15 de abril de 2017

Conheça o Cemitério Okunoin: O Maior Cemitério do Japão! Um Local Repleto de Crenças e que Abriga as Almas de 200.000 Monges!


Por Marco Faustino

Para muitas pessoas o cemitério é um lugar triste, sombrio e amedrontador. Algumas dessas pessoas têm razão em dizer isso devido ao estado de conservação, que muitos deles se encontram. Em maio do ano passado, por exemplo, fiz uma postagem sobre o estado que se encontrava o "Cementerio General del Sur" ("Cemitério Geral do Sul", em português), localizado na Região Metropolitana de Caracas, na Venezuela, onde nem mesmo os mortos conseguem descansar em paz. Criminosos bêbados circulavam (e com certeza ainda devem circular) pelos corredores do cemitério, tanto a pé, quanto de moto, praticando todo o tipo de crime: assaltos, sequestros, estupros, assassinatos etc. Além disso, as ossadas de entes queridos, de quaisquer pessoas, são roubadas e utilizadas em plena luz do dia por praticantes de "seitas satânicas", em rituais um tanto quanto obscuros. Quando isso não acontece, os ossos são vendidos para as mais diversas finalidades, alimentando financeiramente as organizações criminosas, que controlam inúmeras favelas ao redor do cemitério. Aquele não era um caso onde fantasmas ou espíritos poderiam assombrar um cemitério, mas sim de um medo real, um que se esconde atrás de cada sepultura ou imagem sacra de um dos maiores e mais antigos cemitérios da Venezuela, e com certeza um dos mais perigosos do mundo. É uma matéria que vale muito a pena que você leia, uma vez que mostra exatamente um lado humano pouco comentado (leia mais: A Triste Situação do "Cemitério Geral do Sul" na Venezuela: Um Lugar Onde Nem Mesmo os Mortos Descansam em Paz).

Agora, e se eu contar para vocês que existe um lugar bem especial no mundo, um cemitério onde a paz, a tranquilidade e o bem-estar simplesmente reinam em meio aos mortos? Um local que, segundo a tradição local, não existe morte, apenas uma longa fila de espera de almas aguardando pela chegada de Maitreya, chamado popularmente de "Buda do Futuro" (também chamado de "Miroku Bosatsu", o Salvador). No Extremo Oriente, a chegada do Maitreya está associada ao início de uma nova era, na qual o mundo será transformado em um paraíso, onde os bons e os maus serão julgados. Acredite, esse local existe e chama-se "Okunoin", o maior cemitério do Japão. Um lugar repleto de histórias, crenças e que abriga as almas de 200.000 monges! Esse cemitério fica localizado em Monte Koya (também conhecido como Koyasan), basicamente na sede do Budismo Shingon, que por sua vez é uma das maiores escolas budistas japonesas, sendo um dos ramos do budismo Vajrayana juntamente com o budismo tibetano, e popularmente chamado de "budismo esotérico japonês". Aliás a palavra "shingon" é a leitura japonesa dos kanji para a palavra chinesa "zhen yan", literalmente significando "palavra verdadeira", que por sua vez é a tradução chinesa da palavra sânscrita "mantra".

Situado a 800 metros de altura em meio à floresta do monte Kii, que também abriga a rota de Kumano Kodo (uma espécie de "Caminho de Santiago", no Japão), Monte Koya é um lugar no qual o ritmo de vida é marcado pelas orações dos monges. Fundado no ano de 816 pelo monge budista Kukai (também conhecido como Kobo Daishi), Monte Koya foi construído como um local de retiro e treinamento, no qual os monges poderiam meditar longe das distrações da então capital, Kyoto. Após mais de 1.200 anos, cerca de 117 templos ainda estão em funcionamento (sendo que é possível pernoitar em 52 deles), atraindo 15 milhões de visitantes anualmente. Assim sendo vamos contar para vocês um pouco sobre o Monte Koya e, em seguida vamos abordar as histórias e crenças do Cemitério Okunoin! Vamos saber mais sobre esse assunto?

Conheça um Pouco Sobre "Monte Koya" (Koyasan), Localizado na Prefeitura de Wakayama, ao Sul de Osaka


Para vocês terem uma ideia da importância de Monte Koya, a localidade foi declarada como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em 2014, algo que acabou impulsionando substancialmente o turismo na região. Pessoas de todas as partes do Japão e do mundo viajam durante horas para chegar à paisagem natural distante dos sofisticados trens-bala japoneses.

