12 de janeiro de 2017

A "Maldição da Cidade Perdida do Deus Macaco"? Surge um "Novo" Capítulo da Saga Relacionada a Lendária Cidade Branca, em Honduras!


Por Marco Faustino

Imagino que vocês devem ter notado que o título dessa postagem é bem semelhante a algo que vocês conhecem, não é mesmo? Talvez seja porque vocês estejam ansiosos pela exibição da terceira temporada da série "A Maldição de Oak Island" do History Channel. Para vocês terem uma ideia atualmente a série está sendo exibida em sua quarta temporada nos Estados Unidos e no Canadá, e aparentemente vem sofrendo menos polêmicas do que o aparente fiasco que aconteceu no ano passado. Na época, o objeto que mais chamou a atenção e movimentou as redes sociais norte-americanas foi uma estranha e suposta e antiga "espada romana", que teria sido encontrada em Oak Island. O problema é que toda aquela história tinha o envolvimento de um homem chamado J. Hutton Pulitzer, conhecido pela sua péssima reputação, não somente empresarial, mas em termos de pseudoarqueologia. Vale lembrar que ele e sua equipe sempre disseram que a "espada romana encontrada em Oak Island" era um "artefato romano 100% confirmado", e que correspondia a uma autêntica espada romana, que estaria em um museu italiano. Porém, eles não tinham apresentado quaisquer provas sobre isso. Não havia nenhuma imagem, não havia nenhuma espécie de registro em catálogo, e nenhuma referência. Absolutamente nada que indicasse que a tal "espada romana" descrita por eles realmente existia. Assim sendo, passei o fim de dezembro de 2015 e o mês de janeiro de 2016 inteiro traduzindo e colaborando com o objetivo de desvendar o caso que foi apelidado de "Swordgate" pelo arqueólogo e antropólogo Andy White, do Instituto de Arqueologia e Antropologia da Carolina do Sul, nos Estados Unidos. Finalmente, após um longo e exaustivo trabalho, conseguimos mostrar a vocês que a espada não pertencia a Roma Antiga, e que tudo não passava de uma farsa propagada pelo Pulitzer. Vocês podem conferir as três postagens relacionadas a essa saga através dos links abaixo:
Outro assunto que praticamente todo começo de ano aparece na mídia é sobre a suposta e lendária cidade perdida conhecida como "La Ciudad Blanca" ("A Cidade Branca", em português) ou "La Ciudad del Dios Mono" ("A Cidade do Deus Macaco"), que poderia estar localizada na região de La Mosquitia, em Honduras. Em 2015, muitos sites divulgaram baseando-se apenas em uma matéria publicada no site da National Geographic, que havia sido descoberta essa lendária cidade, que por sua vez estaria encoberta por uma densa floresta dessa região que acabamos de mencionar. O maior problema é que na verdade não havia absolutamente nada provando a existência dessa suposta cidade perdida em questão, ou seja, até hoje ela nunca foi realmente encontrada. O que se tem atualmente são apenas especulações.

O maior problema é que na verdade não havia absolutamente nada provando a existência dessa suposta cidade perdida em questão, ou seja, até hoje ela nunca foi realmente encontrada. O que se tem atualmente são apenas especulações
No passado, o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, já havia anunciado que uma "equipe de arqueólogos e cientistas" se encontravam em La Mosquitia, no departamento de "Gracias a Dios", preparando o que seria a escavação dos primeiros artefatos da "Cidade do Deus Macaco". Esse anúncio foi feito durante um discurso que visava a assinatura de um convênio com universidades particulares para a apoiar o Programa Nacional de Alfabetização chamado de "Honduras Aprende", na Casa Presidencial (sede do governo hondurenho). O presidente deixou claro que ele estava" abraçando" o mito de um sentimento de orgulho nacional e com grande potencial de retorno financeiro, ou seja, havia um interesse praticamente predatório para desenvolver um turismo em cima de uma crença, sem dados concretos da existência dessa cidade perdida. Lembro de ter realizado uma postagem bem completa sobre esse assunto para vocês, mostrando o que havia de verdade, especulação ou mentiras sobre a "La Ciudad Blanca" (leia mais: A Polêmica "Cidade do Deus Macaco": Desde sua Suposta Existência até a Recente Exploração Arqueológica).

Agora, a divulgação de um livro e um documentário, que por sua vez poderá se chamar a "A Maldição da Cidade Perdida do Deus Macaco" novamente expõe toda a frágil crença na existência de uma possível cidade lendária em Honduras. Estão se perguntando qual seria a razão para uma eventual maldição sobre ela? Bem, de acordo com os principais envolvidos nessa nova expedição, cerca de metade da equipe ao deixar a floresta acabou sendo diagnosticada com leishmaniose, que segundo a reportagem seria transmitida pelas chamadas "moscas de areia", e causaria uma série de problemas nos seres humanos, tais como: vômitos, cólicas e efeitos neurológicos. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Entenda a Origem dessa História Sobre a Suposta "Maldição" da Cidade Perdida do Deus Macaco


Toda essa polêmica em torno do "Cidade Perdida do Deus Macaco" voltou a ser destaque na mídia internacional após uma reportagem do programa "Sunday Morning", de um canal de TV norte-americano chamado "CBS News", no domingo passado (8).  Assim sendo, para tentar entender melhor essa história, vamos conhecer, é claro, o conteúdo dessa reportagem, que foi publicado no canal do programa, no YouTube, naquele mesmo dia (em inglês, mas fiquem calmos, vou transcrevê-la para vocês):



Confira agora a transcrição aproximada e adaptada dessa reportagem acima:

Se você perguntar ao autor de best-seller Doug Preston, ele vai dizer que não acredita em maldições. E, no entanto, aqui está ele, sendo tratado por uma doença que ele contraiu durante uma expedição na selva, até um sítio onde há séculos existem rumores, que infortúnios recaem sobre aqueles que tentam entrar.

"Jamais trocaria essa experiência por nada. Isso foi bem intenso", disse Doug.

