16 de junho de 2017

Dissolvendo os Mortos: Conheça o Estranho e Polêmico Método que Pretende Acabar com os Enterros e as Cremações no Mundo!

Por Marco Faustino

Nesse feriado de Corpus Christi resolvi trazer um assunto ao conhecimento de vocês, que provavelmente vocês nunca ouviram falar e que, na verdade, era para eu ter comentado sobre isso no fim do mês passado, porém em razão de inúmeros fatores, isso não foi possível. Vale ressaltar nesse ponto, que Corpus Christi significa Corpo de Cristo. É uma festa religiosa da Igreja Católica, que tem por objetivo celebrar o mistério da Eucaristia, basicamente o sacramento do corpo de Jesus Cristo. Assim sendo, as festividades de Corpus Christi acontecem sempre 60 dias após do Domingo de Páscoa ou na quinta-feira seguinte ao domingo da Santíssima Trindade, em alusão à quinta-feira santa, quando Jesus instituiu o sacramento da Eucaristia. Durante as festividades são celebradas missas e as ruas são enfeitadas com extensos tapetes de areia colorida para a passagem da procissão, que geralmente é conduzida pelo bispo, ou pelo pároco da Igreja, o Santíssimo Sacramento, que é acompanhada por multidões de fiéis em praticamente toda e qualquer cidade do nosso país. Aliás, o assunto que abordaremos nessa postagem também mexe um pouco com a religião, principalmente a católica, cuja razão você descobrirá ao longo da mesma.

Para muitas pessoas e sociedades ao redor do mundo, a morte continua sendo uma espécie de tabu. Lembro que em 1º de abril desse ano, publiquei uma matéria sobre a Índia, onde existe uma situação muito peculiar, visto que os crematórios são predominantemente administrados por homens. Vocês podem até pensar que não haja nenhum interesse de mulheres nesse trabalho ou que por exigir um esforço físico maior nessa profissão, por assim dizer, não tenha muita preferência entre as mulheres. A questão, no entanto, vai muito além disso, visto que as mulheres não são, digamos, "bem-vindas" dentro dos crematórios. A razão para isso? Bem, a absoluta maioria das pessoas, principalmente homens, dizem que as mulheres são mais facilmente possuídas por espíritos dos mortos, que vagam por até 10 dias em nosso plano, do que homens. Muitos acreditam que os espíritos mais perturbados possuem uma maior atração por mulheres do que pelos homens, porque simplesmente as mulheres menstruam (leia mais: As Mulheres São Mais Facilmente Possuídas? Os Medos e as Ameaças Contra Mulheres Responsáveis Por Crematórios, na Índia!). Parece surreal, mas o tabu em relação a morte e como proceder perante a mesma, ainda é dilema constante na vida de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo.

Apesar de certa forma parecer irrelevante para a absoluta maioria das pessoas, ao longo das últimas décadas, as pessoas que enfrentavam a perda de um ente querido e precisavam organizar um funeral, se deparavam com duas escolhas relativamente simples, mas que girava em torno de preceitos morais, religiosos, filosóficos ou até mesmo diante das condições financeiras disponíveis, ou seja, os ente queridos eram enterrados ou então cremados. Contudo, em algumas regiões dos Estados Unidos e do Canadá, uma terceira opção já está disponível: a dissolução dos corpos em uma solução alcalina. Sim, exatamente isso que você leu. Seu nome técnico é "hidrólise alcalina", porém devido a estranheza e polêmica em relação ao método, o mesmo vem sendo comercializado como "cremação verde." Como base para explicar melhor essa história para vocês, iremos utilizar uma interessante matéria publicada recentemente pela BBC, e que foi praticamente desprezada pelos principais veículos de imprensa brasileiros. Vamos saber mais sobre esse assunto?

A Despedida de um Homem Chamado Robert Klink: A Difícil Escolha Sobre o Último Adeus


Robert J. Klink sempre passou a vida próximo a água. Durante sua infância e adolescência, na década de 1950, seus pais tinham uma cabana no Lago South Long, no estado norte-americano do Minnesota, a chamada "Terra dos 10.000 lagos". Ele aprendeu a pescar e caçar bem perto das margens do lago, e isso acabou se tornando uma paixão ao longo de sua vida.

Por muitos anos, ele e sua segunda esposa, Judi Olmsted, mantiveram algumas pequenas lanchas cruzando o Rio Saint Croix. Robert gostava de pescar e de atirar em patos, que ele preparava para servir como refeição.

Robert J. Klink sempre passou a vida próximo a água. Durante sua infância e adolescência, na década de 1950, seus pais tinham uma cabana no Lago South Long, no estado norte-americano do Minnesota, a chamada "Terra dos 10.000 lagos"
Por muitos anos, ele e sua segunda esposa, Judi Olmsted, mantiveram algumas pequenas lanchas cruzando o Rio Saint Croix. Robert gostava de pescar e de atirar em patos, que ele preparava para servir como refeição
Pouco antes da morte de Robert, em março desse ano, devido a um câncer de cólon e fígado, Judi Olmsted foi até uma funerária local chamada "Bradshaw Celebration of Life Center" ("Centro Bradshaw de Celebração da Vida", em português), na cidade de Stillwater. Judi disse aos funcionários da funerária, que o marido desejava ser cremado, quando chegasse o derradeiro momento.

Entretanto, ela ficou surpresa ao saber que a funerária Bradshaw oferecia dois tipos de cremação: o que todo mundo conhece, "envolvendo fogo", e um algo novo, que "envolvia água". Um panfleto explicava que essa "alternativa leve e ecológica em relação a cremação à base de chamas" usava uma solução alcalina feita com hidróxido de potássio para reduzir o corpo apenas ao esqueleto.

"No começo fiquei pensando: 'Bem, não tenho certeza disso'. Porém quanto mais eu pensava sobre isso, mais acreditava que era o melhor caminho a ser seguido", disse Judi Olmsted.

Entretanto, ela ficou surpresa ao saber que a funerária Bradshaw oferecia dois tipos de cremação: o que todo mundo conhece, "envolvendo fogo", e um algo novo, que "envolvia água"
Quando somos enterrados, requisitamos ao nosso planeta os últimos recursos dos quais precisamos: madeira para um caixão, algodão para o forro, e pedra para uma lápide. Nos Estados Unidos, os túmulos geralmente são revestidos com concreto ou então o caixão é colocado em um jazigo de metal ou concreto, que não se decompõe. Contudo, a cremação também tem um custo ambiental. Para queimar um único corpo, um forno crematório gera calor suficiente para aquecer uma casa no período de inverno, durante uma semana, até mesmo no gélido Estado do Minnesota.

Curiosamente, a funerária Bradshaw era apenas uma das 14 casas funerárias ao redor do mundo, que oferecer essa opção "verde", visto que a hidrólise alcalina é considerada muito mais ecológica do que a cremação convencional. Aliás, a funerária oferece ambos os serviços pelo mesmo valor, e dizem que o novo tipo de cremação se provou ser um sucesso inesperado. Dos clientes que optam por não serem enterrados (cerca de metade do total de clientes), aproximadamente 80% optam pela hidrólise alcalina. De qualquer forma, os benefícios ambientais podem não ser os únicos fatores que influenciam na decisão desses clientes.