Um dos aspectos mais atraentes dessa localidade, além das rotas de caminhada, é pernoitar em um dos 52 tempos budistas - dos 117 que seguem em funcionamento - que oferecem essa possibilidade (esses templos que oferecem hospedagem são conhecidos como "shukubo"). Eles abriram suas portas aos peregrinos há um bom tempo, uma vez que não existia outro local para que eles se hospedassem na região. Desde então permanecem à disposição de devotos e curiosos, que acordam e vão dormir com mantras budistas, compartilham com os monges seus mantimentos, compostos em sua maioria por verduras e produtos da terra fértil, além de um excelente tofu de gergelim. Curiosamente, em alguns templos é permitido até mesmo ingerir bebidas alcóolicas.


Mapa turístico do vilarejo de Monte Koya onde é possível notar a demarcação de alguns templos onde é possível pernoitar, assim como alguns outros elementos, como estacionamentos, delegacia de polícia, centros de informação e finalmente o Cemitério Okunoin
Embora a maior parte dos turistas que viajam até Monte Koya seja japonesa (cerca 218.352 visitantes pernoitaram na região, em 2014), os estrangeiros são cada vez mais comuns em Monte Koya. Segundo as estatísticas do governo de Wakayama, cerca de 54.511 turistas estrangeiros se hospedaram na localidade em 2014, algo que representava um aumento de 5,2% em relação ao ano anterior.

Em entrevista publicada no site da revista Época, no ano de 2015, Yoshinobu Nisaka, governador de Wakayama, disse que o crescimento foi motivado em grande parte "pela forte ajuda da internet na divulgação de Monte Koya". De acordo com o governador, a grande diferença entre a localidade e outras cidades turísticas do Japão é que em Monte Koya as pessoas precisam andar para aproveitar cada um dos cantos, ou seja, um local de retiro, treinamento, meditação e paz. Confira também um vídeo, publicado naquele mesmo ano, mostrando inúmeras imagens desse vilarejo, através de um canal de terceiros, no YouTube (o vídeo conta com um fundo musical):



Conforme dissemos anteriormente, o vilarejo de Monte Koya foi fundado no ano de 816 pelo monge budista Kukai (também conhecido como Kobo Daishi), para que os monges pudessem meditar longe das distrações da então capital, Kyoto. Uma das estruturas mais icônicas do local é uma pagoda vermelha de 48,5 metros de altura, erguida como símbolo do centro principal de treinamento dos monges.

No interior do templo encontra-se um enorme Buda Vairocana dourado, rodeado de outras imagens e flores. Foi nesta figura que Kukai baseou a doutrina esotérica que trouxe da China. Aliás, era justamente nesse templo principal onde morava originalmente o herdeiro de Kukai. Em seu interior encontra-se o maior jardim de rochas do Japão, chamado de Banryutei, com 2.349 m².

Uma das estruturas mais icônicas do local é uma pagoda vermelha de 48,5 metros de altura,
erguida como símbolo do centro principal de treinamento dos monges.
Em seu interior encontra-se o maior jardim de rochas do Japão, chamado de Banryutei, com 2.349 m²
Vale ressaltar nesse ponto que "pagoda" é um termo que se refere a um tipo de torre com múltiplas beiradas, comum na China, no Japão, na Coreia do Norte, na Coreia do Sul, no Nepal e em outras partes da Ásia. Em muitos contextos, é usado como sinônimo de estupa. Muitas das pagodas foram construídas para fins religiosos, geralmente budistas, por isso localizavam-se dentro ou próximas a templos.

Além disso pagodas costumam atrair raios devido à altura. Essa tendência fez com que as pessoas vissem as pagodas como lugares carregados espiritualmente. Muitos delas têm uma antena no topo, conhecida como "finial", que tem valor simbólico dentro do budismo: por exemplo, ela pode conter formas representando um lótus. O finial também funciona como um para-raios, protegendo a pagoda de danos que os raios possam causar.

