11 de março de 2017

Uma Boneca "Amaldiçoada" Seria Responsável por Estranhos Casos de "Possessões Demoníacas" em uma Comunidade Remota, na Nicarágua?

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Por Marco Faustino

No dia 5 de março desse ano, divulgamos um caso envolvendo uma mulher chamada Vilma Trujillo García, 25 anos, moradora da comunidade de Cortezal, na cidade de Rosita, na Nicarágua, que foi morta ao ser colocada para arder em chamas em uma fogueira, ainda viva, e posteriormente jogada de um barranco, fazendo com que sua chances de viver estivessem a mercê da própria sorte. Tudo isso porque alguém teve o que estão chamando de "revelação divina", e que Deus teria ordenado ou sugerido que o caso fosse "tratado com fogo". Parentes de Vilma Trujillo a encontraram horas mais tarde, com queimaduras de terceiro grau em 80% do corpo, sendo que a mesma demorou mais de 30h para chegar até um hospital de Manágua, capital do país, para então ser finalmente atendida de forma adequada. Vilma acabou morrendo pouco tempo depois devido a falência múltipla de órgãos, e deixou dois filhos, um menino de cinco anos e uma menina de apenas dois. Sua morte acabou sendo atribuída a um grupo de pessoas, pretensamente religiosos, que decidiram que tinham autonomia para representar uma divindade, tal como Deus é para os católicos, diversas outras denominações evangélicas e protestantes, e tantos outros movimentos religiosos. Com o decorrer das investigações o caso foi ganhando cada vez mais detalhes, um tanto quanto horripilantes e dignos de uma verdadeira história de terror. Lembro que fiz uma matéria extremamente completa sobre esse caso, mostrando cada detalhe do mesmo desde o início até a condenação dos responsáveis. Vale muito a pena ler essa postagem (leia mais: O Caso Vilma Trujillo: Mulher é Queimada em uma Fogueira Por Estar Supostamente "Possuída pelo Demônio" em Rosita, na Nicarágua).

Agora, a Nicarágua voltou a receber destaque por um outro caso igualmente assustador. No dia 2 de março (quinta-feira retrasada) as autoridades de saúde pública daquele país informaram a respeito de um estranho surto de uma "doença", que teria sido detectado em uma comunidade indígena da etnia miskito (ou misquito, mas utilizarei "miskito" no decorrer dessa postagem, combinado?), na Região Autônoma da Costa Norte do Caribe (RACCN). Em nota, Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua, leu um relatório emitido pelo Ministério da Saúde apontando para uma crise de uma "doença" chamada "grisi siknis" (também conhecida como "loucura da selva"), na comunidade de Santo Tomás de Umbra, no município de Waspán, justamente no território compreendido pela RACCN, e não muito longe de Rosita. Aparentemente, 27 indígenas dessa comunidade estavam sendo afetados por delírios, gritos e comportamentos muito estranhos. É interessante ressaltar, que no dia 10 de fevereiro desse ano, as autoridades de saúde já tinham relatado um outro surto parecido, dessa vez na comunidade de Raití, Alto Wangki, habitada em sua maioria por indígenas miskitos, também na RACCN. Naquela ocasião, o surto envolveu cerca de apenas 7 estudantes de um instituto agrotecnológico. Assim sendo, Rosario Murillo declarou que estava enviando "médicos tradicionais" para essa comunidade de Santo Tomás de Umbra, justamente para atender as pessoas que tinham sido afetadas. Desde o mês passado, no total, 34 pessoas já tinham sido afetados pela chamada "grisi siknis".

Para vocês terem uma ideia, as pessoas afetadas sofrem convulsões, alucinações e passam a correr desesperadamente com paus ou facões na mão, até que desmaiam e posteriormente recuperam a consciência, mas sem se lembrarem de nada. Algumas pessoas dizem que isso é causado por espíritos ou entidades malignas, que "vivem" na região. Já outros dizem que esse malefício é provocado pelos próprios feiticeiros e bruxos, que são temidos, principalmente nessas comunidades mais remotas do país, com o objetivo de forçar as pessoas a pagarem grandes quantias em troca da cura para salvar seus entes queridos, ou seja, existe a acusação de que alguém cria o problema para então poder cobrar altos valores para solucioná-lo. Os cientistas, no entanto, acreditam que todos os sintomas são causados pelo desespero diante da extrema pobreza em que vivem os índios da etnia miskito, na RACCN. De qualquer forma, uma emissora de TV da Nicarágua foi conferir de perto toda essa situação em Santo Tomás de Umbra e também em Waspam, onde teria acontecido outro caso semelhante recentemente. No decorrer da reportagem realizada no local de uma dessas ocorrências, uma curandeira descobriu o que ela chamou de uma boneca amaldiçoada em um saco de lixo, com cruzes desenhadas em seu rosto, e que tudo aquilo seria um trabalho realizado por alguém para prejudicar outra pessoa. De acordo com a curandeira, aquela boneca estaria provocando todo aquele mal na comunidade. Será mesmo? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Pouco Sobre o Município de Waspán


Waspán é um município nicaraguense da Região Autônoma da Costa Norte do Caribe (RACCN), cujo centro administrativo (muitas vezes referido como "capital municipal") está presente em uma localidade chamada Waspam, que por sua vez funciona praticamente como o grande centro urbano do muncípio, contando com cerca de 15 bairros. Waspán ainda possui cerca de três outros distritos, que no total resultam em 87 comunidades, em um território de 9.342 km², e está localizada a mais de 600 km de distância de Manágua, a capital da Nicarágua.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre o município de Waspán e Manágua, a capital da Nicarágua
Imagem aérea de um trecho Waspam, que por sua vez funciona praticamente como o grande centro urbano do muncípio,
contando com cerca de 15 bairros
A grande maioria dos habitantes são miskitos, e que falam seu próprio idioma. De acordo com o último censo realizado em 2005, o município possui pouco mais de 47 mil habitantes, sendo que pouco mais de 7 mil moram no meio urbano. A situação econômica do muncípio é extremamente precária. Cerca de 96% está abaixo do nível da pobreza, e 80% vivem em condição de pobreza extrema. Sim extamente isso que você leu. Assim como acontece em muitas comunidades remotas da Nicarágua, as casas são praticamente choupanas, que são construídas acima do nível do solo, em palafitas devido as inundações que acontecem na estação chuvosa do ano.

