26 de agosto de 2016

Conheça Sergei Sharshun: A História de um Homem que Ainda Trabalha na Usina Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia


Por Marco Faustino

Se tem um assunto que vocês invariavelmente não se cansam de ouvir falar, com certeza é sobre "Chernobyl". Aliás, nosso especial no canal AssombradO sobre o desastre nuclear ocorrido em 26 de abril de 1986, é um dos mais vistos, compartilhados e comentados de todos os tempos. A realização de um determinado experimento para testar a capacidade resfriamento de emergência do núcleo do reator nº 4 resultaria na explosão do mesmo, e consequentemente um dos maiores desastres nucleares do mundo. Na época, a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, também conhecida por União Soviética ou simplesmente URSS, demorou um bom tempo para admitir que havia um problema, no qual não estavam conseguindo resolver, em um território que atualmente pertence a Ucrânia, e bem próximo da fronteira com a Bielorrússia (conhecida também como Belarus). Somente após uma pressão por parte da comunidade internacional, que o mundo teve uma dimensão do que realmente estava acontecendo em Chernobyl. Assim sendo, posteriormente foi construída uma estrutura gigantesca ao redor do reator, o recobrindo totalmente, chamada de "sarcófago" para tentar conter um "monstro" radioativo apelidado de "pata de elefante": uma massa concentrada contendo areia, concreto, metal, destroços e combustível nuclear, que até hoje emite uma quantidade surreal de radiação, e que se acumulou no porão da usina, logo abaixo do reator. Acredita-se que dentro desse sarcófago haja mais de 200 toneladas de "corium" radioativo (mistura de combustíveis, material radioativo e destroços), 30 toneladas de terra contaminada e 16 toneladas de urânio e plutônio. Assistam também nosso especial sobre esse assunto: O Desastre de Chernobyl

Estima-se que centenas de milhares de pessoas tenham morrido direta ou indiretamente devido ao desastre nuclear de Chernobyl. Naquela época, houve um esforço descomunal para impedir que houvesse uma explosão muito maior, o que poderia deixar simplesmente todo o continente europeu inabitável por décadas ou séculos. O sarcófago, por exemplo, foi construído como um recurso de emergência, quando simplesmente não havia tempo para elaborar um projeto mais consistente. Evidentemente, problemas estruturais foram detectados ao longo tempo, até que que governo ucraniano tomasse alguma medida para evitar que um novo problema surgisse em Chernobyl. Decidiu-se assim, dentre inúmeros projetos, criar um novo sarcófago para cobrir o anterior, que seria construído relativamente distante do sarcófago original, visto que os índices de radiação nas proximidades do mesmo ainda são alarmantes. Após sucessivos atrasos devido à complexidade do projeto, acredita-se que o mesmo seja finalmente deslocado através de trilhos até o sarcófago original, sendo devidamente ajustado e selado, no último trimestre de 2017. Vocês podem conferir um pouco mais sobre esse novo sarcófago clicando aqui e aqui ou então assistindo nosso vídeo sobre o assunto: Chernobyl 30 Anos: O Novo Sarcófago.

Entretanto, apesar das más notícias, a região ao redor da Usina Nuclear de Chernobyl acabou se tornando uma espécie de "santuário para a vida selvagem", visto que sem a presença do homem (apesar de algumas pessoas ainda morarem dentro da chamada "zona de exclusão"), a fauna local começou a prosperar. Embora, é claro, esse assunto seja motivo de muita discussão e polêmica (saiba mais em: O Polêmico Estudo Sobre o Aumento da Vida Selvagem Na Região de Chernobyl Desde o Desastre Nuclear de 1986). De qualquer forma, não pensem que Chernobyl esteja abandonada, pelo contrário. Milhares de pessoas ainda trabalham direta ou indiretamente na região, seja na manuteção do complexo, seja na segurança das inúmeras barreiras criadas para evitar que curiosos inadvertidamente se aproximem sem a devida autorização. Assim sendo, nessa postagem vamos conhecer um pouco da história de Sergei Sharshun, um homem que ainda trabalha na Usina Nuclear de Chernobyl. Porém, não pensem que ele é qualquer pessoa, ele é um engenheiro nuclear que vem trabalhando há 35 anos em Chernobyl, e que atualmente ocupa o cargo de chefe do Departamento de Proteção Radiológica do complexo nuclear. Um homem que adorava contribuir para a geração de energia, a força motriz de seu país, e que espera passar o resto de seus dias não somente ao lado de sua família, mas de um filho chamado Chernobyl. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como era Viver em Pripyat


