7 de novembro de 2016

O Caso de um "Misterioso Som" que Estaria Vindo do Fundo do Mar e Assustando os Habitantes de Igloolik, no Canadá!


Por Marco Faustino

Em meados de junho desse ano fizemos uma matéria bem completa sobre um misterioso som, que estava tirando o sono dos moradores da comunidade de Windsor-Essex, no Canadá. Na época, mostramos que o som teria começado em 2011, e ao longo do tempo começaram a surgir relatos, que o mesmo fazia objetos de vidro vibrarem dentro dos armários das casas dos moradores, além de causar desconforto, dores de cabeça e consequentemente insônia, visto que o som ecoava por diversas vezes durante a madrugada, e costumava variar de intensidade. A diferença é que nesse ano muitos moradores passaram a relatar que o som estava bem pior e parecia que ninguém conseguia resolver o problema. Alguns citavam que o som poderia ser um experimento secreto do governo, já outros diziam que o som teria uma origem extraterrestre. No entanto, estudos científicos anteriores apontaram que o som "provavelmente" viria de uma ilha artificial altamente industrializada, que fica "de frente" para a região, mas em território norte-americano, ou seja, envolvia também uma questão diplomática bem complicada de se lidar. Se você não está muito por dentro desse assunto ou não se lembra daquele caso, recomendo fortemente que você leia a seguinte matéria: Conheça o "Misterioso" Som que Vem Tirando o Sono dos Moradores da Comunidade de Windsor-Essex, no Canadá.

Além disso, recentemente também fizemos uma matéria sobre supostas "Trombetas do Apocalipse", que teriam ecoado na cidade de Jerusalém, em Israel, porém mostramos para vocês a realidade por trás daquele caso (leia mais: Será Verdade que "Trombetas do Apocalipse" Foram Ouvidas no Início do Mês de Outubro na Cidade de Jerusalém, em Israel?). Apesar de ambas serem notícias ou situações totalmente diferentes, uma coisa elas têm em comum quando são divulgadas por boa parte da imprensa: "o mistério por trás de um som misterioso". Então, normalmente cria-se todo um espétaculo para se noticiar algo, e rapidamente surgem manchetes como: "Misterioso som do fundo do mar assusta canadenses", "Ruído misterioso do fundo marinho provoca perplexidade entre habitantes locais" ou então "Militares canadenses investigam estranho som no Ártico". Aliás, geralmente quando acontece uma competição pelo título mais chamativo ou apelativo, é sinal que o que está sendo noticiado merece um pouco mais de atenção e reflexão do que a euforia propriamente dita e causada pelo "mistério do som misterioso".

Dessa vez contaremos a história sobre um "som misterioso", que aparentemente estaria vindo do fundo do mar e deixando assustados os habitantes de uma aldeia chamada Igloolik, da nação indígena esquimó conhecida como Inuíte, que habita as regiões árticas do Canadá, do Alasca e da Gronelândia. Igloolik fica localizada na bacia de Foxe, região de Qikiqtaaluk, no território Nunavut, no norte do Canadá. E, apesar de possuir pouco mais de 1.400 habitantes (segundo o último censo realizado em 2011) essa aldeia acabou virando notícia recentemente devido a esse "som misterioso". O problema seria tão grave que Peter Taptuna, primeiro-ministro da administração territorial de Nunavut, teria solicitado ao Departamento de Defesa Nacional do Canadá, que fosse iniciada uma investigação sobre o assunto, visto que o som estaria expulsando populações de animais selvagens e consequentemente prejudicando a caça. Teorias para o que está acontecendo, é claro, não faltam. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como Tudo Isso Começou a Ser Divulgado: A Notícia Publicada no Site da CBC


Toda essa história sobre um som misterioso, que poderia ser ouvido em Igloolik começou quando o caso foi noticiado pelo repórter Jimmy Thomson, que publicou um texto sobre o assunto no site da CBC (Canadian Broadcasting Corporation, em inglês, ou Société Radio-Canada, em francês), que por sua vez é a rede pública de rádio e televisão do Canadá (também conhecida por CBC/Radio-Canada), no dia 2 de novembro, ou seja, na terça-feira passada. Acompanhe conosco o que foi noticiado:

"Caçadores de uma comunidade remota em Nunavut estão preocupados com um som misterioso que parece estar vindo do fundo do mar. O som de um 'ping', às vezes também descrito como um 'zumbido' ou 'bip', estava sendo ouvido no estreito de Fury e Hecla, que é um estreito canal de água localizado na região de Qikiqtaaluk em Nunavut, no Canadá - cerca de 120 quilômetros a noroeste da aldeia de Igloolik - durante todo o verão.

Paul Quassa, um membro da Assembleia Legislativa de Nunavut, disse que independentemente de qual fosse a causa, o som estava espantando os animais para longe.
Paul Quassa, um membro da Assembleia Legislativa de Nunavut, disse que independentemente de qual fosse a causa, o som estava espantando os animais para longe.
'Essa é uma das principais áreas de caça no verão e no inverno porque é uma polínia', disse Paul Quassa. Vale ressaltar que uma polínia é uma uma área aberta de água cercada por gelo, que é abundante em termos de mamíferos.

'E desta vez, neste verão, quase não havia nenhum mamífero, e isso se tornou algo suspeito', continuou. De acordo com as observações apresentadas por Paul Quassa, na Assembleia Legislativa de Nunavut, no mês passado, o som 'emanava do fundo do mar'.

O som de um 'ping', às vezes também descrito como um 'zumbido' ou 'bip', estava sendo ouvido no estreito de Fury e Hecla, que é um estreito canal de água localizado na região de Qikiqtaaluk em Nunavut, no Canadá - cerca de 120 quilômetros a noroeste da aldeia de Igloolik - durante todo o verão
George Qulaut, outro membro da Assembleia Legislativa de Nunavut, disse que visitou o local depois de ouvir os relatos. Embora ele não tenha sido capaz de ouvir o som (alegando que anos de caça o deixaram quase surdo, especialmente para sons agudos), ele notou a ausência da vida selvagem.

'Essa passagem é uma rota migratória para as baleias-da-groenlândia, assim como focas barbudas e focas aneladas. Deveria haver muitas delas naquela região em particular', disse George Qulaut para a CBC News, ao lembrar dos seus próprios dias de caça no local.

"Nesse verão não havia nada", completou.

George Qulaut, outro membro da Assembleia Legislativa de Nunavut, disse que visitou o local depois de ouvir os relatos. Embora ele não tenha sido capaz de ouvir o som (alegando que anos de caça o deixaram quase surdo, especialmente para sons agudos), ele notou a ausência da vida selvagem.
Velejadores a bordo de um veleiro particular, que passava pela região, também disseram que ouviram um som misterioso, o descrevendo durante uma entrevista para um programa de rádio comunitário após a chegada em Igloolik. Inúmeras pessoas ligaram para a rádio para dizer que também tinham ouvido o som.

O som aparentemente pode ser ouvido através dos cascos dos barcos. A CBC News não ouviu o som, e não conversou com ninguém que alegava ter ouvido o mesmo.

Teorias Não Faltam


Ninguém parece saber de onde vem o som, mas as teorias - de ativistas ambientais à mineração - não faltam. Uma teoria aponta a responsabilidade para a Baffinland Iron Mines Corporation. A companhia já havia realizado pesquisas de sonar na enseada Steensby devido a construção de sua mina em Mary River, a sudoeste da enseada Pond.

Ninguém parece saber de onde vem o som, mas as teorias - de ativistas ambientais à mineração - não faltam. Uma teoria aponta a responsabilidade para a Baffinland Iron Mines Corporation. A foto é uma visão área da mina em Mary River.
A companhia já havia realizado pesquisas de sonar na enseada Steensby devido a construção de sua mina em Mary River, a sudoeste da enseada Pond. A companhia disse à CBC News que não está realizando pesquisas na região, e que não possui nenhum equipamento posicionado nas águas da região.
Entretanto, a companhia disse à CBC News que não está realizando pesquisas na região, e que não possui nenhum equipamento instalado ou posicionado nas águas da região.