Assim como acontece em muitas comunidades remotas da Nicarágua, as casas são praticamente choupanas, que são construídas acima do nível do solo, devido as inundações que acontecem em determinadas épocas do ano
A principal atividade econômica do município é a agricultura, que é destinada ao consumo próprio, sendo que apenas uma pequena parte é comercializada. Estima-se ainda que cerca de 2.400 pessoas se dediquem a mineração artesanal em algumas minas de ouro, em que pessoas de diversas comunidades ainda tentam trabalhar nas mais adversas condições para sustentarem suas famílias. O ouro extraído é vendido para comerciantes de Honduras e da própria Nicarágua.

Vocês lembram de parte da história do município de Rosita? Naquela ocasião eu disse que houve a Revolução Sandinista, ocorrida na Nicarágua entre 1979 e 1990, sob a égide da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Uma vez que esse movimento foi apoiado por Cuba e a antiga União Soviética, vocês devem imaginar que isso não deu muito certo, e o resultado foi caótico para a região onde Rosita se encontrava, que é praticamente a mesma onde Waspán se encontra. Ocorreu uma profunda mudança demográfica, principalmente em termos étnicos, além da destruição de ricas florestas tropicais devido a exploração madeireira, e a utilização de terras agrícolas abandonadas para pastagem.

A principal atividade econômica do município é a agricultura, que é destinada ao consumo próprio,
sendo que apenas uma pequena parte é comercializada
Estima-se ainda que cerca de 2.400 pessoas se dediquem a mineração artesanal em algumas minas de ouro, em que pessoas de diversas comunidades ainda tentam trabalhar nas mais adversas condições para sustentarem suas famílias
A população de Waspán também foi severamente afetada, visto que grandes grupos de índios miskitos foram para Honduras ou outras localidades dessa região, nesse mesmo período. Após o ano de 1990, alguns grupos familiares voltaram para Waspán e suas respectivas comunidades com o objetivo de reiniciar suas vidas, porém boa parte preferiu se dirigir para Puerto Cabezas, capital da Região Autônoma da Costa Norte do Caribe (RACCN). Resumindo, as condições em Waspán aparentemente conseguem ser ligeiramente piores que em Rosita.

O que é a Chamada "Grisi Siknis"? Isso é Realmente uma "Doença" Contagiosa?


No dia 31 de maio do ano passado, o site da emissora de TV nicaraguense chamada "Viva Nicaragua", publicou um artigo sobre a chamada "grisi siknis" (também conhecida como "grisi munais", "chipil siknis", "krisi siknis" ou "nil siknis"), que no idioma miskito significa "loucura da selva" ou "loucura coletiva". Isso seria uma espécie de "síndrome contagiosa" atribuída culturalmente a pessoas da etnia miskito, na América Central, e afetaria principalmente mulheres mais jovens. Uma vez que se encontra associada especificamente a cultura dos miskitos, a mesma é classificada como uma "síndrome cultural". O único porém, no entanto, é que o artigo da "Viva Nicaragua" nada mais era do que uma cópia extraída da Wikipedia.

A "grisi siknis" seria uma "síndrome contagiosa" atribuída culturalmente a pessoas da etnia miskito, na América Central, e afetaria principalmente mulheres mais jovens. Uma vez que se encontra associada especificamente a cultura dos miskitos, a mesma é classificada como uma "síndrome cultural"
De acordo com o texto que consta na versão em espanhol da Wikipedia, e de acordo os estudos de um antropólogo chamado Phil Dennis, pertencente ao departamento de Antropologia da Universidade de Tecnologia do Texas, essa síndrome caracteriza-se por um longo período de ansiedade, náuseas, mal-estar, raiva irracional e medo, entrelaçado com breves períodos de frenesi, os quais a vítima "perde a consciência, acreditando que o diabo a ataca e a violenta sexualmente", correndo sem nenhum propósito. Os sintomas, no entanto, variam muito de pessoa para pessoa e possuem características diversas. As vítimas, por outro lado, seriam principalmente mulheres jovens ou adolescentes entre 15 e 18 anos.

Além disso, a vítima veria outras pessoas como se fossem demônios, apesar de aparentemente não sentir dor em seu próprio corpo quando fere a si própria. Algumas pessoas pegam facões ou garrafas quebradas para afastar os agressores, até então invisíveis para os demais que não foram afetados, é claro. Também haveria relatos de vítimas que possuem uma força sobre-humana, e até mesmo que teriam vomitado objetos estranhos, tais como: aranhas, baratas, gafanhotos, vidro, unhas, fios de cabelo ou moedas, além de falarem em idiomas diferentes daqueles que são comumente falados nas localidades onde moram. Ainda segundo Phil Dennis, a "grisi siknis" possui um "elevado grau de contágio".