Seu conto começa nas florestas tropicais de Mosquitia, que cobra cerca de 52.000 km² do território de Honduras e da Nicarágua.

"A lenda é que havia uma grande cidade nas montanhas, que foi atingida por uma série de catástrofes, e os habitantes pensaram que os deuses estavam zangados com eles, e eles acabaram deixando todos os seus pertences para trás", continuou.

Em algum lugar no vale do T1 (na foto), na floresta hondurenha de Mosquitia, acredita-se que esteja a cidade perdida do Deus Macaco, que teria sido abandonada no século XVI, mas a vegetação densa e as montanhas dificultam a exploração.
Alguns a chamavam de Cidade Branca, outros de a Cidade do Deus Macaco. Sua possível existência vêm atraindo aventureiros desde 1500, incluindo o explorador Steve Elkins, que está obcecado em encontrar a cidade desde o início dos anos 90.

"Quem não gosta de uma história que tem algum mistério nela? Então, vamos ver o que acontece!", disse Steven Elkins. Em sua última expedição de 2015, ele convidou Preston para documentá-la.

Os exploradores anteriores, incluindo William Duncan Strong (em seu diário ilustrado de 1933) acabaram sendo frustrados pela densa vegetação e a proliferação de criaturas mortais. Dessa vez, no entanto, a equipe tinha a tecnologia do seu lado.
Alguns a chamavam de Cidade Branca, outros de a Cidade do Deus Macaco. Sua possível existência vêm atraindo aventureiros desde 1500, incluindo o explorador Steve Elkins, que está obcecado em encontrar a cidade desde o início dos anos 90
"Olha, eu pensei que o Steve nunca encontraria a cidade perdida - isso é ridículo. Porém, sabe como é, quem sabe? Mesmo que ele não encontrasse nada, poderia ser uma boa história", disse Doug.

Entretanto, desse vez Steve Elkins tinha algo que nenhuma expedição anterior à área tinha: uma tecnologia impressionante chamada LiDAR, um sistema de mapeamento a laser. Olhando através de um buraco cortado na parte inferior de um velho Cessna Skymaster, ele poderia escanear centenas de quilômetros quadrados de uma densa selva em questão de dias. O problema? Era caro, e Elkins precisava de um patrocinador. Foi nesse ponto que entrou em cena o documentarista Bill Benenson, que concordou em pagar mais de um milhão de dólares, caso pudesse registrar a aventura em vídeo.

Olhando através de um buraco cortado na parte inferior de um velho Cessna Skymaster, Steve Elkins poderia escanear centenas de quilômetros quadrados de uma densa selva em questão de dias
A expedição foi financiada pelo documentarista Bill Benenson (à esquerda), que atualmente está no processo final de edição do seu documentário. Doug Preston (à direita) contou a história em seu livro "A Cidade Perdida do Deus do Macaco: A Verdadeira História"
"Essa tecnologia podia ver através da cobertura vegetal, e potencialmente revelar os contornos do que poderia estar debaixo dela. Parecia uma aposta promissora", disse Bill Benenson. Uma aposta que logo foi recompensada. O que o LiDAR revelou, uma vez que a cobertura vegetal foi removida, chocou a todos na equipe. O LiDAR tornou visível o que pareciam ser estruturas retangulares, incluindo duas linhas perfeitamente lineares, e um ângulo reto.

"Elas tinha sido feitas pelo homem ou então os roedores (geomídeos) mais inteligentes do mundo estiveram lá, fazendo coisas que nunca tinham feito antes", continuou.

O que o LiDAR revelou, uma vez que a cobertura vegetal foi removida, chocou a todos na equipe
O LiDAR tornou visível o que pareciam ser estruturas retangulares,
incluindo duas linhas perfeitamente lineares, e um ângulo reto
"Então, o que você achou que tinha inicialmente encontrado?" perguntou o entrevistador Lee Cowan.

"Bem, eu sabia que tínhamos encontrado uma cidade, uma cidade antiga. Isso eu sabia. Porém, o que poderia ser além disso, cabia aos arqueólogos descobrir", respondeu Bill Benenson. Esse arqueólogo foi Chris Fisher, do estado norte-americano do Colorado. E se isso é algo realmente interessante?

"Bem, eu acho que sim. Se é parecido com Machu Picchu? Não, mas essa essa área, regionalmente, acredito que é muito, muito importante", disse Chris Fisher. Ele ajudou os profissionais da National Geographic a revelar a eventual aparência da cidade, mas para ter certeza ele tinha que ir a pé até o local. Foram necessários três longos anos de planejamento.

Chris Fisher ajudou os profissionais da National Geographic a revelar a eventual aparência da cidade, mas para ter certeza ele tinha que ir a pé até o local. Foram necessários três longos anos de planejamento
Qual foi a coisa mais mortal? Uma víbora chamada "fer-de-lance" (também conhecida como "víbora cabeça de lança"). Bem dócil durante o dia, mas quando entrou no acampamento em meio a escuridão, causou um pânico compreensível. Na equipe, um especialista de "guerra na selva" entrou em ação.

"Ele segurou a cobra, mas naquele momento a cobra teve um acesso de fúria, e se balançou para todos os lados lançando veneno, jatos de veneno em meio a escuridão", lembrou Doug Preston.

Qual foi a coisa mais mortal? Uma víbora chamada "fer-de-lance" (também conhecida como "víbora cabeça de lança"). Bem dócil durante o dia, mas quando entrou no acampamento em meio a escuridão, causou um pânico compreensível.
Na manhã seguinte, a selva parecia um pouco menos ameaçadora, e a caminhada até o local começou. Era como cortar caminho através de um tapete grosso e áspero. O que não estava crescendo, estava encharcado de lama. A selva era tão densa, que tudo o que podiam ver eram folhas, mesmo quando estava bem em frente ao que Chris Fisher acreditava ser uma pirâmide.

"Não posso dizer que vejo o local inteiro daqui", disse um membro da equipe. "Bem, é isso mesmo. É uma pirâmide. É composta de terra", disse Fisher.