Farrah Khan, porta-voz do Greenpeace
em Toronto, no Canadá
Paul Quassa disse que nenhuma permissão territorial foi emitida para quaisquer obras, tais como construções, explosões ou hidrográficas na região, o que poderia explicar o som.

'Ouvimos dizer no passado, que grupos como o Greenpeace estavam colocando uma espécie de sonar no fundo do mar para afastar os mamíferos marinhos, de modo que os Inuítes não pudessem caçá-los', disse Paul Quassa.

Esses rumores, embora recorrrentes, nunca foram comprovados.

'Ninguém nunca viu nenhum tipo de navio ou qualquer coisa passando por essa área, e colocando algo no leito oceânico', continuou.

O Greenpeace, é claro, negou veemente a acusação.

'Não só não faríamos nada para prejudicar a vida marinha, como respeitamos muito o direito dos Inuítes de caçar. Definitivamente não iríamos querer causar nenhum impacto ambiental e social de qualquer forma', disse Farrah Khan, porta-voz da organização na cidade de Toronto, no Canadá.

A Investigação Militar


Os militares também estava cientes sobre esse som e disseram que estavam dando atenção a questão.

Uma correspondência interna entre fontes do Departamento Nacional de Defesa, obtida pela CBC News, estava sugerindo que a hipótese da presença de possíveis submarinos não estava descartada, mas também não eram consideradas como uma provável origem do som. Um porta-voz disse à CBC News que as forças armadas estão investigando o caso.

'O Departamento Nacional de Defesa foi informado sobre estranhos ruídos que estavam emanando na região do estreito de Fury e Hecla, e as Forças Armadas do Canadá estão tomando as medidas necessárias para investigar prontamente a situação', escreveu o porta-voz em um comunicado.

"O Departamento Nacional de Defesa foi informado sobre estranhos ruídos que estavam emanando na região do estreito de Fury e Hecla, e as Forças Armadas do Canadá estão tomando as medidas necessárias para investigar prontamente a situação", escreveu o porta-voz em um comunicado.
Igloolik está a cerca de 70 quilômetros ao norte de Hall Beach, uma área militar ativa, que já fez parte das estações de radar da chamada 'DEW line' ('Distant Early Warning Line', em inglês ou algo como ' Linha Remota de Alerta Prévio', em português).

A 'Dew line' era um sistema composto por estações de radar em áreas remotas do Ártico Canadense, com estações adicionais ao longo da Costa Norte e Ilhas Aleutas, além das Ilhas Faroé, Groelândia e Islândia. O sistema foi criado para detectar eventuais bombadeiros soviéticos durante a Guerra Fria e fornecer uma espécie de 'aviso prévio' de uma possível invasão terrestre.

A 'Dew line" era um sistema composto por estações de radar em áreas remotas do Ártico Canadense, com estações adicionais ao longo da Costa Norte e Ilhas Aleutas, além das Ilhas Faroé, Groelândia e Islândia
Enquanto isso, George Qulaut estava preocupado com o impacto do som em animais de caça, que se alimentavam na região há séculos. Por enquanto, a comunidade não tinha respostas sobre o som, suas origens ou o que poderia estar acontecendo com os animais.

'Ainda estamos trabalhando nisso, mas não temos uma única pista sequer', finalizou George Qulaut."

Aliás, caso queira conhecer um pouco mais o povoado de Igloolik, assista a uma espécie de passeio de carro pelo local, que foi publicado em novembro de 2013, pelo usuário Cornes20, no YouTube:



De qualquer forma, essa história sobre um "som misterioso" ficaria "um pouco mais misteriosa" cerca de dois dias depois dessa notícia publicada na CBC, após a verificação por parte dos militares canadenses.

