27 de outubro de 2016

Astrônomos de Universidade Canadense Teriam Encontrado Cerca de "234 Civilizações Extraterrestres" em Nossa Via Láctea?


Por Marco Faustino

Esse mês de Outubro a bruxa está solta, e olha que esse não é nenhum trocadilho em relação ao "Halloween", que será celebrado em diversas partes do mundo na próxima segunda-feira. Aliás, será na próxima segunda que a Penélope, filha do casal Mateus e Ana Paula fará aniversário, e também dia da inauguração da "Loja Assombrada". Porém, essa "bruxa" que estamos falando, nada mais é do que uma metáfora em relação a enxurrada de notícias relacionadas a Astronomia e Ufologia, que foram publicadas nesse mês nos principais sites de notícias ao redor do mundo. No "fantástico reino" da Ufologia e da Pseudoarqueologia, por exemplo, tivemos o caso sobre os objetos supostamente astecas, que teriam sido mantidos em segredo, e que revelariam o contato com seres extraterrestres, assim como de um artefato de alumínio de "250.000 anos", que teria sido descoberto na Romênia, e que também seria a prova definitiva que extraterrestres teriam visitado a Terra. Mostramos todos os detalhes sobre esses casos, e infelizmente ambos não passavam de fraudes. Isso para não dizer sobre o estranho caso de Max Spiers, aquele "ufólogo" (se é que é possível fazer tal afirmação diante de suas crenças e palestras), que teria morrido de forma misteriosa e deixado uma mensagem caso algo lhe acontecesse. Aquela era uma história bem triste para sua mãe, que até hoje não conseguiu respostas concretas sobre seus últimos momentos de vida, porém, ao contrário do que muitos teóricos da conspiração estavam alegando, acho que ficou bem claro que a maior suspeita estava recaindo sobre amigos e colegas, que estavam mais próximos dele durante sua estadia na Polônia. A imprensa, é claro, não questionou isso, afinal, citar supostos "Homens de Preto" dá mais acesso, ou seja, mais dinheiro.

Já no campo da Astronomia publicamos uma interessante notícia sobre uma surpreendente estimativa feita por astrônomos ao dizerem que o nosso Universo observável teria cerca de 2 trilhões de galáxias. Na época, fizemos uma postagem bem completa para que vocês pudessem entender melhor sobre esse assunto, de uma forma bem mais simples (na medida do possível, é claro). Evidentemente, existem explicações mais aprofundadas sobre a dinâmica da expansão do Universo, bem como o fato que a galáxia de Andrômeda e a Via Láctea estão se aproximando por fazerem parte do chamado "grupo local" (embora ambas estejam se afastando de outros grupos). Não chegamos a abordar isso para evitar confundir a cabeça de vocês, porém as explicações que fornecemos são válidas e importantes para que vocês percam o medo de "ler e não entender" quando o assunto é Astronomia. Outra notícia que ganhou destaque recentemente foi em relação a um artigo publicado por dois pesquisadores de uma universidade canadense, que acabaram encontrando um padrão muito interessante, uma espécie de "sinal" oriundo de 234 estrelas, entre as 2,5 milhões que foram verificadas por eles. O artigo sugeria um comportamento errático, que pudesse ser um "sinal" de vida inteligente, ou seja, os demais astrônomos e cientistas deveriam dar um pouco mais de atenção as mesmas. Existia essa crença de uma hipotética vida inteligente extraterrestre, ou melhor, essa possibilidade velada, algo que vem sendo explorado por muitos sites de notícias. É justamente sobre isso que vamos abordar nessa postagem. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como Tudo Isso Começou?


Antes de mais nada gostaria de fazer duas observações. A primeira, na verdade, é um elogio ao Salvador Nogueira pela excelente publicação que ele fez sobre esse assunto em seu blog chamado "Mensageiro Sideral", no site do jornal "Folha de São Paulo". Quem me avisou sobre a publicação foi o Shiro Suzuki, moderador de nossa página no Facebook, e claro, membro honorário da SSA (Sociedade Secreta dos AssombradOs), um grupo fechado, na mesma rede social, no qual participam todos aqueles, que voluntariamente contribuem para que possamos continuar nosso trabalho em trazer cada vez mais conteúdo e pesquisa sobre os mais diversos assuntos para vocês (saiba mais como participar clicando aqui).

