12 de julho de 2017

O Estranho Mundo de Kate Dranfield: A Adolescente Britânica de Apenas 17 Anos, que Acredita ser 120 Pessoas Diferentes!

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Por Marco Faustino

Lembro que nos primeiros meses de existência, o AssombradO costumava fazer vídeos sobre pessoas e suas alegações fantásticas, tal como um senhor chamado Thái Ngoc, que surgiu na mídia entre 2006 e 2008, alegando que estava sem dormir desde 1973, após ter tido febre em uma determinada noite. Aparentemente, esse senhor ainda está vivo, e continua morando no vilarejo de Quế Trung, no Vietnã. Na época, a esposa de Thái Ngoc disse que seu marido tinha ido a cidade de Da nang, a terceira maior cidade do país, para passar por uma consulta médica. O resultado teria sido considerado muito bom, exceto por um pequeno problema no fígado. Diariamente, Thái Ngoc carregava cerca de 50 kg de fertilizante por 4 km em uma estrada, e retornava para sua pequena fazenda onde criava galinhas e porcos. Ele disse ter tentado tomar comprimidos para dormir e até mesmo feito uso da medicina tradicional vietnamita, porém nada ajudou em sua situação, nem mesmo o fez dormir por alguns minutos. Para tentar tirar proveito de alguma forma de sua situação, Thái Ngoc costumava fazer trabalhos extras em sua fazenda ou então a protegia durante a noite para evitar roubos. Ele chegou a dizer que aproveitou 3 meses sem dormir para cavar duas grandes lagoas para criar peixes. Aliás, muitas pessoas pediam para que ele as acordassem para trabalhar, visto que ele mesmo não conseguia dormir, ou seja, ele havia se tornado uma espécie de despertador humano.

Uma das últimas vezes que a imprensa vietnamita falou sobre Thái Ngoc foi em 2015. Nessa época, foi mencionado que sua principal fonte de renda vinha da produção de vinho. Ele processava 5 litros de álcool por dia, e vendia essa quantidade por 25.000 dongs vietnamitas (cerca de R$ 3,50 pela cotação atual e oficial). No entanto, ele teria recusado milhares de dólares oferecidos por canais de TV para filmar sua vida diária, simplesmente porque ele "não gostou da ideia." Ele também recusou o convite de uma equipe de filmagem tailandesa para ir a Tailândia para se tratar, porque ele não achava que sua insônia precisava ser curada. Aliás, ele nunca teria passado um único médico para falar sobre sua insônia. Por fim, foi mencionado que, com 75 anos, todos os dias Thái Ngoc carregava duas pesadas cargas de lenha de uma colina próxima a sua casa. Contudo, se é realmente verdade que esse homem estaria sem dormir até hoje, seria necessário filmar sua rotina diária e verificar se realmente ele fica sem dormir ou cochilar nem que por alguns minutos. De qualquer forma, aparentemente, Thái Ngoc não enriqueceu e nem fez questão de provar o que alegava até hoje.

Nesse sentido, ou seja, de falar sobre pessoas e suas alegações fantásticas, encontrei uma adolescente de 17 anos, chamada Kate Dranfield, que recentemente virou assunto na mídia britânica com uma alegação fantástica: a menina alegava ser 120 pessoas diferentes. Sim, isso mesmo que você leu. Kate teria uma espécie de "transtorno de sonhar acordada", que faria com ela se transformasse de mulher para homem, de transgênero para heterossexual e assim por diante. Seu caso vem causando muita polêmica ao expor uma realidade aparentemente vivida por outras pessoas, mas que poucas teriam a coragem necessária para falar sobre esse assunto. Porém, diante desse caso, muitas outras pessoas passaram a alegar que isso não seria transtorno algum, apenas uma necessidade normal dos adolescentes de chamarem a atenção. Ao pesquisar rapidamente sobre o assunto, encontrei até mesmo vídeos em português sobre esse "transtorno", que teria começado a ser comentado em 2002, mas que até hoje não é uma condição reconhecida oficialmente. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Conheça Kate Dranfield: A Adolescente Britânica que Acredita ser 120 Pessoas Diferentes


Kate Dranfield, estudante, 17 anos, moradora da pequena cidade de Buxton, no condado de Derbyshire, na Inglaterra, alega possuir uma "desordem", na qual 120 personagens diferentes geram suas próprias narrativas em sua mente. Ela disse que entrava em uma espécie de "transe", que poderia durar horas, e ocorrer até 3 vezes ao dia. Os estranho episódios, por assim dizer, podiam ser desencadeados a qualquer momento, especialmente quando estivesse cansada ou estressada.