A Força Aérea Real Canadense Não Detectou Nenhum Som Anormal na Região


No dia 4 de novembro, ou seja, na quinta-feira passada, uma nova notícia sobre esse "som misterioso" foi publicada no site de notícias Nunatsiaq News. A notícia dizia que as forças armadas canadenses não observaram nenhum som incomum durante uma varredura realizada no estreito de Fury e Hecla, após um pedido oficial feito pela administração territorial de Nunavut para investigar um misterioso som ao norte de Igloolik, e que tinha sido relatado por marinheiros e caçadores em junho desse ano.

Segundo um email enviado por Ashley Lemire, assessora de imprensa sênior do Departamento Nacional de Defesa do Canadá, para o site Nunatsiaq News, no dia anterior (3), uma aeronave CP-140 Aurora foi deslocada para a região para a chamada "Operação LIMPID" e não registrou quaisquer ruídos artificiais que pudessem estar sendo emanados no local.

A tripulação realizou diversas buscas multi-sensoriais na região, incluindo uma busca acústica por cerca de uma hora e meia, sem detectar quaisquer anomalias acústicas. A tripulação também não detectou nenhum contato superficial ou subsuperficial.

Segundo um email enviado por Ashley Lemire, assessora de imprensa sênior do Departamento Nacional de Defesa do Canadá, para o site Nunatsiaq News, no dia anterior (3), uma aeronave CP-140 Aurora foi deslocada para a região para a chamada "Operação LIMPID" e não registrou quaisquer ruídos artificiais que pudessem estar sendo emanados no local
De acordo com o site das forças armadas do Canadá, a "Operação LIMPID" é uma vigilância interna de rotina em áreas pertencentes ao governo canadense, assim como territórios, espaço áereo e ciberespaço, assim como o espaço marinho, para "detectar, dissuadir, prevenir, antecipar e derrotar ameaças direcionadas a interesses canadenses".

Paul Quassa relatou sobre essa atualização do Departamento Nacional de Defesa para os demais membros da Assembleia Legislativa, na sessão do dia 3 de novembro, mas também pediu para que os caçadores de Igloolik permanecessem atentos.

"Queremos agradecer ao Departamento Nacional de Defesa por ter realizado uma investigação sobre isso imediatamente após informá-los, e eu sei que eles vão continuar investigando isso. Eles também continuarão sendo informados pelos caçadores conforme encontrem alguma coisa. Encorajo os caçadores a continuarem informando o Departamento Nacional de Defesa em relação ao que escutarem", disse Paul Quassa.

Paul Quassa (na foto) relatou sobre essa atualização do Departamento Nacional de Defesa para os demais membros da Assembleia Legislativa, na sessão do dia 3 de novembro, mas também pediu para que os caçadores de Igloolik permanecessem atentos
De acordo com as declarações originais de Paul Quassa sobre o "som misterioso", na sessão dos dias 24 e 25 de outubro da Assembleia Legislativa, caçadores tinham relatado uma diminuição na população de animais na região do som, e sugeriram que o barulho estava os afastando.

Conhecida como "Aukkannirjuaq", no idioma do Inuítes (Inuktitut), a região ao reador dos estreitos é classificada como uma polínia, uma região de corrente quente frequentemente sem gelo, mesmo no inverno. É geralmente o lar de uma rica diversidade de espécies, incluindo peixes, focas, morsas e baleias.

"A tripulação a bordo da aeronave Aurora observou dois grupos de baleias e seis morsas na região indicada", dizia o comunicado do Departamento Nacional de Defesa. Vale lembrar que o som foi originalmente relatado os líderes da comunidade em Igloolik por velejadores que passavam pelo estreito de Fury e Hecla em junho, no qual a anomalia acústica foi registrada pelo equipamento de sonar.

"Após a investigação pelo Departamento Nacional de Defesa, o ruído aparentemente parou. Algumas vezes existem coisas misteriosas acontecendo, e existem pessoas lá fora que relatam quando veem ou escutam essas coisas misteriosas. Portanto, agradecemos ao povo de Igloolik por relatar isso", finalizou Paul Quassa.