A segunda observação está relacionada aos sites de notícias britânicos, sejam eles de tabloides ou não. Apesar de combater ferranhamente a forma sensacionalista como a notícia é repassada ao público, esses sites são uma espécie de "mal necessário", uma vez que são eles que fomentam o assunto, que mesmo de maneira errada ou fora do contexto original, despertam a curiosidade das pessoas, que eventualmente tentam buscar por maiores informações, e que acabam encontrando a realidade por trás do que é noticiado, seja através do blog "Mensageiro Sideral", seja através do canal "Space Today" no YouTube, do nosso parceiro Sérgio Sacani, que particularmente sempre foi muito generoso comigo em relação as dúvidas que constantemente possuo, seja através da minha humilde contribuição através do blog AssombradO.com.br.

Essa segunda observação é um ponto neuvrálgico de toda essa história, porque o site do jornal "Independent" (que parou de ser impresso em março desse ano), por exemplo, vem ajudando consideravelmente a disseminar esse caso através do seguinte título: "Strange messages coming from the stars are 'probably' from aliens, scientists say" ("Cientistas dizem que estranhas mensagens oriundas de estrelas 'provavelmente' são de extraterrestres", em português). Contudo, foram os sites da New Scientist, Phys.org, e Science Alert, os primeiros a publicarem análises e ponderações sobre esse artigo em um tom bem mais ameno e moderado, é claro.

O site do jornal Independent (que parou de ser impresso em março desse ano), por exemplo, vem ajudando consideravelmente a disseminar esse caso através do seguinte título: "Strange messages coming from the stars are 'probably' from aliens, scientists say" ("Cientistas dizem que estranhas mensagens oriundas de estrelas 'provavelmente' são de extraterrestres", em português)
De qualquer forma, esse não é um assunto que "todo mundo está comentando". As explicações para essa falta de entusiasmo por parte da imprensa são as mais variadas possíveis: a credibilidade do periódico que foi publicado, o fato do SETI não ter dado muita importância (o famoso vou ver, mas não esperem nada, porque não deve ser nada), a onda de possíveis sinais que estariam vindo "desse ou daquele lugar" durante esse ano, e essa repetição de frustrações por ninguém encontrar nada em nenhum lugar (embora o sinal Wow! talvez esteja "próximo" de um desfecho). Contudo, será que esse caso é tão descartável assim? Bem, talvez, quem sabe, nem tanto.

Tudo isso começou em 2012 quando o professor Ermanno F. Borra, do departamento de Física da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá, sugeriu que civilizações extraterrestres poderiam usar um laser como meio de comunicação interestelar. O artigo foi publicado no arXiv, uma espécie de repositório público de documentos científicos. Basicamente, o texto visava deixar os astrônomos cientes que a "busca por inteligência extraterrestre" poderia ser realizada ao analisar espectros astronômicos padrões, incluindo aqueles que eles já possuíam certo conhecimento. A simplicidade seria uma notável vantagem ao realizar uma busca por espectros. 

O professor Ermanno F. Borra, do departamento
de Física da Universidade Laval, em Quebec, no Canadá
A teoria, confirmada por experimentos anteriormente publicados, mostrava que sinais periódicos no espectro poderiam ser facilmente gerados ao enviar pulsos de luz separados por intervalos constantes de tempo. Ermanno F. Borra fez questão de dizer que o seu artigo, assim como todos os artigos sobre "inteligência extraterrestre", era altamente especulativo. De qualquer forma, segundo ele, a tecnologia disponível na Terra, que pudesse ser utilizada no envio de sinais, possuía a energia necessária para ser detectada a uma distância de 1.000 anos-luz. 

Assim sendo, a "inteligência extraterrestre" poderia usar esses sinais para que tivéssemos ciência de sua existência. De acordo com a visão de Ermanno F. Borra, essa técnica também teria uma vantagem para as "inteligências extraterrestres", visto que os sinais poderiam ser detectados tanto em espectros, quanto através de buscas por intensos pulsos, tais como aqueles emanados da Terra.

Resumindo? Se eventuais civilizações extraterrestres estivessem ao nosso redor, elas simplesmente emitiriam um laser exatamente em nossa direção, assim como uma luz estroboscópica. Portanto, veríamos intensas emissões de luz periódicas escondidas no espectro de sua estrela hospedeira. Essas emissões seriam extremamente fracas e bem rápidas, mas através de uma análise matemática seria possível descobrí-las.

"Esse tipo de energia necessária para gerar esse sinal não é loucura", disse Borra, de acordo com o site New Scientist. Na verdade, Borra apontou que a tecnologia, que atualmente possuímos na Terra, especificamente o Laser Helios, no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, nos Estados Unidos, poderia gerar esse tipo de sinal, caso quiséssemos, é claro, dizer para as demais e eventuais civilizações extraterrestres onde estamos localizados.

