9 de maio de 2017

O Caso David Hahn: O Escoteiro Norte-Americano que Tentou Criar um "Reator Nuclear" no Quintal da Sua Própria Casa!


Por Marco Faustino

Provavelmente, assuntos relacionados as bombas atômicas e a energia nuclear nunca saíram da mídia desde a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos detonaram duas ogivas nucleares sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Foi a partir desse ponto, que o mundo realmente conheceu os perigos e os horrores provocados pela exposição à radiação. Desde então, no entanto, exércitos de inúmeros países nunca verdadeiramente chegaram a um consenso sobre a proliferação de tais armamentos. Aliás, nossa própria civilização apesar de conseguir manipular e fazer um uso benéfico em relação a equipamentos que utilizem materiais radioativos, tanto na medicina quanto na geração de energia considerada "limpa", continua totalmente perdida, quando ocorre uma explosão ou um grande vazamento nuclear. Basta ver o que aconteceu em Chernobyl, Fukushima, e em inúmeras cidades consideradas "secretas" do que atualmente é a Rússia. Isso sem considerar as centenas de testes nucleares desumanos e praticamente criminosos, que a União Soviética promoveu no Campo de Testes Nucleares de Semipalatinsk (SNTS), também conhecido como "O Polígono", no Cazaquistão, onde a União Soviética conduziu mais de 450 testes nucleares até que o campo fosse desativado em 1991. Entre eles, cerca de 111 testes nucleares foram aqueles considerados atmosféricos, assim como aqueles realizados na superfície da terra. Vale a pena conferir o material, que já fiz sobre esse último caso (leia mais: Os Horrores de Semipalatinsk: Os Soviéticos Esconderam um Desastre Nuclear no Cazaquistão Cerca de 4 Vezes Pior que Chernobyl?).

Agora, você já se imaginou construindo um reator nuclear? Quando se fala sobre esse tema, logo você pensa em homens ou mulheres com jalecos brancos, óculos e luvas de proteção, além de anos e anos de estudo e décadas de experiência, não é mesmo? Porém, você sabia que certo dia, um escoteiro norte-americano chamado David Hahn resolveu tentar construir um reator nuclear, no quintal de sua própria casa? Sua ideia e proposta surgiu meramente de um livro de ciências, que ele adorava ler e resultou em um incidente, no qual seu "laboratório" improvisado chegou a ter cerca de 1.000 vezes mais a dose considerada aceitável de radiação. Isso aconteceu no ano de 1994, quando um adolescente chamado David Hahn, 17 anos, tentou construir um reator regenerador nuclear caseiro. Ele conduziu experimentos, obviamente em segredo, em um galpão de jardinagem, no quintal da casa de sua mãe, em Commerce Township, no estado do Michigan. Por mais que seu reator nunca tenha atingido a massa crítica, ele atraiu a atenção da polícia local, ao ser abordado em relação a um outro problema ao encontrarem um determinado material em seu veículo. David, no entanto, alertou que o material era radioativo, e o local acabou tendo que sofrer uma descontaminação por parte da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, cerca de 10 meses depois. Será que ele conseguiria mesmo levar seus planos adiante, se não tivesse se metido em confusão com a polícia? Quais eram seus planos? Vamos saber mais sobre esse assunto?

A Divulgação do Caso David Hahn: O Artigo do Jornalista Ken Silverstein Para a Revista Harper's, em 1998


Por mais incrível que isso possa parecer, inicialmente o incidente não foi amplamente divulgado, e acabou tornando-se mais conhecido após um artigo publicado pelo jornalista Ken Silverstein, na revista norte-americana "Harper's", no ano de 1998. David Hahn também foi o tema de um livro lançado em 2004, desse mesmo jornalista, chamado "The Radioactive Boy Scout" ("O Escoteiro Radioativo", em português). Então, para começarmos a entender esse caso, nada melhor do que voltar no tempo, até novembro de 1998, e contar para vocês o que o Ken Silverstein escreveu naquela época.

Por mais incrível que isso possa parecer, inicialmente o incidente não foi amplamente divulgado, e acabou tornando-se mais conhecido após um artigo publicado pelo jornalista Ken Silverstein (na foto), na revista norte-americana "Harper's", no ano de 1998
Em seu primeiro parágrafo, Ken Silverstein disse que uma localidade chamada "Golf Manor", era o tipo de lugar onde nada de incomum supostamente acontecia, o tipo de lugar onde as pessoas moravam, justamente porque ficava a mais de 50 km de distância da cidade de Detroit, assim como distante de todas as dificuldades da mesma. O tipo de lugar onde o dinheiro poderia comprar um terreno maior ou permitia a construção de um segundo banheiro e, dessa forma, tranquilizava os moradores, que seguramente estavam no seio da classe média norte-americana.

Aliás, Golf Manor até hoje é uma espécie de bairro (na verdade, é subdivisão) de Commerce Township, que por sua vez é uma espécie de subúrbio da cidade de Detroit. Ao menos naquela época, havia uma placa na entrada de Golf Manor que dizia: "Temos muitas crianças, mas nenhuma sobrando. Por favor dirija com cuidado", o que dava um certa nostalgia.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre Commerce Township e a cidade de Detroit,
no estado norte-americano do Michigan
Em seu primeiro parágrafo, Ken Silverstein disse que uma localidade chamada "Golf Manor", era o tipo de lugar onde nada de incomum supostamente acontecia, o tipo de lugar onde as pessoas moravam, justamente porque ficava a mais de 50 km de distância da cidade de Detroit, e afastada de todos os problemas das mesma (imagem ilustra tão somente a foto de uma casa para alugar em Commerce Township)
Contudo, o dia 26 de junho de 1995, não foi um dia normal para aquela pequena localidade. Naquele dia, cerca de onze homens invadiram o gramado de uma determinada casa. A atenção deles parecia estar voltada no quintal dessa casa em questão, mais especificamente em relação a um galpão de jardinagem, de madeira, que ficava próximo a uma cerca, que por sua vez dividia o terreno em relação a propriedade vizinha. Três homens pareciam estar vestidos com trajes espaciais, e estavam desmantelando o galpão com serras elétricas. Cada pedaço de maneira era colocada em grandes tambores de aço, com símbolos de radioatividade. Uma vizinha chamada Dottie Pease acompanhou tudo de perto, porém nunca havia notado qualquer movimentação incomum ao seu lado.

Um casal de meia-idade, Michael Polasek e Patty Hahn, morava na tal casa. Em alguns fins de semana, eles estavam acompanhados pelo filho adolescente de Patty, o David. Contudo, certa vez Dottie Pease alegou ter acordado tarde da noite, e visto o galpão emitindo um brilho misterioso. Ela disse que ficou bem nervosa com a situação, e foi imediatamente chamar o seu marido, o Dave. Gaguejando, ela disse que havia homens com trajes "engraçados"andando no lado de fora, e que ele tinha que tomar alguma atitude. Só havia um único problema. O que os homens de trajes engraçados" encontraram no galpão de jardinagem estava perigosamente emitindo radiação, e colocando toda uma área com 40 mil habitantes em risco.

Contudo, o dia 26 de junho de 1995, não foi um dia normal para aquela pequena localidade. Naquele dia, cerca de onze homens invadiram o gramado de uma determinada casa. A atenção deles parecia estar voltada no quintal dessa casa em questão, mais especificamente em relação a um galpão de jardinagem, de madeira, que ficava próximo a uma cerca, que por sua vez dividia o terreno em relação a propriedade vizinha
Três homens pareciam estar vestidos com trajes espaciais, e estavam desmantelando o galpão com serras elétricas. Cada pedaço de maneira era colocada em grandes tambores de aço, com símbolos de radioatividade. Uma vizinha chamada Dottie Pease acompanhou tudo de perto, porém nunca havia notado qualquer movimentação incomum ao seu lado
Publicamente, os "homens de branco" disseram aos moradores locais que eles não tinham nada a temer, mas até o momento da publicação do artigo de Ken Silverstein, nem Dottie Pease ou qualquer outro morador sabia a verdadeira razão pela qual a Agência de Proteção Ambiental tinha invadido o bairro deles, ainda que brevemente. Quando questionados, a maioria dos moradores simplesmente falava sobre um vazamento de produtos químicos ou algo assim. A verdade, no entanto, era muito mais bizarra, a "limpeza" realizada em Golf Manor pelo "Superfundo" foi provocada por um adolescente chamado David Hahn, que tentou construir um reator regenerador nuclear, no galpão de jardinagem da sua mãe, como uma espécie de projeto para obter uma medalha de escoteiro. Nesse ponto vale destacar, que o "Superfundo" é um programa da Agência de Proteção Ambiental responsável por limpar alguns dos terrenos mais contaminados dos Estados Unidos, e responder a emergências ambientais, vazamentos de petróleo e desastres naturais.

Soava até mesmo estranho, que após 4 anos a história de David não tivesse ganhado a primeira página de diversos veículos de imprensa, e se tornasse algo lendário. Porém, na época, a Agência de Proteção Ambiental se recusou a fornecer o nome de David e, embora alguns repórteres locais soubessem do caso, nem ele ou sua família concordaram em ser entrevistados. Até mesmo os oficiais federais e estaduais, que supervisionaram a limpeza descobriram apenas uma pequena parte do que ocorreu no galpão, isso porque David, temendo repercussões legais, não disse quase nada sobre seus experimentos. Em 1996, Jay Gourley, correspondente do "Serviço de Notícias de Recursos Naturais", na capital norte-americana de Washington, encontrou um minúsculo artigo de jornal sobre o caso, e entrou em contato com David Hahn. Posteriormente, Jay passou sua pesquisa para o Ken Silverstein, que por sua vez conseguiu entrevistar os protagonistas dessa história, incluindo o David, que na época (em 1998), havia se tornado um marinheiro aos 22 anos, na cidade de Norfolk, no estado norte-americano da Virgínia.

A verdade, no entanto, era muito mais bizarra, a "limpeza" realizada em Golf Manor pelo "Superfundo" foi provocada por um adolescente chamado David Hahn, que tentou construir um reator regenerador nuclear, no galpão de jardinagem da sua mãe, como uma espécie de projeto para obter uma medalha de escoteiro
Ken Silverstein se encontrou com David na esperança de entender como um típico garoto suburbano, que normalmente aprenderia apenas trocar o óleo de um carro ou teria algumas lições de carpintaria poderia ter aprendido a construir um reator nuclear. Fazia ainda menos sentido se imaginássemos escoteiros apenas esfregando dois pedaços de madeira para fazer fogo. Porém, David não era esse tipo de adolescente, e nem escoteiro qualquer. Ele descobriu uma forma de enganar os funcionários da Comissão de Regulamentação Nuclear dos Estados Unidos (NRC) para lhe fornecer as informações cruciais de que necessitava na sua tentativa de construir um reator regenerador e, em seguida, obteve e purificou elementos radioativos como rádio e tório.