Na manhã seguinte, a selva parecia um pouco menos ameaçadora, e a caminhada até o local começou. Era como cortar caminho através de um tapete grosso e áspero. O que não estava crescendo, estava encharcado de lama
Para ser sincero não havia estruturas de pedra, apenas fundações. Porém, no dia seguinte, quase que por acidente, o desapontamento se transformou em júbilo, quando encontraram inscrições esculpidas.

"Alguém disse: 'Ei, espera um minuto, tem algumas pedras estranhas aqui. Todos nós voltamos, e a primeira coisa que vi foi uma cabeça de jaguar saindo do chão, esculpida em pedra, imponente", disse Doug Preston.

Nos arredores havia um tesouro de artefatos, que se acredita que datam do século XVI, ou seja, os pertences pessoais dos habitantes que, conforme uma teoria mencionada, fugiram da cidade em uma tentativa desesperada de escapar das doenças e da escravidão europeia.

"Alguém disse: 'Ei, espera um minuto, tem algumas pedras estranhas aqui. Todos nós voltamos, e a primeira coisa que vi foi uma cabeça de jaguar saindo do chão, esculpida em pedra, imponente", disse Doug Preston
Nos arredores havia um tesouro de artefatos, que se acredita que datam do século XVI, ou seja, os pertences dos habitantes que, conforme uma teoria mencionada, fugiram da cidade em uma tentativa desesperada de escapar das doenças e da escravidão europeia
"Foi fenomenal pensar que no século 21, você ainda podia encontrar algo como isso na superfície da Terra", completou.

No entanto, alguns membros da comunidade acadêmica não ficaram tão impressionados.

Rosemary Joyce, professora de Antropologia da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, disse que uma expedição liderada por cineastas se parecia mais com Indiana Jones do que a ciência real, sendo que mais de 20 arqueólogos também concordavam com isso.

"Não saímos mais à procura de tesouros, saímos à procura de conhecimento. Se isso estivesse sendo retratado como uma história de aventura, não teríamos nenhuma objeção quanto a isso. Porém, está sendo retratado como Arqueologia, algo que não é", disse Rosemary Joyce.

Rosemary Joyce (na foto), professora de Antropologia da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, disse que uma expedição liderada por cineastas se parecia mais com Indiana Jones do que a ciência real, sendo que outros 20 arqueólogos concordavam com isso
Alguns povos indígenas se manifestaram quando o presidente hondurenho retirou o primeiro artefato. Eles consideravam o local sagrado, e disseram que deveriam deixar o local em paz. No final, o que esta expedição descobriu foi mais do que apenas relíquias; isso se tornou uma mistura de empolgação, perguntas, críticas e problemas de saúde.

Alguns povos indígenas se manifestaram quando o presidente hondurenho (no centro da imagem) retirou o primeiro artefato. Eles consideravam o local sagrado, e disseram que deveriam deixar o local em paz
Meses depois de deixar a selva, Doug Preston notou uma picada de uma mosca de areia que não cicatrizava. Chris Fisher também. Os Institutos Nacionais de Saúde diagnosticaram como sendo uma doença parasitária assustadora chamada leishmaniose.

"O parasita migra para as membranas mucosas da sua boca e do seu nariz, e basicamente as come. Seu nariz cai, seus lábios caem, e eventualmente seu rosto se torna uma ferida gigantesca, aberta", disse Doug Preston. Ao longo dos meses seguintes, cerca de metade dos membros da expedição apresentou os primeiros sintomas, e tiveram que passar por um doloroso tratamento.

Meses depois de deixar a selva, Doug Preston notou uma picada de uma mosca de areia, que não cicatrizava. Chris Fisher também. Os Institutos Nacionais de Saúde diagnosticaram como sendo uma doença parasitária assustadora chamada Leishmaniose
Bill Benenson e Steve Elkins foram poupados, e o documentário sobre a aventura está em processo final de edição. Doug Preston, contrariando as críticas, intitulou seu livro como "The Lost City of the Monkey God: A True Story" ("A Cidade Perdida do Deus do Macaco: A Verdadeira História", em português). Quanto ao sítio, apenas uma parte dele foi escavado, e as perguntas giram em torno de "como" ou "se" a escavação será retomada.

Bill Benenson e Steve Elkins foram poupados, e o documentário sobre a aventura está em processo final de edição
"É muito perigoso. Simplesmente entrar e sair do local é perigoso", disse Doug.

Parece que a selva ainda está lutando para manter seus segredos, um véu quase impenetrável fazendo o melhor que pode, dificultando ao máximo. E que, no final das contas, pode ser a maldição mais duradoura de todas.

O Que Representa Essa Reportagem da CBS News?


A reportagem divulgada pela CBS News é basicamente mais um capítulo do que vocês já puderam conferir, de uma forma bem mais completa, aqui no blog AssombradO. No começo do ano passando, quando publiquei a postagem intitulada "A Polêmica 'Cidade do Deus Macaco': Desde sua Suposta Existência até a Recente Exploração Arqueológica", vocês ficaram sabendo do questionável posicionamento da revista National Geographic, que passou a divulgar aos quatro ventos que a "Cidade do Deus Macaco" havia sido descoberta em Honduras, quando na verdade nada indicava isso.

Na época da divulgação por parte da National Geographic, ou seja, em março de 2015, o site do jornal hondurenho "La Prensa" rapidamente publicou as declarações de Ricardo Agurcia, renomado arqueólogo hondurenho, que questionou a então "possível descoberta" amplamente divulgada para todo o mundo, porque a equipe de investigação que havia sido composta não era sólida, não se conhecia os interesses das instituições envolvidas, e ninguém sabia realmente se havia especialistas hondurenhos envolvidos.

"Até onde eu sei, isso tem pouco critério científico. Também acho estranho que uma notícia como essa tenha sido publicada primeiro no exterior do que em Honduras", disse Ricardo, observando ainda que o que foi mostrado pela National Geographic não possuía as características do que a lenda mencionava. Aliás, nunca foi segredo algum, que existem muitos sítios arqueológicos na região de La Mosquitia.

