3 de agosto de 2016

Será Verdade que a Rússia Estaria Enfrentando um "Apocalipse Zumbi" Devido a uma Superbactéria na Sibéria? (Atualizado 04/08)

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Por Marco Faustino

Se tem um assunto que praticamente todos os fãs de assuntos sobrenaturais e de terror adoram, com certeza seria "apocalipse zumbi". Não sei se vocês se lembram, mas no passado, nós já abordamos o tema "zumbi" através dos vídeos "Zumbis: O Real, da Mídia e na Natureza, Casos Comprovados, Apocalipse Zumbi etc..." e "Como Sobreviver a um Apocalipse Zumbi (#39 - Notícias Assombradas)". Contudo, vocês sempre nos cobram (ainda bem que vocês fazem isso!) para falarmos das substâncias sintéticas como os "sais de banho" (a exemplo da "Cloud Nine"), que supostamente "zumbificam" as pessoas, que induziriam as mesmas ao canibalismo, entre outros sintomas. Ainda iremos abordar esse assunto, porém entendam que a quantidade de informação que nos deparamos no dia a dia é bem grande. Sempre que uma notícia em nossa área de atuação ganha uma maior repercussão na mídia ou nas redes sociais, recebemos dezenas de emails nos pedindo para fazer um vídeo sobre o assunto. Então, nossos esforços acabam sendo redirecionados. De qualquer forma, fiquem tranquilos, visto que ainda iremos fazer uma matéria bem completa, e que faça valer a pena o tempo que vocês estão esperando, certo?

Ontem pela manhã (2), no entanto, na SSA (Sociedade Secreta dos AssombradOs), um grupo fechado no Facebook voltado para os nossos patreons (saiba mais como participar clicando aqui) me deparei com uma postagem da usuária Roberta Erthal, que estava compartilhando um link referente a uma notícia publicada anteontem (1) no site da revista Superinteressante intitulada: "Apocalipse zumbi" espalha surto de superbactéria pela Sibéria". A princípio eu achei um título um bem inusitado, principalmente devido a "cabeça da notícia" que continha o seguinte texto: "Parece The Walking Dead, mas é a vida real: autoridades declararam estado de emergência e especialistas recomendam o monitoramento de cemitérios". Não havia nenhuma imagem sobre o incidente na Sibéria, havia apenas a foto de "zumbis". Além disso, estava escrito que a área do incidente havia sido isolada e toda a população, humana ou animal, que saiu da região estava em quarentena. Ainda segundo a publicação, a orientação dos pesquisadores russos era típica dos apocalipses zumbis da ficção: "alerta constante e monitoramento de cemitérios onde vítimas da doença tivessem sido enterradas". Entrentanto, será que isso é mesmo verdade? Estaria mesmo acontecendo um "apocalipse zumbi" na Rússia? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Rápida Análise Sobre o "Apocalipse Zumbi" Mencionado na Notícia Publicada no Site da Revista Superinteressante


A notícia publicada e assinada por Ana Carolina, estagiária da Superinteressante, nos informa na segunda linha do texto, que a região de Yamal-Nenets, na Síbéria, estava enfrentando um surto de antraz. Nesse ponto é interessante mencionar que o antraz (também conhecido por anthrax ou carbúnculo) é uma doença bacteriana causada pelo Bacillus anthracis, bactéria do solo e da vegetação. É uma doença comum entre animais, como gado bovino, camelos, ovelhas, antílopes, cães e cabras, sendo adquirido por eles por meio de sua alimentação. O bacilo causador da infecção pode esporular e, consequentemente, resistir a altos níveis de calor ou frio durante muito tempo até ter condições ideais para seu desenvolvimento. O homem geralmente é infectado apenas quando exposto a animais contaminados, quando tem contato ou consome carne e derivados de animais contaminados.

Um detalhe básico que não é mencionado, é que o antraz não é transmitido de pessoa para pessoa por contato casual, convivência no mesmo ambiente de trabalho ou por tosse ou espirros (evidentemente que se recomenda evitar ao máximo a exposição aos fluidos corporais das pessoas infectadas, mas é necessário a exposição aos esporos do antraz para que a contaminação ocorra). Você pode encontrar essa informação, por exemplo, no site da Fundação da Fiocruz, aqui no Brasil, e também em um documento em português no site do Departamento de Saúde Pública de Massachusetts, nos Estados Unidos (PDF).

Notícia publicada no site da Revista Superinteressante em 1 de agosto desse ano,
dizendo que um "apocalipse zumbi" estaria espalhando um surto de superbactéria pela Sibéria
Também não é informado que o antraz pode infectar as pessoas de três diferentes formas: pela penetração de esporos do antraz na pele com lesões (antraz cutâneo), pela inalação de esporos (antraz pulmonar) ou por ingestão de alimentos contaminados (antraz gastrintestinal). Vamos explicar melhor sobre o antraz para vocês ao final dessa postagem, mas nem de longe é possível comparar o Bacillus anthracis com um "apocalipse zumbi" por diversos motivos: nenhum sintoma do antraz é de ordem neurológica, casos em seres humanos são extremamente raros, e existe medicação e vacina com eficácia de proteção de 93% (contra o antraz cutâneo e pulmonar).

O bacilo causador da infecção pode esporular e, consequentemente, resistir a altos níveis de calor ou frio durante muito tempo até ter condições ideais para seu desenvolvimento
Além disso, existem evidências apontando que seres humanos são relativamente resistentes ao antraz, sendo necessário uma determinada quantidade de esporos inalados ou ingeridos para que de fato ocorra uma contaminação, uma vez que nosso sistema imunológico consegue lidar com a bactéria até determinado ponto. Para que vocês tenham uma ideia, em março de 1995, houve um ataque ao Metrô de Tóquio, que foi perpetrado por membros de um culto apocalíptico chamado "Aum Shinrikyo", onde foi liberado gás sarin em diversas linhas, matando doze pessoas e intoxicando milhares de outras.

Qual a relação disso com o antraz? Bem, antes desse grupo tentar atacar com gás sarin, eles tentaram utilizar o antraz ao menos em cinco ocasiões diferentes e nenhuma delas deu certo, ou seja, apesar de ser considerada uma bactéria letal, não é tão simples assim de se contaminar. O risco maior, por exemplo, seria "pulverizar" os esporos da bactéria, através de aerossol, sobre uma determinada região muito populosa, o que muito possivelmente causaria centenas de milhares ou até mesmo milhões de mortes. Bastaria respirar normalmente para ser infectado. Seria algo bem silencioso, mas não seria tão rápido ou imediato assim, pois existe um período de incubação médio de 3 a 5 dias (não é uma ciência exata, pois os primeiros sintomas podem aparecer em apenas 12h ou até mesmo 40 dias após a exposição), mas nenhuma dessas pessoas se tornaria um "zumbi". Isso ficou bem claro?

