3 de fevereiro de 2017

O "Telefone do Vento": Uma Cabine Telefônica Especialmente Criada Para se Comunicar com os Mortos em Otsuchi, no Japão


Por Marco Faustino

Costumam dizer que a morte é uma poucas certezas que temos nessa vida. Todos nós iremos passar por essa experiência um dia ou talvez você já tenha passado por isso em razão da perda de algum ente querido. O luto é um processo natural para lidar com essa perda, e as pessoas exteriorizam essa dor das mais diversas formas possíveis. Em uma colina com vista para o oceano Pacífico, na cidade de Otsuchi, na região nordeste do Japão, existe uma espécie de cabine telefônica de cor branca, que conecta as pessoas aos entes queridos, principalmente aqueles que se foram em decorrência do tsunami, originado devido a um terremoto de magnitude 9,1 próximo à costa, que atingiu o litoral do Japão em 11 de março de 2011, e que acabou provocando um desastre nuclear na Central Nuclear de Fukushima. Embora nenhuma morte por exposição à radiação tenha sido relatada, cerca de 300 mil pessoas foram evacuadas na região, oficialmente 15.884 pessoas morreram devido ao terremoto e ao tsunami, e aproximadamente 1.600 mortes foram relacionadas às condições de evacuação, tal como, por exemplo, ao fazer com que as pessoas vivessem em habitações temporárias. Além disso, milhares de pessoas continuam desaparecidas até hoje, mesmo após quase seis anos de intensas buscas por parte, única e exclusivamente, dos seus familiares.

Naquele dia, em março de 2011, quando milhares de vidas foram ceifadas, quando muitas pessoas perderam famílias inteiras - um irmão, uma irmã, um pai, uma mãe ou até mesmo seus avós -, ocorreu uma espécie de peregrinação de muitos japoneses até a pequena cidade de Otsuchi, para visitar essa cabine telefônica, e tentar fazer com que suas vozes fossem escutadas do "outro lado". De forma sublime, o chamado "telefone do vento" nada mais é do que um telefone de disco desconectado, ou seja, ele não está conectado fisicamente a lugar algum, mas se tornou uma espécie de refúgio ou talvez um porto seguro para as pessoas que desejam conversar com aqueles que se foram ou que nunca mais foram encontrados. O desejo dessas pessoas é que suas palavras sejam carregadas pelo vento, que sopra insistemente nas colinas, e que o mesmo traga respostas para as perguntas, que nunca puderam ter sido respondidas em vida. Esse é um caso, que particularmente não conhecia, e fiz questão de trazê-lo ao conhecimento de vocês. O "telefone do vento" também foi tema de um livro ilustrado e de documentário no ano passado da Nippon Hōsō Kyōkai (NHK), que é rede pública de rádio e televisão aberta mais conhecida do Japão. É justamente sobre isso que vocês conferem a partir de agora. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Breve Resumo Sobre o Terremoto e o Tsunami que Ocorreram em 11 de Março de 2011 no Japão


Acredito fielmente que a tragédia que se abateu sobre os japoneses dispensa quaisquer tipos de comentários. Porém, penso que seria válido mencionar algumas informações sobre aquele fatídico dia, que mudaria a vida de centenas de milhares de famílias, principalmente para aqueles que não se lembram do episódio. O terremoto ocorreu no dia 11 de março de 2011, uma sexta-feira, as 14h46 (horário local). O tremor durou cerca de seis minutos. O epicentro do terremoto ocorreu a 72 quilômetros a leste de Tohoku, a uma profundidade de 32 km abaixo da superfície.

O terremoto ocorreu no dia 11 de março de 2011, uma sexta-feira, as 14h46 (horário local). O tremor durou cerca de seis minutos. O epicentro do terremoto ocorreu a 72 quilômetros a leste de Tohoku, a uma profundidade de 32 km abaixo da superfície
Os cientistas japoneses já tinham previsto, que um terremoto pequeno atingiria a região norte de Honshu, a principal ilha do país, porém não imaginavam que ocorreria um terremoto em Tohoku, tal como aconteceu, embora houvesse alguns indícios de que poderia realmente ocorrer. Ainda assim, mesmo com essa a falha na previsão, o sistema de alerta foi considerado eficaz. Um minuto antes do forte tremor atingir Tóquio, os moradores receberam um aviso de alerta em seus celulares. Devido a esse aviso, os trens de alta velocidade pararam e as linhas de montagem das fábricas interromperam seus serviços. Esse alerta, mesmo de apenas um único minuto, fez com que as pessoas corressem para abrigos seguros, impedindo um número ainda maior de mortes.