Também haveria relatos de vítimas que possuem uma força sobre-humana, e até mesmo que teriam vomitado objetos estranhos, tais como: aranhas, baratas, gafanhotos, vidro, unhas, fios de cabelo ou moedas, além de falarem em idiomas diferentes daqueles que são comumente falados nas localidades onde moram
Durante as crises, as vítimas dizem ter visões dos espíritos ou demônios, que vêm até eles para ter relações sexuais. Essas visões também incluiriam pesadelos e experiências desagradáveis, que alguns antropólogos dizem que têm relação com as experiências sexuais da própria vítima. Porém, essa questão nunca ficou suficientemente clara. As crises também poderiam acontecer a qualquer momento, com uma grande frequência a partir do momento que a primeira pessoa de um grupo social fosse "infectada". Uma pessoa pode ficar "doente" durante vários meses ou até mesmo um ano, caso não receba "tratamento médico adequado".

De acordo com a Associação de Psicologia Americana, as causas da chamada "grisi siknis" ainda não teriam sido totalmente determinadas pela comunidade científica, mas de acordo com uma definição dentro dos "padrões ocidentais" de pesquisa, essa síndrome seria "um distúrbio psicológico devido ao estresse, comoção e desespero". Por outro lado, os miskitos acreditam que tal "doença coletiva" seja devido ao ataque de espíritos malignos. Confira também um trailer de um documentário sobre a "grisi siknis", que foi publicado em fevereiro de 2010, pelo canal "Las Américas Film Network":



O artigo da Wikipedia ainda diz, por exemplo, que a "medicina ocidental" não obteve resultados positivos nos tratamentos, enquanto os remédios naturais elaborados pelos próprios "miskitos" vinham sendo bem sucedidos ao longo do tempo. Os "curandeiros" miskitos utilizariam uma grande variedade de banhos de vapor e poções à base de plantas, que eles não revelam quais são, e que teriam se provado mais eficazes do que os medicamentos ocidentais. Enfim, auase tudo que se encontra na internet sobre a "grisi siknis" é basicamente baseado em um estudo realizado por esse antropólogo, o Dr. Phil A. Dennis, que teria vivido em uma comunidade de miskitos por mais de um ano, e que foi publicado em uma edição de 1981, de um periódico chamado Medical Anthropology.

Existem exceções, é claro, como por exemplo, o interessante artigo publicado pelo repórter Nicola Ross, em 12 de junho de 2006, no site da revista canadense chamada Walrus. Nesse artigo, Nicola disse que inicialmente esperava chegar na Nicarágua, praticamente esperando ver que a "grisi siknis" fosse resultado da pobreza, abuso sexual e estresse pós-traumático. Afinal de contas, o povo da Nicarágua era extremamente sofrido, uma vez que passou por uma ditadura brutal de 42 anos, sob o controle da família Somoza, e posteriormente se viu em meio a um conflito sangrento que foi a "Revolução Sandinista".

Esse último conflito provocou a migração de diversos índios miskitos, e quando os mesmos voltaram viram suas aldeias queimadas e repletas de minas terrestres. Isso sem contar a passagem do furacão Mitch, em 1998, que arrasou boa parte das comunidades da região nordeste do país, reduzindo substancialmente as plantações, e consequentemente a comida disponível para as comunidades locais.

A passagem do furacão Mitch, em 1998, arrasou boa parte das comunidades da região nordeste do país...
...reduzindo substancialmente as plantações, e consequentemente a comida disponível para as comunidades locais
A "grisi siknis", no entanto, não seria novidade, visto que já havia relatos documentados desde a década de 1850, quando Charles Napier Bell, um etnógrafo inglês, ao visitar uma aldeira miskito, descreveu um caso de uma menina que gritava histericamente e foi levada até um curandeiro local, que ao final do "processo de cura" recomendou que ela não comesse a carne de certos tipos de animais, que ninguém ficasse na sua frente com o vento soprando em sua direção, e que ela não deveria ver mulheres acompanhas de crianças. Esse caso foi relatado no livro "Tangweera; life and adventures among gentle savages", que foi publicado em 1899.

Nicola Ross também descreveu sua viagem, dizendo que tinha viajado de Manágua até Waspam em um aeronave de apenas 10 lugares e, em seguida, viajou em um(a) bató (uma embarcação alongada, semelhante a uma canoa, de apenas 10 metros de comprimento movida a motor) por cerca de oito horas até chegar a Krin Krin, uma comunidade com cerca de 400 habitantes, todos eles miskitos. A "grisi siknis" havia afetado cerca de 1/4 da comunidade no ano 2000, sendo que a mesma fez parte das oito comunidades de uma outra "epidemia" ocorrida em 2003. O cenário da comunidade, no entanto, era bem precário, com crianças com barrigas inchadas devido a parasitas intestinais, sendo que vacas, cabras e porcos vagavam livremente. A comunidade tinha até um poço, mas aparentemente o mesmo não possuía água. Mesmo diante de tanta pobreza, havia a presença de uma igreja católica no local.

