15 de novembro de 2016

Campeonato de Coveiros? Conheça a Estranha Disputa Realizada Por uma Exposição Internacional do Setor Funerário, na Eslováquia


Por Marco Faustino

Certa vez me disseram que o "comum" não vira notícia. Então, após a longa matéria a respeito de um cidadão chamado Jeffrey Alan Lash, que muita gente acreditava que seria metade humano e metade extraterrestre, que trabalharia para agências secretas governamentais norte-americanas, mas que no fim muito provavelmente era apenas um cara que explorou emocionalmente diversas mulheres (leia mais: O Caso Jeffrey Alan Lash: Um Híbrido Reptiliano, um Agente Secreto Norte-Americano ou um Estelionatário de Mulheres?), resolvi procurar por algo que fosse mais curto para vocês lerem nesse feriado, mas que continuasse sendo inusitado. Eis que me deparo com algo que sinceramente nunca tinha ouvido falar: um campeonato de coveiro. Sim, isso mesmo que você leu. E se você estiver pensando como seria essa competição, se ela estaria relacionada com quem abre uma cova mais rapidamente, acredite, não era apenas isso não. Sinceramente, a primeira impressão que tive diante da curta notícia que eu li sobre esse assunto foi que isso era algo totalmente banal. Porém, uma notícia não depende somente do que um único lugar conta para você, depende fundamentalmente de outras fontes, que talvez transformem uma mera competição silenciosa em algo um pouco maior, e que mostre um lado que não estamos acostumados a ver.

Esse "campeonato de coveiros" aconteceu na Eslováquia, um país da Europa Central, que faz divisa com diversos países, tais como: Polônia, República Checa, Áustria, Hungria, e a Ucrânia. Aliás, acho que é a primeira vez que promovo alguma notícia da Eslováquia aqui no blog AssombradO.com.br. Enfim, voltando da minha pequena divagação, esse campeonato na verdade foi uma espécie de evento que deu início a "Slovak Funeral 2016", uma espécie de exposição internacional de serviços funerários, sepultamento e cremação, que foi realizada no Centro de Exposições da cidade de Trencin, na Eslováquia, entre os dias 10 e 12 de novembro. Essa foi a terceira vez que a exposição foi realizada, visto que sua periodicidade é de dois em dois anos, ou seja, praticamente uma "bienal".

Se você pensa que esse foi um campeonato isolado e restrito, você se engana. O mesmo foi destinado a promover a chamada "indústria funerária", e trazer uma certa "descontração" a uma profissão séria e que todos deveriam respeitar. Os sites de notícias apontavam que equipes da República Checa, Eslováquia, Polônia e Hungria, teriam competido pelo título dos coveiros mais rápidos e eficientes da Europa Central, na quinta-feira passada, dia 10 de novembro. Vamos saber mais sobre esse assunto?

A Slovak Funeral 2016


De acordo com o site do jornal SME, que é um dos jornais mais lidos na Eslováquia, as informações sobre produtos, serviços e atividades de sepultamento relacionadas aos serviços funerários eram os principais destaque da terceira edição da Slovak Funeral, uma exposição internacional especializada em serviços funerários e cremação da Eslováquia.

Ivana Ridékyová, chefe do Departamento de Marketing do Centro de Exposições de Trencin, disse que os visitantes poderiam se familiarizar com a produção de caixões e acessórios para fornos crematórios, assim como novas tecnologias para refrigeração, transporte, manuseamento e higiene. Ivana destacou outras áreas como o setor de cosméticos e palestras, que aconteceriam sobre as técnicas mais adequadas para o embalsamamento de corpos.

Você também pode conferir detalhes de como foi esse evento através de um vídeo publicado pelo canal "impulz.press", no YouTube (em eslovaco, mas vale a pena conferir para ter uma noção da exposição):



Entretanto, ao contrário do que vinha sindo amplamente divulgado pelas agências internacionais de notícias, Ivana mencionou que a competição de coveiros envolveria apenas quatro duplas (uma de cada país participante), porém a quantidade de envolvidos foi maior (comentaremos isso daqui a pouco). Além disso, estava prevista a participação de alunos de algumas escolas do Ensino Médio em atividades relacionadas a criação de coroa de flores e urnas funerárias.