A velocidade da maior onda chegou a 700 km/h, quase a velocidade de um avião comercial. Próximo da costa japonesa, a velocidade diminuiu, mas em compensação a altura aumentou, chegando a quase 40 metros de altura em alguns locais. Ao retrocederem, as águas transportaram milhões de toneladas de detritos para o mar. Muitos deles vagaram por mais de dois anos pelo Oceano Pacifíco, chegando até as praias de outros continentes.

A velocidade da maior onda chegou a 700 km/h, quase a velocidade de um avião comercial. Próximo da costa japonesa, a velocidade diminuiu, mas em compensação a altura aumentou, chegando a 40 metros de altura em alguns locais
Ao retrocederem, as águas transportaram milhões de toneladas de detritos para o mar. Muitos deles vagaram por mais de dois anos pelo Oceano Pacifíco, chegando até as praias de outros continentes
A Agência Meteorológica do Japão (JMA) foi criticada por ter subestimado o tamanho que as ondas do tsunami poderiam atingir. O alerta fez com que muitas pessoas ficassem despreocupadas, julgando ser um tsunami de pequenas proporções, ou seja, o número de mortes poderia ter sido menor, se o alerta tivesse descrito a real proporção do evento.

Confiram uma das mais populares filmagens em relação a esse dia, sobre a força das águas no porto de Miyako, na prefeitura de Iwate, em um canal de terceiros no YouTube (vale lembrar que um estudo de campo subsequente do Instituto de Pesquisa de Terremotos da Universidade de Tóquio revelou que as águas tinham atingido pelo menos 37,9 metros acima do nível do mar em Miyako):



A pior parte, se é que podemos dizer isso, é que o tsunami acabou gerando uma falha no sistema de refrigeração da Usina Nuclear de Fukushima Daiichi , ue resultou em um colapso nuclear de categoria 7, um nível comparável apenas a Chernobyl. O acidente nuclear afetou a pesca, a agricultura e a pecuária local, e cerca de 70 mil pessoas que moravam nas proximidades da Central Nuclear de Fukushima foram obrigadas a deixar suas casas e ir para abrigos temporários, como forma de evitar riscos de contaminação radioativa. Milhares ainda permanecem nessas habitações temporárias.

Devido a súbita evacuação da população, muitas cidades em Fukushima foram abandonadas, transformando-se em verdadeiras "cidades fantasmas" (leia mais: As Impressionantes Fotos da Região de Fukushima Quase 5 Anos Após o Desastre Nuclear).

A pior parte, se é que podemos dizer isso, é que o tsunami acabou gerando uma falha no sistema de refrigeração da Usina Nuclear de Fukushima Daiichi, que resultou em um colapso nuclear de categoria 7, um nível comparável apenas a Chernobyl
Devido a súbita evacuação da população, muitas cidades em Fukushima foram abandonadas,
transformando-se em verdadeiras "cidades fantasmas"
A seguir, vocês conferem uma série de fotos mostrando os comparativos entre algumas localidades, que foram arrasadas no ano de 2011, e o estado em que as mesmas se encontravam mediante fotografias áereas tiradas no ano passado:

Cidade Higashimatsushima, em Miyagi, em 2011 (à esquerda) e 2016 (à direita)
Cidade de Kesennuma, em Miyagi, em 2011 (à esquerda) e 2016 (à direita)
Cidade de Natori, em Miyagi, em 2011 (imagem superior) e 2016 (imagem inferior)
Cidade de Rikuzentakata, em Iwate, em 2011 (à esquerda) e 2016 (à direita)
Cidade de Naraha, em Fukushima, em 2011 (imagem superior) e 2016 (imagem inferior)
Como vocês podem notar, cidades inteiras sumiram do mapa e existe um grande esforço para reconstruí-las, algo que, na maioria dos casos, levará algumas décadas, apesar de toda resiliência do povo japonês.