Ao escolher pela "cremação verde", Judi Olmsted estava atenta ao amor pela vida por parte do Robert e, dessa forma., percebeu, no método à base de água, uma espécie de eco do batismo infantil, algo que ela achava tocante. O memorial de Robert foi realizado nos arredores de St. Paul, a capital e a segunda cidade mais populosa do Estado do Minnesota, na Igreja Luterana de Santo André, um local onde casal frequentou durante anos. A urna que continha os ossos em pó ficou em uma mesa ao lado de flores, fotos e, inclusive, um pato de madeira.

O memorial de Robert foi realizado nos arredores de St. Paul, a capital e a segunda cidade mais populosa do Estado do Minnesota, na Igreja Luterana de Santo André, um local onde casal frequentou durante anos
A urna que continha os ossos em pó ficou em uma mesa ao lado de flores, fotos e, inclusive, um pato de madeira
Anne Christ, uma das diretoras da funerária, explicou alguns outros motivos pelos quais as pessoas estavam optando pela hidrólise alcalina. Ela disse que algumas pessoas que procuravam a funerária possuíam uma "mentalidade muito científica" e, é claro, estavam interessadas no aspecto ambiental. Porém, a emoção era o que realmente pesava na decisão. A maioria das pessoas acreditava que a água era um elemento bem menos agressivo e gentil do que o fogo.

Ironicamente, ao ser questionada se dissolver um corpo em produtos químicos seria realmente mais agradável do que queimá-lo ou o que as pessoas realmente pensavam sobre o que acontecia durante esse processo, Anne disse que uma parcela dos clientes não queriam saber como acontecia e, ao mesmo tempo, respondeu a pergunta esboçando um leve sorriso no rosto.

Conheça o Equipamento Onde Ocorre o Processo de Hidrólise Alcalina: O Envolvimento Emocional dos Familiares


O "Centro Bradshaw de Celebração da Vida" é uma espécie de "bangalô" alongado, cercado por prados e bosques de árvores delgadas. Descrito como "estilo pradaria", o local foi projetado por um ex-aluno de Frank Lloyd Wright, um famoso arquiteto norte-americano, que faleceu em 1959. O equipamento de hidrólise alcalina está localizado no porão. Foi instalado há cinco anos a um custo (juntamente com as chamadas "salas de exibição") de cerca de US$ 750.000 (aproximadamente R$ 2,5 milhões, considerando a cotação atual).

O "Centro Bradshaw de Celebração da Vida" é uma espécie de "bangalô" alongado, cercado por prados e bosques de árvores delgadas. Descrito como "estilo pradaria", o local foi projetado por um ex-aluno de Frank Lloyd Wright, um famoso arquiteto norte-americano, que faleceu em 1959
"Poderíamos ter feito tudo isso custando bem menos. Percebemos que ao sermos um dos primeiros nesse campo, e um dos primeiros no país, tivemos que investir bem mais", disse Jason Bradshaw, responsável por administrar a funerária.

"Temos passeios organizados por diversos grupos, assim como de pessoas provenientes de clínicas de tratamento para doentes terminais e de igrejas. Recebemos pessoas que querem apenas ver o equipamento, porque é algo novo", completou.

"Poderíamos ter feito tudo isso custando bem menos. Percebemos que ao sermos um dos primeiros nesse campo, e um dos primeiros no país, tivemos que investir bem mais", disse Jason Bradshaw, responsável por administrar a funerária.
No porão existe uma sala circular, e uma espécie de pequena cascata jorrando água, cujo som se torna muito agradável aos ouvidos. A parede de cor ocre contém uma janela do chão até teto, que possui uma visão para uma outra sala, e que por sua vez possui portas de correr de madeira do outro lado do vidro. Ao abrir a porta, é possível ver o equipamento de hidrólise alcalina: uma caixa de aço retangular com 1,8 metros de altura por 1,2 metros de largura, e cerca de 3 metros de comprimento.

Essa verdadeira máquina possui uma enorme porta circular cobrindo quase toda a sua largura, sendo bem semelhante a um cofre ou até mesmo submarino (na verdade, essas mesmas portas são utilizadas em submarinos, embora o fabricante aponte uma diferença bem crucial: as escotilhas submarinas também são projetadas para serem abertas por dentro). Aliás, a aparência industrial da máquina acaba gerando uma visão meio sombria, o que leva pensar que tipo de pessoa escolheria assistir seu parente ou amigo sendo colocado na máquina, que é conhecida como um "digestor de tecidos."

No porão existe uma sala circular, e uma espécie de pequena cascata jorrando água, cujo som se torna muito agradável aos ouvidos. A parede de cor ocre contém uma janela do chão até teto, que possui uma visão para uma outra sala, e que por sua vez possui portas de correr de madeira do outro lado do vidro
Ao abrir a porta, é possível ver o equipamento de hidrólise alcalina: uma caixa de aço retangular com 1,8 metros de altura por 1,2 metros de largura, e cerca de 3 metros de comprimento
Essa verdadeira máquina possui uma enorme porta circular cobrindo quase toda a sua largura, sendo bem semelhante a um cofre ou até mesmo submarino (na verdade, essas mesmas portas são utilizadas em submarinos, embora o fabricante aponte uma diferença bem crucial: as escotilhas submarinas também são projetadas para serem abertas por dentro)
Durante a realização da matéria, William Kremer assistiu ao Jason e ao seu colega, David Haroldsen, passando com um cadáver pela porta. O corpo não teve sua identidade revelada e estava completamente coberto por um pano preto que, Jason e David, usando luvas cirúrgicas azuis, delicadamente o encaixou entre as bordas de uma bandeja de aço. Então, eles abriram a "escotilha", ergueram o corpo, e o deslizou para dentro da máquina.

Durante a realização da matéria, William Kremer assistiu ao Jason e ao seu colega, David Haroldsen,
passando com um cadáver pela porta
O corpo não teve sua identidade revelada e estava completamente coberto por um pano preto que, Jason e David, usando luvas cirúrgicas azuis, delicadamente o encaixou entre as bordas de uma bandeja de aço
Então, eles abriram a "escotilha", ergueram o corpo, e o deslizou para dentro da máquina
Aliás, bem do lado da máquina existe uma tela de computador com quatro botões identificados por "Destravar", "Teste", "Ciclo" e "Travar." Assim sendo, Jason pressionou o botão "Ciclo", fazendo com que a máquina emitisse um sinal sonoro duas vezes, sendo possível ouvir uma espécie de leve assobio. Imediatamente, a máquina começou a se encher com água.

Tela computadorizada de uma máquina da empresa "Resomation Ltd"
Jason Bradshaw, que possui licenciatura em Biologia e Química, explicou que a máquina pesa cada corpo, e calcula automaticamente a quantidade de água e hidróxido de potássio que deve ser adicionado. Ele disse que a medida consiste em aproximadamente 30 quilos do produto para 270 quilos de água (uma parte de hidróxido de potássio para nove partes de água). A poderosa solução alcalina, com um pH aproximado de 14, é aquecida a 152ºC. Porém, uma vez que o "digestor de tecidos" é pressurizado, essa solução não chega a ferver.

"A hidrólise alcalina é o processo natural, que seu corpo passa se você for enterrado. Aqui criamos condições ideais para que isso aconteça muito mais rapidamente", disse Jason.