Veja Como Foi Uma Etapa Classificatória que Ocorreu na Hungria: Rumo Ao Campeonato de Coveiros, na Slovak Funeral 2016


Agora, se você pensa que era apenas se inscrever e participar, você se enganou. Como a maioria dos concursos internacionais, esse campeonato também contava com etapas classificatórias. O que vamos contar a partir de agora está relacionado a um evento realizado na Hungria, em junho desse ano.

"Escavando o caminho para a vitória". Foi assim que a agência internacional de notícias "Associated Press", iniciou no dia 3 de junho, a notícia sobre 18 duplas de coveiros húngaros que exibiram suas habilidades, naquele mesmo dia, visando um campeonato que seria realizado na Eslováquia, no final do ano. Os participantes do concurso realizado na quadra 37A do cemitério público da cidade de Debrecen, no leste da Hungria, estavam sendo julgados pela velocidade, mas também ganhavam pontos em relação a aparência, ou seja, o acabamento dos túmulos.

Os participantes do concurso realizado na quadra 37A do cemitério público da cidade de Debrecen, no leste da Hungria, estavam sendo julgados pela velocidade, mas também ganhavam pontos em relação a aparência, ou seja, o acabamento dos túmulos
Janos Jonas, 63 anos, que formava dupla com seu filho Csaba Halasz, 21 anos, considerou a competição organizada pela Associação Húngara de Agentes e Mantenedores de Cemitérios, como uma espécie de "festa de despedida", já que ele estava a apenas algumas semanas de sua aposentadoria.

"Não precisamos nos preparar de uma maneira especial, porque fazemos isso todos os dias", disse Jonas, do vilarejo vizinho de Hosszupalyi, acrescentando: "Esta é uma boa terra, muito macia e úmida, ideal para o evento."

"Não precisamos nos preparar de uma maneira especial, porque fazemos isso todos os dias", disse Jonas, do vilarejo vizinho de Hosszupalyi, acrescentando: "Esta é uma boa terra, muito macia e úmida, ideal para o evento."
A Reuters entrevistou Csaba, que teria começado nessa profissão, como um mero emprego de verão após completar o Ensino Médio. Embora ele tenha se formado em Educação Física, ele permaneceu no ramo.

"Esse trabalho me escolheu. É díficil, mas vale a pela, Os parentes vêm e sempre me agradecem. A profissão simplesmente me atraiu", disse Csaba.

O organizador da etapa, Iren Kari, disse que esperava que a competição ajudasse a aumentar o respeito e o reconhecimento pela profissão de coveiro, e que isso pudesse, de alguma forma, atrair mais pessoas para o trabalho, que estava correndo risco de extinção no país. Segundo Iren, um dos maiores problemas era a crescente popularidade relacionada as cremações.

Por outro lado, a BBC também ressaltou que os coveiros continuavam sendo necessários, tal como sempre foram, uma vez que muitos cemitérios lotados não conseguiam comportar escavadeiras mecânicas.

A BBC também ressaltou que os coveiros continuavam sendo necessários, tal como sempre foram, uma vez que muitos cemitérios lotados não conseguiam comportar escavadeiras mecânicas.
"Esses homens veem a morte todos os dias, às vezes as pessoas fazem piadas sobre eles enquanto eles trabalham, mas os coveiros também são seres humanos", disse Iren Kari, que defendia que os coveiros tivessem acesso a apoio psicológico para lidar melhor com as tensões geradas pelo trabalho.

"Estamos tendo dificuldades para encontrar substitutos para as pessoas que se aposentam nesse ramo. Os jovens hoje em dia não gostam de cavar e trabalhar", completou.

Todos os competidores tinham pás, ancinhos, machados e picaretas para cavar sepulturas de 0,8 metros de largura, 2 metros de comprimento e 1,6 metros de profundidade, mas nenhuma das duplas pareciam usar a mesma técnica. Alguns preferiam escavar ao mesmo tempo, enquanto outros tinham um homem cavando, enquanto o outro transformava a terra em montes perfeitamente alinhados ao redor do túmulo. Por razões de segurança (como por exemplo, evitar o colapso da parede do túmulo), apenas um membro de cada dupla foi autorizado a trabalhar dentro do túmulo após atingir a profundidade de um metro.