Um Pouco Sobre a Cidade de Otsuchi


Otsuchi é uma cidade japonesa localizada na província de Iwate, que em 2003 tinha uma população estimada em 16.727 habitantes. Em 11 março de 2011, a cidade foi abalada por um terremoto e devastada pelo tsunami, que se seguiu. A muralha contra tsunamis com cerca de 6 metros de altura, construída justamente para resguardar o porto, claramente não foi suficiente para deter o avanço das águas.

Imagens do Google Maps mostrando a localização da cidade de Otsuchi em relação a Tóquio, capital do Japão
A proximidade do epicentro do terremoto, que ocorreu no nordeste da ilha de Honshu, não proporcionou tempo suficiente para muitos habitantes das partes mais baixas buscarem refúgio nas áreas mais altas e, apesar da sinalização de alerta e dos esforços de resgate, muitas vidas acabaram sendo perdidas. Confira também um vídeo mostrando uma parte da cidade de Otsuchi sendo completamente destruída pela força das águas, em um canal de terceiros, no YouTube:



Em 31 de agosto de 2011, cerca de 799 moradores da cidade foram oficialmente declarados como mortos, sendo que 608 ainda estavam desaparecidos (esse número atualmente é de pouco mais de 400 pessoas). Naquela época, a soma desses números resultava em cerca de 10% da população, muito embora a devastação tenha sido tão grande, que cogitou-se inicialmente que metade da habitantes tivessem morrido.

Um "ferryboat" ancorado na costa da cidade Otsuchi acabou parando em cima do telhado de um prédio de dois andares há centenas de metros de costa. Isso mostra não somente a força das águas, mas a altura que a mesma chegou naquele local
Uma das inúmeras fotografias tiradas que mostravam o resultado do tsunami na cidade de Otsuchi, no Japão
Entre os mortos estava o prefeito da cidade, Koki Kato, que tinha sido levado pelas águas durante uma reunião de emergência, que estava sendo realizada na parte externa do edifício do governo local. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte a tragédia.

Em fevereiro de 2014, quase três anos após o tsunami, estimava-se que a cidade possuía pouco menos de 12.000 habitantes. Naturalmente, muitas pessoas perderam tudo o que tinham, e decidiram recomeçar em outro lugar. De qualquer forma, Otsuchi foi apenas uma das inúmeras cidades que foram devastadas.

Foto de portal de um santuário xintoísta nos arredores de Otsuchi logo após o tsunami (imagem superior), e esse mesmo local cerca de apenas 3 meses depois (imagem inferior). Apesar da aparente eficiência, esse é um processo que vem sendo realizado até hoje.
O desastre teve tanto impacto sobre Otsuchi (na foto) e nas demais cidades da costa nordeste do Japão, que é difícil encontrar fotos de como as cidades realmente eram antes do desastre. Talvez essa seja uma razão para a prefeitura de Otsuchi disponibilizar painéis em diversos pontos para mostrar o processo de reconstrução da cidade.
Vale lembrar que após quase seis anos do desastre, que arrasou diversas cidades ao longo da costa nordeste do Japão, as mesmas ainda estão trabalhando para reconstruir, substituindo lentamente as estruturas temporárias por outras mais robustas, e com alicerces mais sólidos.

A Cabine Telefônica Especialmente Criada Para se Comunicar com os Mortos


Conforme dissemos no começo dessa postagem, na cidade de Otsuchi, na região nordeste do Japão, existe uma espécie de cabine telefônica de cor branca, com vista para o oceano Pacífico, que conecta as pessoas aos entes queridos, principalmente aqueles se foram em decorrência do tsunami. Essa cabine pertence a um morador local chamado Itaru Sasaki, 70 anos, um jardineiro aposentado, que tinha colocado essa cabine em seu jardim no ano anterior ao tsunami, como uma forma de refletir e meditar sobre a morte do seu primo.