Alguns Questionamentos Sobre o "Misterioso Som" nos Arredores de Igloolik


Vamos recapitular o que sabemos sobre esse "som misterioso" lá no extremo Norte do Canadá. Primeiramente, teria sido em junho (verão no Hemisfério Norte) que pessoas à bordo de um veleiro que passava pelo estreito de Fury e Hecla teriam registrado o estranho o som através de equipamentos de sonar e, então, informado ao povoado de Igloolik por meio de uma rádio comunitária. Após quatro meses de aparente silêncio sobre o assunto, o mesmo voltou à tona com declarações de um deputado chamado Paul Quassa, da Assembleia Legislativa da administração territorial de Nunavut, entre os dias 24 e 25 de outubro, quando o mesmo relacionou o misterioso som com a diminuição da fauna marinha, mais especificamente dos mamíferos marinhos, da região.

Peter Taptuna, primeiro-ministro da administração
territorial de Nunavut
Em seguida, o Instituto de Pesquisa de Nunavut, assim como outras agências regulatórias foram consultadas e descobriu-se que não tinham sido liberadas quaisquer autorizações ou licenças para a utilização de equipamentos sonoros na região. Assim sendo, o escritório do primeiro-ministro Peter Taptuna, da administração territorial de Nunavut, entrou em contato com o Departamento de Defesa Nacional em Ottawa, no Canadá, que respondeu que iria tomar as medidas necessárias para investigar o assunto. Por fim, em uma varredura aérea por parte da Força Aérea Real do Canadá, não encontrou quaisquer anomalias sonoras. Basicamente isso.

Curiosamente, o que vocês não sabem é que no dia 31 de outubro, cerca de 3 dias antes da notícia publicada pela CBC acabar viralizando ao redor do mundo (e ganhar diversas hipóteses mirabolantes ao longo do caminho), o site Nunatsiaq News tinha publicado uma notícia sobre esse assunto.

O texto dizia, que Paul Quassa havia mencionado que o som era detectável apenas por equipamento de áudio, mas não pelo ouvido humano, contrariando informações da CBC News, que chegou a citar um programa de uma rádio comunitária onde moradores ligaram dizendo que já tinham ouvido um estranho som. E isso tudo gera alguns questionamentos:
  • Que som é esse foi registrado em junho? Em nenhum site encontramos quaisquer cópias do som que teria sido registrado e eventualmente escutado por moradores de Ilnoolik. No YouTube, a situação é ainda mais caótica, porque diversos canais, conspiratórios ou não, passaram a divulgar diferentes sons na tentativa de chamar público, monetizar e ganhar dinheiro com o acesso das pessoas. Não há nenhum indicativo, que qualquer som relacionado a esse caso seja autêntico no YouTube, pelo contrário, os sons apresentados são referentes a outras localidades.
  • Se o som é detectável apenas por equipamentos, conforme mencionado por Paul Quassa, como explicar que moradores locais também tinham ouvido um estranho som? Será que todos ouviram o mesmo som ou pensaram que ouviram a mesma coisa?
  • Se toda essa história começou ou foi confirmada em junho, devido a um veleiro que detectou uma anomalia sonora através de um equipamento de sonar, ao passar pelo estreito de Fury e Hecla, então por qual razão somente após quatro meses que a administração territorial de Nunavut resolveu se preocupar com a situação? Não deveriam ter notado a diminuição da fauna marinha ao longo do ano?
São questionamentos muitas vezes sem uma resposta conclusiva, porém a diminuição da população de mamíferos marinhos na região não é algo nada recente. É muito mais antigo do que as pessoas podem imaginar.

A Diminuição da Fauna Marinha é um Problema Bem Antigo em Nunavut


Em entrevista para o site Nunatsiaq News, um homem chamado Zacharias Kunuk, que produziu e dirigiu um filme chamado "Atanarjuat: The Fast Runner", disse que rumores de um som misterioso - ou qualquer que fosse o dispositivo que estivesse produzindo o som - tinham se espalhado por  toda a sua cidade natal de Igloolik.