Vale ressaltar nesse ponto que "pagoda" é um termo que se refere a um tipo de torre com múltiplas beiradas, comum na China, no Japão, na Coreia do Norte, na Coreia do Sul, no Nepal e em outras partes da Ásia. Muitas das pagodas foram construídas para fins religiosos, geralmente budistas, por isso localizavam-se dentro ou próximas a templos.
Ao buscar mais informações sobre Monte Koya descobri que no ano passado, uma equipe de brasileiros do site "Chicken or Pasta?", um site dedicado a viagens, estilos de vida, gastronomia, artes, cultura, música e diversão, foi visitar Monte Koya e pernoitou em um templo budista. Essa equipe também deu uma passada no Cemitério Okunoin (algo que comentaremos na segunda parte dessa postagem). Assim sendo, achei interessante compartilhar um pouco da experiência deles com vocês. Irei escrever apenas um resumo aqui para não nos alongarmos muito, e também para evitar de copiar deliberamente um material que não é meu. Contudo, vocês podem conferir o artigo completo, intitulado "Dormindo com os monges num templo budista", no site do "Chicken or Pasta?", combinado?

No texto é mencionado que Monte Koya possui uma população de apenas 3.000 habitantes, a maior parte monges, que têm permissão para se casar, ter filhos e até comer carne, mas por lá a prática mesmo é o vegetarianismo. Durante a visita, a equipe do "Chicken or Pasta?" ficou hospedada no Kumagaiji, um templo de arquitetura clássica japonesa construído no ano 837. Os sapatos não passam da entrada. Lá dentro, é permitido andar apenas com os chinelos fornecidos pelo próprio templo ou então com os pés descalços.

Durante a visita, a equipe do "Chicken or Pasta?" ficou hospedada no Kumagaiji,
um templo de arquitetura clássica japonesa construído no ano 837 (foto: site "Chicken or Pasta?")
Dentro do templo Kumagaiji é permitido andar apenas com os chinelos fornecidos pelo próprio templo
ou então com os pés descalços (foto: site "Chicken or Pasta?")
Kumagaiji é dividido em duas partes: a de hospedagem e o templo propriamente dito. Havia uma grande casa, onde ficavam os quartos espalhados em dois andares. No local havia uma sala de convivência, banheiros, chuveiros e os onsen (uma espécie de casa de banho).

Kumagaiji também contava com uma pequena loja de itens relacionados ao Budismo e ao templo e, para aqueles que não desgrudam da internet, Wi-fi! Além disso tudo, Kumagaiji também tinha um belíssimo e pequeno lago cheio de carpas e, finalmente, o templo onde são realizadas as cerimônias.

Entrada do templo Kumagaiji (foto: site "Chicken or Pasta?")
Entrada do jardim do templo Kumagaiji (foto: site "Chicken or Pasta?")
A cozinha é vegetariana, saborosa e servida simpaticamente pelos monges. São eles também que arrumam as camas, um futon fininho (uma espécie de cama tipicamente japonesa) com travesseiros que possuem prenchimento de sementes, que são colocados no meio do tatame. Também são fornecidas toalhas e um kimono para cada pessoa.

A equipe se surpreendeu com a qualidade, além da quantidade. Arroz, muito tofu, legumes, algas, tortinhas e a adaptação ocidental era um avocado com queijo. Para acompanhar, o habitual chá quente. E, claro, come-se ajoelhado no tatame com os pratos servidos em pequenas bandejas numa mesa bem baixa. Curiosamente, muitos pratos servidos em Kumagaiji tiveram que ser adaptados para agradar melhor os turistas, visto que muitas vezes eles voltavam intocados para a cozinha, algo que deixava os monges tristes.

De acordo com a equipe, a pernoite no Kumagaiji custou cerca de US$ 100 (aproximadamente R$ 320 pela cotação atual) incluindo jantar e café da manhã, porém esse valor varia consideravelmente de acordo com o templo que a pessoa desejar se hospedar. A maneira mais fácil para fazer a reserva em um desses templos é via Japanican ou então consultar o site oficial do vilarejo.

Detalhe da porcelada no qual a comida é servida no templo Kumagaiji (foto: site "Chicken or Pasta?")
A equipe se surpreendeu com a qualidade, além da quantidade. Arroz, muito tofu, legumes, algas, tortinhas e a adaptação ocidental era um avocado com queijo. Para acompanhar, o habitual chá quente. E, claro, come-se ajoelhado no tatame com os pratos servidos em pequenas bandejas numa mesa bem baixa (foto: site "Chicken or Pasta?")
Já em relação ao vilarejo em si, foi mencionado que existe apenas uma rua principal cheia de templos, mausoléus, santuários, mas também algumas lojas de souvenirs, cafés e alguns poucos restaurantes. O vilarejo abriga construções que chegam a ter quase 1.000 anos, mas muitos lugares foram reconstruídos, já que a maioria é de madeira e muitos foram destruídos ou queimados diversas vezes.