Jason Bradshaw, que possui licenciatura em Biologia e Química, explicou que a máquina pesa cada corpo, e calcula automaticamente a quantidade de água e hidróxido de potássio que deve ser adicionado
Ele disse que a medida consiste em aproximadamente 30 quilos do produto para 270 quilos de água
(uma parte de hidróxido de potássio para nove partes de água)
A poderosa solução alcalina, com um pH aproximado de 14, é aquecida a 152ºC
Porém, uma vez que o "digestor de tecidos" é pressurizado, essa solução não chega a ferver
Em um cemitério, isso pode demorar décadas, dependendo das condições e da forma com que um corpo seja enterrado. Já na máquina de hidrólise alcalina leva cerca de 90 minutos, embora o "ciclo de enxágue" que se segue, leva mais ou menos o mesmo tempo. Portanto, cerca de três a quatro horas depois, a porta destravou, e Jason se deparou com os ossos úmidos espalhados pela bandeja de metal, juntamente com os implantes médicos, que a pessoa tinha em vida. Nesse caso, em específico, as placas de metal no quadril e os pinos do joelho estavam em perfeito estado.

Os fabricantes do "digestor de tecido" ainda propuseram que, quando mais máquinas estiverem em operação, elas poderiam ser coletadas e doadas para os países em desenvolvimento. De qualquer forma, ao final do processo, o tecido havia se dissolvido totalmente em meio a solução, que foi drenada para um tanque separado, escondido dos olhos de quem assiste a "cremação líquida."

Acompanhe um vídeo realizado pela revista eletrônica Motherboard, que foi publicado em seu respectivo canal no YouTube, no dia 8 de junho desse ano, justamente sobre esse assunto relacionado a "cremação verde" (em inglês, mas é bem ilustrativo). O vídeo mostra Terry Regnier, da Clínica Mayo (que iremos comentar daqui a pouco) falando sobre todo esse processo:



Alternativamente, acompanhe esse outro vídeo, que é uma espécie de animação 3D, mostrando todo o funcionamento do processo relativo a hidrólise alcalina, que foi publicado por um canal de terceiros, no YouTube, em 2011:



"Parece um chá ou uma cerveja. Você consegue ver através do mesmo. É algo composto de sais e açúcares. Tem um pouco de cheiro de sabão, o que não é desagradável, mas é bem peculiar", disse Jason. Além disso, o local onde a máquina se encontra tem um aroma semelhante a um lugar, que tenha passado por uma limpeza a seco.

O nível de pH do efluente é testado e, se necessário, ajustado. Em seguida, o líquido é liberado pelo dreno. É uma mistura estéril de aminoácidos e péptidos, sem nenhuma presença de DNA humano. No entanto, essa mistura de tecido dissolvido como um subproduto de resíduos e seu posterior descarte através do esgoto, é justamente a parte da hidrólise alcalina que mais incomoda as pessoas.

Jason Bradshaw tem a possibilidade de secar os ossos lentamente (em uma espécie de gabinete especial) ou rapidamente (em uma bandeja colocada dentro de uma máquina doméstica de secar roupas)
Jason Bradshaw tem a possibilidade de secar os ossos lentamente (em uma espécie de gabinete especial) ou rapidamente (em uma bandeja colocada dentro de uma máquina doméstica de secar roupas). Sim, exatamente isso que você leu. Segundo David, essa última opção costuma funcionar melhor. Em seguida, os ossos são colocados em uma máquina chamada de "cremulador", que os pulveriza, e resulta em um pó bem grosso.

Curiosamente, ela é exatamente a mesma máquina utilizada após uma cremação normal e, assim como geralmente ocorre, a palavra "cinzas" é considerado um termo incorreto. A diferença é que o pó resultante é mais fino e mais branco, parecido com a farinha, sendo que a quantidade é 30% maior do que em uma cremação convencional.

A máquina utilizar para moer os ossos é exatamente a mesma máquina utilizada após uma cremação normal e, assim como geralmente ocorre, a palavra "cinzas" é considerado um termo incorreto
Para fins estatísticos, até aquele momento, o "digestor de tecidos" de Bradshaw processou cerca de 1.100 corpos, cerca de um por dia. A máquina foi fabricada no Reino Unido por uma empresa chamada Resomation Ltd, que planeja instalar uma máquina idêntica na cidade de Sandwell, que fica localizada próxima de Birmingham, na Inglaterra, no final deste ano.

A diferença é que o pó resultante é mais fino e mais branco, parecido com a farinha, sendo que a quantidade é 30% maior do que em uma cremação convencional
"Algumas vezes, as famílias querem ajudar a operar o digestor de tecido. Costumamos ter famílias que querem ajudar a colocar o corpo na máquina ou então pressionar o botão 'Ciclo' para iniciar o processo em si", disse Jason Bradshaw.

"Algumas pessoas olhariam para isso e diriam 'Por que você gostaria de se envolver nisso?' Já outras diriam 'Essa foi a última coisa que pude fazer pela minha mãe ou pelo meu pai", continuou.

"Estive aqui quando recebemos três irmãos, todos em pé ao lado da máquina, e todos pressionaram juntos o botão para iniciar o processo. E eu meio que penso nisso, porque se ficamos todos parados em um cemitério, e todos querem pegar a primeira pá de terra para jogar no túmulo, isso é uma espécie de libertação, em deixarmos que o ente querido se vá", completou.

Os Rastros Deixados Pela Morte: Quanto a Morte de uma Pessoa Pode Custar ao Planeta?


De acordo com a matéria da BBC, em todo o mundo, cerca de 150.000 pessoas morrem diariamente, e o número está aumentando à medida que a população mundial também aumenta. Atualmente, existem 7,5 bilhões de seres humanos na Terra, mas, no final do século, acredita-se que haverá mais de 11 bilhões de pessoas. Em alguns países, o espaço para as sepulturas está simplesmente acabando.

No Reino Unido, estima-se que a metade dos cemitérios estarão completamente lotados nos próximos 20 anos. Em alguns locais de Londres, não é mais oferecido o serviço funerário relacionado a sepultamentos, e a cidade começou a reutilizar os espaços afundando os corpos existentes, e colocando novos corpos acima dos mesmos. A utilização da terra para sepultamentos e a manutenção constante gera um impacto ambiental. Além disso, um enterro consome muitos recursos naturais.

De acordo com a matéria da BBC, em todo o mundo, cerca de 150.000 pessoas morrem diariamente, e o número está aumentando à medida que a população mundial também aumenta
Atualmente, existem 7,5 bilhões de seres humanos na Terra, mas, no final do século, acredita-se que haverá mais de 11 bilhões de pessoas. Em alguns países, o espaço para as sepulturas está simplesmente acabando.
Os ativistas costumam dizer que os jazigos norte-americanos para abrigar caixões utilizam mais de 1,6 milhão de toneladas de concreto e 14 mil toneladas de aço por ano. Quanto à cremação, estima-se que uma cremação convencional resulte ao equivalente a 320 kg de dióxido de carbono. A menos que sejam tomadas medidas especiais, também são liberadas toxinas perigosas, em especial o mercúrio, proveniente de preenchimentos dentários, tais como obturações ou restaurações. Esse mesmo mercúrio retorna ao solo na forma chuva, e acaba se acumulando na cadeia alimentar aquática.

Agora, como poderíamos comparar a hidrólise alcalina, do ponto de vista ambiental? Bem, de acordo com a pesquisadora holandesa Elisabeth Keijzer, que realizou dois estudos para a Organização Holandesa para Pesquisa Aplicada (SIA), sendo que os estudos foram encomendados por uma rede de funerárias chamada "Yarden", o método da hidrólise alcalina é muito melhor ambientalmente falando. Os dois relatórios publicados, em 2011 e 2014, perfazem uma leitura fascinante e ao mesmo tempo macabra, principalmente para aqueles que não estão acostumados com o tema.