Visão aérea do Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia, nos Estados Unidos
Eis, que damos um grande salto até outubro desse ano, quando Ermanno F. Borra, e o estudante de graduação Eric Trottier vasculharam cerca de 2,5 milhões de estrelas detectadas pelo projeto "Sloan Digital Sky Survey" (SDSS), o mais ambicioso levantamento astronômico em andamento na atualidade. O SDSS utiliza um telescópio com um espelho primário de 2,5 metros de diâmetro, totalmente dedicado ao projeto. O telescópio está situado no Apache Point Observatory, no Novo México, nos Estados Unidos, e está acoplado a dois poderosos instrumentos: uma câmera CCD e um par de espectrógrafos.

De todas essas estrelas, eles encontraram cerca de 234 que estariam emitindo um intrigante sinal. Essa é apenas uma pequena porcentagem, mas eles disseram que "esses sinais teriam o mesmo padrão que poderia ser utilizado por uma inteligência extraterrestre", assim como foi previsto no artigo publicado por Ermanno Borra, no arXiv, em 2012.

O telescópio com um espelho primário de 2,5 metros de diâmetro, totalmente dedicado ao projeto
"Sloan Digital Sky Survey" (SDSS), o mais ambicioso levantamento astronômico em andamento na atualidade
Ainda segundo a New Scientist, a esmagadoria maioria desses estrelas estariam na mesma classe espectral do nosso Sol, no qual Borra diz que coincide com sua hipótese de que esse padrão de assinatura deve ser o resultado de vida inteligente extraterrestre. Com esses dados em mãos, ele "deu a impressão", que 234 civilizações extraterrestres diferentes umas das outras estariam emitindo pulsos de luz ao mesmo tempo, e com o mesmo intervalo de tempo (cerca de 1,65 picossegundos) em direção à Terra. Estranho, não é mesmo?

Não Entendeu Nada? Vamos Tentar Simplificar Toda Essa História


Em 2012, o astrônomo italiano Ermanno F. Borra disse que seria possível disparar dois pulsos laser separados, por um intervalo de aproximadamente um décimo de nanossegundo para gerar um sinal que indicasse nossa presença a quem estivesse, por acaso, hipoteticamente falando, estudando o espectro (a "assinatura de luz") do nosso Sol. Isso contanto que tivéssemos disparado nossos pulsos de laser exatamente na direção deles, é claro. Então, Ermanno Borra resolveu procurar por esse mesmo padrão caso alguém tivesse pensado o mesmo que ele, ou seja, caso uma civilização extraterrestre resolvesse fazer o que ele pensou e estivesse querendo "se comunicar conosco" e, então, chegaram ao número de 234 estrelas diante das 2,5 milhões que foram verificadas. A grande maioria dos sinais encontrados está concentrada entre as estrelas de tipo K, G e F, que seriam "semelhantes ao nosso Sol". Existe apenas uma estrela do tipo A com um sinal, e nenhuma do tipo M.

Nesse ponto é interessante ressaltar que astrônomos classificam estrelas de acordo com a temperatura superficial, que por sua vez tem uma correlação com o tamanho. Da menor para a maior temos M, K, G, F, A, B e O. As "M" são as anãs vermelhas, como a Proxima Centauri, e motivo de intensa especulação no passado devido a possibilidade de que abriguem planetas habitáveis, visto que são bem menores que o nosso Sol, e possuem suas zonas habitáveis muito próximas de si. No outro extremo, as estrelas "B" e "O", que são bem maiores que o Sol, e completamente caóticas, com uma expectativa de vida de apenas algumas dezenas de milhões de anos, na melhor das hipóteses, é claro.

Nesse ponto é interessante ressaltar que astrônomos classificam estrelas de acordo com a temperatura superficial, que por sua vez tem uma correlação com o tamanho. Da menor para a maior temos, por exemplo, M, K, G, F, A, B e O.
Perto de algumas estrelas que os astrônomos conhecem, nosso Sol não passa de um minúsculo ponto em um gráfico totalmente reduzido, porém proporcional ao tamanho das respectivas estrelas. Impressionante, não é mesmo?
Entre os dois extremos, temos as estrelas K, G, F e A. Elas são as mais "comportadas" ou "estáveis", e vivem um longo período de tempo, pelo menos 400 milhões de anos e, na média, cerca de 10 bilhões de anos. Até onde sabemos é ao redor desses tipos de estrelas que "nasce" o local ideal para o surgimento de uma vida complexa, assim como acontece na Terra. O Sol, por exemplo, é uma estrela de tipo "G". Segundo Ermanno Borra e Eric Trottier, no entanto, não haveria razão para que os sinais se concentrassem em torno desses tipos estelares. Algo que acrescentava uma "pitada a mais de mistério" ao artigo.

