15 de maio de 2017

Conheça o Lacrimatório: A Estranha História Sobre um Recipiente que Serviria Para Coletar as Lágrimas dos Enlutados na Era Vitoriana!


Por Marco Faustino

Já estamos quase na metade do ano, como o tempo passa rápido! Enfim, nessa nova e verdadeira missão em tentar conciliar assuntos de cunho paranormal e sobrenatural ou que envolvam mistérios e terror, mas que ao mesmo tempo sejam considerados "amigáveis", agregando conhecimento e conteúdo para vocês, vamos comentar sobre algo que provavelmente vocês nunca ouviram falar: o lacrimatório. Esse é um nome que até hoje algumas pessoas costumam atribuir a pequenos recipientes de vidro ou cerâmica, que teriam sido encontrados desde a Grécia e a Roma Antiga, e que se presume terem sido utilizados para coletar as lágrimas vertidas pelos enlutados (pessoas que se encontram em luto, ou seja, daqueles que sofrem com a morte de alguém) nos funerais. No entanto, o termo é um tanto quanto contraditório, uma vez que não existem evidências na Antiguidade, que sugiram tal uso desses recipientes cerâmicos e vítreos exercendo um papel de "coletores de lágrimas". Algo ainda mais estranho é que os lacrimatórios são extremamente populares em antiquários espalhados pelo mundo, chegando a custar valores que variam entre R$ 400 a R$ 5.000, dependendo de sua idade, quantidade de peças, características e obviamente o quão única uma peça pode ser.

Entretanto, para entender como os lacrimatórios se tornaram artigos bem valorizados atualmente, e como eles teriam sido realmente usados durante o século XIX, na chamada Era Vitoriana, é necessário voltar um pouco no tempo. É importante que vocês saibam, por exemplo, que os vitorianos eram especialistas na arte do luto: vestiam roupas pretas por longos períodos, entrelaçavam o cabelo humano em uma espécie de grinalda muito bem elaborada, e supostamente choravam (ao menos é o que se conta em diversos sites na internet), em delicados frascos de vidro chamados de "coletores de lágrimas". Durante o século XIX, e especialmente nos Estados Unidos durante e depois da Guerra Civil, os "coletores de lágrimas" também teriam sido supostamente usados como "medida" do tempo de luto. Uma vez que as lágrimas derramadas dentro desses frascos evaporavam, isso significava que o período de luto de uma pessoa havia terminado. Sem dúvida alguma, essa é uma excelente história para ser contada por aí, não é mesmo? Contudo, será que isso realmente existiu na prática? Será mesmo que os gregos e os romanos foram os precursores dessa estranha prática de lidar com o luto? Por que algumas pessoas estão dispostas a pagar pequenas fortunas por frascos tão pequenos que conteriam, supostamente e ainda que simbolicamente, resquícios das dores sofridas por outras pessoas? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Pouquinho Sobre a Era Vitoriana


Para vocês poderem entender melhor a situação e a associação do lacrimatório com a "Era Vitoriana" é necessário contar rapidamente sobre o conturbado período, que representa simplesmente os anos de reinado da rainha Vitória, em meados do século XIX, entre junho de 1837 a janeiro de 1901. Foram 63 anos e 7 meses considerados de prosperidade e paz para o povo britânico, com os lucros adquiridos a partir da expansão do Império Britânico no exterior, bem como o auge e a consolidação da Revolução Industrial, além do surgimento de novas invenções. Isso permitiu que uma grande e escolarizada classe média se desenvolvesse.

A "Era Vitoriana" representa simplesmente os anos de reinado da rainha Vitória (à esquerda, em 1887), em meados do século XIX, de junho de 1837 a janeiro de 1901. A foto à direita mostra um trecho de Londres, em 1888.
Na "Era Vitoriana" houve um aumento demográfico sem precedentes no Reino Unido. A população aumentou de 13,9 milhões em 1831 para 32,5 milhões em 1901. Existiam diversas razões, que talvez justificassem o aumento da taxa de natalidade. Uma delas era a biológica. Uma vez que as condições de vida melhoraram, a porcentagem de mulheres capazes de engravidar aumentou. Uma outra explicação também podia ser social. No século XIX, o número de casamentos também aumentou e a população em geral costumava casar bem cedo.