Já em relação ao vilarejo em si, foi mencionado que existe apenas uma rua principal cheia de templos, mausoléus, santuários, mas também algumas lojas de souvenirs, cafés e alguns poucos restaurantes
O vilarejo abriga construções que chegam a ter quase 1.000 anos, mas muitos lugares foram reconstruídos, já que a maioria é de madeira e muitos foram destruídos ou queimados diversas vezes
Um dos templos localizado na principal rua de Monte Koya (foto: site "Chicken or Pasta?")
"Danjo Garan-on" foi o primeiro complexo de templos construído por Kobo Daishi. Atualmente conta com cerca de 20 templos e construções, incluindo a magnífica pagoda vermelha "Konpon Daito" de 45 metros de altura que, originalmente foi construída antes do ano 1.000, mas foi reconstruída várias vezes. A última reconstrução foi feita em 1932.

Quem quiser mergulhar mais a fundo na história de Monte Koya, deve visitar o Museu Reihokan, que preserva a religião e os tesouros locais. São 3 exposições, sendo duas temporárias e uma permanente com diversas estátuas, mandalas, ferramentas religiosas, pinturas e um livro que descreve a "Imagem da Reclinação do Buda Sakyamuni em seu Último Dia". Os mais dispostos podem dedicar um dia de trekking em uma parte da trilha da Kokechi, rota que faz parte da Kumano Kodo (trilha de caminhada de peregrinos, irmã japonesa do Caminho de Santiago). A caminhada, no entanto, não é recomendada para iniciantes. Também há na cidade aulas de yoga e meditação em inglês. Os anúncios podem ser vistos espalhados por todo vilarejo.

O Cemitério Okunoin: O Maior Cemitério do Japão!


De acordo com a superstição da escola budista Shingon, não há mortos em Okunoin, mas apenas espíritos em "estado de espera". Conforme a história é contada, certo dia, "Kukai" (774-835), mais conhecido no Japão sob o nome de "Kobo Daishi", fundador da comunidade religiosa do Monte Koya, entrou em meditação aguardando a chegada de Maitreya, o "Buda do Futuro" (também chamado de "Bosatsu Miroku", o Salvador).

Da mesma forma as "almas em trânsito" descansando nos túmulos ou de quem os cabelos ou cinzas foram colocados por seus entes queridos em frente ao Mausoléu Kukai também aguardam por esse dia. Até que esse dia chegue, que para muitos é visto como um "profecia apocalíptica", o número de túmulos em Okunoin continua aumentando, e já conta com mais de 200.000.

Mapa turístico mostrando alguns templos e principais túmulos do Cemitério Okunoin
Ao cruzar a ponte "Ichinohashi", a tradicional entrada de Okunoin, é como cruzar uma ponte entre dois mundos. Antes de entrar no entanto, os visitantes devem juntar as mãos e se curvar para mostrar seu respeito a Kukai. Do outro lado, a atmosfera é diferente, o ar é sagrado. Os cedros vertiginosos escondem o céu e o fim do caminho pavimentado construído através da floresta. Os estilos presentes nos memoriais são bem variados, mas os cenotáfios (memorial fúnebre erguido para homenagear alguma pessoa ou grupo de pessoas cujos restos mortais estão em outro local ou estão em local desconhecido) são uma atração à parte.

Ao cruzar a ponte "Ichinohashi", a tradicional entrada de Okunoin, é como cruzar uma ponte entre dois mundos. Antes de entrar no entanto, os visitantes devem juntar as mãos e se curvar para mostrar seu respeito a Kukai
Para vocês terem uma ideia, existe um memorial no formato de um foguete, um memorial em homenagem as vítimas da bomba de Hiroshima e Nagasaki, da Batalha de Bornéu, entre outros. Existem também alguns bem curiosos, como um memorial dedicado aos funcionários da multinacional do ramo automobilístico Nissan, e até mesmo de uma companhia de pesticidas, que certa vez resolveu adicionar um momento em homenagem a todos os cupins, que eles mataram em razão de seus produtos.

