12 de junho de 2017

O Poltergeist de Guyra: Um dos Mais Antigos e Estranhos Casos de Suposta "Atividade Paranormal" do Mundo!


Por Marco Faustino

Desde segunda-feira (5), estou finalmente cumprindo o que havia prometido na semana passada, ou seja, fazer uma semana praticamente fantasmagórica para vocês, algo que há muito tempo não acontecia, uma vez que costumamos variar consideravelmente o nosso conteúdo, para que vocês tenham sempre acesso a um material bem pesquisado, imparcial (quando possível, é claro) e que possam ter a certeza de que serão muito bem informados, sem qualquer tipo de enganação. Aliás, o caso que iremos apresentar a vocês, é algo que de vez em quando na mídia brasileira e internacional. Atualmente, casos assim são interpretados como meras farsas, pessoas querendo chamar a atenção, ganhar dinheiro com a repercussão do caso ou até mesmo conseguir dinheiro relativo a alguma apólice de seguros. Porém, esse caso do início do século XIX, é muito interessante, e vocês logo vão entender o porquê.

Em abril de 1921, a pequena Guyra, uma cidade situada a meio caminho entre Armidale e Glen Innes, na região da Nova Inglaterra, em Nova Gales do Sul (New South Wales, em inglês, o mais populoso estado australiano e o terceiro mais densamente povoado), na Austrália, foi atingida literalmente e aparentemente por um "espírito que atirava pedras". Parece algo comum e que você já viu em outro lugar, não é mesmo? Contudo, a cidade também ficou marcada por uma série de outros acontecimentos "incomuns". Juntamente com os ataques fantasmagóricos, uma mulher idosa, segurando uma batata em cada mão, simplesmente desapareceu sem deixar pistas. Além disso, uma menina de apenas seis anos foi baleada na cabeça pelo seu próprio irmão, e um oficial de polícia foi afastado por estar "abalado" pela "suposta atividade poltergeist". Isso fez com que o mundo voltasse seus olhos para Guyra naquela época, e atraiu a atenção até mesmo de Sir Arthur Conan Doyle, o criador do famoso personagem, que muito provavelmente, vocês devem conhecer: o famoso detetive britânico Sherlock Homes, que até hoje inspira livros, séries e filmes ao redor do mundo.

O "Poltergeist de Guyra" ou o "Fantasma de Guyra" (como ficou mais conhecido) aterrorizou William Bowen, 32 anos, sua esposa chamada Catherine, 47 anos, e os três filhos do casal em sua casa de campo, nos arredores da cidadezinha de Guyra. No entanto, essa é a versão mais contada da história, pois um jornal australiano chamado "The Sunday Times" disse na época, que mais pessoas moravam naquela mesma casa: cerca de 4 adultos e 9 crianças moravam (vamos explicar isso no decorrer da matéria), algo que não é muito mencionado. Entretanto, o foco das atenções se voltou para uma das filhas do casal William e Catherine, que se chamava Minnie Brown, de apenas 12 anos de idade, pois ela teria entrado em contato com os mortos. Essa é uma história que dificilmente você irá encontrar algum conteúdo em português, então fiz questão de trazer esse assunto para vocês acompanharem, e com certeza não irão se arrepender. Assim como o Experimento Bradford, que aliás teve uma repercussão muito boa (leia mais: O Experimento Bradford: O Homem Que Se Matou Para Provar Que Poderia Se Comunicar Com O Mundo dos Vivos), essa é uma daquelas histórias, que quase se perderam no tempo, mas são fascinantes de se conhecer. Esse é um verdadeiro privilégio, que vocês terão direito a partir de agora. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Conheça um Pouco Sobre a Cidade de Guyra, na Austrália


Conforme acabamos de mencionar, a pequena cidade Guyra, fica localizada a meio caminho entre as cidades de Armidale e Glen Innes, na região da Nova Inglaterra, ao norte do Estado de Nova Gales do Sul (New South Wales, em inglês, o mais populoso estado australiano e o terceiro mais densamente povoado), na Austrália.

No passado distante, essa cidadezinha dependia exclusivamente da mineração. Para vocês terem uma ideia, em 1921, estimava-se que havia cerca de apenas 1.000 habitantes. Já segundo o último censo realizado na cidade, no ano de 2011, Guyra registrava uma população de aproximadamente 2.000 habitantes, ou seja, ela nunca teve uma grande projeção nesse quesito.

Conforme acabamos de mencionar, a pequena cidade Guyra, fica localizada a meio caminho entre as cidades de Armidale e Glen Innes, na região da Nova Inglaterra, ao norte do Estado de Nova Gales do Sul
Conforme vocês também poderão ver nos mapas abaixos (o primeiro é interativo), Guyra fica a 38 km ao norte de Armidale, 61 km ao sul de Glen Innes, 60 km ao norte de Uralla, 547 km ao norte de Sidney e, finalmente, está localizada a 786 km ao norte de Canberra, a verdadeira capital da Austrália.



Imagem do Google Maps mostrando a distância entre a cidade de Guyra e Canberra, a capital da Austrália
Hoje em dia, Guyra é uma cidade conhecida por seu Festival do Cordeiro e da Batata, que é realizado no mês de janeiro. As principais indústrias incluem a lã, de cortes selecionados de cordeiros e bovinos, além de diversas plantações de batatas e tomates. Alguns anos atrás havia até mesmo a pretensão de abrir uma grande fazenda para a produção anual de até 12 milhões de kg de tomates, tornando a cidade a produtora de tomate da Austrália.

Foto mostrando o centro da cidade de Guyra durante a estação do Outono
Foto da Igreja Santa Maria dos Anjos, na cidade de Guyra
Como curiosidade, Guyra está localizada ao lado de uma lagoa chamada "Mãe dos Patos", que na verdade faz parte da cratera de um vulcão extinto, que por sua vez faz parte da "Reserva Natural da Lagoa dos Patos"." Nas margens dessa lagoa existe um campo de golfe, áreas destinadas a piqueniques e, inclusive, uma passarela de acesso para uma plataforma de observação.

Como curiosidade, Guyra está localizada ao lado de uma lagoa chamada "Mãe dos Patos", que na verdade faz parte da cratera de um vulcão extinto, que por sua vez faz parte da "Reserva Natural da Lagoa dos Patos"
Nas margens dessa lagoa existe um campo de golfe, áreas destinadas a piqueniques e, inclusive,
uma passarela de acesso para uma plataforma de observação (na foto)
Agora que vocês conhecem um pouco mais sobre a cidade de Guyra, nada melhor do que mostrarmos o que a colocou efetivamente no mapa paranomal e/ou sobrenatural do mundo!