Nesse mais recente artigo, publicado no periódico "Publications of the Astronomical Society of the Pacific", em 14 de outubro desse ano, no entanto, ambos reconheceram cinco hipóteses em relação as suas descobertas: os efeitos instrumentais e da redução de dados, as transições rotacionais em moléculas, as transformadas de Fourier de linhas espectrais, pulsações rápidas e, finalmente, o sinal de inteligências extraterrestres previsto por Ermanno Borra em 2012. Eles descartaram todas as hipóteses, exceto duas delas: que o resultado tivesse sido gerado por efeitos instrumentais e pela redução de dados ou então que só poderiam ser um indício de civilizações extraterrestres.
Uma porção de 234 estrelas que poderiam ser fontes de um sinal de vida inteligente extraterrestre. Nota-se que a maioria das estrelas estão em uma faixa espectral entre F2 e K1, que seriam bem "semelhantes" ao nosso Sol
Algumas das estrelas identificadas no artigo publicado por Ermanno F. Borra e Eric Trottier
Entretanto, no decorrer do artigo eles dizem que as alegações precisavam ser confirmadas por mais estudos e, além disso, embora improvável, também existia uma possibilidade de que os sinais estivessem atrelados a composições químicas altamente peculiares em uma pequena fração de estrelas que conhecemos atualmente.

Apesar de ser curioso, o trabalho de Ermanno Borra e Eric Trottier basicamente separou um grupo de 234 estrelas em que poderia estar ocorrendo um fenômeno que nunca vimos anteriormente, que abrigassem civilizações inteligentes extraterrestres ou nem uma coisa e nem outra, ou seja, poderiam ser meros artefatos da ótica instrumental ou introduzidos durante a redução de dados. A questão é que nem mesmo o SETI ficou animado com essa história. Na escala "Rio" de detecção de inteligência extraterrestre, que vai de 0 a 10, os resultados de Borra e Trottier ganharam uma classificação entre 0 e 1, que é interpretada como "nada" ou "insignificante".


O Comunicado do SETI em Relação ao Estudo Publicado por Ermanno Borra e Eric Trottier


Abaixo vocês conferem o que SETI disse em relação ao estudo de Ermanno Borra e Eric Trottier:

"Um recente artigo intitulado 'Descoberta de modulações espectrais periódicas peculiares em uma pequena fração de tipos de estrelas' de Borra e Trottier (2016), da Universidade Laval, em Quebec, relata a detecção de espectral periódica de modulações em 234 de 2,5 milhões de estrelas observadas pelo Sloan Digital Sky Survey (SDSS). Os autores Borra e Trottier mencionam que o sinal é consistente com a previsão de um estudo anterior de Borra, em relação a sinais transmitidos de forma extremamente rápida (inferior a 0.1 nanossegudos) por civilizações extraterrestres a partir de pulsos ópticos sobrepostos à luz das estrelas hospedeiras.

Um em cada 10.000 objetos com espectros incomuns vistos por Borra e Trottier certamente são dignos de um estudo adicional. Entretanto, afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias. É muito cedo para atribuir inequivocamente que esses sinais supostamente sejam atividades de civilizações extraterrestres. Os protocolos de pesquisa para a comprovação de vida avançada além da Terra, internacionalmente acordados pelo SETI, exigem que os candidatos sejam confirmados por grupos independentes usando seus próprios telescópios, e que todas as explicações naturais se esgotem antes de invocar agentes extraterrestres como uma explicação. Um trabalho cuidadoso deve ser realizado para determinar a taxa de falsos positivos, descartar explicações naturais e instrumentais, e a mais importante, confirmar as detecções usando dois ou mais telescópios independentes.

A equipe do Centro de Pesquisa do SETI de Berkeley (BSRC)
adicionou diversas estrelas catalogadas por Borra e Trottier a fila
de observação do telescópio óptico "Automated Planet Finder" (APF)
Picos em análises de Fourier de espectros estelares, como esses discutidos por Borra e Trottier, podem ser causados pela óptica instrumental ou introduzidos durante a redução de dados. Artefatos nos dados, franjas e inconsistências na fabricação dos detectores são conhecidos dos usuários de espectrógrafos de alta resolução por causar padrões diminutos, que aparecem nos espectros resultantes. 

