25 de abril de 2017

Deixados Para Trás: O Dilema e o Descaso em Relação as Dezenas de Caixões Encontrados Durante uma Obra na Filadélfia, nos Estados Unidos


Por Marco Faustino

Em maio do ano passado, eu pedi para que você fizesse um exercício de reflexão juntamente comigo. Pedi para que você imaginasse ter contratado uma empresa, para reformar a casa em que morou durante toda a sua infância, mas que atualmente você estava morando em outro lugar, enquanto a reforma não terminava, em um outro estado. Um belo dia você está preparando o almoço ou o jantar para seus filhos, a cerca de milhares de quilômetros de distância do local onde antigamente morava, e o seu telefone toca. Na linha está um dos operários que trabalha em sua reforma, e ele simplesmente diz que encontraram um pequeno caixão de bronze, e que dentro dele jaz o corpo de uma menininha, praticamente preservado, de cachinhos dourados e segurando uma rosa vermelha na mão. Você corre até o local, entra em contato com a prefeitura, e ela simplesmente diz que o problema é seu. Além disso, você descobre que ela é apenas "um corpo" deixado para trás, de uma imensa e antiga operação que removeu cerca de 150.000 corpos da cidade de São Francisco no início do século XX, porque os cemitérios estavam ocupando muito espaço, e atrapalhando os negócios dos empresários locais. Parece loucura? Pois é, mas acredite, tudo isso aconteceu de verdade (leia mais: O "Mistério" Sobre o Caixão de uma Menina Encontrado Durante a Reforma de uma Casa em São Francisco, nos Estados Unidos).

Sinceramente, não pensei que eu voltaria a escrever sobre algo assim, até que me deparei com um grande absurdo e quase uma verdadeira denúncia por parte do site de notícias Philly.com, no início do mês de novembro do ano passado, cujos desdobramentos se amplificaram de foram exponencial entre o fim de fevereiro e meados de março desse ano. O motivo? Bem, inicialmente foram encontrados diversos ossos e lápides durante uma construção de um prédio residencial na cidade de Filadélfia. A princípio, qualquer um pensaria que se tratava de um pequeno cemitério que ficou perdido ao longo do tempo. Então, bastava a prefeitura recolher os ossos, identificá-los e posteriormente dar novamente um enterro digno aos restos mortais de pessoas, que um dia viveram e morreram no local. Contudo, não foi bem isso que aconteceu. Diversos órgãos municipais e estaduais simplesmente lavaram suas mãos, dizendo que não era de responsabilidade de ninguém, e apenas disseram para a construtora enterrar novamente os ossos, ou seja, cavar, enterrar e cobrir tudo com concreto, que serviria de base para o prédio em questão, como se não fosse nem um pouco mórbido ou totalmente desrespeitoso. Para piorar a situação, ao longo do tempo, não foram apenas ossos e lápides que foram descobertas, mas caixões inteiros, muitos ainda intactos. Mais de 70 caixões foram recuperados de um cemitério, que era para ter sido desativado e realocado em outro há cerca de 150 anos atrás. E, ainda assim, não havia ninguém que se responsabilizasse por isso. Será que houve alguma esperança? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como Tudo Isso Começou? O Prefácio de uma Situação Totalmente Caótica


Pode não ser todo dia que antigos ossos sejam desenterrados de forma inesperada na Filadélfia, no estado norte-americano da Pensilvânia, porém isso é algo que dificilmente passa desapercebido. Aliás, foi exatamente isso que aconteceu no fim de setembro do ano passado, durante a construção de um prédio residencial na chamada "Cidade Velha" (uma espécie de bairro/distrito da cidade).

Uma empreiteira contratada pela PMC Properties acabou atingindo um amontoado de ossos e lápides no solo, enquanto trabalhava nas obras relaciondas a fundação da construção e também da garagem do empreendimento. Um dos primeiros sites de notícia a reportar essa situação foi o "Philly.com", em um artigo intitulado: "Old bones found - and nobody's in charge" ("Antigos ossos encontrados, e ninguém se responsabiliza", em português).

Imagem do Google Maps mostrando a localização da cidade da Filadélfia em relação a Nova York,
Baltimore e a capital norte-americana, Washington
Imagem do Google Maps mostrando a localização do bairro denominado de "Old City" ("Cidade Velha", em português)
Foto mostrando um trecho da rua do Mercado no bairro Cidade Velha, na Filadélfia
De acordo com Christopher Del Brocco, gerente do projeto da rua Arch nº 218, uma "ligação anônima" repassou essa informação para a polícia, que entrou em contato com o Escritório do Médico Legista que, por sua vez, determinou que os ossos eram históricos, e os arqueólogos os identificaram como sendo prováveis restos mortais pertencentes ao Cemitério da Primeira Igreja Batista da cidade, estabelecida em 1707, um dos primeiros cemitérios da cidade da Filadélfia.

A Comissão de História e Museus do Estado, o Departamento Municipal de Licenças e Inspeções, e a Comissão Histórica da Filadélfia também foram informados pelo Escritório do Médico Legista. Todas as agências disseram que não havia nada que pudessem fazer. Todas disseram que não tinham jurisdição sobre essa questão. Como isso pode acontecer em relação a preservação histórica na Filadélfia, justamente uma cidade que promulgou um decreto de preservação histórica, em 1955, para proteger um dos locais mais ricos da nação em termos históricos, arquitetônicos e arqueológicos?