O Início dos Estranhos Fenômenos Ocorridos na Pequena Cidade de Guyra, em 1921: A Idosa que Desapareceu na Plantação de Batata


No início da década de 1920, a cidade de Guyra ficou internacionalmente conhecida por um ilustre "habitante", "alguém" que muitos até hoje chamam de "Fantasma de Guyra", um dos poltergeists mais famosos da Austrália e do mundo. Como se isso não bastasse, logo nos primeiros dias do mês de abril de 1921, uma senhora chamada Doran, uma irlandesa de 87 anos, simplesmente despareceu sob circunstâncias misteriosas. O que poderia se tratar apenas de mais um caso de homicídio, ganharia contornos bem mais estranhos para os padrões daquela época.

Em 5 de abril daquele ano, um trabalhador rural afirmou ter visto a Sra. Doran caminhando, e atravessando uma plantação de batatas, segurando uma batata em cada uma das mãos, que ela disse estar colhendo para a "Ould Oireland" (em inglês arcaico, atualmente significaria "Old Ireland", como era conhecida a Irlanda antes de 1916. Vale lembrar também, que a Austrália teve uma forte influência irlandesa).

"Ould Oireland" (em inglês arcaico, atualmente significaria "Old Ireland", como era conhecida a Irlanda antes de 1916. Vale lembrar também, que a Austrália teve uma forte influência irlandesa)
Guyra é uma cidade conhecida por seu Festival do Cordeiro e da Batata, que é realizado no mês de janeiro
Segundo o relato desse homem, a Sra. Doran subiu até o alto de um morro, ainda segurando as batatas em suas mãos, atravessando-o, até sumir de seu campo de visão. E, acreditem, ela sumiu mesmo. Diversas equipes de buscas vasculharam cada canto da cidade, mas não encontraram nenhum vestígio dela. Simplesmente, ela desapareceu do nada. Contudo, a situação iria ficar bem mais estranha, visto que apenas três dias após esse caso aconteceria outro, porém, dessa vez, de maiores proporções.

O Caso Envolvendo a Família Bowen: A Versão Mais Conhecida do Poltergeist de Guyra


A versão mais amplamente contada, é que no dia 8 de abril de 1921 (daqui a pouco vamos descobrir que essa data pode estar errada), a casa de campo de uma família chamada Bowen foi atacada por pedras que voavam e pareciam se materializar do nada. Elas caíam com força no telhado da casa e podiam ser ouvidas richicoteando na parte externa das paredes. Diga-se de passagem, a casa não ficava tão isolada assim, uma vez que estaria localizada a 800 metros do centro comercial da cidade, porém existe uma certa imprecisão em relação a essa distância exata

A versão mais amplamente contada, é que no dia 8 de abril de 1921, a casa de campo de uma família chamada Bowen foi atacada por pedras que voavam e pareciam se materializar do nada
Durante as três noites seguintes os ataques aumentaram de intensidade. Todas as janelas da casa tinham sido quebradas por pedras, que eram atiradas de fora para dentro, e a permanência da família no local estava ficando praticamente insustentável. A terceira noite talvez tenha sido a mais violenta de todas. Fortes golpes contra as paredes internas do imóvel começaram a ser escutados, aparentemente balançando até mesmo os alicerces da casa, tamanho a força dos impactos.

Nesse ponto as suspeitas recaíam sobre uma das filhas do casal William e Catherine, chamada Minnie Bowen, de apenas 12 anos de idade, uma vez que os golpes contra as paredes acompanhavam Minnie por onde quer que ela fosse dentro da casa. Além disso, diversas pedras quebraram a janela que ficava em seu quarto, sendo que as mesmas caíam em cima de sua cama. A família estava totalmente perplexa e aterrorizada.

Nesse ponto as suspeitas recaíam sobre uma das filhas do casal William e Catherine, chamada Minnie Bowen, de apenas 12 anos de idade, uma vez que os golpes contra as paredes acompanhavam Minnie por onde quer que ela fosse dentro da casa
A polícia local também foi chamada, em uma tentativa de expulsar ou prender quem quer que fosse o que as autoridades acreditavam que fosse a "pessoa", que estava atirando aquelas pedras. Entretanto, não lograram nenhum êxito, uma vez que o suposto "autor do crime" (eventualmente de dano a propriedade particular), e origem das "pedras voadoras" não foram identificados, apesar dos inúmeros esforços por parte dos policiais.

Apesar de toda a colaboração, os moradores locais estavam bem divididos, uma vez que não sabiam se acreditavam que a casa da família Bowen estava sendo "assombrada por algum fantasma" ou se era algum ladrão bem audacioso, que estava planejando fazer com que a família saísse as pressas durante a madrugada, para então poder roubá-los (uma tática que, diga-se de passagem, costumam fazer até hoje, se vocês pararem bem para pensar).

Minnie Bowen, 12 anos (à esquerda) ao lado de seu pai William Bowen, 32 anos (à direita)
O governo do Estado de Nova Gales do Sul, por sua vez, estava bem alarmado devido ao aumento da gravidade da situação, que poderia colocar em risco a vida de outras pessoas na região. E qual seria o motivo para tanta preocupação? Bem, começou a ser amplamente noticiado pela mídia impressa local, que as pessoas passaram a dormir com armas debaixo dos travesseiros, ou seja, revólveres e até mesmo espingardas.

Para tentar acalmar os ânimos, o governo enviou uma equipe de detetives de Sidney, que mantiveram uma vigilância constante da família Bowen. Os detetives interrogaram inúmeros moradores de Guyra e organizaram equipes de até 80 voluntários armados.

Todas as janelas da casa tinham sido quebradas por pedras, que eram atiradas de fora para dentro, e a permanência da família no local estava ficando praticamente insustentável.
Evidentemente, conforme vocês podem imaginar, a família estava bem estressada com tudo que estava se passando, mas sempre se mostrou bem cooperativa, prestando informações e abrindo sua casa para polícia, investigadores, vizinhos e voluntários. Noite após noite, os homens da cidade fizeram uma espécie um cordão de isolamento ao redor da casa, se revezando em dois turnos, e mesmo assim os ataques continuavam. Testemunhas diziam que os sons provenientes da casa eram possíveis de serem escutados até 100 metros de distância. Para aqueles que estavam do lado de fora da casa, os sons pareciam vir de dentro. Porém, para aqueles que estavam dentro da casa, parecia que vinha de fora. Não é nem preciso dizer, que rapidamente a história se espalhou por toda a Austrália.