Para vocês terem uma ideia, existe um memorial no formato de um foguete (na foto), um memorial em homenagem as vítimas da bomba de Hiroshima e Nagasaki, da Batalha de Bornéu, entre outros.
Existem também alguns bem curiosos, como um memorial dedicado aos funcionários
da multinacional do ramo automobilístico Nissan...
...e até mesmo de uma companhia de pesticidas, que certa vez resolveu adicionar um momento em homenagem a todos os cupins que eles mataram em razão de seus produtos.
Deixando de lado o caminho principal e se aventurando entre os túmulos esquecidos com pedras erodidas ou cobertas de musgo, é possível notar que, pouco a pouco, a natureza tenta retomar aquilo que é dela por direito.

Por outro lado, a entrada secundária do cemitério, localizada em frente ao ponto de ônibus, leva aos túmulos mais recentemente construídos com granito refinado, como se estivessem envernizadis, artificiais, tirando toda a individualidade de seus residentes eternos. Outro sinal de modernidade é que as oferendas mudaram, e as latas de refrigerante se juntaram ao incenso e sutras (palavras atribuídas ao Buda ou aos seus discípulos imediatos).

Os cedros vertiginosos escondem o céu e o fim do caminho pavimentado construído através da floresta
Deixando de lado o caminho principal e se aventurando entre túmulos esquecidos com pedras erodidas ou cobertas de musgo, é possível notar que, pouco a pouco, a natureza tenta retomar aquilo que é dela por direito
Os estilos presentes nos memoriais são bem variados, mas os cenotáfios (memorial fúnebre erguido para homenagear alguma pessoa ou grupo de pessoas cujos restos mortais estão em outro local ou estão em local desconhecido) são uma atração à parte
Ao longo do caminho principal, não é possível deixar de notar alguns "acessórios" colocados em estátuas de Budas, que muitas vezes possuem uma espécie de babador vermelho. São oferendas que as mães deixam para proteger seus filhos nesse mundo ou para lhes trazer sorte na vida após a morte (iremos entrar em maiores detalhes sobre isso daqui a pouco).

Ao longo do caminho principal, não é possível deixar de notar alguns "acessórios" colocados em estátuas de Budas, que muitas vezes possuem uma espécie de babador vermelho
Seguindo o caminho em direção ao Norte, após atravessar uma determinada ponte, se alcança a terceira e última ponte, a "Gobyonohashi", que anuncia a passagem para um nível mais intenso e sagrado do que o anterior. A passarela, na qual as 36 tábuas estão esculpidas com divindades budistas, é considerada como tal. Mais um vez é necessário juntar as mãos e se curvar para mostrar seu respeito a Kukai.

Seguindo o caminho em direção ao Norte, após atravessar uma determinada ponte, se alcança a terceira e última ponte, a "Gobyonohashi" (na foto), que anuncia a passagem para um nível mais intenso e sagrado do que o anterior
Aliás, essa área requer o máximo de respeito possível. Um pouco mais à esquerda, existe uma cabana de madeira, que abriga a pedra Miroku, que, quando levantada, pesa os pecados da pessoa. Através de pequenas lacunas nas paredes, é possível acessar a pedra, sendo que é costume tentar levantá-la com uma mão para colocar no alto de uma espécie de prateleira. Vocês podem conferir como os turistas se espremem para ter essa experiência, através de um vídeo publicado em um canal de terceiros, no YouTube:



Acredita-se que a pedra aparente ser mais leve para as pessoas boas e mais pesadas para as pessoas más, e que ela pode fornecer uma conexão com o Miroku Bosatsu.

Um pouco mais à esquerda, existe uma cabana de madeira (na foto), que abriga a pedra Miroku, que, quando levantada, pesa os pecados da pessoa. Através de pequenas lacunas nas paredes, é possível acessar a pedra, sendo que é costume tentar levantá-la com uma mão para colocar no alto de uma espécie de prateleira
Acima de tudo, Okunoin é um lugar da contemplação. No entanto, existe um único túmulo, que é inacessível aos meros mortais: o mausoléu Kobo Daishi (o local também é conhecido como "Gobyo").  De qualquer forma, os monges acreditam que ele não está morto, tão somente meditando sem dar um único suspiro. Todos os dias, refeições são depositadas na porta em apoio ao seu esforço, enquanto monges e leigos refletem em silêncio e recitam sutras em voz baixa. Todo mundo é livre para venerar Kobo Daishi, mas seja o que for que realmente estiver acontecendo em seu interior, as portas permanecem fechadas.