Em março de 1995, houve um ataque ao Metrô de Tóquio, que foi perpetrado por membros de um culto apocalíptico chamado "Aum Shinrikyo", onde foi liberado gás sarin em diversas linhas, matando doze pessoas e intoxicando milhares de outras. O mesmo grupo tentou utilizar o antraz ao menos em cinco ocasiões diferentes e nenhuma delas deu certo
Essa relativa resistência do ser humano não impediu, é claro, que tivéssemos surtos, epidemias e até mesmo atentados terroristas envolvendo o antraz ao longo da história recente. Entre os mais notáveis casos tivemos a epidemia no Zimbábue, que começou em 1979 e perdurou até 1984-1985. Mais de 10.000 pessoas foram afetadas, embora com uma taxa de letalidade muito baixa (entre 1 e 2% dos infectados). Na epidemia na Gâmbia relatada por Heyworth et al. (1975), 448 casos de antraz cutâneo foram diagnosticados em humanos com apenas 12 mortes conhecidas. Em 2000, aparentemente "centenas" de pessoas foram afetadas na região de Afar, na Etiópia, muitos com infecções orais e gastrointestinais. O que havia em comum em todos os casos mencionados acima, é que eles estavam relacionados aos processos de retirada do couro e abate de animais doentes e mortos, a manipulação de carne contaminada, e a ingestão de carne crua ou mal cozida.

As taxas de mortalidade são reduzidas nesses surtos pela disponibilidade de penicilina, mas ocasionalmente elas são substanciais, como no incidente de Sverdlovsk, na antiga União Soviética, em 1979, onde estima-se que mais de 100 pessoas possam ter morrido (não há número oficial de mortos, porque a maioria dos registros hospitalares e evidências foram destruídas pela KGB na época). Muitos acreditam que um laboratório secreto, destinado ao desenvolvimento de armas biológicas de guerra, localizado em Sverdlovsk, tenha vazado antraz em forma de aerossol, acidentalmente, por meio de seu sistema de ventilação.

No caso de bioterrorismo ocorrido na cidade de Nova Iorque, no ano de 2001, onde tivemos episódios de disseminação de esporos de antraz (esporos de Bacillus anthracis da cepa Ames), através do sistema postal norte-americano, cerca de 22 pessoas foram clinicamente diagnosticadas com antraz (11 casos pulmonares e 11 casos cutâneos), resultando em 5 mortes. Contudo, esse número de mortos representava uma pequena proporção do número de pessoas realmente expostas, e que não vieram a apresentar quaisquer sintomas.

No caso de bioterrorismo ocorrido na cidade de Nova Iorque, no ano de 2001, onde tivemos episódios de disseminação de esporos de antraz (esporos de Bacillus anthracis da cepa Ames), através do sistema postal norte-americano, cerca de 22 pessoas foram clinicamente diagnosticadas com antraz
Acredita-se que o uso profilático generalizado de antibióticos pela população tenha desempenhando um papel fundamental para a redução do número de pessoas efetivamente infectadas por antraz, visto que a bactéria é sensível a penicilina, doxiciclina, ciprofloxacina, e amoxicilina (muito comum de ser receitado para dores de garganta, por exemplo). Como dissemos, ainda iremos explicar um pouco melhor sobre o antraz para vocês, mas é bom que vocês tenham essa informação para reduzir um eventual "pânico" sobre o assunto.

Não sei quanto a vocês, mas a revista Superinteressante sempre fez parte da minha infância. Colecionava essa revista quando eu era pequeno, e ficava ansioso até o mês seguinte para ir até a banca e comprar a mais recente edição. Com a popularização da internet, as informações ganharam uma velocidade muito maior, ou seja, eu conseguia pesquisar melhor sobre um determinado assunto, muito mais rapidamente e com um custo bem menor. Sempre tive em meu imaginário um respeito considerável pela revista, e ver maneira pela qual a informação está sendo retransmitida pela internet é terrível. Ainda que o texto tenha sido baseado em notícias publicadas no site do jornal "The Siberian Times" e do renomado "The Washington Post", não há muita justificativa para tentar abordar o assunto por esse lado. Enfim, a partir de agora o mais importante é informar corretamente a vocês o que está acontecendo na Rússia.

Como Toda Essa História Começou na Península de Yamal


Essa notícia sobre o surto de antraz na Península de Yamal começou a ser propagada em sites de notícias em idioma russo e em inglês, depois que agências de notícias internacionais começaram a repercutir essa história entre os dias 25 e 26 de julho. Entre essas agências podemos citar, por exemplo, a Interfax (25) e a Associated Press (26). Não é nem preciso dizer que o texto publicado por ambas rapidamente ganhou destaque na mídia internacional, e obviamente a imprensa iria atrás de mais informações.

Imagens de mapas mostrado a Península de Yamal (à esquerda) e a Região Autônoma de Yamal-Nenets (à direita)
Inicialmente, de acordo com a AP (Associated Press), as autoridades russas estavam evacuando os pastores nômades de renas e colocando uma região da Sibéria em quarentena, após um surto de antraz ter matado mais de 1.000 animais. O aparecimento da doença bacteriana na região de Yamal-Nenets seria o primeiro surto de antraz, com consequências fatais, registrado naquela região da Rússia em 75 anos.

O Gabinete do Governador Dmitry Kobylkin (Дмитрия Кобылкина), que administra a Região Autônoma de Yamal-Nenets (Ямало-Ненецкого автономного округа), na Sibéria Ocidental, localizada a 2.000 km de Moscou, capital da Rússia, havia dito que 13 pessoas, incluindo crianças, tinham sido hospitalizados devido a doença, e 63 pessoas tinham sido potencialmente expostas ao antraz. Os pastores de renas estavam sendo evacuados para a capital regional de Salekhard.

Dmitry Kobylkin, Governador da Região Autônoma de Yamal-Nenets (à esquerda)
A Interfax, por sua vez, tinha sido bem mais informativa, mencionando trechos do que havia sido oficialmente divulgado. De acordo com essa agência de notícias, a situação começou a chamar atenção, uma semana antes (entre os dias 18 e 22 de julho), quando surgiram relatos de diversas renas mortas na tundra da região. Uma vez que o mês de junho tinha sido extremamente quente na região (lembrando que é verão no Hemisfério Norte) e bateu recorde de temperatura para o período, muitos começaram a associar que as mortes tinham sido devido as altas temperaturas (de até 35ºC), ou seja, as renas teriam morrido de insolação por não estarem devidamente acostumadas e adaptadas a essas condições climáticas adversas.