Imagem do Google Street View mostrando o andamento das obras na rua Arch nº 218, em outubro do ano passado
De acordo com Christopher Del Brocco (na foto), gerente do projeto da rua Arch nº 218, uma "ligação anônima" repassou essa informação para a polícia, que entrou em contato com o Escritório do Médico Legista que, por sua vez, determinou que os ossos eram históricos, e os arqueólogos os identificaram como sendo prováveis restos mortais pertencentes ao Cemitério da Primeira Igreja Batista da cidade
Para piorar a situação, nenhuma diretiva oficial foi dada a PMC ou a empreiteira responsável pela obra, a Fastrack Builders. Além disso, a Primeira Igreja Batista sequer foi informada. Ainda de acordo com a comissão histórica, a chamada "Lei de Preservação de Locais de Sepultamentos Históricos", de 1994, também não se aplicava ao Distrito Histórico da Cidade Velha. O absurdo chegou ao ponto de Christopher Del Brocco, gerente do projeto, divulgar que "a cidade disse para ele apenas se certificar de enterrar novamente os ossos quando a escavação terminasse."

"Eles ainda estão ativamente profanando esse cemitério. Esse cemitério é histórico, e ninguém parece se importar. Eles estão profanando os Pais Fundadores e ninguém dá a mínima. É uma vergonha", disse na época, Douglas Mooney, presidente do Fórum Arqueológico da Filadélfia.

"Eles ainda estão ativamente profanando esse cemitério. Esse cemitério é histórico, e ninguém parece se importar. Eles estão profanando os Pais Fundadores e ninguém dá a mínima. É uma vergonha", disse na época, Douglas Mooney (na foto), presidente do Fórum Arqueológico da Filadélfia.
O advogado Mark Zecca, que representou a Comissão Histórica de Filadélfia por muitos anos, quando foi membro do Departamento Jurídico da cidade nos anos de 1990 e 2000, criticou fortemente todas as agências.

"Isso está errado. Eles deveriam ter protegido o local, não perturbando as ossadas, emitindo uma ordem de interrupção dos trabalhos e entrado na Justiça. A Vara de Órfãos tem jurisdição para isso. Os grupos interessados deveriam ter sido notificados para que eles pudessem participar das audiências do tribunal. A comissão histórica poderia ter tido autoridade para convocar uma audiência", disse Mark Zecca, que agora atende em um escritório particular.

O advogado Mark Zecca (à esquerda), que representou a Comissão Histórica de Filadélfia por muitos anos, quando foi membro do Departamento Jurídico da cidade nos anos de 1990 e 2000, criticou fortemente todas as agências
Entre o fim de setembro e fim de outubro do ano passado, nenhuma agência da cidade havia contatado a Primeira Igreja Batista. A igreja havia vendido sua propriedade na Cidade Velha em meados do século XIX e, na época (no início de novembro do ano passado), estava arrendando quarteirões em algumas ruas da cidade. Roy Harker, administrador da Primeira Igreja Batista, disse que todo o cemitério deveria ter sido supostamente realocado para Cemitério Monte Moriá, em 1859, e que a igreja não mantinha nenhum registro sobre as pessoas que ali estavam enterradas.

"Nesse momento, a Primeira Igreja Batista é uma congregação muito pequena. Não temos recursos (entenda como dinheiro) para fazer nada", disse Roy Harker. Já a PMC disse que eles fizeram exatamente o que as autoridades municipais sugeriram, ou seja, guardar os ossos para que fossem enterrados novamente.

Foto bem antiga mostrando a "Primeira Igreja Batista" da Filadélfia
Foto do Cemitério Histórico Monte Moriá onde acredita-se haver cerca de 85 mil túmulos
O cemitério, diga-se de passagem, encontra-se em estado de abandono conforme vocês podem ver nesse vídeo.
"Eles estão sendo tratados, de acordo como eles foram instruídos a serem tratados pela cidade de Filadélfia", disse Jonathan Stavin, vice-presidente executivo da PMC.

"Não está sob a jurisdição de ninguém. Portanto, cabe a incorporadora (PMC) determinar como seguir em frente. Estamos em contato com a incorporadora em relação a como proceder", disse Karen Guss, porta-voz do Departamento Municipal de Licenças e Inspeções.

"Assim que viram os ossos, a Comissão Histórica da Filadélfia e o Departamento Municipal de Licenças e Inspeções deveriam tê-los informado para comparecer a Vara de Órfãos e os informado sobre a situação para saber como proceder após isso", disse Mark Zecca.

"A comissão histórica deveria saber que existem leis especiais para lidar com um cemitério. Meu deus. Entre a Segunda e Terceira na rua Arch? Cara, você está falando da Casa de Betsy Ross. Você está falando sobre Igreja Cristã. Você está falando de muita coisa por aqui", continuou. No entanto, Christopher Del Brocco disse que apenas o médico legista e um inspetor do Departamento Municipal de Licenças e Inspeções tinham comparecido no local.

Foto mostrando os executivos da incorporadora PMC. Da esquerda para direita: Jonathan Stavin, vice-presidente executivo, Ron Caplan, presidente, Greg Webster, chefe de operações e Jerry Novick, outro vice-presidente executivo do Conselho Geral
Howard Pollman, porta-voz da Comissão de História e Museus do Estado, que tem ampla autoridade em questões de preservação, disse que ninguém entrou em contato com seu escritório, exceto pelo médico-legista da cidade.

"Nem a cidade, nem a comissão histórica, e nem mesmo o Departamento Municipal de Licenças e Inspeções", disse Howard Pollman, acrescentando que a "Lei de Preservação de Locais de Sepultamentos Históricos" se aplica apenas quando quando os restos mortais são perturbados em projetos públicos. O empreendimento da rua Arch nº 218, infelizmente, era privado.

Curiosamente, no entanto, Mark Zecca assinalou que a incorporadora provavelmente não tinha permissão para reenterrar os ossos.

"O fato de ter sido emitida uma licença (para construção) não tem nenhuma relevância. A permissão não foi emitida para perturbar um cemitério. Se eles descobriram um cemitério por acaso, o Departamento Municipal de Licenças e Inspeções deve emitir uma ordem para interromper os trabalhos", disse Mark.