A Visita de um "Adepto do Espiritismo" Chamado "Ben Davey", uma "Meia-Irmã" Inesperada e Casa de Campo da Família Bowen


Em 13 de abril de 1921, Ben Davey, um estudante de Teosofia e adepto do Espiritismo, morador de uma cidade próxima chamada Uralla, a cerca de 60 km ao sul de Guyra (viu como é importante sempre dar uma olhada no mapa?), chegou até a casa da família Bowen. Ele havia sido chamado pela família, uma vez que havia "se comprometido a resolver o caso por meio do Espiritismo."

Durante sua visita, Ben Davey descobriu que Catherine Bowen, mãe de Minnie, havia dado a luz a uma menina chamada Mary Hodder (mais conhecida como May), que foi fruto de um casamento anterior e, portanto, havia se tornado meia-irmã de Minnie. May, por sua vez, tinha morrido no dia 26 de janeiro de 1921 (uma quarta-feira), aos 21 anos de idade, pouco mais de 2 meses antes dos fenômenos acontecerem. Assim sendo, Ben estava convencido, que o espírito de May era o provável responsável pelas ocorrências misteriosas. Ele chegou a pedir para que Minnie tentasse entrar em contato com o espírito de May, sua meia-irmã.

May, por sua vez, tinha morrido no dia 26 de janeiro de 1921, aos 21 anos de idade, pouco mais de 2 meses antes dos fenômenos acontecerem. A imagem acima mostra o obituário de May Hodder, publicado pelo jornal "The Guyra Argus" de 3 fevereiro de 1921.
Segundo os jornais da época, May Hodder teria morrido por insuficiência cardíaca, um problema que ela já vinha se arrastando há algum tempo, no Hospital de Armidale, 38 km ao sul da cidade de Guyra. May foi enterrada no Cemitério Anglicano de Armidale.

Ben estava convencido, que o espírito de May era o provável responsável pelas ocorrências misteriosas. Ele chegou a pedir para que Minnie tentasse entrar em contato com o espírito de May, sua meia-irmã. A imagem acima mostra o obituário de May Hodder publicado pelo jornal "The Nothern Daily Leader", de 4 de fevereiro de 1921.
Naquela mesma noite (13), Minnie Bowen sentou-se em um quarto bem iluminado, vigiado por dois policiais, que se somavam a um total de 30 pessoas, entre vizinhos, comerciantes locais, fazendeiros e curiosos. No lado de fora, cerca de 50 homens estavam patrulhando os arredores da casa. A situação estava relativamente calma, porém, por volta das 21h, o silêncio foi quebrado por uma batida forte na parede do quarto. A batida teria sido tão forte, que a casa inteira balançou. As mulheres dentro da casa ficaram pálidas e aterrorizadas, mas Minnie permaneceu impassível. Ben Davey pensou imediatamente, que May estava tentando entrar em contato com Minnie.

Confira abaixo a sequência de diálogos que teriam acontecido naquela noite.

Ben: Se houver outra batida, pergunte se é sua irmã, a May.
Minnie: Não posso falar com a minha irmã, ela morreu.

Nesse ponto, Ben tentou persuadir Minnie, dizendo que sua irmã mesmo não podendo falar, poderia bater novamente. Ele nem teria terminado de falar, e mais uma batida teria acontecido. Ben disse ao jornal "The Sunday Times" na época, que ele se arrepiou inteiro, mas continuou tentando convencer Minnie. Após cerca de 5 minutos de conversa, aconteceu a terceira batida. A menina então fez o sinal da cruz e levantou as mãos suplicando: "Se foi mesmo você, May, fale comigo!" Então, Minnie ficou em completo silêncio por um breve momento e, em seguida, começou a chorar.

Ben: May falou com você?
Minnie: Sim, ela falou.
Ben: O que ela disse?
Minnie: Não posso te contar. A mensagem foi para minha mãe.

Notícias publicadas no jornal Tweed Daily, no dia 15 de abril de 1921 (à direita),
e no jornal Young Witness, no dia 16 de abril de 1921(à esquerda)
Assim sendo, Minnie se aproximou e encostou a cabeça no colo de sua mãe, chorando copiosamente. Sua mãe disse: "Bem, diga aos senhores o que ela disse." Minnie teria olhado para as pessoas ao seu redor, e contou sobre a mensagem que ela havia recebido, supostamente de May, sua "meia-irmã":

"Diga a mamãe, que eu estou perfeitamente feliz onde estou, e que suas orações quando eu estava doente me trouxeram onde estou, e me fizeram feliz. Diga a mamãe para não se preocupar, vou protegê-la pelo resto da minha vida", disse Minnie.

A família inteira começou a chorar, e quem presenciou a sessão ficou muito impressionado. Ben Davey e os demais espectadores ficaram na casa por cerca 1h, porém nenhuma outra batida foi escutada. De acordo com o jornal "Sydney Morning Herald" (SMH), de 15 de abril de 1921, "a mãe e outros membros da família foram dolorosamente afetados pelas comunicações estranhas da menina. Seja o que for que tenha sido aquilo, pode ser considerado o mais recente episódio do mistério da menina, que tem desempenhado uma papel principal desde o início, e que certamente merece um estudo de um psicólogo ou investigador científico."

O SMH ainda chegou a apontar que não houve mais perturbações na noite anterior. Isso significava que, ao menos durante as noites de 14 e 15 de abril daquele ano, a família Bowen havia finalmente conseguido dormir um pouco mais tranquila. Afinal de contas, tudo aquilo estava sendo muito desgastante para todos os envolvidos.

A Interessante Notícia Publicada Pelo Jornal "The Sunday Times", em 17 de abril de 1921: O Caso Envolvendo a Família Bowen Seria um Pouco Mais Antigo do que se Pensava!


Na edição do dia 17 de abril de 1921, o jornal "The Sunday Times" publicou uma grande notícia sobre o que estava acontecendo na cidade de Guyra, talvez uma das mais completas sobre o assunto, e que até hoje não é muito aproveitada pelos sites que já trataram sobre este estranho caso. O jornal teria enviado um correspondente para obter em primeira mão a história completa sobre o mistério, que segundo eles mesmos, estava intrigando as pessoas por todo o Estado de Nova Gales do Sul.

A notícia começava dizendo sobre o pânico entre os moradores, que chegavam ao ponto de dormir com armas nas mãos, literalmente dizendo. Essa situação, inclusive, teria começado a gerar vítimas naquela época. Foi mencionado que um comerciante local acabou matando um cavalo, que estava mordiscando suas rosas e até mesmo um cachorro, que estava roubando comida de sua despensa (ou cozinha), supostamente por acreditar, que pudesse ser um ladrão ou até mesmo "o espírito que estava assombrando a casa da família Bowen". Também foi mencionado, que um garotinho teria atirado na cabeça de sua irmã, após ter encontrado uma arma, e achar que era um brinquedo.