A situação começou a chamar atenção, uma semana antes (entre os dias 18 e 22 de julho),
quando surgiram relatos de diversas renas mortas na tundra da região
Todavia, o resultado das análises em laboratório indicaram que muitos animais tinham morrido em decorrência do antraz, o que disparou um alerta sem precendentes, visto que o último caso fatal ocorrido especificamente na Península de Yamal teria sido em 1941, ou seja, praticamente 75 anos atrás (sendo que a região era considerada formalmente livre da bactéria desde 1968). Não se sabia exatamente o número de renas que poderiam ter morrido em decorrência do calor, do antraz ou da combinação de ambos, mas o governo local não quis contar com a sorte.

"Tomamos todas as medidas necessárias para isolar o surto. Agora, o mais importante é a segurança e a saúde dos nossos cidadãos, - os pastores de renas e especialistas estão trabalhando em conjunto na zona de quarentena", disse o govenador Dmitry Kobylkin (Дмитрия Кобылкина), em comunicado oficial publicado no site do Governo da Região Autônoma de Yamal-Nenets, na terça-feira retrasada (26).

O surto ocorreu basicamente no Distrito de Yamalsky (uma subdivisão da Região Autônoma de Yamal-Nenets), um território que ocupa praticamente toda a Península de Yamal. Os helicópteros passaram a ser os principais meios de transporte para realizar a evacuação de cerca de 12 famílias de nômades, principalmente do acampamento de "Tarko-Sale Faktoriya", e nos arredores de uma localidade conhecida por "Yaro To lake".

O surto ocorreu basicamente no Distrito de Yamalsky (uma subdivisão da Região Autônoma de Yamal-Nenets), um território que ocupa praticamente toda a Península de Yamal. Os helicópteros passaram a ser os principais meios de transporte para realizar a evacuação de cerca de 12 famílias de nômades
Mapa mostrando a localização do acampamento de "Tarko-Sale Faktoriya",
localizado a cerca de 300 km de Salekhard
Entretanto, o antraz já tinha mostrado sua força no Hospital de Salekhard, onde cerca de 13 pessoas estavam sendo mantidas isoladas, sendo que quatro eram crianças. Duas dessas quatro crianças estavam internadas em estado grave.  De acordo com o site "The Independent Barents Observer", era incomum a ocorrência antraz em seres humanos ao norte da Europa e da Sibéria. Sem tratamento, o risco de morte por antraz cutâneo era de 24%.

Cerca de 4 crianças tinham sido internadas no Hospital de Salekhard, sendo que duas estavam em estado grave
Por outro lado o governo rapidamente deu início a uma campanha de vacinação em massa nas renas da região. Cerca de 3.000 renas (dos rebanhos dos criadores, é claro) foram vacinadas em menos de 48 horas para tentar impedir o avanço do antraz para outras localidades.

Entretanto, o processo em si era mais complexo do que isso:
  • Os corpos das renas, que tivessem eventualmente morrido, seriam incinerados separadamente no local onde vieram a falecer (os animais não seria incinerados juntos para evitar que a doença se espalhasse);
  • Aqueles que fossem encontrados em um raio de 4 a 5 km da zona de quarentena estabelecida seriam enterrados em uma espécie de "grande cemitério" em um local seguro, porém onde as pessoas e as demais renas teriam que evitar durante décadas;
  • Os animais doentes teriam que ser sacrificados, porém amostras seriam enviadas para uma análise suplementar em Moscou, capital da Rússia;
  • O animais que estivessem saudáveis receberiam a vacinação mencionada anteriormente;
  • A possibilidade de vacinação em massa de todos os nômades também não estava descartada até então.

Cerca de 3.000 renas (dos rebanhos dos criadores, é claro) foram vacinadas em menos de 48 horas
para tentar impedir o avanço do antraz para outras localidades
A razão para isso era a resistência dos esporos de antraz a variação climática, que podem permanecer na natureza por mais de 100 anos. Em situações de muito frio eles entram em estado de "dormência", ou seja, esporulam e ficam inativos, mas isso não quer dizer que estejam mortos. Quando a temperatura aumenta, a resistência dos esporos diminui, porém ganham uma maior mobilidade, ou seja, ficam mais ativos na espera por um hospedeiro.

Ainda foi destacado também um outro trecho do comunicado oficial, onde o governo local dizia que não existiam "cemitérios de gado" na região onde aconteceu o surto de antraz, porém as renas poderiam ter entrado em contato com algum animal, que tivesse morrido em algum outro surto décadas atrás (sendo exposta sua carcaça no ambiente devido ao "descongelamento" do solo devido ao calor), ao procurar por locais para pastar. Em seguida, teriam começado a se infectar mutuamente, por contato, através das feridas pelo corpo.

Acompanhem também mais detalhes em uma reportagem realizada pelo Canal Russia 24 (Россия 24), e publicada no dia 26 de julho em seu próprio canal no Youtube (em russo):



O site do jornal "The Siberian Times" também acrescentou na época algumas informações interessantes, e ao mesmo tempo tristes, sobre o que estava sendo informado pelo governo local. Segundo Vyacheslav Khritin, chefe do Centro Veterinário de Salekhard, os filhotes de renas que não estivessem na companhia de suas mães, ou seja, cujas mães estivessem entre os animais mortos, teriam que ser sacrificados, visto que eles teriam como ser amamentados. Nesse ponto é interessante comentar um pouco sobre as renas para que vocês possam entender melhor essa parte.

As renas são mamíferos herbívoros que habitam na Tundra Ártica (Canadá, Alasca, Rússia, Gronelândia e norte Europeu). Possuem cascos flexíveis e bastante largos que lhes permitem, por um lado, andar sobre a neve e sobre a lama sem que afundem, e, por outro lado, escavar a neve à procura de comida. Vivem em rebanhos liderados, geralmente, pelo macho que possui os chifres maiores. Estes rebanhos, no verão, são formados principalmente por fêmeas e filhotes.

As renas são mamíferos herbívoros que habitam na Tundra Ártica, e possuem cascos flexíveis e bastante largos que lhes permitem, por um lado, andar sobre a neve e sobre a lama sem que afundem, e, por outro lado, escavar a neve à procura de comida
No outono, os machos solitários juntam-se aos rebanhos e competem com machos rivais para reunir grupos de fêmeas e acasalar (nos meses de setembro e outubro). A gestação é de 33 a 35 semanas, ou seja, em meados da primavera (nos meses de maio e junho), quando a neve já se encontra parcialmente derretida, nascem 1 ou 2 filhotes, que são capazes de correr logo que nascem. Nessa altura há mais alimento para as mães, o que permite amamentar os filhotes. Resumindo, sem as mães para amamentar, os filhotes não sobreviveriam naturalmente na natureza. É bem cruel, mas é basicamente isso.