Charles Bell, um etnógrafo inglês, ao visitar uma aldeira miskito, descreveu um caso de uma menina que gritava histericamente e foi levada até um curandeiro local, que ao final do "processo de cura" recomendou que ela não comesse a carne de certos tipos de animais, que ninguém ficasse na sua frente com o vento soprando em sua direção, e que ela não deveria ver mulheres acompanhas de crianças
Na época, Nicola conversou com um homem chamado Jesús, que por sua vez disse que a "grisi siknis" havia começado em sua casa, no ano 2000. Ele disse que sua filha, a Lichia, tinha apenas 8 anos de idade, e tinha sido a primeira a ser "infectada". Jesús mencionou que tudo teria começado com uma dor de cabeça, porém, de repente, a garota entrou em transe, a boca começou a se mover descontroladamente, os olhos ficaram avermelhados, e por fim teria sido necessário amarrá-la para contê-la. Testemunhas disseram ter visto a menina expelir uma aranha pela boca. Lichia, que na época do artigo já estava com 13 anos, disse que teve visões de homens pequenos e negros cavalgando em cavalos vermelhos, que tentavam atraí-la para longe da comunidade, oferecendo-lhe uma taça de sangue.

Uma mulher chamada Sandra Davis, instrutora do Departamento de Humanidades da URACCAN (Universidade da Região Autônoma da Costa Norte do Caribe), e que possui um campus em Puerto Cabezas, se mostrou extremamente cética em relação as explicações sobrenaturais, e disse que estava convencida que o abuso sexual tinha uma intríseca relação com esses casos. Ela explicou que a "grisi siknis" é uma espécie de fuga para as mulheres mais jovens, ao menos de forma temporária, de uma vida muito difícil, e que oferece pouquíssimas perspectivas.

Uma mulher chamada Sandra Davis, instrutora do Departamento de Humanidades da URACCAN (Universidade da Região Autônoma da Costa Norte do Caribe), e que possui um campus em Puerto Cabezas, se mostrou extremamente cética em relação as explicações sobrenaturais, e disse que estava convencida que o abuso sexual tinha uma intríseca relação com esses casos
"Muitos homens da etnia miskito, ao final da guerra, não sabiam nada além de apontar uma arma, beber cerveja ou usar drogas. Essa é uma outra forma de 'grisi siknis'", disse Sandra, sugerindo que a doença está realmente enraizada no conflito e na pobreza. Curiosamente, em diversas partes do texto, é mencionado que o trabalho realizado por curadeiros locais não era gratuito, mas  que eles cobravam para "curar as pessoas". Caso não tivessem nada para oferecer, as vítimas continuavam sendo afligidas pela chamada "grisi siknis", ou seja, havia também todo um aspecto financeiro envolvido.

Sandra Davis, no entanto, não está sozinha em sua opinião sobre a "grisi siknis". Em seu artigo, Nicola Ross citou Ronald C. Simons, professor emérito de Psiquiatria e Antropologia, da Universidade Estadual do Michigan, nos Estados Unidos, no qual ele mencionou que a "grisi siknis" era causada pela pobreza extrema em que vivem os miskitos. Nicola também citou Wolfgang Jilek, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova York, também nos Estados Unidos, que por sua vez mencionou que a "doença" seria resultado de traumas e tensões, além de problemas de dissociação mental.

Segundo Mark Jamieson, professor de Antropologia Social na Universidade de Manchester, na Inglaterra, as meninas da cultura miskita enfrentam pressões culturais para arranjarem maridos, e ao mesmo tempo "permanecerem puras perante a sociedade". Aliás, essa é a principal opinião de diversos especialistas sobre a "grisi siknis", visto que "síndromes" semelhantes acontecem com outras culturas e sociedades separadas por grandes distâncias, mas que apresentam as mesmas características, tais como: medo, ansiedade, amnésia, desejo de fugir do local onde moram, marginalização social e violência. Isso sem contar, é claro, as acusações que pairam sobre os curandeiros de envenenarem certos grupos de miskitos com mercúrio ou substâncias alucinógenas para causar um verdadeiro caos, e serem remunerados pelo governo por seus trabalhos para tratar as pessoas afetadas pela "grisi siknis".  Complicado, não é mesmo? Porém, excluindo a hipótese de que a água ou alimentos possam eventualmente estar contaminados com alucinógenos, todos os indícios apontam para algo que conhecemos bem por aqui: a histeria coletiva.

Conheça Alguns Casos que Aconteceram no Passado, e que Foram Relacionados a "Grisi Siknis", na Nicarágua


Em 17 de dezembro de 2003, o site do jornal "The Guardian" publicou uma notícia sobre um caso ocorrido na comunidade de Raití, que fica localizada bem próxima da fronteira com Honduras, no qual uma equipe de médicos, psiquiatras e antropólogos foi até o local, onde cerca de 60 pessoas estavam sofrendo da uma espécie de "loucura coletiva". O surto da "doença" teria começado cerca de um mês antes. Além disso, sete casos teriam sido relatados na comunidade vizinha de Namahka, na semana anterior, onde uma menina de 15 anos teria morrido, porém essa informação não foi confirmada naquela ocasião. Todos os setes casos de Namahka eram referentes a meninas entre 14 e 18 anos. Outros casos também teriam surgido em outras três comunidades próximas.

Em 17 de dezembro de 2003, o site do jornal "The Guardian" publicou uma notícia sobre um caso ocorrido na comunidade de Raití, que fica localizada bem próxima da fronteira com Honduras, no qual uma equipe de médicos, psiquiatras e antropólogos foi até o local, onde cerca de 60 pessoas estavam sofrendo da uma espécie de "loucura coletiva"
Em todos os casos, os pacientes tinham os mesmos sintomas: longos períodos de inconsciência (semelhantes ao coma), interrompidos por surtos repentinos de muita agitação. Também foi mencionado que durante os ataques, as vítimas tentavam fugir de suas comunidades com os olhos fechados, e empunhavam armas para se defender de inimigos invisíveis. Conforme mencionamos anteriormente, o governo da Nicarágua enviou uma equipe médica para Raití, que também incluía curandeiros tradicionais, que também são chamados de "médicos tradicionais".