Conforme dissemos no começo dessa postagem, na cidade de Otsuchi, na região nordeste do Japão, existe uma espécie de cabine telefônica de cor branca, com vista para o oceano Pacífico, que conecta as pessoas aos entes queridos, principalmente aqueles se foram em decorrência do tsunami
Essa cabine pertence a um morador local chamado Itaru Sasaki (na foto), que tinha colocado essa cabine em seu jardim no ano anterior ao tsunami, como uma forma de refletir e meditar sobre a morte do seu primo
Contudo, após o rastro de destruição deixado pelo tsunami, a notícia sobre o telefone espalhou-se gradualmente, e pessoas de diversas partes do Japão, afetadas pelo tsunami, começaram a visitar o local. Acredita-se que cerca de 10.000 pessoas passaram pela cabine telefônica entre 2011 e 2014.

Contudo, após o rastro de destruição deixado pelo tsunami, a notícia sobre o telefone espalhou-se gradualmente, e pessoas de diversas partes do Japão, afetadas pelo tsunami, começaram a visitar o local
Acredita-se que cerca de 10.000 pessoas passaram pela cabine telefônica entre 2011 e 2014
Por mais que isso possa parecer estranho para algumas pessoas, aqueles que visitam a cabine telefônica compreendem que a mesma abriga tão somente um antigo telefone com um fio desconectado. Contudo, esse entendimento da realidade não os impedem de conversarem com os entes queridos, contar-lhes sobre o que está acontecendo em suas vidas, como eles estão de saúde, como eles estão se sentindo, como estão fazendo para lidar com a falta deles, e sempre mantendo a esperança que irão se encontrar algum dia.

Embora seja uma conversa unidirecional muito subjetiva e particular, a esperança sempre está presente, e suas mensagens, ainda que trafeguem por um caminho que não conhecemos, de alguma forma chegam aos seus entes queridos.

Embora seja uma conversa unidirecional muito subjetiva e particular, a esperança sempre está presente, e suas mensagens, ainda que trafeguem por um caminho que não conhecemos, de alguma forma chegam aos seus entes queridos
No entanto, o grande problema em desejar manter um vínculo com um ente querido, não é algo apenas profundamente compreensível, mas uma proposição complicada.

"Devido ao fato que meus pensamentos não podiam ser transmitidos através de de uma linha telefônica regular, quis que eles fossem carregados pelo vento", disse Itaru Sasaki, durante um documentário exibido em março do ano passado pela NHK.

Por mais que isso possa parecer estranho para algumas pessoas, aqueles que visitam a cabine telefônica compreendem
que a mesma abriga tão somente um antigo telefone com um fio desconectado
Ao entrarem na cabine telefônica, as pessoas contam sobre o que está acontecendo em suas vidas, como eles estão de saúde, como eles estão se sentindo, como estão fazendo para lidar com a falta dos entes queridos, e sempre mantendo a esperança que irão se encontrar algum dia
Em novembro do ano passado, o fotógrafo britânico Alexander McBride Wilson ouviu falar das histórias dessas pessoas, que até hoje frequentam essa cabine telefônica, e viajou até Otsuchi para fotografar o chamado "kaze no denwa" ou "telefone do vento", assim como as pessoas que o utilizam. Segundo Itaru Sasaki, a cabine não está relacionada a nenhum tipo de religião, mas Alexander chegou a dizer que tinha uma sensação de santuário em relação ao local, visto que as pessoas se pareciam mais com peregrinos.

Enquanto Alexander ajudava Itaru Sasaki a limpar uma estufa, que já havia servido de refúgio em tempos difícies, ambos falaram com a ajuda de tradutores sobre o sofrimento, a frustração e a culpa dos sobreviventes. A cabine telefônica convidava, por assim dizer, as pessoas a trabalharem seus sentimentos mais dolorosos em um espaço considerado seguro e confortável. A compreensível tristeza que se pode sentir é, por um único momento, confinada a um espaço específico e a paisagem ao redor. É uma maneira bem particular de lutar diante de uma tragédia que remodelou toda uma comunidade.

Itaru Sasaki limpando sua estufa que ele acabou abrindo aos seus vizinhos nos dias que se seguiram ao tsunami, quando o acesso rodoviário, a água potável e a eletricidade tinham sido cortados devido as inundações e aos destroços
O fotógrafo Alexander McBride Wilson também contou mais detalhes sobre sua experiência, em uma entrevista para o site Hasselblad. De acordo com Alexander, seu projeto fotográfico girava basicamente em torno de Itaru Sasaki, que tinha perdido seu primo em 2010, devido ao câncer.