As renas são criadas devido à sua carne, leite, pele (usada para fabricar tendas, botas e peças de vestuário) e chifres (para cabos de facas e colheres, sendo que dos animais mais jovens é extraído "gelatina"). Se em algumas pequenas fazendas são criados bovinos e caprinos em nosso país, na península de Yamal são criadas renas. Apesar do conceito que temos sobre elas, é algo absolutamente normal naquela região.

A Preocupação Devido a Possibilidade de Propagação do Antraz na Península de Yamal


O professor Florian Stammler, do Centro Ártico, pertencente a Universidade de Lapland, na Finlândia, no entanto, demonstrou sua preocupação com a situação em um blog administrado pela equipe de pesquisa antropológica, que ele mesmo coordena. Segundo ele, a localidade onde aconteceu o surto é uma importante e movimentada rota utilizada por pastores nômades de renas em todas as épocas do ano. Os nômades que possuem uma rota migratória mais longa, já começam a migrar para o norte, a partir do começo do mês de maio, ainda na primavera, em direção aos campos de pastagens de verão.

A segunda "onda" de pastores de renas utilizam o local como estadia no período do verão, onde diversas famílias acabam se reunindo, bem como agrupam os pequenos rebanhos para formar um ainda maior. O objetivo é amenizar o incômodo causado por mosquitos, que chegam a ingerir 100 ml de sangue de um animal por dia (além de pertubar consideravelmente os nômades). Além disso, muitas pessoas acampam nas proximidades de "Yaro To lake" para pescar durante o verão.

O professor Florian Stammler, do Centro Ártico, pertencente a Universidade de Lapland, na Finlândia
No outono, o local onde aconteceu o surto é utilizado como passagem para os pastores que estão voltando das pastagens de verão, assim como aqueles que se dirigem para os abatedouros, localizados ao sul da Península de Yamal. No inverno, alguns outros pastores também fazem uso do local, e coletam suprimentos a partir de um entreposto comercial em "Tarko Sale", uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes pertencente ao distrito de Purovsky, na Região Autônoma de Yamal-Nenets, e localizada a 810 km de distância de Salekhard.

De acordo com Florian Stammler, isso demonstrava que o local era intensamente utilizado. Devido à grande mobilidade dos pastores de renas que fazem uso do local, era necessário que houvesse um cuidado ainda maior por parte das autoridades para evitar que o antraz se espalhasse por toda a Península de Yamal.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre a cidade de Salekhard e Tarko-Sale.
O círculo vermelho no mapa indica o principal local onde aconteceu o surto de antraz (Tarko-Sale Faktoriya)

O jornal "The Siberian Times", no entanto, incialmente destacou o pronunciamento das autoridades locais dizendo que não havia quaisquer riscos da doença se espalhar pela Península de Yamal ou quaisquer outras regiões da Rússia. Apontou também uma questão bem interessante, dizendo que esse incidente poderia afetar seriamente as exportações de carne da Rússia, mas precisamente de venison (termo genérico para se referir a "carne de caça", que pode ser de cervos, renas, entre outros animais), para países como a Alemanha, Suécia e Finlândia, muito embora as autoridades descartassem categoricamente essa possibilidade.

"Este caso não afetará as exportações ou a qualidade da carne. Não foram descobertos quaisquer outros focos (de infecção por antraz), e medidas de controle e segurança foram implementadas na região. Não há quaisquer chances que a carne infectada passe pelos abatedouros, uma vez que cada parte é cuidadosamente verificada em conformidade com os mais elevados padrões", disse uma porta-voz do governo local.

"Estamos interessados em exportar carne de caça de alta qualidade tal como sempre fizemos. Temos uma história de longo prazo com parceiros internacionais que confiam em nós, e nossa reputação é preciosa. Esperamos que essa situação não tenha impacto em relação aos produtos originados de Yamal", completou.

Novas Informações Sobre o Surto de Antraz Começam a Ser Divulgadas pela Mídia Internacional


Entre os dias 27 e 30 de julho, houve uma grande movimentação por partes dos sites de notícias a respeito do surto de antraz na Península de Yamal, na Rússia. Todos queriam saber o que estava realmente acontecendo, e o impacto que isso poderia causar no país ou eventualmente ao redor do mundo.

O site da "NBC News" apontou que as autoridades locais estavam analisando a melhor forma descartar as renas mortas. O método mais comum nesses casos, a incineração dos corpos, poderia trazer consequências graves, uma vez que a Sibéria já estava sofrendo desde junho com os incêndios florestais. A vegetação seca devido as altas temperaturas tinham favorecido as queimadas. Aliás, as temperaturas na tundra de Yamal, acima do Círculo Ártico, atingiram máximas de 35ºC nesse verão, em comparação com uma média de 25ºC em anos anteriores.

A vegetação seca devido as altas temperaturas tinham favorecido as queimadas na região da Sibéria,
que já estava sofrendo desde junho com os incêndios florestais

Imagens de satélite mostrando a região da Sibéria, na Rússia, nos dias 20 e 26 de julho desse ano. Os pontos em vemelho mostram os focos de incêndio na região (note a quantidade nos arredores da Península de Yamal, assim como a fumaça)
A notícia também contava com a participação de Vladimir Bogdanov, professor de Biologia da Academia de Ciências da Rússia, dizendo que poderia ser tarde demais para os animais da região, visto que o antraz poderia matar uma rena em apenas 3 dias após o contágio. Ele ainda destacou que as autoridades em Yamal pararam de vacinar as renas há 10 anos, porque não tinha havido mais nenhum surto durante mais de meio século. Aparentemente, isso teria se provado um erro grotesco das autoridades locais. Porém, de acordo com o Siberian Times, as autoridades insistiam em dizer, que no ano passado, quase meio milhão de renas foram vacinadas contra o antraz

De qualquer forma, especialistas do Grupamento de Proteção Biológica, Química e Radioatividade do Exército Russo, foram deslocados para Salekhard em um avião militar Il-76. Eles foram enviados por Sergei Shoigu, Ministro da Defesa da Rússia, para realizar testes no solo, detectar e eliminar possíveis locais onde haja contaminação por antraz, e descartar de forma segura os animais mortos. Veja mais detalhes em reportagens realizadas pelo Canal Russia 24 (Россия 24), e publicadas no Youtube (em russo):





Em uma notícia publicada no site da CNN, Anna Popova, médica sanitarista e chefe do Serviço Federal de Supervisão de Proteção a Pessoa e a Saúde, disse que a região onde se concentraram as mortes por antraz seria mantida em quarentena até setembro. Ela havia participado de uma reunião de emergência, com o governador Dmitry Kobylkin, na última quinta-feira (28), e disse que as autoridades locais estavam fazendo o melhor que podiam para estabilizar a situação. Cerca de 150 homens estavam envolvidos na árdua tarefa de não deixar o antraz se espalhar além dos limites da zona de quarentena.

