder um usuário chamado "Fulvio Piritore", no Facebook, um representante do museu (talvez o próprio Daniele Abate) disse aquilo era o máximo possível a ser feito, ou seja, que não seria possível fazer a transcrição completa da carta. Como é possível alguém dizer que resolveu um enigma supostamente traduzindo apenas algumas partes, e alegando que as demais não fazem sentido? Para justificar o que não conseguiram fazer, o museu supôs que Isabella sofresse de algum transtorno mental.

No entanto, ao responder um usuário chamado "Fulvio Piritore", no Facebook, um representante do museu (talvez o próprio Daniele Abate) disse aquilo era o máximo possível a ser feito, ou seja, que não seria possível fazer a transcrição completa da carta
Ao ser questionado se eles não poderiam fazer o mesmo com o famoso "Manuscrito Voynich", o museu disse que isso seria um grande desafio, porque não se conhece exatamente o autor (detalhe que a "Carta do Diabo" é baseada em uma lenda, mas isso parece ser ignorado) e que, ao menos por enquanto, eles não iriam mais lidar com "escritos diabólicos". Também foi mencionado que o Museu Interativo de Ciências Ludum era financiado apenas com o dinheiro dos visitantes, e que eles não tinham recursos para fazer mais análises. Talvez daqui há alguns anos.

Ao ser questionado se eles não poderiam fazer o mesmo com o famoso "Manuscrito Voynich", o museu disse que isso seria um grande desafio, porque não se conhece exatamente o autor (detalhe que a "Carta do Diabo" é baseada em uma lenda, mas isso parece ser ignorado) e que, ao menos por enquanto, eles não iriam mais lidar com "escritos diabólicos"
Curiosamente, ao ser questionado sobre o nome do programa utilizado, em uma publicação posterior, o museu se limitou a dizer que o programa era "facilmente encontrado na Deep Web" (se recusando mais uma vez a dar o nome), mas que o algorítimo de descriptografia teria sido desenvolvido no laboratório deles (o algorítimo também não foi apresentado).

Curiosamente, ao ser questionado sobre o nome do programa utilizado, em uma publicação posterior, o museu se limitou a dizer que o programa era "facilmente encontrado na Deep Web" (se recusando mais uma vez a dar o nome), mas que o algorítimo de descriptografia teria sido desenvolvido no laboratório deles (o algorítimo também não foi apresentado)
De qualquer forma, o museu não mostrou como foi realizado todo o processo, o equipamento utilizado, o programa, o próprio algorítimo supostamente criado, sua eficácia ao ser aplicado em outros documentos históricos previamente conhecidos etc. Enfim, é muito prematuro considerar que essa realmente seja "tradução completa" da suposta carta escrita pela Isabella Tomasi di Lampedusa durante o seu claustro. O Museu Interativo de Ciências Ludum não possui qualquer tipo de experiência anterior na tradução de documentos criptografados (sendo destinado basicamente a promover a ciência entre crianças e adolescentes), não detalhou a metodologia utilizada (apenas descreveu de forma superficial) e baseou o perfil psicológico de Isabella através do se conta, ou seja, através de lendas e relatos propagados ao longo do tempo, não por meio de um estudo de outros textos escritos por ela, de testemunhos que possam ser corroborados através de uma ampla pesquisa em livros antigos etc.

Tudo o que eles mostraram e divulgaram na imprensa foi uma tradução, que não sabemos "pelo que" e "por quem" foi exatamente traduzido, que não está completa, interpretada sem um contexto mais amplo e a baseada em uma lenda, visto que não há nada, além de relatos (que sempre são subjetivos) que comprovem que Isabella Tomasi di Lampedusa realmente escreveu a carta, a serviço do Diabo, após uma luta contra uma legião de demônios. A iniciativa é válida, é claro, mas não prova absolutamente nada.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://casamalerba.it/es/territory-itineraries-b-b-palma-di-montechiaro-agrigento-sicly/item/32-benedictine-monastery-of-clausura/32-benedictine-monastery-of-clausura.html
http://spazioinwind.libero.it/beatacorbera/beatacorbera1.htm
http://www.105.net/news/tutto-news/237723/lettera-del-diavolo-dopo-oltre-300-anni-un-algoritmo-la-decifra.html
http://www.centrometeoitaliano.it/curiosita/la-lettera-del-diavolo-il-mistero-della-strana-missiva-trovata-in-un-monastero-in-sicilia-21-09-2016-43366/
http://www.corriere.it/la-lettura/16_maggio_18/palma-di-montechiaro-monastero-clausura-mistero-lettera-diavolo-dfc0751a-1cf8-11e6-a8eb-04e4fcf1d7a7.shtml
http://www.dailymail.co.uk/news/article-4864708/Devil-letter-written-posessed-nun-finally-translated.html
http://www.ibtimes.co.uk/devils-letter-written-by-17th-century-possessed-nun-finally-decoded-thanks-dark-web-code-1638490
http://www.ilgiornale.it/news/cronache/400-anni-tradotta-lettera-satana-1437898.html
http://www.ilsussidiario.net/News/Cronaca/2017/9/5/LA-LETTERA-DEL-DIAVOLO-Decifrato-il-misterioso-alfabeto-di-Suor-Maria-Crocifissa/781138/
http://www.lastampa.it/2017/09/05/italia/cronache/cos-un-algoritmo-ha-decifrato-il-mistero-della-lettera-del-diavolo-2q7dQNB58QXgFehMJABugK/pagina.html
http://www.mrdedalus.com/?p=8523
http://www.notizie.it/la-lettera-del-diavolo-decifrata-grazie-ad-un-algoritmo/
http://www.scrivolibero.it/la-lettera-del-diavolo-un-programma-di-decriptazione-svela-il-mistero/
http://www.siciliafan.it/la-lettera-del-diavolo-documento-misterioso-sito-provincia-di-agrigento/
http://www.vivict.it/usi-e-costumi/misteri-di-sicilia-la-lettera-del-diavolo/
https://it.aleteia.org/2017/09/07/mistero-lettera-diavolo-follia-suora-o-dettata-realmente-da-satana-e-seguaci/
https://it.wikipedia.org/wiki/Isabella_Tomasi
https://it.wikipedia.org/wiki/Lettera_del_Diavolo
https://it.wikipedia.org/wiki/Palma_di_Montechiaro
https://www.facebook.com/LudumMuseodellaScienzaCatania/photos/a.328078010645762.76170.327925180661045/1392427020877517/?type=3
https://www.facebook.com/daniele.abate.35?fref=mentions
https://www.rt.com/news/402557-darkweb-decode-nun-devil-letter/
https://www.unilad.co.uk/life/395340/
Comentários