O movimento do telescópio, variações nas condições de observação, e o processo de calibração de comprimento de onda podem facilmente introduzir sinais indesejados em níveis que são apenas precariamente detectáveis. É, portanto, importante checar o suposto sinal usando um telescópio e instrumento diferente.

A equipe do Centro de Pesquisa do SETI de Berkeley (BSRC) adicionou diversas estrelas catalogadas por Borra e Trottier na fila de observação do telescópio óptico 'Automated Planet Finder' (APF) do projeto 'Breakthrough Listen'. As capacidades do espectrógrafo do APF são bem equivalentes às da detecção original, e essas observações de acompanhamento independentes nos permitirão verificar ou refutar as detecções reportadas. Estamos ansiosos para termos a colaboração do do professor Borra e sua equipe em relação a essas observações, assim como acompanhar investigações adicionais usando outras fontes de dados.

A comunidade internacional do SETI estabeleceu uma escala de 0 a 10 para quantificar detecções de fenômenos que podem indicar a existência de vida avançada além da Terra, a chamada "Escala Rio". A equipe do BSRC avaliou o resultado obtido por Borra e Trottier entre 0 e 1 (nada/insignificante). Se o sinal fosse confirmado por outro telescópio independente, sua avaliação aumentaria, embora uma exaustiva análise de outras explicações possíveis, incluindo fenômenos instrumentais, devesse ser realizada antes de considerar a hipótese de que impulsos gerados artificialmente fossem os responsáveis pelo alegado sinal.

O telescópio óptico "Automated Planet Finder" (APF)
O SETI é um campo da ciência que tenta encontrar assinaturas de tecnologias desenvolvidas por outras civilizações além da nossa. Nenhum desses sinais foi encontrado até agora, mas grandes levantamentos prometem expandir as regiões de busca por vida inteligente extraterrestre para que uma detecção ocorra. O projeto Breakthrough Listen, cujo programa científico está aquartelado no Centro de Pesquisa do SETI de Berkeley, no departamento de Astronomia da Universidade da Califórnia, está desenvolvendo tal levantamento.

O Breakthrough Listen é acima de tudo um programa científico procurando responder questões que cercam o passado ou a presença de vida avançada no Universo. Para tal finalidade, o Breakthrough Listen busca a colaboração com instituições acadêmicas, respectivos grupos do SETI, e telescópios ao redor do mundo. O Breakthrough Listen pertence ao portifólio de outras iniciativas, concebidas para estimular o discurso científico para responder a maior pergunta da humanidade: 'Estamos sozinhos?'

Contato: bsrc@berkeley.edu
http://seti.berkeley.edu
"

As Possíveis Implicações do Artigo Publicado por Ermanno Borra e Eric Trottier


O artigo publicado por Ermanno Borra e Eric Trottier foi recebido com muito ceticismo pela comunidade astronômica. Acreditem, muito mesmo. Isso poderia explicar, o porquê essa notícia não ter ganhado tanta repercussão assim. "Eles não consideraram todas as possibilidades naturais e se direcionaram prematuramente ao sobrenatural - por assim dizer. Acho que é muito cedo para fazer tal alegação", disse Peter Plavchan, da Universidade Estadual de Missouri, nos Estados Unidos.

"Talvez não exista alegação mais ousada que se poderia fazer em relação a astrofísica observacional, do que a descoberta de vida inteligente fora da Terra. É incrivelmente e profundamente subjetivo, sendo por essa razão, que muitos de nós dedicamos nossas vidas nessa área, e nos empenhamos tanto para tentar responder a essas perguntas. Contudo, você não pode fazer tais declarações sobre detecções, a menos que você tenha esgotado todos os meios possíveis", disse Andrew Siemion, diretor do Centro de Investigação SETI na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

"Talvez não exista alegação mais ousada que se poderia fazer em relação a astrofísica observacional, do que a descoberta de vida inteligente fora da Terra. É incrivelmente e profundamente subjetivo, sendo por essa razão, que muitos de nós dedicamos nossas vidas nessa área, e nos empenhamos tanto para tentar responder a essas perguntas. Contudo, você não pode fazer tais declarações sobre detecções, a menos que você tenha esgotado todos os meios possíveis", disse Andrew Siemion.
Na verdade, Andrew Siemion acreditava que os padrões espectrais provavelmente foram causados por erros de calibração dos instrumentos ou na análise dos dados, algo que Peter Plavchan também concordava. Aliás, Peter chegou a declarar que a ideia de Ermanno Borra e Eric Trottier não era ruim, mas que eles não tinham feito o "dever de casa". Polêmica à vista.