Sentado na sala de estar da sua casa, acariciando um gatinho branco, Sergei Sharshun, 57 anos, lembra como se fosse hoje do que aconteceu em Chernobyl, em abril de 1986. Ele morava em Pripyat antes do acidente nuclear. Uma memória em particular se tornou inesquecível para ele. Devido aos altos índices de radiação após o incidente, não era possível sequer sentar no chão ou simplesmente usá-lo para apoiar suas respectivas mochilas ou bolsas. Porém, após algumas semanas que ele e sua equipe estavam "acampados" em uma floresta próxima, algo inusitado aconteceu.

"Lembrarei pelo resto da minha vida como relutamos para evitar de sentar no chão, mas quando assim o fizemos, senti toda a beleza da vida a minha volta", disse Sergei Sharshun.

Devido aos altos índices de radiação após o incidente, não era possível sequer sentar no chão
ou simplesmente usá-lo para apoiar suas respectivas mochilas ou bolsas
Sergei vem trabalhando em Chernobyl há 35 anos. Começou como escriturário, chegou a diretor-adjunto e atualmente ocupa o cargo de chefe do Departamento de Proteção Radiológica. Ele decidiu dedicar sua vida à energia nuclear logo após concluir o que hoje é considerado como o "Ensino Médio", matriculando-se na Universidade Politécnica de Odessa. Após a conclusão de seus estudos, dentro da própria Usina Nuclear de Chernobyl, ele acabou se mudando com sua futura esposa para Pripyat, a cidade criada com objetivo de abrigar os trabalhadores da usina nuclear, localizada a apenas 3 km de distância da mesma.

Sergei Sharshun, 57 anos, chefe do Departamento de Proteção Radiológica da Usina Nuclear de Chernobyl,
morava em Pripyat antes do acidente nuclear de 1986
Quando uma equipe do portal de notícias "Tut.By" foi entrevistá-lo, e conhecer um pouco mais de sua história, em abril desse ano, praticamente às vesperas do "aniversário de 30 anos" do acidente nuclear, alguns jornalistas estavam circulando pela cidade, e realizando matérias para serem veiculadas em seus respectivos sites e jornais. Também era possível notar a presença de alguns turistas.

A visão, no entanto, era desoladora, com a vegetação crescendo em meio ao asfalto, praticamente o encobrindo, assim como placas de sinalização e algumas casas. Tanto que não se acreditava que pessoas teriam sido capazes de viver algum dia em um local como aquele.

Carrinhos de um antigo parque de diversões abandonado em Pripyat
Roda-gigante abandonada em Pripyat, praticamente sendo engolida pela vegetação
Uma antiga loja de móveis ainda contava com algumas cadeiras, e sobre uma mesa havia uma garrafa de uísque. Conta-se que os antigos moradores, ao chegarem na cidade, costumam recordar os tempos áureos da mesma. Embora, é claro, não seja permitido beber, comer ou fumar em Pripyat. A sensação era de estar em um filme apocalíptico sem um final feliz, sem um desfecho de esperança para cerca de 49 mil pessoas, que moravam na cidade na época do acidente nuclear.

Após algum tempo de caminhada ao longo de uma estrada, próxima a um rio local, a equipe chegou até o antigo apartamento de Sergei Sharshun, localizada na rua "Herois de Stalingrado" nº 5, apartamento nº 70. Ele contou que o trabalho era bom, e que a cidade era bem agradável de se morar. A vida não era aquela maravilha tão almejada por tantas pessoas, mas ainda assim era boa. Sergei tinha muitos amigos na cidade. Assista a um vídeo abaixo, onde Sergei Sharshun visita seu antigo apartamento em Pripyat (o vídeo está em russo, porém vale a pena conferir):



Ele lembra que recebeu um apartamento no primeiro andar, e um colega dele tinha ficado com um apartamento no nono andar. Porém, seu colega tinha ficado muito preocupado com essa situação, porque a esposa tinha muita fragilidade nas pernas, e teria dificuldade para subir as escadas. Sergei trocou de apartamento com o colega sem pensar duas vezes.