A notícia ainda contava com a participação do Dr. Peter Eichacker, investigador sênior do Centro Clínico dos Institutos Nacionais de Saúde (sigla em inglês, NIH) dos Estados Unidos, assim como da Dra. Elizabeth Posillico e da Dra. Natalya Serbina, ambas da Elusys Therapeutics, uma empresa norte-americana que desenvolve uma antitoxina chamada "Anthim" para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

O Dr. Peter Eichacker não sabia dizer que tipo de infecção por antraz poderia estar ocorrendo, mas ele acreditava que poderia ser a forma gastrintestinal, devido a ingestão de carne infectada, sendo que os principais sintomas incluíam náuseas, vômitos, diarréia e dor abdominal. A Dra. Natalya Serbina, principal cientista da Elusys Therapeutics, não sabia dizer quais tipos de vacinas a Rússia teria disponível, sendo que a Dra. Elizabeth Posillico, CEO da Elusys Therapeutics, deu uma informação bem mais relevante. Ela disse que geralmente são necessárias de 3 a 4 doses da vacina em um período de um mês, e ainda assim a vacina não iria proteger uma pessoa imediatamente. Levaria pelo menos duas semanas. Isso poderia ser um complicativo, visto que a Região Autônoma de Yamal-Nenets teria pelo 15.000 pessoas vivendo de forma nômade, de um total de 500.000 habitantes.

A Elusys Therapeutics é uma empresa norte-americana que desenvolve uma antitoxina chamada "Anthim"
para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos
O site do jornal "The Washington Post" chamou a atenção para um estudo publicado em 2011, no periódico chamado "Global Health Action", por Boris A. Revich e Marina A. Podolnaya, da Academia Russa de Ciências, nos quais alertavam o risco que os "cemitérios de gado" representavam na região de Yakutia, na Sibéria Oriental, ou seja, praticamente no "lado oposto" onde ocorreu o atual incidente.

O estudo intitulado "Thawing of permafrost may disturb historic cattle burial grounds in East Siberia" ("O descongelamento do permafrost pode interferir nos históricos cemitérios de gado na Sibéria Oriental", em português) é resumido da seguinte forma:

"O aquecimento climático no Ártico pode aumentar o risco de zoonoses devido à expansão dos vetores no ambiente, aumentando as chances de sobrevivência desses vetores durante o inverno, e degradação do permafrost. O monitoramento da temperatura do solo nas estações de controle da Sibéria desde 1970 mostraram correlações entre as temperaturas do ar e da profundidade da camada de permafrost, que descongelaram durante as temporadas de verão. Entre 1900 e 1980, a temperatura de superfície da camada de gelo permanente (permafrost) aumentou entre 2 a 4°C, sendo que a expectativa é que ainda haja um aumento de 3ºC. 

O permafrost é constituído por terra, gelo e rochas permanentemente congelados. Esta camada é recoberta por uma camada de gelo e neve que, se no inverno chega a atingir 300 metros de profundidade em alguns locais, ao derreter-se no verão, reduz-se para de 0,5 a 2 metros, tornando a superfície do solo pantanosa, uma vez que as águas não são absorvidas pelo solo congelado.
Surtos frequentes de antraz causaram a morte de 1,5 milhões de cervos no norte da Rússia entre 1897 e 1925. O antraz entre as pessoas ou nos rebanhos têm sido relatado em 29.000 assentamentos do norte da Rússia, incluindo mais de 200 assentamentos em Yakutia, que estão localizados perto de "cemitérios de gado", cujos rebanhos morreram devido ao antraz... Até o presente momento, ainda não se sabe se um aquecimento maior do permafrost resultará na disseminação do antraz. No entanto, sugerimos que seria prudente realizar um acompanhamento cuidadoso das condições do permafrost em todas as regiões onde um surto de antraz tenha ocorrido no passado".

Interessante, não é mesmo? Tudo indicava que a falta de vacinação dos animais, associado ao monitoramento inadequado ou inexistente do permafrost (solo que teoricamente ficaria permanentemente congelado) em regiões que já tinham reportado mortes em decorrência do antraz, e o aumento das temperaturas, cujos incêndios florestais ajudaram ainda mais a aquecer a atmosfera, tinham contribuído substancialmente para um novo surto de antraz.

A Nova Suspeita Sobre a Origem do Surto de Antraz e Morte de um Menino de Apenas 12 Anos de Idade


Entretanto, um outro comunicado oficial emitido pelo governo da Região Autônoma de Yamal-Nenets sugeriu que a origem do mais recente surto de antraz poderia ser outro: os hábitos um tanto quanto incomuns dos Nenets (também conhecidos como Samoiedos), um povo indígena que habita o norte da Rússia, ou seja, a culpa seria dos próprios pastores de renas e suas famílias.

Segundo Andrew Listishenko (Андрей Листишенко), chefe do Departamento de Serviços Veterinários da Região Autônoma de Yamal-Nenets, a zona de quarentena se estendia por uma faixa de 40 km em relação ao principal foco do surto. Considerando essa distância, alguns especialistas apontavam que um antigo cemitério abandonado dos Nenets, em uma localidade chamada Halmer (хальмер), poderia ter disseminado a doença.

Segundo Andrew Listishenko (à esquerda), chefe do Departamento de Serviços Veterinários da Região Autônoma de Yamal-Nenets, a zona de quarentena se estendia por uma faixa de 40 km em relação ao principal foco do surto
A razão para isso é que os Nenets não enterram os corpos dos seus entes queridos. Eles os colocam em caixas de madeiras (como se fosse um caixão), apoiados um pouco acima do solo, porém em céu aberto. Devido ao calor, os esporos podem ter emanado dos restos mortais infectados, e contaminado as renas que eventualmente pastassem nas proximidades, uma vez que os esporos poderiam ser levados pelo vento. No entanto, amostras de solo não indicavam contaminação por antraz.