Howard Pollman (de camisa social azul na foto), porta-voz da Comissão de História e Museus do Estado, que tem ampla autoridade em questões de preservação, disse que ninguém entrou em contato com seu escritório, exceto pelo médico-legista da cidade
Jonathan Farnham, diretor executivo da Comissão Histórica da Filadélfia, disse que a comissão não tinha nenhuma autoridade sobre a matéria.

"A Comissão Histórica não tinha autoridade legal para obrigar a incorporadora a parar a construção e analisar os restos mortais", escreveu Jonathan Farnham em um email enviado ao site de notícias Philly.com, observando que o cemitério ficava debaixo de "um local não incorporado", limitando assim o poder da comissão. Além disso, ele comentou que a existência de um cemitério não era uma infomação "nova". Isso havia sido discutido em uma reunião da comissão em setembro de 2015. Durante a reunião em questão, a comissão foi informada sobre o cemitério e foi avisada que os restos mortais tinham sido reenterrados no Cemitério Monte Moriá, há 150 anos.

Segundo Mark Zecca, a "nova" informação é que foram descobertas ossadas no local. Ainda segundo ele, alguém deveria ter cogitado a hipótese de que alguns restos mortais poderiam se encontrar no local, mas aparentemente isso não passou pela cabeça de ninguém.

Jonathan Farnham (de termo e gravata cinza na foto), diretor executivo da Comissão Histórica da Filadélfia, disse que a comissão não tinha nenhuma autoridade sobre a matéria
Paul Steinke, diretor executivo da Aliança para Preservação da Grande Filadélfia, disse que "em uma cidade tão histórica e antiga quanto a Filadélfia, deveríamos ter um arqueólogo profissional na equipe da Comissão Histórica de Filadélfia, para cumprir efetivamente o objetivo histórico da comissão. Eles precisam mesmo de ajuda profissional." Ele também criticou as atuais regras operacionais da comissão e os regulamentos taxando-os de confusos.

"Precisamos dar uma olhada nos regulamentos porque as regras atuais não são claras", completou.

Enquanto isso, um número indeterminado de restos mortais e lápides se acumulava na rua Arch nº 218. Christopher Del Brocco passou a colocar tudo "em uma caixa" como forma de armazenamento, tal como ele disse que foi instruído a fazer "pela própria cidade." Ironicamente, todos os oficiais contatados pelo site de notícias Philly.com se negaram ter dado tal recomendação, embora o porta-voz da Comissão de História e Museus do Estado disse que não era novidade que dissessem aos incorporadores para reenterrar os restos mortais no próprio local.

Christopher Del Brocco passou a colocar tudo "em uma caixa" como forma de armazenamento,
tal como ele disse que foi instruído a fazer "pela própria cidade."
Ironicamente, todos os oficiais contatados pelo site de notícias Philly.com se negaram ter dado tal recomendação, embora o porta-voz da Comissão de História e Museus do Estado disse que não era novidade que dissessem aos incorporadores para reenterrar os restos mortais no próprio local
"Isso é o que vai acontecer. Eles vão descansar no fundo da escavação do edifício, debaixo do piso de concreto da garagem. Eles ficarão por lá para sempre", disse Christopher Del Brocco.

A Corrida Para Tentar Recuperar a Dignidade das Pessoas que Não Foram Realocadas para o Cemitério Monte Moriá, na Filadélfia


No dia 13 de março desse ano, o site de notícias Philly.com voltou a comentar sobre as obras na rua Arch nº 218. Dessa vez, o artigo escrito jornalista Stephan Salisbury, mencionou que os arqueólogos estavam em uma verdadeira corrida contra o tempo para escavar o que poderiam ser centenas de caixões de um cemitério histórico diante de um prazo bem apertado concedido pela incorporadora responsável pelo projeto. A PMC decidiu dar aos arqueólogos um pouco de tempo, cerca de seis dias, para que eles removessem os restos mortais de um cemitério pertencente a Primeira Igreja Batista.

Dessa vez, o artigo escrito jornalista Stephan Salisbury, mencionou que os arqueólogos estavam em uma verdadeira corrida contra o tempo para escavar o que poderiam ser centenas de caixões de um cemitério histórico diante de um prazo bem apertado concedido pela incorporadora responsável pelo projeto
A PMC decidiu dar aos arqueólogos um pouco de tempo, cerca de seis dias, para que eles removessem os restos mortais de um cemitério pertencente a Primeira Igreja Batista
Jonathan Stavin, vice-presidente executivo da PMC, disse que a incorporada também levaria o caso até a Vara de Órfãos para obter a permissão para reenterrar os restos mortais no Cemitério Monte Moriá, onde todo o antigo cemitério deveria ter sido realocado em 1859. Agora, aparentemente, familiares e vizinhos separados por mais de 150 anos, seriam finalmente reunidos. Na Filadélfia, no entanto, esse resultado ostensivamente positivo é altamente incomum para ossos ancestrais e artefatos históricos descobertos inesperadamente durante um projeto de construção, um acontecimento infelizmente frequente.

Muitas vezes, essas importantes pistas sobre o passado da cidade e os restos mortais de seu povo são silenciosamente coletados pelas construtoras e jogados em aterros sanitários, saqueados, quebrados ou despedaçados por escavadeiras e brocas perfuradoras. Em praticamente todos os locais - Kensington, Cidade Velha, Society Hill, Sudoeste da Filadélfia, Germantown, Filadélfia Ocidental - o passado humano acumulado, que remonta aos dias coloniais e além, está em todos os lugares sob os pés daqueles vivem acima do solo, e praticamente tudo isso sem nenhuma proteção por parte das autoridades municipais. Vale ressaltar nesse ponto, que a Declaração de Independência dos Estados Unidos e a Constituição Norte-Americana foram assinadas na Cidade Velha (Old City, em inglês).