Os personagens oriundos de sua "imaginação" eram os mais diversos possíveis, desde jovens até idosos, tanto do sexo feminino quanto do sexo masculino, heterossexuais, transgêneros e, estranhamente, a maioria deles tinha sotaque norte-americano. Durante os devaneios, Kate vagava aleatoriamente e suas expressões faciais mudavam involuntariamente. Por vezes, ela chorava compulsivamente ou então ria de forma descontrolada.



Kate Dranfield, estudante, 17 anos, moradora da pequena cidade de Buxton, no condado de Derbyshire, na Inglaterra, alega possuir uma "desordem", na qual 120 personagens diferentes geram suas próprias narrativas em sua mente
A estudante, que também se sente doente caso seus personagens não estejam bem, sofreria de um transtorno conhecido por "maladaptive daydreaming (MDD)" (algo como transtorno de devaneio "excessivo" ou "mal-adaptativo", em uma tradução livre para o português), que ela mesma teria diagnosticado. Contudo, uma vez que essa "desordem" (ou "transtorno") não é reconhecida pelos médicos, Kate, cujos personagens influenciam em sua vida real, não consegue obter nenhum tipo de ajuda nesse sentido.

"Quando eu entro em um devaneio é como entrar em um outro mundo, onde tenho a visão de terceira pessoa. É difícil saber quem está pensando, se sou eu ou os outros personagens. Não consigo controlar quando os episódios acontecem. É realmente frustrante", disse Kate.

"Uma das minhas personagens favoritas, a Jess, coloriu o cabelo dela de vermelho, e acabei gostando, assim sendo decidi fazer no meu também. Outra personagem, a Cathryn me influenciou a furar o meu nariz para colocar um piercing", continuou. Aliás, Kate já acabou fazendo aulas de teatro, curso para fazer bijuterias e até mesmo aulas de redação, devido as suas personagens.

A personagem gótica Cathryn (à esquerda) e Kate (à direita), que, em seus devaneios,
tem uma irmã gêmea chamada Ellie
Uma das personagens chamada Lisa (à esquerda) é descrita por ser extramamente doce, mas Janne (à direita)
é conhecida por fazer observações desagradáveis sobre os outros
Embora ainda não tenha sido reconhecida como uma "condição médica", Kate se autodiagnosticou com "MDD" - uma "desordem" que ela descobriu na internet.

"Algumas pessoas têm intensos devaneios como uma forma de escapismo da vida real. Outros sofrem porque não têm vida social. Acho que estou no meio disso. Embora eu goste do mundo da fantasia, me preocupo com o impacto sobre minha vida real", disse Kate.

Ellie (à esquerda) é a irmã gêmea de uma personagem chamada Natasha, e Archie (à direita)
é um dos personagens mais antigos de Kate
A personagem Katlyn (à esquerda) inspirou Kate a começar a usar vestidos e Amy (à direita) possui um bebê
Kate disse que começou a ter devaneios aos seis anos de idade. Ela disse também que conseguia se lembrar de todos os nomes dos personagens e suas personalidades, e que lutava para fazer amigos no mundo real, visto que as narrativas em sua mente eram incrivelmente detalhadas.

"Uma das personagens, chamada Jade, é uma mulher transgênera, que costumava ser um menino chamado Jason. Ela teve uma vida bem disfuncional, e descobriu que seu tio era o pai dela. Quando isso veio à tona, ou seja, que a mãe de Jade tinha dormido com seu próprio irmão, a mãe de Jade tirou a própria vida. Quando voltei do devaneio, chorei", continuou Kate.

"Outra figura é a Claire. Ela está atualmente em reabilitação devido a um problema com drogas, depois de testemunhar alguém ser baleado. Algumas histórias são muito dramáticas", completou. Aliás, em 2015, Kate vivenciou três transes em um único dia, o que gerou atrasos em sua formação escolar.