Não irei entrar em detalhes sobre a sociedade vitoriana, porque é algo bem complexo e fugiria totalmente ao propósito dessa postagem. Saiba apenas que era basicamente uma sociedade considerada moralista, mas ao mesmo tempo hipócrita, visto que prostituição e o trabalho infantil eram recorrentes por todos os cantos.

Uma vez que as condições de vida melhoraram, a porcentagem de mulheres capazes de engravidar aumentou. Além disso, o número de casamentos também aumentou e a população em geral costumava se casar bem cedo
De qualquer forma, essa era uma época bem estranha. Os enforcamentos eram verdadeiras atrações turísticas de Londres, o Tâmisa era considerado um rio "morto" devido ao esgoto que era despejado a céu aberto, muitos cadáveres eram empilhados em valas comuns, e os cemitérios estavam superlotados. Sinceramente, era um verdadeiro caos.

Aliás, foi no fim da "Era Vitoriana", que talvez tenha surgido o assassino em série mais famoso de todos os tempos, e que provavelmente você já ouviu falar: "Jack, o Estripador", que teria assassinado brutalmente pelo menos quatro prostitutas em Londres, sendo que sua identidade é motivo de muita discussão até hoje. Naquela época, a investigação criminal da Polícia Metropolitana, criada em 1829, era muito deficiente: não se tiravam impressões digitais e acreditava-se que, ao fotografar os olhos da vítima, poderiam descobrir as últimas cenas vistas por ela.

Aliás, foi no fim da Era Vitoriana, que talvez tenha surgido o assassino em série mais famoso de todos os tempos, e que provavelmente você já ouviu falar: "Jack, o Estripador", que teria assassinado brutalmente pelo menos quatro prostitutas em Londres, sendo que sua identidade é motivo de muita discussão até hoje.
Agora, se tem algo que as pessoas eram obcecadas naquela época era a "morte", algo que estava bem presente na sociedade vitoriana. A expectativa média de vida em 1830, em Londres, das classes consideradas mais poderosas e ricas era de apenas 44 anos, sendo que a de empresários era de somente 25 anos. Essa situação piorava drasticamente entre as classes trabalhadoras, visto que não ultrapassava os 22 anos de idade. Além disso, 57% das crianças de classes trabalhadoras morriam antes de completarem 5 anos. Complicado, não é mesmo?

Ao contrário do que acontece atualmente, na "Era Vitoriana" a maioria das pessoas morria em casa, o que fazia com que houvesse uma maior proximidade com a morte, e que se criassem certos rituais sobre isso. Por exemplo, quando alguém estava prestes a morrer, era costume chamar toda a família, que se reunia em volta da cama do ente querido, para esperar pelas suas últimas palavras.

A expectativa média de vida em 1830, em Londres, das classes consideradas mais poderosas e ricas era de apenas 44 anos, sendo que a de empresários era de somente 25 anos
Essa situação piorava drasticamente entre as classes trabalhadoras, visto que não ultrapassava os 22 anos de idade. Além disso, 57% das crianças das classes trabalhadoras morriam antes de completarem 5 anos
Devido à elevada mortalidade infantil e ao fato de esta ser, em muitos casos, uma das poucas ocasiões em que a família estava toda reunida, começou a surgir o costume de tirar fotografias aos falecidos. Porém, tirar fotos na Londres vitoriana era muito caro. Quando alguém morria naquela época, os familiares costumavam juntar suas economias para guardar uma recordação do ente querido. Muitas vezes, portanto, a única foto da pessoa era tirada já sem vida, ao lado dos filhos e do cônjuge.

Devido à elevada mortalidade infantil e ao fato de esta ser, em muitos casos, uma das poucas ocasiões em que a família estava toda reunida, começou a surgir o costume de tirar fotografias aos falecidos
Ainda havia regras bastante restritas no que dizia respeito ao luto. As viúvas tinham de usar vestimentas de luto, geralmente roupas pretas, durante muitos meses e até mesmo anos após a morte dos maridos, e não podiam socializar durante esse período. A própria rainha Vitória manteve um luto de 40 anos até o fim de sua própria vida, usando roupas pretas durante durante todo esse período, devido a morte do seu marido, o príncipe Alberto, em 1861.