Muitas vezes, essas importantes pistas sobre o passado da cidade e os restos mortais de seu povo são silenciosamente coletados pelas construtoras e jogados em aterros sanitários, saqueados, quebrados ou despedaçados por escavadeiras e brocas perfuradoras
Vale ressaltar nesse ponto, que a Declaração de Independência dos Estados Unidos e a Constituição Norte-Americana foram assinadas na Cidade Velha (Old City, em inglês)
"Acredito que nesse exato momento estamos sofrendo uma devastadora perda em relação a história. Nos últimos dois anos, ficou exponencialmente muito pior. Com toda a construção em andamento, a perda potencial de recursos arqueológicos é simplesmente gigantesca e, uma vez que ninguém está supervisionando nada, nem mesmo sabemos o que estamos perdendo", disse Douglas Mooney, presidente do Fórum Arqueológico da Filadélfia.

"Sem dúvida alguma, a Filadélfia é a cidade mais importante do período colonial. Há extensas coleções arqueológicas na Filadélfia, que estão muito mais preservadas do que em qualquer outra cidade do Leste dos Estados Unidos", disse Carmen Weber Creamer, que prestou serviço como a única arqueóloga contratada pela cidade, em todos os tempos, no final da década de 1980.

"Sem dúvida alguma, a Filadélfia é a cidade mais importante do período colonial. Há extensas coleções arqueológicas na Filadélfia, que estão muito mais preservadas do que em qualquer outra cidade do Leste dos Estados Unidos", disse Carmen Weber Creamer, que prestou serviço como a única arqueóloga contratada pela cidade, em todos os tempos, no final da década de 1980
Porém, essa coleções - depositadas na sujeira mundana da cidade - estão desaparecendo, apesar das leis da Filadélfia proclamarem especificamente que a preservação dos recursos arqueológicos é um "bem público no interesse da saúde, prosperidade e bem-estar do povo da Filadélfia."

Na verdade, as proteções arqueológicas podem se tornar uma enorme dor de cabeça para a cidade, uma vezes que os funcionários da atual administração do prefeito Jim Kenney se preparam para uma renovação de US$ 500 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) em parques, playgrounds e centros de recreação. Douglas Mooney, que faz parte do comitê de designação histórica da Comissão Histórica da Filadélfia, traçou um rápido mapa preliminar para verificar a localização de antigos cemitérios. O que ele encontrou foi uma forte correlação com playgrounds e parques da cidade atual. Vocês podem acompanhar a realização dos trabalhos dos arqueólogos, através desse vídeo que foi publicado na conta do site Philly.com, no YouTube:



Assim como esse outro vídeo, uma espécie de "segunda parte":



O propósito da Comissão Histórica é identificar e proteger tais recursos. No entanto, a arqueologia - talvez porque seus tesouros não possam ser vistos, talvez porque seja caro - é mais frequentemente desprezada como se fosse um bastardo imundo em termos de preservação. Vale lembrar que no ossos encontrados na rua Arch, a Comissão Histórica da Filadélfia, o Departamento Municipal de Licenças e Inspeções, o Escritório do Médico Legista, e Comissão de História e Museus do Estado da Filadélfia disseram que não tinham nenhuma responsabilidade. Ajeenah Amir, porta-voz do prefeito Kenney, chegou a afirmar que: "Os cemitérios são regidos pela lei estadual e não estão dentro da nossa jurisdição local."

A principal responsável por lei, para coordenar a preservação arqueológica, a Comissão Histórica da Filadélfia, raramente se demonstrava estar ansiosa para sujar suas mãos com escavações. Os tesouros em potencial acabavam escorregando entre os dedos da história.

A Cobertura Por Parte da Grande Mídia Norte-Americana


Um dos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos, a CNN, publicou uma notícia sobre esse caso, no dia 10 de março desse ano. No texto foi mencionado que, inicialmente, eles encontraram apenas alguns ossos. Posteriormente, descobriram um caixão inteiro. Então, outros foram surgindo. Quando se deram conta, dezenas de caixões começaram a surgir, sendo que a maioria estava enterrado a cerca de 2 metros de profundidade. Assim sendo os arqueólogos estavam tentavam classificar os restos mortais na esperança de ter uma ideia mais próxima da realidade de como era a vida na Filadélfia colonial.

Os historiadores disseram, conforme mencionamos anteriormente, que os caixões faziam parte do cemitério da Primeira Igreja Batista, estabelecida em 1707, na parte histórica da cidade, no que hoje era a rua Arch. Os registros indicavam que eles deveriam ter sido realocados pela cidade, para o Cemitério Monte Moriá, por volta de de 1859, mas o trabalho pelo visto, nunca foi realizado por completo.

No texto foi mencionado que, inicialmente, eles encontraram apenas alguns ossos. Posteriormente, descobriram um caixão inteiro. Então, outros foram surgindo. Quando se deram conta, dezenas de caixões começaram a surgir, sendo que a maioria estava enterrado a cerca de 2 metros de profundidade
Os historiadores disseram, conforme mencionamos anteriormente, que os caixões faziam parte do cemitério da Primeira Igreja Batista, estabelecida em 1707, na parte histórica da cidade, no que hoje era a rua Arch. Os registros indicavam que eles deveriam ter sido realocados pela cidade, para o Cemitério Monte Moriá, por volta de de 1859, mas o trabalho pelo visto, nunca foi realizado por completo
"Custa dinheiro realocar as sepulturas e às vezes isso não acontece. Os empresários decidem cortar as despesas. O problema é que, em se tratando dos restos mortais de entes queridos, cortar despesas é algo trágico", disse Lee Arnold, da Sociedade Histórica da Pensilvânia, em entrevista para a CNN.