Jade (à esquerda) é uma mulher transgênera nos devaneios de Kate,
e Ryan (à direita) tem um bebê com outro personagem chamado Jess
Kate disse que ela é influenciada pelo personagem Claire (à esquerda), que tem um problema com drogas
e não se parece em nada com quem ela realmente é (à direita)
Uma vez que a MDD não é reconhecida pelos médicos, não é possível obter apoio acadêmico em razão das suas constantes faltas e da ausência de capacidade de se concentrar durante as aulas.

"Fico bem chateada quando eu devaneio e acabo me afastando das pessoas, porque elas pensam que estou mal-humorada quando estou em transe. Certa vez, durante uma aula na faculdade, eles tocaram uma música - um grande gatilho para meus episódios de devaneio - e, enquanto conversava com uma garota, entrei em transe. Ela pensou que ela havia dito algo errado, mas eu tinha ido parar em outro mundo. É difícil falar com as pessoas ou fazer amigos", disse Kate.

Kate possui uma camiseta especialmente criada para homenagear os personagens de seus devaneios
Devido à sua falta de interações na vida real, Kate se "relaciona com bonecas falsas." Ela possui 6 "reborn dolls" (que nada mais são do que bonecas que retratam muito bem as feições de um ser humano, e se assemelham e muito, com um bebê de verdade): Reggie, Timothy, Pandora, Alfie, Max e Samantha. Os pais de Kate trabalham praticamente em tempo integral, então ela passa muito tempo sozinha.

Devido à sua falta de interações na vida real, Kate se "relaciona com bonecas falsas." Ela possui 6 "reborn dolls" (que nada mais são do que bonecas que retratam muito bem as feições de um ser humano, e se assemelham e muito, com um bebê de verdade): Reggie, Timothy, Pandora, Alfie, Max e Samantha
"Fico muito sozinha e entro em transes profundos, então as bonecas estão lá quando preciso de um abraço e evitam que entre em devaneio", disse Kate. A mãe de Kate, uma senhora chamada Sheila, enfermeira, 56 anos, no entanto, preocupava-se com os efeitos dessa "condição" na vida de sua filha.

"Kate costumava ouvir música pop quando era criança, pensava que ela estava dançando, mas na verdade ela estava tendo devaneios. Sempre me preocupei com Kate não ter muitos amigos, e eu me preocupo com ela não encontrar ninguém para se estabelecer no futuro. Suas personagens influenciam em sua vida, então quando ela me fala sobre ter problemas com drogas ou narrativas sinistras, isso me deixa em pânico. Estou feliz que ela saiba que elas não são reais", disse Sheila.

A mãe de Kate (à direita), uma senhora chamada Sheila, enfermeira, 56 anos, no entanto,
preocupava-se com os efeitos dessa "condição" na vida de sua filha
Segundo Jayne Bigelson (daqui a pouco falarei melhor sobre ela), uma investigadora sobre MDD, de Nova York, nos Estados Unidos, essa "condição" ainda estava nos estágios iniciais de pesquisa, por isso ainda não se sabia quantas pessoas tinham, as causas ou como prevenir isso. Ainda de acordo com Jayne, a MDD estaria longe de ser uma esquizofrenia, por mais que algumas pessoas confundissem as duas "condições." Além disso, não seriam alucinações, mas devaneios intencionalmente criados.

Jayne Bigelson também explicou, que já tinha se deparado com casos de pessoas que sofriam de MDD, e que tinham sofrido algum trauma ou abuso na infância, ou então tinham alguma espécie de ansiedade social, solidão, depressão e até mesmo autismo. Por outro lado, ela já tinha visto casos de pessoas que tinham uma vida absolutamente normal, e que eram socialmente extrovertidas e possuíam muitos amigos, ou seja, era difícil estabelecer um padrão razoável.

O Que é Realmente o Transtorno de Devaneio "Excessivo" ou "Mal-Adaptativo"? Existem Brasileiros que Passam Pela Mesma Situação?


