19 de março de 2017

A História Completa da Tábua Ouija: Apenas um Mero Brinquedo ou um Poderoso Instrumento de Comunicação com os Mortos?

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Por Marco Faustino

No fim do mês de novembro do ano passado, o YouTube brasileiro ganhou uma nova polêmica relacionada ao mundo "paranormal", no mínimo inusitada, quando uma jovem resolveu fazer uma transmissão ao vivo (uma live) jogando a tábua Ouija sozinha em seu quarto. Ela estava cumprindo uma espécie de "desafio" supostamente solicitado por seus seguidores, quando algo "inesperado" aconteceu diante da câmera, resultando em cortes na sua perna (na altura do tornozelo), que teriam sido feitos por um suposto espírito ou uma suposta entidade que ela teria entrado em contato durante a sessão. Em diversos momentos do vídeo é possível ver a adolescente, de apenas 17 anos, um pouco alterada, sendo que seu comportamento começa a se tornar bem instável após uma hora de transmissão. Alguns dias depois, ela passou a reclamar das pessoas que achavam que tudo que ela fazia era falso, e gravou um outro vídeo para tentar rebater as críticas que vinha recebendo. Na matéria que fizemos sobre esse assunto, apontamos que toda essa história tinha um viés de ser uma farsa em potencial, ainda mais diante do histórico de vídeos realizados pela jovem (saiba mais sobre esse assunto, clicando aqui). Após todas as polêmicas e controvérsias que o caso ganhou, aparentemente o "objetivo" dessa YouTuber foi atingido ao angariar cerca de 100.000 inscritos em apenas duas semanas.

Não posso ser injusto nesse ponto, visto que alguns YouTubers, primordialmente aqueles não possuem nenhum retrospecto nesse campo, acabam usando o chamado "mundo sobrenatural ou paranormal" como uma espécie de "chamariz" ou "impulso" em seus canais. Contudo, costumam se limitar a pouquíssimos vídeos sobre o tema devido a polêmica, a repercussão e a atração de um público volátil, que não tem nada a perder, podendo gerar uma verdadeira onda de "dislikes" e uma fuga em massa de inscritos. Por outro lado, a verdade é que cada um faz o que quer, e a pessoa que deve julgar se vale a pena ou não assistir a um vídeo no YouTube, não importa de quem seja, é você. O YouTube, assim como outras mídias digitais, sempre teve uma certa premissa velada de tentar "substituir" a TV como forma de entretenimento doméstico, porém acaba obedecendo a principal regra do jogo: aquilo que não dá audiência, é descontinuado, ou seja, se não tiver uma boa repercussão, um quadro ou determinado conteúdo geralmente é cortado. Todo o processo de produção de conteúdo dá trabalho: escrever dá trabalho, gravar dá trabalho, editar dá trabalho, e quando não se tem um retorno positivo das pessoas (feedback positivo, likes e visualizações), sempre se procura outro assunto para apresentar ao público. Eventualmente, no meio desse processo de trazer "algo novo" surgem vídeos de cunho paranormal ou sobrenatural.

De qualquer forma, vamos começar a contar para vocês a história da tábua Ouija, e tentar mostrar a realidade diante do que algumas pessoas andam dizendo por aí. Apesar de extenso, não considero um tema complicado para ser abordado, muito pelo contrário. Afinal, quando se realiza uma boa pesquisa, atrelada a responsabilidade sobre o que se publica e divulga, não há com o que se preocupar. Agora, quando alguém lê superficialmente sobre um assunto e se considera um especialista na área ou um estudioso em algum campo da paranormalidade, bem, geralmente você acaba sendo enganado por essa pessoa. Portanto, é extremamente interessante que você acompanhe conosco cada detalhe da história da tábua Ouija, para que você tenha a exata noção de sua origem, sua utilidade e interpretação do que realmente acontece quando ela é utilizada. Provavelmente, você irá se surpreender ao conhecer um pouco mais sobre ela, e que muitos não fazem a menor questão de contar. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Uma Breve Reflexão Inicial


Como vocês podem perceber, a tábua Ouija ou o tabuleiro Ouija voltou a estar em alta, principalmente no YouTube, porém não podemos ser levianos e dizer que isso é um fenômeno recente, muito pelo contrário. Sempre existiram vídeos de pessoas usando a tábua Ouija ao longo do tempo. A questão é que essa tábua ganha, mais ou menos popularidade, de acordo com diversos fatores, entre eles, por exemplo, o lançamento de filmes em que a mesma passa a ser utilizada pelos personagens ou se torna o centro das atenções.

Um exemplo recente disso é o filme "Ouija: Origem do Mal" onde é contada a história de Doris, uma garotinha solitária e pouco popular na escola (praticamente um clichê e uma realidade para muitas crianças e adolescentes ao mesmo tempo). Sua mãe é especialista em aplicar golpes em clientes, fingindo se comunicar com espíritos (algo que muita gente costuma praticar diariamente). Porém, quando Doris usa uma tábua Ouija para se comunicar com o falecido pai, ela acaba liberando uma série de seres malignos que se apoderam de seu corpo e ameaçam todos ao redor (novamente um clichê em termos de filme de terror). Enfim, como vocês puderam perceber, esse é mais um daqueles filmes de terror voltado principalmente para adolescentes. O filme foi lançado aqui no Brasil no dia 20 de outubro do ano passado, um dia antes dos Estados Unidos.

A questão é que a tábua ganha, mais ou menos popularidade, de acordo com diversos fatores, entre eles, por exemplo, o lançamento de filmes em que a mesma passa a ser utilizada pelos personagens ou se torna o centro das atenções. Um exemplo recente disso é o filme "Ouija: Origem do Mal".
Entretanto, o que é a tábua Ouija? Bem, essa pergunta é bem simples de responder. Na prática, a tábua Ouija é qualquer superfície plana com letras, números, palavras ou outros símbolos em que se utiliza um indicador móvel (podendo ser desde uma tampa de garrafa até um copo, ou seja, não é necessário nada místico, mágico ou especial). Os participantes colocam os dedos sobre esse indicador, que então se move pela tábua para responder perguntas e receber mensagens de "supostos espíritos".

Na prática, a tábua Ouija é qualquer superfície plana com letras, números, palavras ou outros símbolos em que se utiliza um indicador móvel (podendo ser desde uma tampa de garrafa até um copo)
No Brasil, por exemplo, há variantes conhecidas como a "Brincadeira do Copo", "Jogo do Copo" ou até mesmo a "Brincadeira do Compasso". Hoje em dia, essas "brincadeiras" não são tão comuns entre os adolescentes, visto que estamos em uma era digital onde o celular e as redes sociais predominam. 

No Brasil, por exemplo, há variantes conhecidas como a "Brincadeira do Copo", "Jogo do Copo"
ou até mesmo a "Brincadeira do Compasso"
Agora, se você perguntar a origem da tábua Ouija, bem, aí vamos precisar voltar um pouco no tempo.

O Começo da Era Espiritualista: As Irmãs Fox


Atualmente, é difícil imaginar a popularidade que um movimento chamado "Espiritualismo" tinha no século XIX, quando sessões de comunicação com os espíritos, transes de médiuns, batidas em mesas, e outras formas de entrar em contato com o "outro lado" eram praticados por um número estimado de 10% da população norte-americana.

Tudo teria começado em 1848, quando as irmãs adolescentes Kate e Margaret Fox introduziram as "batidas espirituais", em Hydesville, um vilarejo no estado de Nova Iorque, que atualmente não existe mais. Por mais que cada período e cultura tenham tido seus próprios modos para lidar com o "mundo do mortos", o Espiritualismo parecia promover uma real comunicação com o além. Em alguns anos, pessoas de todas as classes sociais passaram a levar a sério a alegação de que se podia mesmo falar com os mortos. Porém, os livros nem sempre contam a realidade por trás desse começo.

As irmãs Fox eram três irmãs que desempenharam um papel muito importante no surgimento do Espiritualismo: Leah Fox (1831-1890), Margaret (também chamada Maggie) Fox (1833-1893) e Kate (também chamada Catherine) Fox (1837-1892). As duas irmãs mais novas usavam "batidas" para convencer a irmã mais velha e outras pessoas que elas estavam se comunicando com espíritos. Leah acabou assumindo o gerenciamento da carreiras de suas irmãs por algum tempo, e todas desfrutaram do sucesso como médiuns durante muitos anos.

As irmãs Fox eram três irmãs que desempenharam um papel muito importante no surgimento do Espiritualismo: Leah Fox (1831-1890), Margaret (também chamada Maggie) Fox (1833-1893) e Kate (também chamada Catherine) Fox (1837-1892)
As irmãs Fox e seus respectivos pais
Em 1888, Margaret e Kate acabaram confessando que suas batidas tinham sido uma fraude e demonstraram publicamente o método que utilizavam. No ano seguinte, Margaret tentou se retratar do que havia dito, mas já era tarde demais. A reputação das duas estava completamente destruída, e menos de cinco anos depois, elas acabariam morrendo na miséria. A ironia é que o movimento do "Espiritualismo" continua existindo até hoje, como se as irmãs não tivessem dito, que tudo não passava de uma farsa.

Os Eventos em Hydesville


Como dissemos anteriormente, em 1848, as duas irmãs mais novas - Kate (12 anos) e Margaret (15 anos) - estavam morando na casa de seus pais em Hydesville, Nova York. Hydesville não existe mais, mas era um vilarejo que fazia parte do município de Arcadia, no Condado de Nova York, nos arredores de Newark. A casa tinha uma certa reputação de ser mal-assombrada, mas foi somente a partir do final do mês de março daquele ano, que a família começou a ser assustada por sons inexplicáveis, que às vezes soava como batidas, sendo que outras vezes soava como se móveis estivessem sendo arrastados.
Em 1888, Margaret contou sua história a respeito da origem das batidas misteriosas:

"Quando nós íamos para a cama à noite, costumávamos amarrar uma maçã a uma corda e movê-la para cima e para baixo, fazendo com que a maçã batesse no chão, ou então simplesmente deixávamos a maçã cair, fazendo um som estranho toda vez que isso acontecia. Nossa mãe escutou isso durante um tempo. Ela não conseguia entender e não suspeitava que fosse algum truque da nossa parte por sermos muito novas", disse Margaret.
A casa tinha uma certa reputação de ser mal-assombrada, mas foi somente a partir do final do mês de março daquele ano, que a família começou a ser assustada por sons inexplicáveis, que às vezes soava como batidas, sendo que outras vezes soava como se móveis fossem arrastados.
Durante a noite de 31 de março de 1848, Kate desafiou quem quer que fosse, que estivesse fazendo os tais sons, presumindo ser um "espírito", para repetir as batidas em seus próprios dedos. Algo que aconteceu. O "espírito" foi questionado a respeito da idade das meninas. Algo que foi respondido com precisão. Os vizinhos também foram chamados para presenciar o "fenômeno". Nos dias seguintes, um código foi desenvolvido onde as batidas poderiam significar sim ou não, em resposta a uma pergunta, ou então ser utilizado para indicar uma letra do alfabeto.

As meninas passaram a chamar o espírito de "Sr. Splitfoot", que seria um apelido para "Diabo" naquela época. Mais tarde, a suposta "entidade" que estaria provocando os tais sons alegou ser o espírito de um vendedor ambulante, um mascate chamado Charles B. Rosna, que teria sido assassinado cinco anos antes e enterrado no porão da casa onde estavam morando.

Em 1848, as duas irmãs mais novas - Kate (12 anos) e Margaret (15 anos) - estavam morando na casa de seus pais em Hydesville, Nova York. Hydesville não existe mais, mas era um vilarejo que fazia parte do município de Arcadia, no Condado de Nova York, nos arredores de Newark


Em seus textos sobre as irmãs Fox, Sir Arthur Conan Doyle (escritor e médico britânico, nascido na Escócia, mundialmente famoso por suas histórias sobre o detetive Sherlock Holmes) afirmou que os vizinhos escavaram o porão e encontraram alguns pedaços de ossos, mas foi em 1904 que uma ossada teria sido encontrada, enterrada na parede do porão. No entanto, nenhuma pessoa desaparecida chamada Charles B. Rosna foi identificada. Fiquem calmos, ainda vamos explicar melhor nessa parte.
Margaret Fox em seus últimos anos fez a seguinte observação:

"Os vizinhos estavam convencidos de que alguém tinha sido assassinado na casa, eles perguntaram aos espíritos, através de nós, sobre isso. Fizemos uma batida para dizer sim. Eles chegaram a conclusão que o assassinato tinha sido cometido dentro da casa. Eles percorreram o país inteiro tentando obter os nomes de pessoas que haviam morado anteriormente na casa. Finalmente encontraram um homem com o nome de Bell, e disseram que este pobre inocente tinha cometido um assassinato na casa, e que os ruídos tinham vindo do espírito da pessoa assassinada. Pobre Bell, ficou mal falado e foi considerado por toda a comunidade como um assassino."

Kate e Margaret Fox se Tornam Médiuns


Kate e Margaret foram morar perto de Rochester. Kate foi para a casa de sua irmã Leah, e Margaret foi morar com seu irmão, o David, porém as batidas as acompanharam. Certo dia, Amy e Isaac Post, um fervoroso casal de quakers (nome dado a membros de um grupo religioso de tradição protestante, chamado "Sociedade Religiosa dos Amigos") e amigos de longa data da família Fox, convidaram as meninas para irem a casa deles, também em Rochester. Imediatamente convencidos da autenticidade dos fenômenos, eles ajudaram a espalhar a palavra entre seus amigos quakers radicais, que se tornaram o núcleo inicial dos espiritualistas. Dessa forma surgiu a associação entre o Espiritualismo e causas políticas consideradas até então "radicais", como a abolição da escravatura, a temperança e a igualdade de direitos para as mulheres.

Em 14 de novembro de 1849, as irmãs Fox demonstraram as "batidas espirituais" no Salão Corinthian, em Rochester. Essa foi a primeira demonstração do espiritualismo realizada diante de um público pagante, e inaugurou uma longa história de eventos públicos realizados por médiuns e líderes espiritualistas nos Estados Unidos e em outros países.

Em 14 de novembro de 1849, as irmãs Fox demonstraram as "batidas espirituais" no Salão Corinthian, em Rochester. Essa foi a primeira demonstração do espiritualismo realizada diante de um público pagante.
Com o passar do tempo, as irmãs Fox se tornaram famosas. Suas sessões públicas em Nova York, em 1850, atraíram um público notável, tal como William Cullen Bryant, George Bancroft, James Fenimore Cooper, Nathaniel Parker Willis, Horace Greeley, Sojourner Truth e William Lloyd Garrison, todos muito influentes na sociedade norte-americana e nova-iorquina. Elas também atraíram imitadores, visto que durante os anos seguintes, centenas de pessoas também passaram a reivindicar a capacidade de se comunicar com espíritos.

Tudo teria começado em 1848, quando as irmãs adolescentes Kate e Margaret Fox introduziram as "batidas espirituais", em Hydesville, um vilarejo no estado de Nova Iorque, que atualmente não existe mais
Kate e Margaret se tornaram médiuns conhecidas, realizando sessões para centenas de pessoas. Muitas dessas primeiras sessões eram inteiramente frívolas, onde as pessoas procuravam saber questões de ordem financeira ou amorosa, mas a conotação religiosa da comunicação com os mortos, logo se tornou aparente. Horace Greeley, um proeminente editor e político, se tornou uma espécie de agente protetor para elas, permitindo a circulação das mesmas nos círculos sociais mais elevados.

Os Questionamentos Sobre as Irmãs Fox: Tudo Seria Tão Somente uma Farsa?


Entretanto, a popularidade de ambas veio com um preço igualmente elevado de se pagar, visto que começaram a surgir teorias de cientistas e dos mais céticos para explicar as batidas. O médico E.P. Longworthy investigou as irmãs, e observou que os toques ou batidas sempre vinham debaixo dos seus pés ou quando seus vestidos estavam em contato com a mesa. Ele concluiu que Margaret e Kate eram as responsáveis por gerar os tais sons. John W. Hurn, que publicou artigos no jornal New York Tribune, também chegou a uma conclusão semelhante de fraude. Alguns anos mais tarde, o reverendo John M. Austin alegou que os sons eram produzidos por craqueamento das articulações do pé (mais conhecido por estalar de dedos).

Em 1851, o reverendo C. Chauncey Burr escreveu no New York Tribune que, ao "estalar" as articulações dos pés, os sons eram tão altos que podiam ser ouvidos num grande salão. No mesmo ano, três investigadores: Austin Flint, Charles E. Lee e C. B. Coventry, da Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, examinaram as batidas produzidas pelas irmãs e concluíram que elas tinham sido produzidas pelo craqueamento de suas articulações ósseas, tais como dedos dos pés, joelhos, tornozelos ou quadris. C. B. Coventry teria notado que as batidas não ocorriam se as irmãs fossem colocadas em um sofá com almofadas embaixo de seus pés.

Em 1851, o reverendo C. Chauncey Burr escreveu no New York Tribune que,
ao "estalar" as articulações dos pés, os sons eram tão altos que podiam ser ouvidos num grande salão.
Em 1853, um homem chamado Charles Grafton Page investigou as irmãs Fox. Como examinador e advogado de patentes, Charles Page tinha desenvolvido um olhar muito atento para detectar alegações fraudulentas sobre a ciência. Ele aplicou essas habilidades em expor algumas das farsas empregadas pelas irmãs Fox durante as duas sessões que ele participou. Em seu livro chamado "Psychomancy", de 1853, Charles Page observou que os sons de batida vinham debaixo dos longos vestidos das meninas. Ele disse que as mulheres tinham "meios de se esconder de um exame corporal que com certeza iria expor a fraude", visto que seria um ato impensável de um homem levantar o vestido de uma dama naquela época, algo que além de grosseiro seria totalmente condenável.

Em 1857, o jornal Boston Courier criou um prêmio de US$ 500 (um bom dinheiro naquela época) para qualquer médium que pudesse demonstrar habilidade paranormal para um comitê criado pelo jornal. As irmãs Fox tentaram ganhar o prêmio e foram investigadas por três professores de Harvard. Elas falharam no teste, visto que o comitê concluiu que as batidas tinham sido produzidas por movimentos ósseos e dos pés.

Já um relatório da Comissão Seybert, em 1887, afirmou que após investigar diversos médiuns, incluindo Margaret, o fenômeno poderia ser facilmente produzido por métodos fraudulentos. O relatório observou que as batidas eram ouvidas bem próximas de Margaret. Um participante de uma dessas sessões, um homem chamado Horace Howard Furness (1833 - 1912), professor e especialista em obras de Shakespeare, teria sentido certas pulsações nos pés de Margaret.

Horace Howard Furness em sua biblioteca em "Lindenshade", sua casa,
anteriormente localizada em Wallingford, Pensilvânia, nos Estados Unidos
Vamos explicar melhor esse ponto para vocês, porque provavelmente vão surgir dúvidas. A Comissão Seybert foi criada exclusivamente para a investigação do Espiritualismo, como um último pedido de Henry Seybert, um espiritualista da Filadélfia, que em seu testamento deixou US$ 60.000 para a Universidade da Pensilvânia para ser destinado a "manutenção de uma cadeira" na referida universidade a ser conhecida como "Adam Seybert, Presidente da Filosofia Moral e Intelectual". Tudo isso sob a condição, que o titular da referida cadeira individualmente ou em conjunto com uma comissão criada pela universidade, fizesse uma investigação completa e imparcial de todos os sistemas de moral, religião ou filosofia que assumissem representar a verdade, e particularmente em relação ao Espiritualismo Moderno.