A CNN informou que, até aquela data, os investigadores tinham encontrado 38 caixões no local, em um espaço de aproximadamente 12 por 7 metros de largura. No entanto, eles disseram que não tinham ideia de quantos mais poderiam surgir. Jonathan Stavin, vice-presidente executivo da PMC, proprietária do terreno, disse, por sua vez, acreditar que esse número cresceria.

"Todos ficaram um pouco surpresos, não esperávamos encontrar o que descobrimos, há camadas disso", disse Jonathan Stavin, acrescentando que as autoridades estavam financeiramente empenhadas em ajudar a reenterrar os corpos no Cemitério Monte Moriá.

"É a coisa certa a se fazer", completou.

A CNN informou que, até aquela data, os investigadores tinham encontrado 38 caixões no local, em um espaço de aproximadamente 12 por 7 metros de largura. No entanto, eles disseram que não tinham ideia de quantos mais poderiam surgir. Jonathan Stavin, vice-presidente executivo da PMC, proprietária do terreno, disse, por sua vez, acreditar que esse número cresceria
"Todos ficaram um pouco surpresos, não esperávamos encontrar o que descobrimos, há camadas disso", disse Jonathan Stavin, acrescentando que as autoridades estavam financeiramente empenhadas em ajudar a reenterrar os corpos no Cemitério Monte Moriá
No texto da CNN foi mencionado, que a empresa planejava construir um prédio residencial de 10 andares e 116 unidades no local. Também foi citado que os investigadores estavam enfrentando condições climáticas complicadas, em uma verdadeira corrida contra o tempo para encontrar e remover os restos mortais da forma mais eficiente possível. Contudo, Anna Dhody, diretora e curadora do Instituto e Museu Mütter, disse que o prazo, de praticamente apenas uma semana, poderia ser prorrogado.

"Não é certo deixar quaisquer restos mortais para trás. Não vamos parar até que terminemos", disse Anna Dhody. Os arqueólogos estavam em meio a uma camada rochosa ou de argila, que Dhody disse que não havia sinais que revelassem uma possível perturbação.

"Estamos bem confiantes de que não haja nada sob essa camada deposicional", acrescentou. Os investigadores estavam aproveitando a mão-de-obra da própria empresa para que o trabalho mais pesado pudesse ser feito, enquanto os especialistas faziam o trabalho de escavação mais detalhado.

"Não é certo deixar quaisquer restos mortais para trás. Não vamos parar até que terminemos", disse Anna Dhody. Os arqueólogos estavam em meio a uma camada rochosa ou de argila, que Dhody disse que não havia sinais que revelassem uma possível perturbação
"Isso é algo positivo para todos os possíveis projetos futuros, porque estamos treinando-os para procurar sítios arqueológicos no futuro. A Filadélfia é uma cidade histórica, não é a primeira vez que algo assim acontece e não será o última, os trabalhadores da construção civil são nossa primeira linha de visão. Envolvê-los e interessá-los é fundamental para preservar a nossa história", continuou.

"Há partes do cemitério que não conseguimos acessar devido ao outro prédio. Pode haver pessoas enterradas por lá, que não seremos capazes de acessá-las", completou, apontando que a quantidade de caixões poderia ser substancialmente maior se tivessem uma área maior para trabalhar.

Anna Dhody disse que o Instituto Mutter planejava estudar e analisar os caixões e os ossos, um processo que levaria muitos meses. Uma análise das ossadas poderia revelar suas idades, o sexo, a raça, possíveis traumas físicos, assim como uma miríade de outras pistas biológicas sobre seus hábitos cotidianos.

Anna Dhody disse que o Instituto Mutter planejava estudar e analisar os caixões e os ossos, um processo que levaria muitos meses. Uma análise das ossadas poderia revelar suas idades, o sexo, a raça, possíveis traumas físicos, assim como uma miríade de outras pistas biológicas sobre seus hábitos cotidianos
Kimberlee Moran, professora associada e diretora do Centro Forense da Universidade Rutgers, disse que a descoberta era uma enorme oportunidade educacional. Ela tinha cerca de uma dúzia de estudantes trabalhando para exumar os caixões.

"Alguns caixões são realmente lindos e estão perfeitamente intactos. Já outros são apenas um esboço no solo, eles desapareceram completamente", disse Kimberlee Moran, em entrevista à CNN, acrescentando que planejava criar turmas universitárias para que os alunos pudessem continuar as pesquisas em relação aos restos mortais.

Kimberlee Moran, professora associada e diretora do Centro Forense da Universidade Rutgers, disse que a descoberta era uma enorme oportunidade educacional. Ela tinha cerca de uma dúzia de estudantes trabalhando para exumar os caixões
"Não é todo dia que você encontra um cemitério histórico. É uma janela real para o passado e para a demografia da Filadélfia naquela época", completou.

O site de notícias da afiliada da NBC, na Filadélfia, apontou um panorama um pouco mais crítico do que esse, ao dizer que ao menos 60 pessoas já tinham emergido das escavações na rua Arch desde o final do mês anterior (por volta do dia 20 de fevereiro), sendo que 24 caixões tinham sido descobertos no dia 9 de março, um dia antes da publicação da CNN. Resumindo? Quase uma centena de pessoas.

Ao contrário da CNN, a NBC foi mais incisiva ao dizer que não havia regulamentos estaduais ou municipais sobre como lidar com ossos que fossem desenterrados, a menos que estivessem diante de um projeto do governo, ou seja, utilizando dinheiro público. Portanto, a empresa não tinha nenhuma obrigação de transformar a área em uma escavação arqueológica ou parar a construção. No curto texto também foram apontadas as declarações do Jonathan Stavin, vice-presidente executivo da PMC.

Ao contrário da CNN, a NBC foi mais incisiva ao dizer que não havia regulamentos estaduais ou municipais sobre como lidar com ossos que fossem desenterrados, a menos que estivessem diante de um projeto do governo, ou seja, utilizando dinheiro público
"Estamos tentando dar o nosso melhor para sermos respeitosos em relação ao que encontramos. Estamos dispostos a permitir que esse processo continue até que seja concluído. Temos nosso projeto para construir, mas estamos tentando fazer a coisa certa aqui", disse Jonathan Stavin.