Uma vez que toda essa história acima foi estruturada e repassada aos tabloides britânicos pela "HotStop Media", uma "agência de notícias" acostumada "comprar histórias", principalmente aquelas com grande apelo emocional e de caráter humano, era necessário saber maiores detalhes sobre essa suposta "condição" comumente chamada de "transtorno de devaneio mal-adaptativo."

Uma espécie de carta aberta sobre esse "transtorno" apareceu na edição de dezembro do ano passado, na revista "The Psychologist", que por sua vez é uma publicação mensal da Sociedade Britânica de Psicologia. No texto escrito por uma mulher chamada Maria Tapu, cuja profissão não foi mencionada, mas que seria uma moradora de uma comunidade litorânea denominada Rhos-on-Sea, no País de Gales, foi mencionado que há 14 anos, perceber que estar apaixonado por obra da sua própria imaginação resultaria na utilização de medicamentos antipsicóticos semelhantes aqueles utilizados para tratar alucinações esquizofrênicas. Embora as pessoas que sofressem desse "transtorno" soubessem que o mundo criado em suas mentes não era real, quando a questão era levada até um consultório médico, muita vezes isso era tratado como se fosse uma psicose ou então subestimada e simplesmente rotulada como se fosse uma "imaginação hiperativa." Segundo Maria Tapu, pouca coisa tinha mudado desde então.

Uma espécie de carta aberta sobre esse "transtorno" apareceu na edição de dezembro do ano passado, na revista "The Psychologist", que por sua vez é uma publicação mensal da Sociedade Britânica de Psicologia
Entretanto, do lado de fora do consultório médico, a situação era muito diferente. Já tinham se passado 14 anos desde o primeiro estudo de Eli Somer sobre o comportamento de dissociação na forma de um vício em relação aos devaneios. A descoberta desse "fenômeno" inspirou blogs, grupos de apoio, páginas do Facebook, canais do YouTube e levou até mesmo a criação de um site chamado "Wild Minds Network", um site de ajuda dedicado a quem sofre desse "transtorno", que seria uma espécie de "forma inadequada de sonhar acordado."

Entretanto, mesmo assim, sem conhecer essa expressão, é virtualmente impossível encontrar esses tais locais, uma vez que os sintomas irão primordialmente apontar para a psicose ou TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Provavelmente, o primeiro contato com esse termo iria surgir apenas como um "tropeço acidental" em uma notícia relacionada com esse conceito, mas não na forma de um diagnóstico clínico.

No texto escrito por uma mulher chamada Maria Tapu, cuja profissão não foi mencionada, mas que seria uma moradora de uma comunidade litorânea denominada Rhos-on-Sea, no País de Gales, foi mencionado que há 14 anos, perceber que estar apaixonado por obra da sua própria imaginação resultaria na utilização de medicamentos antipsicóticos semelhantes aqueles utilizados para tratar alucinações esquizofrênicas
O "transtorno de devaneio mal-adaptativo" ocorreria normalmente como um "mecanismo de enfrentamento", em resposta a um trauma, abuso ou solidão. Aqueles que sofrem com esse "transtorno" criam um mundo interior complexo, que escapam em momentos de angústia, sonhando acordado durante horas. Seria uma espécie de "ciclo vicioso de dependência." A "condição" criaria inevitavelmente um apego emocional aos personagens e à vida criada, que muitas vezes substituiria as dolorosas interações da vida real entre familiares e amigos. Também interferiria nos estudos, no trabalho, no cuidado com a higiene e bem-estar, o que dificultaria ainda mais a realização de tarefas simples do cotidiano.

Segundo Maria Tapu, a diferença entre o devaneio mal-adaptativo e a psicose, é que no primeiro, o indivíduo sabe que seus devaneios não são reais. Sem reconhecimento médico, a "desordem" é tratada como um desequilíbrio bioquímico neural em vez de um sintoma viciante decorrente de um vazio na vida do indivíduo, O problema fundamental não seria abordado. Os devaneios mal-adaptativos não são levados a sério: permanecem presos no tempo à espera de tratamento adequado, para reconhecer que suas mentes não são simplesmente "criativas", mas que essa "criatividade" tem uma mão apertando firmemente ao redor de suas gargantas.