De acordo com a pesquisadora holandesa Elisabeth Keijzer (na foto), que realizou dois estudos para a Organização Holandesa para Pesquisa Aplicada (SIA), sendo que os estudos foram encomendados por uma rede de funerárias chamada "Yarden", o método da hidrólise alcalina é muito melhor ambientalmente falando
A pesquisadora separou o enterro, a cremação e a hidrólise alcalina em dezenas de etapas, avaliando-as em comparação com 18 padrões de impacto ambiental, tais como: esgotamento do ozônio, a ecotoxicidade marinha e as mudanças climáticas. Em 17 dessas categorias, a hidrólise alcalina se saiu melhor. A cremação foi considerada a pior na maioria das categorias (cerca de 10 categorias), porém o enterro foi considerado o que gerava o maior impacto ambiental em termos gerais. A hidrólise alcalina, por exemplo, resultou em uma emissão 7 vezes menor de dióxido de carbono do que a cremação convencional.

Para simplificar e resumir os resultados apresentados, Keijzer e seus colegas calcularam um "preço sombrio" para cada método, ou seja, a menor quantidade de dinheiro possível, ao menos em tese, que custaria para compensar o impacto ambiental ou evitá-lo. Em relação ao enterro, o custo líquido foi de € 63,66 euros (cerca R$ 240) de por corpo. Para a cremação, foi de € 48,47 (cerca de R$ 175). Já hidrólise alcalina, foi de apenas € 2,59 (cerca de R$ 10).

Para simplificar e resumir os resultados apresentados, Keijzer e seus colegas calcularam um "preço sombrio" para cada método, ou seja, a menor quantidade de dinheiro possível, ao menos em tese, que custaria para compensar o impacto ambiental ou evitá-lo
Por mais que o estudo de Keijzer desse uma espécie de aval mais ressonante às credenciais ecológicas da hidrólise alcalina do que alguns estudos anteriores, o mesmo fazia suposições sobre os enterros e as cremações convencionais, que não eram válidas para todos os países do mundo. Havia pouquíssima menção à poluição gerada pelo mercúrio em detrimento da cremação convencional. Na Holanda, por exemplo, o mercúrio é rotineiramente capturado a partir da atmosfera ao serem utilizados modernos e caros equipamentos de filtragem do ar, algo que não acontece na América do Norte. Por outro lado, o estudo partiu da premissa, que uma cremação convencional envolvia queimar o corpo em um caixão, algo que é comum na Holanda e no Reino Unido, mas não se aplicava, por exemplo, aos Estados Unidos.

É importante ressaltar, que em alguns estados norte-americanos, incluindo o Minnesota, um caixão é alugado para exibir um corpo antes de ser enviado para a cremação, algo que é intrínseco em relação a hidrólise alcalina. Isso é significativo, porque cerca do total do "preço sombrio" da cremação convencional, cerca de € 28,89 (aproximadamente R$ 105), está relacionado ao custo ambiental do caixão. Surpreendentemente, desses € 28,89, cerca de € 21 (aproximadamente R$ 75) está relacionado apenas ao revestimento de algodão, que normalmente é utilizado. Keijzer também não mediu o impacto ambiental do chamado "enterro natural", onde um corpo é enrolado em um pano e enterrado sem uma lápide.

É importante ressaltar, que em alguns estados norte-americanos, incluindo o Minnesota, um caixão é alugado para exibir um corpo antes de ser enviado para a cremação, algo que é intrínseco em relação a hidrólise alcalina
Evidentemente, existem outras ressalvas a serem feitas. De acordo com Keijzer, quando você observa o rastro de carbono deixado por uma pessoa ao longo de sua vida, o "descarte do corpo" representa apenas uma pequena fração, entre 10 e 30 milésimos. Ela calculou também, que a cerimônia funerária em si, ou seja, considerando todos os enlutados viajando para o velório, todas as flores cortadas e assim por diante, gera um impacto ambiental aproximadamente 3 vezes maior do que o impacto gerado pelo próprio enterro ou pela cremação convencional.

Apesar dos pesares, Keijzer acabou sugerindo que a "cremação verde" pode ser realmente mais "ecologicamente correta" do que as alternativas mais comuns.

A Esterilização dos Corpos: Os Incidentes Envolvendo Doenças Relacionadas ao Gado, na Inglaterra


Em 2001, as principais emissoras britânicas de TV foram tomadas por imagens perturbadoras de vacas sendo levadas ao abate, empilhadas e incineradas. Foi o pior episódio de febre aftosa (uma doença infecciosa causada por vírus, que atinge animais de cascos bipartidos, como bovinos, bubalinos, ovinos, caprinos e suínos) do país e, inconvenientemente, ocorreu antes dos rebanhos britânicos terem se recuperados plenamente de uma epidemia anterior da chamada "doença da vaca louca" (BSE ou encefalopatia espongiforme transmissível). Estima-se que até 2% do gado incinerado estava infectado com BSE, e incinerar os animais a céu aberto era potencialmente perigoso.

"Preferencialmente, você incineraria o gado em um incinerador, que é um ambiente controlado, mas devido a grande quantidade de animais, eles incineravam os mesmos a céu aberto. E, essa atitude, tinha o potencial de espalhar a BSE devido as partículas que sobem para a atmosfera", comentou um bioquímico chamado Sandy Sullivan.

Em 2001, as principais emissoras britânicas de TV foram tomadas por imagens perturbadoras de vacas
sendo levadas ao abate, empilhadas e incineradas
"Preferencialmente, você incineraria o gado em um incinerador, que é um ambiente controlado, mas devido a grande quantidade de animais, eles incineravam os mesmos a céu aberto. E, essa atitude, tinha o potencial de espalhar a BSE devido as partículas que sobem para a atmosfera", comentou um bioquímico chamado Sandy Sullivan
Sandy Sullivan passou cinco anos pressionando a União Europeia para que permitisse um processo, que esterilizasse completamente as carcaças infectadas. A empresa para a qual ele trabalhava, a WR2, havia patenteado um "digestor de tecido de hidrólise alcalina", e já estava usando o equipamento para eliminar os restos mortais de animais de seus laboratórios de pesquisa. No entanto, a hidrólise alcalina acabou não sendo usada para "dissolver o gado europeu infectado com BSE", embora tivesse sido utilizada nos Estados Unidos para eliminar alces e ovelhas infectadas com doenças semelhante

O desenvolvimento que levou aos digestores de tecidos, que acabaram aparecendo nas funerárias, aconteceu alguns anos depois, quando Dean Fisher, diretor do programa de doações anatômicas, na mundialmente conhecida Clínica Mayo, no estado norte-americano do Minnesota, começou a explorar a ideia de usar a hidrólise alcalina para "descartar os cadáveres da clínica." Ele e um colega tiveram a chance de inspecionar uma máquina instalada em um hospital da Flórida, e ficaram impressionados com o que viram.

Sandy Sullivan (na foto) passou cinco anos pressionando a União Europeia para que permitisse um processo, que esterilizasse completamente as carcaças infectadas
"Nós ficamos tipo, 'Nossa, meu Deus, olha só esse resultado final!'", disse Dean Fisher, referindo-se aos ossos puramente brancos, que restaram ao final do processo. No entanto, eles sentiram que a máquina, projetada para processar vários corpos de uma só vez, não possuía a dignidade necessária.