Agora, querem saber a quantidade exata de caixões que foram recuperados? Cerca de 77. Cada um deles repletos ossos. Isso sem contar é claros as demais ossadas encontradas, e que não havia um sinal físico de um caixão, que obviamente já havia sido consumido pela terra ao longo do tempo.

Evidentemente, analisar e tentar coletar o máximo de informação possível sobre quem eram essas pessoas demanda muito tempo e dinheiro. Portanto, o Instituto e Museu Mütter, anunciou no dia 29 de março desse ano, que havia lançado uma campanha especial de financiamento coletivo para arrecadar fundos com o objetivo de analisar os restos mortais, e por fim pode reenterá-los da forma mais respeitosa possível. Segundo o comunicado, uma equipe de voluntários correu contra o tempo para remover os restos mortais de mais de 100 pessoas na rua Arch nº 218. Assim sendo, o Instituto Mütter esperava angariar esses fundos, uma vez que que o projeto voluntário despertou o interesse da população local.

Vocês também podem conferir algumas reportagens realizada pela imprensa norte-americana sobre o caso, a exemplo dessa reportagem divulgada pela agência de notícias Associated Press (em inglês):



Assim como essa reportagem realizada pela Fox News (em inglês):



"A escavação foi apenas o começo do projeto. Levará meses, senão anos para realizar toda a limpeza e análise dos restos mortais. E precisará do apoio financeiro de nossa comunidade, tanto local quanto de regiões mais distantes, para contribuir com todo esses esforços", disse Anna Dhody, diretora do Instituto Mütter.

"Os doadores poderão acompanhar o andamento do projeto pela internet, e através das nossas redes sociais onde vamos documentar e compartilhar o nosso processo, a partir do realocação dos restos mortais para uma nova instalação de armazenamento para a análise e, finalmente, poderem ser reenterrados no Cemitério Monte Moriá. Queremos compartilhar essa experiência de aprendizagem com os nossos doadores e seguidores. Nós queremos que vocês saibam onde e como suas doações estão sendo usadas, e como é importante o apoio de vocês em relação aos nossos esforços", continuou.

"A escavação foi apenas o começo do projeto. Levará meses, senão anos para realizar toda a limpeza e análise dos restos mortais. E precisará do apoio financeiro de nossa comunidade, tanto local quanto de regiões mais distantes, para contribuir com todo esses esforços", disse Anna Dhody, diretora do Instituto Mütter
"Esses são nossos antepassados. Essa é a nossa história. Eles podem ter vivido ou morrido durante algumas das principais crises de saúde pública da Filadélfia: a epidemia de febre amarela de 1793 ou a epidemia de cólera de 1832 ou 1849. Nós podemos ser capazes de determinar se alguns dos indivíduos morreram dessas doenças, examinando os restos mortais e pesquisando nos arquivos da cidade", completou.

A campanha aberta no site CauseVox pretende arrecadar cerca de US$ 20.000 (cerca de R$ 63.000 pela cotação atual), porém até o fechamento dessa postagem, apenas 70 doadores tinham resultado em um total de pouco mais de US$ 4.000. Apesar da média ser alta, a arrecadação está apenas em 21% do esperado. De qualquer forma, esperamos que eles consigam arrecar o necessário e restaurar a dignidade dessas pessoas. No entanto, a seguir vocês vão perceber que esse descaso do poder público na Filadélfia não é de hoje.

Um Descaso que se Repete ao Longo do Tempo


Quando o complexo leste da Shit Corner, na rua do Mercado, foi demolido em 2014, por exemplo, colecionadores de garrafas invadiram o local, arrancando artefatos de uma forma que surpreendeu os arqueólogos. O Fórum Arqueológico da Filadélfia tentou, sem sucesso, despertar a atenção da Comissão Histórica para proteger o local e autorizar o trabalho arqueológico, enviando um apelo por escrito a Jonathan Farnham, diretor executivo da mesma, descrevendo os riscos iminentes. A carta, no entanto, foi ignorada.

Jonathan Farnham disse que a Comissão Histórica "não identificou o potencial arqueológico do local, no momento em que foi designado" e, assim sendo, não poderia fazer nada.

"Os colecionadores de garrafas amadores cavaram em diversos pontos. Não havia documentação e não havia mapeamento local. Perdemos todas as informações", disse Jed Levin, arqueólogo do Fórum Arqueológico da Filadélfia. Um colecionador mostrou a Levin e seus colegas um vaso raro de cerâmica esmaltada, que lembrava muito a cerâmica afro-americana encontrada ao sul do Chesapeake, retirada de uma escavação particular ao longo da rua do Mercado. Era diferente de tudo que Levin tinha visto na cidade, e sugeria uma indústria de cerâmica produzida por negros, do século XVIII, na cidade - algo que seria uma completa surpresa. Agora, isso se tornou um mistério sem solução.

Imagens constrastando os arqueólogos (ao fundo) e os operários da Fastrack Builders (em primeiro plano)
Em 2016, a Comissão Histórica se recusou a designar como "histórico" o local do Antigo Cemitério Comum de Kensington, localizado abaixo de um desenvolvimento planejado entre os números 1934 e 1948 da avenida Frankford. A incorporadora, Ori Feibush, queria demolir duas garagens, cavar uma fundação e construir residências.

Kenneth Milano, historiador de Kensington, ouviu falar do projeto de construção e rapidamente nomeou o terreno, em uso ativo durante a primeira metade do século XIX, para designação histórica no Registro de Locais Históricos da Filadélfia. Milano disse acreditar que era importante ver se podiam obter informações sobre a comunidade. O cemitério tinha sido iniciado por trabalhadores, imigrantes alemães e, em muitos aspectos, os Pais Fundadores de Kensington.