Foto das cinco filhas da rainha Vitória em frente ao busto do falecido pai, o príncipe Alberto, em março de 1962
É interessante notar que o chamado "vitorianismo" (termo que engloba os componentes morais, culturais, sociais e materiais vigentes no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, no período em que reinou a rainha Vitória) transcendeu em diversos momentos as fronteiras britânicas, e um pouco dos seus padrões de comportamento ao lidar com a morte, assim como o vestuário utilizado na época influenciou outros países. Um deles era uma ex-colônia britânica recém independente, os Estados Unidos da América.

É justamente o contexto fúnebre e sombrio dessa época, que muitos sites na internet se aproveitam para contar histórias sobre supostos objetos utilizados naquela época. Vale lembrar que a "Era Vitoriana" é considerado um período bem obscuro em determinados pontos, ou seja, não seria de se estranhar que lacrimatórios fossem utilizados naquela época, e que as viúvas desconsoladas buscassem formas mais "positivas" de lidar com a dor que sentiam.

A Origem do Termo "Lacrimatório": Será que os Lacrimatórios Foram Realmente Mencionados na Bíblia, Encontrados em Túmulos Gregos e Romanos, e Usados na Era Vitoriana?


Peculiarmente, o Antigo Testamento da Bíblia parece mencionar a coleta de lágrimas em um "frasco" no Salmo 56:8, quando Davi ora a Deus: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro?"

Peculiarmente, o Antigo Testamento da Bíblia parece mencionar a coleta de lágrimas em um "frasco" no Salmo 56:8, quando Davi ora a Deus: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre; acaso não estão anotadas em teu livro?"
Nesse ponto é interessante notar que Davi sabia muito bem o que era um odre. Era um recipiente onde se colocava água, óleo ou vinho. Nômades do Saara, como os tuaregues, ainda usam odres feitos com a pele inteira de um cabrito ou de uma ovelha. É possível colocar nesses recipientes grandes quantidades de água, dependendo do tamanho do animal. Os odres são conhecidos por manter a água fresca, mesmo no calor intenso do deserto, e como vocês podem notar, não se parecem em nada com frascos de vidro ou cerâmica.

Já o sentido aplicado a frase é que Deus entende perfeitamente a dor que aflige seus servos e, com compaixão, se lembra de suas lágrimas e sofrimento, guardando-as, de forma figurada, em seu odre. Não há nenhuma relação direta com a morte, mas uma relação muito mais cotidiana e rotineira das dificuldades enfrentadas na vida de uma pessoa.

Nesse ponto é interessante notar que Davi sabia muito bem o que era um odre. Era um recipiente onde se colocava água, óleo ou vinho. Nômades do Saara, como os tuaregues, ainda usam odres feitos com a pele inteira de um cabrito ou de uma ovelha
Existe também uma outra referência: "E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o unguento." (Lucas 7:37-38).

Entretanto, aqui é necessário mais uma vez atenção. Alguns intelectuais acreditam que a "pecadora" em questão teria derramado o conteúdo de seu "frasco de lágrimas" nos pés de Jesus. Porém, a passagem seria uma espécie de "licença artística" ao dizer que ela lavou seus pés com suas lágrimas, conforme elas caíam de seus olhos, ou talvez uma "forma poética" de dizer que ela estava chorando enquanto ela lavava seus pés com unguentos. Isso não significa, no entanto, que existia uma frasco ou recipiente para essa finalidade ou que fosse usado para guardar as lágrimas de alguém que chorava por um ente querido falecido. Para completar, Plínio, o Velho, posteriormente escrevendo no primeiro século, afirmou que unguentos eram melhor mantidos em vasos de alabastro.