Ricardo Agurcia, renomado arqueólogo hondurenho, questionou a então "possível descoberta" amplamente divulgada para todo o mundo, porque a equipe de investigação que havia sido composta não era sólida, não se conhecia os interesses das instituições envolvidas e ninguém sabia realmente se havia especialistas hondurenhos envolvidos
"O que eles encontraram foi uma cidade? Uma cidade se define arqueologicamente como um sítio de ocupação humana com uma população maior do que 10.000 habitantes. Isso é verificado com arqueologia de campo e registros de casas. São brancas? Em nenhuma das imagens se vê isso. Na lenda da Cidade Branca que eu conheço, deveria existir uma estátua de macaco feita de ouro. Se esta é a Cidade Branca, onde está esse macaco? Eu vejo muitas nuances de aventura, um filme de Hollywood como o de Indiana Jones. Isso não é ciência", completou.

A arqueóloga hondurenha Eva Martinez concordou com Ricardo Agurcia, que aquilo não tinha sido uma descoberta e a "Cidade Branca" continuava a ser apenas uma lenda.

"La Mosquitia foi estudada por arqueólogos durante décadas. O lugar mencionado pela National Geographic pode ser um dos sítios arqueológicos já previamente registrados no Instituto Hondurenho de Antropologia e História (IHAH). Qualquer sítio arqueológico em La Mosquitia poderia receber esse nome. A Cidade Branca é um mito, uma lenda. A publicação não é uma pesquisa acadêmica, e dá uma ideia errada do trabalho da Arqueologia", disse Eva.

Mapa de Honduras mostrando a região de La Mosquitia e a quantidade de sítios arqueológicos que já foram descobertosnaquele país. Lembrando que as coordenadas exatas onde foram feitos os escaneamentos não foram divulgadas
Cerca de uma semana depois, no dia 11 de março, o jornal britânico "The Guardian" publicou uma notícia dizendo que mais de duas dezenas de arqueólogos e antropólogos estavam condenando a atitude do National Geographic sobre as alegações sobre as "cidades perdidas" de Honduras. Em uma espécie de Carta Aberta os mesmos protestavam contra a "espetacularização" dos sítios arqueológicos do país.

John Hoopes, um dos signatários e professor de Antropologia da Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, disse que a National Geographic tinha demonstrado "um desrespeito para com o conhecimento indígena, e que se tratava de um discurso colonialista".

O presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández (à esquerda) ao lado do arqueólogo Chris Fisher (à direita)
Christopher Fisher, no entanto, tratou logo de se defender de tais acusações.

"Nós nunca dissemos que era a 'Cidade Branca' ou a 'Cidade Perdida do Deus Macaco'. Os artigos não são artigos científicos, mas não negamos que a população local possa ter conhecimento desses sítios. Entretanto, a região estava inabitada e relativamente intacta depois de todos esses séculos", disse Christopher Fisher, que como sabemos pertence a equipe de Steve Elkins.

Embora ele tenha dado essa declaração em 2015, aparentemente isso não impediu os planos em realizar um documentário tendo essa lenda como plano de fundo. A National Geographic, por sua vez, tentou se defender dizendo que sua cobertura havia sido imparcial, e que não dava créditos a declarações fantasiosas do passado em relação as lendas locais.

Confira o Teor da Carta dos Acadêmicos Internacionais: Achados Arqueológicos em Honduras


6 de Março de 2015,

A quem interessar possa:

Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre os artigos recentes proclamando a descoberta de uma cidade perdida ou civilização perdida em Honduras. Descobrimos que esses artigos: 1) fazem alegações exageradas da "descoberta", 2) ignoram extensas pesquisas anteriores na região, 3) não reconhecem a familiaridade dos moradores locais com a região, 4) sensacionalizam a prática da Arqueologia e 5) empregam um discurso ofensivo e ultrapassado, que está em desacordo com os esforços substanciais da Antropologia na inclusão e na multivocalidade. Além de parecer desinformado e focado no autoengrandecimento, esses artigos implicitamente violam um princípio básico da ciência, atribuído ao arqueólogo David Hurst Thomas: "Não é o que você encontra, é o que você descobre."

1) Alegações Exageradas da "Descoberta":

Assim como em artigos anteriores e comunicados à imprensa, membros da expedição alegam incorretamente que essa equipe de cineastas, ex-soldados e arqueólogos "descobriram" uma "civilização perdida" na região de Mosquitia, no leste de Honduras. Na realidade, como bem sabiam os membros da expedição, esta região tem sido objeto de pesquisas arqueológicas durante a maior parte do século passado e especialmente nas últimas duas décadas. Intensivos estudos já tinham sido conduzidos por arqueólogos, geógrafos e outros cientistas. Longe de ser desconhecida, a área tem sido foco de muitos trabalhos acadêmicos e populares, incluindo duas teses de mestrado, uma dissertação de doutorado, dois livros populares, dois documentários, inúmeros artigos e apresentações, e uma série de encartes recentemente publicados por um jornal hondurenho.

Na realidade, como bem sabiam os membros da expedição, esta região tem sido objeto de pesquisas arqueológicas durante a maior parte do século passado e especialmente nas últimas duas décadas
2) Incapacidade de Reconhecer Estudos Anteriores:

Arqueólogos com experiência nessa região entraram em contato com os membros da equipe após comunicados de imprensa anteriores, e artigos publicados em 2012 e 2013. Então, não se pode negar a ausência de estudos prévios. As alegações nesses artigos sugerem uma falta de familiaridade com o estudo anterior. No entanto, fontes na internet, de fácil acesso, tal como o site Mosquitia (http://www.mosquitia.com) e um artigo detalhado na Wikipedia sobre La Ciudad Blanca, torna isso indefensável.