"Esses dispositivos produzem sons que afugentam a vida selvagem, por isso estamos todos preocupados", disse Zacharias Kunuk, no dia 28 de outubro, acrescentando que o som pudesse estar vindo de um dispositivo que acabou caindo de um dos inúmeros navios de grande porte que passam pelo estreito de Fury e do Hecla durante o verão. Kunuk ainda tinha uma opinião diferente sobre o "desaparecimento" da vida selvagem, visto que poderia ser apenas coincidência.

"Esses dispositivos produzem sons que afugentam a vida selvagem, por isso estamos todos preocupados", disse Zacharias Kunuk, no dia 28 de outubro, acrescentando que o som pudesse estar vindo de um dispositivo que acabou caindo de um dos inúmeros navios de grande porte que passam pelo estreito de Fury e do Hecla durante o verão
"Esse ano não há nenhum gelo flutuante, então as focas devem ter ido para algum lugar. Há apenas algumas na região", completou Zacharias Kunuk.

Além disso, existe um artigo publicado no site da IsumaTV, uma espécie de plataforma multimídia colaborativa para cineastas indígenas (principalmente os Inuítes) e veículos de comunicação, em 2012, relatando a diminuição da vida selvagem na região onde o som misterioso estaria ocorrendo.

David Irngaut (à esquerda), presidente
da "Igloolik Hunters and Trappers"
No artigo escrito por Ashleigh Gaul foi entrevistado um homem chamado David Irngaut, que não se lembrava há quanto tempo ele era presidente da "Igloolik Hunters and Trappers", mas ele se lembrava do primeiro caribu que ele matou na localidade chamada "Mary River", quando tinha apenas 11 anos de idade.

"Eu estava com meu tio, e quando terminamos de matá-lo, ele disse: 'Vamos comer a medula óssea'. Ele me disse para encontrar duas pedras para esmagar o osso", disse David Irngaut. As primeiras pedras que ele encontrou eram minério de ferro.

De acordo com o arqueólogo Robert McGhee, em seu livro chamado "The Last Imaginary Place", os antepassados do Inuítes modernos estabeleceram-se no assentamento de Mary River ao migrar na busca por minério de ferro. Eles fizeram armas e ferramentas com o minério, e o comercializava ao leste da Gronelândia, e ao oeste da Ásia.

"Todo verão eu vou lá. Durante o inverno, onde eles vão construir a ferrovia e o porto, é uma área destinada a caça de caribus, principalmente para vestuário", continuou Irngaut.

A "Igloolik Hunters and Trappers" é uma associação dos caçadores e pescadores de Igloolik
"Nos últimos dois anos tenho notado menos focas aneladas e menos focas barbudas nessa região. Baffinland vem testando o sonar para medir a profundidade das águas, e os mamíferos marinhos estão sendo prejudicados. Eu uso muito a pele de foca para fabricar cordas e para alimentação, e tenho notado que está cada vez mais difícil caçar focas", seguiu dizendo.

Ao ser perguntando se a atividade da mineração iria diminuir a atividade da pesca para mais de 350 Iglulimmiut (cidadãos de Igloolik), que na época tinham sua principal renda baseada na caça e na pesca, David respondeu: "Muito provavelmente. Quando os navios passarem pela enseada Steenby e pela bacia de Foxe quase todos os dias, isso irá afetar a rota migratória dos peixes".

"Nos últimos dois anos tenho notado menos focas aneladas e menos focas barbudas nessa região. Baffinland vem testando o sonar para medir a profundidade das águas, e os mamíferos marinhos estão sendo prejudicados. Eu uso muito a pele de foca para fabricar cordas e para alimentação, e tenho notado que está cada vez mais difícil caçar focas", disse David Irngaut
"Em relação aos caribus, eles vão migrar. Eles vão simplesmente atravessar as estradas e seguir em frente, porém os mamíferos marinhos vão se afastar devido ao som e procurar outro lar", completou.