Itaru Sasaki estava tentando procurar uma maneira que ele pudesse manter algum tipo de vínculo com seu primo após sua morte e, de uma maneira não muito convencional, ele decidiu construir uma cabine telefônica em seu jardim, onde ele colocou um telefone desconectado, no qual ele usaria para conversar com seu primo. Itaru acreditava que suas palavras seriam levadas até seu primo ao serem carregadas pelo vento, que sopra do litoral. Daí o nome "kaze no denwa" ou "telefone do vento".

O fotógrafo Alexander McBride Wilson também contou mais detalhes sobre sua experiência em uma entrevista para o site Hasselblad. De acordo com Alexander, seu projeto fotográfico girava basicamente em torno de Itaru Sasaki, que tinha perdido seu primo em 2010, devido ao câncer
Como sabemos, a cidade de Otsuchi foi severamente atingida pelo tsunami de 2011. Nas semanas seguintes ao desastre, a notícia sobre uma cabine telefônica, que podia fazer com que as pessoas se reconectassem com os parentes, os mesmos que foram mortos na tragédia, se espalhou gradualmente. Embora os moradores locais estivessem fazendo um ótimo progresso na reconstrução da cidade em si, eles negligenciaram os danos emocionais que tudo aquilo havia causado neles mesmos. Assim sendo, aquela simples cabine telefônica se tornou um meio silencioso e particular de superar a perda dos entes queridos.

O Documentário da NHK Chamado "The Phone of the Wind: Whispers to Lost Families"


Nessa parte final da postagem, gostaria de destacar o primoroso documentário de pouco mais de 48 minutos, que foi divulgado em março do ano passado pela NHK, em memória aos cinco anos da tragédia que mudou a vida não somente dos japoneses, mas de pessoas em diversas localidades do mundo.

A maior parte consiste na gravação de diálogos (com legendas em inglês) e na filmagem à distância das pessoas no interior da cabine telefônica, com a devida permissão das mesmas e do Itaru Sasaki, é claro. Confira esse documentário chamado "The Phone of the Wind: Whispers to Lost Families" ("O Telefone do Vento: Sussurros aos Famíliares Perdidos", em português), em um canal de terceiros, no YouTube:



Sinceramente, ao assistir o documentário fiquei bem emocionado, e gostaria de compartilhar algumas situações que me chamaram muita atenção no mesmo, a começar dos primeiros segundos quando surge uma frase na tela dizendo: "Se você estiver por aí, por favor, me escute..."

Imagem área feita por drone para mostrar a localização da cabine telefônica na cidade de Otsuchi, no Japão
Então, com apenas 50 segundos de vídeo nos deparamos com um senhor usando o telefone dizendo: "Olá querida Mine e Issei, gostaria de ouvir vocês dizerem 'Papai' apenas uma única vez. Sinto falta de suas vozes". Pouco tempo depois, vemos uma senhora abrir cuidadosamente a porta da cabine telefônica. A senhora olhou para o horizonte, mas não conseguia falar absolutamente nada. Diante da câmera ela disse que tentou, mas as palavras não tinham sido o suficiente para expressar seu sofrimento.

A senhora olhou para o horizonte, mas não conseguia falar absolutamente nada. Diante da câmera ela disse que tentou, mas as palavras não tinham sido o suficiente para expressar seu sofrimento
Sem distinção de gênero, a cabine telefônica atraía tanto homens quanto mulheres. Então, por volta dos 13 minutos de vídeo, vemos um senhor caminhar lentamente em direção a cabine, abrir sua porta, mantendo-a aberta, e discando um determinado número. Inicialmente, esse senhor questiona a si mesmo perguntando se iria conseguir, então ele diz: "Olá... Noboyuki... Querido, você também está por aí? Cuide da sua mãe e dos seus avós. Querido... Eu voltarei. Querido, eu voltarei. Adeus".

Posteriormente, esse senhor explicou que perdeu seu filho mais velho naquele fatídico dia de 2011. Ele também mostrou uma foto dele com sua esposa, que faleceu quatro anós após a morte do filho.

"Demorei três anos antes de parar de pensar constantemente em relação ao meu filho. E justamente quando a vida estava voltando ao normal, perdi minha esposa", disse o homem, que fez uma pausa e completou: "Preciso dizer mais alguma coisa?"