Os Nenets não enterram os corpos dos seus entes queridos. Eles os colocam em caixas de madeiras
(como se fosse um caixão), apoiados um pouco acima do solo, porém em céu aberto.
Para piorar um pouco a situação, os Nenets têm o costume de consumir a carne crua dos animais, assim como beber o sangue dos mesmos. Pode parecer repugnante para nós, mas é uma forte e antiga tradição deles. As crianças desde pequenas participam dessas "refeições".

Para piorar um pouco a situação, os Nenets têm o costume de consumir a carne crua dos animais,
assim como beber o sangue dos mesmos
Imagem extraída de uma reportagem realizada por uma emissora de TV da Rússia, na qual mostrava membros
do povo Nenets se alimentando da carne crua de um animal, logo após ser abatido. Contudo, esse é um costume local.
"Estamos trabalhando com todas as hipóteses sobre o que aconteceu. A primeira versão é que, devido as altas temperaturas, o permafrost descongelou e expôs a carcaça de um animal, que morreu em decorrência do antraz há muito tempo. A outra versão é que o surto poderia ter se originado a partir de um corpo humano", disse Nadezhda Noskova, assessora de imprensa do governo da Região Autônoma de Yamal-Nenets.

"A questão é que os povos Nenets e Khanty não enterram os seus mortos. Eles os colocam em caixões de madeira, que se assemelham a caixas, e os apoiam em uma espécie de suporte ou em amontoados de terra. O antigo cemitério também pode ter sido a origem do surto", completou.

Na última segunda-feira (1), no entanto, foi confirmada a morte de Denis, um menino de apenas 12 anos. Ele teria morrido no sábado passado (30) após ter ingerido carne infectada de cervo. Sua avó havia morrido um dia antes, mas a causa da morte ainda não havia sido confirmada. O menino era um membro de uma família de pastores de renas. No entanto, a maioria das amostras coletadas das famílias, que estavam no local do surto de antraz deram negativo. Ainda assim, os médicos estavam monitorando todas as pessoas internadas na zona de quarentena

Na última segunda-feira (1), no entanto, foi confirmada a morte de Denis, um menino de apenas 12 anos.
Ele teria morrido no sábado passado (30) após ter ingerido carne infectada de cervo
"Fui informado sobre a morte do menino em nosso hospital. Não há palavras para expressar minha consternação. Sinto muito, presto minhas condolências aos pais do menino", disse o governador Dmitry Kobylkin.

"Só Deus sabe os esforços que fizemos desde o primeiro dia, fizemos tudo que era possível para salvar a vida de todos. Lutamos pela vida de cada um. Porém, a infecção é ardilosa, regressando 75 anos depois, e levando a vida de uma criança", completou.

A avó do menino chamado Denis havia morrido um dia antes, mas a causa da morte ainda não havia sido confirmada.
O menino era um membro de uma família de pastores de renas.
Ainda na última segunda-feira foram atualizados alguns números referentes ao surto de antraz na região. Segundo o Siberian Times, cerca de 72 pessoas estavam sendo mantidas sob observação no Hospital de Salekhard, ou seja, 32 pessoas a mais em relação a sexta-feira passada. Havia a suspeita que 2.349 renas tinham morrido em decorrência do antraz, quase o dobro do número mencionado quando o alerta foi emitido pela primeira vez. Cerca de 4.500 animais tinham sido vacinados, e o plano era aumentar esse número para 41.000 animais, em uma tentativa para impedir de vez a disseminação da doença.

Outra reportagem publicada ontem (2) no site do "Siberian Times" apontou que o número de casos continuava aumentando. Cerca de 90 pessoas tinham sido internadas no Hospital de Salekhard, incluindo 54 crianças. No total, 20 casos já tinham sido confirmados, sendo que em oito havia a suspeita de ter sido contraído o antraz ao consumir carne infectada, e dois casos de antraz cutâneo.

O risco maior, a partir de então, seria a carne vendida por caçadores no "mercado negro". Em uma atitude extrema, o governo regional proibiu a exportação de carne, galhadas, ou peles no distrito de Yamalski. Assista também a outra reportagem feita pelo Canal Russia 24 (Россия 24), e publicada em sua respectiva conta no Youtube (em russo):



"A principal tarefa agora é eliminar toda a carne infectada. O antraz não é transmitido de pessoa para pessoa, mas apenas um pedaço de carne infectada pode provocar a morte", disse Sofia Rusanova, uma médica especialista em doenças infecciosas, em entrevista ao jornal "The Siberian Times".

Conheça um Pouco Mais Sobre o História do Antraz


Como dissemos anteriormente, logo no começo dessa postagem, o antraz é uma toxiinfecção causada pelo Bacillus anthracis, bactéria do solo e da vegetação. É uma doença comum entre animais, como gado bovino, camelos, ovelhas, antílopes, cães e cabras e é adquirido por eles por meio de sua alimentação. O bacilo causador da infecção pode esporular e, consequentemente, resistir a altos níveis de calor ou frio durante muito tempo até ter condições ideais para seu desenvolvimento.

O que você talvez não saiba é que o "antraz pode estar entre nós" desde os tempos bíblicos. Isso mesmo que você leu. Muitos estudiosos acreditam que ele possa ter se originado no Egito e na Mesopotâmia. Acredita-se que na época de Moisés, durante as famosas "dez pragas do Egito", o antraz pode ter causado o que ficou conhecido como a "quinta praga", descrita como uma doença que afetou cavalos, bois, ovelhas, camelos e bois. Biblicamente, Moisés estendeu a mão sobre o Egito e por "ordem do Senhor" surgiu uma praga nos animais em que muitos morreram, e grande foi a perda para os egípcios.

Acredita-se que na época de Moisés, durante as famosas "dez pragas do Egito", o antraz pode ter causado o que ficou conhecido como a "quinta praga", descrita como uma doença que afetou cavalos, bois, ovelhas, camelos e bois
A Antiga Grécia e Roma também estariam bem familiarizados com o antraz, e isso seria ilustrado em muitos dos antigos escritos dos mais famosos estudiosos daquela época. Por exemplo, muitos estudiosos acreditam que antraz foi descrito por Homero na Ilíada de 1230 a.C. e por Virgílio entre 70 e 90 a.C. Alguns até sugerem que o antraz pode ter contribuído para a queda de Roma. Porém, as primeiras descrições clínicas do antraz cutâneo só foram registradas por Maret em 1752 e Fournier em 1769. Antes disso, o antraz só havia sido descrito através de relatos históricos.