"No entanto, não me importo com a mineração. Vai criar mais oportunidades de emprego para a comunidade. E mesmo que muitos animais se afastem, haverá mais oportunidades para que os caçadores possam encontrá-los", continuou. Com mais pessoas na comunidade gerando renda, David acreditava que as mercearias iriam aumentar os seus preços e, com isso, a procura por alimentos também iria aumentar. Assim sendo, os caçadores também teriam mais oportunidades de vender e ganhar dinheiro.

"Em relação aos caribous, eles vão migrar. Eles vão simplesmente atravessar as estradas e seguir em frente, porém os mamíferos marinhos vão se afastar devido ao som e procurar outro lar", completou David Irngaut.
Na época, David e o conselho de caça estavam trabalhando em uma rota de transporte alternativa no caso de altas concentrações de animais bloqueassem a rota existente.

"Quando me pediram para participar do conselho, eu disse sim, porque quando eu estava crescendo, os Inuítes nunca foram informados ou consultados sobre projetos. Se alguém quisesse iniciar um projeto de mineração, eles apenas começariam um projeto de mineração. Sem reuniões ou audiências. É por isso que eu queria ser um membro do conselho. Eu queria ser ouvido", finalizou David.

De qualquer forma, a mineradora, a Baffinland Iron Mines Corporation criou uma mina em Mary River, a mais de 100 km a nordeste da cidade, sendo que o sonar da varredura lateral foi usado há anos atrás no desenvolvido no porto justamente para escoar a produção da mina e garantir rotas seguras para os navios ao medir a profundidade de diversos trechos por toda a região. Os navios, desde 8 de agosto de 2015, trafegam pela região carregados de minério de ferro.

De qualquer forma, a mineradora, a Baffinland Iron Mines Corporation
implantou uma mina em Mary River, a mais de 100 km a nordeste da cidade
Um sonar da varredura lateral foi usado há anos atrás no desenvolvido no porto justamente para escoar a produção da mina e garantir rotas seguras para os navios ao medir a profundidade de diversos trechos por toda a região
Resumindo, o problema relacionado a diminuição da vida selvagem na região de Igloolik é bem mais antiga e parece estar relacionada diretamente com a mineradora ou com os navios que trafegam pela região. No entanto, vamos fazer uma compilação das hipóteses levantadas pela mídia especificamente sobre esse "som misterioso".

As Hipóteses Levantadas Sobre o "Som Misterioso" nos Arredores de Igloolik


Essas são as hipóteses levantadas para o "som misterioso" de Igloolik:
  • Submarinos: Igloolik está a cerca de 70 quilômetros ao norte de uma área militar chamada "Hall Beach". Os militares disseram que estavam investigando as reclamações em relação ao som. Pouco tempo depois, fizeram uma varredura aérea na região, mas não encontraram nenhum som anômalo.
  • Greenpeace: Paul Quassa, um dos membros da Assembleia Legislativa de Igloolik, disse que já tinha ouvido no passado, que grupos como o Greenpeace estavam colocando sonadores no leito oceânico para afastar os mamíferos marinhos, evitando assim que fossem caçados pelos Inuítes. Porém, nenhuma embarcação foi avistada, e o Greenpeace negou que tenha feito algo desse tipo.
  • Mineração: Aparentemente, nenhuma atividade de mineração incomum poderia estar relacionada ao som. A Baffinland Iron Mines Corporation disse que não possuía equipamentos de sonar nas águas da região.
  • Atividade Marinha: Paul Quassa disse que nenhuma autorização ou licença havia sido emitida para obras na região, tais como construções, explosões ou hidrográficas na região, o que poderia explicar o som.
  •  Atividade Sobrenatural / Extraterrestre: Quem duvidou que essa hipótese não seria levantada em algum momento? Ela sempre aparece de uma forma ou de outra. Assim que a notícia da CBC foi publicada, rapidamente surgiram vídeos de alarmistas religiosos ou teóricos da conspiração sobre o "fim dos tempos", "extraterrestres querendo se comunicar" e coisas desse tipo.