Matéria publicada pelo jornal "The Sunday Times", em 17 de abril de 1921
Apesar disso tudo denotar uma grande preocupação, havia um detalhe muito interessante no meio disso tudo. O "The Sunday Times" disse que os incidentes estariam acontecendo desde o dia 1º de abril daquele ano, ou seja, o popular "Dia da Mentira". Por outro lado, é muito difícil ter alguma exatidão em termos de datas, principalmente quando se trata de assuntos como esse, e ainda mais tendo ocorrido no "início" do século passado. Se atualmente é difícil confiar no que é propagado pela imprensa, imaginem como era a situação antigamente. A situação era igualmente caótica, acreditem.

Nesse ponto é interessante destacar que, de acordo com um livro chamado "Australian Poltergeist : The Stone-Throwing Spook of Humpty Doo and Many Other Cases", dos autores Tony Healy e Paul Cropper, que foi lançado em 2014, os ataques teriam realmente começado no dia 1º de abril, uma sexta-feira. No dia seguinte (2), um sábado, dois policiais teriam visitado a casa da família Bowen, e constatado que os vidros das janelas tinham sido quebrados por uma arma calibre 22. Porém, nenhuma cápsula foi encontrada e nenhum morador local ou vizinho reportou ter ouvido o disparo de uma arma. No domingo (3), quatro voluntários e três policiais teriam cercado a casa dos Bowen quando a viram serem atingindas por pedras. Na segunda (4), três policiais e dez vizinhos fizeram vigília, e cerca de 20 pedras foram arremessadas contra a casa.

E a história não para por aí, entre os dias 1º e 7 de abril, mais duas casas próximas também teriam sido atacadas por pedras. Uma delas era do Sr. Hodder Jr., enteado da Sra. Catherine Bowen, do seu primeiro casamento, é claro, e sua família. A outra pertencia a uma família chamada McInne. Assustado com tudo que estava acontecendo, o Sr. Hodder teria deixaod a casa juntamente com sua família e foram morar juntamente com a família Bowen. Portanto, dentro de uma pequena e mesma casa, passaram a morar 4 adultos e 9 crianças. Além disso, outra casa a cerca de 17 km de distância, estranhamente passava pela mesma situação, mas isso foi pouco noticiado na época.

Nesse ponto é interessante destacar que, de acordo com um livro chamado "Australian Poltergeist : The Stone-Throwing Spook of Humpty Doo and Many Other Cases", dos autores Tony Healy (na foto) e Paul Cropper, que foi lançado em 2014, os ataques teriam realmente começado no dia 1º de abril, uma sexta-feira
E a história não para por aí, entre os dias 1º e 7 de abril, mais duas casas próximas também teriam sido atacadas por pedras. Uma delas era do Sr. Hodder, enteado da Sra. Catherine Bowen, do seu primeiro casamento, é claro, e sua família
É importante ressaltar nesse ponto, que somente a data em que os fenômenos começaram a acontecer é que se tornou o maior objeto da discussão, porém todas as outras datas mencionadas nesta matéria estão corretas em relação a ordem cronológica dos fatos. Enfim, voltando a notícia do "The Sunday Times" foi mencionado que os ataques teriam sido retomados na manhã do dia 15 de abril, ou seja, após Ben Davey (aquele adepto do Espiritismo que acabam de mencionar) deixar a cidade de Guyra, e voltar para a cidade onde morava, Uralla.

Eis que naquela mesma manhã, toda a família Bowen e o Sr. Hodder Jr., enteado da Sra. Bowen, teriam ido até plantação de batatas que a família possuía, para que todos pudessem ajudar na colheita, algo que demorou aproximadamente 1h, mas que havia rendido cerca de 20 sacos de batata. Ao retornar para casa, que ficava algumas centenas de metros de distância da plantação, a família notou que algumas ripas de madeira um tanto quanto pesadas, que tinham sido pregadas por cima das janelas, cujos vidros tinham sido quebrados anteriormente, tinham sido destruídos e estavam amontoados na varanda da casa. Juntamente com as ripas de madeira estava uma grande pedra. Estranho, não é mesmo? Isso tudo em plena luz do dia, porém não havia nenhuma testemunha.

O "The Sunday Times" ainda apontou, que moravam na casa não somente um casal e três crianças, como se costuma ser propagado sobre esse caso, mas 4 adultos e 9 crianças. Na casa moravam a família Bowen e família Hodder. Ainda foi mencionado, que outras duas casas próximas a da família também estavam sendo atacadas por pedras. Além disso, outra casa a cerca de 17 km de distância passava pela mesma situação, o que bate exatamente com as informações publicadas no livro, denotando que os autores também acreditam nessa hipótese, que não é tão popular, por assim dizer.

A Visita de um Homem Chamado Harry Jay Moors: Um Amigo de Sir Arthur Conan Doyle, o Criador do Personagem Sherlock Homes 


No dia 18 de abril, juntamente com um contingente policial adicional, que havia sido despachado para Guyra, apareceu um homem chamado Harry Jay Moors, amigo pessoal de Robert Louis Stevenson e Sir Arthur Conan Doyle, que por sua vez ficou mais conhecido ao redor do mundo por ser o criador do personagem Sherlock Homes. H.J. Moors era um comerciante bem sucedido e bem conhecido em toda as ilhas dos Mares do Sul. Entretanto, ele também era conhecido devido ao seu interesse pelo mundo paranormal ou sobrenatural. Ele estava a viajando a negócios em Sidney, mas ficou sabendo sobre os estranhos fenômenos em Guyra, e resolveu esticar sua viagem.

H.J. Moors e seus cinco assistentes foram muito bem recebidos pela família Bowen. Eles montaram armadilhas e criaram postos de observação, mas não conseguiram encontrar nenhuma evidência de fraude. Após passar três dias examinando a casa antes de retornar a Sidney, H.J. Moors ficou absolutamente convencido de que um "poltergeist" era o responsável pelas manifestações em Guyra. Ele deixou a cidade na manhã do dia 21 de abril, uma quinta-feira.

Um dos estabelecimentos comerciais de H.J. Moors em Apia, capital de Samoa (antigamente chamada de Samoa Ocidental)
Harry Jay Moors (à esquerda) e o General George Richardson (à direita) em Vailima, em Samoa
(antigamente chamada de Samoa Ocidental), em 26 de setembro de 1924
Em uma entrevista concedida ao jornal Sydney Morning Herald, e que foi publicada no dia 22 de abril (sexta-feira), foi dito que: "O Sr. Moors ao discutir o assunto ontem (21), disse que os moradores em Guyra estavam fortemente ressentidos após alguns relatos de que eles estavam gostando da situação, devido as vigílias incessantes e os exaustivos esforços para encontrar a origem das pertubações. 