"A máquina era fechada tal como um mexilhão, e não gostamos daquilo. Nós dissemos: 'Vocês podem girar esse cilindro na outra direção? Vocês pode colocar uma cesta ou bandeja nele, com pequenos orifícios, que possam escoar o fluido durante o processo e, depois, todos os ossos, todas as próteses e tudo que houver permanecer na bandeja?' E foi exatamente algo assim, que eles criaram para nós", lembrou.

O novo digestor era um protótipo inicial para o equipamento, que atualmente pertence a funerária Bradshaw, em Stillwater, embora não fosse tão fácil assim de operá-lo. Antes de cada processo, o operador precisava apertar 11 parafusos na escotilha, com a ajuda de uma chave inglesa, tal como um mecânico que precisasse substituir o pneu de um ônibus. Porém, Sandy Sullivan viu o potencial que a tecnologia tinha para ser usada comercialmente em funerárias.

A empresa para a qual ele trabalhava, a WR2, havia patenteado um "digestor de tecido de hidrólise alcalina", e já estava usando o equipamento para eliminar os restos mortais de animais de seus laboratórios de pesquisa
Depois que a WR2 faliu, em 2006, ele criou uma nova empresa, a "Resomation Ltd", enquanto seu ex-presidente executivo, Joe Wilson, criou uma outra empresa, a "Bio-Response Solutions". Portanto, ambos se tornaram a "Pepsi e a Coca-Cola" em termos de hidrólise alcalina.

"Esse é um mercado conservador. Quando você entra com uma nova ideia, sabe como é, soa como se você colocasse um gato entre os pombos, e você não é facilmente aceito", disse Sandy Sullivan.

Foto da máquina e do sistema adotado pela "Bio-Response"
Confira abaixo um vídeo promocional da "Bio-Response Solutions", que foi publicado em um canal de terceiros, no YouTube, em setembro de 2014:



Curiosamente, o mesmo aconteceu com os "pioneiros da cremação", no final do século XIX. No Reino Unido, quando a "Cremation Society" ("Sociedade de Cremação", em português) construiu um crematório na cidade de Woking, em 1879, as pessoas da comunidade protestaram, o que levou o secretário de governo a proibir a prática até o Parlamento aprovar a ideia, e criar uma legislação própria. Conforme a história mostra, os defensores da cremação não precisaram esperar tanto tempo assim.

Em 1884, um conhecido druida galês, um tanto quanto excêntrico, e que se autodenominava William Price, tentou cremar o cadáver do seu filho, que era apenas uma criança, em uma colina da cidade de Llantrisant. Ele foi preso, mas em seu julgamento ele argumentou que nenhuma lei declarava que a cremação era ilegal, algo que o juiz responsável pelo seu caso acabou concordando. William foi absolvido e o crematório de Woking começou a operar no ano seguinte, sem precisar esperar por nenhuma regulamentação.

Curiosamente, o mesmo aconteceu com os "pioneiros da cremação", no final do século XIX. No Reino Unido, quando a "Cremation Society" ("Sociedade de Cremação", em português) construiu um crematório na cidade de Woking (na foto acima), em 1879, as pessoas da comunidade protestaram.
Diversos outros crematórios foram construídos no Reino Unido, antes da Lei de Cremação ser aprovada, em 1902. Então, foram necessárias algumas décadas para a prática se tornar completamente aceita. Foi apenas no final da década de 1960, que as cremações começaram a superar, em número, os enterros, e atualmente ocorrem três cremações para cada enterro. Nos Estados Unidos, por exemplo, o processo foi muito mais lento. Ao longo dos últimos anos, a cremação gradualmente atingiu a paridade com os enterros e, agora, pode finalmente ultrapassá-los.

Ironicamente, todo aquele "vácuo regulatório", que uma vez girou em torno da cremação no Reino Unido, acontece novamente em relação à hidrólise alcalina.

"Estamos torcendo para que eles aprovem uma lei para regulamentá-la, mas isso não está acontecendo. Então vamos instalar um, e forçá-los a aprovar uma legislação primária, que nos permita regularizar a atividade, porque queremos ser regulamentados", disse Sandy Sullivan.

Em 1884, um conhecido druida galês, um tanto quanto excêntrico, e que se autodenominava William Price, tentou cremar o cadáver do seu filho, que era apenas uma criança, em uma colina da cidade de Llantrisant
A chamada "permissão de planejamento" foi concedida para que uma máquina da "Resomation Ltd" fosse instalada no Crematório Rowley Regis, na cidade de Sandwell, em West Midlands, embora a autoridade responsável pelo tratamento de água e esgoto da cidade, ainda não tenha emitido uma autorização para que os efluentes sejam drenados para o esgoto. Sandy Sullivan, no entanto, disse que não espera que haja quaisquer problemas nesse sentido.

O custo de tal máquina é equivalente a, ou um pouco menos, do que o custo do equipamento de filtragem, que certa vez os crematórios no Reino Unido precisaram para se adaptar e reter emissões de mercúrio. Contudo, Harvey Thomas, presidente da Sociedade de Cremação e presidente do conselho da empresa proprietária do Crematório de Woking, disse que o futuro desse modelo de negócio ainda é incerto.

"Se as pessoas que optam pela hidrólise alcalina são as mesmas pessoas que de qualquer forma escolheriam a cremação, não há benefício comercial para o crematório", ressaltou.

Harvey Thomas (na foto), presidente da Sociedade de Cremação e presidente do conselho da empresa proprietária do Crematório de Woking, disse que o futuro desse modelo de negócio ainda é incerto
"Comercialmente falando, tudo o que você está fazendo é deixar de adotar um procedimento e mudar para outro. É necessário considerar que, para ser comercialmente rentável, você precisa de pessoas que anteriormente gostariam de ser enterradas, e que agora optassem pela Resomation", completou.

Ele também observou, que leva apenas hora para incinerar um corpo em um forno crematório, enquanto a máquina de Sullivan, a mais rápida do mercado, demora cerca de três a quatro vezes mais para "dissolver um corpo". Portanto, o lucro em potencial, por dia, é bem inferior.

Por outro lado, por mais que a América do Norte ainda esteja engatinhando em relação as cremações convencionais, quando comparado ao Reino Unido, a mesma está bem mais à frente em relação a hidrólise alcalina. O método já foi aprovado em três províncias canadenses (que representam dois terços da população), e em 14 estados norte-americanos, com mais cinco estados que estão atualmente discutindo a respectiva legislação sobre o tema. No entanto, essa tem sido uma luta árdua.

Por outro lado, por mais que a América do Norte ainda esteja engatinhando em relação as cremações convencionais, quando comparado ao Reino Unido, a mesma está bem mais à frente em relação a hidrólise alcalina
O método já foi aprovado em três províncias canadenses (que representam dois terços da população), e em 14 estados norte-americanos, com mais cinco estados que estão atualmente discutindo a respectiva legislação sobre o tema. No entanto, essa tem sido uma luta árdua
As regulamentações funerárias estaduais são regidas pelo "Conselho de Diretores Funerários e Embalsamadores " de cada estado. De acordo com Joe Wilson, da empresa "Bio-Response", muitas vezes eles são uma rede de "pessoas educadas, porém intolerantes", que não veem nenhum valor em desafiar seus modelos comerciais bem-sucedidos. Além disso, em pelo menos quatro estados, a Igreja Católica tem desempenhado um papel crítico no veto a hidrólise alcalina.