O jornalista chegou a ter acesso as fotografias da infância de David, em que ele aparentava ser perfeitamente normal, até mesmo angelical, com cabelos loiros e olhos castanhos esverdeados e, conforme crescia, seus braços e pernas ficavam cada vez mais delgados. Ken Silverstein esperava encontrar praticamente um gênio perdido, ou um obcecado por ciências na cidade de Norfolk, uma espécie de Einstein ou Kaczynski, mas tudo que ele viu foi apenas um garoto normal. David aparentava estar inicialmente desapaixonado pelo tema e, após cerca de cinco horas de conversas vazias e muitos cigarros, ele começou a contar como ele usava filtros de café e potes de pickles para lidar com substâncias mortíferas, como o rádio e o ácido nítrico, além das diversas histórias que contou para obter os materiais radioativos.

Sendo um adolescente tímido e retraído, David confidenciava seu projeto apenas para alguns amigos, mas nunca permitia que ninguém testemunhasse seus experimentos. Seu projeto de reator regenerador era um meio, ainda que pouco ortodoxo, de escapar do trauma que havia vivido na adolescência.

O jornalista chegou a ter acesso as fotografias da infância de David, em que ele aparentava ser perfeitamente normal, até mesmo angelical, com cabelos loiros e olhos castanhos esverdeados e...
...conforme crescia, seus braços e pernas ficavam cada vez mais delgados.
"Eu era muito emotivo quando criança, e aqueles experimentos foram uma forma de fugir disso. Eles me fizeram respeitável", disse David Hahn.

No livro "The Making of the Atomic Bomb", do autor Richard Rhodes, o mesmo observou que os perfis psicológicos dos físicos pioneiros norte-americanos eram notavelmente semelhantes. Geralmente, eles eram o filho mais velho de um pai que trabalhava, e tinha uma relação distante de afeto. Quase todos eram homens, leitores vorazes durante a infância, que costumavam se sentir solitários, o que os tornavam tímidos e distantes dos colegas de classe.

No livro "The Making of the Atomic Bomb" (à esquerda), do autor Richard Rhodes (à direita), o mesmo observou que os perfis psicológicos dos físicos pioneiros norte-americanos eram notavelmente semelhantes
Os pais de David, Ken e Patty Hahn, se divorciaram quando ele era criança. Ken era engenheiro automotivo da General Motors, assim como sua segunda esposa, Kathy Missig, com quem se casou logo após o divórcio. David morava com seu pai biológico e a madrasta em uma pequena casa de dois andares no subúrbio de Clinton Township, cerca de 40 km ao norte de Detroit. Ken trabalhava por muitas horas para a GM.

Com o cabelo cortado bem rente a cabeça, e uma tendência para camisas de mangas curtas, Ken irradiava uma frieza que, combinada com sua constante preocupação, com certeza perturbaria uma criança. Quando questionado sobre sua natureza retraída, Ken atribiu a responsabilidade a sua ascendência alemã. No entanto, apesar de toda a formalidade, era Kathy a principal responsável por disciplinar David.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre Clinton Township e Detroit,
no estado norte-americano do Michigan
David morava com seu pai biológico e a madrasta em uma pequena casa de dois andares no subúrbio de Clinton Township, cerca de 40 km ao norte de Detroit. Ken trabalhava por muitas horas para a GM
David passava fins de semana e feriados com sua mãe biológica e seu respectivo namorado, Michael Polasek, um operador de empilhadeira aposentado muito amável da GM, mas que adorava beber. Golf Manor era demograficamente semelhante a Clinton Township, mas as duas famílias eram bem diferentes emocionalmente falando. Infelizmente, Patty Hanh tirou a própria vida em 1996, mas Michael ainda vivia cercado por fotos dela. Disse que ela era uma linda pessoa, e que ela era tudo em sua vida. Ainda assim, ele ainda criava cinco gatos e mantinha a casa impecável.

Apesar de David ter precisado dividir suas atenções entre os dois lares, seus primeiros anos de vida foram aparentemente normais. Ele jogou beisebol e futebol, juntou-se aos escoteiros e passou horas intermináveis ​​explorando a natureza com seus amigos. Uma mudança repentina ocorreria aos 10 anos de idade, quando o pai de Kathy, também engenheiro da GM, deu a David um livro chamado "The Golden Book of Chemistry Experiments" ("O Livro de Ouro dos Experimentos Químicos", em português). O livro prometia abrir as portas para um mundo novo e encorajador.

Apesar de David ter precisado dividir suas atenções entre os dois lares, seus primeiros anos de vida foram aparentemente normais. Ele jogou beisebol e futebol, juntou-se aos escoteiros e passou horas intermináveis ​​explorando a natureza com seus amigos
O livro afirmava que "a química significava a diferença entre a pobreza e a fome, e a vida 'abundante'", oferecendo instruções sobre como criar um laboratório em casa, e realizar experimentos que iam desde a evaporação e filtração até fazer rayon (seda artificial) e álcool. David rapidamente se apaixonou pelo assunto, e aos 12 anos estava lendo os livros de química de seu pai sem maiores dificuldades. Quando passava a noite em Golf Manor, sua mãe muitas vezes acordava e se deparava como ele dormindo no chão da sala, rodeado por volumes abertos da Enciclopédia Britânica.

Uma mudança repentina ocorreria aos 10 anos de idade, quando o pai de Kathy, também engenheiro da GM, deu a David um livro chamado "The Golden Book of Chemistry Experiments" ("O Livro de Ouro dos Experimentos Químicos", em português). O livro prometia abrir as portas para um mundo novo e encorajador
O livro afirmava que "a química significava a diferença entre a pobreza e a fome, e a vida 'abundante'", oferecendo instruções sobre como criar um laboratório em casa (na imagem acima), e realizar experimentos que iam desde a evaporação e filtração até fazer rayon (seda artificial) e álcool
Na casa de seu pai, David montou um laboratório em seu pequeno quarto, onde ainda constavam livros tais como "Prudent Practices for Handling Hazardous Chemicals in Laboratories" e "The Story of Atomic Energy", nas prateleiras. Ele havia comprado béqueres, bicos de Bunsen, tubos de ensaio e outros itens comumente encontrados em um conjunto de química infantil. David, porém, não estava conduzindo as típicas experiências de adolescentes. Aos 14 anos, uma idade em que a maioria dos rapazes com uma inclinação para o campo da Química, estaria realizando experimentos rudimentares com pólvora, David havia fabricado nitroglicerina. Os pais de David ficavam admirados pelo seu interesse pela ciência, mas também ficavam preocupados devido aos vazamentos químicos e explosões que tinham se tornado uma rotina na casa do pai de David. Depois que ele destruiu seu quarto - as paredes tinham diversas marcas e o carpete estava tão manchado que precisou ser arrancado -, Ken e Kathy baniram seus experimentos para o porão.

Isso acabou sendo positivo para David. A ciência permitia que ele se distanciasse de seus pais, criasse e destruísse coisas, quebrasse as regras e escapasse para algo em que fosse um sucesso, sublimando o sentimento de fracasso, raiva e vergonha, em algumas grandes explosões. David acabou trabalhando em redes de fast-food, supermercados e lojas de móveis, mas o trabalho era apenas um meio de financiar seus experimentos. Por não ser um aluno entusiasmado, e sempre ter sido um orador terrível, David acabou ficando para trás em termos escolares. Durante seu primeiro ano na Escola de Ensino Médio Chippewa Valley (Chippewa Valley High School), ocasião na qual ele estava realizando experimentos nucleares secretamente em seu quintal, David quase falhou nos testes estaduais de matemática e interpretação de texto, que eram necessários para a graduação (embora ele tenha praticamente gabaritado o teste de ciências). Ken Gherardini, responsável por ensinar física conceitual ao David, lembrou dele como um excelente aluno, pelo menos nas raras ocasiões que ele estava interessado nos deveres de classe, exceto em seus próprios estudos.

Durante seu primeiro ano na Escola de Ensino Médio Chippewa Valley (Chippewa Valley High School), ocasião na qual ele estava realizando experimentos nucleares secretamente em seu quintal, David quase falhou nos testes estaduais de matemática e interpretação de texto, que eram necessários para a graduação (embora ele tenha praticamente gabaritado o teste de ciências)
"O sonho da vida dele era coletar uma amostra de cada elemento da tabela periódica. Não sei quanto a você, mas meu sonho na idade ele era de comprar um carro", disse Ken Gherardini, em entrevista ao jornalista Ken Silverstein.

A preocupação científica de David deixou cada vez menos tempo para os seus amigos, embora durante a maior parte do Ensino Médio ele tivesse uma namorada chamada Heather Beaudette, três anos mais nova. Heather disse que ele era doce e atencioso. Certa vez, ela retornou de uma longa viagem de uma semana pela Flórida, e encontrou uma pilha de longas cartas de amor, mas nem sempre os encontros eram perfeitos. A mãe de Heather, Donna Bunnell, disse: "Ele era um garoto legal, e sempre estava bem vestido, mas (nos dias anteriores ao seu segundo casamento), tivemos que dizer para ele não falar com ninguém. Ele podia comer e beber, mas pelo amor de Deus, que não falasse com os convidados sobre a composição química da comida."

A preocupação científica de David deixou cada vez menos tempo para os seus amigos, embora durante a maior parte do Ensino Médio ele tivesse uma namorada chamada Heather Beaudette, três anos mais nova. A mãe de Heather, Donna Bunnell (na foto), disse ele era um garoto legal e andava sempre bem visto, mas falava quase o tempo todo de assuntos científicos
Nem mesmo a sua tropa de escoteiros foi poupada do entusiasmo científico de David. Uma vez ele apareceu em uma reunião de escoteiros com um rosto brilhante, na cor laranja, causado por uma overdose de cantaxantina, que ele estava tomando para testar métodos de bronzeamento artificial. Em um certo verão no acampamento de escoteiros, os companheiros de David abriram um buraco na barraca comunitária, quando eles acidentalmente incendiaram o estoque de magnésio em pó, que ele trouxera para fazer fogos de artifício. Em um determinado ano, David foi expulso do acampamento. O motivo? Bem, enquanto a maioria dos seus amigos estava entrando secretamente no acampamento de escoteiras, que ficava relativamente próximo, David estava roubando diversos detectores de fumaça para desmontar as peças necessárias para seus experimentos.