Posteriormente, esse senhor explicou que perdeu seu filho mais velho naquele fatídico dia de 2011.
Ele também mostrou uma foto dele com sua esposa, que faleceu quatro anós após a morte do filho.
Pouco tempo depois, por volta de 15 minutos de vídeo, vemos um outro homem entrando na cabine, novamente discando um número no telefone. Dessa vez, bem mais rapidamente, ouvimos ele dizer: "Olá? Amor? Onde você está? Espero que não tenha pegado um resfriado. A vovó e a Miyuki estão com você? Volte correndo para casa. Estamos todos esperando, tá bom?"

"Nos mostre onde você está. Construirei uma casa nesse mesmo lugar. Se alimente direito. Rezo para que esteja viva em algum lugar. Sinto sua falta...", completou.

"Nos mostre onde você está. Construirei uma casa nesse mesmo lugar. Se alimente direito.
Rezo para que esteja viva em algum lugar. Sinto sua falta...
", disse um outro senhor.
Logo em seguida, em 16:32 ouvimos novamente o som de discagem. É um outro jovem que foi até a cabine para dizer: "Pai... Mãe... Meu amor, Mine... Issei... Já se passaram cinco anos desde o desastre. Se vocês puderem me ouvir, por favor me escutem. Às vezes não sei a razão de estar vivendo. Issei, por favor... Deixe-me ouvir sua voz dizendo 'Papai' novamente. Construí uma casa nova, mas... sem vocês, pai, mãe, Mine e Issei, não tem sentido. Queria ouvir suas vozes, mas não consigo." Ele desliga, leva as mãos ao rosto e simplesmente diz: "Me desculpem. Não consegui salvá-los".

Diante da câmeras esse senhor disse que a situação era muito difícil, mas se ele usasse essa dor como uma desculpa para tentar esquecê-los, quem se lembraria de sua família? Quem se lembraria que eles um dia moraram em Otsuchi? Essa era justamente uma das pessoas que apareceram na introdução do documentário.

Ao desligar, um outro senhor leva as mãos ao rosto
e simplesmente disse: "Me desculpem. Não consegui salvá-los"
Em seguida, conhecemos a história de Ren Kozaki, um jovem de 15 anos, morador da cidade de Hachinoche, que fica localizada a 190 km ao norte de Otsuchi, e viajou cerca de quatro horas, em busca do "telefone do vento". Ele explicou que seu pai, Kazuhiko Kozaki, era caminhoneiro e dirigia por todo o Japão, mas naquele dia seu caminhão foi atingido em Ofunato, uma cidade a 47 km ao sul de Otsuchi. Seu pai nunca mais foi encontrado desde então.

Sua cidade não tinha sido tão afetada pelo tsunami, então ao se deparar com o processo de reconstrução da cidade, ele chegou a ficar espantado, visto que não estava acostumado a ver tal cenário. Então, pouco tempo depois, podemos ouvir suas palavras: "Pai... Todos nós estamos fazendo o melhor que podemos. Então, não se preocupe. E quanto a você? Tem uma coisa que eu gostaria de perguntar a você. Por que você teve que morrer? Por quê? Por que eu? Não consigo lidar com isso. Por que justamente eu? Por que isso teve que acontecer comigo?"

Em seguida, conhecemos a história de Ren Kozaki, um jovem de 15 anos, morador da cidade de Hachinoche, que fica localizada a 190 km ao norte de Otsuchi, e viajou cerca de quatro horas, em busca do "telefone do vento"
"Na escola, quando o assunto é sobre a família, todos tentam ser gentis ao não mencionarem sobre os pais. Eles se importam com os meus sentimentos. Por que nunca consigo encontrá-lo? Onde você está? Não consigo encontrar nada. Mamãe está fazendo o melhor que pode. Ela é que a mais está sofrendo sem tê-lo por perto. Queria falar com você... uma última vez", completou.

A NHK também acompanhou a viagem de volta de Ren Kozaki até sua cidade, Hachinoche, na prefeitura de Aomori. Assim sendo, conhecemos a mãe do jovem, que ao chegar em casa explicou o que era o "telefone do vento" para ela, e que por sua vez se mostrou muito feliz com a experiência que o filho teve. Além de ambos, havia o irmão mas novo Riku, com 12 anos e uma irmã chamada Rin, de 14 anos.