O Fator Desgosto e a Intervenção de Autoridades Religiosas em Relação a Hidrólise Alcalina


"Dissolver corpos em uma cuba de substâncias químicas e derramar o líquido resultante no ralo não é uma maneira respeitosa de eliminar os restos humanos", dizia uma carta da Conferência Católica de Ohio, para a legislatura estadual em 2012. No ano anterior, a Conferência Católica da Califórnia escreveu: "Como católicos, acreditamos que o corpo humano, uma vez vivo e animado por uma alma imortal, possui uma dignidade moral que deve ser honrada."

Palavras semelhantes foram enviadas pela Igreja aos legisladores em Nova York e New Hampshire e, devido a essas intervenções, pelo menos em parte, a hidrólise alcalina não foi permitida em nenhum desses estados norte-americano. Contudo, não é apenas a Igreja Católica que possui essa visão. A coloração dos efluentes, semelhante a cor de um chá, gera um pouco de repulsa em algumas pessoas, sejam elas católicas ou não.

Contudo, não é apenas a Igreja Católica que possui essa visão. A coloração dos efluentes, semelhante a cor de um chá, gera um pouco de repulsa em algumas pessoas, sejam elas católicas ou não
"Isso acaba deixando as pessoas desconfortáveis. Parece que você está tratando a vovó ou qualquer ente querido amado como lixo. Como se você estivesse simplesmente dando uma descarga. Parece desrespeitoso, parece desdenhoso", disse Philip Olson, um filósofo do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virginia, no Estados Unidos.

Entretanto Olson, que já trabalhou como assistente de embalsamamento, observou que, nos processos tradicionais de enterro, cremação e embalsamamento, é feita uma distinção entre o "produto funerário", por exemplo, as famosas "cinzas" e os "resíduos."

"Se você observar o processo de embalsamamento, tudo é drenado do corpo. As vísceras, que por sua vez são extraídas através da aspiração da cavidade do corpo, também são descartadas pelo dreno. E, ao contrário do efluente da hidrólise alcalina, o material contém DNA humano", disse Philip Olson.

Entretanto Olson (na foto), que já trabalhou como assistente de embalsamamento, observou que, nos processos tradicionais de enterro, cremação e embalsamamento, é feita uma distinção entre o "produto funerário", por exemplo, as famosas "cinzas" e os "resíduos."
Dentro da comunidade católica, a ética Irmã Renee Mirkes, membro das Irmãs Franciscanas da Caridade Cristã, de Manitowoc, no estado norte-americano do Wisconsin, apontou algo semelhante.

"O principal ponto de discussão em relação a indignidade com a hidrólise alcalina - especificamente, ao descartar o líquido remanescente pelo dreno - é encontrado de forma semelhante a perda de líquido e gases após o enterro e na cremação, em razão da chuva", escreveu a Irmã Renee Mirkes, no National Bioethics Quarterly, um periódico sobre ética, filosofia e questões teológicas cristãs, em 2008, referindo-se ao processo pelo qual a fumaça de uma cremação retorna ao solo, muitas vezes através de pingos de chuva, que acabam indo parar nas redes pluviais de uma cidade.

Dentro da comunidade católica, a ética Irmã Renee Mirkes (à direita), membro das Irmãs Franciscanas da Caridade Cristã, de Manitowoc, no estado norte-americano do Wisconsin, apontou algo semelhante
Em seu artigo, Mirkes observou que a cremação tinha permanecido efetivamente proibida pela Igreja Católica até 1963, quando o Papa Paulo VI determinou que, por mais que o enterro continuasse sendo o método preferido para "descartar os corpos", a cremação deixou de ser intrinsecamente maligna e os fiéis podiam escolher quando fosse necessário.

Ela argumentou que a posição da Igreja sobre a cremação convencional devia aplicar-se também à "cremação ecológica" (ou "cremação verde), embora tenha sugerido na época, que a questão deveria ser deixada nas mãos bispos, para que os mesmos aconselhassem os fiéis em suas respectivas dioceses.

Em seu artigo, Mirkes observou que a cremação tinha permanecido efetivamente proibida pela Igreja Católica até 1963, quando o Papa Paulo VI determinou que, por mais que o enterro continuasse sendo o método preferido para "descartar os corpos", a cremação deixou de ser intrinsecamente maligna e os fiéis podiam escolher quando fosse necessário
Segundo Philip Olsen, uma das razões pelas quais as atitudes em relação a hidrólise alcalina divergem, é que as pessoas têm diferentes conceitos sobre o que é um "cadáver." Para alguns, um cadáver é primordialmente um objeto sagrado, enquanto que para outros é algo perigoso, que precisa ser selado no subterrâneo, em camadas de aço e concreto. Os verdadeiros fãs de hidrólise alcalina são aqueles do movimento "eco-morte", que veem o corpo como uma fonte potencial de nutrição para plantas e animais.

"O efluente rejeitado produz um fertilizante muito bom", disse Joe Wilson, acrescentando que alguns dos seus clientes veterinários pulverizam-no em seus gramados. Mesmo após "o líquido cor de chá" passar pelo dreno, ele possui um propósito útil. Ele ajuda a alimentar as bactérias nas estações de tratamento de água.

Entretanto, esse não é um aspecto da hidrólise alcalina que você provavelmente veria em qualquer material promocional. Quando a legislação sobre hidrólise alcalina foi discutida em Nova York, algumas pessoas estabeleceram uma relação com um filme distopista chamado "Soylent Green", de 1973, que imaginava um "Estados Unidos futurista", em que cadáveres seriam reciclados como se fossem "biscoitos verdes de altamente energéticos." Outros apelidaram a legislação, que não rendeu frutos, de "Projeto de Lei Hannibal Lecter", uma clara e evidente referência a uma série de romances de Thomas Harris, sobre um assassino em série que devorava suas vítimas.

Quando a legislação sobre hidrólise alcalina foi discutida em Nova York, algumas pessoas estabeleceram uma relação com um filme distopista chamado "Soylent Green", de 1973, que imaginava um "Estados Unidos futurista", em que cadáveres seriam reciclados como se fossem "biscoitos verdes de altamente energéticos."
Para vocês terem uma ideia, algumas funerárias que oferecem o serviço de hidrólise alcalina mantêm uma espécie de silêncio sobre isso, por medo de perturbar a comunidade local onde se encontram. Contudo, pesquisas de mercado descobriram que, embora uma minoria sempre ache a ideia de hidrólise alcalina desagradável, se a mesma for comercializada do jeito certo, talvez sendo chamada de "cremação verde", "biocremação" ou "cremação líquida", uma parcela da população poderá enxergar efetivamente seus benefícios.

Barbara Kemmis, diretora executiva da CANA (Associação de Cremação da América do Norte), relatou uma conversa sobre a hidrólise alcalina com dois delegados em uma recente convenção da "Associação Internacional de Cemitérios, Crematórios e Funerárias", em Nashville, nos Estados Unidos.

"Essa pessoa estava tão assustada com esse assunto, que nem queria ter essa conversa. Já a outra agia como: 'para mim isso é como se fosse um tratamento final de spa'. Nunca tinha ouvido algo assim, mas pensei: 'Fazer o quê, né?' Isso é algo bem pessoal, essa questão do fator de desgosto. O objetivo é ter escolhas, certo?", lembrou.