Entretanto, a Comissão Histórica pareceu não entender o propósito básico de proteger esses recursos invisíveis e anônimos. David Schaaf, membro do comitê de designação histórica da comissão, questionou a nomeação. De acordo com uma ata de uma reunião da comissão, ele disse que tinha "dificuldade em identificar exatamente o material que a comissão histórica estaria protegendo".

Cerca de 77 caixões foram recuperados. Cada um deles repletos ossos. Isso sem contar é claros as demais ossadas encontradas, e que não havia um sinal físico de um caixão, que obviamente já havia sido consumido pela terra ao longo do tempo.
A incorporadora Ori Feibush contratou seu próprio arqueólogo, que fez uma pequena escavação de teste, descobrindo o crânio de um gato. "Eu não sei o que mais poderia ser feito", disse o advogado da Ori Feibush à Comissão Histórica. Depois de idas e vindas entre os membros, a comissão decidiu ignorar a recomendação de seu próprio comitê de designação histórica, o único órgão onde um arqueólogo profissional participa. O veredito? Nenhuma designação. O local permanece desprotegido, sendo que Ori Feibush até hoje diz que nenhum osso ou lápide apareceu.

Mesmo quando a Comissão Histórica recomenda especificamente para que um incorporador tenha cuidado em relação aos recursos arqueológicos, o resultado pode ser bem abaixo do ideal. Isso provou ser o caso em relação ao complexo residencial da rua One Water, próxima a ponte Benjamin Franklin, outro projeto da PMC. A PMC entrou em cena depois que um desenvolvimento anterior acabou não dando certo no local, no qual a comissão tinha determinado um estudo arqueológico e solicitado um relatório, em 2006, ao norte do local onde ficava o antigo estacionamento Hertz, onde a arqueóloga da cidade, Carmen Weber Creamer, liderou uma famosa escavação em 1987, descobrindo os resquícios de um antigo estaleiro bem debaixo do asfalto. O estacionamento Hertz se tornou o primeiro local arqueológico listado nos registros da cidade.

O relatório de 2006, para o que havia se tornado a rua One Water, apontou que havia uma alta probabilidade de que mais infraestruturas de transporte estavam debaixo dessa mesma rua. O relatório também disse que o prosseguimento das obras, ou seja, perfurar a rocha e inserir toneladas de concreto, poderia ser arqueologicamente apropriado desde que fosse monitorado de perto.

O Instituto e Museu Mütter anunciou no dia 29 de março desse ano, que havia lançado uma campanha especial de financiamento coletivo para arrecadar fundos com o objetivo de analisar os restos mortais, e por fim pode reenterá-los da forma mais respeitosa possível
Entretanto, a ideia de perfurar um antigo corpo d'água da cidade aterrorizou os membros do Fórum Arqueológico da Filadélfia, em 2012. Eles alertaram a Comissão Histórica, quando a PMC estava se preparando para iniciar as atividades na rua One Water, que a perfuração poderia ser calamitosa e os primeiros artefatos poderiam ser destruídos pelo processo de perfuração. De qualquer forma, a comissão deixou a incorporadora prosseguir.

"Nós dissemos 'Não faça isso'. A comissão nos desprezou completamente, eles fizeram 375 perfurações e, exatamente como dissemos, não havia como dizer o que a broca trouxe para a superfície. Não tinha nenhuma forma de apontar o que estava debaixo da terra. A forma como lidaram com a situação foi terrível, e tudo foi devastado pela broca", disse Douglas Mooney. O projeto avançou, porém nenhuma antiga evidência de quaisquer corpos d'água emergiu da lama.

Uma Pequena Esperança Fornecida Pelo Governo Federal dos Estados Unidos


Na Filadélfia, uma grande parte do passado, que não foi perdida, foi resgatada por regras federais, que exigem a exploração do que pode estar escondido debaixo do solo. Por exemplo, restos de um bloco inteiro do século XVIII, surgiram de uma escavação realizada no ano 2000, no Shopping Independence, que precedeu a construção do National Constitution Center. Brinquedos infantis, jornais legíveis, ferramentas de trabalho, as mais diversas vidas dos mais diversos moradores do bloco emergiram. Tudo isso graças aos requerimentos federais.

O que provavelmente é a primeira porcelana feita nos Estados Unidos - um simples vasilhame branco referido por um especialista como "o santo graal da cerâmica norte-americana" - foi encontrada em 2016, sob o Museu da Revolução Americana, entre as ruas 3 e Chesnut, o antigo local onde ficava uma instalação do Serviço Nacional de Parques. Mais uma vez, o governo federal exigiu que fosse realizada uma escavação.

O que provavelmente é a primeira porcelana feita nos Estados Unidos - um simples vasilhame branco referido por um especialista como "o santo graal da cerâmica norte-americana" - foi encontrada em 2016, sob o Museu da Revolução Americana, entre as ruas 3 e Chesnut, o antigo local onde ficava uma instalação do Serviço Nacional de Parques
Foto do Museu da Revolução Americana que foi inaugurado no dia 19 de abril desse ano
Muitas vezes esses artefatos são as únicas pistas que ajudam determinar o significado do passado e de quem viveu nos locais, de um simples trabalhador até um político poderoso, e nenhuma outra cidade do Leste dos Estados Unidos tem algo sequer próximo, em termos de potencial e tesouros arqueológicos enterrados, do que a Filadélfia. No entanto, Boston e Nova York possuem formas bem mais eficazes de lidar com essa situação. Boston, por exemplo, tem um cargo estabelecido de arqueólogo da cidade, que serve como educador público assim como regulador. Em Nova York, a Comissão de Preservação Landmarks possui um arqueólogo entre os membros de sua equipe.