Em diversas casas é possível notar a presença de pianos abandonados
Sergei sempre repetia uma frase: "Era conveniente morar em Pripyat". Nos fins de semana, ele, sua esposa, e sua primeira filha viajavam para Kiev e Chernigov. As pessoas estavam repletas de esperança por um futuro melhor, e os altos salários pagos pela usina nuclear permitiam comprar praticamente qualquer coisa na cidade. Quem trabalhava em Chernobyl acreditava que estava fazendo algo de útil pelo país. Sonhavam como uma vida feliz na União Soviética, em momento personificado pela própria usina nuclear.

Chernobyl Após o Acidente Nuclear


Em 26 de abril de 1986, quando ocorreu o acidente na usinal nuclear, Sergei Sharshun estava em período de férias. Na parte da manhã, juntamente com sua família e parentes de sua esposa, que tinham vindo da Moldávia para visitá-la, eles foram até um rio próximo para fazer um piquenique. Sentados em uma de suas margens, eles viram uma fumaça, que saía do reator nº 4.

"Sabia que havia algo de errado. Ao voltar para casa, algumas pessoas disseram que tinha acontecido um acidente na usina nuclear. Fomos até a entrada do complexo, onde conversei com alguns colegas. Eles disseram que o reator tinha sido exposto", disse Sergei, que lembra ter ido com a esposa até a varanda do apartamento, e visto luzes saindo a partir do reator.

Sergei lembra ter ido com a esposa até a varanda do apartamento, e visto luzes saindo a partir do reator.
A foto reflete exatamente a visão do reator nº 4 a partir do apartamento de Sergei.
A primeira coisa que Sergei fez foi pingar iodo na água e beber, o mesmo fez o restante de sua família. Em seguida, os tapetes assim como o piso foram imediatamente lavados, sendo que janelas e portas foram fechadas. Só percebemos que algo realmente sério tinha acontecido durante a noite, quando helicópteros começaram a sobrevoar Chernobyl. Não sabia dizer qual era o nível de radiação que a cidade estava recebendo naquele momento, mas sabia que se você estivesse bem próximo da usina receberia uma dose letal.

Em 27 de abril, a cidade anunciou a evacuação: foi solicitado que as pessoas trouxessem documentos e roupas, e fossem para um ponto em que ônibus estavam partindo da cidade. Pessoas foram transportadas para vilarejos a cerca de 40 a 50 km de distância de Chernobyl. Porém, todos estavam convencidos de que deixariam a cidade por alguns dias, tão somente durante as férias de maio.

Hoje em dia, Sergei tem plena convicção de que era necessário ter dito as pessoas que não circulassem pelas ruas, que fizessem a limpeza de suas casas, assim como ele utilizou o iodo de maneira profilática, e aguardou pela evacuação. A razão pela qual nada disso foi feito? Bem, Sergei acreditava que a União Soviética queria manter o caso em sigilo, na expectativa de eliminar as consequências da tragédia sem que o restante do mundo soubesse a extensão do incidente.

Em 27 de abril, a cidade anunciou a evacuação: foi solicitado que as pessoas trouxessem documentos e roupas, e vissem para o lugar de partida dos ônibus. Pessoas foram transportadas para vilarejos a cerca de 40 a 50 km de distância de Chernobyl
A família de Sergei foi evacuada na manhã do dia 27 de abril, porém ele ficou, tinha que voltar para o trabalho naquela tarde. Sergei era o engenheiro chefe do reator nº 3, justamente ao lado do reator que havia explodido no dia anterior.