O Sr. Moors contou sobre sua própria experiência em relação a esses esforços incessantes por parte das pessoas, policiais, entre tantos outros voluntários, dizendo que qualquer crítica em relação a eles seria injusta. Ele teve contato com a menina, que o surpreendeu por ser como qualquer outra menina, muito embora sua mãe a tenha descrito como altamente imaginativa."

Naquele mesmo dia, H.J. Moors recebeu um telegrama em Sidney, que havia sido enviado pela  empresa Alex Hay of Hall Bros. Ltd, da cidade de Guyra dizendo: "Nada aconteceu na quarta-feira (20), mas diversas batidas fortes foram ouvidas na última noite. Além de familiares e policiais, um escritor estrangeiro era o único presente. Todos os membros da família foram observados de perto por detetives enquanto as batidas aconteciam, o brilho do luar resplandecia no lado de fora da casa, onde diversos policiais estavam estava posicionados em pontos estratégicos. 

H.J. Moors era amigo pessoal de Sir Arthur Conan Doyle (foto), que por sua vez ficou mais conhecido ao redor do mundo
por ser o criador do personagem Sherlock Homes
Nenhum homem foi visto próximo a casa, nem mesmo as supostas pedras foram encontradas próximas das paredes. O detetive deu uma declaração pública de que ele estava perfeitamente convencido de que nenhum membro da família era o responsável. O mistério se aprofunda. A opinião pública de Guyra favorece de forma esmagadora a sua teoria. Não tenha medo de mencionar meu nome. Também mencione a polícia de Guyra e seus moradores."

Entretanto, aparentemente, essa não era toda a verdade. A equipe policial responsável pelo caso, naquela época, era liderada pelo oficial Hardy e pelo sargento Ridge. Particularmente, para o oficial Hardy, tudo o que estava acontecendo na casa da família Bowen era obra de 5 ou 6 pessoas, que eventualmente queriam roubar a casa. Porém, conforme acabamos de ver essa era uma versão era bem constestada na cidade. Nem mesmo o Sr. Cox, proprietário do terreno onde a família Bowen morava, e que gastou uma quantia considerável para arrumar os prejuízos causados pelo suposto "poltergeist", acreditava nisso. O Sr. Cox nunca sequer cogitou em despejar a família, pelo contrário, sempre foi solidário por acreditar que tudo aquilo era obra do "sobrenatural".

Notícia do SMH, de 26 de abril de 1921,
onde apontava a confissão de Minnie Bowen
Talvez, para o oficial Hardy, fosse uma questão de honra resolver esse mistério, uma vez que ele tinha nascido em Guyra. Porém, na época, Hardy estava trabalhando e morando em Sidney. Quando ele era adolescente, cerca de 15 anos antes dos fenômenos acontecerem na casa da família Bowen, ele teria ajudado a resolver um caso "semelhante", que também havia acontecido na cidade. Vale lembrar nesse ponto, que desde 1845 até os dias de hoje, cerca de 50 casos "semelhantes", já teriam acontecido em território australiano.

Para o espanto de todos, no entanto, alguns dias depois, no dia 26 de abril, foi publicado no jornal "The Sydney Morning Herald", que Minnie havia confessado a autoria dos ataques para a polícia, cerca dois dias antes (24), após um respeitado fazendeiro, chamado apenas de Sr. Starr, tê-la visto arremessando pedras contra sua própria casa. Inicialmente, ela negou as acusações, mas quando confrontada perante o Sr. Starr, ela então teria confessado sua culpa. Assim sendo, talvez,  uma vez que estava sendo pressionada, Minnie acabou dizendo que tinha sido a responsável por ter atirado pedras e bater nas paredes, enquanto ela não estava sendo observada. Esse ponto é um tanto quanto obscuro.

As notícias publicadas pelo jornal "The Maitland Daily Mercury", em 26 de abril de 1921 (à esquerda), pelo jornal "The Express and Telegraph", em 26 de abril de 1921 (canto superior direito), e pelo jornal "Kalgoorlie Miner", em 27 de abril de 1921 (canto inferior direito)
Por outro lado, Minnie admitiu que ela tinha batido apenas três vezes nas paredes "por brincadeira", e tinha jogado somente duas pedras no telhado para "assustar sua cunhada." Para a polícia, no entanto, isso foi o suficiente para considerar o fenômeno como uma farsa. O problema maior é que muitos moradores não acreditavam nessa versão da polícia, porque isso não explicava os fenômenos enquanto Minnie estava sendo fortemente vigiada em seu quarto. Essa opinião também era compartilhada pelo Sr. Cox.

Notícia do SMH, de 30 de abril de 1921. Apesar da
confissão de Minnie, ninguém explicou as batidas
nas paredes enquanto estava sendo vigiada
Algumas noites depois, quando a parte exterior da casa passou a ser constantemente iluminada, duas grandes pedras atingiram uma parede, onde um policial estava parado. Esse sargento da polícia local, que tinha mantido vigília na casa do Bowen ao longo de muitas noites, e que tinha enfrentado o ataque constante da pedras, não aguentou a pressão piscológica pela qual ele e muitos colegas estavam passando. Foi ordenado que ele viajasse para fora de Guyra, para que pudesse "descansar."

Conforme dissemos anteriormente, com medo de toda aquela situação, muitos decidiram dormir bem próximos das suas próprias armas. Isso, de fato, era o prefácio de um verdadeiro caos. No dia 30 de abril de 1921, o jornal "The Sydney Morning Herald" forneceu maiores detalhes sobre o incidente anteriormente reportado pelo "The Sunday Times."

O SMH publicou que um menino de apenas 5 anos de idade se deparou com um revólver em cima da mesa de cabeceira do pai, um comerciante que morava próximo da estação ferroviária de Guyra. Outras versões, no entanto, apontavam que a mãe do menino teria colocado a arma debaixo do travesseiro. O menino acreditou que a arma fosse apenas um brinquedo e, com a arma em punho, ele foi até a sua irmã de apenas 6 anos de idade, mirou em sua cabeça e atirou. Por incrível que pareça ela sobreviveu, mas foi os médicos decidiram não remover a bala em seu crânio, visto que estava alojada em uma região, que poderia colocar em risco a vida da menina.