As irmãs Fox foram apenas algumas das inúmeras pessoas que foram investigadas. Durante as sessões que o professor Horace Howard Furness acompanhou, o mesmo teria mencionado a Margaret que era possível sentir claramente que o som vinha de seus pés, que apesar não apresentarem quaisquer movimentos, tinham uma "pulsação incomum". 

Depois de duas sessões os experimentos foram abandonados, já que a médium expressava dúvidas de que, devido ao seu frágil estado de saúde, uma terceira sessão não mostraria resultados mais notáveis. Segundo a comissão, esta investigação não foi suficientemente extensa para justificar conclusões positivas. O relatório, no entanto, apontou que "sons de intensidade variável podiam ser produzidos em quase qualquer parte do corpo humano por ação muscular voluntária. Determinar a localização exata dessa atividade muscular, algumas vezes seria apenas uma questão de delicadeza".

O relatório, no entanto, apontou que "sons de intensidade variável podem ser produzidos em quase qualquer parte do corpo humano por ação muscular voluntária. Determinar a localização exata dessa atividade muscular, algumas vezes é uma questão de delicadeza"

Kate foi uma das médiuns examinadas por William Crookes, um proeminente físico, entre 1871 e 1874, que concluiu, ao contrário do que se dizia, que as batidas eram autênticas. No entanto, William foi descrito como uma pessoa ingênua, e os médiuns que ele investigou posteriormente foram flagrados se valendo de truques.

Agora vamos voltar na parte em que uma ossada teria sido encontrada no porão da casa onde Kate e Margaret viviam. Lembram dessa história? Pois bem, em 1904, a ossada associada a um homem supostamente chamado "Charles B. Rosna" teria sido encontrada, quando uma parede falsa do porão desabou.

O jornal "Boston Journal" publicou a história sobre essa descoberta em 22 de novembro de 1904. Uma espécie de caixa metálica, supostamente pertencente ao "Charles Rosna" (apesar de não haver nenhuma identificação que pudesse relacioná-la a qualquer homem com esse nome), também teria sido encontrada no porão e atualmente se encontra no Museu de Lily Dale (uma comunidade norte-americana, que vamos comentar daqui a pouco).

Em 1904, a ossada associada a um homem supostamente chamado "Charles B. Rosna" teria sido encontrada no porão
da antiga casa das irmãs Fox, quando uma parede falsa desabou

Uma espécie de caixa metálica supostamente pertencente ao "Charles Rosna"
também teria sido encontrada no porão, e atualmente se encontra no Museu de Lily Dale
O pesquisador cético Joe Nickell concluiu, após pesquisar sobre a caixa e as fontes preliminares dos ossos, que os mesmos eram fraudulentos. Os ossos eram, pelo menos em grande parte, de animais. Nunca houve sequer a confirmação que tal pessoa chamada "Charles B. Rosna" um dia tenha existido. Além disso, a suposta parede falsa aparentava ser uma espécie de "dilatação" proposital da fundação, não um esconderijo para um túmulo secreto.

As Irmãs Fox se Separaram Temporariamente


Leah Fox, com a morte de seu primeiro marido, se casou com um banqueiro bem sucedido de Wall Street. Margaret se envolveu com Elisha Kane, um explorador norte-americano, em 1852. Kane estava convencido de que Margaret e Kate estavam envolvidas em uma fraude, sob a comando de sua irmã Leah, e ele tentou separar Margaret do restante das irmãs. Kane acabou se casando com Margaret e conseguiu convertê-la para a religião católica apostólica romana. Quando Kane morreu, em 1857, Margaret voltou as suas atividades como médium. Em 1876, ela se juntou novamente a sua irmã Kate, que estava morando na Inglaterra.

Kate tinha viajado para a Inglaterra em 1871, em uma viagem paga por um rico banqueiro de Nova York, de modo que ela não ficou constrangida em aceitar o pagamento por seus serviços como médium. A viagem era aparentemente considerada como trabalho missionário, porém Kate atendia somente pessoas proeminentes, que deixariam seus nomes serem publicados como testemunhas em uma sessão. Em 1872, Kate se casou com H.D. Jencken, um advogado e um entusiasta do Espiritualismo. Jencken morreu em 1881, deixando Kate com dois filhos.

A Confissão das Irmãs Fox


Em 1851, a Sra. Norman Culver, uma conhecida bem próxima da família Fox admitiu, em uma declaração assinada, que ela tinha ajudado as irmãs Fox durante as sessões ao tocá-las para indicar quando as batidas deveriam ser feitas. Ela também alegou que Kate e Margaret tinham revelado o método de produzir as batidas ao estalar os dedos dos pés, com a ajuda dos joelhos e tornozelos.

Notícia publicada pelo jornal
"The Evening News"
em 29 de outubro de 1888
Para piorar a situação, ao longo dos anos, as irmãs Kate e Margaret desenvolveram sérios problemas de alcoolismo. Por volta de 1888, elas começaram uma briga com a irmã mais velha, a Leah, e outros espiritualistas importantes, visto que eles estavam preocupados que Kate estava bebendo demais, e não teria mais capacidade de cuidar adequadamente de seus filhos. Leah, inclusive, teria conseguido a guarda dos filhos da irmã, para o desespero de Kate.

Ao mesmo tempo, Margaret, que estava inclinada a voltar para a religião católica, começou a acreditar que seus poderes eram diabólicos. Uma verdadeira panela de pressão estava prestes a estourar e ambas estavam cansadas de Leah, ou seja, as duas queriam vingança.

Então, as duas irmãs viajaram para a cidade de Nova York, onde um repórter ofereceu cerca de US$ 1.500 se elas revelassem seus métodos, e lhe desse exclusividade sobre a história. Margaret e Kate apareceram publicamente na Academia de Música de Nova York, em 21 de outubro de 1888 e, perante um público de 2.000 pessoas, Margaret demonstrou como ela podia produzir, por mera liberalidade, batidas audíveis em todo o teatro. Alguns médicos que estavam na plateia se aproximaram do palco para verificar se o estalar dos dedos era realmente a fonte do som.

Margaret contou sua versão sobre a história das origens das misteriosas batidas, em uma confissão assinada dada à imprensa e publicada no jornal "New York World", em 21 de outubro de 1888, incluindo os eventos em Hydesville. Era o começo do fim de todo um reinado, que as irmãs Fox tinham construído por todo os Estados Unidos, e ganhando inclusive notoriedade mundial.

Margaret começou sua carreira de médium após sair de casa, e iniciar suas viagens espiritualistas juntamente com sua irmã mais velha, a Leah Fox Undehill (nome de casada da Leah Fox):

"A Sra. Underhill, minha irmã mais velha, levou Katie e eu para Rochester.  Foi lá que descobrimos uma nova maneira de fazer as batidas. Minha irmã Katie foi a primeira a observar que, ao estalar os dedos, ela podia produzir certos barulhos com as articulações, e o mesmo efeito poderia ser gerado com os pés. Ao descobrir que poderíamos fazer as batidas com nossos pés - primeiro com um pé e depois com ambos - praticamos até que pudéssemos fazer isso mais facilmente enquanto o quarto estava escuro. Assim como acontece quando a maioria das coisas, que nos deixam perplexos, são reveladas, é surpreendente o quão facilmente isso é feito. As batidas são simplesmente o controle perfeito dos músculos da perna, logo abaixo do joelho, que comandam os tendões do pé e permite a ação dos ossos dos dedos dos pés e tornozelos, que não são comumente conhecidos. Tal controle perfeito só é possível quando se ensina cuidadosamente e continuamente uma criança desde cedo, visto que os músculos se tornam mais rígidos com o passar do tempo... Então, esta é a simples explicação de todo o método dos toques e das batidas."

  Diante de um público de 2.000 pessoas, Margaret demonstrou como podia produzir batidas audíveis em todo o teatro. Alguns médicos que estavam na plateria se aproximaram do palco para verificar se o estalar dos dedos era realmente a fonte do som
Margaret também escreveu:

"Muitas pessoas quando ouvem o barulho, imaginam de imediato que são os espíritos que estão entrando em contato com elas e as tocando. É uma ilusão muito comum. Algumas pessoas muito ricas vieram me visitar anos atrás, quando eu morava na rua 48, e eu fiz algumas batidas para elas. Eu fiz uma batida espiritual em uma cadeira e uma senhora gritou: 'Sinto o espírito batendo no meu ombro'. Naturalmente, era pura imaginação."

Harry Houdini, o mágico que dedicou grande parte de sua vida a desmistificar as alegações geradas pelo Espiritualismo, forneceu uma interessante visão nesse sentido.

"Quanto à ilusão do som, as ondas sonoras são desviadas da mesma forma que as ondas de luz são refletidas pela intervenção de um meio apropriado e, sob certas condições, é difícil localizar sua fonte. Stuart Cumberland me contou sobre um teste interessante para provar a incapacidade de uma pessoa com os olhos vendados em traçar o som em relação a sua fonte. É extremamente simples: basta bater duas moedas entre si um pouco acima da cabeça da pessoa vendada."

Esta foto clássica mostra Harry Houdini, um ano antes de morrer, revelando truques usados por espiritualistas oportunistas a uma assembleia de clérigos de Nova York (observe abaixo da mesa que o ilusionista toca um sino com os dedos).
Pressionada pelo movimento Espiritualista e suas próprias condições financeiras, Margaret tentou se retratar do que havia mencionado anteriormente, ou seja, voltou atrás, em novembro de 1889, cerca de um ano após sua exibição em Nova York, dizendo que havia dito aquilo apenas por dinheiro, e que ela nunca tinha duvidado do Espiritualismo.

Enfim, ela tentou retornar às apresentações espiritualistas, mas nunca mais atraiu a atenção do público ou teve a mesma clientela pagante de anos anteriores. Após alguns anos, ambas as irmãs morreram na pobreza, sem o apoio daqueles que um dia estiveram ao lado delas, e enterradas em túmulos sem nenhum destaque para o que um dia representaram. Todas as três irmãs estão enterradas em cemitérios no Brooklyn, em Nova York (Margaret e Kate estão no cemitério Cypress Hills, enquanto Leah está no cemitério Green-Wood).

Rejeição ao Espiritualismo


Margaret e Kate também deram declarações muito fortes contra Espiritualismo:

"A maioria de vocês sabe, sem sombras de dúvida, que eu tenho sido o principal instrumento em perpretar a farsa do Espiritualismo para um público demasiadamente confiante. A maior tristeza da minha vida é saber disso, e embora seja tarde para dizer, estou preparada para dizer a verdade, toda a verdade, e nada mais do que a verdade, então, ajude-me Deus(...) Estou aqui, nesta noite, como uma das fundadoras do Espiritualismo para denunciá-lo como uma absoluta farsa do começo ao fim, como sendo a mais fraca das superstições, a mais perversa blasfêmia conhecida do mundo (...)", disse Margaretta Fox Kane (páginas 75 e 76 do livro "The Death-Blow to Spiritualism" de Rueben Briggs Davenport, publicado originalmente em 1888).

Também é possível encontrar tal declaração acima nas edições do New York World, de 21 de outubro de 1888 e do New York Herald / New York Daily Tribune, de 22 de outubro de 1888.

Páginas 75 e 76 do livro "The Death-Blow to Spiritualism" de Rueben Briggs Davenport,
publicado originalmente em 1888
"Considero o espiritualismo como uma das maiores maldições que o mundo já conheceu", disse Katie Fox Jencken, para o jornal New York Herald, na edição do dia 9 de outubro de 1888.

O Legado Distorcido das Irmãs Fox e o Hydesville Memorial Park


As irmãs Fox têm sido amplamente citadas na literatura parapsicológica e espiritualista. De acordo com os psicólogos Leonard Zusne (1924 - 2003) e Warren Jones, "muitas histórias sobre as irmãs Fox deixam de lado sua confissão de fraude e apresentam as batidas como manifestações autênticas do mundo espiritual". Charles Edward Mark Hansel (1917 - 2011), um proeminente psicólogo britânico, que ficou mais conhecido devido a sua crítica relacionada a estudos parapsicológicos, certa vez disse que as irmãs Fox continuavam sendo mencionadas na literatura parapsicológica sem qualquer menção sobre as trapaças que fizeram.

Particularmente, em minhas pesquisas para compor esse especial, me deparei com uma mesa que atualmente pertence ao acervo da Sociedade Histórica de Rochester. Essa mesa, que você poderá conferir nas imagens abaixo, foi criada especificamente para produzir sons de batidas (ou seja, permitir que farsantes ganhassem dinheiro com as "batidas espirituais"). Dentro da mesa encontra-se uma mola conectada a uma longa haste de metal. Quando empurrada, a haste bate na madeira, que então produz a batida.

A Sociedade Histórica de Rochester diz que essa mesa era utilizada pelas irmãs Fox em suas sessões na cidade de Rochester, porém outros pesquisadores acreditam que a mesa possa ter sido criada (talvez por Hiram Pack, um respeitável fabricante de móveis, que morava em Nova York, mas que acabou admitindo criar "mesas de médiuns" para tais práticas) para qualquer espiritualista que praticasse fraudes ou então até mesmo para um mágico ilusionista.

Em minhas pesquisas para compor esse especial, me deparei com uma mesa que atualmente pertence ao acervo da Sociedade Histórica de Rochester. Essa mesa foi criada especificamente para produzir sons de batidas, sendo creditada as irmãs Fox
A Sociedade Histórica de Rochester diz que essa mesa era utilizada pelas irmãs Fox em suas sessões na cidade de Rochester, porém outros pesquisadores acreditam que a mesa possa ter sido criada para qualquer espiritualista que praticasse fraudes ou então até mesmo para um mágico ilusionista.


Enfim, apesar da reputação das mulheres como líderes espirituais ter sido arruinada pela confissão, de alguma forma o conceito do Espiritualismo e a capacidade dos médiuns em interagir com os mortos continuaram a prosperar. Um ponto bem interessante sobre a história das irmãs Fox, é que, assim que a admissão foi tornada pública, inúmeras pessoas em todo o país e outras partes do mundo começaram a experimentar a sua própria capacidade de interagir com a vida após a morte.

As igrejas espiritualistas continuaram sendo criadas e até comunidades inteiras, a exemplo de Lily Dale, no oeste de Nova York, tornaram-se refúgios seguros para os médiuns e espiritualistas abraçarem o causa do Espiritualismo.

As igrejas espiritualistas continuaram sendo criadas e até comunidades inteiras, a exemplo de Lily Dale, no oeste de Nova York, tornaram-se refúgios seguros para os médiuns e espiritualistas abraçarem o causa do Espiritualismo.
Outro ponto é interessante mencionar que Lily Dale foi fundada em 1879, como Associação Livre do Lago Cassadaga, uma espécie de acampamento e local de encontro para espiritualistas e pensadores de mente aberta. O nome foi mudado para Cidade da Luz, em 1903, e finalmente se tornou Assembleia Lily Dale, em 1906. O propósito de Lily Dale era e continua sendo promover a "ciência", a filosofia, e o espiritualismo. Atualmente, a localidade é uma comunidade da cidade de Pomfret, no lado leste do Lago Cassadaga, próxima a Vila de Cassadaga.

O propósito de Lily Dale era e continua sendo promover a "ciência", a filosofia, e o espiritualismo. Atualmente, a localidade é uma comunidade da cidade de Pomfret, no lado leste do Lago Cassadaga, próxima a Vila de Cassadaga

Mapa da comunidade de Lily Dale

Foto da casa onde abriga o Museu de Lily Dale, e o local onde encontra-se um vasto material
relacionado as irmãs Fox
Depois que a família Fox se mudou de Hydesville, a casa ficou abandonada por anos. Em 1915, Benjamin Bartlett, um membro da comunidade de Lily Dale, a comprou e a moveu para a própria Lily Dale, a sede da Associação Nacional das Igrejas Espiritualistas.

Infelizmente e misteriosamente, a casa pegou fogo em 1955. O fogo foi implacável e destruiu a casa inteira. Apenas a base de pedra da casa original, em Hydesville, permaneceu como a única lembrança do local onde as irmãs Fox moraram e onde aconteceram os primeiros e supostos fenômenos paranormais.

Depois que a família Fox se mudou de Hydesville, a casa ficou abandonada por anos. Em 1915, Benjamin Bartlett, um membro da comunidade de Lily Dale, a comprou e a moveu para a própria Lily Dale
A antiga casa das irmãs Fox, que tinha sido movida para Lily Dale, ardeu em chamas as 4h da manhã do dia 21 de setembro de 1955.
Demorou apenas poucos minutos para que a mesma se tornasse apenas memória (essa imagem é meramente ilustrativa)

Foto do antigo local onde ficava localizada a antiga casa das irmãs Fox, em Lily Dale, nos Estados Unidos
Em 1998, a Associação Nacional das Igrejas Espiritualistas comprou o terreno onde a casa das irmãs Fox tinha sido originalmente construída. Atualmente, o local é uma espécie de parque memorial, que é mantido por voluntários locais, chamado Hydesville Memorial Park, que inclusive conta com um grupo no Facebook, que compartilha muitos textos e diversas imagens relacionadas as irmãs Fox, assim como da própria propriedade.

Confira algumas fotos do Hydesville Memorial Park, localizado na estrada Hydesville (Rota CR 221):
Panfleto de 2005 do Hydesville Memorial Park

Foto da fachada da principal construção, que protege a base de pedra da antiga casa das irmãs Fox

Foto mostrando a base de pedra, na qual tinha sido erguida a antiga casa das irmãs Fox


Mais uma foto mostrando a base de pedra por outro ângulo
Foto mostrando a suposta parede falsa em que uma ossada foi descoberta em 1904 (canto superior esquerdo). O local ainda é um ponto de devoção e homenagens feitos por aqueles que ainda acreditam que alguém tenha sido enterrado naquele lugar


Foto destacando o local onde uma ossada foi encontrada em 1904


Como vocês podem perceber, o Espiritualismo praticamente nasceu diante de uma fraude. Porém, nem todos concordam com isso. Os defensores da vida após a morte dizem que as irmãs Fox foram coagidas a dizer o que a imprensa queria em troca de dinheiro, e ossada encontrada em 1904 provaria a mediunidade que Margaret e Kate possuíam. De qualquer forma, acho que ficou bem claro a realidade por trás do que normalmente é contado para vocês, não é mesmo?

É importante ressaltar que não iremos comentar sobre Espiritismo nessa postagem. No entanto, vale destacar que, em 1854, Allan Kardec tomou conhecimento das "mesas girantes e falantes", e começou a assistir as reuniões sem dar muito crédito, porém no decorrer das pesquisas, Kardec definiu o Espiritismo como uma nova ciência na qual, pelo método experimental, chegou à conclusão de que estas manifestações provavam a existência da alma e de sua sobrevivência ao transe da morte. Ele também havia percebido que cada espírito possuía um grau de conhecimento e moralidade. Posteriormente, em 1858, ele publicou "O Livro dos Espíritos", considerado como o marco de fundação do Espiritismo, e fundou, nesse mesmo ano, a primeira sociedade espírita regularmente constituída, com o nome de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Se o que ele pesquisou reflete uma realidade compatível ou não diante de tantas fraudes, bem,  isso ficará para uma outra ocasião, visto que esse assunto literalmente pegaria fogo.