Já o Salvador Nogueira, responsável pelo blog "Mensageiro Sideral", resolveu "imaginar" se Ermanno Borra e Eric Trottier tivessem realmente razão no que tinham percebido ao encontrarem o mesmo padrão em 234 estrelas, e traduziu isso em duas implicações básicas. A primeira e mais evidente é que o par de pulsos, que supostamente estariam gerando os diversos sinais, teriam exatamente o mesmo intervalo entre eles, ou seja, 1,64 x 10-12 s. Essa é uma escolha, caso realmente tivesse sido uma escolha, completamente arbitrária. Simplificando, se em todas as 234 estrelas tivéssemos civilizações diferentes, elas precisam estar todas cientes umas das outras para optar por enviar a mesma assinatura na nossa direção. Isso, por si só, seria absurdamente improvável. Porém, se fosse esse o caso, implicaria que elas estão em contato entre si por muitos milhares, possivelmente milhões, de anos. Além disso, elas saberiam da nossa existência, que teríamos vida inteligente em nosso planeta, e que isso, talvez. fosse um convite para participar de uma espécie de "federação intergalática" (bastaria enviar o mesmo sinal de volta).

A segunda implicação é que, se esses sinais fossem mesmo de extraterrestres, deveria haver muitas civilizações em nossa Via Láctea. Um número tão grande que faria Carl Sagan soar como um pessimista.
Se levássemos em consideração que essas 234 estrelas representassem aproximadamente 1% de todas as estrelas dos tipos K-G-F na amostra, vamos inevitavelmente chegar à conclusão de que a evolução da vida para a inteligência deve ser extremamente comum.

A segunda implicação é que, se esses sinais fossem mesmo de extraterrestres, deveria haver muitas civilizações em nossa Via Láctea. Um número tão grande que faria Carl Sagan soar como um pessimista
Entretanto, sabemos por estatísticas confiáveis geradas pelo telescópio espacial Kepler, que uma em cada cinco estrelas do tipo K-G-F tem um planeta potencialmente similar à Terra, em termos de dimensões, massa e distância da estrela. Juntando isso com a suposta detecção de Borra e Trottier, teremos um resultado em que a chance de um planeta como a Terra, em torno de uma estrela como o Sol, dar origem a uma civilização inteligente é de apenas 1 em 20.

Resumindo, se esses "234 sinais" ao longo do tempo forem mesmo interpretados como se fosse de origem extraterrestre, teríamos muitas civilizações espalhadas em nossa Via Láctea. Se fôssemos considerar que estrelas dos tipos K-G-F fossem cerca de 20% do total da galáxia, e que a Via Láctea tivesse apenas "100 bilhões de estrelas", usando a amostragem de Borra e Trottier como referência, teríamos cerca de 200 milhões de civilizações espalhadas pela galáxia. Agora, multiplique isso por "aproximadamente" 2 trilhões de galáxias e você perceberia o quão o nosso Universo observável seria povoado. Ainda assim, até hoje não conseguimos dizer, com precisão, que um único sinal recebido seria de uma civilização extraterrestre inteligente. A pergunta, no entanto, permanece a mesma: Onde está todo mundo?

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://astrobiology.com/2016/10/234-sun-like-stars-have-some-curious-spectral-lines-and-signals.html
http://bigthink.com/paul-ratner/astronomers-detect-234-strange-signals-from-stars-say-its-probably-aliens
http://mensageirosideral.blogfolha.uol.com.br/2016/10/26/descobriram-uma-federacao-galactica-alienigena/
http://phys.org/news/2016-10-stars-strange-aliens-contact.html
http://www.natureworldnews.com/articles/30706/20161026/space-aliens-communicating-through-strange-signals-stars.htm
http://www.sciencealert.com/stephen-hawking-s-alien-hunting-project-is-investigating-strange-signals-from-234-stars
http://www.vrrc.ulaval.ca/fileadmin/ulaval_ca/Images/recherche/bd/chercheur/fiche/6863.html
https://arxiv.org/pdf/1210.5986v1.pdf
https://www.newscientist.com/article/2109139-strange-signals-from-234-stars-could-be-et-or-human-error/
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