José Antonio Alvarado, então Ministro da Saúde da Nicarágua, chegou a dizer que os curandeiros enviados até a localidade estavam obtendo melhores resultados do que aqueles "treinados na medicina ocidental". A equipe médica coletou amostra da água de poços locais, e recomendou que as pessoas bebessem apenas água de coco até que água da comunidade fosse devidamente testada. Curiosamente, José Antonio Alvarado chegou a apontar que um relatório médico do fim da década de 1950, emitido logo após um surto semelhante, concluiu que a contaminação deliberada dos poços artesianos era uma das possíveis causas da "grisi siknis" do surto daquela época.

José Antonio Alvarado (na foto), então Ministro da Saúde da Nicarágua, chegou a dizer que os curandeiros enviados até a localidade estavam obtendo melhores resultados do que aqueles "treinados na medicina ocidental"
"Há cidadãos que colocam substâncias alucinógenas na água do poço que, quando combinadas com os aspectos antropológicos (da 'doença') podem exacerbar o comportamento das pessoas", disse na época, José Antonio Alvarado.

A equipe médica era liderada por uma mulher chamada Florence Levy, então diretora regional de saúde. Ela disse que não havia nenhum indicativo de que um vírus fosse o responsável pelo problema, mas muitos testes diferentes estavam realizados. Florence também garantiu que os curandeiros estariam se esforçando muito para controlar a situação.

"Não há muito que nossos médicos possam fazer. Estamos dando apoio aos curandeiros, uma vez que eles conhecem o problema melhor do que nós. A população não faz uso do serviço de saúde nicaraguense, porque a doença é mais espiritual do que física, então eles recorrem ao curandeiro em relação a parte espiritual", disse Florence Levy.

A equipe médica era liderada por uma mulher chamada Florence Levy (na foto), então diretora regional de saúde. Ela disse que não havia nenhum indicativo de que um vírus fosse o responsável pelo problema, mas muitos testes diferentes estavam realizados. Florence também garantiu que os curandeiros estariam se esforçando muito para controlar a situação
O texto ainda dizia que três anos antes, cerca de 80 pessoas tinham afetadas na comunidade de Krin Krin (lembram do artigo do Nicola Ross?). Naquela época, muitos tinham sido tratados com sucesso por um curandeiro chamado Carlos Salomon Taylor, que também fazia parte da equipe que trabalhava em Raití. Carlos disse que cobrou e recebeu cerca de 11.000 córdobas nicaraguenses (atualmente cerca de R$ 1.200 pela cotação oficial) do Ministério da Saúde pelos seus serviços.

Ele ainda afirmava que seu tratamento, que envolvia a utilização de plantas locais e rituais ancestrais, curava a maioria dos pacientes entre 15 a 30 dias. Entre os itens necessários para a cura dessa "doença" estavam: a cauda e os chifres de uma vaca preta, uma concha, enxofre, agulhas, metileno, e diversas ervas. Aliás, ele era apenas um dos cinco curandeiros enviados a Raiti, onde 25 dos 60 doentes estavam respondendo bem ao tratamento.

No fim do mês de maio do ano passado, o site do jornal "El Nuevo Diario" divulgou que uma universitária de apenas 18 anos, originária da Costa Caribenha do país, tinha sido atendida no Hospital Escola Oscar Danilo Rosales Argüello (Heodra), da cidade de León, a segunda maior cidade da Nicarágua, localizada na Costa Oeste do país (a cerca de 90 km a noroeste de Manágua), ou seja, do outro lado da região onde comumente isso ocorre.

Imagem do Google Maps mostrando a distância da cidade de León até Manágua, na Nicarágua
Fachada do hospital Escola Oscar Danilo Rosales Argüello (Heodra),
da cidade de León, a segunda maior cidade da Nicarágua
A jovem apresentava quadro de ansiedade, coceira e fortes dores de cabeça. Ela permaneceu em observação e recebeu alta cerca de 2h depois. A paciente era uma estudante do segundo ano de Medicina, e possuía bolsa de estudos na Faculdade de Ciências da Educação e Humanidades (FCEH), da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN, León). De acordo com uma fonte do hospital, o quadro nervoso que a mesma apresentava tinha sido ocasionado por uma "impressão pessoal".

"Foi a única paciente que atendemos com esses sintomas, ninguém mais deu entrada no centro assistencial em decorrência de manifestações de histeria. É prematuro dizer que se trata de 'grisi siknis' ou 'loucura da selva', porque estaríamos diante da presença de uma emergência médica", disse um funcionário, que não teve seu nome revelado. De qualquer forma, esse funcionário deu claramente a entender que a "grisi siknis" era praticamente sinônimo de "histeria coletiva".

A paciente era uma estudante do segundo ano de Medicina, e possuía bolsa de estudos na Faculdade de Ciências da Educação e Humanidades (FCEH), da Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN, León).
Entretanto, na tarde do dia seguinte, outros cinco universitários supostamente originários da RACCN, sendo alguns deles das cidades de Bluefields, Siuna, e Prinzapolka, também tiveram um colapso nervoso. Aquela era uma situação que preocupava as autoridades da universidade, mas eles não quiseram dar declarações sobre o assunto. A pedido de alguns outros universitários, a polícia compareceu ao local, mas a entrada dos policiais foi negada pela diretoria. O interessante desse caso é que esses cinco universitários eram do sexo feminino, da mesma faixa etária, sendo que alguns veículos de imprensa mencionaram que nem todos eram da RACCN. Vale lembrar que a 'grisi siknis', em tese, afetaria apenas pessoas da etnia miskito, e primordialmente da RACCN.