O "transtorno de devaneio mal-adaptativo" ocorreria normalmente como um "mecanismo de enfrentamento", em resposta a um trauma, abuso ou solidão. Aqueles que sofrem com esse "transtorno" criam um mundo interior complexo, que escapam em momentos de angústia, sonhando acordado durante horas
Uma questão ainda permanece, "Por que eu?" O mecanismo exato pelo qual o devaneio mal-adaptativo inibe a capacidade emocional de alguém em permanecer ancorado na realidade continua a ser discutido. Menos nebuloso, no entanto, é o fato de que essa discussão não pode ser estendida sem mais pesquisas e novas mentes interligando ideias em uma amálgama, que eventualmente responderá a essa pergunta. As respostas são necessárias não só para o tratamento, mas também para trazer a paz de espírito para aqueles que acreditam que "sonhar acordado de uma forma inadequada" seja uma sentença de prisão perpétua. No final da carta, Maria Tapu exortou todos aqueles que estivesse lendo, que compartilhassem a carta, que comentassem sobre o devaneio mal-adaptativo, e que realizassem pesquisas sobre o assunto, assim como estamos fazendo. De acordo com Maria Tapu, nesse exato momento alguém estava vivendo de forma isolada, acreditando ser a única pessoa passando por essa situação. Complicado, não é mesmo?

Em janeiro desse ano, o site Broadly publicou uma matéria intitulada "When Does Obsessive Daydreaming Become a Mental Illness?" ("Quando a obsessão em sonhar acordado se torna um transtorno mental?", em português), que contava com uma entrevista com o Dr. Eli Somer, que teria sido o primeiro profissional a descrever essa "condição." Em 2002, o Dr. Eli Somer, professor de psicologia clínica da Universidade de Haifa, em Israel, notou que 6 de um total de 24 vítimas de abuso infantil, que ele estava tratando naquela época, "ocasionalmente aludiram a essa vida secreta, de fantasia e interna que eles viviam." Isso não era algo normal ou comum de uma mente vagando por mera liberalidade. Eram narrativas totalmente reais, minuciosamente detalhadas. As pessoas sonhavam com versões idealizadas de si mesmas: amizades íntimas, fama, romance, resgate e fuga. Quando tocava uma música mais melódica e emotiva, isso acabava ajudando a desencadear e prolongar seus cenários favoritos. O que preocupava Somer, no entanto, não era a intensidade da atividade, nem mesmo o tempo gasto fazendo isso.

Em 2002, o Dr. Eli Somer, professor de psicologia clínica da Universidade de Haifa, em Israel, notou que 6 de um total de 24 vítimas de abuso infantil, que ele estava tratando naquela época, "ocasionalmente aludiram a essa vida secreta, de fantasia e interna que eles viviam."
"A maioria das pessoas sonha. É um fenômeno normal que, assim como qualquer outro fenômeno psiquiátrico, é distribuído ao longo de um espectro de normal a anormal", disse o Dr. Eli Somer. E seus pacientes não apresentavam sinais de psicose ou esquizofrenia. Mesmo no meio do sonho, eles sabiam que aquilo não era real.

Somer ficou preocupado, porque seus pacientes disseram que não conseguiam parar de sonhar acordado. Eles alegaram ser viciados. E, assim como qualquer dependência, gerava prejuízos no cotidiano. Amigos, carreira, relacionamentos amorosos etc. Mesmo que tentassem aparentar que tinham uma vida, a mesma acaba sendo destruída aos poucos. Foi assim que o Dr. Eli Somer escreveu sobre suas descobertas em um estudo, nomeando o comportamento de "Maladaptive Daydreaming" (MD para simplificar), o descrevendo como "uma extensa atividade de fantasia, que substitui a interação humana e/ou interfere no funcionamento acadêmico, interpessoal ou vocacional." O problema é que ninguém da comunidade científica quis saber sobre o assunto, então ele deixou o mesmo de lado. Porém, os emails de pessoas que se identificaram com a condição começaram a chegar.