    O site do jornal canadense "National Post" chegou a publicar que ao longo dos anos vêm ocorrendo diversos relatos de avistamentos de "objetos misteriosos" nas águas do Ártico Canadense. No final da década de 90 e início dos anos 2000 houve pelo menos uma dúzia de avistamentos de objetos incomuns se movendo ao longo ou logo abaixo da superfície da água, principalmente ao redor da ilha de Baffin.

    Entretanto, os caçadores Inuítes e membros dos Rangers canadenses relataram o que acreditavam ser submarinos de outros países, que estavam patrulhando os territórios do Ártico Canadense. Muitos dos avistamentos ocorreram próximos da enseada de Pond, na ilha de Baffin.

    Um avistamento em particular foi bem documentando: um oficial da RCMP ("Real Polícia Montada do Canadá", em português) e diversos moradores locais viram um "objeto" logo abaixo da superfície, produzindo uma onda de 3 metros enquanto se movia pela água. Algumas semanas depois, um grupo de caçadores viu o "objeto" novamente.

    Os militares canadenses conduziram uma investigação sobre os diversos avistamentos, mas concluíram que fortes correntes ou até mesmo o vento poderia ter causado as ondas incomuns relatadas tanto pelo oficial, quanto pelos Inuítes. Na época, as Forças Armadas Canadenses disseram que não conseguiram encontrar quaisquer evidências de submarinos de outros países operando na região. Vale lembrar nesse ponto, que o Canadá não possui nenhum submarino em operação. Aliás, a "frota submarina" canadense nunca operou, e se transformou sucata ao longo dos anos.
Não está claro se o som é realmente tão misterioso assim, uma vez que o turismo e a atividade industrial vem crescendo na região ao longo dos últimos anos, e para piorar a situação existe uma área militar relativamente próxima. Será que essa crescente atividade industrial ou até mesmo uma causa natural seria a responsável pela diminuição da vida selvagem? Será que os moradores locais estão atribuindo uma responsabilidade equivocada para esse problema em particular?

Enfim, isso não impediu a mídia de especular livremente sobre o que poderia ser o som, mesmo sem tê-lo escutado uma única vez. O site do Huffington Post, em tom de deboche, mencionou que talvez pudesse ser o "Cthulhu" (entidade cósmica criada pelo escritor de terror H. P. Lovecraft em 1926, sendo que a primeira aparição da entidade foi no conto "O Chamado do Cthulhu", publicado na revista "Weird Tales" em 1928). O site da revista "The Week" chamou o som de "fantasmagórico". Já o site do "Morning News USA" mencionou que o som pudesse estar vindo de algum submarino nuclear, devido a uma suposta ameaça relacionada a uma eventual Terceira Guerra Mundial.

E vocês, AssombradOs? Alguém arriscaria um palpite mesmo sem ter ouvido esse som uma única vez? Arriscariam dizer que poderia ser algo "sobrenatural" ou "extraterrestre" mesmo diante de tudo o que foi publicado nessa postagem? Façam sua apostas. Afinal, quem sabe não iremos falar desse som novamente em um futuro próximo?

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://motherboard.vice.com/read/the-canadian-military-is-investigating-a-mysterious-noise-in-the-arctic
http://www.cbc.ca/news/canada/north/ping-beep-hum-sound-arctic-ocean-igloolik-1.3831861
http://doubtfulnews.com/2016/11/igloolik-mystery-sound-sounds-mysterious-but-the-story-leaves-us-cold/
http://www.nunatsiaqonline.ca/stories/article/65674no_unusual_sounds_detected_near_Nunavut_community_armed_forces_reports/
http://www.nunatsiaqonline.ca/stories/article/65674unidentified_underwater_sound_might_be_scaring_away_animals_says_nunav/
http://www.isuma.tv/ashleigh-gaul/where-theyre-building-the-railway-and-where-the-port-will-be-theres-hunting-going-on
http://news.nationalpost.com/news/canada/canadian-military-sends-surveillance-aircraft-to-arctic-to-investigate-mysterious-sounds
http://www.baffinland.com/latest-news/first-shipment-of-baffinlands-mary-river-iron-ore/?lang=en
http://www.baffinland.com/the-project/location-and-project-history/?lang=en
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