A NHK também acompanhou a viagem de volta de Ren Kozaki até sua cidade, Hachinoche, na prefeitura de Aomori
A mãe disse que sempre ao sair de casa, Ren dá um abraço nela. Então, ele explicou que não sabia quando seria a hora dela, e que não podia deixar que ela morresse. Eles não saberiam viver sem ela, e tão pouco ele tem dinheiro suficiente para sustentar a si próprio. A verdade, segundo a mãe, e que Ren o amava.

Em seguida, vemos o constraste entre Ren e sua irmã Rin, visto que a mesma não conseguia expressar seus sentimentos ou palavras pelo pai que havia falecido, mesmo tendo passado cinco anos após a sua morte. Era possível observar ela sentada, quase sempre de cabeça baixa, sem saber o que dizer diante da câmera.

Era possível observar Rin Kozaki sentada, quase sempre de cabeça baixa,
sem saber o que dizer diante da câmera
Somente na parte final do documentário é mostrado que a família inteira resolveu ir até o "telefone do vento" para expressar suas palavras e seus sentimentos. Aquela era a primeira vez em cinco anos, que todos eles tinham se reunido para falar abertamente sobre a morte de Kazuhiko Kozaki.

Sinceramente, eu gostaria muito de traduzir todo o restante do documentário, e o trecho em que os familiares falam ao telefone, mas meu psicológico ficou literalmente destruído ao ouvir a voz da menina, a Rin Kozaki que, chorando compulsivamente, proferiu palavras em uma mistura de raiva, dor e amor pelo pai. E ao final, quando sua mãe a perguntou se sentia melhor, ela disse que sim, abrindo, ainda que rapidamente, um sorriso tão sincero, que conseguiu iluminar meu dia.

E ao final, quando sua mãe a perguntou se sentia melhor, ela disse que sim, abrindo, ainda que rapidamente,
um sorriso tão sincero, que conseguiu iluminar meu dia
O documentário termina de uma forma muito singela ao mostrar imagens da reconstrução da cidade, as habitações temporárias, assim como um garotinho de bochechas rosadas devido ao frio, que talvez tenha uns três ou quatro anos de idade, mas que feliz diante da câmera se despede dando um "tchau".

O documentário termina de uma forma muito singela ao mostrar imagens de um garotinho de bochechas rosadas devido ao frio, que talvez tenha uns quatro anos de idade, mas que feliz diante da câmera se despede dando um "tchau"
A última cena é praticamente como começou o documentário, visto que novamente ouvimos uma voz de uma das pessoas que visitaram a cabine telefônica, dizendo que voltaria a ligar, em breve.

Comentários Finais


Diante de tantos objetos, bugigangas e toda essa parafernália moderna, que se transformou a tentativa de se comunicar com os mortos e das inúmeras pessoas, que se autointitulam das mais diversas formas, para praticar uma verdadeira extorsão contra vítimas inocentes e desoladas, aquela simples cabine telefônica em Otsuchi é um verdadeiro tapa na cara daqueles que cobram fortunas em troca de absolutamente nada e meras palavras vazias. Mesmo diante de sua dor, Itaru Sasaki ergueu um poderoso instrumento que transcende qualquer tipo de racionalidade, mostrando que nunca haverá uma substituição completa de crenças, rituais ou qualquer processo, ainda que seja irracional, entre os seres humanos. É impossível ignorar o poder que uma simples linha telefônica desconectada está fornecendo as pessoas, que ainda sofrem terrivelmente, e como ela consegue ajudá-las a processar seus sofrimentos diante de um cenário completamente não-convencional e irracional que representa. Não há ninguém explorando ninguém em Otsuchi. Não há nenhuma autoridade religiosa, não há nenhum suposto médium, clarividente, nada. Existe apenas um bondoso jardineiro e sua crença que nossos entes queridos estão em algum lugar, que talvez estejam esperando pelo nosso contato, e que vale a pena interagir com eles. Como seria possível concordar com alguém, que não acreditasse em nada, e que o nosso mundo seria melhor sem pessoas como Itaru Sasaki e sua cabine telefônica branca? É impossível dizer isso após assistir esse documentário.