Essa passagem bíblica (Lucas 7:37-38) seria uma espécie de "licença artística" dizer que ela lavou seus pés com suas lágrimas, conforme elas caíam de seus olhos, ou talvez uma "forma poética" de dizer que ela estava chorando enquanto ela lavava seus pés com unguentos.
Apenas para não deixar vocês meio perdidos é necessário explicar alguns termos. O primeiro é o unguento, que pode ser tanto uma essência, na qual se perfuma o corpo, quanto um medicamento de uso externo que tem por base uma substância gordurosa. Já o alabrasto foi um tipo de cerâmica usada na Antiguidade para armazenar óleo e perfume. Agora faz mais sentido, não é mesmo?

Algumas pessoas também alegam, que os frascos ou recipientes de lágrimas eram predominantes na história do Antigo Egito, no entanto, falham em apresentar provas efetivas sobre a existência arqueológicas das mesmas. Os egípcios gostavam muito de cosméticos e perfumes, portanto os recipientes encontrados em suas tumbas e nas ruínas das cidades seriam justamente por esse motivo.

Algumas pessoas também alegam, que os frascos ou recipientes de lágrimas eram predominantes na história do Antigo Egito, no entanto, falham em apresentar provas efetivas sobre a existência arqueológicas das mesmas. Os egípcios gostavam muito de cosméticos e perfumes, portanto os recipientes encontrados em suas tumbas e nas ruínas das cidades seriam justamente por esse motivo.
Reza a lenda, que os chamados "frascos de lágrimas" também seriam bem comuns na Grécia ou até mesmo em Roma, na época de Cristo, quando se dizia que os enlutados preenchiam pequenas garrafas de vidro ou copos com lágrimas, e os colocavam em túmulos funerários como símbolos de respeito. Às vezes, algumas mulheres seriam até mesmo pagas para chorarem nesses recipientes, enquanto caminhavam ao longo da procissão de luto. Aquelas que chorassem mais alto e produzissem mais lágrimas ganhariam uma recompensa maior. Quanto maior a angústia e a quantidade de lágrimas produzida, mais importante e valorizada seria a vida, ainda que simbólica, da pessoa falecida. Contudo, na verdade, essas garrafas não continham lágrimas, mas unguentos perfumados. Cientistas realizaram testes químicos nesses frascos e refutaram a teoria romântica, revelando vestígios de óleos e essências, em vez de lágrimas.

Conta-se também que os "frascos de lágrimas" reapareceram durante a Era Vitoriana, quando aqueles de luto pela perda de entes queridos coletariam suas lágrimas em garrafas com rolhas especiais, que permitiam que as lágrimas se evaporassem. Aparentemente, quando as lágrimas evaporavam, o período de luto também terminava. Em algumas histórias da Guerra Civil dos Estados Unidos, dizia-se que mulheres choravam em frascos de lágrimas e os guardavam até que seus maridos retornassem das batalha. Suas lágrimas mostrariam aos homens o quanto suas esposas os adoravam e sentiam a falta deles.

Em algumas histórias da Guerra Civil dos Estados Unidos, dizia-se que mulheres choravam em frascos de lágrimas e os guardava até que seus maridos retornassem das batalha. Suas lágrimas mostravam aos homens o quanto suas esposas os adoravam e sentiam a falta deles
Na verdade, esses frascos eram usados para guardar vinagres e sais perfumados, perfumes ou para perfumar lenços umedecidos. Esses pequenos frascos muitas vezes também ficavam pendurados na cintura das mulheres responsáveis por uma grande casa ou castelo. Além disso, sabe aquela história de quando as lágrimas evaporavam, o período de luto também terminava? Pois é, ao aplicar isso na "Era Vitoriana" é totalmente incoerente. Os vitorianos seguiam o que a rainha Vitória ditava, e queriam imitá-la, assim como sua corte real. Suas diretrizes de luto eram muito rigorosas e, até onde se sabe, a rainha Vitória nunca usou um lacrimatório.

Ilustração de uma mulher chorando, que foi publicada na revista Harper’s New Monthly, em 1850
A icônica "moda do luto" sendo retratada na revista Harper’s Bazaar, em 1891
Para piorar a situação, outros tipos de frascos que são confundidos com "frascos de lágrimas" são os frascos descartáveis. Esses frascos delgados e compridos, que muitas vezes tinham detalhes dourados, serviam para armazenar essências aromáticas, geralmente de pétalas de rosas ou lavanda. A razão de serem descartáveis é bem simples de entender. Assim que uma dama voltava de uma loja, que vendia essas essências nesses frascos, ela colocava o conteúdo em seu próprio frasco mais "chique" e mais adornado por pura vaidade ou então transferia para os frascos que muitas vezes ficavam presos na cintura das castelãs.