Dia e noite, enfrentando nuvens de mosquitos no verão ou dias sombrios de neblina, os visitantes reúnem-se a qualquer tempo em Okunoin, especialmente durante o Obon (um festival japonês em homenagem aos mortos e os espíritos dos ancestrais, algo equivalente ao que conhecemos como Finados, mas que ocorre no 15º dia do sétimo mês lunar, ou seja, essa data pode variar de ano para ano, mas geralmente ocorre por volta do dia 15 de julho ou agosto, visto que depende da região do Japão em que é comemorado).

Dia e noite, enfrentando nuvens de mosquitos no verão ou dias sombrios de neblina, os visitantes reúnem-se a qualquer tempo em Okunoin, especialmente durante o Obon (um festival japonês em homenagem aos mortos e os espíritos dos ancestrais, algo equivalente ao que conhecemos como Finados, mas que ocorre no 15º dia do sétimo mês lunar, ou seja, essa data pode variar de ano para ano)
Um dia não é suficiente para entender a dimensão de Okunoin, e muitas vidas seriam necessárias para descobrir todos os seus segredos. Apesar disso, estranhamente para um cemitério, dizem que sua tranquilidade acalma as almas. Provavelmente porque, impassível em seu retiro, Kobo Daishi. está cuidando delas.

Ainda no interior do cemitério é possível encontrar o chamado "Torodo Hall" (Salão das Lanternas). É o principal local de Okunoin destinado a veneração de Kobo Daishi, e que foi construído em frente ao mausoléu. Dentro do salão existem mais de 10.000 lanternas, que foram doados por adoradores e são mantidas eternamente acessas. Também é possível encontrar 50.000 estátuas minúsculas que foram doadas ao cemitério Okunoin por ocasião do 1150º aniversário da entrada de Kobo Daishi, em meditação, no ano de 1984.

Ainda no interior do cemitério é possível encontrar o chamado "Torodo Hall" (Salão das Lanternas). É o principal local de Okunoin destinado a veneração de Kobo Daishi, e que foi construído em frente ao mausoléu
Dentro do salão existem mais de 10.000 lanternas, que foram doados por adoradores e são mantidas eternamente acessas
Alguns guias turísticos sugerem visitar o cemitério de Okunoin à noite. Uma visita noturna realmente proporciona uma atmosfera especial, que é bem diferente de uma visita diurna, porém é importante notar que algumas partes do caminho são mal iluminadas. É possível aventurar-se por todo o caminho até mausoléu durante a noite, mas nem o Torodo Hall e nem mesmo quaisquer outros salões ou instalações ficam abertas. Nesse sentido, vocês podem conferir um vídeo publicado em um canal de terceiros,no YouTube, logo abaixo, que retrata como é passear pelo Cemitério Okunoin, durante a noite:



Durante a visita a Okunoin, equipe do site "Chicken or Pasta?" percorreu os cerca de 2 km da trilha pavimentada que leva até o mausoléu de Kobo Daishi durante a noite. Eles contaram que existe diariamente um passeio noturno guiado para quem quiser entender mais a história do cemitério, mas que eles acabaram não fazendo. Para entrar também é necessário lavar previamente as mãos.

Durante a visita a Okunoin, equipe do site "Chicken or Pasta?" percorreu os cerca de 2 km da trilha pavimentada que leva até o mausoléu de Kobo Daishi durante a noite (foto: site "Chicken or Pasta?")
Para entrar no Cemitério Okunoin também é necessário lavar as mãos (foto: site "Chicken or Pasta?")
Entretanto, talvez o que mais chame a atenção em Okunoin sejam as estátuas "Jizos" ou "Jizo Bosatsu". Nesse ponto é interessante ressaltar, que em muitos cemitérios japoneses, incluindo o cemitério Okunoin, existem estátuas de tamanhos variados, que se destacam por seus babadores e gorros vermelhos. Misturadas entre as lápides cinzentas e estupas, algumas destas figuras têm as bochechas rosadas, sendo possível notar o uso de "batom vermelho" nos lábios.