Estamos tão acostumados a ver a resiliência japonesa, ou seja, a capacidade que eles possuem em lidar com os problemas, de superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas, sem entrar em surto psicológico, abrindo caminho para enfrentar e superar adversidades, que nos esquecemos que eles são simplesmente humanos. Eles sentem dor, sentem saudades, e sentem culpa. Eles também sangram. Não importa o que você veja em sites de notícias ou na TV, não importa que após dois ou três meses muitas regiões aparentassem limpas e organizadas. A cicatriz deixada, principalmente pelo tsunami, é muito maior do que qualquer um de nós imaginávamos. Estou acostumado a traduzir textos há anos, e confesso que foi muito difícil traduzir frases tão simples, mas que estavam carregadas de tanta dor, que me fizeram parar e respirar fundo inúmeras vezes. Faz tempo que não tinha um assunto tão emocionante e verdadeiro como esse. Mesmo não entrando fisicamente dentro daquela cabine, a sensação era de estar junto com cada uma daqueles pessoas, ouvindo lentamente a música de fundo, o silêncio, as pausas de suas respirações, e a umidade de suas lágrimas , que perfaziam um cenário único a cada linha. Sinto-me um privilegiado em poder conhecer um pouco da história dessas pessoas, e espero sinceramente que eu tenha conseguido, ainda que parcialmente, transmitir um pouco desse sentimento para vocês.

Além disso, fico pensando o que eu falaria ao entrar naquela cabine. Acho que não saberia o que dizer. Provavelmente, ficaria sentado naquele banco ao lado, tomando coragem para falar alguma coisa, ou simplesmente olhando a belíssima paisagem que o local oferece. De qualquer forma, a cabine consegue quebrar barreiras, distâncias, conceitos, pensamentos, e mesmo que as vozes dessas pessoas não cheguem até o "outro lado", com certeza elas continuarão sendo carregadas pelo vento, e quem sabe alguém as escutem e possam levá-las ao seu destino final. É esse mesmo vento que secará suas lágrimas ao saírem, o mesmo vento que sopra do oceano, que um dia levou seus familiares, e os abrigou em algum lugar da imensidão das águas. No fim, tudo acaba se tornando um ciclo de reconstrução, não somente dos prédios e casas, mas de vidas que são renovadas, juntamente com a esperança de dias melhores. Talvez esse seja o grande ensinamento do "telefone do vento". Não importa quem escute ou se haverá resposta um dia, o que importa é que você não deixe de falar.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://gardencollage.com/beauty-wellness/mindful-living/living-grief-japans-beautiful-wind-telephone-offers-solace/
http://pf.nhk-ep.co.jp/detail/2031
http://shoganai.com/tohoku-3/
http://themapisnottheroad.com/2016/11/23/the-wind-telephone/
http://www.businessinsider.com/photos-show-damage-of-japans-2011-disaster-2016-3/#on-march-11-2011-the-earthquake-started-at-246-pm-local-time-the-city-of-kesennuma-was-completely-wrecked-by-the-resulting-tsunami--bringing-many-large-fishing-boats-ashore-1
http://www.citylab.com/navigator/2017/01/otsuchi-wind-phone-japanese-mourners/512681/
http://www.gaijin-gunpla.com/2016/03/five-years-have-passed/
http://www.japanbullet.com/news/phone-booth-in-garden-helps-bereaved-talk-to-victims-of-2011-disasters
http://www.japantimes.co.jp/culture/2016/03/04/tv/phone-booth-contacting-dead-renewal-tsunami-cm-week-brother/#.WJMat0BvB0o
http://www.japaoemfoco.com/fatos-sobre-o-tsunami-e-terremoto-de-2011/
http://www.patheos.com/blogs/cognitivedemons/2016/09/the-value-in-telphoning-the-dead/
http://www.travelandleisure.com/attractions/japanese-phone-booth-for-calling-dead-relatives
https://hinouye.wordpress.com/2015/07/26/kaze-no-denwa/
https://steemit.com/life/@ladypenelope1/the-phone-of-the-wind-the-lonely-phone-on-a-hill-top-in-japan-to-call-your-loved-ones
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