Por outro lado, não podemos nos esquecer de uma matéria muito interessante, que já publicamos aqui no blog AssombradO.com.br sobre o "Experimento Bradford", lembram dessa matéria? Nela contamos a história de Thomas Lynn Bradford, um espiritualista que estava disposto a provar definitivamente que existia a "vida após a morte", e para isso ele teve uma ideia infalível: simplesmente se matar para entrar em contato a partir do "outro lado".

Na matéria relacionada ao "Experimento Bradford" contamos a história de Thomas Lynn Bradford, um espiritualista que estava disposto a provar definitivamente que existia a "vida após a morte" e para isso ele teve uma ideia infalível: simplesmente se matar para entrar em contato a partir do "mundo dos mortos"
Essa é uma história fascinante, e que vocês também podem conferir em vídeo no canal AssombradO, no YouTube: O Experimento Bradford: Se Matou Para Provar que Existe o Outro Lado. Apesar de todas as alegações das pessoas envolvidas e da morte do homem, tudo soou apenas uma grande encenação para tentar fingir que Thomas havia entrado em contato de alguma forma. A grande verdade é que Thomas Lynn Bradford nunca conseguiu voltar para contar se realmente existe um outro lado ou não.

O Espiritualismo e o Presidente Norte-Americano Abraham Lincoln


Para muitos, o Espiritualismo parecia estender a esperança de se aproximar de entes queridos já falecidos, e aliviar a dor de perder um filho para alguma doença da época em que viviam. O fascínio da imortalidade ou de sentir-se muito além da realidade cotidiana atraía as pessoas. Para outros, os conselhos espirituais tornaram-se uma maneira de lidar com a ansiedade sobre o futuro, fornecendo conselhos de outro mundo sobre questões de saúde, amor ou dinheiro.

Até mesmo o ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln teria organizado uma espécie de "sessão mediúnica" na Casa Branca, embora fosse mais como um jogo bem-humorado do que um interrogatório espiritual para ser levado a sério. Ainda assim, espiritualistas conseguiram acesso aos aposentos, um tanto quanto reservados da Casa Branca, na tentativa de aconselhar o presidente dos Estados Unidos e a primeira-dama, logo após o início da Guerra Civil. Essa é justamente nossa próxima etapa para chegarmos até o surgimento da tábua Ouija. Vamos conhecer rapidamente um pouco dessa história.

De acordo com relatos de jornais da época, o presidente Abraham Lincoln organizou uma "sessão mediúnica" na Casa Branca, embora fosse mais como um jogo bem-humorado do que um interrogatório espiritual sério
"Não posso ficar calado em uma gaiola de ferro e ser vigiado", disse Abraham Lincoln, irritado, quando seu amigo Leonard Swett preocupou-se com a segurança inadequada que o chefe do executivo estava recebendo. Segundo Abraham Lincoln, um presidente deveria ir até as pessoas.

"A vida de um homem é tão querida quanto a de outro, e se um homem tirar minha vida, ele pode estar razoavelmente certo de que perderá a sua própria", disse Lincoln a um outro amigo, o deputado Cornelius Cole, da Califórnia. O presidente acreditava que pudesse ser assassinado, mas não acreditava que fosse seu destino morrer dessa forma.

Abraham Lincoln foi o 16º presidente dos Estados Unidos, mais conhecido por manter a integridade da União durante a Guerra Civil, e por assinar a Proclamação da Emancipação, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 1863, abolindo a escravidão em todo o território confederado ainda em Guerra Civil.
Os amigos de Lincoln continuavam preocupados. Quando a Guerra Civil entrou em seus últimos meses, a Confederação estava se debatendo como um tubarão preso em um arpão, planejando roubar bancos do Norte, invadir campos de prisioneiros, destruir trens e enviar roupas infectadas com doenças para a capital do país, Washington. Certa noite, os rebeldes tentaram incendiar 19 hotéis e outros edifícios públicos em Nova York. O Sul estava desesperado, e talvez cogitasse matar o próprio presidente do país.

Charles J. Colchester também avisou Lincoln. Ele não era um amigo solícito ou tão preocupado quanto Swett ou Cole. Na verdade, Lincoln mal conhecia Colchester. Porém, ele era importante para Mary Todd Lincoln, a esposa do presidente, e tinha se tornado um visitante regular da Casa Branca. Curiosamente, esse personagem estranho, um espiritualista e um médium, era a única pessoa que Lincoln deveria ter ouvido. Colchester não precisava de nenhum de seus poderes proféticos para perceber que o presidente estava em perigo. Sua informação provavelmente veio das melhores fontes terrenas, seu amigo John Wilkes Booth.

Colchester não precisava de nenhum de seus poderes proféticos para perceber que o presidente estava em perigo. Sua informação provavelmente veio das melhores fontes terrenas, seu amigo John Wilkes Booth (acima)
A história de Lincoln, Booth e Colchester, que tem sido esquecida em relação a literatura sobre o assassinato do presidente norte-americano, começou, de certa forma, na tarde de 20 de fevereiro de 1862. Por volta das 17 horas daquele dia, Willie, um dos filhos de Lincoln, morreu aos 11 anos de idade, aparentemente de febre tifoide. Willie tinha um temperamento doce, era o mais inteligente, o mais bonito dos quatro meninos de Lincoln, e o mais parecido com o pai em termos de personalidade. Ambos os pais o idolatravam. Tendo perdido seu filho Eddie, 12 anos antes, quando tinha apenas 3 anos, eles foram devastados ao serem revisitados por uma nova tragédia.

Na tarde de 20 de fevereiro de 1862, por volta das 17 horas, Willie, o terceiro filho de Lincoln,
morreu aos 11 anos de idade, aparentemente de febre tifoide
"Sua morte foi a aflição mais esmagadora que o senhor Lincoln jamais havia imaginado passar", lembrou o artista Francis Carpenter, que viveu na Casa Branca por seis meses, enquanto ele pintava o famoso retrato do presidente e de seu gabinete na primeira leitura da Proclamação de Emancipação.

Willie morreu numa quinta-feira. Na quinta-feira seguinte, Lincoln trancou-se na sala verde para sofrer sozinho pela morte do filho e, posteriormente, começou uma rotina de se trancar naquela mesma sala a cada quinta-feira. Mary e sua irmã mais velha, Elizabeth Todd Edwards, ficaram alarmadas com seu estado de espírito, então fizeram um acordo para que o reverendo Francis Vinton, da Igreja da Trindade, em Nova York, visitasse o presidente. Soberbo e perspicaz, Vinton, um advogado e soldado por educação, disse a Lincoln que ele estava lutando com Deus ao sofrer daquela maneira.

O reverendo Francis Vinton,
da Igreja da Trindade, em Nova York
Lincoln ouviu Vinton como se estivesse em estado de letargia, até que o reverendo disse: "Seu filho está vivo". A frase ecoou como uma fagulha se aproximando de um barril de pólvora. "Vivo? Vivo?", repetiu Lincoln saltando de um sofá e completando: "Certamente, você zomba de mim".

"Meu caro senhor...", respondeu Vinton enquanto colocava um braço ao redor do presidente. "Não busque seu filho entre os mortos. Ele não está lá. Ele vive hoje no Paraíso". Apesar das palavras esperançosas de Vinton, o frio consolo do fatalismo vivido pelo presidente era seu principal consolo. As incansáveis exigências da guerra em relação à atenção de Lincoln o afastaram gradualmente do desespero. Ele colocou uma faixa larga e preta em torno de seu chapéu, em memória de Willie, e seguiu em frente. A fita ainda estava lá, quando ele foi assassinado três anos depois.

Mary Lincoln, mais convencionalmente religiosa do que seu marido, foi, no entanto, incapaz de aceitar o ensino de sua fé presbiteriana de que Willie tinha ido ao reino de Deus para repousar em paz. Ela não queria se separar de Willie. Então, amigos disseram que talvez ela não precisasse realmente se separar dele. Eles disseram a ela, que Willie ainda estava aqui, ansioso por vê-la, de fato, e simplesmente aguardava do outro lado de um véu que poderia ser levantado por aqueles com o dom apropriado.

As boas notícias vindas do Espiritualismo, que os entes queridos falecidos estavam sempre presentes para oferecer conforto e conselhos aos vivos, foram poderosamente atraentes no século XIX, e a influência do movimento disparou com o sofrimento produzido pela guerra. Os jornais espiritualistas proclamavam a fé, e círculos de crentes se estabeleceram nas principais cidades. O círculo de Washington contava entre seus membros, inúmeros oficiais do governo. Warren Chase, um conferencista itinerante para o movimento, acreditava que o interesse mostrado no Espiritualismo era maior na capital do país do que em qualquer outro lugar.

Mary Lincoln foi visitada por sucessivos "ministros espirituais" após a morte de Willie. Seu impacto era palpável. Uma noite ela bateu na porta do quarto do Príncipe de Gales, onde sua meia-irmã, Emilie Helm estava hospedada, para falar sobre Willie. "Ele vive", disse Mary, com a voz trêmula. "Ele vem a mim todas as noites e fica em pé, nos pés da minha cama, com o mesmo sorriso doce e adorável que sempre teve", completou. Mary disse que algumas vezes, ele trazia consigo outros membros da família que já tinham morrido, assim como o seu irmão Eddie. Mary então declarou: "Você não faz ideia do conforto que isso me dá". Os olhos de Mary pareciam maiores, mais vívidos e brilhantes quando falava sobre isso, e Emilie ficou preocupada: "Isso não é natural e anormal. Isso me assusta", escreveu em seu diário.

Amigos disseram a Mary Lincoln (na foto), que Willie ainda estava aqui, ansioso por vê-la, de fato, e simplesmente aguardava do outro lado de um véu que poderia ser levantado por aqueles com o dom apropriado.
Pouco tempo depois, era a vez de Lincoln se preocupar. Marido atencioso que era, o presidente compareceu algumas vezes em suas sessões com espiritualistas. Certa vez, eles foram visitar Margaret Laurie e sua filha Belle Miller, as chamadas bruxas de Georgetown. Parecia aconselhável ficar de olho no que acontecia nessas ocasiões, e considerando que Miller "tinha o poder de levitar os pianos", eles também poderiam meio que se entreter com isso. Contudo, o presidente nunca foi um crente, referindo-se caprichosamente ao mundo espiritual como o "país superior". Lincoln acreditou durante a maior parte de sua vida, que a alma perdia sua identidade após a morte.

Certa vez, eles foram visitar Margaret Laurie e sua filha Belle Miller, as chamadas bruxas de Georgetown. Parecia aconselhável ficar de olho no que acontecia nessas ocasiões e, considerando que Miller "tinha o poder de levitar os pianos", eles também poderiam meio que se entreter com isso
Entre os médiuns que atendiam Mary, estava o proeminente Charles Colchester, um inglês de rosto avermelhado, olhos azuis e um grande bigode. Alegado ser o filho ilegítimo de um duque, este vidente professava poderes notáveis: podia ler cartas seladas, gritar os nomes dos amigos falecidos dos visitantes, fazer aparecer fantasmas e produzir palavras em seu antebraço em letras vermelho-sangue.

Um dos poucos registros sobre Chales Colchester
que se tem até hoje, visto que não há fotos do mesmo
"Colchester é considerado o líder do Espiritualismo na América e, como consequência, seus devotos, crentes e visitantes somam centenas de pessoas", estampava um jornal de Cincinnati. Para os fiéis, ele era um intermediário extraordinariamente dotado com o outro lado. Para os céticos, ele era um vigarista que usava truques, hipnose e mágicas secundárias em salas escuras para encher os bolsos às custas dos perturbados e daqueles de coração partido. Interessante notar nesse ponto que, no outono de 1865, ele foi condenado em Nova York por praticar "prestidigitação", ou truque de mãos, sem a devida licença e morreu em Iowa alguns anos depois.

Colchester estabeleceu uma loja em Washington, em meio a guerra e, em pouco tempo, estava trabalhando sua feitiçaria na Casa Branca e na Casa dos Soldados (uma casa presidencial de verão, que ficava localizada em uma colina ao norte do centro da cidade). Lá, em sessões particulares, o jovem adivinho começou a enganar o presidente e sua esposa.

Lincoln estava particularmente intrigado com a estranha capacidade de Colchester de invocar sons em diferentes partes de uma sala. Como qualquer pessoa racional, o presidente queria entender o que estava acontecendo, então ele pediu ao Colchester para se submeter a um exame por Joseph Henry, o então Secretário do Instituto Smithsonian. O médium concordou e, Henry muito a contragosto, disse ao presidente que não tinha nenhuma explicação imediata para o fenômeno. (Henry acabou descobrindo algum tempo depois, que Colchester usava um "criador de sons" elétrico, especialmente projetado e atado ao seu bíceps. A descoberta veio completamente por acaso, depois que Henry iniciou uma conversa com um desconhecido em um trem, que por coincidência era justamente o homem que tinha criado o dispositivo e o vendido para Colchester).

Colchester teria admitido a Warren Chase, que "muitas vezes enganou os tolos, assim como ele poderia facilmente fazê-lo". Uma vez que ele era tão receptivo aos espíritos destilados quanto aos etéreros, a maior parte do dinheiro que ele recebeu de suas sessões foi direto para o uísque. Quando amigos o convidavam para beber, o festivo inglês respondia que deveria consultar primeiramente os espíritos em busca de uma orientação.

C.J.S. Colchester provavelmente era o nome de Charles Jackson Sealby Colchester que chegou sozinho a Nova York, aos 13 anos de idade, a bordo do navio S.S Africa, em 4 de novembro de 1852, vindo de Cumberland, na Inglaterra
Com um olhar sério, ele batia a mão no poste mais próximo, como se soasse extremamente familiar, e depois anunciava que o outro mundo havia autorizado uma ocasional bebedeira. Obviamente, ele gastava muito e raramente havia dinheiro sobrando, logo ele era altamente ganancioso e enganador, ou seja, um problema.

Uma vez que ele frequentava o círculo social de Washington, Colchester conheceu John Wilkes Booth. Booth estava morando em Washington naquela época, planejando sequestrar Lincoln e torná-lo um refém para o Sul, enquanto, é claro, ainda não fantasiava assassiná-lo.

O interesse de Booth no Espiritualismo começou em 1863, quando sua cunhada Molly morreu. Inerentemente supersticioso, ele participou de várias sessões com seu irmão viúvo, Edwin. Posteriormente, Booth cresceu fortemente ligado aos notáveis Irmãos Ira e William Davenport, mágicos que se diziam médiuns espirituais.

Quando os irmãos ficavam firmemente presos dentro de uma caixa selada com instrumentos musicais, as pessoas do lado de fora da caixa podiam ouvir músicas provenientes de dentro dela. No entanto, quando a caixa era aberta e os irmãos eram mostrados como se ainda estivessem amarrados em suas posições originais, parecia que eles tinham convocado uma orquestra fantasmagórica para tocar. "Provavelmente, eram os maiores médiuns de sua espécie que o mundo já viu", escreveu Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes e um notável espiritualista. Booth adorava os Davenport e fazia sessões particulares com eles sempre que podia.

Posteriormente, Booth cresceu fortemente ligado aos notáveis Irmãos Ira e William Davenport,
mágicos que se diziam médiuns espirituais
Nas semanas antes do assassinato de Lincoln, Booth acomodou-se no Hotel Nacional na Avenida Pensilvânia, a apenas seis quarteirões do Capitólio e ainda mais perto do Teatro Ford. Colchester o visitava muitas vezes. Além de sua capacidade de entrar em contato com os mortos, Colchester também podia dizer o futuro, uma habilidade útil para Booth, que estava começando a pensar o impensável.

"A dupla passava uma quantidade considerável de tempo juntos", disse George W. Bunker, funcionário do Hotel Nacional, sendo que muitas vezes saíam juntos. Bunker observou que Colchester não era apenas amigo de Booth, era "mais do que isso". Colchester era o "associado" de Booth.

Enquanto isso, Colchester fazia suas falcatruas na Casa Branca. Tendo conquistado a confiança de Mary, ele exigiu que ela conseguisse um passe livre de trem do Departamento de Guerra. Colchester deixou claro que ela teria que fazer isso ou ele tornaria público alguns fatos muito embaraçosos que ele tinha descoberto durante suas sessões. Desesperada, Mary revelou a tentativa de chantagem a Noah Brooks, um membro do círculo interno do presidente.

Desesperada, Mary revelou a tentativa de chantagem
a Noah Brooks, um membro do círculo interno do presidente
Brooks decidiu enfrentar o canalha. Ele assistiu a uma sessão de Colchester, onde todos se sentaram de mãos dadas em torno de uma mesa na qual um tambor, um banjo e um sino tinham sido colocados. Quando as luzes foram apagadas, uma música começou a tocar dos instrumentos. Soltando as mãos, Brooks rapidamente se aproximou em direção do som, e bateu sua cabeça em algo duro. Ele o agarrou firmemente com suas mãos. Quando um amigo acendeu um fósforo, foi revelada a mão de Colchester segurando um sino e um tambor, a mesma que havia deixado um corte na cabeça de Brooks, e justamente a mesma que Brooks lutou para segurar. Colchester havia sido desmoralizado.

Colchester deixou a sala e se recusou a voltar, dizendo que estava "muito indignado com tamanho insulto". Porém, Brooks o encontrou na Casa Branca cerca de um ou dois dias depois e disse: "Você sabe que eu sei que você é um vigarista e um farsante". Colchester simplesmente fugiu.

No início de abril de 1865, Booth abandonou seu plano de sequestrar Lincoln para se concentrar em assassiná-lo. Diante de um grupo de amigos de confiança em Washington, ele ameaçou matar o presidente, sendo que um dos seus amigos perguntou sobre o que Colchester sabia em relação aos seus planos. Os registros históricos, no entanto, nunca mostraram a resposta para essa pergunta.

No entanto, a parte em que o espiritualista advertiu Lincoln ficou clara alguns dias depois. Quando alguém exortou o presidente a ser mais consciente a respeito de sua segurança, ele respondeu: "Colchester tem me dito isso". Enquanto aconselhar Lincoln era apenas uma questão de negócios para os médiuns, havia um místico em uma posição de saber o que estava falando. Apesar de todos os seus pecados, Colchester era mestre apenas de cometer pequenos delitos. Ele não tinha o instinto de assassino em seu coração.

"Lincoln era muito inteligente para não saber que estava em perigo. Porém, ele tinha uma mente tão sã e um coração tão gentil, mesmo em relação aos seus inimigos, que era difícil para ele acreditar em um ódio político tão mortal ao ponto de culminar em um assassinato", escreveu, por vezes, os seus secretários John G. Nicolay e John Hay. "Ele rotineiramente desconsiderava tais avisos", lembrou Nettie Colburn, outra médium charlatã, que visitou a Casa Branca.