Somer ficou preocupado, porque seus pacientes disseram que não conseguiam parar de sonhar acordado. Eles alegaram ser viciados. E, assim como qualquer dependência, gerava prejuízos no cotidiano. Amigos, carreira, relacionamentos amorosos etc.
"As pessoas procuravam no Google por 'fantasias intensas' e outras palavras-chave e encontravam meu pequeno artigo. Fui inundado com centenas, e centenas e centenas de emails de todas as partes do mundo, que imploravam: 'Por favor, ajude. Vamos aos nossos médicos, aos nossos psicólogos, mas estamos sendo descartados. Por favor, ajude.", disse o Dr. Eli Somer. Aliás, a matéria também citou o site Wild Minds Network, uma site de ajuda que conta com mais 7.000 participantes que dizem passar por tal "condição".

Isso acabou inspirando pesquisas que ainda estão em andamento. O mais recente estudo incluiu a participação de 447 entrevistados de 45 países diferentes. O mais jovem entrevistado tinha apenas 13 anos, sendo que o mais idoso tinha 78, ou seja, essa seria uma condição que afetaria pessoas de ambos os sexos e de todas as idades. Segundo Somer, a pesquisa ainda é embrionária, mas atualmente eles sabiam que o trauma da infância não era necessariamente um precursor (embora cerca de 1/4 dos casos flertassem com essa relação). Ainda de acordo com Somer, algumas pessoas "provavelmente nasceram com a capacidade de terem sonhos imersivos e vivos, e alguns poucos preferiam seu mundo dos sonhos do que a vida real."

Aliás, a matéria também citou o site Wild Minds Network, uma site de ajuda,
que conta com mais 7.000 participantes que dizem passar por tal "condição".
O mais recente estudo incluiu a participação de 447 entrevistados de 45 países diferentes. O mais jovem entrevistado tinha apenas 13 anos, sendo que o mais idoso tinha 78, ou seja, essa seria uma condição que afetaria pessoas de ambos os sexos e de todas as idades, incluindo brasileiros, tal como é possível ver na imagem acima.
O objetivo a longo prazo do Dr. Eli Somer era ter o "devaneio mal-adaptativo" formalmente reconhecido como um transtorno psiquiátrico no "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" (DSM), que é utilizado por clínicos de todo o mundo para diagnosticar e tratar pacientes de saúde mental.

"Mais profissionais de saúde mental diagnosticariam o transtorno corretamente. Como consequência, mais esforços seriam dedicados por clínicos para explorar possíveis tratamentos. Também abriria a porta para bolsas de estudo, que raramente são oferecidas a distúrbios não oficiais", disse o Dr. Eli Somer. Porém, obter uma nova desordem no DSM, que é controlado pela Associação Americana de Psiquiatria, é uma ciência, em última análise, subjetiva. Até mesmo o Instituto Nacional de Saúde Mental, a maior agência de financiamento do mundo para pesquisas em saúde mental, acusou seu processo de categorização por ser "baseado em um consenso" em vez de uma "avaliação objetiva laboratorial."

O principal obstáculo do caminho de Somer é a posição de seus críticos, que o acusam de desafiar um pecado clínico cardinal: a patologização da atividade mental normal. O Dr. Eric Klinger, professor da Universidade de Minnesota, que estuda a relação entre a propensão da fantasia e a psicopatologia, concordava que, o que Somer identificou poderia ser descrito como "um certo tipo de condição", sendo "digno de atenção clínica." Porém, o Dr. Eric Klinger disse que não gostaria de ver seus colegas criando outra categoria duvidosa sobre "sonhar acordado" para um "indivíduo mal-adaptado."

O Dr. Eric Klinger, professor da Universidade de Minnesota, que estuda a relação entre a propensão da fantasia e a psicopatologia, concordava que, o que Somer identificou poderia ser descrito como "um certo tipo de condição", sendo "digno de atenção clínica." Porém, ele disse que não gostaria de ver seus colegas criando outra categoria duvidosa sobre "sonhar acordado" para um "indivíduo mal-adaptado."
Segundo Klinger, sonhar acordado é provavelmente algo universal entre os seres humanos com cérebros intactos, e ocuparia metade da nossa atividade mental, composta por mais de 2.000 "segmentos" todos os dias e, geralmente se relaciona com um objetivo pessoal, seja algo que possamos perceber ou não. Assim sendo, algumas pessoas se envolveriam mais nessa atividade (ou seja, de sonhar acordado) do que outras. E, algumas pessoas dessa subcategoria, desejam não fazer isso. Por isso, o termo "mal-adaptativo." De acordo com Kingler, isso não a torna uma desordem única, que também apontou para a sobreposição frequente da condição com outros transtornos psiquiátricos, assim como o transtorno depressivo maior e o TOC.