"Nossas férias de verão foram destruídas, quando recebemos uma ligação nos dizendo para pegar o David mais cedo no acampamento", lembrou a madrasta, soltando um longo suspiro.

Nem mesmo a sua tropa de escoteiros foi poupada do entusiasmo científico de David. Uma vez ele apareceu em uma reunião de escoteiros com um rosto brilhante, na cor laranja, causado por uma overdose de cantaxantina, que ele estava tomando para testar métodos de bronzeamento artificial (imagem meramente ilustrativa para representar um grupo de escoteiros)
Até aquele ponto, no entanto, os materiais mais ilícitos de David eram fogos de artifício e bebidas com alto teor alcoólico. Porém, convencido de que as experiências de David e o comportamento cada vez mais errático eram sinais de que ele estava produzindo e vendendo drogas, Ken e Kathy começaram a verificar a biblioteca pública, onde David dizia que estudava. De vez em quando, David comparecia conforme havia mencionado, cercado por uma enorme pilha de livros de Química. De qualquer forma, isso não os acalmou e, preocupados com a integridade da própria residência, eles proibiram que David ficasse sozinho, trancando-o para fora de casa, mesmo que fosse por curtos períodos de tempos. Além disso, era determinado um horário para ele pudesse retornar. Kathy também começou a fazer buscas no quarto de David. Ela começou a eliminar os produtos químicos e os equipamentos que encontrava escondidos debaixo da cama e no fundo do guarda-roupa.

David, no entanto, não foi dissuadido. Certa noite, quando Ken e Kathy estavam sentados na sala de estar assistindo TV, a casa foi abalada por uma explosão no porão. Lá, eles encontraram David deitado semiconsciente no chão, com suas sobrancelhas saindo fumaça. Sem saber que o fósforo vermelho era pirofórico, Davi bateu com uma chave de fenda e o acendeu. Ele foi levado às pressas para o hospital para que seus olhos fossem adequadamente tratados, mas ele acabou tendo que fazer visitas regulares a um oftalmologista para remover cuidadosamente, as partículas plásticas do recipiente em que o fósforo estava, dos seus olhos.

David, no entanto, não foi dissuadido. Certa noite, quando Ken (na foto) e Kathy estavam sentados na sala de estar assistindo TV, a casa foi abalada por uma explosão no porão. Lá, eles encontraram David deitado semiconsciente no chão, com suas sobrancelhas saindo fumaça
Kathy então proibiu David de fazer experimentos em sua casa. Então, ele mudou sua base de operações para o galpão de jardinagem da sua mãe, em Golf Manor. Tanto Patty Hahn quanto Michael Polasek admiravam David pelas intermináveis horas que passava em seu novo laboratório, mas nenhum deles tinha ideia do que ele estava tramando. Claro, eles achavam estranho que David muitas vezes usasse uma máscara de gás no galpão, e às vezes descartasse suas roupas depois de trabalhar lá até as 2h da manhã, mas eles tinham sua própria forma de lidar com essa questão.

Michael chegou a dizer que David tentou explicar seus experimentos, mas que tudo soou muito estranho e confuso para ele. O adolescente dizia que seu projeto tinha algo a ver com "a criação de energia". David também dizia que algum dia o mundo ficaria sem petróleo, e que queria fazer algo em relação a isso.

Kathy então proibiu David de fazer experimentos em sua casa. Então, ele mudou sua base de operações para o galpão de jardinagem da sua mãe, em Golf Manor (na foto). Tanto Patty Hahn quanto Michael Polasek admiravam David pelas intermináveis horas que passava em seu novo laboratório, mas nenhum deles tinha ideia do que ele estava tramando
Assim como Michael, poucas pessoas em quem David confidenciou seus planos, entenderam o que ele estava fazendo. Ken Hahn, que havia feito cursos de química na faculdade, facilmente poderia ter acompanhado de perto algumas das coisas que David lhe disse, mas acreditou que o menino estivesse exagerando. "Nunca vi ele ficar verde ou brilhar no escuro. Provavelmente fui muito ingênuo em relação a ele", disse Ken Hahn.

Embora Ken estivesse imensamente orgulhoso dos experimentos de David a partir do momento que os mesmos passaram a ter uma certa notoriedade, no passado eles representaram uma espécie de ruptura educacional. Conforme os pais costumam fazer, Ken sentiu que a solução estava em um objetivo, que ele próprio não havia alcançado quando criança: a maior "patente" que se pode alcançar no programa dos Escoteiros dos Estados Unidos, ou seja, se tornar um "Eagle Scout" (algo como "Escoteiro Águia", em uma tradução livre para o português). Assim como os adolescentes costumam fazer, David subverteu esse objetivo.

Conforme os pais costumam fazer, Ken sentiu que a solução estava em um objetivo, que ele próprio não havia alcançado quando criança: a maior "patente" que se pode alcançar no programa dos Escoteiros dos Estados Unidos, ou seja, se tornar um "Eagle Scout" (algo como "Escoteiro Águia", em uma tradução livre para o português)
Além de mostrar o "espírito dos escoteiros", os "Eagle Scouts" precisam ganhar 21 medalhas de mérito. Cerca de 11 medalhas eram obrigatórias, tais como "Primeiros Socorros" e "Cidadania na Comunidade" (ao menos naquela época). As últimas 10, no entanto, eram opcionais.

Os escoteiros podiam escolher entre dezenas de opções, que iam desde "Empreendimentos nos Estados Unidos" até "Carpintaria". David escolheu ganhar uma medalha de mérito sobre energia atômica. Joe Auito, o então chefe dos escoteiros responsável por David, que morava em uma estrada rural, a mais ou menos uma hora ao norte de Detroit, chegou a mencionar, que ele era o único garoto a ter feito isso na história de Tropa 371 de Clinton Township.

Além de mostrar o "espírito dos escoteiros", os "Eagle Scouts" precisam ganhar 21 medalhas de mérito. Cerca de 11 medalhas eram obrigatórias, tais como "Primeiros Socorros" e "Cidadania na Comunidade" (ao menos naquela época).
As últimas 10, no entanto, eram opcionais.
O folheto sobre a medalha de mérito de David, em relação a energia atômica, era claramente em favor da mesma, o que não era nenhuma surpresa considerando que foi preparado com a ajuda da Westinghouse Electric, da Sociedade Nuclear Americana, do Instituto Elétrico Edison, e de um determinado grupo de empresas, sendo que algumas possuíam centrais nucleares em atividade.

O folheto dizia que os Estados Unidos era uma democracia, e que "o povo decidia o que o país fazia". O material também sugeria, no entanto, que os críticos da energia atômica descendiam de uma longa linha de opositores descontentes, advertindo que: "se os Estados Unidos decidissem a favor ou contra usinas nucleares baseados no medo ou na má interpretação, seria algo errado. As pessoas deveriam saber primeiro a verdade sobre a energia atômica, antes que pudessem decidir utilizá-la ou não."

O folheto sobre a medalha de mérito de David, em relação a energia atômica, era claramente em favor da mesma, o que não era nenhuma surpresa considerando que foi preparado com a ajuda da Westinghouse Electric, da Sociedade Nuclear Americana, do Instituto Elétrico Edison, e de um determinado grupo de empresas, sendo que algumas possuíam centrais nucleares em atividade
David recebeu sua medalha de mérito de Energia Atômica em 10 de maio de 1991, cinco meses antes de completar 15 anos. Para ganhá-la, ele fez um desenho mostrando como a fissão nuclear ocorria, visitou uma unidade de radiologia de um hospital para aprender sobre os usos médicos de radioisótopos, e construiu um modelo de reator usando suco enlatado, cabides, anéis de lata de refrigerante, fósforos de cozinha e elásticos. No entanto, David tinha ambições muito maiores, ele realmente queria construir um reator nuclear, nesse caso um reator regenerador nuclear.

David recebeu sua medalha de mérito de Energia Atômica em 10 de maio de 1991,
cinco meses antes de completar 15 anos
Para ganhá-la, ele fez um desenho mostrando como a fissão nuclear ocorria, visitou uma unidade de radiologia de um hospital para aprender sobre os usos médicos de radioisótopos, e construiu um modelo de reator usando suco enlatado, cabides, anéis de lata de refrigerante, fósforos de cozinha e elásticos (na foto)
Agora, o que é um reator regenerador? A descrição mais simples sobre isso vem da publicação que David obteve do Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE): "Imagine que você tem um carro, e inicie uma longa viagem. Quando você começa, você tem metade de um tanque de gasolina. Quando você volta para casa, em vez de estar quase vazio, seu tanque de gasolina está quase cheio. Um reator regenerador é como esse carro mágico. Um reator regenerador não somente gera eletricidade, mas também produz um novo combustível."

Todos os reatores, convencionais ou regeneradores, dependem de diversos elementos naturalmente radioativos, geralmente o urânio-235 ou plutônio-239, como o "combustível" para uma cadeia sustentável de reações conhecida como fissão. A fissão ocorre quando um nêutron combina com o núcleo de um radioisótopo, digamos o urânio-235, transformando-o em urânio-236. Este novo isótopo é altamente instável e imediatamente se divide ao meio, formando dois núcleos menores, e liberando uma grande quantidade de energia radiante (uma delas é o calor) e diversos nêutrons. Esses nêutrons, por sua vez, são absorvidos por outros átomos de urânio-235 para iniciar o processo novamente.

Na prática,um reator regenerador geralmente é configurado de modo que um núcleo de plutônio-239 seja cercado por um "cobertor" de urânio-238. Quando o plutônio libera os nêutrons, eles são absorvidos pelo urânio-238 para se tornar urânio-239, que por sua vez decai emitindo raios beta, sendo transformado em neptúnio-239. Depois de outra etapa de "decaimento radioativo", o neptúnio torna-se plutônio-239, que pode reabastecer o núcleo de combustível.