Quando Booth atirou em Lincoln, em dia 14 de abril de 1865, no Teatro Ford, a busca pelo assassino e seus cúmplices começou imediatamente. O coronel Henry H. Wells, um militar do alto escalão, foi ao Hotel Nacional procurar informações sobre o autor. Bunker, o funcionário do hotel, contou-lhe sobre a associação de Booth com Colchester, e disse que o médium estava hospedado no hotel Washington House.

Quando Booth atirou em Lincoln no dia 14 de abril de 1865, no Teatro Ford,
a busca pelo assassino e seus cúmplices começou imediatamente
Contudo, Wells não conseguiu encontrar Colchester no Washington House, e nem em qualquer outro lugar da cidade. Assim como os espíritos que invocava, Colchester tinha desaparecido. Charles Colchester, ou qualquer que fosse seu nome original, teria morrido em 5 de maio de 1867, vítima de "congestão pulmonar", aos 27 anos de idade, na cidade de Keokuk, no estado norte-americano do Iowa.

Bem, acredito que vocês podem ter uma dimensão do que o Espiritualismo representava naquela época, chegando ao ponto de espiritualistas frequentarem o centro de poder dos Estados Unidos, a Casa Branca, algo que é impensável atualmente. Da mesma forma que crescia o interesse da população sobre o tema, e o número de supostos médiuns, também crescia o número de pessoas dispostas a revelar as fraudes, assim como dos empresários em levar o Espiritualismo para dentro da casa de cada um dos norte-americanos. A questão é, e se qualquer pessoa pudesse ser paranormal?

Os Primórdios da Tábua Ouija


Nessa atmosfera de batidas fantasmagóricas e alegações convictas sobre forças ocultas, os ocultistas do século XIX começaram a procurar maneiras mais fáceis de se comunicar com o além. E fizeram isso no melhor estilo norte-americano, o tão conhecido "Do It Yourself" ("DIY", sigla em inglês ou "Faça você mesmo", em português).

Os esforços em entrar em contato com o mundo espiritual levaram a algo que chamamos de tábua Ouija, mas não até que diversos outros métodos tivessem sido empregados antes. Um desses métodos, por exemplo, envolvia "batidas" em uma mesa. Simplesmente, os participantes pediam que os espíritos batessem na mesa quando letras eram mencionadas até formar uma palavra. Isso era, no entanto, um exercício tedioso e demorado.

Um meio mais rápido era a "escrita automática", na qual os "seres espirituais" podiam se comunicar através de um lápis em um indicador. Entretanto, muitos reclamavam que isso gerava diversas páginas de textos vagos e sem nenhum sentido aparente. Por outro lado, uma invenção prefigurou diretamente o ponteiro em forma de coração, aquele se move pela tábua Ouija: a planchette, um termo em francês para "pequena tábua ou prancheta". Essa prancheta possuía três pés de apoio móveis com um furo na parte superior para a inserção de um lápis.

A prancheta possuía três pés de apoio móveis com um furo na parte superior para a inserção de um lápis
Muitos reclamavam que que a "Planchette" gerava diversas páginas de textos vagos e sem nenhum sentido aparente, porém a mesma prefigurou diretamente o ponteiro em forma de coração, aquele se move pela tábua Ouija

Caixa de papelão de uma antiga "tábua falante" vendida na Inglaterra, durante o século XIX
Ela foi projetada para que uma ou mais pessoas colocassem os dedos sobre a mesma, de modo que deslizasse através de um papel, escrevendo assim uma "mensagem espiritual". Esse dispositivo se originou na Europa no começo da década de 1850 e, em 1860, as pranchetas começaram a ser fabricadas e comercializadas nos Estados Unidos.

Esse dispositivo se originou na Europa no começo da década de 1850 e, em 1860, as pranchetas começaram a ser fabricadas e comercializadas nos Estados Unidos
Dois outros itens da década de 1850 estão diretamente relacionados com o que a Ouija viria a ser um dia: as chamadas "placas de discagem" e as "tábuas com letras do alfabeto". Em 1853, um espiritualista chamado Isaac T. Pease, de Connecticut, nos Estados Unidos, inventou o "Spiritual Telegraph Dial" (algo como "Telégrafo espiritual", em português) um disco semelhante a uma roleta com letras e números ao redor de sua circunferência.

Em 1853, um espiritualista chamado Isaac T. Pease, de Connecticut, nos Estados Unidos, inventou o "Spiritual Telegraph Dial" (algo como "Telégrafo espiritual", em português) um disco semelhante a uma roleta com letras e números ao redor de sua circunferência
Placas de discagem surgiram nos mais diversos formatos, sendo que muitas vezes, possuíam versões bem mais complexas. Algumas eram utilizadas ao longo de mesas para responder as "inclinações do espírito", enquanto outras eram presumivelmente guiadas, tal como uma  planchette, pelas mãos dos participantes.

Tábuas contendo letras do alfabeto acabaram simplificaram tudo isso. Em uso desde 1852, essa tábuas permitiam que os participantes apontassem para uma letra, provocando ou não a batida de um espírito na mesa, formando mais rapidamente as palavras do que se as letras fossem soletradas. Talvez esse fosse o método mais rápido daquela época.

Tábuas contendo letras do alfabeto acabaram simplificaram tudo isso. Em uso desde 1852, essa tábuas permitiam que os participantes apontassem para uma letra, provocando ou não a batida de um espírito na mesa, formando mais rapidamente as palavras do que se as letras fossem soletradas
Era apenas uma questão de tempo até que os inventores e os empresários começassem a ver as implicações lucrativas que isso poderia ter, sendo que foi justamente nesse contexo que nasceu a tábua Ouija. Recomendo fortemente que assistam a um vídeo do canal "Morbid Anatomy Museum Presents", no YouTube, onde o mesmo apresenta os "instrumentos" e os "métodos", que já foram utilizados na tentativa de se comunicar com os espíritos e ilustra bem o que dissemos acima (em inglês):



No vídeo, é explorada a coleção de "planchettes" de Brandon Hodge e outros dispositivos usados para se comunicar com o mundo espiritual. Seu museu, que na verdade é sua própria casa, possui uma das maiores coleções de "planchettes" do mundo. Mesmo que você não saiba inglês, vale a pena conferir as imagens para ter uma melhor noção de quais foram os métodos, e como eles eram utilizados antes da tábua Ouija.

A Criação de um Método de "Comunicação Espiritual" Chamado Tábua Ouija


Até esse momento vocês conhecem a história completa sobre as irmãs Fox, a influência do Espiritualismo no centro de poder dos Estados Unidos, e os primórdios da tábua Ouija, onde pudemos observar a forma como o Espiritualismo ganhou força entre os norte-americanos, principalmente em decorrência da Guerra Civil. Essa guerra foi travada entre 1861 e 1865 nos Estados Unidos, depois de vários estados escravagistas do sul declararem sua secessão e formarem os Estados Confederados da América, conhecidos como "Confederação" ou "Sul". Os estados que não se rebelaram ficaram conhecidos como "União" ou simplesmente "Norte". O conflito teve sua origem na controversa questão da escravidão, especialmente nos territórios ocidentais. Oficialmente, um total de 558.052 soldados morreram durante a Guerra Civil Americana, mas se formos considerar os soldados desaparecidos, o total sobe para aproximadamente 620 mil. Aproximadamente, 360 mil soldados da União e 198 mil da Confederação morreram. Esses números fizeram da Guerra Civil Americana a mais sangrenta de toda a história dos Estados Unidos. Evidentemente, vocês podem imaginar a dor de dezenas de milhares de famílias que perderam seus entes queridos durante a guerra, e viram no Espiritualismo uma forma de amenizar todo esse sofrimento que estavam sentindo. Opções, é claro, não faltavam naquela época, porém os métodos utilizados: batidas em mesas, as mesas girantes ou falantes, advinhações ou quaisquer outras tentativas de contato espiritual eram desmascaradas como farsas perpretadas por aqueles, que se aproveitavam da fragilidade e dor de pessoas ingênuas.

Como culpar o cidadão comum, que pagava seus impostos e lutava para viver diariamente, se o principal governante dos Estados Unidos, Abraham Lincoln aceitava que espiritualistas frequentassem a Casa Branca? Como dizer para as pessoas, que elas não deveriam acreditar em outras que se diziam médiuns ou paranormais, quando a primeira-dama, Mary Lincoln, estava totalmente influenciada pela crença que podia se comunicar com Willie e demais entes queridos já falecidos? O Espiritualismo tinha invadido as ruas, as casas, e até mesmo se infiltrado no círculo social mais poderoso da capital do país. O grande problema, é claro, é que as irmãs Fox acabaram maculando a imagem dos espiritualistas, que lucravam e muito com suas sessões. Eles trataram rapidamente de mudar a conotação das frases de Margaret Fox para dizer que a imprensa era a grande vilã da história. Na verdade, o movimento claramente apoiava ou não fazia a menor questão de separar as pessoas, que eventualmente queriam se aprofundar seriamente sobre o assunto, daquelas que viam no movimento uma oportunidade única de fazer dinheiro. Alguns podem até mencionar um ou outro caso daquela época que seja inconclusivo, porém é uma questão de perspectiva. É necessário compreender quem são as pessoas que investigam sobre um determinado assunto, ou seja, a índole, o caráter, o senso de imparcialidade, as faculdades mentais, a capacidade técnica e literária, e toda uma série de aspectos que permitam gerar uma certa credibilidade. Se em termos científicos, um estudo para começar a ser levado a sério, precisa no mínimo ser revisado por pares, porque o Espiritualismo deveria ficar isento disso? Faltava interesse, o conhecimento era subjetivo e o fator financeiro falava mais alto.

Se em termos científicos, um estudo para começar a ser levado a sério, precisa no mínimo ser revisado por pares, porque o Espiritualismo deveria ficar isento disso? Faltava interesse, o conhecimento era subjetivo e o fator financeiro falava mais alto
Simplificar o método de contato espiritual talvez fosse a real necessidade, diante de tantos charlatães sendo desmascarados diariamente perante a mídia norte-americana. Isso sem contar, é claro, que invenções como o telégrafo elétrico, o telefone e até mesmo a eletricidade ajudaram a estimular a mente da sociedade daquela época. Afinal, se era possível se comunicar com pessoas que estavam a algumas dezenas ou centenas de quilômetros de distância, porque não seria possível, quem sabe, se comunicar com aqueles que tinham falecido? Será que os inventores, aprimorando as novas formas de comunicação, não poderiam se valer dessas novas tecnologias para que as pessoas pudessem entrar em contato com os mortos? Para vocês terem uma ideia, algumas pessoas acreditavam que a madeira utilizada nos primeiros mecanismos destinados ao contato espiritual, poderia absorver uma energia mística ou até mesmo eletricidade para permitir essa comunicação. Era uma espécie de vale tudo para saber sobre qualquer coisa: sobre o amor, sobre o futuro financeiro, para saber o que deveriam ou não fazer de suas vidas, e obviamente saber se seus parentes já falecidos estavam bem, mesmo que fosse no além. A partir de agora vocês vão conhecer a fundo um "instrumento de comunicação espiritual" chamado tábua Ouija, e se a mesma é realmente um mero brinquedo ou um poderoso instrumento de comunicação com os mortos.

A Discussão Sobre Quem Teria Inventado a Tábua Ouija


Curiosamente, mesmo após mais de 150 anos do alvorecer do Espiritualismo, até hoje existe uma certa discórdia a respeito de que inventou a tábua Ouija. A história convencional da fabricação de brinquedos norte-americana credita a invenção a um empresário de Baltimore, chamado William Fuld. Assim sendo, conta-se que Fuld teria "inventado" a tábua Ouija por volta de 1890. Isso é exaustivamente repetido na internet, em livros, em palavras cruzadas e até mesmo em sites e vídeos que prometem contar toda a verdade sobre a tábua Ouija para vocês.

Por muitas décadas, o próprio fabricante, primeiramente a companhia de Fuld, e posteriormente a gigante dos brinquedos chamada Parker Brothers, inseriu o termo "William Fuld Talking Board Set" na parte superior de cada tábua. A história convencional, no entanto, está errada.

Por muitas décadas, o próprio fabricante, primeiramente a companhia de Fuld, e posteriormente a gigante dos brinquedos chamada Parker Brothers (na foto), inseriu o termo "William Fuld Talking Board Set" na parte superior de cada tábua.
A história convencional, no entanto, está errada
Foi solicitada uma patente para uma "tábua Ouija" ou "tabuleiro da sorte egípicio", em 28 de maio de 1890, por um morador e advogado de patentes de Baltimore, chamado Elijah H. Bond, atribuindo os direitos a dois empresários da cidade: Charles W. Kennard e William H.A. Maupin. A patente foi concedida em 10 de fevereiro de 1891, e assim nasceu a tábua Ouija.

A primeira patente revelava uma tábua retangular, com o alfabeto disposto em duas linhas na parte superior, e os números em uma única linha ao longo da parte inferior. Havia um Sol e uma Lua, respectivamente marcados pelas palavras "Yes" (Sim) e "No" (Não), nos cantos direito e esquerdo, enquanto a palavra "Good Bye" (Adeus) aparecia na parte inferior.
A primeira patente revelava uma tábua retangular, com o alfabeto disposto em duas linhas na parte superior, e os números em uma única linha ao longo da parte inferior. Havia um sol e uma lua, respectivamente marcados pelas palavras "Yes" (Sim) e "No" (Não), nos cantos direito e esquerdo, enquanto a palavra "Good Bye" (Adeus) aparecia na parte inferior.
O Escritório de Patentes mostra que o escritório exigia que a placa fosse testada
antes que uma patente fosse concedida
As instruções e ilustrações que a acompanhavam descreviam uma experiência expressamente social e até mesmo "sedutora": dois participantes, de preferência um homem e uma mulher, precisavam equilibrar a tábua entre os joelhos, e colocar os dedos levemente sobre o indicador.

Era possível ler na caixa: "Isso aproxima as duas pessoas que a usem, de modo a ficarem mais íntimos, e tece sobre eles uma sensação misteriosa de isolamento". Considerando uma época extremamente moralista, essa era uma brincadeira casual um tanto quanto tentadora, se é que me entendem.

Réplica da primeira versão da tábua Ouija, cuja patente foi solicitada por Elijah H. Bond


As instruções e ilustrações que a acompanhavam descreviam uma experiência expressamente social e até mesmo "sedutora": dois participantes, de preferência um homem e uma mulher, precisavam equilibrar a tábua entre os joelhos, e colocar os dedos levemente sobre o indicador.
Considerando uma época extremamente moralista, essa era uma brincadeira casual um tanto quanto tentadora
A "Kennard Novelty Company", também de Baltimore, empregava um adolescente que trabalhava com a aplicação de vernizes, que ajudava muito a companhia, cujo nome era... Adivinhem? William Fuld! Em 1892, no entanto, os sócios de Charles W. Kennard o despediram da companhia em meio a disputas financeiras e, uma nova patente (dessa vez para um indicador mais aprimorado ou uma nova tábua) foi solicitada pelo jovem William Fuld, que tinha apenas 19 anos naquela época. Seria o próprio Fuld, que ao longo dos anos seguintes, acabaria assumindo a companhia e colocaria seu nome em cada tábua.

Elijah H. Bond, advogado de patentes de Baltimore (à esquerda), e Charles W. Kennard (à direita)
da "Kennard Novelty Company", também da cidade de Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos
Entretanto, baseando-se em um relato publicado em um artigo de uma revista de 1920 (a New York’s World Magazine), o crédito da invenção seria de um homem chamado E.C. Reichie, cuja profissão mencionada variava desde um marceneiro de Maryland até um fabricante de caixões. Essa teoria foi popularizada por um antiga publicação voltada para o ramo empresarial chamada Warfield's, de 1990, que contava de maneira totalmente fantasiosa a história da tábua Ouija. O artigo começava errando o nome do próprio homem, o chamando de E.C. "Reiche", como se ele fosse o inventor da tábua Ouija. O artigo dizia que E.C. Reichie era um fabricante de caixões, que tinha interesse na vida após a morte (um nome e uma alegação que de vez em quando ainda são mencionados por algumas pessoas).

Um relato publicado na "The Literary Digest" dizia que
um dos primeiros investidores da tábua Ouija contou
para um juiz, que E.C. Reichie havia inventado a tábua Ouija
O nome E.C. Reichie surgiu durante um período de litígio de patentes, cerca de trinta anos após a criação da tábua Ouija.

O relato de 1920, da New York’s World Magazine, foi divulgado naquele mesmo ano na influente e popular revista semanal chamada "The Literary Digest". O mesmo dizia que um dos primeiros investidores da tábua contou para um juiz, que E.C. Reichie havia inventado a tábua Ouija. Porém, nenhuma referência a um tal de E.C. Reichie, fosse ele um marceneiro ou um fabricante de caixões, aparecia na transcrição do que foi mencionado em juízo.

Em uma última análise, o papel de Reichie (se houve mesmo alguém chamado Reichie) pode ser questionável, ao menos em termos da invenção da tábua Ouija, visto que diversas tábuas feitas em casa eram muito populares entre os espiritualistas em meados da década de 1880.

Um homem chamado Eugene Orlando, cronista e colecionador de tábuas Ouija,  responsável pelo site "Museum of Talking Boards" certa vez mencionou em seu próprio site, sobre um artigo do jornal New York Daily, de 1886 (posteriormente republicado naquele mesmo ano, em um periódico mensal espiritualista chamado "The Carrier Dove"), que descrevia as fortes emoções a respeito de uma "nova tábua de comunicação contendo letras do alfabeto", e um "novo indicador de mensagens".

"Conheço comunidades inteiras, que estão enloquecidas por essa 'tábua de comunicação'", dizia o homem em seu artigo. Vale lembrar que isso foi publicado quatro anos antes da primeira patente da tábua Ouija ser solicitada. Obviamente, considerando toda essa história, Bond, Kennard e seus associados estavam capitalizando uma invenção, não idealizando uma. Resumindo, eles poderiam ter sido apenas os primeiros a patentearem um modelo de tábua que receberia o nome de Ouija.

A Origem do Nome "Ouija"


Uma pergunta rápida: Vocês já se perguntaram de onde viria o nome Ouija? Bem, talvez sua origem nunca seja de fato conhecida. Em certo momento, Charles W. Kennard alegou que essa era uma palavra em egípicio para "boa sorte" (porém, sabemos que não é). Fuld posteriormente mencionou que era a simples junção de duas palavras, uma francesa e uma alemã, para "sim" ("oui" em francês e "ja" em alemão).

Já um dos primeiros investidores da tábua Ouija chegou a mencionar que o nome da tábua simplesmente "falava por si mesmo". Assim como outros aspectos sobre a história da tábua Ouija, a mesma parece sempre querer dificultar a vida de quem tenta revelar seus segredos.

A Morte de William Fuld e os Novos Rumos da Tábua Ouija


Após William Fuld ter assumido a fabricação da tábua Ouija nos Estados Unidos, o negócio era vibrante, mas não era tão feliz assim. Fuld rapidamente formou uma infrutífera parceria com seu irmão Isaac, que rendeu quase 20 anos de disputas judiciais entre os dois. Issac ainda tentou criar uma tábua concorrente, chamada Oriole, após ter sido forçado a se retirar dos negócios da família, em 1901, mas não deu certo. Ambos nunca mais se falariam novamente depois disso. A tábua Ouija, ou qualquer coisa que se parecesse diretamente com isso, estava firmemente nas mãos de William Fuld.