3) Incapacidade de Reconhecer o Conhecimento Local:

Esses artigos descaradamente ignoram o conhecimento local e significativo dos recursos arqueológicos nessa região. Grupos indígenas locais e residentes de longa data da área fizeram contribuições essenciais para a localização, documentação e interpretação de sítios arqueológicos. Eles foram reconhecidos em trabalhos anteriores publicados por arqueólogos como Begley, Hasemann, Lara Pinto, Dixon e Gomez Zuniga, tornando esses artigos especialmente 'notáveis' pela ausência nesse aspecto.

4) O Sensacionalismo da Arqueologia na Região:

Ao se concentrar na lenda da Cidade Branca, citando a "Cidade Perdida do Deus Macaco" (um nome inventado em 1940 em razão de uma notícia de tabloide), e apresentando a área como "um dos últimos lugares cientificamente inexplorados na terra" os artigos exploram a retórica hiperbólica, sensacionalista e não científica. A explicação e outros aspectos essenciais de uma abordagem científica são amplamente ignorados.

Ao se concentrar na lenda da Cidade Branca, citando a "Cidade Perdida do Deus Macaco" (um nome inventado em 1940 em razão de uma notícia de tabloide), e apresentando a área como "um dos últimos lugares cientificamente inexplorados na terra" os artigos exploram a retórica hiperbólica, sensacionalista e não científica
5) Discurso Problemático e Tropo da Descoberta

Esses artigos constituíram os membros da expedição como "descobridores", um tropo comum na literatura de viagens de aventura do século XIX e início do século XX, em que a superioridade externa é enfatizada às custas do conhecimento local. O posicionamento dos membros da expedição como exploradores que "descobrem" sítios na selva, em áreas onde "os animais parecem nunca ter visto seres humanos antes" mostra desconhecimento e desrespeito aos povos indígenas Pech, Tawahka e Miskito e outros hondurenhos, que viveram lá por todas as suas vidas. Arqueólogos sabem que até mesmo as áreas mais remotas são rotineiramente visitadas por caçadores e pescadores. Afirmar ser a primeira pessoa a descobrir um grande sítio arqueológico, ainda mais uma "cidade perdida" ou "civilização perdida" não é apenas improvável, mas evoca um passado problemático quando as contribuições locais e indígenas para o conhecimento foram ignoradas, e que coisas já conhecidas pelos moradores da região foram reivindicadas por terem sido "descobertas" por exploradores estrangeiros.

Convidamos vocês a fazerem um esforço para corrigir as imprecisões e retórica prejudicial desses artigos e dar uma consideração mais sofisticada à publicação disso e futuros artigos que sensacionalizem a Arqueologia, fazem falsas alegações de descobertas, mostrem uma total desconhecimento da região e pesquisas prévias, e explorem elementos retóricos que representem atitudes antiquadas, ofensivas, e etnocêntricas.

Aparentemente, mesmo após quase dois anos, o conteúdo da carta assinada por mais de vinte arqueólogos continua sendo atual, verdadeiro, e aplicável a outras regiões, como por exemplo, na América Andina. Para conferir a lista de pessoas que a assinaram, clique aqui.
Aparentemente, mesmo após quase dois anos, o conteúdo da carta assinada por mais de vinte arqueólogos continua sendo atual, verdadeiro, e aplicável a outras regiões, como por exemplo, na América Andina
Naquela época, o Dr. John Henderson, respeitado antropólogo da Universidade de Cornell, em Nova York, nos Estados Unidos, que não assinou a carta, e que também não fez parte da expedição a Honduras, disse que a acusação de retórica colonialista "parecia politicamente correta".

"A parte mais ofensiva é que existe muita coisa que é conhecida, que a National Geographic deixou de fora. A região é tão rica em sítios arqueológico, que se você apontar o LiDAR em praticamente qualquer lugar do vale, você vai encontrar o que esses rapazes encontraram", disse John Henderson.

O Dr. John Henderson (na foto), respeitado antropólogo da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, que não assinou a carta, mas também não fez parte da expedição a Honduras, disse que a acusação de retórica colonialista "parecia politicamente correta"
"Entretanto, o que eles fizeram é modesto em comparação com o que Chris Begley fez lá durante todos esses anos", completou John, trazendo à tona o antropólogo da Universidade da Transilvânia, em Kentucky, nos Estados Unidos, muito elogiado por seus colegas de profissão devido aos seus mais de 24 anos de trabalho naquela região de Honduras.

A "Cidade Perdida do Deus Macaco" Realmente Existe ou Tudo Isso é Apenas uma Farsa Para Eventualmente Lucrar com a Lenda?


Muito provavelmente, a "Cidade Perdida do Deus Macaco" não existe. Entre as diversas declarações dadas por Chris Begley, estava uma onde ele dizia, que ao invés de ser uma cidadela isolada em uma selva ou alguma civilização misteriosa esquecida no tempo, na região de La Mosquitia, quase todo vale de rio possui algum achado arqueológico.

Conhecer a cultura local, bem como o povo Pech teria muito mais importância e valor arqueológico do que qualquer escaneamento aéreo, muito embora ele reconhecesse a relevância da tecnologia. A região teria abrigado diferentes culturas, que se mesclaram ao longo do tempo, não apenas somente uma.

Entre as diversas declarações dadas por Chris Begley, estava uma onde ele dizia, que ao invés de ser uma cidadela isolada em uma selva ou alguma civilização misteriosa esquecida no tempo, na região de La Mosquitia, quase todo vale de rio possui algum achado arqueológico.
De acordo com geógrafo chamado Mark Bonta, que trabalhou extensivamente na região, juntamente com o antropólogo Chris Begley, os mais prováveis descendentes das pessoas que construíram essas pequenas cidades seriam os Pech (segundo o último censo realizado em 2005, existia apenas uma população de 3.800 pessoas), mas isso não era um consenso nem mesmo em relação aos nativos.

"Há uma enorme quantidade patrimonial que está à espera de ser recuperada, mas a maioria dos Pech que eu conheço não acredita que as pessoas que criaram esses lugares sejam seus antepassados", disse Bonta, acrescentando ainda que a maioria nunca foi ensinada sobre povos, sem ser os maias, que teriam cruzado a região.