Quando os nêutrons são liberados, eles são absorvidos pelo urânio-238 para se tornar urânio-239, que por sua vez decai emitindo raios beta, sendo transformado em neptúnio-239. Depois de outra etapa de "decaimento radioativo", o neptúnio torna-se plutônio-239, que pode reabastecer o núcleo de combustível
A indústria nuclear costumava criar tais reatores como uma "solução mágica" para as necessidades energéticas da população norte-americana. O governo abriu dois reatores regeneradores experimentais em um local de teste em Idaho, em 1961. Em 1963, a Detroit Edison inaugurou a usina "Enrico Fermi I", o primeiro e único reator regenerador comercial do país.

Na década seguinte, o Congresso dos Estados Unidos se apropriou de bilhões de dólares para a construção do reator regenerador de Clinch River, no Tennessee. As esperanças foram tão altas, que Glenn Seaborg, presidente da Comissão de Energia Atômica durante os anos em que Richard Nixon estava a frente da presidência dos Estados Unidos, previu que os reatores regeneradores seriam a espinha dorsal de uma economia nuclear emergente, e que o plutônio poderia ser "um candidato óbvio para substituir o ouro como padrão do sistema monetário nacional."

A indústria nuclear costumava criar tais reatores como uma "solução mágica" para as necessidades energéticas da população norte-americana. O governo abriu dois reatores regeneradores experimentais em um local de teste em Idaho, em 1961. Na foto aparece o primeiro deles, o Reator Regenerador Experimental I (EBR-1).
Imagem interna da unidade que abrigava o Reator Regenerador Experimental I
Foto da sala de controle do Reator Regenerador Experimental I
Tal otimismo se provou ser injustificável. O primeiro reator regenerador de Idaho teve que ser desligado após sofrer um derretimento parcial do núcleo. O segundo gerava energia, mas nenhum combustível novo. Já a usina "Enrico Fermi I", localizada a apenas 100 km de Clinton Township, sofreu problemas considerados "mecânicos", acidentes, e custos acima do previsto. Para piorar a situação, a energia produzida era extremamente cara. Em 1966, o núcleo da usina nuclear sofreu um derretimento parcial após o mau funcionamento do sistema de arrefecimento. Seis anos depois, a usina foi fechada permanentemente. Em 1983, quando foram calculados os custos para conclusão do reator regenerador de Clinch River, e perceberam que o mesmo iria absorver grande parte do orçamento federal para pesquisa e desenvolvimento de energia, o Congresso finalmente desmantelou o programa relacionado a Clinch River.

Ainda que soubesse desses contratempos, David não seria de forma alguma dissuadido por eles. Sua inspiração vinha dos pioneiros nucleares do fim do século XIX e início do século XX: Antoine Henri Becquerel, físico francês que, junto com Pierre e Marie Curie, recebeu o Prêmio Nobel de Química, em 1903, por descobrir a radioatividade; Fredic e Irene Joliot-Curie, que receberam o prêmio, em 1935, por produzir o primeiro radioisótopo artificial; Sir James Chadwick, que ganhou o prêmio Nobel de Física no mesmo ano, por descobrir o nêutron; além de Enrico Fermi, que criou a primeira reação em cadeia nuclear sustentável do mundo, um passo crucial para a produção de energia atômica e bombas nucleares.

Ainda que soubesse desses contratempos, David não seria de forma alguma dissuadido por eles. Sua inspiração vinha dos pioneiros nucleares do fim do século XIX e início do século XX, tais como: Antoine Henri Becquerel (à esquerda), físico francês que, junto com Pierre e Marie Curie, recebeu o Prêmio Nobel de Química, em 1903, e Enrico Fermi (à direita), que criou a primeira reação em cadeia nuclear sustentável do mundo, um passo crucial para a produção de energia atômica e bombas nucleares
Ao contrário de seus predecessores, no entanto, David não tinha um grande apoio financeiro do Estado, nenhum laboratório (exceto um galpão embolorado), nenhum instrumento adequado ou dispositivos de segurança e, de longe, seu principal impedimento: nenhum meio legal de obter materiais radioativos. Para contornar esse último obstáculo, David inventou diversas histórias e utilizou diversas identidades, além de um kit de contador Geiger, que ele encomendou pelo correio, no qual ele montou e fixou ao painel de seu carro, um Pontiac 6000.

David não tinha a ideia de tentar construir um reator regenerador, quando ele começou com seus experimentos nucleares aos 15 anos de idade, mas dando um passo em direção a esse caminho, ele já estava determinado a "irradiar qualquer coisa" que pudesse. Para isso ele tinha que construir uma "arma", que pudesse bombardear isótopos com nêutrons. Então, David escreveu para diversos grupos - o Departamento de Energia (DOE), a Sociedade Nuclear Americana, o Instituto Elétrico Edson e o Fórum Industrial Atômico, um grupo industrial envolvido com energia nuclear -, na esperança de descobrir como ele poderia obter, a partir de fontes naturais e comerciais, as matérias-primas radioativas que ele precisava para construir sua arma de nêutrons e experimentá-la.

Então, David escreveu para diversos grupos - o Departamento de Energia (DOE),a Sociedade Nuclear Americana, o Instituto Elétrico Edson e o Fórum Industrial Atômico, um grupo industrial envolvido com energia nuclear -, na esperança de descobrir como ele poderia obter, a partir de fontes naturais e comerciais, as matérias-primas radioativas que ele precisava para construir sua arma de nêutrons e experimentá-la. A imagem acima foi extraída de um documentário produzido pela "Eagle TV", em 2003, ocasião em que David tinha 27 anos.
Ao escrever até 20 cartas por dia, e afirmando ser um professor de física na Escola de Ensino Médio Chippewa Valley, David disse que obteve ""toneladas" de informações desses e de outros grupos, embora algumas tivessem apenas um valor marginal. Para terem uma ideia, a Sociedade Nuclear Americana enviou ao David, um livro de professor chamado "Goin’ Fission", no qual Albert Einstein era apresentado como se fosse um personagem de desenho animado.

Outras organizações mostraram-se muito mais úteis, e nenhuma mais do que a Comissão de Regulamentação Nuclear (NRC). Mais uma vez apresentando-se como um professor de física, David conseguiu iniciar uma discussão científica por correio com Donald Erb, então diretor da Agência de Produção e Distribuição de Isótopos. Erb ofereceu a David dicas para isolar certos elementos radioativos, forneceu uma lista de isótopos que poderiam sustentar uma reação em cadeia, e forneceu uma informação que em pouco tempo se revelaria vital para os planos de David: "Nada produz nêutrons... tão bem quanto o berílio."

Ao escrever até 20 cartas por dia, e afirmando ser um professor de física na Escola de Ensino Médio Chippewa Valley, David disse que obteve ""toneladas" de informações desses e de outros grupos, embora algumas tivessem apenas um valor marginal. Outras organizações mostraram-se muito mais úteis, e nenhuma mais do que a Comissão de Regulamentação Nuclear (NRC).
Quando David perguntou a Erb sobre os riscos representados por tais materiais radioativos, o oficial da NRC garantiu ao "professor Hahn", que os "perigos reais eram muito pequenos", uma vez que a posse de quaisquer materiais radioativos em quantidade suficiente para representar qualquer ameaça real, estava sujeita ao licenciamento (ou algo equivalente) da Comissão de Regulamentação Nuclear. David disse que o NRC também enviou informações sobre preços e fontes comerciais de alguns dos produtos radioativos, que ele queria comprar, "obviamente para o benefício de seus impacientes alunos".

"A NRC me deu todas as informações que eu precisava. Tudo o que eu tinha que fazer era sair e pegar os materiais", disse David Hahn. Munido com as informações de seus amigos do governo e da indústria, David criou uma lista de fontes para 14 isótopos radioativos. O Amerício-241 ele descobriu que poderia ser encontrado em detectores de fumaça; o rádio-226, em antigos relógios de parede luminosos; o urânio-238 e pequenas quantidades de urânio-235, em um minério de cor negra chamado uraninita; e o tório-232, em lampiões do estilo Coleman.

"A NRC me deu todas as informações que eu precisava. Tudo o que eu tinha que fazer era sair e pegar os materiais", disse David Hahn. Munido com as informações de seus amigos do governo e da indústria, David criou uma lista de fontes para 14 isótopos radioativos
Para obter o amerício-241, David entrou em contato com empresas, que fabricavam detectores de fumaça, e alegou que precisava de um grande número de dispositivos para um projeto escolar. Uma empresa concordou em vender cerca de 100 detectores quebrados por um dólar cada. (lembrando que ele também tentou "coletar" detectores, enquanto estava no acampamento de escoteiros). David não sabia ao certo onde o amerício-241 estava localizado, então ele escreveu para uma empresa chamada BRK Electronics em Aurora, no estado norte-americano do Illinois.

Para obter o amerício-241, David entrou em contato com empresas, que fabricavam detectores de fumaça, e alegou que precisava de um grande número de dispositivos para um projeto escolar
Uma representante do serviço de atendimento ao cliente chamada Beth Weber escreveu uma outra carta respondendo, que ficaria feliz em ajudá-lo com "seu relatório". Ela explicou que cada detector continha apenas uma pequena quantidade de amerício-241, que estava selado em uma matriz de ouro, "para certificar-se que a corrosão não o desprendesse".

Graças a dica de Beth Weber, David extraiu os componentes do amerício e então os fundiu com a ajuda de um maçarico. É interessante ressaltar nesse ponto, que em um detector de fumaça, a radioatividade na fonte emite um fluxo constante de partículas alfa, que são detectados por um pequeno detector, produzindo assim uma pequena corrente. Se a fumaça preencher o espaço entra a fonte e o detector, a corrente diminui, então o alarme dispara.

Uma representante do serviço de atendimento ao cliente chamada Beth Weber escreveu uma outra carta respondendo, que ficaria feliz em ajudá-lo com "seu relatório". Ela explicou que cada detector continha apenas uma pequena quantidade de amerício-241, que estava selado em uma matriz de ouro, "para certificar-se que a corrosão não o desprendesse"
Graças a dica de Beth Weber, David extraiu os componentes do amerício
e então os fundiu com a ajuda de um maçarico
À medida que decai, o amerício-241 emite raios alfa compostos de prótons e nêutrons. David colocou o amontoado de amerício dentro de um bloco oco de chumbo com um minúsculo buraco em um dos lados, de modo que os raios alfa saíssem. Na frente do bloco de chumbo ele colocou uma folha de alumínio. Os átomos de alumínio absorvem os raios alfa e, no processo, expulsam os nêutrons. Como os nêutrons não têm carga e, portanto, não podem ser medidos por um contador Geiger, David não tinha como saber se a arma estava funcionando, até se lembrar que a parafina libera prótons, quando atingida por nêutrons. David apontou seu aparato em um pouco de parafina, e seu contador Geiger registrou o que supôs ser um fluxo de prótons. Sua arma de nêutrons, rude mas eficaz, estava pronta.