O texto publicado no site "Broadly" também citou Jayne Bigelsen,
uma advogada que havia estudado em Harvard, e que possu um
mestrado em Psicologia
De qualquer forma, segundo o Dr. Eli Somer, nem todos os sonhadores compulsivos têm depressão ou TOC. Assim como nem todas as pessoas com depressão ou TOC, têm fantasias vívidas e incontroláveis. Portanto, essa seria uma característica extremamente singular, que justificaria sua distinção como desordem única.

O texto publicado no site "Broadly" também citou a Jayne Bigelsen, uma advogada que havia estudado em Harvard, e que possui um mestrado em Psicologia. Aliás, Jayne era a única pesquisadora sobre os "devaneios mal-adaptativos", que já havia vivenciado essa "condição."

"Ninguém nunca ouviu falar sobre isso. Para ter uma ideia, hoje recebi um email de um psicólogo dizendo 'uma paciente entrou no meu consultório e disse que ela tinha isso...' Ele nunca tinha ouvido falar disso", disse Jayne Bigelsen.

Aos três ou quatro anos de idade, Jayne costumava andar em círculos durante horas, balançando um pedaço de corda e fantasiando sobre a vida escolar e seus programas de TV favoritos. Então, por volta dos doze ou treze anos, ela disse que perdeu o controle.

Ela cursou Direito, transformando sua vida de fantasia em uma ferramenta de estudo. Seus pensamentos se concentraram no "Hospital Geral", então Bigelsen considerou seus personagens como estudantes de direito. Em 2008, antes de conhecer o Dr. Eli Somer, Jayne Bigelsen persuadiu seu psiquiatra a escrever um estudo sobre o caso dela, depois de se deparar com uma discussão na seção de comentários de um site indiano destinado para pais. As pessoas estavam falando sobre o estresse e a vergonha de esconder suas realidades paralelas, algo que ela se identificou imediatamente.

Aos três ou quatro anos de idade, Jayne costumava andar em círculos durante horas, balançando um pedaço de corda e fantasiando sobre a vida escolar e seus programas de TV favoritos. Então, por volta dos doze ou treze anos, ela disse que perdeu o controle
Alguns anos depois, Jayne Bigelsen passou por um equipamento de ressonância magnética funcional. Um repórter descobriu o estudo sobre o seu caso, realizado pelo seu próprio psiquiatra, e a apresentou para um professor da Universidade de Columbia, que queria observar a atividade cerebral de Jayne enquanto sonhava. Especificamente, as regiões estriadas dorsal e ventral, onde os seres humanos processam e experimentam prazer. O resultado foi impactante, visto que ao sonhar acordada, seu cérebro agia de forma semelhante a um viciado em heroína ao serem mostradas drogas. Atualmente, após procurar por mais informações, Jayne disse que sua condição está estável e sob controle, e que ela sabe quando algo é real ou não. De qualquer forma, a matéria também cita inúmeros casos e pessoas, inclusive adultas, que passam por essa situação diariamente.

Apesar dessa "condição" não ser reconhecida oficialmente, e da discussão em torno de sua validade ser bem ampla, existe uma grande quantidade de material sobre o assunto (em inglês), tanto que daria para fazer um especial sobre esse suposto "transtorno." Resumindo? Seria possível escrever durante horas sobre isso para vocês. Um lado interessante é que existiriam brasileiros, que também passariam diariamente por essa situação, por mais que não tenha encontrado nenhuma notícia brasileira sobre esse assunto, exceto um rápido artigo sobre isso, que foi publicado em 2012, no site da Folha de São Paulo, pelo colunista e psicanalista Contardo Calligaris, que se posicionou contra considerar os devaneios como um "transtorno" ou "doença."