Misturadas entre as lápides cinzentas e estupas, algumas destas figuras têm as bochechas rosadas,
sendo possível notar o uso de "batom vermelho" nos lábios
Esses ícones lúdicos e pungentes são os "Jizos" ou "Jizo Bosatsu", em alusão a uma divindade do budismo, que tem sido parte da cultura japonesa durante séculos. Tal como acontece com muitas divindades em panteões asiáticos, "Jizo Bosatsu" desempenha diversas "tarefas": A figura pode ser masculina ou feminina, sendo um guardião de viajantes e almas perdidas. Contudo, é o papel como protetor das crianças - especialmente de crianças que não tiveram a chance de nascer, morreram durante o parte, pouco após o mesmo ou que morreram quando eram bem novinhas - que explica o vestido espirituoso, uma adaptação moderna de Jizo, que é própria do budismo japonês.

Os visitantes do cemitério adornam as figuras em Okunoin com oferendas, assim como os monges que cuidam do mesmo. Porém, os presentes e adornos mais pungentes vêm dos pais, seja diante do luto em perder um(a) filho(a), seja em agradecimento por uma jovem vida que foi salva. Gorros e lenços são adicionados para proteger a divindade dos elementos, sendo que os babadores simbolizam a proteção das crianças por parte de Jizo.

Os visitantes do cemitério adornam as figuras em Okunoin com oferendas,
assim como os monges que cuidam do mesmo
Gorros e lenços são adicionados para proteger a divindade dos elementos,
sendo que os babadores simbolizam a proteção das crianças por parte de Jizo
A história de Jizo tem origem em conto do século XIV chamado "Sai no Kawara" ("leito do rio do mundo inferior", em português), um lugar muito parecido com o rio Styx na mitologia grega, ou até mesmo o purgatório na tradição cristã. Segundo a lenda, as crianças que são abortadas, nascem mortas ou morrem antes de seus pais, entram em um limbo, uma espécie de inferno, nas margens de um rio rochoso. Nesse local elas são forçadas a construir torres de pedras para reparar o pecado de causar tal sofrimento, e para ajudar a aumentar o mérito de seus pais no além. Os demônios aparecem todas as noites e destroem as torres, forçando as crianças a reconstruí-las constantemente. Jizo é o único Bosatsu, que recusou a iluminação para prover uma escapatória dessa inglória tarefa, escondendo crianças nas mangas de seu roupão, e levando-as ao equivalente budista do paraíso, um dever que ele prometeu cumprir infinitamente.

Embora muitas colorações sejam encontradas nos adornos dos Jizos, o tom mais comum é o vermelho, a cor da tradição mitológica japonesa, que muitas vezes pode ser rastreada até a antiga prática de repelir demônios. Ao longo do tempo, o vermelho passou a representar tanto a morte quanto a vida, assim como visto nos símbolos japoneses dos portões torii dos santuários xintoístas ao Sol Nascente da bandeira nacional.

Embora muitas colorações sejam encontradas nos adornos dos Jizos, o tom mais comum é o vermelho, a cor da tradição mitológica japonesa, que muitas vezes pode ser rastreada até a antiga prática de repelir demônios
Uma adaptação mais contemporânea do Jizo surgiu, quando a figura veio ocupar lugar de destaque em relação ao Mizuko-Kuyo, ou o "serviço memorial para um feto", como uma maneira de ritualizar o sofrimento do aborto espontâneo, do aborto propriamente dito ou do nascimento de uma criança morta. A realização dessas cerimônias se expandiu nos últimos anos, uma vez que é uma maneira de aliviar a dor dos pais e de lamento diante dessa perda singular. Isso é algo realizado por todo o Japão, e aos poucos está espalhando pelo Ocidente, conforme as tradições do budismo japonês são propagadas.

Uma adaptação mais contemporânea do Jizo surgiu, quando a figura veio ocupar lugar de destaque em relação ao Mizuko-Kuyo, ou o "serviço memorial para um feto", como uma maneira de ritualizar o sofrimento do aborto espontâneo, do aborto propriamente dito ou do nascimento de uma criança morta.
Em Okunoin, também há uma grande pirâmide inteiramente composta de pequenas estátuas Jizo, semelhantes a crianças. É um "muenzuka" ("Monte dos Anônimos", em português), uma pilha para os espíritos que não têm família ou alguém para cuidar pessoalmente de seus túmulos.