Tábua Oriole de Isaac Fuld / Southern Toy Company, de 1904 a 1921
Em 1920, a tábua Ouija era tão conhecida, que um artista plástico chamado Norman Rockwell desenhou um casal usando a tábua Ouija (a mulher sonhadora e crédula, e o homem que a observava com um largo sorriso) para a capa da revista "Saturday Evening Post", muito popular na época.
Em 1920, a tábua Ouija era tão conhecida, que um artista plástico chamado Norman Rockwell desenhou um casal usando a tábua Ouija (a mulher sonhadora e crédula, e o homem que a observava com um largo sorriso) para a capa da revista "Saturday Evening Post"
Para William Fuld, tudo era estritamente comercial: "Se eu acredito na tábua Ouija? Eu deveria dizer que não. Não sou espiritualista. Sou presbiteriano", disse William Fuld, certa vez para um repórter.

Ainda em 1920, o jornal "Baltimore Sun" divulgou que Fuld, de acordo com sua própria "estimativa conservadora", teria embolsado cerca de US$ 1 milhão com as vendas da tábua Ouija, um número impressionante para a época.

Em 1920, o jornal "Baltimore Sun" divulgou que William Fuld (na foto), de acordo com sua própria "estimativa conservadora", tinha embolsado cerca de US$ 1 milhão com as vendas da tábua Ouija, um número impressionante para a época
Entretanto, seja qual fosse a satisfação ou regalias que Fuld possa ter conseguido com as vendas da tábua Ouija, logo tudo foi perdido. Em 26 de fevereiro de 1927, ele caiu do teto de sua fábrica em Baltimore e acabou morrendo. Fuld estava com 54 anos e estava supervisionando a substituição de um mastro de uma bandeira, quando uma barra de ferro que ele estava segurando se partiu, e ele caiu de uma altura de três andares. 

Os filhos de Fuld assumiram o negócio, e acabaram prosperando. Em meio a quedas e aumentos nas vendas, também foram surgindo tábuas concorrentes, mas somente a marca Ouija permaneceu firme no mercado. Na década de 1940, no entanto, a tábua Ouija vivenciou uma nova onda de popularidade.

Foto mostrando os filhos de William Fuld: William A. Fuld (à direita) e sua irmã, Katherine Fuld (à esquerda).
Foto publicada no jornal "Baltimore Sun" em 22 de dezembro de 1939.
Foto de William A. Fuld, filho de William Fuld, em seu escritório.
Foto publicada no jornal "Baltimore Sun" em 22 de dezembro de 1939.

Historicamente, "sessões mediúnicas" e os outros métodos espiritualistas proliferaram durante os tempos de guerra. O Espiritualismo tinha visto sua última grande explosão de interesse durante o período da Primeira Guerra Mundial, quando os pais desejavam contatar seus filhos perdidos na carnificina do campo de batalha. Na Segunda Guerra Mundial, muitas famílias também voltaram-se para a tábua Ouija, em uma esperança meramente subjetiva. Em um artigo de 1944, intitulado "The Ouija Comes Back", o jornal New York Times relatava que uma loja de departamentos da cidade de Nova York vendeu, sozinha, cerca de 50.000 tábuas Ouija em um período de cinco meses.

Os fabricantes de brinquedos norte-americanos estavam de olho nesse mercado. Alguns tentaram emplacar produtos semelhantes, mas a companhia "Parker Brothers" tinham planos maiores sobre isso. Em uma jogada que levaria a transição do Espiritualismo para salões de jogos por todo os Estados Unidos, a gigante dos brinquedos comprou os direitos sobre a tábua Ouija, por uma quantia não revelada, em 1966. A família Fuld tinha saído de cena, e a Ouija estava prestes a entrar definitivamente para a história e ter um sucesso jamais imaginado antes. No ano seguinte, a companhia "Parker Brothers" teria vendido mais de duas milhões de tábuas Ouija, superando as vendas do seu jogo de tabuleiro mais popular, o Monopólio.

Vale ressaltar nesse ponto, que um verdadeiro "boom" ocultista começou no fim da década de 1960, enquanto os astrólogos adornavam a capa da revista Time, e a "bruxaria" crescia a passos largos ao ser alimentada pelas vendas da tábua Ouija ao longo do tempo. Estima-se que a empresa tenha vendido ao longo das décadas, mais de de 10 milhões de tábuas Ouija.

No ano seguinte, em 1967, a companhia "Parker Brothers" teria vendido mais de duas milhões de tábuas Ouija, superando as vendas do seu jogo de tabuleiro mais popular, o Monopólio
 As décadas de 60 e 70 também viram o surgimento da tábua Ouija como um produto da cultura juvenil. A tábua Ouija começou a aparecer em dormitórios das universidades, e a mesma emergiu como uma moda entre os adolescentes, no qual seu ritual de mensagens secretas e comunicações íntimas, se tornou uma forma de rebeldia. Essa tal "rebeldia" tinha quase o mesmo peso sobre o risco e o perigo em usar drogas ou furtar bebidas em lojas de conveniência. Na época, os sociólogos diziam que as sessões de Ouija eram uma maneira para os jovens exteriorizarem e trabalharem seus próprios medos, ou seja, uma utilização praticamente terapêutica.

A Tábua Ouija Disfarçada no Brasil: Um Jogo Chamado "Converse com o seu Anjo"


Não pensem que o nosso país escapou da febre comercial da tábua Ouija, mas aqui as coisas foram um pouquinho diferentes. Certa vez, entre o fim da década de 90 e início dos anos 2000, a empresa Estrela lançou um jogo chamado "Converse com o seu Anjo", promovido pela escritora brasileira Mônica Buonfiglio, que fez muito sucesso no passado com seus livros relacionados aos chamados "Anjos da Guarda".

Um livreto acompanhava o jogo e continha os nomes dos anjos que as crianças poderiam invocar, e aparentemente conversar. Apesar de ter sido uma febre, principalmente entre pré-adolescentes, algum tempo depois o jogo saiu de circulação. A questão é que o brinquedo é claramente uma inspiração na tábua Ouija. Notem as semelhantes:

Reparem nas semelhanças entre o brinquedo "Converse com o seu Anjo" (à esquerda)
e a tábua Ouija tradicional (à direita)

Certa vez, entre o fim da década de 90 e início dos anos 2000, a empresa Estrela lançou um jogo chamado "Converse com o seu Anjo", promovido pela escritora brasileira Mônica Buonfiglio, que fez muito sucesso no passado com seus livros relacionados aos chamados "Anjos da Guarda"

Um livreto acompanhava o jogo e continha os nomes dos anjos que as crianças poderiam invocar, e aparentemente conversar. Apesar de ter sido uma febre, principalmente entre pré-adolescentes, algum tempo depois o jogo saiu de circulação

O jogo "Converse com o seu Anjo" não era recomendável para menores de 3 anos
Não é difícil imaginar que uma empresa como Estrela não se aproveitaria da popularidade que temas espiritualistas tinham antigamente. Lembro que casos de fantasmas, imagens de santas que choravam, e casos paranormais ou parapsicológicos ocupavam longas horas nos programas dominicais de TV. Lançar um jogo de comunicação espíritual com certeza seria um sucesso.

Entretanto, diante da religiosidade da nossa população, predominantemente católica e evangélica, e dos preceitos morais que ainda tentam reger a sociedade, lançar um jogo que é até hoje considerado algo "amaldiçoado" não faria nada bem para as ações da empresa. Logo, nada melhor do que se aproveitar do mecanismo de funcionamento da tábua Ouija tradicional (vamos comentar sobre isso mais a frente) e lançar um jogo adaptado para comunicação angelical. Afinal, quem não gosta da imagem de anjinhos fofinhos, com olhares meigos e cachinhos dourados? Ninguém melhor para promovê-la do que uma "especialista" no assunto. Curiosamente, não lembro de casos de "possessão" relacionados a esse jogo. Será que uma caixa com cores claras e um indicador de anjinho fariam mesmo tanta diferença?

A Tábua Ouija Atualmente


No início de 1999, a Parker Brothers parou de fabricar a clássica tábua Ouija de Fuld, e começou a produzir uma versão menor, que brilhava no escuro. O material também teve uma mudança drástica visto que a madeira e todo um estilo próprio que ela continha, assim como o nome de William Fuld, desapareceram. Apesar de tudo, o slogan da Parker Brothers nos faz lembrar a intenção pela qual a tábua sofreu tais modificações: "É apenas um jogo, não é?"

No início de 1999, a Parker Brothers parou de fabricar a clássica tábua Ouija de Fuld,
e começou a produzir uma versão menor, que brilhava no escuro

O material também teve uma mudança drástica visto que a madeira e todo um estilo próprio que ela continha, assim como o nome de William Fuld, desapareceram. Apesar de tudo, o slogan da Parker Brothers nos faz lembrar a intenção pela qual a tábua sofreu tais modificações: "É apenas um jogo, não é?"
Atualmente, a Parker Brothers pertence a gigante dos brinquedos, a norte-americana Hasbro, que lançou uma polêmica versão da tábua Ouija em 2008, na cor rosa, destinada a meninas adolescentes. Então, em 2013, eles surpreenderam a todos, quebrando completamente a tradição, com um tabuleiro Ouija redesenhado, muito mais sombrio, equipado com um indicador com pilhas, no qual automaticamente iluminava as letras ou mensagens ocultas na tábua. Ainda que seja uma pequena mudança em relação a tradicional tábua Ouija, isso mostra que a imaginação não está completamente morta na Hasbro.

  A gigante dos brinquedos, a norte-americana Hasbro, lançou uma polêmica versão da tábua Ouija em 2008,
na cor rosa, destinada a meninas adolescentes

Então, em 2013, eles surpreenderam a todos, quebrando completamente a tradição, com um tabuleiro Ouija redesenhado, muito mais sombrio, equipado com um indicador com pilhas, no qual automaticamente iluminava as letras ou mensagens ocultas na tábua
Isso sem contar, é claro, com inúmeros fabricantes e artistas contemporâneos que criam as mais diversas versões da tábua Ouija, compartilham suas experiências, técnicas e materiais em fóruns de discussão, e vendem suas verdadeiras obras de arte pela internet. Dificilmente a tábua Ouija cairá em desuso, visto que ela sempre renasce de alguma forma e sua popularidade aumenta ou diminui diante de alguma situação. Afinal, ela só depende de uma única coisa para funcionar: da crença das pessoas.

A Tábua Ouija Inspirou a Criação de Obras Literárias ou Musicais?


Entre as primeiras coisas que se nota ao pensar sobre a tábua Ouija é a sua vasta gama de histórias, muitas vezes assustadoras. Existem dezenas de relatos de usuários que experimentaram a presença de entidades malignas durante sessões de Ouija, às vezes até mesmo sendo fisicamente acossados por forças invisíveis. Um enredo típico envolve uma comunicação que é inicialmente reconfortante e até mesmo útil, mas que eventualmente dá lugar a mensagens ameaçadoras ou aterrorizantes. Hugh Lynn Cayce, filho do eminente sensitivo norte-americano Edgar Cayce, certa vez alertou, que suas pesquisas tinham descoberto que as tábuas Ouija estavam entre "as portas mais perigosas para o inconsciente".

Muitos entusiastas de tábua Ouija, no entanto, dizem que ensinamentos como o inspirador "Material de Seth", divulgado por Jane Roberts, surgiram pela primeira vez através de uma tábua Ouija. Outros textos, tal como uma série de romances e poemas históricos do início do século XX, de uma entidade chamada "Patience Worth", assim como um "romance" póstumo de Mark Twain também teriam sido obtidos através da tábua Ouija. Por outro lado, poetas como Sylvia Plath e Ted Hughes escreveram passagens assustadoras e obscuras sobre suas experiências com a mesma. Bem divergente, não é mesmo?

Em 1976, por exemplo, o poeta norte-americano James Merrill publicou, e ganhou o Prêmio Pulitzer por um poema épico que relatou sua experiência, juntamente com seu parceiro, David Jackson, ao usar uma tábua Ouija entre 1955 e 1974. Seu trabalho denominado "The Book of Ephraim" foi posteriormente combinado com outros dois outros poemas inspirados pela tábua Ouija, sendo publicado em 1982 com o título de "The Changing Light at Sandover".

Seu trabalho denominado "The Book of Ephraim" foi posteriormente combinado com outros dois outros poemas inspirados pela tábua Ouija, sendo publicado em 1982 com o título de "The Changing Light at Sandover"
Merrill e Jackson teriam encontrado um mundo de "patronos espirituais", que lhes contaram um profundo e envolvente mito sobre a criação, além de oferecer teorias sobre reencarnação, conselhos mundanos e reflexões dolorosamente pungentes sobre a vida. Na verdade, não é difícil argumentar que, em termos literários, o livro "The Changing Light at Sandover" seja uma obra-prima (talvez "a" obra-prima) da experimentação oculta. Em alguns aspectos, é como uma resposta não intencional ao Frankenstein de Mary Shelley, no qual não apenas um homem escrevendo sozinho, mas dois escrevendo e pensando juntos, conseguem perfurar o véu dos mistérios interiores e cósmicos da vida, e vivem não somente para contar, mas para ensinar aos demais.

Naturalmente, o caso de James Merrill levanta a questão se a tábua Ouija canaliza algo do além ou meramente reflete as ideias encontradas em um subconsciente. Afinal, como poderia uma mera tábua produzir obras primas, e ao mesmo tempo fazer com que pessoas se deparassem com entidades malignas, que tentam atacá-las durante sua utilização? Diante desse questionamento, em um livro de 1970 sobre fenômenos psíquicos chamado "ESP, Seers & Psychics", um pesquisador cético chamado Milbourne Christopher revelou que se você efetivamente vendasse os olhos de um participante, e reorganizasse a ordem das letras na tábua Ouija, a comunicação era interrompida. Interessante, não? Porém, essa não tinha sido a primeira vez que alguém havia comentado sobre isso.

Diante desse questionamento, em um livro de 1970 sobre fenômenos psíquicos chamado "ESP, Seers & Psychics", um pesquisador cético chamado Milbourne Christopher revelou que se você efetivamente vendasse os olhos de um participante, e reorganizasse a ordem das letras na tábua Ouija, a comunicação era interrompida
Voltando no tempo, em 1915, um especialista em psicologia anormal propôs o mesmo teste a uma entidade chamada "Patience Worth" que, por intermédio de uma dona de casa de St. Louis chamada Pearl Curran, produziu uma série impressionante de romances, peças e poemas (alguns deles extremamente interessantes, visto que estavam escrito em um dialeto inglês tipicamente medieval), em que Curran (que não tinha terminado sequer o Ensino Médio) teoricamente não tinha meios de saber.

A entidade chamada "Patience Worth" que, por intermédio de uma dona de casa de St. Louis chamada Pearl Curran (na foto), produziu uma série impressionante de romances, peças e poemas - alguns deles extremamente interessantes, visto que estavam escrito num dialeto inglês tipicamente medieval
Conforme relatado no estudo de Irving Litvag, chamado "Singer in the Shadows", a entidade "Patience Worth" teria respondido ao pedido para que Curran fosse vendada usando o mesmo inglês medieval,  dizendo: "I be aset athin the throb o’ her. Aye, and doth thee to take then the lute awhither that she see not, think ye then she may to set up musics for the hear o’ thee?" Em outras palavras, "Como você pode remover o instrumento e esperar que haja música?" Aparentemente, a entidade era incapaz de "escrever" se os olhos de sua intermediária fossem vendados. Vamos comentar mais sobre isso daqui a pouco, fiquem calmos.

Algumas autoridades em pesquisa psíquica sustentam que a tábua Ouija é tão somente uma ferramenta do nosso subconsciente. Conforme relatado no estudo de Irving Litvag, de várias maneiras, a própria natureza da escrita automática e a tábua Ouija se tornam particularmente sujeitas a má interpretação. Uma vez que essas comunicações seriam inconscientes, a pessoa não tem a sensação de seu próprio envolvimento. Pelo contrário, faz parecer que alguém de fora é o responsável. É possivelmente devido a isso, que o material obtido geralmente é moldado como se fosse proveniente de outra inteligência.

Isso não impediu, é claro, que pessoas ao longo do tempo alegassem que a tábua Ouija teria ajudado a escrever livros ou até mesmo compor músicas. Confira uma pequena lista abaixo:
  • A escritora Sylvia Plath escreveu um livro chamado "Dialogue over a Ouija Board", em 1957. Como vocês devem imaginar, o livro seria o resultado de uma sessão com a tábua Ouija. Ela também escreveu um poema sobre o fenômeno;
  • Depois que o voo 401 da Eastern Air Lines caiu nos Everglades, na Flórida, em 1972, John G. Fuller escreveu um livro sobre isso chamado "The Ghosts of Flight 401". Os funcionários da Eastern Air Lines relataram ter visto os fantasmas do piloto e co-piloto, Bob Loft e Don Repo, circulando pela empresa, sendo que os 10 comissários de bordo que faleceram passaram a ser vistos em outro avião. A teoria, pelo menos naquela época, era que as peças do avião do voo 401 tinham sido recuperadas e utilizadas em outro avião Lockheed L-1011, que a companhia tinha adquirido. De qualquer forma, Fuller teria utilizado a tábua Ouija, assim como contado com um médium para entrar em contato com os espíritos e escrever seu livro;
  • Alice Cooper uma vez alegou que ele obteve seu nome artístico ao usar a tábua Ouija. Vincent Furnier consultou a tábua, que disse que ele era a reencarnação da uma bruxa do século 17 chamada Alice Cooper. Ele acabou adotando esse nome. Verdade ou não, é uma boa história;
  • Bill Wilson pode ter evitado um vício para cair em outro quando largou o álcool, e começou a usar a tábua Ouija. Para quem não sabe, Bill Wilson é co-fundador do AA (Alcoólicos Anônimos). Ele tinha uma espécie de "sala fantasma" em sua casa, onde supostamente entrava em contato com espíritos, que o ajudaram com seu problema relacionado ao alcoolismo. Segundo ele, um dos espíritos era de um monge do século XV chamado Bonifácio. Ele até mesmo reconheceu em sua autobiografia que ele usou a tábua Ouija para criar os famosos 12 passos do programa para o tratamento do alcoolismo;
  • Você provavelmente não veria a maioria dos políticos admitindo que eles usaram uma tábua Ouija, mas é exatamente isso que o ex-primeiro-ministro italiano Romano Prodi fez quando lhe foi perguntado, sob juramento, como ele sabia onde o primeiro-ministro anterior Aldo Moro estava em poder das Brigadas Vermelhas. Qual foi espírito que lhe contou essa informação? Giorgio La Pira, o ex-prefeito de Florença que havia morrido no ano anterior. A maioria das pessoas, no entanto, acredita que foi simplesmente Prodi tentando evitar revelar sua verdadeira fonte;
  • A banda norte-americana "The Mars Volta" certa vez disse que eles escreveram um álbum inteiro através da tábua Ouija. Uma sessão com a tábua deu-lhes uma história que acabaram usando em todo o processo criativo. Porém, coisas estranhas começaram a acontecer: um estúdio foi inundado, um de seus engenheiros teve um colapso nervoso, e seu vocalista machucou o pé. Então, eles resolveram queimar e enterrar a tábua Ouija;
  • Talvez uma das mais famosas utilizações da tábua Ouija tenha acontecido em 1917, quando um escritora do estado norte-americano do Missouri, chamada Emily Grant Hutchings publicou um livro intitulado "Jap Herron", no qual ela alegava que o texto teria sido ditado para ela, através da tábua Ouija, por ninguém menos que Mark Twain. Os céticos disseram que o livro era uma porcaria, visto que não havia como Mark Twain escrever uma coisa daquelas, estivesse ele morto ou não;
  • O poeta irlandês William Butler Yeats entra correndo por fora nessa lista, porque não usou exatamente a tábua Ouija, mas tirou proveito das habilidades de canalização de sua esposa (ela era uma suposta médium) para escrever um livro chamado "A Vision". O livro foi escrito através da "escrita automática", na qual envolvia um suposto espírito escrevendo através da mão do médium e rabiscando notas, em vez de soletrar mensagens enigmáticas em uma tábua com letras e números.
Com o tempo, as fantásticas alegações sobre a tábua Ouija ultrapassaram a própria época na qual foi criada. Alguns pesquisadores, por falta de pesquisa ou simplesmente na intenção de vender livros, passaram a dizer que a tábua Ouija não era algo moderno, mas que ela tinha sido usada na Antiguidade. É exatamente isso que vocês conferem a seguir.