Contardo Calligaris disse que monitorava a ascensão do "transtorno" de devaneio excessivo e "mal-adaptativo", desde a publicação de um texto, em 2002, no periódico "Journal of Contemporary Psychotherapy" (justamente o estudo do Dr. Eli Somer). Contardo disse que, imediatamente, os blogs se multiplicaram, tanto de pessoas se queixando de seus devaneios excessivos como de médicos interessados em registrar o novo transtorno e propor uma cura. Dez anos atrás, o devaneio era considerado como fuga de um provável abuso infantil. Hoje em dia, seria possível ser um sonhador sem ter sido abusado. Pouco tempo depois foi publicada, no periódico "Consciousness and Cognition", uma pesquisa detalhando o sofrimento dos sonhadores compulsivos: blogs e sites teriam feito uma festa. Aprendemos que os sonhadores de olhos abertos sentiam vergonha de sua condição. Eles se escondiam, mas podiam ser identificados porque, sem se dar conta, enquanto sonhavam, eles atuavam seus devaneios em gestos e palavras (ou seja, falavam sozinhos). Enfim, eles precisavam ser ajudados, porque tudo isso levava a ansiedade e a depressão.

Contardo Calligaris disse que monitorava a ascensão do "transtorno" de devaneio excessivo e "mal-adaptativo", desde publicação de um texto, em 2002 no periódico "Journal of Contemporary Psychotherapy", que era justamente o estudo do Dr. Eli Somer
De acordo com Contardo, o devaneio excessivo é o hábito de Dom Quixote, Madame Bovary, dois terços dos adolescentes, quase todos os autores de novelas e romances etc. Transformar esse hábito, tão humano, em "transtorno", seria uma tentativa de regular nossas vidas com a desculpa higienista: tudo nos é imposto para nossa "saúde" e nosso bem. Por fim, Contardo disse que esse ataque contra o devaneio era previsível: qualquer forma de poder prefere limitar os sonhos de seus sujeitos.

Enfim, existem grupos brasileiros no Facebook, que tratam dos tais "devaneios mal-adaptativos" e até mesmo canais de brasileiros que falam sobre esse assunto. Prefiro, nesse primeiro momento, não apontar os grupos e os canais por dois motivos básicos: primeiramente, é muito importante procurar por mais informações e, então, consultar um médico antes de se orientar diante do que é divulgado na internet. Muitas vezes as pessoas citam que estão tomando medicamentos para controlar esses devaneios, e somente isso já seria extremamente arriscado. Em segundo lugar, ainda que essa condição seja eventualmente reconhecida no futuro, atualmente existe um grande rótulo de que devaneios são coisas de pessoas desocupadas, e a quantidade de comentários maliciosos poderia ser muito grande, ou seja, tais grupos e canais, devido a exposição feita por nós poderiam sofrer um impacto muito negativo.

Assim sendo, se você passa por algo semelhante se informe melhor e procure um profissional, um médico de carne e osso, antes de tomar qualquer medida, principalmente aquelas que envolvam a utilização de medicamentos, combinado? Nada de acreditar em soluções milagrosas ou "casos de sucesso" de outras pessoas na internet. De qualquer forma, espero que tenham gostado desse pequeno resumo sobre essa "condição" que, mesmo sem sabermos, pode estar afetando negativamente e prejudicando a vida real de alguém que amamos.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://www.academia.edu/3342105/Maladaptive_Daydreaming_A_Qualitative_Inquiry
http://www.dailymail.co.uk/health/article-4684630/The-girl-thinks-120-different-people.html
http://www.psiquiatria.med.br/perguntas-respostas/tdah-dda-ou-deficit-de-atencao-hiperatividade-em-adultos/como-ter-certeza-se-um-adulto-sofre-de-tdah
http://www.somer.co.il/images/docs/2016_MDS.pdf
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/83440-o-devaneio-e-uma-doenca.shtml
https://broadly.vice.com/en_us/article/d3gpyw/when-does-obsessive-daydreaming-become-a-mental-illness-591ee1167f3107da28bf88f8
https://thepsychologist.bps.org.uk/volume-29/december-2016/maladaptive-daydreaming
https://www.thesun.co.uk/living/3993206/teenager-suffering-daydream-disorder-has-120-different-personalities-all-with-their-own-names-and-outfits/
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