Barbara Kemmis (à direita), diretora executiva da CANA (Associação de Cremação da América do Norte), em uma recente convenção da "Associação Internacional de Cemitérios, Crematórios e Funerárias", em Nashville, nos Estados Unidos
Jim, o pai de Jason Bradshaw, 73 anos, vem se deparando com muitas mudanças em seus negócios ao longo dos últimos anos, não somente no aumento do número relacionado as cremações e a chegada da hidrólise alcalina, que acabou se mostrando tão popular no "Centro Bradshaw de Celebração da Vida."

"Cerca de cinquenta anos atrás, as pessoas viriam visitar você e diriam: 'Na minha igreja fazemos isso dessa forma'. As pessoas entram hoje e dizem: 'Bem, não temos certeza do que vamos fazer. Podemos realizar a cerimônia em um bar. Podemos realizar em um parque. Bem, não sei, talvez realizemos em uma igreja. Aliás, será que eles nos deixarão servir bebida alcoólica?", lembrou Jim.

Jim (na foto), o pai de Jason Bradshaw, 73 anos, vem se deparando com muitas mudanças em seus negócios ao longo dos últimos anos, não somente no aumento do número relacionado as cremações e a chegada da hidrólise alcalina, que acabou se mostrando tão popular no "Centro Bradshaw de Celebração da Vida."
Surpreendentemente, ele não tomou uma decisão final sobre o que acontecerá com seu próprio corpo depois que ele morrer. Jim não gostava muito da ideia de cremação através do fogo, mas também não tem certeza sobre a tal "cremação verde".

"Me pergunto sobre o que acontece dentro do tanque com a água. Gostaria de ver isso acontecendo. Porém, infelizmente ou talvez felizmente, não posso ver. É muito tentador", completou. Contudo, atualmente, ele prefere apenas a ideia de um enterro natural: nenhum caixão, nenhuma abóbada de aço ou concreto, apenas um cobertor ao seu redor para mantê-lo aquecido.

Bônus! O Futuro não se Limita a Hidrólise Alcalina: Conheça as Sepulturas que São Criadas no Leito do Mar, na Forma de Recifes Artificiais, nos Estados Unidos


Atualmente, existem diversas formas de ser sepultado. Você pode ser colocado em um ovo gigante, ou congelado e chacoalhado até virar partículas de gelo, ou até mesmo dissolvido em produtos produtos químicos (conforme vimos anteriormente). Agora, se alguém estiver procurando por um método mais tranquilo e pacífico, e não sofrer de talassofobia (aversão, repugnância ou medo mórbido, irracional, desproporcional e persistente ao mar), bem, é possível passar a eternidade sendo um recife artificial oceânico.

A Eternal Reefs, uma empresa sediada no estado norte-americano da Flórida, oferece uma opção de sepultamento oceânico, que permite misturar os restos mortais das pessoas em uma cúpula repleta de orifícios chamada "bola de recife", que permanecerá para sempre no leito do mar, se tornando um lar, inclusive, para a vida marinha local.

"Referimos a nós mesmos como o surfe e turfe do movimento do enterro natural", disse George Frankel, presidente-executivo da Eternal Reefs. De acordo com George, o conceito por trás dessa forma de sepultamento está na seguinte questão: "Se eu fosse a Mãe Natureza, de que forma eu gostaria de lidar com essa situação?"

A Eternal Reefs, uma empresa sediada no estado norte-americano da Flórida, oferece uma opção de sepultamento oceânico, que permite misturar os "restos mortais" das pessoas em uma cúpula repleta de orifícios chamada "bola de recife", que permanecerá para sempre no leito do mar, se tornando um lar, inclusive, para a vida marinha local.
Por mais que atualmente o modelo de negócios gire ao redor do "funeral de um ente querido", tudo começou sendo um projeto entre alguns amigos, que gostavam de mergulhar. Os co-fundadores Don Brawley e Todd Barber sabiam que os recifes costeiros da Flórida precisavam de ajuda para evitar que se deteriorassem. Sua solução foi desenvolver recifes artificiais, no formato de bolas, que são fabricados a partir de um concreto especialmente formulado para estimular o crescimento de novos recifes, tendo um efeito mínimo sobre o ambiente existente.

Essas tais "bolas" também tinham que sobreviver à influência violenta das correntes de tempestade subaquáticas, visto que seriam inúteis caso fossem arrastadas. Assim sendo, as mesmas pesam entre 270 e 1.800 quilos! As "bolas" possuem um formato de abóbada com grandes perfurações em toda a superfície. Essas perfurações garantem que a pressão da tempestade não se acumule, e não faça com que as mesmas sejam arrastadas para longe.

As "bolas" possuem um formato de abóbada com grandes perfurações em toda a superfície. Essas perfurações garantem, que a pressão da tempestade não se acumule, e não faça com que as mesmas sejam arrastados para longe.
"Nunca diria que a mãe natureza não pode fazer algo. Contudo, tenho que dizer que, se ela conseguir mover uma dessas bolas, é porque temos problemas maiores em terra do que no oceano", disse George Frankel.

Em 1998, a iniciativa ecológica encontrou um novo propósito após o sogro de Don Brawley, Carleton Palmer, ter dito que gostaria de ser sepultado no mar. "Ele ficou doente e disse que preferiria estar em um recife com toda aquela vida e atividade, do que estar em um campo com um monte de pessoas mortas e velhas", contou George. Após a morte de Palmer, no final daquele mesmo ano, Brawley percebeu que a maneira perfeita de honrar os desejos de seu pai seria misturar suas cinzas com o material da "bola de recife", transformando seus habitats de vida selvagem em uma espécie de memorial permanente. A partir daí, eles começaram a receber mais e mais pedidos de pessoas, que queriam que os seus restos mortais fossem transformados em recife artificiais e, assim, o conceito da Eternal Reefs nasceu.

Hoje, há três pilares em relação ao negócio realizado por Brawley: duas empresas que lidam com projetos de grande escala para a construção de recifes, assim como ajudar a estabelecer uma indústria de pesca sustentável, e a Eternal Reefs, que lida com o sepultamento propriamente dito. Há uma série de iniciativas, que trabalham para reabilitar ou criar novos recifes, mas os memoriais são os únicos que permitem que os restos mortais de uma pessoa façam parte da própria estrutura.

Após a morte de Palmer, no final daquele mesmo ano, Brawley percebeu que a maneira perfeita de honrar os desejos de seu pai seria misturar suas cinzas com o material da "bola de recife", transformando seus habitats de vida selvagem em um memorial permanente
George Frankel disse que considera essa iniciativa, como um passo importante no movimento de "enterro de conservação", para não confundir com o movimento de "enterro verde".

"O enterro verde tem tons de verde. O enterro de conservação é quando alguém se aproveitou de um terreno ecologicamente importante, que provavelmente alguém iria explorar com outros olhos, e se valeu da memorialização para preservar essa terra como um espaço verde permanente. Não há embalsamamento, nem caixões, e nem lápides tradicionais. É deixado praticamente em estado selvagem", disse George.