A "Tábua Ouija" Era Usada na Antiguidade?


Uma alegação frequentemente repetida ao quatro ventos, porém enganosa, é que a tábua Ouija ou as tábuas de comunicação como um todo, possuem raízes antigas. Por exemplo, no "Dicionário de Misticismo", de Frank Gaynor, de 1953, é afirmado que tábuas antigas de diferentes formatos e tamanhos "foram usadas no século VI antes de Cristo". Em diversos livros e artigos, todos, desde Pitágoras, passando pelos Mongóis até chegar ao Antigo Egito, teriam usado "dispositivos de possessão" semelhantes a tábua Ouija. Contudo, as alegações raramente resistem a uma pesquisa mais aprofundada.

Eugene Orlando, responsável pelo site "Museum of Talking Boards", apontou que a primeira referência sobre a existência da tábua Ouija no mundo pré-moderno aparecia em uma passagem da "Enciclopédia do Ocultismo", de Lewis Spence, de 1920, que é repetida na popular "Enciclopédia de Ciência Psíquica", de Nandor Fodor, de 1934. Nessa última é possível ler a seguinte passagem: "Como invenção, ela é muito antiga. Estava em uso na época de Pitágoras, cerca de 540 a.C. De acordo com um relato histórico francês sobre a vida do filósofo, sua escola filosófica realizava sessões frequentes ou círculos em que 'uma mesa mística, movendo-se sobre rodas, se movia em direção a sinais, em que o filósofo e seu discípulo Philolaus, interpretavam para o público...'"

Eugene Orlando, responsável pelo site "Museum of Talking Boards", apontou que a primeira referência sobre a existência da tábua Ouija no mundo pré-moderno aparece em uma passagem da "Enciclopédia do Ocultismo", de Lewis Spence, de 1920, que é repetida na popular "Enciclopédia de Ciência Psíquica", de Nandor Fodor, de 1934 (na foto)
Eugene apontou que essa citação é encontrada em quase todos os artigos acadêmicos sobre a tábua Ouija, mas essa história possui dois problemas: ninguém nunca conseguiu identificar que relato histórico francês é esse, e o "discípulo pitagórico" Philolaus não viveu na mesma época que Pitágoras, mas no século seguinte. Vale a pena ressaltar, no entanto, que atualmente sabemos muito pouco sobre Pitágoras e sua escola. Nenhum dos textos de Pitágoras sobreviveu ao tempo, e o registro histórico depende de trabalhos posteriores, alguns dos quais foram escritos séculos após a sua morte. Assim sendo, as pessoas que tentam abordar tópicos ocultos acabam sempre caindo na tentação de projetar todos os tipos de práticas arcanas, tábua Ouija e numerologia moderna sobre aquela época.

Outros escritores, quando não estão repetindo as mesmas alegações como a anterior, tendem a interpretar incorretamente os relatos históricos e confundem outras ferramentas divinatórias com a tábua Ouija. Os oráculos, por exemplo, eram ricos e variados dependendo da cultura, desde as runas germânicas aos ritos gregos délficos. Porém, a literatura sobre tradições envolvendo oráculos não apoiam ou sugerem que tábuas de comunicação, tal como a conhecemos, eram usadas antes da era Espiritualista. Qualquer alegação nesse sentido, atualmente, é tão somente mera especulação ou falta de conhecimento.

Quando a Tábua Ouija se Tornou "Maligna"?


A princípio, toda a história que contamos até agora sobre a origem da tábua Ouija soa ser inofensiva, e até mesmo inspiradora para escritores de livros e músicos. Contudo, como ela passou de suposto instrumento de comunicação espiritual, posteriormente convertido para um mero brinquedo, passando por um item inovador e terapêutico para diversas gerações, para então ser associada ao Diabo e aos demônios? Bem, embora a utilização da tábua Ouija sempre tenha sido criticada por cientistas e algumas autoridades religiosas, a maioria dos relatos de "terror" ou experiências "malignas" relacionadas a tábua Ouija surgiram na década de 1970. Isso tudo depois que um certo romance foi publicado, e que virou um filme de grande sucesso dois anos depois. Vocês conseguem imaginar que filme foi esse? Vamos dar algumas dicas.

A história era sobre uma adolescente, que dizia para sua mãe, que estava falando com uma pessoa chamada "Capitão Howdy" através da tábua Ouija. Algum tempo depois, essa menina acaba ficando possuída pelo "diabo", fazendo com que seu corpo comece a se contorcer, vomitar verde, e sua cabeça girar 360º (entre outros eventos extraordinários). Este filme de que estamos falando é o... Acertou quem disse: "O Exorcista", um dos principais responsáveis pela percepção da cultura popular atual sobre a "possessão demoníaca". Aliás, o que Hollywood não consegue fazer com a cabeça das pessoas, não é mesmo?

A história era sobre uma adolescente, que dizia para sua mãe, que estava falando com uma pessoa chamada "Capitão Howdy" através da tábua Ouija. Algum tempo depois, essa menina acaba ficando possuída pelo "diabo", fazendo com que seu corpo comece a se contorcer, vomitar verde, e sua cabeça girar 360º (entre outros eventos extraordinários)
"O Exorcista" está baseado em uma "história verdadeira", de um menino de 14 anos, que esteve "possuído por algo", que acabou exigindo "três ritos de exorcismos diferentes". Conta-se também, que esses rituais sagrados teriam sido de diferentes denominações cristãs: Episcopaliana, Luterana e Católica Romana. Esse caso aconteceu 1949, e o menino teria "admitido" para seus pais, que tinha "brincado" com a tábua Ouija (por gentileza, notem as aspas).

Em 20 de agosto de 1949, o 'The Washington Post' publicou um enorme relato do caso (à esquerda), os nomes dos padres envolvidos no exorcismo. Segundo eles, durante o ritual, o menino gritava como "um carneiro sendo abatido" e só falava em latim. Foi esse artigo que inspirou o escritor William Petter Blatty a escrever o romance "O Exorcista", que deu base para o longa metragem.
A questão primordial é que os grupos católicos já costumavam se declarar contra a tábua Ouija quando essa alegação veio à tona. Uma vez que a ideia de que tal tábua pudesse ser um "mecanismo" para entrar em contato com os mortos teria implicações religiosas bem difícies para se lidar, não seria de se estranhar a razão pela qual, a Igreja Católica, talvez estivesse mais inclinada a concluir que aquela fosse a mais pura realidade por trás da suposta possessão. "Coincidentemente", após 1973 (o ano em que o filme foi lançado) as alegações correlacionando tábuas Ouija a demônios dispararam a surgir ao redor do mundo. No mínimo suspeito, não acham?

Não foi apenas o filme que gerou isso, é claro, visto que a maioria das denominações cristãs veem a comunicação espiritual como um produto do mal ou do trabalho do Diabo. Em algumas denominações, não há muita opção: um espírito vai para o Céu ou vai para o Inferno. Já em outras, os fantasmas são demônios que se passam por entes queridos, para conquistar a confiança deles, de modo a entrar em seus corpos. De qualquer forma, o filme acabou potencializando e alimentando a propagação de tais crenças, tornando assim a tábua Ouija definitivamente demoníaca.

Enfim, quem sabe uma hora eu não faça uma postagem completa investigando realmente a fundo essa história na qual o filme "O Exorcista" foi baseado? Com certeza o resultado será bem interessante!

Quem Realmente Move o Indicador da Tábua Ouija? A Tábua Ouija Não Pega Fogo?


Segundo a ciência, embora o indicador realmente se mova, o mesmo não está sendo movido por demônios ou espíritos, mas pelos próprios participantes. A resposta está no "efeito ideomotor", termo cunhado pelo naturalista britânico William B. Carpenter, em 1852. Com o poder da sugestão ou expectativa, somado com os sutis movimentos inconscientes feitos pelas mãos, pode parecer que algo sobrenatural esteja ocorrendo, assim como o indicador aparenta estar se movendo por conta própria. William Carpenter também observou que os movimentos musculares podem ser realizados pelo cérebro independentemente das emoções.

Primeira página do artigo "On the influence of suggestion in modifying and directing muscular movement, independently of volition" publicado pelo naturalista britânico William B. Carpenter em 12 de março de 1852, no periódico Proceedings of the Royal Institution of Great Britain. Você pode conferir todo o artigo, em inglês, clicando aqui.
O físico britânico Michael Faraday também realizou experimentos, que comprovaram que os movimentos das "mesas girantes ou falantes", geralmente atribuídos a fontes ocultas, eram realizados inconscientemente pelos próprios participantes dos experimentos. Resumindo, não temos a plena consciência, que somos nós os verdadeiros responsáveis por fazer com que o indicador se mova. Enfim, esse mesmo princípio se aplicaria ao uso de pêndulos e varas de radiestesia. Assunto polêmico, não é mesmo?

Salão parisiense com pessoas ao redor de uma "mesa falante". Imagem publicada na revista francesa chamada "l'Illustration", de 1853, para ilustrar um artigo chamado "Histoire de la semaine"
Outra coisa comum nas histórias sobre tábuas Ouija é que algumas pessoas tentam queimar a tábua para se livrar do "mal", mas surpreendentemente a tábua não seria afetada pelas chamas. Alguns relatos mencionam o cheiro de carne queimada quando a tábua é jogada em uma fogueira ou até mesmo que uma tábua aparentemente "começa a gritar" em meio as chamas.

Entretanto, algo em comum em muitos casos, é que as pessoas relatam que a tábua Ouija, pelo menos a que era tradicionalmente fabricada, ou seja, em madeira, não pegaria fogo. Será que isso deriva da crença de que a tábua Ouija estaria intimamente ligada com os demônios e ao Diabo, e a crença de que o fogo estaria associado ao Inferno?

Segundo a ciência, embora o indicador realmente se mova, o mesmo não está sendo movido por demônios ou espíritos, mas pelos próprios participantes. A resposta está no "efeito ideomotor", termo cunhado pelo naturalista britânico William B. Carpenter, em 1852
Em um artigo publicado por Bobby Nelson, no site da James Randi Educational Foundation, o investigador de assuntos paranormais entrou em contato com James Randi, há alguns anos, para conversar com ele sobre essas alegações a respeito da tábua Ouija. Aliás, o próprio James Randi também teria repetido o controverso experimento, que consiste em vendar os participantes, cujo resultado produziu respostas absurdas e desconexas.

De acordo com Randi, a explicação lógica é que tudo é feito subconscientemente pelo participante. Quando o(a) participante não consegue ver a tábua, ele(a) não consegue gerar resultados que façam algum sentido. Sobre a questão das tábuas não pegarem fogo, Randi teria mencionado que qualquer pessoa poderia comprar uma tábua Ouija de madeira e atear fogo nela. Caso não ardesse em chamas, então ele pagaria US$ 1 milhão. Não é preciso dizer que ninguém nunca conseguiu ganhar esse prêmio, não é mesmo?

James Randi Randi teria mencionado que qualquer pessoa poderia comprar uma tábua Ouija de madeira, e atear fogo nela.
Caso a tábua não ardesse em chamas, então ele pagaria US$ 1 milhão.
Vale lembrar nesse ponto, que o canal de TV da National Geographic também reproduziu esse experimento relacionado a utilização da tábua Ouija, com os participantes vendados, durante um episódio da série "Brain Games". Os resultados também mostraram que os participantes só conseguiram produzir resultados positivos quando não estavam vendados. Confira um trecho desse episódio, que foi publicado no próprio canal do National Geographic, no YouTube, em 5 de fevereiro de 2015 (em inglês):



Enfim, para muitos a tábua Ouija sempre foi um jogo de tabuleiro comum, ou seja, um mero brinquedo. Nunca foi, e sob nenhum hipótese, seria uma espécie um portal para o Inferno. Nem mesmo sequer permitiria que entidades de qualquer espécie viessem para nosso mundo através de um portal invisível. Além disso, a tábua Ouija não conjuraria demônios e nem mesmo o Diabo.

Quais são as Regras da Tábua Ouija?


Todo jogo tem suas regras, não é mesmo? A partir do momento que a tábua Ouija foi colocada em uma caixa, foi necessário criar algumas instruções que permitissem que os participantes soubessem o que eles tinham que fazer. Vocês têm curiosidade para saber as instruções da tábua Ouija de William Fuld, do início do século XX? Vocês vão se surpreender!

1º - Coloque o tabuleiro sobre os joelhos de duas pessoas, de preferência uma dama e um cavalheiro, com a pequena tábua sobre o tabuleiro. Coloque os dedos levemente, mas firmemente, sem pressionar, deixando-a livre. Entre um e cinco minutos a pequena tábua irá começar a ser movimentar, no começo bem devagar, então ficará mais rápida e, então, será capaz de falar ou responder perguntas, nas quais serão respondidas tocando as palavras ou letras impressas que são necessárias para formar palavras e frases com a parte mais proeminente ou ponteiro.

2º - Deve-se tomar cuidado para que somente uma pessoa pergunte de cada vez, para evitar confusão, e as as perguntas devem ser feitas de forma clara e precisa

3º - Para obter os melhores resultados, é importante que as pessoas presentes concentrem suas mentes no assunto em questão e evitem outros tópicos. Evite ter na mesa pessoas que não levem a sério ou então que não tenham respeito. Se você usá-la em estado frívolo de espírito, fazendo perguntas ridículas, rindo sobre a mesma, você naturalmente terá influências desconhecidas ao seu redor.

As seis regras que originalmente acompanhavam a tábua Ouija de William Fuld, no início do século XX
4º - A Ouija é um grande mistério, e não pretendemos dar orientações exatas para a sua utilização, nem afirmamos que em todos os momentos ou em todas as circunstâncias ela irá funcionar igualmente bem. Porém, nós afirmamos e garantimos que, com uma paciência razoável e bom senso, ela irá mais do que satisfazer a maior de suas expectativas

5º - De forma a usar a pequena tábua junto ao tabuleiro, umedeça a ponta dos pés de apoio e encaixe-os firmemente na pequena tábua.

6º - O tabuleiro deve ser mantida limpo e livre de poeira e umidade, uma vez que tudo depende que os pés da tábua deslizem com facilidade sobre a superfície do tabuleiro. É aconselhável esfregar com um lenço de seda seco imediatamente antes do uso."

WM. FULD
INVENTOR AND MANUFACTURER
GAMES - PARLOR POOL TABLES - COLLAPSIBLE KITES
THE MYSTIFYING "ORACLE" TALKING BOARD, Etc
Factory and Show Rooms, 1226-1228-1306 N. Central Avenue
BALTIMORE, MD., U.S.A.

Foto da tábua Ouija lançada por William Fuld entre 1902 e 1910

Foto da chamada "pequena tábua", na qual hoje em dia denominamos de indicador,
mostrando que a mesma possuía pequeno pés de apoio que eram encaixados.

Foto da parte superior da "pequena tábua", na qual sequer havia um vidro,
que supostamente permitiria ver o "espírito" no qual se está conversando.



O que aprendemos com isso? Algo bem simples, as tais "regras da tábua Ouija", as famosas "25 regras" não existiam quando William Fuld lançou a tábua Ouija. Essas "25 regras" nada mais são do que superstições que foram inventadas pelas pessoas ao longo do tempo, e acabaram sendo adotadas por algumas empresas que vendem versões mais obscuras da tábua Ouija. O motivo? Simplesmente colocar medo nas pessoas.