"Imagine gregos que nunca tivessem ouvido falar do Parthenon. Essa é a maneira como você tira a terra do povo: dizendo que não podem ser o povo que construiu tudo aquilo, ainda mais usando o jargão 'Cidade Branca'", continuou Bonta, se referindo claramente ao tom de pele dos nativos em relação aos descendentes europeus. Vale ressaltar que povo Pech já perdeu enormes extensões de terra devido ao desmatamento por criadores de gado e mineração ilegal de ouro. E, apesar da segurança ter melhorado, a região ainda está repleta de traficantes de drogas, caçadores e saqueadores de antiguidades.

De acordo com geógrafo chamado Mark Bonta, que trabalhou extensivamente na região, juntamente com o antropólogo Chris Begley, os mais prováveis descendentes das pessoas que construíram essas pequenas cidades seriam os Pech (segundo o último censo realizado em 2005, existia apenas uma população de 3.800 pessoas), mas isso não era um consenso nem mesmo em relação aos nativos
Nesse ponto é muito importante lembrar que essa história sobre uma eventual "Cidade do Deus Macaco" não existe em nenhuma literatura acadêmica antes de meados do século XX. Talvez o relato mais antigo seja de Eduard Conzemius, em 1927, recontando, sem nenhuma pesquisa, as memórias de um caçador de tesouros, de 1905, que falou apenas sobre o que aparentava ser "as ruínas de uma cidade muito importante com edificações brancas de uma pedra similar ao mármore, cercada por um grande muro do mesmo material" (a tradução atual pode ser imprecisa). A lenda conhecida naquela época é que o "Diabo guardava a cidade e fazia mal aos que entravam", embora houvesse uma clara diferença de opinião sobre o assunto. Eduard Conzemius também chegou a mencionar que "todos os indíos diziam que eles não sabiam nada sobre isso, e que tudo não passava de um mito, mas outros moradores da costa afirmavam que eles não queriam mostrar essas ruínas aos demais por medo de morrer".

Durante a reportagem da CBS, o jornalista Lee Cowan aceitou sem questionar que a "cidade perdida" venha atraindo exploradores desde 1500. Porém, isso não é verdade. Essa busca começou a partir da década de 1940, visto que antes ninguém se importava muito com isso. No século XVI, Hernán Cortês escreveu sobre cidades da região, mas não mencionou que tivessem sido abandonadas, perdidas e muito menos brancas. Não é a mesma coisa. Chegamos a contar um pouco sobre isso na postagem do ano passado para vocês.

Durante a reportagem da CBS, o jornalista Lee Cowan (na imagem) aceitou sem questionar que a "cidade perdida" venha atraindo exploradores desde 1500. Porém, isso não é verdade. Essa busca começou a partir da década de 1940, visto que antes ninguém se importava muito com isso.
Outro detalhe, por exemplo, é que a CBS falhou ao questionar se o local que Doug Preston visitou, juntamente com os demais exploradores, era de fato a "Cidade Branca" ou a "Cidade Perdida do Deus Macaco" do mito moderno. Não há nenhum indicativo sobre isso. No geral, a história da CBS foi principalmente de adulação, sem críticas reais e nenhuma avaliação detalhada de suas alegações. No entanto, o elogio e a reverência que foi concedido ao Doug Preston por parte da mídia norte-americana não dissuadiu sua decepção de que os arqueólogos não tenham sido tão universalmente impressionados por seu trabalho tal como a mídia.

Agora, o motivo de tanta especulação sobre esse assunto? A mais provável resposta é bem simples: dinheiro. Juan Orlando Hernández, o presidente de Honduras, declarou no começo de 2015, que cerca de 60 milhões de pessoas, em mais de 15 idiomas, tinham visto o documentário da National Geographic, e que Honduras nunca antes teve tamanha exposição. Ele apontou ainda que, em termos turísticos, eles não possuíam apenas sol e praias". Ele destacou a questão sobre o ecoturismo e o turismo científico, que eram setores muito importantes em sua concepção. Assim sendo, a "descoberta" da "Cidade Branca" contextualizava em relação a uma nova "infraestrutura", que estariam construindo em termos de estradas, aeroportos e portos, pois tinham que preparar o país aproveitar esta "grande oportunidade". Assista como foi o anúncio do presidente Juan Orlando Hernández (em espanhol):



Em meados de janeiro do ano passado, Hernández desceu de helicóptero no local, que havia sido visitado anteriormente pela equipe de Doug Preston com uma equipe da National Geographic (que teria financiado a expedição, com uma quantia de US$ 100.000). Hernández observou os artefatos descobertos no local e disse aos repórteres que o país foi obrigado a proteger seu "patrimônio nacional" - tanto para o turismo, quanto para a história. Assista como foi (em espanhol):



Assista também (em espanhol):



Enfim, como vocês podem perceber, aparentemente a exploração predatória da região tem motivações meramente financeiras em prol de um governo, que sempre esteve mergulhado em problemas de corrupção no alto escalão e no sistema de saúde, e que possui índices alarmantes de criminalidade para controlar em diversas cidades do país devido a impunidade (o que de certa forma não é muito diferente do nosso país).