Outros tipos de frascos que são confundidos com "frascos de lágrimas" são os frascos descartáveis. Esses frascos delgados e compridos, que muitas vezes tinham detalhes dourados, serviam para armazenar essências aromáticas, geralmente de pétalas de rosas ou lavanda
A grande maioria desses frascos, ainda em estado bruto, foram feitos na Alemanha, mais voltado para a população comum do que os mais abastados. Os frascos eram vendidos em mercados, feiras, e lojas com o objetivo de serem meros refis, daí a razão de serem descartáveis.

A grande maioria desses frascos, ainda em estado bruto, foram feitos na Alemanha, mais voltado para a população comum do que os mais abastados. Os frascos eram vendidos em spas, feiras, e lojas com o objetivo de serem meros refis, daí a razão de serem descartáveis
A maioria dos frascos tem entre 17 e 20 cm, com uma base quadrada e uma parte superior redonda e lisa. Esses frascos eram geralmente feitos de vidro de vidro soprado transparente, mas também podiam ser encontrados em tons de azul, âmbar, verde, entre outras cores. Os frascos também eram decorados a mão com esmalte brilhante, com detalhes em dourado e diversos desenhos ovais, entrelaçados, flores e espirais.

A maioria dos frascos tem entre 17 e 20 cm, com uma base quadrada e uma parte superior redonda e lisa. Esses frascos eram geralmente feitos de vidro de vidro soprado transparente, mas também podiam ser encontrados em tons de azul, âmbar, verde, entre outras cores
Os frascos também eram decorados a mão com esmalte brilhante, com detalhes em dourado e diversos desenhos de ovais,
entrelaçados, flores e espirais
Resumindo? Esses frascos simples de cerâmica ou de vidro eram destinados a conter óleos essenciais baratos, sendo que os óleos mais caros mereciam frascos mais elaborados. No entanto, o mistério e fascínio de ter um frasco para coletar lágrimas dos enlutados deve soar atraente de alguma forma, uma vez que esses itens são comercializados até hoje, encontrando pessoas dispostas a pagar pequenas fortunas por eles. Por outro lado, os lacrimatórios nunca existiram de fato.

Conforme vocês notaram, uma vez que esses recipientes eram comumente encontrados em túmulos,  os primeiros estudiosos apelidaram romanticamente esses recipientes de "lacrimatórios" ou "coletores de lágrimas". Esse termo um tanto quanto incorreto, vem ajudando os vendedores de frascos antigos ao longo dos anos, que fazem disso uma verdadeira estratégia de marketing, uma vez que sabem muito bem a real finalidade dos recipientes.

O Lacrimatório Sendo Usado Como uma Mera Estratégia de Marketing


Christian Harding, proprietário de uma loja de objetos estranhos e colecionáveis chamada "The Belfry", na cidade de Seattle, no estado norte-americano de Washington, costuma dizer que sempre há interessados em comprar lacrimatórios, ao menos algumas pessoas sempre perguntam sobre os mesmos a cada semana que passa. Então, ele precisa explicar que os mesmos nada mais são do que frascos descartáveis de perfumes. De qualquer forma, o termo "coletor de lágrimas" ou "lacrimatório" é muito forte e acabou se tornando praticamente uma "verdade" presente em inúmeros antiquários.

Christian Harding, proprietário de uma loja de objetos estranhos e colecionáveis chamada "The Belfry" (na imagem do Google Street Views), na cidade de Seattle, no estado norte-americano de Washington, costuma dizer que sempre há interessados em comprar lacrimatórios, ao menos algumas pessoas sempre perguntam sobre os mesmos a cada semana que passa
Então, ele precisa explicar que os mesmos nada mais são do que frascos descartáveis de perfumes. De qualquer forma, o termo "coletor de lágrimas" ou "lacrimatório" é muito forte e acabou se tornando praticamente uma "verdade" presente em inúmeros antiquários
Já Nathan Graves, proprietário de uma loja de artigos um tanto quanto macabros chamada "Cemetery Gates", em Nashville, no Tennessee, se deparou pela primeira vez com os "coletores de lágrimas", enquanto pesquisava sobre joias utilizadas durante o período de luto. Ele ficou desconfiado, porque os frascos pareciam idênticos aos que ele tinha visto em lojas de antiguidades, mercados de pulgas e vendas de quintal.