Em Okunoin, também há uma grande pirâmide inteiramente composta de pequenas estátuas Jizo. É um "muenzuka" ("Monte dos Anônimos", em português), uma pilha para os espíritos que não têm família ou alguém para cuidar pessoalmente de seus túmulos
A estrutura não é tão antiga, possui apenas 30 ou 40 anos, mas é possível ver as fileiras inferiores, adornadas com babadores vermelhos, subindo cada vez mais conforme o tempo passa. Uma maneira visualmente poderosa de lembrar e horar aqueles que partiram ou foram esquecidos de alguma outra forma.

Como Chegar ao Monte Koya (Koyasan) para Conhecer o Vilarejo e o Cemitério Okunoin?


Chegar em Monte Koya (Koyasan) é relativamente simples, porém pode se tornar uma odisseia dependendo da região do Japão onde a pessoa more e principalmente seja um turista de primeira viagem. De qualquer forma, a melhor opção é conseguir chegar até a cidade de Osaka, a partir da estação Namba, de onde saem trens da Nankai diretamente para a estação Gokurakubashi, na cidade de Koya. Essa é uma estação ferroviária essencial, e que serve como porta de entrada para o vilarejo em questão.

De qualquer forma, a melhor opção é conseguir chegar até a cidade de Osaka, a partir da estação Namba, de onde saem trens da Nankai diretamente para a estação Gokurakubashi, na cidade de Koya (foto: site "Chicken or Pasta?")
Ao contrário do que aparece no mapa, o percurso entre a estação Namba e Gokurakubashi é feito em aproximadamente 2h ao viajar através de um trem expresso da Nankai, ao custo de ¥2.800 (aproximadamente R$ 80) por pessoa. Esse valor inclui a passagem de ida e volta, funicular (uma espécie de teleférico) e utilização de ônibus no vilarejo por cerca de 24h
A estação de Gokurakubashi serve como porta de entrada para o vilarejo de Monte Koya
O percurso entre a estação Namba e Gokurakubashi é feito em aproximadamente 2h ao viajar através de um trem expresso da Nankai, ao custo de ¥2.800 (aproximadamente R$ 80) por pessoa. Esse valor inclui a passagem de ida e volta, funicular (uma espécie de teleférico) e utilização de ônibus no vilarejo por cerca de 24h. 

Chegando na estação de Gokurakubashi é necessário pegar o tal funicular que leva a pessoa até a estação ferroviária do vilarejo de Monte Koya. Esse trajeto é feito em torno de apenas 5 minutos.

Chegando na estação de Gokurakubashi é necessário pegar o tal funicular,
que leva a pessoa até a estação ferroviária do vilarejo de Monte Koya
Esse trajeto é feito em torno de apenas 5 minutos
Foto da estação ferroviária do vilarejo de Monte Koya
Chegando na estação ferroviária do vilarejo de Monte Koya é necessário pegar um ônibus até Senjuinbashi, a região central da cidade, um trajeto que demora entre 10 a 11 minutos. De lá, você pode se encaminhar para o templo que desejar ou aproveitar os outros encantos que o vilarejo tem para oferecer.

Chegando na estação ferroviária do vilarejo de Monte Koya
é necessário pegar um ônibus até Senjuinbashi, a região central da cidade...
...um trajeto que demora entre 10 a 11 minutos
Bem, esperamos que vocês tenham gostado de conhecer mais esse pedacinho do Japão e principalmente sobre o seu maior cemitério que, ao contrário da primeira imagem que nos vem a cabeça, é um lugar de tranquilidade, serenidade e acolhimento. Com certeza é um lugar que vale a pena ser visitado durante pelo menos um dia, visto que não tenho dúvidas que será uma experiência intensa e inesquecível para qualquer pessoa e enriquecedora não somente culturalmente, mas espirtualmente falando. Acreditar ou não no que é proposto pela Escola Shingon se torna praticamente secundário diante de um reduto de paz, um dos poucos que ainda verdadeiramente temos no mundo.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2015/12/monte-koya-um-destino-turistico-e-de-peregrinacao-que-completa-1200-anos.html
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https://troutfactory.wordpress.com/2006/06/24/koya-san-vi-okunoin/
https://www.japan-experience.com/city-koyasan/okunoin
https://www.japan-rail-pass.com/japan-by-rail/itineraries/mount-koya
https://www.japanhoppers.com/pt/kansai/koyasan/kanko/1076/
https://www.travelyesplease.com/travel-blog-okunoin-cemetery-koyasan/
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