A Discussão Entre o Escritor Doug Preston e o Arqueólogo John W. Hoopes no Reddit


Doug Preston vem sendo bastante sonoro em seu profundo aborrecimento, visto que diversos arqueólogos, incluindo alguns que deram entrevistas para seu livro, discordaram com as conclusões da expedição sobre o local, particularmente questionando sobre o seu tamanho, e se realmente é a "Cidade Branca". Houve inclusive um bate boca, no qual Doug Preston ficou sem palavras para responder adequadamente John W. Hoopes, do Departamento de Antropologia da Universidade do Kansas, através do Reddit. Confira abaixo um trecho da troca de farpas entre eles:

"Devo também acrescentar, que tenho escrito sobre Arqueologia para revista New Yorker há 25 anos, e venho de uma família de arqueólogos. Nunca na minha vida encontrei uma resposta mais irresponsável e infundada a uma descoberta, assim como ocorreu de um pequeno grupo de arqueólogos americanos que têm trabalhado em Honduras. Eu relatei essa controvérsia maluca em meu livro, mas pessoalmente foi decepcionante ver esses acadêmicos se comportando da maneira que fizeram. A equipe que explorou esse sítio incluiu seis eminente arqueólogos diplomados (hondurenhos e americanos), assim como diversos outros pesquisadores que possuem PhD e trabalhos acadêmicos publicados. Havia indígenas dos povos Tawahka, Miskito e Garifuna na expedição. O problema é que esses outros acadêmicos não foram incluídos, e eles se sentiram ofendidos por isso", declarou Doug Preston, que acabou sendo rebatido efusivamente por John W. Hoopes.

Doug Preston vem sendo bastante sonoro em seu profundo aborrecimento, visto que diversos arqueólogos, incluindo alguns que deram entrevistas para seu livro, discordaram com as conclusões da expedição sobre o local, particularmente questionando sobre o seu tamanho e se realmente é a Cidade Branca
"Como um dos arqueólogos que foi signatário da Carta Aberta queixando-se de como Douglas Preston e a National Geographic sensacionalizaram o projeto (sou mencionado no livro), acredito que essa seja i,a colocação infundada. A alegação de uma postura 'negativa' por parte de arqueólogos profissionais não tem sustentação. A questão básica é que o projeto foi concebido e executado com o objetivo de fazer uma 'descoberta' que traria fama e fortuna aos participantes vendendo notícias, livros e filmes, lucrando, e tomando conta da imaginação do público e capitalizando em cima da falta de conhecimento geral sobre a arqueologia da América Central. Se os arqueólogos profissionais se sentiram ofendidos, não se tratava de não serem incluídos, mas porque eles viam o projeto como realmente era: uma exploração de narrativas fantasiosas e centenárias sobre encontrar uma civilização perdida (a exemplo de Shangri-La do romance 'Lost Horizon' de James Hilton, de 1930, que continua sendo um tema recorrente) em um vale remoto e desconhecido. O conceito de "Cidade Perdida do Deus do Macaco" foi introduzido em uma história sensacionalista para um tabloide dominical de 1940, editada por A. Merritt (um autor de contos e romances ficcionais) e ilustrado por Virgil Finlay (um clássico ilustrador de capas de revistas de ficção científica). A narrativa pode extrair elementos da ciência do século 21, mas se baseia fortemente no "mundo perdido" da era vitoriana. Pense em uma das cidades perdidas originais do "Deus Macaco", caracterizada em 1933, no filme 'King Kong' - e reproduzido em filmes subsequentes - também sobre um diretor de cinema em direção a uma selva perigosa em busca de mistérios. Esse é um bom entretenimento, que comove e fomenta a imaginação, mas não é ciência.

Embora o projeto tivesse começado em 1997, quando Doug Preston escreveu sobre isso para a revista New Yorker, não havia nenhum arqueólogo profissional associado ao projeto até meados de 2012, APÓS os dados do LiDAR terem sido coletados, ou seja, o projeto foi concebido, gerenciado e executado por indivíduos com praticamente nenhuma base arqueológica relevante para o que eles se propuseram fazer. Como resultado, o projeto tem sido repleto de problemas conceituais desde o início. Isso incluiu a propagação da região como 'desconhecida', apesar do fato de que a área foi explorada e descrita pelo arqueólogo Herbert J. Spinden já em 1924, que fotografou e coletou artefatos praticamente idênticos aos encontrados no sítio T1, relatado-os naquele mesmo ano no Congresso Internacional de Americanistas em Gotemburgo, na Suécia, e os levando para o Museu Peabody, na Universidade de Harvard.  As alegações de que essa cultura era 'desconhecida' ou 'sem nome' simplesmente não estão corretas. Em um artigo publicado em 1925, baseado em sua apresentação no ano anterior, Spinden nomeou a cultura de 'Chorotegan'. Estudos subsequentes de Doris Stone, uma grande estudiosa da Arqueologia do Norte de Honduras, apesar de sua breve menção em uma nota de rodapé no livro de Preston, a levou a definir o que ela chamou de cultura "Paya" em uma apresentação no encontro de 1939, do Congresso International de Americanistas, na Cidade do México (que ela também publicou no mesmo ano). Juntos, Spinden e Stone descreveram e nomearam o que Preston alegou ser uma cultura "desconhecida" e "sem nome", sendo que eles fizeram isso há mais de 90 anos. Os acadêmicos que conhecem a região possuem essas informações, assim como da grande quantidade de trabalho subsequente, razão pela qual eles não ficaram especialmente impressionados com o que Elkins queria fazer. Sabe-se há muito tempo que existem centenas de locais nesta área, razão pela qual foi designada como uma reserva protegida há mais de 50 anos (provavelmente a razão pela qual os animais 'agiram como se nunca tivessem visto seres humanos'). O sítio T1 provavelmente não é a maior do leste de Honduras, mesmo entre aqueles que já foram documentados.

John W. Hoopes, do Departamento de Antropologia da Universidade do Kansas trocou farpas dom Doug Preston, que por sua vez não foi capaz ou não quis rebater o que foi mencionado
Em relação a saber se é ou não uma 'cidade' isso depende inteiramente de sua definição. Pessoalmente, acho que 'povoado' ou 'vilarejo' descreve melhor a situação, mas frequentemente os arqueólogos usam o termo 'assentamento'.  A busca por um 'assentamento abandonado', algo que os arqueólogos profissionais fazem o tempo todo, é muito menos glamourosa do que uma busca por uma cidade perdida. Quanto ao termo 'civilização perdida', isso também depende do que se considera uma civilização. Não há dúvidas de que culturas indígenas impressionantes dos mais diversos níveis de complexidade prosperaram na região, que os arqueólogos chamam de 'Área Istmo-Colombiana' (uma região entre o leste de Honduras eo norte da Colômbia), um território ocupado por povos que falam muitas línguas diferentes (por exemplo, os Misumalpan, os Chibchan e os Chocoan). Uma das principais objeções que os arqueólogos tinham à abordagem de Elkins era que ele parecia ignorar o contexto da história da pesquisa arqueológica na região e da localização das culturas de Mosquitia dentro de uma estrutura bem mais ampla da Arqueologia Centro-Americana.  O livro de Preston não faz um bom trabalho de apresentar isso, fazendo com que os leitores acreditem que os achados foram 'mais originais, mais excepcionais, e surpreendentes' do que realmente são.