Com sua arma de nêutrons nas mãos, David estava pronto para irradiar. Ele poderia ter se concentrado na transformação de elementos anteriormente não-radioativos, mas ele quis usar a arma em radioisótopos para aumentar as chances de serem "fissionáveis". Ele acreditava que o urânio-235, que é usado em armas atômicas, forneceria a "maior reação". Ele percorreu centenas de quilômetros por toda a região norte do estado do Michigan em seu carro procurando pelas melhores pedras com seu contador Geiger, mas tudo que ele encontrou foi uma quantidade ínfima de uraninita nas margens do Lago Huron.

David percorreu centenas de quilômetros por toda a região norte do estado do Michigan em seu carro procurando
pelas melhores pedras com seu contador Geiger, mas...
...tudo que ele encontrou foi uma quantidade ínfima de uraninita nas margens do Lago Huron
Seguindo uma abordagem mais burocrática, ele escreveu para uma empresa, da então Checoslováquia, que vendia urânio a compradores comerciais e universitários, cujo nome foi fornecido, segundo ele, pela NRC. Alegando ser um professor, que comprava materiais para um laboratório da pesquisa nuclear, ele obteve algumas amostras de um minério preto - fosse uraninita ou o dióxido de urânio, porém ambos contendo pequenas quantidades de urânio-235 e urânio-238.

David pulverizou os minérios com um martelo, pensando que poderia usar o ácido nítrico para isolar o urânio. Incapaz de encontrar uma fonte comercial para o ácido nítrico - provavelmente porque ele é usado na fabricação de explosivos e, portanto, é rigorosamente controlado - David fez o seu próprio ácido nítrico ao aquecer salitre e bissulfato de sódio, e borbulhando o gás que foi liberado através de um recipiente com água. Então, ele misturou o ácido com o minério em pó, e "cozinhou" a mistura, resultando com algo parecido com um "milk-shake". Em seguida, ele passou esse "milk-shake" por um filtro de café, esperando que o urânio passasse pelo filtro. Porém, David calculou mal a solubilidade do urânio, e qualquer quantidade que estivesse presente ficou aprisionada no filtro, tornando ainda mais difícil purificá-lo.

Frustrado com a sua incapacidade de isolar suprimentos suficientes de urânio, David voltou sua atenção para o tório-232 que, quando bombardeado com nêutrons produz urânio-233, um elemento fissionável criado pelo homem (e, embora talvez ele não soubesse, o mesmo pode ser substituído por plutônio em reatores regeneradores). Descoberto em 1828 e nomeado devido ao deus nórdico Thor, o tório tem um ponto de fusão muito elevado, razão pela qual é usado na fabricação das peças de motores do avião, que alcançam temperaturas extremamente elevadas. No entanto, David sabia que o "manto" usado em lampiões comerciais - a parte que parece uma meia de boneca e conduz a chama - era revestido com um composto contendo tório-232. Ele comprou milhares de mantos de lampiões em lojas de artigos usados e, usando um maçarico, reduziu-os em uma pilha de cinzas.

Descoberto em 1828 e nomeado devido ao deus nórdico Thor, o tório tem um ponto de fusão muito elevado, razão pela qual é usado na fabricação das peças de motores do avião, que alcançam temperaturas extremamente elevadas
David sabia que o "manto" usado em lampiões comerciais - a parte que parece uma meia de boneca e conduz a chama - era revestido com um composto contendo tório-232. Ele comprou milhares de mantos de lampiões em lojas de artigos usados e, usando um maçarico, reduziu-os em uma pilha de cinzas.
David ainda tinha de isolar o tório-232 das cinzas. Felizmente, ele se lembrava de ler em um dos livros de química de seu pai, onde dizia que o lítio era propenso a se ligar ao oxigênio. Isso significava que, ao menos nesse contexto, que o mesmo roubaria o dióxido de tório do oxigênio e deixaria uma forma mais limpa de tório. David comprou o equivalente a US$ 1.000 em baterias de lítio e extraiu o elemento, cortando as baterias ao meio com um par de cortadores de fio. Ele colocou o dióxido de lítio e de tório juntos, em bola de papel alumínio, e aqueceu essa bola com um bico de Bunsen. O método de David purificou o tório a pelo menos 9.000 vezes o nível encontrado na natureza, e cerca de 170 vezes o nível que era necessário para o obter o licenciamento da NRC. Nesse ponto, David poderia ter usado sua arma de nêutrons de amerício para transformar o tório-232 em urânio-233 fissionável. Porém, o amerício que ele tinha não era capaz de produzir nêutrons, então ele começou a preparar rádio, para uma arma irradiadora aprimorada.

O rádio foi utilizado na pintura, que resultou nos mostradores numéricos e ponteiros luminosos de relógios e painéis de instrumentos de carros e aeronaves até o fim da década de 1960, quando foi descoberto que muitas profissionais da área, que rotineiramente trabalhavam para dar o melhor acabamento possível, morriam de câncer ou sofriam severas deformações físicas (um episódio que ficou conhecido nos Estados Unidos como "radium girls").

O rádio foi muito utilizado em pinturas fim da década de 1960, quando foi descoberto que muitas profissionais da área, que rotineiramente trabalhavam para dar o melhor acabamento possível, morriam de câncer ou sofriam severas deformações físicas (um episódio que ficou conhecido nos Estados Unidos como "radium girls")
David começou a visitar antiquários e até ferros-velhos em busca de painéis ou relógios revestidos de rádio. Uma vez que encontrou tais itens, ele passou a desbastar a tinta dos instrumentos e armazená-los em frascos de comprimidos. O processo estava lento e demorado, até que um dia, dirigindo por Clinton Township para visitar a sua namorada, a Heather, ele percebeu que seu contador Geiger disparou ao passar por uma loja chamada "Gloria's Resale Boutique/Antique".

O processo estava lento e demorado, até que um dia, dirigindo por Clinton Township para visitar a sua namorada, a Heather, ele percebeu que seu contador Geiger disparou ao passar por uma loja chamada "Gloria's Resale Boutique/Antique"
O rádio foi utilizado na pintura, que resultou nos mostradores numéricos e ponteiros luminosos de relógios (que brilhavam no escuro),
e painéis de instrumentos de carros e aeronaves
A proprietária, Gloria Genette, ainda se lembrava do dia em que ela foi chamada em casa por um funcionário da loja, que disse que um jovem bem educado estava ansioso para comprar um antigo relógio de mesa, com um mostrador esverdeado, mas queria saber se ela poderia abaixar o valor. David acabou comprando o relógio por cerca de US$ 10. Em seu interior, ele descobriu um pequeno frasco de tinta de rádio deixado acidentalmente por um funcionário ou como cortesia para que o proprietário do relógio pudesse retocar o mostrador quando começasse a desaparecer. David ficou tão feliz que, naquele mesmo dia, horas mais tarde, passou na loja para deixar um bilhete para Gloria, dizendo que se ela recebesse outro "relógio luminoso", que era para entrar com contato com ele imediatamente.

A proprietária, Gloria Genette (na foto), ainda se lembrava do dia em que ela foi chamada em casa por um funcionário da loja, que disse que um jovem bem educado estava ansioso para comprar um antiho relógio de mesa, com um mostrador esverdeado, mas queria saber se ela poderia abaixar o valor. David acabou comprando o relógio por cerca de US$ 10.
Para concentrar o rádio, David conseguiu uma amostra de sulfato de bário, da ala de radiografia de um hospital local (a equipe entregou a substância, porque eles lembraram de seu projeto para obter a medalha de mérito), e o aqueceu até se liquefazer. Depois de misturar o sulfato de bário com as partículas de tinta de rádio, ele passou a mistura através de um filtro de café em um béquer. que começou a brilhar. Dessa vez, David julgou a solubilidade das duas substâncias corretamente; a solução de rádio passou para o béquer. Então, ele desidratou a solução em sais cristalinos, que ele poderia colocar em um outro bloco de chumbo para construir uma nova arma.

Notando ou não, ao manusear o rádio purificado, ele estava realmente se colocando em perigo. No entanto, ele passou a adquirir outro emissor de nêutrons para substituir o alumínio usado em sua arma de nêutrons anterior. Fiel às instruções de Erb, ele conseguiu uma tira de berílio (que é uma fonte muito mais rica de nêutrons do que o alumínio), do Departamento de Química da Faculdade Comunitária Macomb - um amigo que frequentava a faculdade furtou a tira para ele - e colocou em frente ao bloco de chumbo que continha o rádio. Sua arma de amerício havia se tornado uma arma muito mais poderosa de rádio. Assim sendo, David começou a bombardear o tório e o urânio em pó, na esperança de produzir pelo menos alguns átomos "fissionáveis". Ele mediu os resultados com seu contador Geiger mas, enquanto o tório parecia se tornar mais radioativo, o urânio mostrou ser uma grande decepção.

Depois de misturar o sulfato de bário com as partículas de tinta de rádio, ele passou a mistura através de um filtro de café em um béquer. que começou a brilhar. Dessa vez, David julgou a solubilidade das duas substâncias corretamente; a solução de rádio passou para o béquer
Mais uma vez, o "professor Hahn" entrou em ação, escrevendo para seu velho amigo Erb, na NRC, para discutir o problema. A NRC tinha a resposta. Os nêutrons de David eram muito "rápidos" para o urânio. Ele teria que retardá-los usando um filtro de água, deutério ou trítio. A água teria sido suficiente, mas David gostava de um desafio. Consultando sua lista de fontes radioativas comercialmente disponíveis, ele descobriu que o trítio, um material radioativo usado para aumentar o poder das armas nucleares, era encontrado nos sistemas de miras de armas de fogo, pressão e arcos, que brilhavam no escuro. David prontamente comprou as mesmas de lojas de artigos esportivos e através de catálogos por correspondência. Ele removeu o trítio contido em uma substância cerosa de dentro das miras e, em seguida, usando diversos pseudônimos, devolveu as mesmas para as lojas ou para os fabricantes para serem reparadas - cada vez coletando mais uma pequena quantidade de trítio. Quando conseguiu o suficiente, David besuntou a substância cerosa em cima de um tira de berílio e direcionou a arma em direção ao urânio em pó. Ele monitorou cuidadosamente os resultados com seu contador de Geiger durante várias semanas, e parecia que o pó estava se tornando cada vez mais radioativo.