Em 1877, o cientista Robert Koch estudou o Bacillus anthracis, a bactéria que causa o antraz. Ele descobriu que as bactérias formavam esporos, e eram capazes de sobreviver por longos períodos de tempo e em muitos ambientes diferentes, criando a partir disso um amplo estudo sobre a bactéria. Em 1881, Louis Pasteur, outro proeminente cientista, elevou o trabalho de Koch a um outro patamar, tentando provar como antraz se disseminava, e forma pela qual deixava as pessoas ou os animais doentes. Pasteur também trabalhou para criar uma vacina para antraz, que foi muito bem sucedida para os padrões da época, porém para os animais.

Em 1881, Louis Pasteur, outro proeminente cientista, elevou o trabalho de Koch a um outro patamar, tentando provar como antraz se disseminava, e forma pela qual deixava as pessoas ou os animais doentes. Pasteur também trabalhou para criar uma vacina para antraz.
A primeira vacina para humanos foi criada na década de 50, e recebeu uma nova versão na década de 70, muito embora tenha havido um progresso considerável na produção da mesma desde então.

No início de 2010, até mesmo uma nova forma de antraz foi descoberta em usuários de heroina no Reino Unido e na Alemanha. Curiosamente, os esporos estavam na própria heroína utilizada por essas pessoas. Os sintomas eram um pouco diferentes do antraz cutâneo, porém todos foram tratados com sucesso.

As Formas de Contaminação Por Antraz e os Respectivos Sintomas


De qualquer forma, o homem geralmente é infectado apenas quando exposto a animais contaminados, quando tem contato ou consome carne e derivados de animais contaminados. O antraz não é transmitido de pessoa para pessoa. Existem três formas clínicas da infecção na espécie humana:
  1. Antraz cutâneo: adquirido quando se manuseia produtos infectados (a forma menos grave do antraz humano).
  2. Antraz pulmonar: adquirido por aspiração de material infectante (a forma mais séria do antraz humano).
  3. Antraz gastrintestinal: adquirido quando se ingere carne contaminada, crua ou mal passada dos animais infectados (a forma mais rara do antraz humano).
Os sintomas da doença, no entanto, dependem da forma como ela foi adquirida.

A forma cutânea é causada pelo contato direto com uma lesão ou corte na pele. O primeiro sintoma é uma ferida pequena e indolor, que forma uma bolha e apresenta inchaço e vermelhidão na pele ao redor dela. São também comuns febre leve e linfonodos (gânglios) inchados. Se não tratado, o antraz cutâneo pode matar cerca de 10% a 20% das pessoas infectadas. Porém, a ocorrência de morte é rara quando o doente é tratado.

Diversas feridas negras surgem na pele da pessoa infectada por antraz cutâneo
A forma pulmonar é causada pela inalação dos esporos do antraz diretamente para os pulmões. Em geral, os primeiros sintomas são febre, cansaço, tosse, dores de cabeça, calafrios, sensação de fraqueza, dificuldade para respirar e mal-estar no peito. Náuseas, vômitos e dores de barriga também são comuns. A seguir, a dificuldade para respirar piora, surgem dores no peito, calafrios e outros sintomas sérios. Se não tratado, o antraz pulmonar quase sempre provoca a morte.

Na forma gastrintestinal surge uma inflamação aguda no intestino. Os sintomas iniciais são náuseas, vômitos, perda de apetite e febre, seguidos de dores de barriga fortes e fezes sangrentas. Embora o antraz gastrintestinal seja muito raro, 25% a 60% das pessoas que desenvolvem esta forma da doença falecem, mesmo recebendo tratamento.

O diagnóstico da doença é feito através de exame bacteriológico do material das lesões, cultura e testes imunológicos. O tratamento é realizado com o uso de antibióticos específicos. Já para a prevenção da doença é necessário controle da infecção animal através da vacinação dos rebanhos, da esterilização dos materiais contaminados e da higiene ambiental.

Alguns Detalhes que Não Vêm Sendo Divulgados pela Mídia Internacional


Um detalhe pouco comentado é sobre o surto de antraz na Rússia, em agosto de 2012, no pequeno vilarejo chamado Druzhba de pouco mais de 700 habitantes, e localizado na região sul da Sibéria Ocidental (a uma distância superior a 3.000 km de Salekhard). Na ocasião, 10 pessoas tinham sido hospitalizadas, sendo que 32 pessoas tinham sido expostas, e uma tinha morrido.

O homem que morreu trabalhava no corte de carne bovina, sendo que ele tinha alguns cortes em seus braços. Ele não tinha qualquer motivo para suspeitar que havia riscos e, três dias mais tarde, ele desenvolveu uma febre, e acabou vindo a falecer no hospital. Na época, o vilarejo também foi colocado em quarentena, e o acesso rodoviário ao mesmo ficou temporariamente interditado. Resumindo, colocar uma região nesse estado de quarentena é uma prática normal.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre o vilarejo de Druzhba em relação a cidade de Salekhard
Entretanto, algo um tanto quanto sombrio foi revelado através de uma postagem realizada em 7 de março de 2012, por um homem chamado Edward Adrian-Vallance, proprietário de uma empresa especializada em excursões, filmagens e viagens de pesquisa em locais de difícil acesso na Sibéria, no Ártico e no Extremo Leste da Rússia.

Durante uma de suas excursões ele entrevistou um homem chamado Radik, um membro do povo dos Nenets, que vivia bem próximo da Península de Yamal. Ele contou a relação que seu povo tinha com a Gazprom, a maior empresa da Rússia e a maior exportadora de gás natural do mundo, assim como as demais empresas que exploravam o gás na região.

Radik, um pastor de renas da Península de Yamal, na Rússia
Radik contou que a Gazprom queria se apoderar da terra deles. Confira um trecho dessa conversa:

"Porém, no ano passado, quando eu lhe perguntei, você me disse que não tinha tido problema com as empresas de gás, interrompi.

Isso mesmo. Particularmente todo os problemas começaram no ano passado quando foram construídos diversos novos gasodutos. Em relação aos pastores do norte, os problemas vêm acontecendo há algum tempo - as rotas de migração são bloqueadas, as renas são mortas por resquícios dos campos de gás - e como você sabe, a perda de uma única rena para nós é um imenso problema, respondeu Radik.

Imagens mostrando os campos de gás na Região Autônoma de Yamal-Nenets, e a rota dos gasodutos
da Sibéria Ocidental em direção ao leste europeu
Você perdeu alguma rena, perguntei

Sim. Perdemos diversas devido ao antraz. O antraz costumava ser um grande problema aqui, mas sob a União Soviética todas as renas eram vacinadas a cada ano e, eventualmente, o problema tinha acabado. No ano passado (2011), a Gazprom construiu um gasoduto subterrâneo, e desenterrou o antraz. A cada grupo que atravessava, diversas renas morriam com os mesmos sintomas causados pelo antraz. E como você sabe, o antraz pode matar pessoas também. Os restos mortais de companheiros ainda estão em Yamal, onde grupos inteiros, renas e pessoas, foram aniquilados por ele. A política soviética era de não se aproximar desses companheiros, e até hoje ninguém se aproxima, respondeu Radik.