"Não aconteceu nada aqui, está tudo normal, os doentes serão encaminhados para um hospital, sendo que é lá que devem descobrir o que alguns dizem que é uma doença nervosa", disse, na época, um dos seguranças da faculdade.

A pedido de alguns outros universitários, a polícia compareceu ao local,
mas a entrada dos policiais foi negada pela diretoria
Mariano Espinosa, um dos mais de 600 universitários da faculdade, disse que no dia anterior, por volta das 16h, todos os estudantes, docentes e funcionários da administração foram testemunhas da queda impressionante de um raio, visto que estava chovendo mundo.

"Esse fenômeno da natureza provavelmente foi o que causou a crise nervosa em algumas meninas. Foi isso que aconteceu. Porém, isso foi parar nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação passaram a dizer que era outra coisa", disse Mariano, estudante de medicina veterinária.

Curiosamente, no entanto, o Ministério da Saúde e Secretaria de Saúde da Região Autônoma da Costa Norte do Caribe disseram que enviariam uma curandeira, na qual denominaram como uma "médica tradicional", chamada Porcela Sandino, até León para cuidar das pessoas afetadas. Aliás, Porcela era uma das curandeiras enviadas naquela crise de 2003, juntamente com Carlos Salomon Taylor.

Os Casos Mais Recentes Envolvendo a "Grisi Siknis": Uma Boneca "Amaldiçoada" Seria a Responsável Por um Desses Casos?


No dia 9 de fevereiro desse ano, o site do jornal "El Nuevo Diario" replicou as declarações de Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua, uma vez que a mesma disse que havia um novo surto de "grisi siknis" na comunidade de Raití, no Alto Wangki. Representantes do Ministério da Saúde teriam sido deslocados até essa região para atender as pessoas afetadas, porém não foram divulgadas quantas pessoas seriam.

"Nós já sabemos que esse mal pertuba o corpo e mente das pessoas, e que o mesmo acontece em todas as comunidades da Costa Caribenha. Vamos cuidar desse surto na comunidade de Raití", disse Rosario Murillo.

Imagem do Google Maps mostrando a localização da comunidade de Raití, na Nicarágua
No dia 9 de fevereiro desse ano, o site do jornal "El Nuevo Diario" replicou as declarações de Rosario Murillo, vice-presidente da Nicarágua, visto que a mesma disse que havia um novo surto de "grisi siknis" na comunidade de Raití, no Alto Wangki
No entanto, no dia 3 de março, o "El Nuevo Diario" divulgou que mais um surto de "grisi siknis" estava acontecendo, dessa vez na comunidade Santo Tomás de Umbra, pertencente ao município de Waspam, na Região Autônoma da Costa Norte do Caribe. Dessa vez, cerca de 27 indígenas tinham sido afetados. A notícia também informava que a "grisi siknis" era um malefício atribuído a bruxos e feiticeiros, que são muito temidos nessa região, para forçar as pessoas a pagar grandes quantias em troca da cura, justamente para salvar seus entes queridos.

Surpreendentemente, a emissora de TV "Viva Nicarágua" enviou uma equipe de reportagem até o local, algo que não é tão comum de acontecer, visto que os casos costumam ser esporádicos e pouco documentados, justamente por serem localidades muito remotas. Confira a primeira parte dessa reportagem, que foi publicada no dia 6 de março, no próprio canal da emissora, no YouTube (em espanhol):



No começo da reportagem é possível ver o quão remota era essa comunidade, praticamente acessada por meio de embarcações. Posteriormente, vemos um rapaz correndo aleatoriamente, segurando dois pedaços de madeira nas mãos e, em seguida, o vemos bater com um desses pedaços, na escada de uma das casas da comunidade. Um dos rapazes até mesmo tentava entrar pela janela de uma das casas, para desespero dos moradores. Aliás, no interior da casa é possível notar a presença de um bebê e crianças pequenas.

Um dos rapazes até mesmo tentava entrar pela janela dessa casa, para desespero dos moradores.
Entre os moradores é possível notar a presença de um bebê e crianças pequenas.
Sinceramente, as imagens parecem mais uma verdadeira batalha campal, promovida por jovens de 13 a 20 anos de idade, principalmente homens. Ao entrevistar moradores locais, aparentemente tudo teria começado com um jovem, que acabou "espalhando a doença" para os demais. Isso tinha afetado até mesmo uma escola da comunidade, que tinha sido praticamente destruída.

Ao entrevistar moradores locais, aparentemente tudo teria começado com um jovem, que acabou "espalhando a doença" para os demais. Isso tinha afetado até mesmo uma escola da comunidade, que tinha sido praticamente destruída
Entretanto, entre os jovens também havia a presença de meninas, cuja força era tamanha que precisavam de até cinco homens para controlá-las. É possível notar que os braços e pernas das pessoas afetadas também estão amarradas com panos. De acordo com a reportagem, as únicas pessoas que conheciam a "cura" para esse "mal" eram os curandeiros miskitos, sendo que um deles se encontrava na comunidade, repleto de ervas e garrafas com líquidos desconhecidos, para dar um "banho" e "curar" os moradores locais.