É verdade que LiDAR é uma ferramenta incrível que está revolucionando a maneira pela qual a pesquisa arqueológica é feita. Também é verdade que o trabalho arqueológico de campo é caro, difícil, demorado e frustrante, muitas vezes produzindo apenas resultados modestos. No entanto, um bom número de excelentes pesquisas têm sido feita sem a necessidade de helicópteros ou escoltas militares por pesquisadores solitários (muitos deles desempenhando seu trabalho com grande esforço, mas ainda assim são estudantes de pós-graduação dedicados, e que possuem orçamentos bem reduzidos), que aprenderam espanhol e línguas indígenas trabalhando apenas com alguns guias locais. Sim, havia indígenas como parte da expedição, mas os identificados no livro eram todos os soldados hondurenhos, que forneciam segurança à equipe de campo. Há muitas outras vozes indígenas com opiniões sobre este projeto e como ele foi apresentado, e que merecem ser ouvidas. Entre elas estão inclusas as declarações em uma carta aberta de líderes indígenas Miskitu", disse
John W. Hoopes. Curiosamente, Doug Preston não foi capaz ou não quis rebater o que foi mencionado.

"É verdade que LiDAR é uma ferramenta incrível que está revolucionando a maneira pela qual a pesquisa arqueológica é feita. Também é verdade que o trabalho arqueológico de campo é caro, difícil, demorado e frustrante, muitas vezes produzindo apenas resultados modestos. No entanto, um bom número de excelentes pesquisas têm sido feita sem a necessidade de helicópteros ou escoltas militares por pesquisadores solitários", disse John W. Hoopes
Aliás, o próprio John ainda questionou outra declaração de Doug Preston, que tentou alegar que diferentes grupos indígenas hondurenhos falaram da "Cidade Branca" de diferentes maneiras, e em diferentes histórias. Doug mencionou que a lenda de uma única cidade perdida seria claramente uma metáfora para toda uma civilização perdida, que tinha muitas cidades, e que desmoronaram em torno de 1500. Contudo, John rebateu dizendo que, na verdade, o povo Pech se refere à localização como "Kao Kamasa", que não se traduz como "Cidade Branca", mas como "Casa Branca". As histórias indígenas não se referem a uma cidade como um todo, mas um assentamento não especificado, que poderia ser qualquer coisa, desde uma aldeia até um povoado. Não há nenhuma razão para se referir a ela como uma 'cidade', exceto para vinculá-la à duvidosa "Cidade Branca", história que parece ter raízes nas narrativas de exploradores brancos e estrangeiros da década de 1930, e não em tradições indígenas, ou seja, a "lenda de uma única cidade perdida" é uma ficção ocidental, não uma história local ou indígena. Além disso, por exemplo, a alegação de que possuiria "muitas cidades" é difícil de sustentar, visto que evidências convincentes de uma "cidade" ainda não foram apresentadas ao mundo.

Enfim, AssombradOs, pelo visto essa discussão sobre a "Cidade Branca" ou "Cidade do Deus Macaco" ainda deve continuar por um longo tempo. Sinceramente, não ficaria espantado que se algum dia alguém viesse com a ideia de realizar uma série de TV chamada "A Maldição do Deus Macaco" ou algo assim, visto que fazem exatamente isso em relação a "Maldição de Oak Island", que entra ano e sai ano, e nenhum "tesouro" é realmente descoberto, não importando o quanto uma ilha possa se destruída e quanto dinheiro seja investido. Muito provavelmente eu assistiria uma eventual série chamada "Maldição do Deus Macaco", assim como faço em relação a Oak Island, porém não esperaria que grandes descobertas fossem realizadas, veria apenas por diversão. Evidentemente, existem inúmeros mistérios em relação a civilizações antigas ao redor do mundo, mas muito provavelmente a "Cidade do Deus Macaco" não é uma delas. Isso fica nítido ao vermos a capa do livro de Douglas Preston, onde ele coloca em letras minúsculas a frase "A True Story", talvez porque nem ele mesmo acredite no que conta, mas o que isso importa quando aparentemente é mera ficção moderna? Só nos resta, é claro, aguardar sobre o futuro de toda essa história.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://news.nationalgeographic.com/2015/03/150302-honduras-lost-city-monkey-god-maya-ancient-archaeology/
http://www.assombrado.com.br/2016/02/a-polemica-cidade-do-deus-macaco-desde.html
http://www.cbsnews.com/news/curse-of-the-lost-city-of-the-monkey-god/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-4104286/Is-curse-Monkey-God-Author-archaeologist-lost-city-deep-rainforest-mystery-life-threatening-illness-FACES-fall-off.html
http://www.laprensa.hn/honduras/816926-410/ciudad-blanca-es-un-mito-para-arque%C3%B3logos-hondure%C3%B1os
https://realhonduranarchaeology.wordpress.com/letter-from-international-scholars-archaeological-finds-in-honduras-2/
https://realhonduranarchaeology.wordpress.com/who-signed-the-letter-from-international-scholars/
https://www.reddit.com/r/IAmA/comments/5m7r68/i_am_journalist_and_author_doug_preston_ask_me/
https://www.theguardian.com/world/2015/mar/11/honduras-lost-cities-open-letter-national-geographic-report
https://www.youtube.com/watch?v=GMSR0Gk6__0
Comentários