Por razões de segurança (como por exemplo, evitar o colapso da parede do túmulo), apenas um membro de cada dupla foi autorizado a trabalhar dentro do túmulo após atingir a profundidade de um metro.
Depois que cada dupla terminou de cavar, o tempo mais rápido foi de pouco mais de 34 minutos (algumas duplas levaram cerca de 1h). Houve uma breve pausa para descanso, e depois recolocaram a terra de volta nos túmulos, cada um coberto com um montículo de terra.

"Temos um cuidado especial nesses montículos, nos quais colocamos diversas flores, além de coroas de flores", disse Jonas, acrescentando que embora fosse estritamente proibido beber enquanto trabalhava, os parentes acabavam oferecendo uma garrafa de pálinka, um conhaque de frutas bem tradicional na Hungria, como forma de gratificação. Confira um vídeo mostrando os "melhores momentos" dessa silenciosa competição, que foi publicado em um canal de terceiros, no YouTube:



Algumas duplas usavam camisas brancas, gravatas e coletes elegantes, enquanto outros usavam camisetas ou macacões, mas todos estavam suando ao final da competição em um dia quente de primavera.

Algumas duplas usavam camisas brancas, gravatas e coletes elegantes, enquanto outros usavam camisetas ou macacões, mas todos estavam suando ao final da competição em um dia quente de primavera.
"A parte mais difícil do trabalho é lidar com os familiares em luto. Contudo, é um bom trabalho, com bons colegas e um bom ambiente de trabalho", disse o coveiro Laszlo Toth, de Debrecen.

Foi justamente Laszlo Toth ao lado de seu colega Janos Racz, que foram classificados para competir, em novembro, na Slovak Funeral 2016, contra duplas da Polônia, Eslováquia e República Checa. Outras etapas semelhantes aconteceriam nesses respectivos países.

"A parte mais difícil do trabalho é lidar com os familiares em luto. Contudo, é um bom trabalho, com bons colegas e um bom ambiente de trabalho", disse o coveiro Laszlo Toth, de Debrecen.
Foi justamente Laszlo Toth ao lado de seu colega Janos Racz, que foram classificados para competir, em novembro, na Slovak Funeral 2016, contra duplas da Polônia, Eslováquia e República Checa
Zoltan Juracsik, vice-presidente da Associação Húngara de Agentes e Mantenedores de Cemitérios disse que não achava nada disso mórbido, muito pelo contrário. "Essa é uma profissão, e os colegas que estão participando da competição, no dia de hoje, estão orgulhosos e merecem nosso respeito", enfatizou.

O Campeonato da Slovak Funeral 2016


De acordo com o site oficial dessa exposição internacional de serviços funerários, a competição foi realizada às 10h da manhã, da última quinta feira (10), pouco depois da abertura dos portões do Centro de Exposições de Trencin, ou seja, era um evento nitidamente destinado a atrair um público naturalmente curioso para ver como seria uma competição como essa, que tinha inclusive um regulamento bem peculiar.

Desde o começo as equipes deveriam ser compostas apenas por duas pessoas, que obrigatoriamente deveriam ser funcionários ou proprietários de funerárias ou cemitérios. As duplas, por assim dizer, deveriam ter roupas e equipamentos de proteção individual, contendo o logotipo ou o nome da empresa para que pudessem ser claramente identificadas.

Apesar do site de notícias SME ter noticiado, que apenas 4 duplas representando cada um dos países participantes iriam participar desse campeonato, é possível notarmos que existiam mais duplas participantes. Segundo a Reuters, cerca de 10 equipes teriam participado na ocasião.

Além disso, as equipes deveriam trazer seus próprios equipamentos manuais, visto que qualquer equipamento motorizado, escavadeiras ou similares estavam proibidos de serem utilizados. Veja os critérios que seriam avaliados:
  • Tempo para abrir uma cova;
  • Conformidade com as dimensões previamente descritas (medidas 200 x 90 x 150cm);
  • Tempo de realização do funeral em si (recolocação da terra);
  • Acabamento (colocação da lápide no túmulo).
De qualquer forma, não foi a dupla da Hungria que conquistou o primeiro lugar, mas uma dupla composta por dois irmãos, da própria Eslováquia. Ladislav, 43 anos, e Csaba Skladan, 41 anos, cavaram um túmulo de 1,5 metros de profundidade, 2 metros de comprimento e 90 centímetros de largura em apenas 54 minutos. Ambos estavam representando a funerária Peter Pastorok, do pequeno vilarejo de Kalná nad Hronom. Os cinco membros do júri concordaram que o túmulo deles eram o mais elegante de todos.