Entretanto, entre os jovens também havia a presença de meninas, cuja força era tamanha que precisavam de até cinco homens para controlá-las. É possível notar que os braços e pernas dos mesmos também estão amarrados com panos
De acordo com a reportagem, as únicas pessoas que conheciam a "cura" para esse "mal" eram os curandeiros miskitos, sendo que um deles se encontrava na comunidade, repleto de ervas e garrafas com líquidos, para dar um "banho" e "curar" os moradores locais
Confira agora a segunda parte dessa reportagem, que foi publicada no dia 7 de março, no próprio canal da emissora, no YouTube (em espanhol):



Na segunda parte da reportagem, a emissora "Viva Nicarágua" informou que dias atrás outros 17 jovens teriam sido afetados no Instituto Tecnológico Agropecuário "Onofre Martinez", em Waspam. Ao entrevistar um dos estudantes, o mesmo informou que diversos estudantes tentavam sair pelas janelas e inclusive pular dos telhados. A príncipio, apesar disso não ter fica muito claro, a maior parte das pessoas afetadas eram meninas, sendo que a responsável por tirar os "espíritos maus" dos corpos das jovens era uma curandeira chamada Maricela.

A príncipio, apesar disso não ter fica muito claro, a maior parte das pessoas afetadas eram meninas, sendo que a responsáveis por tirar os "espíritos maus" dos corpos das jovens era uma curandeira chamada Maricela
É possível vê-la preparando o que é informado como sendo uma poção, fazendo uma oração bem próxima da boca de cada garrafa, e posteriormente banhando uma série de jovens, que tinham toalhas na cabeça, muito provavelmente para não serem identificadas. Ainda de acordo com Maricela, após seu tratamento as jovens passaram a ficar mais tranquilas.

É possível vê-la preparando o que é informado como sendo uma poção, fazendo uma oração bem próxima da boca de cada garrafa, e posteriormente banhando uma série de jovens, que tinham toalhas na cabeça, muito provavelmente para não serem identificadas
Ao longo da reportagem também é mencionado um pouco sobre a "grisi siknis", seus sintomas, e até mesmo podemos conferir o depoimento de alguns jovens afetados. Porém, para Maricela, a causa desse "mal" seria porque alguma pessoa resolveu prejudicar outra, utilizando-se, por exemplo, de magia negra.

Assim sendo, chegamos ao ápice da reportagem quando, durante a noite, Maricela, a equipe de reportagem, e mais algumas pessoas decidiram sair em busca do que estava causando tudo aquilo, ao menos no Instituto Tecnológico Agropecuário "Onofre Martinez", em Waspam, é claro. O que foi encontrado, no entanto, era bem "assustador": uma boneca de plástico, amarrada com fita preta e vermelha e que possuía diversas cruzes em seu rosto.  Segundo Maricela, alguém tinha feito aquelas cruzes "em meio a orações negativas" e a "amarraram com coisas ruins". Posteriormente, a boneca foi queimada.

O que foi encontrado, no entanto, era bem "assustador": uma boneca de plástico, amarrada com fita preta e vermelha e que possuía diversas cruzes em seu rosto
Posteriormente, a boneca foi queimada
Resumindo? De acordo com Maricela, aquela boneca era a culpada pelo que estava acontecendo. As causas do surto de "grisi siknis" na comunidade de Santo Tomás de Umbra, no entanto, não tinham sido descobertas ou reveladas. Entretanto, será mesmo que uma boneca poderia ser responsável pela "grisi siknis"? Por que esse é um "mal" que aparentemente só afeta "miskitos"? Isso tudo é assunto para os meus comentários finais.

Comentários Finais


Sinceramente, diante de tudo que pesquisei e li sobre a "grisi siknis", que foi bem mais do que consta nessa postagem, uma vez que ela ficaria ainda mais longa se eu adicionasse maiores informações, a mesma não passa de histeria coletiva. Nesse ponto, você pode até se perguntar: Então, por que isso aparentemente só afeta a etnia miskito? Isso, no entanto, é o que querem que você pense e acredite. Uma vez que não estou aqui para mostrar apenas um lado de uma história, ou seja, tentar induzir você a acreditar piamente no mundo sobrenatural como muitos fazem, mas para mostrar o outro lado de uma mesma moeda, sinto-me na obrigação de ressaltar alguns detalhes que talvez tenham passado desapercebidos para vocês. O primeiro deles é que esses casos ocorreram ao longo da história sempre em comunidades extremamente isoladas, carentes, predominantemente indígenas, e cercadas de lendas, superstições e toda uma cultura que geralmente não considera a mulher um elemento importante da sociedade. Se você acredita que ser mulher no Brasil, por exemplo, é difícil, seria surreal imaginar as condições que mulheres têm nessas comunidades sem a presença do Estado, com leis próprias que dizem ser ancestrais, sem perspectiva de futuro e com a possibilidade iminente de serem estupradas a qualquer hora do dia ou da noite, não importando a idade que tenham. Se a voz de uma mulher aqui no Brasil é facilmente calada pela força do seu agressor dentro do seu lar, raramente ouviremos a voz dessas mulheres, que não conseguem sequer escapar de onde vivem, visto que se tentarem, provavelmente serão caçadas feito animais em meio a selva que as cerca. Não dá pra imaginar a pressão que sofrem, o que passam na infância, e nem o trauma que carregam para o resto de suas vidas.