O arqueólogo Jed Levin, que trabalhou em diversas cidades da Costa Leste, disse que em ambas as cidades os recursos arqueológicos são levados muito mais a sério do que na Filadélfia. Não que os conflitos entre o passado que está enterrado e o crescimento atual das cidades não ocorram nessas outras cidades, é claro.

"É a forma como eles são tratados quando algo assim ocorre. Eles realmente utilizam e impõe efetivamente as leis que eles têm", disse Jed Levin. A Filadélfia, no entanto, é no mínimo "irregular" nos quesitos de aplicação das leis e regras para proteger o passado enterrado.

"É a forma como eles são tratados quando algo assim ocorre. Eles realmente utilizam
e impõe efetivamente as leis que eles têm
", disse Jed Levin (à direita)
Dos 13 bairros/distritos históricos oficiais da cidade, só a "Society Hill" é designada como uma área com potencial arqueológico e, mesmo lá, a consideração pelo que pode estar debaixo da terra é minimizada. Como exemplo, em abril de 2013, a Comissão Histórica considerou um pedido de desenvolvimento em alguns pontos do bloco 500 da Rua South Front, um terreno baldio. A ata da reunião da Comissão História daquela época faz a seguinte menção: "Em uma rápida pesquisa, nada indica que algo incomum ou excepcional tenha ocorrido nesse locais, portanto, embora seja provável que artefatos arqueológicos sejam encontrados no local, parece improvável que eles revelem 'informações importantes pré-históricas ou históricas.'"

Para Douglas Mooney, isso ilustra exatamente a razão, pela qual um julgamento arqueológico profissional é necessário em relação a comissão e sua equipe.

"O que eles estão pensando em relação ao ponto de vista de investigação arqueológica é documentar o excepcional. O que eles não entendem é que, especialmente em um ambiente urbano como a Filadélfia, se tem uma coisa em que a arqueologia é realmente boa, é em documentar a vida cotidiana, a vida mundana. O mais importante é saber como era a vida na cidade, e o que não foi escrito. Você não pode fazer isso de outra forma", disse Douglas Mooney. A comissão, no entanto, aprovou as obras propostas na Rua South Front.

Imagem do Google Maps mostrando a localização do bairro/distrito denominado de Society Hill
Dos 13 bairros/distritos históricos oficiais da cidade, só a "Society Hill" é designada como uma área com potencial arqueológico e, mesmo lá, a consideração pelo que pode estar debaixo da terra é minimizada
O diretor executivo da Comissão, Jonathan Farnham, insiste que "artefatos da vida cotidiana de pessoas comuns são tão importantes, senão mais importantes, do que aqueles de figuras históricas famosas." Questionado se a comissão tinha planos de contratar um arqueólogo para a equipe, ele disse que não. Essa relutância acontece apesar de uma avaliação crítica da Comissão de História e Museus do Estado da Pensilvânia, que analisa o desempenho da Comissão Histórica de Filadélfia para garantir que a cidade e o estado permaneçam elegíveis para o recebimento de verbas federais a partir de um programa especial conhecido como "Certified Local Government Program"

Comentários de diversos grupos de preservação foram solicitados pela Comissão de História e Museus e incorporados a um relatório, concluído em maio de 2016. Muitos citavam a ausência de um arqueólogo na equipe ou que fosse membro da comissão, como uma "deficiência crítica" da própria comissão.

O relatório sugeriu que a comissão era sobrecarregada pelo "enorme volume de pedidos de licenças para a construção de edifícios", que "faz com que os escassos recursos existentes (verbas) para a equipe sejam destinados para recursos acima do solo, enquanto os recursos arqueológicos recebem apenas uma atenção superficial no processo de revisão de uma licença." Na prática, isso significa que os arqueólogos, caso estejam envolvidos no processo, são chamados no último momento, quando as escavadeiras e os trituradores estão a pleno vapor nos locais. Essa cena pode ser vividamente ilustrada pela corrida para exumar os caixões na rua Arch.

Infelizmente, no entanto, para cada local protegido, existem diversos lotes vazios. Qualquer um desses locais pode conter um "Santo Graal" de algum tipo, que pode ser destruído por uma retroescavadeira, permanecer enterrado ao ser sepultado em concreto ou estar abandonado em meio ao lixo urbano. Algo que poderia mudar todo o passado de um povo, permanece esquecido em meio a modernidade que um dia, invariavelmente, também se tornará passado.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://arch-street-bones-project-43170.causevox.com/
http://freepages.genealogy.rootsweb.ancestry.com/~mpom/first%20baptist%20church%20removals.html?cj=1&sid=89027X1542228Xb3aab119eb674e70ccfee9d66d506d87&netid=cj&o_xid=0007939049&o_lid=0007939049&o_sch=Affiliate+External
http://www.atlasobscura.com/articles/philadelphia-bones-archaeology-mutter-museum
http://www.atlasobscura.com/articles/philadelphia-construction-coffins
http://www.cnn.com/2017/03/10/us/coffins-philadelphia-construction/

http://muttermuseum.org/news/mutter-institute-launches-crowdfund-campaign/
http://www.nbcphiladelphia.com/news/local/Construction-Workers-Unearth-Centuries-old-Coffins-in-Philadelphia-415817663.html

http://philadelphia.cbslocal.com/2017/03/09/coffins-discovered-at-construction-site-in-old-city/
http://www.philly.com/philly/entertainment/20161102_Old_bones_turn_up_during_construction__regulatory_agencies_shrug.html
http://www.philly.com/philly/news/Race-to-dig-at-historic-cemetery-a-mere-hint-of-what-ails-Philadelphias-oversight-of-buried-treasures.html
https://billypenn.com/2017/03/10/why-old-dead-bodies-will-accidentally-surface-in-philadelphia-again/

https://hyperallergic.com/373393/the-arch-street-bones-project/
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