Aos 17 anos, David se deparou com a ideia de construir um modelo de reator regenerador. Ele sabia que sem uma massa crítica de pelo menos 30 quilos de urânio enriquecido, ele não tinha chance alguma de iniciar uma reação em cadeia sustentável, mas estava determinado a chegar o mais longe possível tentando fazer com que seus vários radioisótopos interagissem uns com os outros. Seu plano era um esquema, que ele tinha visto em um dos livros da faculdade do seu pai. Ignorando quaisquer medidas de segurança, ele removeu o altamente radioativo rádio e o amerício de seus "casulos de chumbo" e, rodada após rodada de depuração e pulverização, ele misturou os isótopos com o berílio e aparas de alumínio, que foram envolvidos em uma folha de papel alumínio. O que antes eram as fontes de nêutrons para suas armas tornou-se um "núcleo" improvisado para seu reator. Ele rodeou essa bola radioativa com um "cobertor" composto de minúsculos cubos de cinzas de tório e pó de urânio, que foram organizados em um padrão alternado com cubos de carbono e tenuemente mantidos unidos com uma fita adesiva. Evidentemente, David monitorou o seu "reator regenerador", do laboratório em Golf Manor, com seu contador Geiger.

O que antes eram as fontes de nêutrons para suas armas tornou-se um "núcleo" improvisado para seu reator. Ele rodeou essa bola radioativa com um "cobertor" composto de minúsculos cubos de cinzas de tório e pó de urânio, que foram organizados em um padrão alternado com cubos de carbono e tenuemente mantidos unidos com uma fita adesiva.
Evidentemente, David monitorou o seu "reator regenerador", do laboratório em Golf Manor, com seu contador Geiger
"Era muito radioativo. O nível de radiação após algumas semanas era muito maior do que no momento da montagem. Sei que transformei alguns materiais radioativos. Mesmo que não houvesse nenhuma massa crítica, sei que algumas das reações que acontecem em um reator regenerador aconteceram", disse David Hahn.

Finalmente David, cujas precauções de segurança até então consistiam em usar um poncho improvisado de chumbo, jogar fora as suas roupas, ou trocar seus sapatos depois de uma sessão no galpão, começou a perceber que, reação sustentável ou não, ele poderia estar colocando a si mesmo e outros em perigo (uma dessas percepções veio depois que a radiação começou a ser detectada através do concreto).

Finalmente David, cujas precauções de segurança até então consistiam em usar um poncho improvisado de chumbo, jogar fora as suas roupas, ou trocar seus sapatos depois de uma sessão no galpão, começou a perceber que, reação sustentável ou não, ele poderia estar colocando a si mesmo e outros em perigo (uma dessas percepções veio depois que a radiação começou a ser detectada através do concreto)
Jim Miller, um amigo da escola e "profundo conhecedor" sobre energia nuclear, em quem David havia confidenciado seus planos, avisou-o de que os reatores verdadeiros usavam varetas de controle para controlar as reações nucleares. Jim recomendou que fosse usado cobalto, que absorvia os nêutrons, mas não os tornava fissionáveis. Então, David comprou um conjunto de brocas de cobalto em uma loja de ferramentas e inseriu entre os cubos de tório e urânio. Porém, o cobalto não era suficiente. Quando o contador Geiger começou a registrar radiação a uma distância de cinco casas da sua mãe, David percebeu que ele tinha "muita coisa radioativa em um só lugar" e começou a desmontar o reator. Ele colocou as pastilhas de tório em uma caixa de sapatos, que ele escondeu na casa de sua mãe, deixou o rádio e amerício no galpão, e empacotou a maior parte do equipamento restante, no porta-malas do seu Pontiac 6000.

Por volta das 2h40 da manhã, do dia 31 de agosto de 1994, a polícia de Clinton Township respondeu a um chamado sobre um rapaz, que havia sido visto em um bairro residencial, aparentemente roubando pneus de um carro. Quando a polícia chegou, David disse-lhes que estava esperando para encontrar um amigo. Os policiais não ficaram convencidos, e resolveram fazer uma busca em seu carro. Quando abriram o porta-malas descobriram uma caixa de ferramentas fechada com um cadeado e selada com fita adesiva por precaução. O porta-malas continha mais de 50 cubos envoltos com um pó cinza misterioso, pequenos discos e objetos metálicos cilíndricos, mantos de lampiões, interruptores de mercúrio, mostradores de relógio, minérios, fogos de artifício, tubos de vácuo e diversos produtos químicos e ácidos. A polícia ficou totalmente desnorteada com a caixa de ferramentas, principalmente porque David alertou que a mesma era radioativa, e eles temiam que fosse uma bomba atômica.

A polícia ficou totalmente desnorteada com a caixa de ferramentas, principalmente porque David alertou,
que a mesma era radioativa, e eles temiam que fosse uma bomba atômica
Por razões que são difíceis de entender, o sargento Joseph Mertes, um dos oficiais que o prendeu, ordenou que carro contendo, o que ele observou em seu relatório como sendo "um potencial dispositivo explosivo improvisado" fosse rebocado para a sede da polícia. "Provavelmente, isso não deveria ter sido feito, mas achamos que o carro tinha sido usado para cometer um crime. Quando entrei as 6h30 da manhã já estava lá", disse Al Ernst, chefe de polícia da localidade, na época que o artigo do jornalista Ken Silverstein foi publicado.

A polícia chamou o Esquadrão Antibombas da Polícia Estadual do Michigan para examinar o carro e o Departamento Estadual de Saúde Pública (DPH) para fornecer assistência radiológica. A boa notícia era que a caixa de ferramentas de David não era uma bomba atômica. A má notícia era que o porta-malas de David continha materiais radioativos, incluindo concentrações de tório - "não encontradas na natureza, pelo menos não em Michigan" - e amerício. Essa descoberta desencadeou automaticamente no "Plano Federal de Resposta a Emergências Radiológicas", e oficiais estaduais logo seriam envolvidos em consultas telefônicas tensas com a Agência de Proteção Ambiental (EPA), com a Comissão de Regulamentação Nuclear (NRC), e até mesmo o FBI.

Em relação a polícia, David era bem pouco cooperativo e reservado. Ele forneceu o endereço de seu pai, mas não mencionou a casa de sua mãe ou seu galpão de jardinagem. Não até o dia de Ação de Graças (comemorado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira do mês de novembro), quando Dave Minnaar, um especialista em radiologia do Departamento Estadual de Saúde Pública, finalmente conversou com David. O adolescente explicou que ele estava tentando fazer o tório de uma forma, que ele pudesse usar para produzir energia, e que esperava que "o sucesso de sua empreitada ajudasse a garantir a 'patente' máxima entre os escoteiros." Na ocasião, David finalmente admitiu ter um laboratório no quintal de casa.

Em relação a polícia, David era bem pouco cooperativo e reservado. Ele forneceu o endereço de seu pai, mas não mencionou a casa de sua mãe ou seu galpão de jardinagem. Não até o dia de Ação de Graças (comemorado nos Estados Unidos na quarta quinta-feira do mês de novembro), quando Dave Minnaar (na imagem acima), um especialista em radiologia do Departamento Estadual de Saúde Pública, finalmente conversou com David
Em 29 de novembro daquele mesmo ano (1994), especialistas em radiologia do Estado do Michigan examinaram o galpão. Eles descobriram formas de torta em alumínio, frascos de ácido, copos, caixas de leite e outros materiais espalhados, muitos dos quais contaminados com o que os relatórios oficiais subsequentes chamariam de  "níveis excessivos" de material radioativo, especialmente amerício-241 e tório-232. Quão contaminado? Bem, uma mera lata de legumes, por exemplo, registrou 50.000 microsieverts por minuto, cerca de 1.000 vezes maior do que os níveis normais de radiação de fundo. Um detalhe no entanto, era ainda mais sombrio. Embora Dave Minnaar não soubesse disso na época, eles realizaram essa busca muito após a mãe de David, alertada por Ken e Kathy, e com medo que o governo pudesse tomar a casa dela como consequência dos experimentos do filho, ter revistado o galpão e descartado muito do que ela encontrou, incluindo a arma de nêutros, o rádio, pastilhas de tório, que eram muito mais radioativas do que as autoridades públicas de saúde encontraram, e uma generosa quantidade de pó radioativo.

Após determinar que nenhum material radioativo tinha vazado para fora do galpão, as autoridades estatais selaram e pediram ajuda ao governo federal. A NRC costumava lidar com tais situações em relação a instalações de pesquisas e centras nucleares licenciadas, mas David, obviamente, não tinha nenhuma licença para isso. Então, foi determinado que a Agência de Proteção Ambiental (EPA), que responde a emergências envolvendo materiais atômicos perdidos ou abandonados, fosse contatada para fornecer assistência. Oficiais da Agência de Proteção Ambiental chegaram em Golf Manor, em 25 de janeiro de 1995 - cinco meses depois que David foi detido pela polícia - para conduzir sua própria busca no galpão. O "memorando" emitido pela agência, observou que as condições no local "apresentavam um risco iminente e substancial para a saúde pública, bem-estar ou para o meio ambiente", e que havia "exposição real ou potencial a populações humanas, animais ou a cadeia alimentar..." O memorando ainda afirmava que, condições climáticas adversas, tais como ventos fortes, chuva ou incêndio poderiam fazer com que os contaminantes se dispersassem ou fossem liberados no ambiente.

Uma limpeza promovida pelo Superfundo ocorreu entre 26 e 28 de junho de 1995, a um custo de cerca de US$ 60.000. Depois que os funcionários com "trajes espaciais" desmantelaram o galpão de jardinagem com serras elétricas, eles colocaram os pedaços de madeira em 39 barris selados, que foram transportados para a "Envirocare", uma instalação de descarte de material radioativo no chamado "Grande Lago Salgado", no estado norte-americano de Utah. Lá, os resquícios dos experimentos de David foram sepultados juntamente com toneladas de detritos de baixo nível de radioatividade das fábricas de bombas atômicas do governo, instalações de produção de plutônio e locais industriais contaminados. De acordo com a avaliação oficial, não houve danos visíveis à flora ou fauna em Golf Manor, mas cerca de 40.000 moradores locais poderiam ter sido colocados em risco durante os anos de experimentos de David, devido aos perigos impostos pela liberação de pó radioativo e radiação.