Apesar de não termos a data exata de quando isso realmente aconteceu, acreditamos que tenha ocorrido entre o dia 1º e 17 de abril de 1921. Resumindo, a cidade estava extremamente nervosa com tudo aquilo que estava acontecendo. Após a suposta confissão de Minnie, o clima ficou ainda mais tenso, uma vez que muitos não acreditavam na versão da polícia, e outros consideravam que a mentira contada por Minnie havia gerado todos aqueles problemas em suas vidas, outrora tranquilas.

Os Ataques Atribuídos ao "Poltergeist de Guyra" Continuaram na Casa da Avó de Minnie Bowen, na Cidade de Glen Innes


Buscando proteger a sua filha, devido a revolta de uma parte da população local, Catherine Bowen mandou Minnie para casa de sua avó, que se chamava Minnie Shelton, na cidade vizinha de Glen Innes, que por sua vez fica a 60 km ao norte de Guyra. Milagrosamente, a vida em Guyra voltou ao normal. Nenhuma outra pedra caiu sobre sobre o telhado ou foi arremessada contra as paredes da casa de campo da família Bowen. Nenhuma outra batida foi ouvida em suas paredes. Os policiais locais finalmente respiravam aliviados por não terem mais que lidar com toda aquela situação.

Antiga casa de Minnie Shelton, avó de Minnie Bowen, localizada na rua de Igreja, na cidade de Glen Innes
Entretanto, o suposto poltergeist de Guyra parecia que não tinha descansado. No dia 9 ou 10 de maio daquele ano (existe uma certa imprecisão nesse ponto), na casa da avó de Minnie, localizada na rua da Igreja, em Glen Innes, o suposto "poltergeist" atacou novamente. Pouco depois do jantar, pedras foram ouvidas batendo nas paredes externas da casa. Sem dúvida alguma, os vizinhos já tinham lido sobre o assunto, que havia acontecido na cidade vizinha. Então, eles saíram de suas casas para procurar por "pistas de quem teria atirado as pedras". A polícia também foi chamada.

Notícia do SMH publicada em 11 de maio de 1921,
sobre os ataques a casa da avó de Minnie Bowen
Enquanto uma legião de policiais e vizinhos se aglomeravam ao redor da casa, uma pedra atravessou o vidro uma das janelas, quebrando-o e ficou presa na cortina. Apesar de Minnie ter ficado o tempo todo dentro da casa, a polícia de Glen Innes concluiu, que ela teve participação quando a janela foi quebrada, e logo voltaram para o posto policial, abandonando o local.

O problema é que as pedras continuaram sendo arremessadas até por volta da meia-noite, sendo intercalado somente por fortes batidas nas paredes. Minnie estava sendo cuidadosamente vigiada por um vizinho chamado Sr. Marden, que deu uma declaração para o jornal "The Sydney Morning Herald", de 11 de maio de 1921, dizendo que "os barulhos eram como os sons causados por um machado, como se estivesse sendo golpeado fortemente contra a parede".

Os moradores de uma casa próxima, que pertencia a família McKillop, e que ficava a poucos metros de distância da casa da avó de Minnie, também tinham escutado os estranhos barulhos. Outros vizinhos que já conheciam mais ou menos a história, após ouvirem as batidas contra as paredes da casa onde Minnie estava, ameaçaram deixar a cidade caso esses acontecimentos "bizarros" continuassem.

Curiosamente, pelo que foi noticiado na época, os fenômenos continuaram até o início de agosto de 1921, quando devido a inúmeras reclamações de vizinhos e moradores da cidade, a avó de Minnie foi informada que a neta deveria deixar a cidade devido ao transtorno que estava causando. Minnie se mudou novamente para sua casa de campo em Guyra, e após essa nova mudança, os ataques pararam de acontecer. Aparentemente o "Poltergeist de Guyra" havia finalmente descansado em paz.

Especificamente em relação ao chamado "Poltergeist de Guyra", pouco se comentou posteriormente. O jornal "The Sidney Morning Herald" voltaria a tocar no assunto por volta de março de 1954, apenas para recontar o que teria acontecido naquela época, um tanto quanto turbulenta, na cidade de Guyra.

Notícia do jornal "The Sydney Morning Herald" de 9 de março de 1954, recontando os acontecimentos na cidade de Guyra, em 1921
Aliás, vocês sabiam que teria sido realizado um filme sobre esse assunto, e que a família Bowen teria participado do mesmo? O nome seria "The Guyra Ghost Mystery" e teria sido lançado em 25 de junho de 1921. O roteirista e diretor do filme teria sido um homem chamado John Cosgrove. Porém, infelizmente, esse é um filme considerado perdido até hoje.

Cartaz do filme "The Guyra Ghost Mystery" (à esquerda), que teria sido lançado em 25 de junho de 1921.
O roteirista e diretor do filme teria sido um homem chamado John Cosgrove (à direita)


Quem sabe um dia não encontrem uma cópia em bom estado? Apesar de ser uma possibilidade bem remota, é sempre bom ter esperança em possivelmente recuperar um material, que com certeza seria interessante.

Outro Caso de Suposto "Poltergeist" Repercutiu na Austrália, em 1921: O Possível Autor dos Acontecimentos em Guyra?


No final de outubro de 1921, uma ocorrência semelhante começou a acontecer na rua Trafalgar, no subúrbio de Wooloongabba, em Brisbane, na Austrália. Pedras simplesmente estavam caindo sobre os telhados de algumas casas, e não demorou muito para que a polícia local fosse chamada. Cerca de quatro policiais foram destacados para esse caso, e foram orientados a percorrer as ruas do bairro no período entre às 18h e meia-noite, na esperança que o caso fosse evidentemente solucionado.

Imagem do Google Maps mostrando a distância da cidade de Guyra até a cidade de Brisbane, mais precisamente a rua Trafalgar
No final de novembro, mesmo com a ajuda de moradores locais, todos se questionavam se o "poltergeist" de Brisbane não iria parar de agir. Contudo, uma reviravolta aconteceria no dia 25 de novembro, quando a polícia local, durante uma ronda noturna, flagrou Joseph Frederick Cook, de 22 anos, dono de uma mercearia na região, arremessando uma pedra em direção a uma das casas. Imediatamente após ouvir uma das janelas quebrarem, a polícia abordou Cook, que negou qualquer participação no incidente. Ele confessou somente após ter sido levado preso.

Ironicamente, Cook havia se queixado para a polícia, que sua casa havia sido apedrejada algumas semanas antes, e ainda por cima tinha ajudado os policiais durante suas rondas noturnas. Em sua defesa perante o Tribunal de Justiça, que por sua vez tinha conhecimento de tudo que havia acontecido meses atrás em Guyra, Cook alegou que era culpado apenas por uma parte dos acontecimentos, relacionado as últimas três semanas, em Brisbane. Ele acabou sendo condenado a pagar uma multa de £10 devido a duas janelas quebradas e foi liberado em seguida. Após isso, nunca mais nenhum morador teve sua casa alvejada por pedras.