"Sempre pensei neles como coleção de amostras de perfume de avós. A ideia de que as pessoas estavam coletando lágrimas neles parecia folclore. Os termos 'vitoriano' e 'luto', em geral, passaram a se referir a qualquer coisa antiga, sentimental ou composta por materiais de cor preta. Acredito que algumas pessoas têm a tendência de romantizar os objetos e suas histórias", disse Nathan Graves.

Já Nathan Graves, proprietário de uma loja de artigos um tanto quanto macabros chamada "Cemetery Gates" (na foto), em Nashville, no Tennessee, se deparou pela primeira vez com os "coletores de lágrimas", enquanto pesquisava sobre joias utilizadas durante o período de luto
"É uma bela ideia, mas ninguém realmente chorou nos frascos. Ao longo dos anos, depois de ler muitos artigos diferentes e falar com outros colecionadores, percebi que as histórias eram, de fato, apenas lenda", concordou Christian Harding. Agora, vem a parte mais sensacional desse história. Quando surgem colecionadores ansiosos para adicionar curiosidades vitorianas em suas coleções, Christian Harding disse que explica a verdadeira utilização dos frascos decorados, mas muitos clientes não querem acreditar nessa história, sendo que alguns simplesmente não se importam.

"Provavelmente, devo ter vendido dúzias deles", disse Katie Kierstead, proprietária de uma loja online, uma espécie de antiquário vitoriano. Ela disse que se apaixonou tanto pela presunção poética quanto qualquer outra pessoa. Ela disse também que fez suas pesquisas sobre o assunto, e regularmente os coloca para vender na seção de perfumes.

"Eles têm o mesmo valor para colecionadores de frascos de perfumes, quanto para alguém interessado em luto", completou.

"Provavelmente, devo ter vendido dúzias deles", disse Katie Kierstead, proprietária de uma loja online, uma espécie de antiquário vitoriano. Ela disse que se apaixonou tanto pela presunção poética quanto qualquer outra pessoa
Ela disse também que fez sua pesquisa sobre o assunto, e regularmente os coloca para vender na seção de perfumes."Eles têm o mesmo valor para colecionadores de frascos de perfumes, quanto para alguém interessado em luto", completou.
Entretanto, nem todos os vendedores são tão transparentes e teoricamente honestos como esses que acabamos de mencionar, o que ajudou o conto sobre os "coletores de lágrimas" a persistir até os dias de hoje. Grande parte da informação disponível na internet, que ainda correlaciona os frascos à história de luto nos leva até a "Tear Catcher Gifts", uma empresa que vende frascos modernos de lágrimas destinadas a serem dadas como presentes em ocasiões especiais com valores entre US$ 8 (cerca de R$ 25 pela cotação atual) e US$ 32 (cerca de R$ 100,00).

O surpreendente acrítico artigo na Wikipedia sobre o "coletor de lágrimas", pelo menos até o fechamento dessa postagem, lista apenas duas fontes: o site da própria "Tear Catcher Gifts", e um outro registrado em um endereço de e-mail da própria "Tear Catcher Gifts".

Grande parte da informação disponível na internet, que ainda correlaciona os frascos à história de luto nos leva até a "Tear Catcher Gifts", uma empresa que vende frascos modernos de lágrimas destinadas a serem dadas como presentes em ocasiões especiais com valores entre US$ 8 (cerca de R$ 25 pela cotação atual) e US$ 32 (cerca de R$ 100,00)
De acordo com um artigo publicado em 2004, em um site chamado "Belgrado News", os proprietários da "Timeless Traditions", o maior distribuidor atacadista de frascos modernos da "Tear Catcher Gifts", foram inspirados pelo best-seller chamado "Divine Secrets", de Ya-Ya Sisterhood, publicado em 1996, em que um personagem dá um lacrimatório para a sua mãe.