Conheça essas tais "superstições":

1. Nunca jogue sozinho!;
2. Nunca deixe que os espíritos movimentem o ponteiro através dos números e do alfabeto de forma regressiva, uma vez que eles podem escapar do tabuleiro;
3. Se o indicador for para os quatro cantos do tabuleiro, isso significa que você entrou em contato com um espírito maligno;
4. Se o indicador cair de um tabuleiro Ouija, um espirito será perdido;
5. Se o indicador fizer a figura de um de 8 repetidamente, isso significa que um espírito maligno está no controle do tabuleiro;

6. Se você quiser entrar em contato com um espírito maligno, vire rapidamente o indicador de cabeça para baixo e continue usando dessa forma;
7. O tabuleiro deve ser "fechado" corretamente ou os maus espíritos irão assombrar o participante;
8. Nunca use a Ouija enquanto estiver doente ou em uma condição debilitante, pois isso o tornará vulnerável a possessão;
9. O espírito do tabuleiro Ouija cria "uma sensação de vitória" para o participante, fazendo com que ele se torne cada vez mais dependente do tabuleiro, tornando um vício. Isso é chamado de "aprisionamento progressivo";
10. Os espíritos maus que entram em contato através do tabuleiro Ouija tentarão ganhar sua confiança com falsos interesses e mentiras;

Algumas "regras" da tábua Ouija aparecem no filme "Ouija: Origem do Mal"
11. Seja sempre respeitoso e nunca perturbe os espíritos;
12. Nunca use a Ouija em um cemitério ou lugar onde uma morte terrível ocorreu ou você atrairá entidades malignas;

13. Tabuleiros de Bruxas são assim chamados porque as bruxas os utilizam para invocar demônios;
14.  As primeiras tábuas Ouija foram feitas a partir da madeira de caixões. Um prego do caixão no centro da janela do indicador servia como o ponteiro;
15. Algumas vezes, um espírito maligno pode pemanentemente "habitar" um tabuleiro. Quando isso acontece, nenhum outro espírito será capaz de usá-lo;
16. Ao usar um vidro como um indicador de mensagem, você deve sempre limpá-lo primeiro segurando-o sobre uma vela acesa;
17. Tabuleiros Ouija que são eliminados de forma imprópria, voltam para assombrar o proprietário;
18.  O tabuleiro Ouija irá gritar se você tentar queimá-lo. As pessoas que ouvem o grito têm menos de 36 horas de vida. Existe apenas uma maneira adequada de eliminá-lo: quebre o tabuleiro em sete pedaços, jogue água benta e enterre-o;
19. Se você precisar usar um tabuleiro Ouija, faça o seu próprio tabuleiro. Organize as letras e os números, em um círculo. Assim, o que quer que esteja dentro desse círculo não poderá escapar;
20. Se você colocar uma moeda de prata pura no tabuleiro, nenhum espírito maligno será capaz de entrar em contato;

A atriz Doris Zander interpretando o papel de "Lulu" em "Ouija: Origem do Mal"
21. Nunca deixe o indicador solto no tabuleiro, se você não estiver utilizando-o;
22. Espíritos libertinosos do tabuleiro Ouija às vezes pedem para que as jovens mulheres façam... coisas estranhas. Ignore-os e lembre-se sempre que seu parceiro de Ouija (por exemplo, um namorado) não tem nada a ver com isso;
23. Nunca pergunte sobre Deus;
24. Nunca pergunte quando você vai morrer;
25. Nunca pergunte onde ouro possa estar enterrado;

Curiosamente, mesmo sendo apenas superstições e não regras, algumas empresas se aproveitam dessas superstições e as transformam em verdadeira regras, assim como essas que vocês podem conferir abaixo:

1. Nunca jogue sozinho. São necessários no mínimo dois jogadores;
2. Nunca permita que os espíritos levem o ponteiro para as extremidades do tabuleiro de forma que possam sair dele dessa forma. É assim que ocorre a possessão;
3. Se o ponteiro se mover para os quatro cantos do tabuleiro significa que o espírito contatado é mau;
4. Caso se esteja jogando em uma mesa ou local aonde o tabuleiro fique elevado: se o ponteiro cair no chão, o espírito será perdido;
5. Se o ponteiro apontar o número oito repetidamente, um espírito mau está no controle do tabuleiro;
6. Se desejar contatar um mau espírito, vire o tabuleiro com as letras na posição invertida e utilize-a assim;
7. O tabuleiro deve ser fechado corretamente após a sessão, ou o espírito pode revoltar-se e assombrar os utilizadores;
8. Nunca use o tabuleiro Ouija quando estiver doente, enfraquecido ou sobre o efeito de álcool ou drogas, tendo em vista que estas situações o mantém vulnerável à possessão;
9. Não faça do uso do tabuleiro Ouija uma rotina. Os espíritos às vezes cativam o jogador ao ponto de que o contato se torne um vício;
10. Os espíritos contatados através do tabuleiro tentarão ganhar a sua confiança através de mentiras. Por exemplo: um mau espírito pode alegar ser bom, ganhando assim a sua confiança e trazendo-lhe mal posteriormente;


Curiosamente, mesmo sendo apenas superstições e não regras, algumas empresas se aproveitam
dessas superstições e as transformam em verdadeira regras
11. Procure manter contato sempre de forma respeitosa e só convide para proceder as sessões pessoas confiáveis, seguras e que o farão seriamente. Nunca irrite o espírito ou lhe faça perguntas com ironia;
12. Antes de sair ou mesmo de entrar em uma sessão, peça a permissão do espírito. Caso contrário, está sujeito à possessão pelo mesmo;
13. Nunca use o tabuleiro Ouija em cemitérios ou locais aonde houveram mortes brutais. Isto pode trazer maus espíritos para o tabuleiro;
14. Às vezes, um mau espírito pode habitar permanentemente um tabuleiro. Quando isso ocorrer, não se poderá manter contato com outros espíritos além dele até que ele decida sair;
15. Se seu ponteiro for de vidro, você deve limpá-lo antes e depois de cada sessão, de forma que nenhum espírito possa entrar ali. Para isso, passe-o sobre uma vela acesa;
16. Tabuleiros Ouija que são jogados fora, incorretamente, libertam diversos espíritos que voltarão para assombrar seu dono;
17. Nunca empreste seu tabuleiro a ninguém. Use-o com exclusividade. Se necessário, faça seu próprio e recomende aos colegas que pedem emprestado, que eles façam o mesmo;
18. Há apenas uma forma correta de se desfazer de um tabuleiro Ouija. Primeiro quebre-o em sete pedaços. Depois, jogue sobre ele água benta e finalmente o queime;
19. Se você colocar junto do tabuleiro uma moeda de prata pura, espíritos maus serão incapazes de manter contato;


Existem cerca de 25 superstições relacionadas a tábua Ouija, que são consideradas como regras por alguns fabricantes, que ocasionalmente diminuem esse número ou então acrescentam maiores detalhes que não existiam previamente
20. Nunca deixe o ponteiro sozinho sobre a tábua se não estiver a utilizando. Se o espírito levá-lo para fora do tabuleiro, estará liberto;
21. Às vezes maus espíritos pedirão aos participantes femininos para fazerem gestos ou executarem ações obscenas. Ignore-os. Os demais participantes jamais devem rir ou irritar-se nestas situações;
22. Evite perguntar sobre assuntos que se referem a sua religião e não faça perguntas a respeito do futuro.


Perceberam como a conotação muda e tudo fica muito mais obscuro, sombrio e perigoso? Para piorar a situação, é possível notar que as "regras", que geralmente são impressas em um papel de aparência envelhecida por algumas empresas. possuem erros de tradução em relação as "superstições", que podem facilmente ser encontradas em sites que abordam o tema, em língua inglesa. Resumindo? Fica claro que as "regras da tábua Ouija" não passam de crendices populares, que ganharam distorções e novas ações "proibidas" no decorrer do tempo.

Existe Mesmo um "Demônio da Tábua Ouija" Chamado Zozo?


Muitos entusiastas de demonologia, que basicamente seria o estudo sistemático dos demônios, tentam responder a questão sobre a existência ou não de um demônio chamado "Zozo". Se você buscar informações sobre "Zozo" na internet ou até mesmo no YouTube irá se deparar com uma informação extremamente vaga, geralmente contada por pessoas que sabem mais copiar histórias de terror de fontes internacionais do que necessariamente pesquisar sobre o que pretende apresentar ao público. Na penúltima parte dessa postagem, no entanto, tentaremos nos aprofundar sobre o mesmo.

Em cada encontro relatado com uma "entidade" conhecida como Zozo, há um único tópico em comum: escuridão. Costuma-se dizer que se comunicar com Zozo, através de um tabuleiro Ouija, é trazer uma força demoníaca implacável para sua vida. Contudo, quem é Zozo e por qual razão ele tem aterrorizado milhares de pessoas ao redor do mundo? Bem, essa não é uma pergunta fácil de responder. Afinal de contas, Zozo é uma "entidade" complicada ou pelo menos aparenta ser.

Em cada encontro relatado com uma "entidade" conhecida como Zozo, há um único tópico em comum: escuridão. Costuma-se dizer que se comunicar com Zozo através de um tabuleiro Ouija é trazer uma força demoníaca implacável para sua vida
Na maioria das histórias que você encontra na internet, Zozo inicialmente é amigável, e de vez em quando "ele" utiliza um nome diferente. Sim, exatamente isso que você leu, nem sempre as pessoas relatam que essa "entidade" aparece como Zozo, mas também apareceria com os nomes de Zam, Zetoh, Zaza, Zoso, Zono, e até mesmo Mama. Algumas pessoas chegam a interpretar o nome Zozo como se fosse apenas Oz. E como vocês já devem imaginar, é bem complicado dizer quais histórias sobre Zozo são autênticas (se é que existe alguma realmente autêntica) e quais são meras lendas urbanas, que as pessoas adoram contar. Algumas histórias mencionam assassinatos e suicídios, enquanto outras envolvem possessão, dor física, abuso, maldições e outros fenômenos comumente associados com forças demoníacas. Alguns até mesmo dizem que Zozo estaria ligado a eles ou suas famílias como se fosse um "demônio parasita".

Assim como o autor Jan Harold Brunvand discute em seu livro "The Choking Doberman", a transmissão oral, ou seja, de "boca em boca" de histórias ouvidas "do amigo de um amigo" é uma poderosa forma de espalhar ideias. A internet, é claro, tornou isso muito mais simples. Algumas dessas histórias são modernas, se formos considerar a menção a carros e outros elementos contemporâneos. Porém, somente algumas lendas urbanas, a exemplo do "Slender Man", é que sabemos exatamente quando e onde a história começou.

E como vocês já devem imaginar, é bem complicado dizer quais histórias sobre Zozo são autênticas (se é que existe alguma realmente autêntica) e quais são meras lendas urbanas, que as pessoas adoram contar.
Aparentemente, a primeira menção a Zozo foi no livro "Dictionnaire Infernal" ("Dicionário Infernal", em português), do autor francês Jacques Auguste Simon Collin de Plancy, e publicado em 1818. É justamente nesse ponto que precisamos fazer uma pequena curva para explicar um pouco sobre esse livro, e a forma pela qual Zozo é citado nele.

Esse livro tem tantas histórias e estranhezas associadas a ele, que praticamente daria para escrever um outro livro sobre ele. A primeira estranheza desse livro é um sistema de valorização bem original de suas edições. Amadores e aficionados por leitura sabem que a primeira edição de qualquer livro é a mais valorizada. As edições subsequentes normalmente diminuem de valor. O livro "Dictionnaire Infernal" é um dos poucos que não seguem essa regra. A sexta edição, impressa por Henry Plon em 1863, é a edição mais cobiçada de "Dictionnaire Infernal", porque é a única edição que contém ilustrações famosas.

A sexta edição, impressa por Henry Plon em 1863, é a edição mais cobiçada de "Dictionnaire Infernal",
porque é a única edição que contém ilustrações famosas
Quando Jacques de Plancy escreveu esse livro e o publicou em 1818 ele era um ateu. Ele acreditava que a Igreja usava desenhos de demônios e monstros parecidos entre si para assustar as pessoas em sua fé. Menos de 15 anos depois, no entanto, ele mudou de ideia. Ele se tornou católico e contratou um artista chamado Luis Breton, que preparou 550 ilustrações (exatamente esse número), para a 6ª edição do livro. No livro, se você prestar bem a atenção, é possível ver que as imagens são assinadas por diversos ilustradores, apesar de constar apenas o nome de Breton no livro. A explicação mais óbvia é que as assinaturas de A.J., CH. Jacque, Didiot e Jarrault, por exemplo, são de pessoas que simplesmente trabalhavam no estúdio de Luis Breton, que era muito renomado naquela época.

Curiosamente, em 1999, a Trident Books publicou seu famoso livro chamado "Demonographia", que possui 69 dessas ilustrações de demônios, e muita gente faz confusão até hoje acreditando que "Dictionnaire Infernal" e "Demonographia" são os mesmos livros, o que não é verdade. Felizmente, graças a Bibliothèque Nationale de France ("Biblioteca Nacional da França"), a 6ª edição do livro "Dictionnaire Infernal" foi escaneada, transformada em arquivo .PDF e está disponível para ser acessado pela internet, basta clicar aqui. Interessante, não é mesmo?

Felizmente, graças a Bibliothèque Nationale de France ("Biblioteca Nacional da França"), a 6ª edição do livro "Dictionnaire Infernal" foi escaneada, transformada em arquivo .PDF e está disponível para ser acessado pela internet, basta clicar aqui.
Nesse ponto você parar e pensar: e o que está escrito sobre Zozo na sexta edição desse livro? Bem, a resposta é bem decepcionante. Na página 722, praticamente no final do livro, Zozo é mencionado como um demônio, que na companhia de Mimi e de Crapoulet (dois outros supostos demônios), teria possuído uma jovem menina num vilarejo chamado Teilly, em Picardie, na França, uma região ao norte do país, em 1816. Isso geralmente é o máximo de informação histórica que você encontra sobre Zozo na internet, mas não aqui no blog AssombradO.com.br, porque fiz questão de me aprofundar um pouco sobre essa história.

Na página 722, praticamente no final do livro, Zozo é mencionado como um demônio, que na companhia de Mimi e de Crapoulet (dois outros supostos demônios), teria possuído uma jovem menina num vilarejo chamado Teilly, em Picardie, na França, uma região ao norte do país, em 1816
Zozo também é mencionado na página 552 dessa mesma edição, e conta com o seguinte texto: "O vilarejo de Teilly, a 15 km de Amiens, em 1816 assistiu a um espetáculo de uma menina que fingiu estar possuída. Ela estava, segundo ela, em poder de três demônios: Mimi, Zozo, e Crapoulet. Uma autoridade eclesiática avisou as autoridades, que reconheceram que a menina estava doente. Ela foi levada a um hospital, mas não foi mencionado nada sobre possessão..."
Zozo também é mencionado na página 552 dessa mesma edição do livro "Dictionnaire Infernal"
Diga-se de passagem a edição desse livro não informa o nome dessa jovem, não fornece mais detalhes sobre o teria realmente acontecido ou sequer detalha quem seria Mimi ou Crapoulet, citando-os apenas como demônios. Contudo, pesquisando mais um pouco sobre esse livro, descobri que na segunda edição do "Dictionnaire Infernal" existem mais detalhes do que teria acontecido, e acreditem, tudo realmente não teria passado de uma farsa.

Confira o que é mencionado nas páginas 307 e 308 da segunda edição do livro "Dictionnaire Infernal":

"No vilarejo de Teilly, a 15 km de Amiens, uma jovem ficou grávida, e para encobrir esse incidente, ela começou a dizer que estava possuída por três diabinhos, que se chamavam Mimi, Zozo e Crapoulet. Quanto a este último, ele poderia ser muito bem o culpado, porque é considerado um mulherengo. De qualquer forma, a menina aparecia andando nas ruas, algumas vezes de quatro, algumas vezes andando de frente e outras vezes andando de costas; algumas vezes ela andava com o apoio das mãos, e jogava os pés para o ar. Mimi, ela disse, a empurrava para frente; Zozo, a arrastava para trás; e o maligno Crapoulet se divertia em manter suas pernas para o alto.
Páginas 307 e 308 da segunda edição do livro "Dictionnaire Infernal"
Um senhor de idade de Loyola (um vilarejo basco da Espanha), à procura por aventuras, reconheceu o trabalho do Diabo e levou a menina possuída para exorcizá-la. Mimi partiu em silêncio; Zozo foi mais persistente e quebrou uma janela da igreja quando tentou escapar pelo telhado. Quanto a Crapoulet, ele foi perseguido em vão, mesmo com a ferramenta abençoada, ele não conseguiu ser removido e, eventualmente, se posicionou na genitália da menina, deixando apenas a critério do exorcista. Havia fofocas e rumores por toda Amiens devido a esses eventos, assim sendo as autoridades decidiram colocar um fim ao escândalo. Um homem honesto de Teilly ficou sabendo que a menina possuída, na verdade, estava grávida e a levou para um hospital."

História estranha, não é mesmo? Jacques Auguste Simon Collin de Plancy é geralmente apresentado como um ocultista francês, demonologista, escritor, sendo que publicou diversos trabalhos sobre ocultismo e demonologia. No entanto, devemos levar tudo o que ele escreveu a sério? Para tentar responder a essa questão, temos que lembrar que Jacques, ao menos inicialmente, era ateu e não acreditava em muitas superstições. Ironicamente, no entanto, estampado na capa da segunda edição de seu "dicionário infernal", podemos ler o seguinte: "Dicionário Infernal ou uma Biblioteca Universal sobre os seres, os personagens, os livros, dos fatos e das coisas que dizem respeito às manifestações, a magia, o comércio do Inferno, as adivinhações, as ciências ocultas, os grimórios, os fenômenos extraordinários, os erros, os preconceitos, as tradições, as lendas, as diversas superstições e, em geral, toda a espécie de crenças surpreendentes, misteriosas e sobrenaturais."

Jacques Auguste Simon Collin de Plancy é geralmente apresentado como um ocultista francês, demonologista, escritor, sendo que publicou diversos trabalhos sobre ocultismo e demonologia
Além disso, Jacques ficou conhecido sobre suas inúmeras publicações sobre lendas e por escrever anedotas (histórias curtas com finais geralmente engraçados, porém que podem ser ou não verdadeiras, e quando são geralmente possuem exageros na narrativa, que é contada de maneira informal e imprecisa) no século XIX. Isso sem contar as chamadas "aventuras singulares", "citações", "compilações" e "peças curiosas", para serem utilizadas como registro da história dos costumes e da mentalidade do século em que viviam, em comparação com séculos passados. Ele também escrevia pequenos romances, contos estranhos, e histórias prodigiosas sobre as "aventuras de demônios". Não estou querendo desacreditar o que Jacques relatou sobre Zozo, mas vocês devem levar tudo isso em consideração na avaliação de vocês, ou seja, se o texto dele merece ou não alguma credibilidade. De qualquer forma, nesse caso, o nome Zozo está associado a uma mentira, isso ficou bem claro?

Uma das ligações mais concretas ao nome Zozo e a ideia de magia e demônios pode ser atribuída à peça francesa de 1835 chamada "Zazezizozu", que foi uma adaptação de uma história do livro árabe chamado "Mil Noites e uma Noite". O conto original aparece no Livro Suplementar III de Sir Richard Francis Burton, sendo que o Príncipe Ahmad e a Fada Pero-Banu também foram recitados pelo escritor Jean Pio, no livro "Contes Populaires Grecs", de 1879, como "Το χρυσό κουτάκι" ("A Caixa de Ouro", em português).

Uma das ligações mais concretas ao nome Zozo e a ideia de magia e demônios pode ser atribuída à peça francesa de 1835 chamada "Zazezizozu" que foi uma adaptação de uma história do livro árabe chamado "Mil Noites e uma Noite"
Na peça "Zazezizozu", três príncipes conspiram pelo trono de seu pai, e pela mão da irmã deles, a princesa. Os príncipes são chamados Zizi, Zozo e Zuzu (nomes que poderiam ser traduzidos como "Infantil", "Um Tolo", mas Zuzu não é possível traduzir). Cada príncipe entra em uma terra mágica (uma das cartas, uma dos dominós e uma dos dados) para competir por um prêmio e ganhar a princesa. O vencedor acaba trazendo rosas da terra das cartas. Em 1836, Edward "Fitzball" usou a peça francesa como base para uma peça cômica que ele escreveu chamada "Zazezizozu" também conhecida como "Cards, Dominoes and Dice". A história rapidamente ganhou popularidade e fez turnês na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Durante a década de 1880, uma ópera popular foi intitulada "Zozo the Magic Queen". A história acontece a partir de um naufrágio, passando pela "Terra das Fadas" e por uma "caverna demoníaca". A mesma termina em uma ilha encantada e um grande espetáculo de balé. Como resumo, podemos dizer que, quando um navio norte-americano naufraga na costa da Terra das Fadas, o capitão e a tripulação são levados até terra firme. Zozo (a rainha da Terra das Fadas) e sua comitiva encontram os homens, que são os primeiros mortais que elas já tinham visto. O capitão apaixona-se por Zozo e, eventualmente, conquista seu coração.

Durante a década de 1880, uma ópera popular foi intitulada "Zozo the Magic Queen".
A história acontece a partir de um naufrágio, passando pela "Terra das Fadas" e por uma "caverna demoníaca"
Porém, parte da história também envolve a invasão da Terra das Fadas por um grupo de homens maus que também encontram o local. Assim como muitas óperas da época, o peça era parcialmente cômica, parcialmente burlesca e, em parte, um elaborado balé. A ópera viajou pelos Estados Unidos de 1884 até pelo menos 1895.