O Destino de Minnie Bowen, as Controvérsias em Relação ao "Poltergeist de Guyra" e as Novas Informações Sobre o Caso


Não se sabe muita coisa sobre a vida de Minnie Bowen após aquela época. O que se sabe atualmente é que ela cresceu, se casou e se tornou a Sra. Inks. Ela se mudou para a cidade vizinha de Armidale, e depois disso raramente se tocou no assunto sobre o "Poltegeist de Guyra". Pelo que se sabe, no final da década de 1980, por volta de 1988 ou 1989, ela estava atravessando a Estrada Grafton quando foi atropelada e morta por um carro que passava. Alguns relatos apontam até mesmo que ela teria sido decapitada devido ao acidente. Um triste final, sem dúvida alguma.

As duas casas envolvidas no mistério ainda existem, muito embora ambas tenham sido reformadas, devido, é claro, a ação do tempo. Os atuais moradores, de ambas as casas, nunca ouviram ou sentiram nenhuma presença fantasmagórica. Se havia algo pertubando algumas dessas casas, atualmente não existe mais nada.

Foto recente da casa, que um dia pertenceu a família Bowen
Hoje em dia é difícil encontrar qualquer morador em Guyra, que saiba alguma coisa sobre a história, que fez com que a cidadezinha se tornasse o centro mundial das atenções há cerca de 96 anos. A atitude da população da cidade em relação ao "poltegeist" parece ter sido manchadas pela vergonha, e parecem conformados com algumas explicações sobre o episódio, que não fazem muito sentido. Para vocês terem uma ideia, uma dessas explicações que surgiram na época, é que as pedras estavam sendo atiradas por meio de um estilingue gigante do alto de uma colina. Aliás, essa era umas das explicações dadas em diversos países, que tinham registrado fenômenos semelhantes. Nem mesmo a Sociedade Histórica de Guyra faz questão de guardar qualquer tipo de material sobre o incidente.

Um historiador da cidade de Glen Innes, chamado Colin Newsome, disse que ouviu duas histórias diferentes sobre a morte de May Hodder, a meia-irmã de Minnie. Uma das versões dizia que ela tinha morrido por complicações devido a um aborto realizado em condições precárias. A outra contava que a jovem - grávida e solteira - se jogou em um poço e se afogou. Sendo verdadeira qualquer uma dessas histórias, não seria difícil imaginar que o espírito inquieto de May, completamente irritado, batendo e atirando pedras nas paredes da casa da família, que talvez, não a tenha apoiado no momento que mais precisava.

Hoje em dia é difícil encontrar qualquer morador em Guyra, que saiba alguma coisa sobre a história, que fez com que a cidadezinha se tornasse o centro mundial das atenções há cerca de 96 anos
A atitude da população da cidade em relação ao "poltegeist" parece ter sido manchadas pela vergonha, e parecem conformados com algumas explicações sobre o episódio, que não fazem muito sentido
Por outro lado, esse ressentimento não faria sentido diante do tom amoroso da mensagem, que teria sido transmitida por May, através de Minnie. Além disso, conforme mencionamos anteriormente, o jornal "Guyra Argus", de 3 de fevereiro de 1921, noticiou que Mary (May) Hodder havia morrido no Hospital de Armidale, devido a um problema cardíaco, que ela já vinha sofrendo há algum tempo.

Um artigo publicado no jornal "The Sydney Morning Herald" descrevia Minnie como sendo "uma garota magra, sombria, com um rosto impassível, pouco inteligente, academicamente falando, por estar atrasada em relação a sua idade escolar". Uma impressão semelhante teve um jornalista do "The Sunday Times", que a considerou como sendo uma menina "um pouco estranha", dizendo que: "Minnie é alta, magra, e sombria. Tem um olhar particularmente sombrio e introspectivo, que parece não perder um só movimento em um cômodo. Quando ela fala com você, ela nunca sorri, e parece olhar além ou através de você... Ela tem uma aptidão bem estranha para antecipar perguntas, praticamente antes de serem feitas."

Imagem do Google Maps, do ano de 2013, mostrando a rua Bradley,
a principal rua de comércio da cidade de Guyra
Minnie teria sido uma jovem capaz de engendrar um audacioso plano para enganar sua família, vizinhos e até mesmo a polícia durante semanas ou ela simplesmente disse a polícia o que eles queriam ouvir quando foi interrogada? Mesmo após a sua confissão os ataques continuaram, fazendo até mesmo com que seu pai, em uma certa noite, saísse correndo de dentro de casa e disparasse diversos tiros a esmo em meio a escuridão. Caso complicado, não é mesmo?

Cerca de dois anos atrás (2015), foi publicada uma matéria sobre o "Poltergeist de Guyra" no tabloide britânico "Daily Mail" onde Paul Cropper e Tony Healy, os autores do livro chamado "Australian Poltergeist : The Stone-Throwing Spook of Humpty Doo and Many Other Cases" comentaram sobre esse caso. Aliás, eles acrescentaram alguns detalhes, que até então ninguém havia comentado.

"Uma criança ou adolescente muitas vezes é o foco de toda atividade poltergeist, e geralmente é uma menina. Nos casos mais recentes que temos visto, e que temos a oportunidade de entrevistar, a criança está sob um estresse intenso, e de alguma forma o fenômeno é desencadeado. Há alguns espíritos maliciosos e desencarnados, que podem gerar uma atividade física através da canalização ao se aproveitarem da angústia da criança. Nesse caso, Minnie era o alvo", disse Tony Healy.

Paul Cropper e Tony Healy, autores de um livro chamado
"Australian Poltergeist : The Stone-Throwing Spook of Humpty Doo and Many Other Cases"
O que não tinha sido citado até então, é que May Hodder havia deixado um filho de 1 ano e 6 meses, chamado Clifford Hodder aos cuidados de sua meia-irmã, justamente Minnie Bowen. A identidade do pai da criança nunca foi revelada. May Hodder era uma mulher solteira, havia dado a luz a um filho e não era casada. Naquela época, isso era algo "impensável", socialmente dizendo (em algumas cidades do Brasil isso é "impensável" até hoje, infelizmente), para as mulheres, que eram amplamente discriminadas. Sem contar, é claro, a diferença de idade entre William (32) e Catherine (47), que tornava impossível aos olhos de outros moradores, de ser pai de May Hodder (21), visto que não havia muita especulação sobre a paternidade de May entre os moradores locais. Atualmente sabemos que era fruto de outro casamento, mas na época havia muitas dúvidas sobre isso.