Uma limpeza promovida pelo Superfundo ocorreu entre 26 e 28 de junho de 1995,
a um custo de cerca de US$ 60.000 (algumas fontes mencionam cerca de US$ 70.000)
Depois que os funcionários com "trajes espaciais" desmantelaram o galpão de jardinagem com serras elétricas,
eles colocaram os pedaços de madeira em 39 barris selados
Foto do estado em que o galpão utilizado por David Hahn se encontrava em junho de 1995
Foto mostrando prateiras repletas de garrafas e vidros contendo produtos químicos
Em entrevista ao jornalista Ken Silverstein, Dave Minnaar se mostrou confuso e sem entender exatamente os planos de David Hahn, uma vez que ele não sabia que a mãe biológica dele havia feito uma verdadeira "limpa" no galpão, antes que a equipe de Dave realizasse uma varredura no local. Ele disse apenas que tais condições não eram sequer cogitadas pelas agências reguladoras, ou seja, simplesmente se presumia que uma pessoa comum não teria a tecnologia ou materiais necessários para realizar experimentos nessa área.

Todo o material foi transportado para a "Envirocare", uma instalação de descarte de material radioativo
no chamado "Grande Lago Salgado", no estado norte-americano de Utah
David acabou entrando em uma grave depressão depois que as autoridades federais fecharam seu laboratório. Anos de trabalhos meticulosos tinham sido jogados no lixo ou enterrados sob as areias de Utah. Os alunos em Chippewa Valley começaram a chamá-lo de o "Garoto Radioativo", e quando Heather enviou balões comemorativos do Dia dos Namorados para David, eles foram confiscados pelo diretor, que aparentemente temia, que eles tivessem sido inflados com gases químicos, que David precisasse para continuar seus experimentos. Para piorar a situação, alguns escoteiros locais tentaram negar (embora tenham falhado) a "patente" tão almejada por David, ao dizer que suas que suas atividades extracurriculares tinham colocado em risco a comunidade.

No outono de 1995, Ken e Kathy exigiram que David se matriculasse na Faculdade Comunitária Macomb. Ele se formou em Metalurgia, mas ignorou muitas de suas aulas e passava grande parte do dia na cama ou dirigindo em círculos ao redor do seu quarteirão. Finalmente, Ken e Kathy deram-lhe um ultimato: junte-se às Forças Armadas ou saia da casa. Eles ligaram para o escritório de recrutamento local, que enviou um representante para sua casa e o convocou quase todos os dias até que David finalmente cedeu.

No outono de 1995, Ken e Kathy exigiram que David se matriculasse na Faculdade Comunitária Macomb. Ele se formou em Metalurgia, mas ignorou muitas de suas aulas e passava grande parte do dia na cama ou dirigindo em círculos ao redor do seu quarteirão
Na época que o artigo foi publicado, ou seja, em 1998, o dever de David, sendo um humilde marinheiro, era de esfregar o convés e descascar batata. Porém, após companheiros pegarem no sono, David ficava estudando temas que o interessavam - esteroides, melanina, códigos genéticos, antioxidantes, protótipos de reatores, aminoácidos e direito penal. Ironicamente, no entanto, David estava servido à bordo do USS Enterprise, o primeiro porta-aviões de propulsão nuclear do mundo.

Por fim, é interessante notar, que todos os materiais radioativos que David utilizou em seus  experimentos podiam entrar no corpo por ingestão, inalação ou contato com a pele e, em seguida, se depositar nos ossos e órgãos, onde podiam causar uma série de doenças, incluindo o câncer. Por ser tão potente, o rádio que David foi exposto em um espaço relativamente pequeno e fechado era o mais preocupante de todos. Em 1995, a Agência de Proteção Ambiental providenciou que David fosse submetido a um exame completo na usina nuclear mais próxima, a da Fermi. David, com medo do que pudesse descobrir, recusou.

Ironicamente, no entanto, David estava servido à bordo do USS Enterprise,
o primeiro porta-aviões de propulsão nuclear do mundo
Após cerca de quatro anos servindo no USS Enterprise, David acabou se alistando no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos onde, alguns anos depois, ele foi honrosamente dispensado por motivos médicos e voltou para o Michigan. Posteriormente, ele foi diagnosticado como sendo um "esquizofrênico paranoico com transtorno bipolar", e tomou medicação para ambas as condições.

O Documentário Chamado "O Escoteiro Nuclear" Promovido pela Britânica "Eagle TV", em 2003


Se você acompanhou essa postagem até esse ponto, é importante destacar que muitas imagens acima foram retiradas de um documentário chamado "The Nuclear Boy Scout" ("O Escoteiro Nuclear", em português), com aproximadamente 25 minutos, que foi divulgado em 2003, que foi realizado pela "Eagle TV", uma produtora britânica, que foi exibido pelo canal 4, no Reino Unido e pelo canal francês M6. Contudo, vocês podem conferí-lo através de um canal de terceiros no YouTube (em inglês, com legendas em inglês):



Vale muito a pena que vocês confiram esse documentário, porque ele mostra em vídeo tudo aquilo que vocês já leram anteriormente, de uma forma muito mais interativa e dinâmica, é claro. Além disso, o mesmo conta com a opinião de diversas pessoas que tiveram um grau de envolvimento com esse caso, incluindo o pai de David.

No ano seguinte a exibição desse documentário (2004), o jornalista Ken Silverstein publicou um livro sobre esse assunto, chamado "The Radioactive Boy Scout" ("O Escoteiro Radioativo", em português), que possui mais de 200 páginas, ou seja, uma espécie de grande ampliação em relação ao seu artigo originalmente publicado em 1998. Evidentemente, comentar sobre esse livro tornaria essa postagem ainda mais longa, mas acredite, as informações que estou repassando para vocês são as mais completas possíveis em um espaço relativamente curto de tempo. Então, você estará muito bem informado apenas ao ler essa postagem. Caso queria se aprofundar consideravelmente sobre o assunto, e compreenda o idioma, recomendo a leitura do livro.

Um Novo Incidente Envolvendo David Hahn e as Autoridades Policiais em 2007, e um Interessante Artigo Publicado Pelo Britânico "Daily Mail", em 2013


No dia 4 de agosto de 2007, a agência de notícias Associated Press (AP) divulgou algo que, talvez, muitos jamais acreditariam tão facilmente assim. O homem que havia se tornado o tema de um livro chamado "The Radioactive Boy Scout" ("O Escoteiro Radioativo", em português) depois de tentar construir um reator nuclear em um galpão, quando adolescente, foi acusado pela polícia de roubar 16 detectores de fumaça. A polícia chegou a dizer que teria sido uma possível tentativa de realizar experimentos com materiais radioativos. Sim, exatamente isso que você leu.

David Hahn, na época com 31 anos, estava sendo mantido preso, com uma fiança estipulada em US$ 5.000 na prisão do condado de Macomb, depois que ele foi acusado pelos crimes de roubo. Richard Maierle, capitão da polícia de Clinton Township, disse que Hahn negou as acusações. Um funcionário do tribunal teria dito que Hahn não tinha advogado. A Associated Press ligou para a prisão em uma tentativa de falar com Hahn, mas um porta-voz do xerife disse que a prisão não repassava mensagens aos detentos.

David Hahn, na época com 31 anos, estava sendo mantido preso, com uma fiança estipulada em US$ 5.000 na prisão do condado de Macomb, depois que ele foi acusado pelos crimes de roubo. Richard Maierle, capitão da polícia de Clinton Township, disse que Hahn negou as acusações
Os investigadores de polícia disseram que David Hahn foi preso, depois que um funcionário pela manutenção o viu roubando um detector de fumaça do teto em um complexo de apartamentos onde ele morava. Posteriormente, foram encontraram outros detectores em seu apartamento no subúrbio de Detroit, em Clinton Township.

Na época, a polícia disse que o rosto de Hahn estava coberto
de feridas abertas, possivelmente devido à constante
exposição a materiais radioativos
Na época, a polícia disse que o rosto de Hahn estava coberto de feridas abertas, possivelmente devido à constante exposição a materiais radioativos, mas isso nunca ficou comprovado.

Richard Maierle mencionou que seu departamento evacuou o complexo de apartamentos e chamou a Esquadrão Antibombas da Polícia Estadual que, por sua vez, não encontrou materiais perigosos. Ele também disse que as autoridades ficaram sabendo que David Hahn havia retornado para a região em janeiro daquele ano, após servir a Marinha dos Estados Unidos.

"Por causa de seu passado, estávamos um pouco preocupados. Não queríamos que locais radioativos começassem a surgir", disse Richard Maierle, acrescentando que seu próprio departamento alertou o FBI quando descobriram que ele estava de volta ao Michigan.

Posteriormente, David Hahn se declarou culpado pelos crimes de roubo. Ele acabou sendo sentenciado a 90 dias de reclusão, mas o cumprimento da pena de acabou sendo adiado devido a problemas de saúde do próprio David, visto que ele ficou sob tratamento na unidade psiquiátrica do Hospital de Administração de Veteranos local.

Cerca de seis anos depois, em novembro de 2013, o britânico "Daily Mail" resolveu publicar um artigo sobre o caso de David Hahn. Assim sendo, em entrevista ao tabloide, David disse inicialmente que, naquela época, seus experimentos estavam apenas no papel, mas que ainda gostava de se manter informado sobre assuntos científicos. Ele chegou a mencionar podia ter havido algumas questões de segurança, mas que o valor da descontaminação, considerado bem alto para os padrões da época, teria sido exagerado, porque, segundo ele, estava apenas construindo um reator nuclear modelo, e ele nunca chegou a ver o galpão brilhando no escuro. David também contou sobre suas ambições, e que a mais recente delas era criar uma lâmpada que duraria cerca de 100 anos. Ele acreditava fielmente que isso fosse possível.

David chegou a mencionar podia ter havido algumas questões de segurança, mas que o valor da descontaminação, considerado bem alto para os padrões da época, teria sido exagerado, porque, segundo ele, estava apenas construindo um reator nuclear modelo, e ele nunca chegou a ver o galpão brilhando no escuro
David disse que tinha dificuldade em fazer amigos, porque não encontrava pessoas com quem pudesse conversar no mesmo nível que ele, e que também tivessem os mesmos interesses. Naquela época, ele estava se correspondendo com o proprietário de uma loja de produtos radiológicos, que já teria trabalhado na famosa "Área 51", e um engenheiro nuclear da cidade de Albuquerque, no estado norte-americano do Novo México. Resumindo? David ainda demonstrava paixão pela energia nuclear.