Um outro ponto interessante é que desde a menção sobre Zozo, em 1818, mesmo diante do nascimento do Espiritualismo e todos os mais diversos métodos de supostos contatos com o mundo espiritual, nenhum médium sequer mencionou Zozo.

Algumas pessoas, no entanto, dizem que Zozo teria sido citado em uma espécie de "guia de viagens", em francês, de 1906, no qual o citaria como uma "abreviação" para Pazuzu, que na mitologia suméria era o "rei dos demônios do vento", filho do deus Hanbi. Esse tal "guia de viagens" seria o livro "L'Antiquité: L'Orient, la Grèce, Rome", do autor Albert Malet.

Algumas pessoas dizem que Zozo teria sido citado em uma espécie de "guia de viagens", em francês, de 1906, no qual o citaria como uma "abreviação" para Pazuzu, que na mitologia suméria era o "rei dos demônios do vento", filho do deus Hanbi. Esse tal "guia de viagens" seria o livro "L'Antiquité: L'Orient, la Grèce, Rome", do autor Albert Malet
Ao consultarmos a edição desse mesmo livro, de 1902, e que está disponível para consulta pública na Biblioteca Nacional da França, existe uma ilustração de uma estátua relacionada a "Le Vent du Sud-Est", que estaria localizada no museu do Louvre, porém não há nenhuma referência aos nomes Pazuzu ou Zozo nesse livro:

Ao consultarmos a edição desse mesmo livro, de 1902, e que está disponível para consulta pública na Biblioteca Nacional da França, existe uma ilustração de uma estátua relacionada a "Le Vent du Sud-Est", que estaria localizada no museu do Louvre, porém não há nenhuma referência aos nomes Pazuzu ou Zozo nessa edição do livro
Assim sendo, fomos verificar a referência mencionada em relação a edição de 1906. Afinal, esse livro poderia ter sido atualizado de forma significativa, não é mesmo? Confira a imagem abaixo:

Edição de 1906 do livro "L'Antiquité: L'Orient, la Grèce, Rome"
Novamente, não há qualquer menção aos nomes "Pazuzu" ou "Zozo" nesse livro.

Será que vocês conseguem adivinhar quando Pazuzu apareceu como um demônio que possuía pessoas? Vou dar uma dica: essa suposta "característica" de possessão começou a ser contada apenas a partir de 1971. Então, já sabem? Bem, acertou quem disse o livro "O Exorcista" do escritor e cineasta norte-americano Peter Blatty. Na verdade, o início do livro prepara o terreno para os acontecimentos diante de uma escavação em um templo que revela uma estátua Pazuzu. Embora o papel de Pazuzu seja bem pequeno no filme "O Exorcista", o mesmo ganhou um destaque maior em "O Exorcista II - O Herege", de 1977.

Considerando as supostas fontes históricas comumente referidas a Zozo, e o significado francês da palavra, ou seja, "bobo, tolo ou idiota", é bem possível que toda essa história de um demônio específico do tabuleiro Ouija tenha começado tão somente como uma piada.

Confira alguns outros significados para Zozo:
  • Em basco, a palavra significa "melro-preto" ou "estorninho" (ambos pássaros);
  • Em francês, significa "bobo", "tolo" ou "idiota";
  • No crioulo haitiano, o termo é uma palavra vulgar para "pênis";
  • No "crioulo francês da Louisiana", a palavra significa "melro-preto" ou "corvo";
  • Em zulu, a palavra "uzozo" significa "uma ferida que nunca cicatriza".
Será que vocês conseguem adivinhar quando Pazuzu apareceu como um demônio que possuía pessoas?
Bem, acertou quem disse o livro "O Exorcista" do escritor e cineasta norte-americano Peter Blatty
Na busca por maiores informações que pudessem fornecer mais detalhes sobre Zozo, me deparei com um artigo muito interessante publicado pelo um site chamado livescifi.tv. Porém, Celina Summers, responsável pelo texto, aproveitando-se tão somente de um perfil linguístico limitado, cita os colonizadores europeus e a vinda de escravos da África como uma espécie de tentativa de explicar, que a miscigenação cultural e social entre os valores judaico-cristãos e as crenças africanas poderiam ter dado, de alguma forma, origem ao Zozo. Além disso, é citado um pesquisador paranormal chamado "Darren Evans" com uma história muito pecular. Aparentemente, uma pessoa teria encontrada uma tábua Ouija enterrada no porão de uma antiga casa, em 1982, próximo a Sand Springs, Oklahoma. De um lado era uma tábua Ouija normal, de William Fuld, da década 30, mas o outro lado estaria pintado de preto, sendo que o desenho de asas de corvo em volta do nome Zozo estaria gravado nesse lado escuro da tábua.

Darren Evans,
pesquisador paranormal
Após um "exame mais aprofundado" do local onde a tábua havia sido encontrada, Evans descobriu que jarros de "melros-pretos" mortos, e bem-preservados tinham sido enterrados em cada um dos quatro cantos da tábua Ouija. Sobre os frascos havia uma substância branca, parecendo calcário. Isso, é claro, é a história que ele conta.

Celina então aproveita para dizer que em muitas culturas antigas, o calcário branco ou cal era usado como forma de purificação antes das batalhas ou como parte de um ritual mágico importante, tanto na Europa quanto na África. No entanto, isso continua não provando absolutamente nada sobre as origens históricas de Zozo.

A grande verdade é que a absoluta maioria dos relatos sobre Zozo surgiram a partir de meados da década de 1980 e começaram a ganhar um volume ainda maior com a expansão internet e acessibilidade de mais pessoas ao mundo digital, uma vez que um maior conteúdo sobre os mais diversos assuntos, inclusive a tábua Ouija, começaram a ser disponibilizados.

Para vocês terem uma ideia, John Zaffis, considerado um dos principais demonólogos do mundo, acredita que Zozo não é um demônio, mas um Dietie. Um Dietie seria uma espécie de um deus do pagão que teria sido adorado muito antes que as religiões fossem formadas. Em outras palavras, ele acredita que Zozo não seja um demônio, mas um espírito que foi adorado como um deus pagão em seu tempo.

Entretanto, para Paul Dale Roberts, que pertence a um grupo paranormal chamado "Haunted and Paranormal Investigations" (H.P.I.), que por sua vez é considerado dos principais grupos paranormais da Costa Oeste dos Estados Unidos, o fenômeno Zozo pode ser tão somente uma farsa. Paul seria considerado um especialista paranormal muito respeitado em seu meio e, de acordo com ele, Zozo provavelmente seria um "personagem fictício que se tornou real na mente de muitas pessoas", principalmente entre aquelas que procuram por maiores informações sobre a tábua Ouija, tal como aconteceu, por exemplo, com Slender Man, mesmo nos dias atuais.

Entretanto, para Paul Dale Roberts, que pertence a um grupo paranormal chamado "Haunted and Paranormal Investigations" (H.P.I.), que por sua vez é considerado dos principais grupos paranormais da Costa Oeste dos Estados Unidos, o fenômeno Zozo pode ser tão somente uma farsa.
Resumindo? De tanto que se fala sobre Zozo, se publica sobre Zozo, se grava vídeo falando sobre Zozo, os jogadores de tábua Ouija acabam ficando sugestionados, e através do "efeito ideomotor", acabam repetindo o mesmo comportamento anteriormente lido, ouvido ou assistido de alguma forma. Curiosamente, ainda é possível encontrar teorias na internet que Zozo seria a extensão de uma tulpa (criado pela pura disciplina mental) ou assim como aconteceu no "Experimento Philip" (onde parapsicólogos canadenses teriam inventado um "fantasma" e uma atividade paranormal teria acontecido).

Para finalizar assista também um dos vídeo mais populares sobre um "possível encontro com Zozo", publicado pelo canal OuijaWarning, no YouTube, em setembro de 2010 (lembrando, é claro, que popular não significa necessariamente realidade):



Enfim, acho que diante de toda essa pesquisa aprofundada que fizemos para vocês, ficou bem claro que, diante do que conhecemos sobre o fenômeno Zozo, ele não passa de uma farsa introduzida em algum momento da linha do tempo. Seria como se Zozo tivesse o mesmo peso ou relevância do Slender Man, que não passa de um personagem sobrenatural ficcional, ou seja, ele não existe. Tudo vai depender é claro da influência que tais histórias têm sobre você e a forma com que isso lhe afeta ou aos seus amigos(as) no cotidiano ou simplesmente ao jogar a tábua Ouija. De qualquer forma, mais uma vez repito, até hoje nada indica que Zozo seja um demônio, tão pouco que exista em qualquer mundo que você queira acreditar.

A Tábua Ouija é Recomendada Para Crianças e Pré-Adolescentes?


Apesar da tábua Ouija ser considerada por muitos como um brinquedo, isso não quer dizer, no entanto, que sua utilização por crianças ou pré-adolescentes seja recomendável. A questão não está relacionada se a tábua poderia gerar uma possessão demoníaca, ou se a mesma é permitida ou não por determinada religião, mas potencialmente por gerar um fenômeno chamado "histeria coletiva" (também conhecido como doença psicogênica de massa). Esse termo é basicamente utilizado para explicar casos, nos quais muitas pessoas começam a apresentar os mesmos sintomas ao mesmo tempo.

Um dos casos de histeria coletiva mais famosos da história seria dos julgamentos de Salém, em Massachussetts,
nos Estados Unidos, que ocorreram entre 1692 e 1693 (imagem meramente ilustrativa).
Geralmente, em casos de "histerias coletivas", as mulheres são mais susceptíveis de serem afetadas do que os homens. Muitas vezes começa simplesmente com uma única menina. As pessoas pertencentes ao grupo, geralmente fechado, assim como uma roda de amigas em um quarto, são mais afetadas se a primeira pessoa a desmaiar for alguém que elas conheçam bem, ainda mais se a menina possuir uma grande relevância ou elevada admiração pelo grupo. Além disso, as escolas são particularmente mais vulneráveis, justamente por conterem um alto número de estudantes, de uma mesma faixa etária, o que agrava a situação.

Geralmente, em casos de "histerias coletivas", as mulheres são mais susceptíveis de serem afetadas do que os homens.
Muitas vezes começa com uma única menina.
Vamos dar um exemplo bem simples. Quando alguém começa a gritar, uma outra pessoa que esteja em um estado semelhante de medo ou tensão, pode começar a gritar junto com ela. E antes que você perceba, um grupo inteiro ou uma sala de aula inteira começaria a gritar em segundos. A primeira pessoa a desencadear isso, normalmente é aquela que apresenta a reação de forma mais violenta.

Resumindo, após a demonstração dos sintomas por uma determinada pessoa, outras pessoas começam a manifestar sintomas semelhantes, geralmente náuseas, fraqueza muscular, convulsões ou dores de cabeça. Vale lembrar que os "ataques de gritos" também podem ser acompanhados de desmaios ou de pessoas se contorcendo no chão. Na visão de muitos, tal comportamento é interpretado como "possessão demoníaca", mas na verdade não é, e cada caso deve ser tratado individualmente e fora do ambiente que gerou essa histeria coletiva por psicólogos capacitados. Isso não se resolve com oração e trabalhos espirituais.

As pessoas pertencentes ao grupo, geralmente fechado, assim como uma roda de amigas em um quarto, são mais afetadas se o primeira a desmaiar seja alguém que elas conheçam bem, ainda mais se a menina possuir uma grande relevância ou elevada admiração pelo grupo (foto meramente ilustrativa)
Já publicamos notícias e matérias bem interessantes sobre casos de supostas "possessões demoníacas", "histeria coletiva", e até mesmo alguns casos supostamente relacionados a tábua Ouija. Entre essas postagens ressaltaríamos as seguintes notícias:
Evidentemente, estamos mostrando um lado muito mais amplo, e que você provavelmente não sabia sobre a tábua Ouija. Cada um acredita, é claro, no que quer e de acordo com sua eventual religião e suas convicções pessoais. Fica a seu critério acreditar ou não na suposta paranormalidade da tábua Ouija, mas nada indica que ela seja realmente um meio de comunicação espiritual, e sim tão somente um jogo. Aliás, esse é justamente o tema dos meus comentários finais.

Comentários Finais


Sinceramente? Espero que você tenha chegado a esse ponto, tão satisfeito quanto fiquei ao elaborar o especial sobre a história da tábua Ouija. Sei que alguns esperavam que houvesse algo mais misterioso e obscuro sobre a mesma, mas não tenho coragem de vir e aqui e apenas contar uma historinha de terror para vocês, no escuro, e segurando uma vela acesa na mão. Não sou esse tipo de pessoa, e nunca pretendo ser. Quando resolvo fazer um especial, vocês podem ter certeza que demorei um alguns dias ou algumas semanas para coletar todo o material, ler cada parágrafo, checar a veracidade de cada informação, para então traduzir e criar o melhor roteiro possível para vocês acompanharem até o final. São noites em claro, mas recompensadas pela certeza de um trabalho que será bem feito. Sei o quão importante é a leitura na vida de uma pessoa, sendo justamente por isso que ainda faço questão de escrever o máximo de informação possível e complementar sobre um determinado assunto, nem que seja tão somente uma notícia. O importante, como sempre digo, é que você saia muito bem informado e possa repassar esse conhecimento para outras pessoas. Apesar de estarmos em uma era predominantemente audiovisual, com o YouTube sendo uma das maiores ferramentas para os produtores de conteúdo, ler ainda é fundamental, porque é através da leitura que exploramos novas formas de comunicação, de contato com outras pessoas, e também de conquistar a confiança de cada um de vocês. Hoje em dia, não é mais possível acreditar somente no que é mencionado em documentários, em emissoras de TV, em jornais, revistas ou até mesmo em certos canais no YouTube, que muitas vezes contam mentiras, e tentam fingir que tudo é verdade.

Em relação a tábua Ouija, infelizmente não tenho como dizer que ela é uma ferramenta de contato espiritual, visto que ela nasceu diante de época que produziu uma quantidade absurda e incomensurável de fraudes. As irmãs Fox tiveram suas respectivas reputações completamente destruídas, mas suas ações acabaram dando esperança a almas desoladas, não de espíritos, mas dos vivos que buscavam consolo e entender o porquê tinham que enterrar filhos e sofrer diante da perda para doenças até então inexplicáveis. Assim como a arte de enganar as pessoas evoluiu, a ciência também evoluiu. Diante do questionamento público de médiuns, nada melhor do que tornar a comunicação espiritual, uma crença individual, ao criar algo simples e acessível para toda a população. Duas meras peças de madeira se tornaram capazes de proporcionar experiências incríveis diante de olhos, que não sabiam explicar o que viam. A sensação de bem-estar, de ter suas perguntas, medos e anseios respondidos deveria ser extremamente mágica naquela época. A sociedade estava evoluindo mais rápido do que a mente da maioria das pessoas podia absorver. Telefone, eletricidade, máquinas, carros, um mundo completamente novo de possibilidades jamais imaginadas. Por que não acreditar que também não era possível se comunicar com os mortos? Bastava aquelas duas meras peças de madeira, algo tão primitivo perante a modernidade que batia a porta de cada um, mas ao mesmo tempo tão fascinante. Duas peças de madeira que se friccionadas iluminavam o rosto daqueles que as manuseavam, geravam luz e, com ela, aparentemente um mundo de trevas simplesmente se tornava mais alentador. Nossos ancentrais devem ter pensando exatamente o mesmo quando descobriram algo bem mais mundano: o fogo.

Entretanto, aquilo que servia para explicar o que a maioria das religiões tentava negar, se tornou um imenso problema para aqueles, que mesmo acreditando na existência do espírito, dizia que somente existia dois caminhos a seguir, para cima ou para baixo, e ambos incomunicáveis. Com certeza era uma batalha diária para convencer as pessoas, que não havia formas possíveis de estabelecer esse contato, e que o mesmo deveria ser feito por intermédio e perante imagens religiosas de porcelana ou de barro, algo muito mais seguro e financeiramente mais rentável para aqueles que recomendavam. A reviravolta veio a partir de Hollywood, responsável pela criação de tantas outras farsas e fantasias, que expôs para o mundo inteiro uma história baseada em um livro, que por sua vez foi inspirada em uma história que até hoje é muito mal contada e pesquisada. É possível imaginar o caos ainda maior que isso deve ter gerado naquela época. Desde então, a mesma passou a ser alvo daqueles que estavam esperando o momento certo para agir e provar todo o suposto mal que ela causava, que a fricção de duas meras peças de madeira não era a luz do criador, mas o fogo do Inferno, que em algumas culturas é tão somente uma imensidão gelada. E assim, da noite para o dia, iluminada apenas pelos letreiros dos cinemas de rua, uma suposta tábua que promovia uma certa união entre as pessoas, que se transformou em brinquedo, e serviu de uma possível inspiração para livros e músicas, foi transformada em instrumento de forças ocultas. Não acredito no poder de comunicação espiritual da tábua Ouija, mas jamais impedirei que as pessoas continuem friccionando duas meras peças de madeira, uma vez que não tem nada pior do que ficar no escuro, e sem saber para onde ir.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
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http://retrobaltimore.tumblr.com/post/117205597029/remembering-baltimores-days-as-the-ouija-capital
http://skeptophilia.blogspot.com.br/2014/08/the-creation-of-zozo.html
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http://web.randi.org/swift/yes-no-goodbye-the-ouija-board-used-for-spirit-communication
http://williamfuld.com
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-234748/
http://www.ecreiche.com/
http://www.hasbro.com/common/instruct/Ouija_Board_(2001).pdf
http://www.imdb.com/title/tt4361050/releaseinfo?ref_=tt_ov_inf
http://www.lastgasps.com/page11.html
http://www.museumoftalkingboards.com/
http://www.paranormal360.co.uk/zozo-the-ouija-board-demon-the-real-deal-or-just-a-hoax/
http://www.sgipt.org/medppp/psymot/carp1852.htm
http://www.strangerdimensions.com/2014/08/19/zozo-ouija-board-phenomenon/
http://www.washingtonpost.com/wp-srv/style/longterm/movies/features/dcmovies/exorcism1949.htm
http://zozotheouijaspirit.blogspot.com.br/
https://shortoncontent.wordpress.com/2014/11/22/zozo

http://ehbritten.blogspot.com.br/2016/05/strangers-n-y-city-directory-charles.html
http://exploringupstate.com/hydesville-memorial-park-and-the-fox-sisters-newark-ny/
http://gotsc.org/HydesvilleMemorialPark.htm
http://mysteriousplanchette.blogspot.com
http://web.archive.org/web/20090103110845/http://www.mitchhorowitz.com/ouija.html
http://www.atlasobscura.com/places/the-fox-sisters
http://www.encyclopedia.com/science/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/seybert-commission
http://www.smithsonianmag.com/history/the-fox-sisters-and-the-rap-on-spiritualism-99663697/
https://en.wikipedia.org/wiki/Fox_sisters
https://en.wikipedia.org/wiki/Lily_Dale,_New_York
https://www.facebook.com/groups/foxmemorial/
https://www.nsac.org/
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