"Procurei por eles em todos os lugares. Não encontrei os frascos, mas encontrei muitas mulhares que tinham lido o livro e estavam procurando por eles também. O objetivo era ocupar e saturar o mercado o mais rapidamente possível para manter a concorrência afastada", disse Jacqueline Bean, uma das proprietárias, em entrevista para o site "Belgrado News".

Como resultado, frascos semelhantes estão disponíveis em dezenas de lojas na internet, sites de compra e venda de produtos, e em lojas espalhadas pelo mundo. Eles ainda contam com a "ajuda" de diversos outros sites pretensamente "informativos", que parecem existir apenas para induzir as pessoas a comprarem os lacrimatórios.

Antigos e supostos lacrimatórios vitorianos e da "Guerra Civil Norte-Americana" que estão à venda no eBay, um dos maiores site de compra e venda de produtos do mundo. A questão é que os lacrimatórios nunca existiram, e ainda assim alguns são vendidos desse forma por pequenas fortunas. O mais barato na imagem custa o equivalente a R$ 400,00. Já uma coleção de 8 peças sai por quase R$ 3.000,00.
"É por isso que eu acho importante, que os acadêmicos se envolvam publicamente nesse assunto", disse Nuri McBride, uma colecionadora de perfumes e pesquisadora, que escreve sobre fragrâncias e rituais funerários em um site chamado Death/Scent.

"A Internet é, de muitas maneiras, sua própria máquina de criação de folclores. Se certas informações forem compartilhadas uma grande quantidade de vezes, passam a ser consideradas verdadeiras", continuou. Como não concordar com ela nesse aspecto, diante de tantas farsas que circulam hoje em dia?

"É por isso que eu acho importante, que os acadêmicos se envolvam publicamente nesse assunto", disse Nuri McBride, uma colecionadora de perfumes e pesquisadora, que escreve sobre fragrâncias e rituais funerários em um site chamado Death/Scent.
"Um historiador de cosméticos ou um especialista em vidro vitoriano poderia dizer a um cliente em 30 segundos, que os frascos não são lacrimatórios. As descrições pitorescas que aparecem em anúncios do eBay sobre esposas e noivas da Guerra Civil dos Estados Unidos são, na melhor das hipóteses, totalmente falsas. Porém, precisamos ter uma postura de interagir uns com os outros para que isso seja evitado", completou. Já Christian Harding espera que que tais interações aconteçam com mais frequência à medida que mais pessoas se interessem em colecionar objetos da chamada "Era Vitoriana".

"Há cinco anos, desde que minha loja foi aberta, parece que a situação piorou", disse Christian Harding, que segue educando os clientes, assim como Nathan Graves e Katie Kierstead. Enquanto isso, a "Tear Catcher Gifts" segue afirmando que "a verdade científica será eventualmente descoberta, mas até lá cada um de nós pode escolher em que acreditar."

Enfim, AssombradOs, espero que vocês tenha gostado do tema e consequentemente das informações aqui fornecidas. Sempre que você desejar comprar um objeto considerado antigo, pesquise muito sobre o mesmo e não se deixe levar por paixões. Infelizmente, o passado prega muitas peças devido a má-interpretação e a falta de estudos mais aprofundados em determinadas áreas. De qualquer forma, é bom ressaltar que os lacrimatórios nunca existiram, porém encontram pessoas até hoje dispostas a pagar um bom dinheiro por eles. Aparentemente, quem vende e oculta a real finalidade dos mesmos acredita apenas em uma coisa: no dinheiro.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://www.atlasobscura.com/articles/tearcatchers-victorian-myth-bottle
http://www.belgrade-news.com/people/article_ff86b820-5387-5476-9e8d-ba599e562f11.html
https://cleopatrasboudoir.blogspot.com/2009/07/tear-bottles-sentimental-gift-or-genius.html
https://mapadelondres.org/era-vitoriana-londres/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_vitoriana

https://web.archive.org/web/20170515073007/https://en.wikipedia.org/wiki/Tear_catcher
https://www.pinterest.com/pin/339529259378057168/
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