A única coisa que mantinha a "integridade moral" de William perante a socidade, é que ele trabalhava na época no Conselho da Comarca de Guyra. Portanto, toda essa instabilidade familiar teria colaborado para o estresse de Minnie, uma vez que os comentários maliciosos dos moradores sobre a família Bowen eram inevitáveis, algo que poderia ter resultado em uma suposta "atividade poltergeist."

Por mais incrível que pareça, Paul Cropper e Tony Healy conseguiram contato com Diana Brady, filha de Clifford Hodder, ou seja, neta de May Hodder, meia-irmã de Minnie Bowen. Ela disse que seu pai algumas vezes se referia a Minnie como se ela tivesse poderes psíquicos. Pelo que seu pai contava para ela, uma pessoa poderia se sentar ao lado de Minnie, e ela fazia com que o piano tocasse sozinho ou simplesmente ela levantava uma cadeira do outro lado da sala sem tocá-la. Ele também dizia que Minnie tinha um olhar muito estranho, sombrio e incompreensível. Uma outra meia-irmã de Minnie, chamada Ellen, a última pessoa sobrevivente daquela geração, teria dito para Diana que Minnie, quando adulta, tinha capacidades telecinéticas. Segundo Ellen, ela tinha a capacidade de mover móveis e levantar objetos sem tocá-los. Entretanto, nem Paul, nem Tony conseguiram conversar com Ellen, uma senhora de 97 anos, em 2010, justamente na época em que eles estavam começando a escrever o livro. Segundo eles, Ellen desligou o telefone quando eles tocaram no assunto. Algo que com certeza ainda deixava profundas marcas em Guyra.

Comentários Finais


Essa é uma história fascinante, considerando que ocorreu no ano de 1921, e ao mesmo tempo parece ser tão atual, não é mesmo? Contudo, algumas coisas sobre o caso ainda chamam a atenção, mesmo quase após um século. Apesar de mais de 80 pessoas estarem vigiando os arredores da residência da família Bowen, ninguém foi capaz de identificar quem estava atirando as tais pedras. Nesse sentido, alguns jornais da época e a própria polícia local tentaram atribuir a responsabilidade a "pessoas simpatizantes de espíritos, que estavam infiltrados no meio dos voluntários". De qualquer forma, a maioria dos apedrejamentos ocorreram em noites muito escuras, onde a visibilidade era bem ruim, uma vez que eles estavam em uma zona rural e, para os padrões de locomoção da época, estavam relativamente distantes da centro comercial de Guyra. Além disso, nunca foi reportado que alguém tivesse visto algum objeto levitando dentro da casa ou alguma pedra caindo dentro da casa.

Entretanto, todos que conversavam com Minnie, apesar de seu olhar tido como sombrio, relatavam que a menina era sincera, sendo bem difícil acreditar que ela inventaria toda aquela história, principalmente quando supostamente teria entrado em contato com sua irmã falecida. Mesmo sendo observada o tempo todo, assim como sua casa sendo vigiada em todo o perímetro externo, diversos golpes foram desferidos contra as paredes. Isso sem mencionar, é claro, que outras casas também estavam sendo apedrejadas. Seria mesmo um fantasma ou poltergeist? Se fossem realmente vândalos ou ladrões, porque a casa da família, assim como a de vizinhos voltou ao normal quando Minnie foi para a casa da avó? Desistiram de roubar a casa? Será que o poltergeist acompanhou a menina e por isso os incidentes se repetiram em Glen Innes ou então Minnie simplesmente armou toda aquela situação, e continuou fazendo sua "brincadeira" na casa da avó, porque não suportava o lugar? Por qual razão tudo voltou ao normal quando Minnie retornou para Guyra? Será que Minnie aprendeu a lição e resolveu parar com o "brincadeira"? Aliás, o que a família iria ganhar com isso, exceto problemas?

Ao pesquisar um pouco mais sobre o filme "The Guyra Ghost Mystery", que foi lançado em 25 de junho de 1921, e dirigido por homem chamado John Cosgrove, o mesmo teria sido baseado nos "fenômenos ocorridos em Guyra", e teria sido gravado na parte interna e externa da casa da família Bowen, porém foi considerado muito ruim, e teve uma bilheteria muito baixa. Cada cópia do filme parece ter desaparecido no tempo, uma vez que até hoje é considerado um filme perdido. Enfim, nem mesmo benefícios financeiros a família teve. Por outro lado, o final do século XIX e início do século XX foram muito rentáveis para todos aqueles que diziam poder se comunicar com os mortos. Será que a família achava que poderia obter vantagens financeiras ou Minnie, estressada com toda aquela situação, queria se ver livre de tanta gente em sua casa? Enfim, para muitos, mediante a confissão de Minnie, o fantasma ou o poltergeist de Guyra foi apenas mais uma das farsas paranormais do início do século XX, porém para tantos outros, devido a tantos outros fatores, esse mistério nunca foi solucionado. A polícia pode ter, eventualmente solucionado o mistério, mas assim como sabemos, em termos históricos, esse caso é extremamente importante, porque ele é quase um prelúdio do que vemos hoje: um mundo de fortes crenças inserido em farsas monumentais ou vice-versa.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
Livro "Australian Poltergeist : The Stone-Throwing Spook of Humpty Doo and Many Other Cases" de Paul Cropper e Tony Healy

http://archive.randi.org/site/index.php/swift-blog/2200-the-guyra-ghost.html
http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2014/06/casa-e-demolida-apos-exorcismo-e-fenomenos-incomuns-no-rs.html
http://hauntsofbrisbane.blogspot.com.br/2012/05/guyra-ghost-australias-very-own.html
http://lostmedia.wikia.com/wiki/The_Guyra_Ghost_Mystery_(Lost_1921_Australian_Film)

https://natlib.govt.nz/records/22380717?search%5Bpath%5D=items&search%5Btext%5D=Harry+Jay+Moors
http://trove.nla.gov.au/newspaper/result?q=guyra+ghost
http://weirdaustralia.com/2011/10/22/poltergeist-rocks-town-the-stone-throwing-ghost-of-guyra/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-3296252/The-supernatural-attacks-12-year-old-girl-severe-police-forced-surround-country-home-Australia-s-terrifying-haunting-baffled-investigators-1921.html
http://www.poltergeistfile.com/Poltergeist/Guyra_Ghost.html
http://www.travellingtype.com/australian-mysteries-guyra-disturbance/
http://www.unexplainedaustralia.com/e107_plugins/content/content.php?content.22
http://www.wikitree.com/wiki/Space:The_Guyra_Ghost
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