Das milhares de "bolas de recife", que são colocadas nos oceanos a cada ano, apenas cerca de 120 a 150 pertencem a Eternal Reefs, mas são compreensivelmente muito mais particulares. As pessoas podem escolher entre três tamanhos diferentes, que variam entre US$ 4.000 (cerca de R$ 13.000 pela cotação atual) a US$ 7.500 (cerca de R$ 25.000). As bolas de recife maiores podem acomodar diversos conjuntos de restos mortais, de modo que as famílias podem ser "enterradas" juntas, transformando a bola em uma espécie de mausoléu subaquático. Os amigos e os familiares são encorajados a deixar marcas, impressões de mãos, e mensagens no local. Cada uma das "bolas memoriais" também possui um medalhão de bronze personalizado para identificar o ente querido.

Das milhares de "bolas de recife", que são colocadas nos oceanos a cada ano, apenas cerca de 120 a 150 pertencem a Eternal Reefs,
mas são compreensivelmente muito mais particulares
Uma vez que as estruturas estão no fundo do oceano, elas são permanentes e podem ser visitadas a partir da superfície da água ou até mesmo durante um mergulho. Quanto ao tipo de pessoas que optam pelo sepultamento da Eternal Reefs, George disse que não eram apenas pescadores e mergulhadores. A Eternal Reefs vê uma série de pais de todas as idades, que por sua vez perderam os seus filhos, que chegam até eles procurando dar ao ente querido uma espécie de segunda vida como parte de um recife vivo. Outro pedido comum é adicionar as cinzas de animais de estimação, mas devido ao custo proibitivo, George disse que geralmente sugere que as pessoas esperem, e que tenham suas próprias cinzas "enterradas" juntamente com a do animal de estimação.

Atualmente, mais de 700 mil "bolas de recife" já foram colocadas em 70 países ao redor do mundo. As "bolas de recife memoriais" são apenas uma pequena parte desse número, mas George acredita que o "enterro de conservação" acabará por criar uma mudança radical em nossas práticas sobre a morte. Segundo ele, as "bolas memoriais" da Eternal Reefs podem ser apenas um pequeno passo na construção de um novo "ecossistema funerário". De qualquer forma, aparentemente, essa alternativa ainda depende de métodos como a cremação convencional ou a hidrólise alcalina.

Comentários Finais


A única certeza que temos atualmente é que iremos morrer um dia, por mais que existam diversas pesquisas, estudos e até mesmo tentativas de realização de experimentos com o objetivo de prolongar a nossa existência física. Embora isso ainda seja um tabu, afinal de contas ninguém gosta de pensar na morte, é realmente necessário uma profunda discussão sobre como devolver para a natureza aquilo que ela forjou ao longo de bilhões de anos. Evidentemente, o impacto de um corpo saudável parece ser irrelevante do ponto de vista biológico, do que toda a utilização de recursos naturais, que em vida, a pessoa tenha extraído da própria natureza. Portanto, qual seria a relevância? Bem, essa questão é muito mais comercial do que propriamente filosófica ou religiosa. Durante séculos houve uma institucionalização da morte, ou seja, a Igreja Católica, assim como suas mais diversas denominações, ditava a forma como tudo isso era feito. Porém, há um detalhe que poucos gostam de comentar: a eterna existência de toda uma indústria por trás da morte de um ente querido, e algo que não data dos últimos anos, mas dos últimos séculos. Veja bem, na melhor das hipóteses, clérigos, padres e até mesmo os responsáveis por cavar uma sepultura, sempre se beneficiaram de forma financeira. Ninguém trabalha de graça e raramente uma oração não possui um preço, ainda que o mesmo seja invisível e diluído em anos de contribuição para a caridade ou manutenção de uma igreja.

Dividir o espaço com outras formas de despedida, geralmente nunca é interpretado de forma positiva e, talvez, a cremação seja a mais injustiçada delas. O simbolismo da cremação representa a purificação, a sublimação e a ascensão. Os povos indo-iranianos em geral preferiam a cremação ao enterro como resultado dessas associações. Também era usada às vezes na Europa Ocidental na Idade do Bronze, espalhando-se depois pelo Império Romano. A dissolução quase completa do corpo no fogo simboliza a libertação da alma da carne e sua ascensão na fumaça. Esse método era preferido onde as doutrinas da ressurreição do corpo eram populares (por exemplo, no Egito e na Europa cristã), assim como pelos chineses, que sempre foram apegados ao solo nativo. O Papa Paulo VI, em 1963, publicou a Instrução do Santo Ofício "Piam et constantem", versando sobre o assunto, e meio que afrouxando as amarras sobre essa prática. Um dos principais fatores que contribuíram para a proibição anterior foi devido a Revolução Francesa, quando as pessoas, descrentes da vida eterna e da ressurreição dos mortos, incineravam os cadáveres para "provar", que não haveria forma alguma de Deus ressuscitar uma pessoa. Todavia, atualmente, apesar da Igreja insistir veementemente no sepultamentos dos corpos, a cremação não é proibida, desde que não seja motivada pelo desejo de se negar a fé que, nas entrelinhas, é basicamente o temor de perder adeptos.

No ano passado, para vocês terem uma ideia, o Vaticano divulgou novas regras para a cremação de católicos, que incluíam a proibição à conservação das cinzas do ente querido em casa, evitando que elas se tornassem "lembranças comemorativas", e que as mesmas deveriam ser mantidas em um "local sacro ou cemitério". Outro hábito comum, o de espalhar as cinzas no mar ou em qualquer outro tipo de ambiente, também foi vetado. Foi ressaltado aliás, que a Igreja continuava preferindo o sepultamento, porque assim era demonstrada uma estima maior em relação aos mortos. Será mesmo? Sinceramente, sempre que ouço falar sobre funerais, sejam eles enterros, cremações, deposição de cinzas em recifes artificiais, ovos debaixo da terra ou qualquer outra coisa, vem algo imediatamente em minha cabeça: dinheiro. Seria ingenuidade pensar que a fé não é um produto. Crucifixos, terços, livros, santinhos de papel, cristais, sininhos budistas, estátuas, camisetas religiosas, chaveiros e até mesmo uma água benta tem um custo inerente a sua crença. Se em vida a fé tem uma etiqueta de preço, muitas vezes invisível, seria ilógico pensar que na morte nada seria cobrado. A questão se torna justificar simbolicamente, culturalmente e até mesmo biblicamente a dor de uma pessoa.

Na minha visão de mundo, e ainda mais diante do país em que vivo, não entendo como é possível dizer para uma mãe, que ela não pode guardar as cinzas do seu filho(a) em casa. Por que ela deve pagar por um local em um cemitério, gastando mais dinheiro com passagem ou gasolina, e correr o risco de ser assaltada e eventualmente morta, sofrendo uma violência ou abuso físico, em um ambiente geralmente de péssima conservação e mórbido de nossos cemitérios? Por que essa mãe não pode adornar a urna do seu filho(a), mantendo-a protegida no calor do seu lar, tentando dar-lhe algo que não conseguiu ou não teve tempo em vida? Por que temos que crucificar a dor, penalizando a morte, por uma mera questão de estatística? Sinceramente, algumas regras ressoam a Idade Média, um tempo caótico onde a fé era resolvida na espada. Aparentemente, pouca coisa mudou, exceto a espada, que nem precisou de nenhum milagre para se transformar em uma caneta e uma folha de papel.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://abcnews.go.com/Technology/story?id=4828249
http://content.time.com/time/health/article/0,8599,2022206,00.html
http://www.atlasobscura.com/articles/reef-burial-eternal-florida-ball
http://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-sh/dissolving_the_dead
https://www.theatlantic.com/technology/archive/2014/10/how-to-be-eco-friendly-when-youre-dead/382120/
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