Entretanto, ele disse que tudo começou com a Astronomia, que amava os planetas, e sempre achou que um dia o homem iria para Marte ou uma das luas de Júpiter. Aos sete anos de idade, ele disse que ficava vidrado nos quadrinhos do Homem-Aranha, e na figura de Peter Parker, o gentil fotógrafo, transformado pela mordida de uma aranha irradiada.

Entretanto, ele disse que tudo começou com a Astronomia, que amava os planetas, e sempre achou que um dia o homem iria para Marte ou uma das luas de Júpiter. Aos sete anos de idade, ele disse que ficava vidrado nos quadrinhos do Homem-Aranha, e na figura de Peter Parker, o gentil fotógrafo, transformado pela mordida de uma aranha irradiada
O artigo ainda apontou que David estava fazendo cursos na Faculdade Comunitária Macomb. Primeiramente, ele cursou Ciências Aplicadas, depois Comunicações e Artes Performáticas, e naquele ano em questão, ou seja, em 2013, estava cursando Engenharia Automotiva. No que talvez fosse uma das suas últimas declarações públicas, David disse que sabia que sua vida era "esporádica e caótica", mas esperava por algo melhor, e esperava chegar lá através do estudo. Sua ambição era se matricular na Universidade Estadual do Michigan, e criar a tal lâmpada que brilharia por 100 anos.

"Tento aprender o máximo que posso. Quero deixar uma marca na vida. Acho que causei um pequeno caos, mas ainda não deixei uma marca", disse David Hahn.

A Morte de David Hahn


David Charles Hahn, que ganhou alguma notoriedade em 1994, por tentar construir um reator regenerador nuclear caseiro como parte de seu projeto para obter uma medalha de mérito dos escoteiros, morreu aos 39 anos, no dia 26 de setembro do ano passado, sendo que sua morte quase passou desapercebida pela mídia norte-americana.

Na época, David estava morando em Shelby Township, também no estado do Michigan, e muitos especularam que sua morte teria sido devido a exposição à radiação, que ele sofreu ao longo do tempo. David foi enterrado no Cemitério Militar dos Grandes Lagos, no pequeno vilarejo de Holly.

Na época, David estava morando em Shelby Township, também no estado do Michigan, e muitos especularam que sua morte teria sido devido a exposição à radiação, que ele sofreu ao longo do tempo
Daviu foi enterrado no Cemitério Militar dos Grandes Lagos, no pequeno vilarejo de Holly
De qualquer forma, sua morte estava sendo investigada pelo médico-legista do condado de Macomb, e não se sabia, ao menos não oficialmente, se essa exposição poderia ter contribuído ou não para a sua morte. A investigação, no entanto, foi concluída em 2 de dezembro do ano passado.

Em uma notícia publicada em meados de março desse ano, no site de tecnologia "Ars Technica", foi divulgado que Kenneth Hahn, pai de David, entrou em contato com o site para confirmar que seu filho morreu de intoxicação por álcool, e que suas experiências nucleares anteriores não desempenharam nenhum papel em sua morte. Ele disse que encontrou um pedido de informação por parte do site em conta de e-mail, enquanto excluía mensagens antigas.

Em uma notícia publicada em meados de março desse ano, no site de tecnologia "Ars Technica", foi divulgado que Kenneth Hahn, pai de David, entrou em contato com o site para confirmar que seu filho morreu de intoxicação por álcool, e que suas experiências nucleares anteriores não desempenharam nenhum papel em sua morte
Citando um exame toxicológico e a autópsia do próprio filho, Kenneth Hahn disse que David tinha um nível bem perigoso de teor de álcool no sangue, cerca 0.404, no final da noite de 26 de setembro de 2016. Segundo ele, a "lesão por radiação" que David apresentava no pulso remontava a sua adolescência e não era algo recente.

"David estava fazendo compras no Walmart, era por volta das 22h30, e acredito que ele tenha ido comprar algo para comer. Eles o encontraram no banheiro cerca de 20 minutos depois, morto, não havia como reanimá-lo", disse Kenneth Hahn, acrescentando que não sabia sobre a morte do filho até que polícia de Shelby Township batesse à sua porta poucas horas depois, por volta de 2h da manhã, para dar a notícia.

Citando um exame toxicológico e a autópsia do próprio filho, Kenneth Hahn disse que David tinha um nível bem perigoso de teor de álcool no sangue, cerca 0.404, no final da noite de 26 de setembro de 2016. Segundo ele, a "lesão por radiação" que David apresentava no pulso remontava a sua adolescência e não era algo recente.
Antes de sua morte, Kenneth Hahn acompanhou seu filho no Hospital de Administração de Veteranos para exames de rotina a cada trimestre. A equipe médica não encontrou nenhum efeito persistente da exposição anterior à radiação. Kenneth também disse que estava orgulhoso do seu filho e muito triste por ele ter partido, visto que ele poderia ter feito muito mais nesse mundo. Pai e filho viviam apenas a 800 metros um do outro.

Comentários Finais


É muito importante destacar, ainda que particularmente considere desnecessário mencionar, que você não deve manipular, tentar adquirir ou extrair materiais radioativos, mesmo que você tenha a melhor das intenções. Você também não deve tentar recriar qualquer um dos experimentos mencionados, visto que ninguém, absolutamente ninguém, precisa de um reator caseiro totalmente inseguro, principalmente um que seja composto de folhas de papel alumínio e fita adesiva. Além disso, um outro detalhe primordial, é que as poucas tentativas de construir um reator regenerador nuclear acabaram resultando em alguns dos episódios mais tensos da era nuclear. Basta ver os casos que não vingaram ou resultaram em sérios problemas para as unidades que abrigavam tais reatores. É necessário ter respeito pela radiação, visto que ela não ocasiona apenas a morte de pessoas, mas deixa marcas profundas, sequelas físicas e mentais em descendentes, através de aberrações cromossômicas, e expõe pessoas inocentes a um desastre praticamente invisível, sem gosto e sem cheiro.

De qualquer forma, o experimento de David é uma indicação assustadora, de quão fácil determinados materiais radioativos podiam, e talvez ainda possam ser adquiridos ao redor do mundo, e estocados sem que ninguém perceba ou se importe em perceber o que está acontecendo. Apesar de ser péssimo na escola, assim como em matemática, a aptidão de David para a ciência era fenomenal. A partir de um livro de experimentos químicos da década de 1960, ele rapidamente catalisou os princípios e as habilidades em manipular as reações, e expandiu seu conhecimento através de muitas horas de uma verdadeira e profunda pesquisa em uma biblioteca. Mesmo com medidas mínimas ou praticamente inexistentes de segurança, ele seguiu em frente, inabalável, na certeza que estava fazendo algo pelo mundo, algo pelo qual seria reconhecido e respeitado. Acima de tudo, David também ganhava destaque na chamada engenharia social. Apesar da rígida disciplina imposta e da ausência de afeto, principalmente paterno, ele conseguia manipular as pessoas. Ele conseguia conseguir seduzir autoridades reguladoras e indústrias, mesmo diante de uma escrita precária, para receber todo o apoio e dicas extremamente valiosas para o seu projeto.

Entretanto, ironicamente não podemos chamá-lo de "maluco" ou "lunático". Quando David percebeu que seu experimento estava fora de controle, notando que não havia nenhuma pessoa próxima que pudesse efetivamente ajudá-lo e nem mesmo as páginas dos livros eram suficientes para conter o que estava gradativamente piorando, e sendo detectado relativamente longe da casa de sua mãe, David parou. Tentou desmantelar seu "reator nuclear" da forma que podia. Ele sabia que tinha ido longe de mais. Você pode dizer o mesmo daquele cientista que resolver realizar testes em uma determinada noite na Central Nuclear de Chernobyl? Aquele cientista, no auge de sua arrogância como detentor do conhecimento científico, condenou centenas de milhares de vidas, em um evento que ecoa até hoje no coração da Europa. Você pode dizer o mesmo dos cientistas que conduziram os testes nucleares em Semipalatinsk, no Cazaquistão, que sabiam que estavam muito próximos de quase 1,5 milhão de pessoas? Esses são apenas alguns exemplos, existem dezenas na história da energia nuclear. Por mais que David fosse excêntrico, solitário e que tenha sofrido uma grande negligência afetiva por parte de seus pais, visto que o pai era bem fechado, e a mãe tinha problemas com álcool e até mesmo de ordem psicológica, ele não aceitou o risco que ele estava colocando a si mesmo, sua família e sua comunidade. O drama pessoal de David é tão complicado, quanto o potencial desastre que poderia ter acontecido. E, no final, com apenas 39 anos de vida ele acabou morrendo sozinho, em um banheiro de um supermercado. Talvez essa seja a pior ironia da energia nuclear: um dos poucos que teve coragem de respeitá-la é considerado por muitos até hoje como um maluco. Aqueles que mataram milhões, ainda são lembrados como contribuidores da paz mundial, como se fossem heróis.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://brasilrad.com.br/artigos/radioatividade-na-sua-casa/
http://knowledgenuts.com/2013/12/11/the-boy-scout-who-attempted-to-make-a-nuclear-reactor/
http://www.csmonitor.com/2004/0316/p16s03-bogn.html
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2506549/Uh-oh-Radioactive-Boy-Scout-built-nuclear-reactor-Detroit-shed-sparking-evacuation-40-000-wants-invent-lightbulb-lasts-100-years.html
http://www.dangerouslaboratories.org/radscout.html
http://www.eagletv.co.uk/home/nuclear.htm
http://www.foxnews.com/story/2007/08/04/radioactive-boy-scout-charged-in-smoke-detector-theft.html
http://www.foxnews.com/story/2007/10/04/radioactive-boy-scout-sentenced-to-0-days-for-stealing-smoke-detectors.html
http://www.pbs.org/newshour/rundown/building-a-better-breeder-reactor-1/
https://arstechnica.com/science/2016/11/this-fall-the-radioactive-boy-scout-died-at-age-39/
https://arstechnica.com/tech-policy/2017/03/radioactive-boy-scout-died-of-alcohol-poisoning-not-radiation-father-says/
https://harpers.org/archive/1998/11/the-radioactive-boy-scout/
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