24 de dezembro de 2016

Feliz Natal, AssombradOs!


Por Marco Faustino 🎄

"Lembro de quando era pequeno, que a época do Natal era simplesmente mágica. A família nunca foi muito numerosa e nem muito unida, mas me recordo como se fosse hoje, quando percorríamos os corredores completamente lotados das lojas de departamento para comprar enfeites para a árvore de Natal. Era bem simples, devia ter cerca da 1,2m, e tinha os galhos bem verdes. Com o tempo ela aumentou um pouco de tamanho, passou a ter 1,5m, e tinha floquinhos brancos que imitavam a neve, mas para mim era a mais pura neve. Contudo, não importava o tamanho, ela ficava cheia de bolas vermelhas, com os mais diversos tamanhos - as maiores embaixo e as menores conforme chegavam ao topo. Colocávamos, todos juntos, enfeites de tecido, outros de porcelana, e sem contar, é claro, o pisca-pisca. Aliás, todos os anos os ambulantes vendiam uma iluminação com novos efeitos e músicas, sendo que todas aquelas luzes enchiam os meus olhos. Eu levava todo orgulhoso a caixa para casa, como se ela fosse a mais preciosa do mundo e ficava ansioso para colocar aquele fio interminável de lâmpadas ao redor da árvore. Acendíamos principalmente na véspera de Natal, quando apagávamos as luzes, e eu ficava admirando sem saber para onde olhar primeiro. Algumas bolas eram antigas, de vidro, da época da minha avó, que ainda era viva quando nasci, mas que nunca consegui recordar um só momento ao lado dela. A árvore que parecia bem pequena quando não havia nada, se tornava algo gigantesco e ficava tão iluminada quanto mil velas acesas. Gostava de ver a Missa do Galo, mesmo sem entender muita coisa, da ceia, que nunca faltou nada, e de ganhar presentes, é claro, quem não gosta? Porém, acima de tudo, gostava de ficar acordado, de ver aquela árvore iluminada. Não queria dormir, não queria que aquele momento mágico acabasse nunca. Não havia do que reclamar da manhã seguinte, mas aquela noite era especial. Era um momento que não havia brigas, discussões, desentendimentos, todos pareciam simplesmente, felizes."

Apesar de cada um de nós possuir uma lembrança diferente do Natal, algumas boas ou eventualmente ruins diante de algum acontecimento inesperado ou que de certa forma tenha abalado a comemoração dessa data, em comum temos o desejo de, ao menos nesse dia, pararmos e estarmos de alguma forma juntos. Qual a sua lembrança de Natal?

Muitos de nós lembramos do Natal apenas pela correria de comprar um presente, ainda que de pouco valor, a chamada "lembrancinha". Todavia, não é nenhuma coincidência que ela seja chamada dessa forma. É o ato de lembrar que importa, o ato de importar que será lembrado nos anos seguintes. Então, não sinta vergonha em dar algo que seja humilde, que nem mesmo precisa ser comprado. Basta algumas frases de alento, de carinho ou de atenção, nem que sejam escritos apenas em um pequeno pedaço de papel de pão. A partir do momento que você expressa seu pensamento e sua lembrança por alguém que ame, aquele pequeno pedaço de papel perde completamente seu valor original, e passa a ser o papel mais valioso do mundo.

Quando crescemos, uma parte da magia de quando éramos pequenos invariavelmente acaba se perdendo pelo caminho, mas não é impossível de ser recuperada. É algo tão mágico, que ela se multiplica ao ser dividida, uma equação improvável que desafia qualquer racionalidade, mas ela existe, é palpável. Algumas vezes nos sentimos tão sozinhos e isolados, achando que estamos ilhados mesmo diante de tantas pessoas dentro de uma mesma casa, que às vezes nem mesmo é a nossa, que pensamos que o Natal não existe ou que foi apenas algo em que acreditávamos quando crianças. Acredite, essa data é muito mais do que isso. Vocês já reparam nos rostinhos das crianças, principalmente as mais humildes, quando um Papai Noel chega para visitá-las? Embora muitas vezes magro, com a barba claramente postiça e sintética, chegando em uma caminhonete ou um carro do Corpo de Bombeiros, ele traz muito mais do que presentes, ele traz esperança, mesmo que seja alguns dias ou semanas antes da data que costumamos comemorar. Essa é uma visão de Natal que muitos de nós não fazemos ideia de que existe, mas para essas crianças, aquele é o verdadeiro espírito natalino. É exatamente isso, essa generosidade que tentamos semear nos corações delas para cresçam, e tenham a capacidade de fazer o mesmo por outras crianças.

Além disso, muitas vezes pensamos que o Natal é apenas um mero brinquedo de plástico, que apesar de muitas crianças sequer terão algo que possam adjetivar de "mero", o maior presente que podemos dar nessa data é a promessa de muito carinho, respeito e a certeza que faremos de tudo para que não tenham que sofrer, pelo menos não de forma tão precoce, com a realidade que muitas vezes as aguardam do outro lado da porta da frente. Outras vezes, o Natal é um prato de comida para quem sente fome, um cobertor para quem sente frio, um sorriso para quem se sente triste, um olhar sincero para quem sente que foi esquecido por todos aqueles que passam o ano inteiro sem reparar, que debaixo do cobertor, próximo ao prato de comida e sorrindo ainda que sozinho, só queria ser lembrado por alguém.

Não é preciso passar o Natal sozinho. Ligue para alguém, converse com alguém, se reconcilie com alguém, peça desculpas ou perdão para alguém mesmo que a outra pessoa não aceite. E mesmo assim, caso você realmente não tenha ninguém para passar o Natal ao seu lado, não acredite que essa data não mereça ser celebrada. Não desista de fazer a ceia em sua casa, prepare um prato de comida para você e para mais alguém. Esse alguém pode ser o porteiro ou o vigia noturno do condomínio onde mora, o seu vizinho ou sua vizinha, mesmo que não tenha sido muito bom para você durante o ano, ou simplesmente, de forma ainda mais nobre, para alguém que esteja passando fome na rua. Entendo que possa ser muito perigoso fazer isso durante a noite, mas não importa, faça pela manhã. Leve um prato de comida quente, e uma simples garrafa de água. Divida o pouco que tem, seja generoso(a) e inspire novamente a mesma magia de quando era criança.
Sei que muitas famílias sequer terão o que comer essa noite. Sei que muitas crianças não ganharão brinquedos e passarão a noite em claro, olhando para o céu, e tentando entender que estrela é essa que todos falam, que guiou magos através do deserto, mas que nunca levou alguém de bom coração até elas. Você não precisa acreditar no Natal, precisa apenas acreditar que pode ser o Natal de alguém.

Feliz Natal, AssombradOs.

Marco Faustino 🎅
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