É claro que vocês podem dizer que isso ocorre pelo menos desde o século 19, porém a localização das comunidades era praticamente a mesma, os costumes praticamente os mesmos, assim como a alimentação, as ervas supostamente medicinais, entre outros detalhes. As duas únicas diferenças relevantes desde então, é a presença da Igreja Católica - que ensinou que o diabo existe na tentativa apenas de substituir supostos duendes malignos da floresta - e o sangue trazido pelo "homem branco", através de conflitos armados que alimentaram ainda mais a tensão dentro e fora dessas comunidades isoladas. Ah, mas houve um caso no ano passado, que ocorreu na cidade de León, dentro de uma faculdade, e a maioria das meninas eram da RACCN. Na verdade, não é bem assim. Pelo que consta na mídia nicaraguense, no total teriam sido de seis a sete meninas afetadas, mas nem todas eram de cidades da RACCN, e não foi confirmado que todas seriam da etnia miskito. Aliás, um estudante disse que algumas meninas ficaram assustadas com um raio durante uma tempestade no dia anterior. Agora, isso seria suficiente para desencadear uma crise nervosa em diversos estudantes? Sim, uma vez que uma estudante relevante para seu meio social passe mal, isso pode afetar o comportamento das demais, tal como acontece na histeria coletiva. Além disso, tinha um outro detalhe, que acabei não colocando nesse trecho da postagem. A maioria dos estudantes não se encontrava nas instalações da Faculdade de Ciências da Educação e Humanidades, porque tinham sido liberados para viajarem até suas cidades de origem em razão do Dia das Mães, que na Nicarágua é comemorado no dia 30 de maio. Imaginem a "felicidade" que essas estudantes deveriam estar, mesmo sendo maiores de idade, para visitar um verdadeiro inferno, que com certeza devem ter escapado com muito custo. Então, façam as contas comigo: um possível trauma de infância ao viver em condições muito precárias com o risco de serem abusadas sexualmente mesmo sendo apenas crianças, um motivo desencadeador (nesse caso o raio) que gere um estresse muito grande, e o medo (ainda que velado) de voltar para casa (ainda que por alguns dias) sabendo o ambiente "culturalmente rico", que lhe esperam. E aí? Conseguem calcular quando o barril de pólvora vai estourar?

Outro detalhe é que a região onde essas comunidades estão já foram e continuam sendo exploradas em busca de metais preciosos, assim como o ouro. Acho que não preciso dizer o quanto a atividade relacionada a mineração acaba poluindo o ambiente ao seu redor. Na mineração do ouro, por exemplo, é usado mercúrio para facilitar o processo de separação de partículas. E sabem o que acontece quando alguém é envenenado por mercúrio? Alterações de humor como nervosismo e irritabilidade, insônia, dor de cabeça, sensações anormais, contrações musculares, tremores, fraqueza, atrofia muscular, redução das funções cognitivas (memória, percepção, aprendizagem etc.) Alguma semelhança? Não é apenas a água que a população bebe que poderia ser um problema, mas o consumo de peixes ou de animais que bebem a água ou comem plantas de locais próximos as minas. Acham que os "curandeiros" não sabem disso? Eles são as pessoas mais "ocidentais" de todos eles, afinal frequentam constantemente os grandes centros urbanos, recebem dinheiro do Ministério da Saúde, que por sua vez tenta pregar pela preservação e bem-estar cultural do seu povo, quando na verdade não liga a mínima para essas comunidades. Apenas tenta conter um problema no seu devido lugar e longe dos olhos dos demais habitantes. É justamente daí que nascem pessoas como Carlos Salomon Taylor, Porcela Sandino, Maricela, aqueles monstros que queimaram a Vilma Trujillo em uma fogueira, entre outros. A Nicarágua é tão ocidental que aprendeu direitinho sobre negligência salutar, sobre o diabo, e como fazer a população acreditar que isso é "coisa de índio". Não, isso não é "coisa de índio", isso é caso de saúde pública, e até mesmo de polícia, devido a extorsão praticada pelos curandeiros, que podem perfeitamente causar o problema, e cobrar fortunas daqueles que não têm nada em troca para oferecer. Entretanto, nada disso aparece em uma mídia totalmente aparelhada pelo governo da Nicarágua. Uma dor silenciosa, e uma ferida que nunca será cicatrizada, nem por ervas e nem pelo Estado.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://anthropology.msu.edu/anp204-us14/2014/07/18/grisi-siknis-in-nicaragua-2/
http://www.el-nacional.com/noticias/latinoamerica/detectaron-segundo-brote-locura-colectiva-indigenas-nicaragua_83553
http://www.elnuevodiario.com.ni/nacionales/393784-investigan-casos-grisi-siknis/
http://www.elnuevodiario.com.ni/nacionales/418393-ministerio-salud-nicaragua-atiende-brote-grisi-sik/
http://www.elnuevodiario.com.ni/nacionales/420658-medicos-atienden-indigenas-afectados-grisi-siknis/
http://www.hoy.com.ni/2016/05/28/atienden-a-universitarios-por-supuesta-grisi-siknis/
http://www.laprensa.com.ni/2016/05/28/departamentales/2042175-siete-estudiantes-afectados-por-grisi-siknis-en-leon
http://www.lavozdelsandinismo.com/nicaragua/2017-03-02/declaraciones-rosario-murillo-02032017-texto-integro/
http://www.vivanicaragua.com.ni/2016/05/31/sociales/que-es-el-grisi-siknis/
http://www.vivanicaragua.com.ni/2017/03/06/variedades/anda-suelto-el-diablo-en-waspan-primera-entrega/
https://en.wikipedia.org/wiki/Grisi_siknis
https://noticias.terra.com.co/mundo/latinoamerica/detectan-otro-brote-de-locura-colectiva-en-indigenas-miskitos-de-nicaragua,bb86fbac0731b903c883a9e29d1c57635s75mk1n.html
https://thewalrus.ca/nicaraguas-crazy-sickness/
https://www.ministeriodesalud.go.cr/ops/documentos/docLa%20Epidemia%20Grisi%20Siknis-Nicaragua.pdf
https://www.theguardian.com/world/2003/dec/17/1
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