Pelo visto muito do que está sendo divulgado pela mídia russa, em dizer que o último caso de morte por antraz, na Península de Yamal, teria sido há 75 anos, pode não ser totalmente verdade. Ainda mais considerando a quantidade de campos de gás que são explorados na região. Enfim, fato é que a opinião pública está dividida na Rússia. Muitos não concordam em culpar os Nenets por esse incidente, e tantos outros discordam da "desculpa" do aquecimento global, visto que os incêndios florestais e a exploração predatória de recursos naturais na região vêm destruindo a paisagem e o meio ambiente ao longo das últimas décadas.

De qualquer forma, essas são as informações mais recentes sobre o que está ocorrendo na Península de Yamal, na Sibéria Ocidental, e assim que tivermos maiores informações iremos manter vocês atualizados através dessa mesma postagem, combinado? E vocês, de quem vocês acham que é a culpa por esse surto de antraz? As empresas que exploram gás na região? O povo Nenets e suas antigas tradições? Uma rena infectada cujos restos mortais ficaram expostos devido ao "aquecimento global"? Muitas possibilidades, não é mesmo? Entretanto, depois de tudo que escrevemos, não é muito difícil deduzir a resposta, não é mesmo?

Atualização #1: 04/08 as 11h55


De acordo com a agência de notícias russa TASS, a "zona de segurança" criada ao redor do foco do surto de antraz, na Região Autônoma de Yamal-Nenets, foi expandida para 11.000 quilômetros quadrados. Sim, isso mesmo que você leu. Aliás, essa informação constava em um comunicado oficial emitido recentemente pelo goveno local.

"A zona de segurança ao redor do local onde ocorreu o surto de antraz foi expandida de 100 quilômetros para 110 quilômetros (uma área de 11.000 km²), com o objetivo de impedir a propagação da doença. A vacinação dentro da zona de segurança será obrigatória. Todas as renas serão examinadas e as condições de saúde dos nômades serão monitoradas, assim como o diretor do Departamento Veterinário do Ministério da Agricultura da Rússia, Vladimir Shevkoplias, disse em entrevista coletiva", informou o comunicado.

Veronika Skvortsova,
Ministra da Saúde da Rússia
Ainda de acordo com a TASS, todas as renas da região serão vacinadas, porém esse não será um trabalho nada fácil para as autoridades responsáveis. De acordo com o governo regional, atualmente 44 médicos veterinários estavam tentando controlar a situação, e era esperada a chegada de mais médicos na região nos próximos dias.

"Os veterinários irão vacinar todas as renas de Yamal contra o antraz - mais de 700.000 renas - sendo que os primeiros rebanhos serão do distrito de Yamalsky, onde ocorreu o surto da doença. Os distritos de Tazovsky e Priuralsky serão os próximos a receberem a vacinação. Nenhum caso foi registrado nesses distritos, mas quando a segurança biológica está em jogo, é melhor tomar precauções extras", informou o comunicado.

Veronika Skvortsova, Ministra da Saúde da Rússia, afirmou ontem (3) que seria impossível do antraz se espalhar para outras regiões da Sibéria. Contudo, ontem mesmo o Cazaquistão suspendeu as importações de carne de origem russa em meio a preocupações sobre o surto de antraz.

Em junho, um outro surto de antraz no próprio Cazaquistão, país que possui a maior fronteira terrestre com a Rússia, ocorreu nas províncias de "Qaraghandy" e "Cazaquistão do Leste", sendo responsável oficialmente pela morte de dois moradores.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://abcnews.go.com/Technology/wireStory/russian-authorities-evacuate-nomads-anthrax-outbreak-40892589
http://arctic.ru/population/20160728/398429.html
http://hosted2.ap.org/APDEFAULT/b2f0ca3a594644ee9e50a8ec4ce2d6de/Article_2016-07-26-EU--Russia-Anthrax/id-16331bf8db07450293cfeec0fa7f6de1
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0686-first-anthrax-outbreak-since-1941-9-hospitalised-with-two-feared-to-have-disease/
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0691-40-now-hospitalised-after-anthrax-outbreak-in-yamal-more-than-half-are-children/
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0693-eight-people-have-contracted-anthrax-amid-reports-that-one-has-died/
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0694-20-people-now-infected-by-zombie-anthrax-outbreak-in-siberia-say-officials/
http://super.abril.com.br/ciencia/apocalipse-zumbi-espalha-surto-de-superbacteria-pela-siberia
http://thebarentsobserver.com/arctic/2016/07/urgent-evacuation-reindeer-herders-arctic-anthrax-outbreak-zone
http://vesti-yamal.ru/ru/vjesti_jamal/sibirskaya_yazva_na_yamale_video156057
http://www.bloomberg.com/news/articles/2016-08-02/anthrax-spewing-zombie-deer-are-the-least-of-your-warming-planet-worries
http://www.cdc.gov/anthrax/resources/history/
http://www.euronews.com/2012/08/27/deadly-anthrax-outbreak-in-russia
http://www.fiocruz.br/bibmang/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=85&sid=106
http://www.interfax.ru/russia/520347
http://www.mass.gov/eohhs/docs/dph/cdc/factsheets/a-c/anthrax-pt.pdf
http://www.minerva.uevora.pt/eschola2002/animais/rena.htm
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK310487/
http://www.popsci.com/how-did-anthrax-flare-up-in-siberia
https://arcticanthropology.org/2016/07/29/anthrax-outbreak-on-yamal-peninsula-not-tarko-sale-purovski-yamal-okrug/
https://www.travelblog.org/Europe/Russia/Siberia/blog-684256.html
https://www.washingtonpost.com/news/morning-mix/wp/2016/07/28/anthrax-sickens-13-in-western-siberia-and-a-thawed-out-reindeer-corpse-may-be-to-blame/
https://www.youtube.com/watch?v=0bDBgUVUXDo
https://www.youtube.com/watch?v=3AJVwm7cy8U
https://www.youtube.com/watch?v=GbVTSjagz-c
https://www.youtube.com/watch?v=HDqkDv5xus0
https://www.youtube.com/watch?v=Ky0U700Z0Yo
https://www.youtube.com/watch?v=hSPx3wNgFAA
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