"Eles fizeram uma camada de cascalho e pedras de 20 a 30 cm. Os outros não tinham isso", opinou Gabriel Draffy, do Crematório Molnar, de Nove Zamky, Eslováquia.

Ladislav, 43 anos, e Csaba Skladan, 41 anos (à esquerda), cavaram um túmulo de 1,5 metros de profundidade, 2 metros de comprimento e 90 centímetros de largura em apenas 54 minutos, e conquistaram o primeiro lugar
Pode até parecer muito tempo, mas para vocês terem uma ideia, em 2004, quando essa competição também havia sido realizada, o tempo foi de 95 minutos, ou seja, um recorde tanto em tempo, quanto em eficiência na prestação do serviço. Confira como foi essa competição através de um vídeo publicado pela agência internacional de notícias Ruptly, no YouTube (em eslovaco, mas como sempre vale a pena conferir):



"Toda essa exposição está relacionada ao encontro de empresas funerárias. Tudo isso se resume a mostrar às pessoas o quão difícil é o trabalho de um coveiro", disse Christian Striz, porta-voz do evento, que se vestiu de "Ceifador" para a ocasião. Aliás, se você viu o primeiro vídeo dessa postagem, é justamente o Christian Striz que aparece ao lado de duas belas assistentes comentando sobre o evento.

Enfim, AssombradOs, apesar da notícia ser curta e até mesmo simples, ela toca em um ponto muito emblemático, que é justamente a profissão de coveiro, razão pela qual trouxe essa notícia para vocês. Normalmente vemos as pessoas que trabalham nessa profissão com um certo preconceito e não adianta mudar o nome para "assistente funerário", porque o politicamente correto não reduz o preconceito. Porém, se formos parar para pensar em um contexto global, Iren Kari pode ter razão em um ponto: em um mundo digital os jovens querem seguir profissões, e estão envolvidos de tal forma com a tecnologia, que até mesmo o "processo de despedida de entes queridos" se transforme ao longo do tempo.

Existem projetos para preservar digitalmente a mente humana, para tentar dar mais tempo de vida aos seres humanos ou até mesmo processos mais radicais, como o transplante de cabeça. Lidar com a morte, e estar pronto para a único destino biológico que aguarda a todos os seres vivos continua sendo um tabu, principalmente em um mundo onde tentamos sentir menos dor. Talvez, nessa profissão, depois de um tempo não se pense mais que a cada vez que a pá entra na terra, é uma pontada no coração dos familiares que algumas vezes presenciam o processo. De qualquer forma, não discriminem ou menosprezem. Caso tenha um parente que seja coveiro, não sinta vergonha. É um trabalho milenar, um trabalho que ninguém quer fazer, mas que alguém precisa. Não é preciso idolatrar, mas saber respeitar e agradecer. E mesmo que não tenha dinheiro para compensar, muitas vezes apenas um aceno de cabeça e sincero "muito obrigado", assim como se aplica a diversas situações na vida, é tão somente o necessário.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://bigstory.ap.org/article/1cc6ab423af94e74a246f93774ba3522/gravediggers-compete-race-judged-speed-and-style
http://mentalfloss.com/article/88627/slovakian-brothers-bury-competition-international-grave-digging-contest
http://nastrencin.sme.sk/c/20380526/vystava-slovak-funeral-prinasa-najnovsie-trendy-v-pohrebnictve.html?piano_d=1
http://www.bbc.com/news/world-europe-36447588
http://www.dailymail.co.uk/wires/ap/article-3924326/Speedy-shovels-shine-Slovakias-gravedigging-contest.html
http://www.reuters.com/article/us-slovakia-gravedigging-idUSKBN13525A
http://www.slovak-funeral.sk/funeral-2016/
http://www.wbtv.com/story/33678561/speedy-shovels-shine-in-slovakias-grave-digging-contest
https://www.theguardian.com/world/2016/nov/10/slovakian-brothers-crowned-fastest-gravediggers-central-europe-trencin
Comentários