"Ao chegar no trabalho havia muitos militares e pessoas até então desconhecidas. Eu trabavalha na terceira unidade, mas não era possível chegar até o local devido aos altos índices de radiação. Assim que tivemos uma rápida reunião para saber o que devia fazer, recebi uma máscara de gás e luvas. Tive uma certa dificuldade para chegar até a minha unidade, mas cheguei. Minha missão era desativar o reator, e a cumpri", disse Sergei Sharshun, acrescentando que não havia notado pânico entre seus colegas de trabalho, porém alguns não tinham ido trabalhar. Se algo semelhante acontecesse nos dias de hoje, muito provavelmente o número de pessoas que não iria trabalhar seria muito maior.

"Tivemos uma educação diferente. Nós éramos muito mais patrióticos, e disse a mim mesmo: 'Se não fizermos isso, quem irá fazer?' Aquela era a realidade. Tínhamos isso bem claro em nossas mentes. Se por um lado era nosso dever, ou seja, ir ao trabalho e minimizar as consequências do acidente, por outro devíamos defender a honra da nossa profissão", continuou.

Parte do sistema de segurança da segunda unidade da Usina Nuclear de Chernobyl
Segundo Sergei, o que aconteceu foi muito além do que apenas um erro de projeto. Ele disse que o acidente ocorreu devido a um "conjunto improvável de circunstâncias".

"O reator tinha sido colocado em manutenção e para a realização de testes antes de ocorrer o acidente. Decidimos verificar quanto tempo as bombas de água aguentariam, sendo que o reator estava operando em sua capacidade mínima. Algo deu errado, e houve uma pane. Então, a equipe tentou trazê-lo para um determinado nível. Para fazer isso, eles retiraram um número maior do que o permitido de hastes de absorção. Portanto, houve a explosão", completou.

Não era permitido passar a noite em Pripyat, mesmo que a pessoa fosse um cientista que trabalhasse em Chernobyl. Então, no começo todos ficaram num mesmo acampamento. Depois foram para outro, até chegar ao ponto de ficarem hospedados em cabines de embarcações, que ficavam ancoradas não muito longe de Kiev. Todos eram conduzidos de ônibus até o trabalho.

Imagem atual do reator nº 4, no qual possui uma estrutura que o recobre chamada de sarcófago
No outono de 1986, a família de Sergei Sharshun recebeu um apartamento de dois quartos em Kiev. Contudo, em 1988, eles se mudaram para uma nova cidade, que abrigaria os cientistas que trabalhavam em Chernobyl, chamada Slavutych (Славутич, em ucraniano), a cerca de 60 km da usina nuclear. O apartamento em Pripyat, no entanto, foi deixado para trás.

O Local Para Onde os Cientistas Foram Transferidos


Após o acidente nuclear de Chernobyl, o melhor local para abrigar os cientistas que trabalhavam na usina nuclear era a localidade onde encontra-se atualmente a cidade de Slavutych. Entre a cidade e a usina nuclear existem duas barreiras naturais anti-radiação: os rios. Para chegar até o trabalho, o trajeto é percorrido por meio ferroviário.

Para construir a cidade foi necessário derrubar uma grande floresta. Todas as repúblicas soviéticas participaram da construção de Slavutych. Os bairros atualmente possuem os nomes de suas capitais, e foram construídos no estilo de cada um dos países soviéticos. Alguns estabelecimentos comerciais também possuem nomes referentes aos países que fizeram parte da antiga URSS.

Imagem do Google Maps mostrando a distância entre Slavutych e a Usina Nuclear de Chernobyl.
Vale lembrar que essa distância é bem menor quando o trajeto é pecorrido por trem
A esposa de Sergei Sharshun não queria se mudar de Kiev para Slavutych, porém o trabalho em Chernobyl era uma parte muito importante da vida do marido, e isso acabou falando mais alto. Na época, justamente por terem uma filha, foi oferecido um apartamento de dois quartos e dois banheiros, porém não era exatamente o local onde esperavam morar.

Após um certo período de recusa e espera, acabaram indo morar em uma casa, cuja nome da rua é um tanto quanto sugestivo: Leningrado. Confira um rápido tour áereo sobre a cidade de Slavutych, em um vídeo recentemente publicado no Youtube, na conta da Slavutych Film Commission:



Atualmente, Slavutych possui cerca de 25.500 habitantes. Desse total, cerca de 2.600 ainda trabalham na Usina Nuclear de Chernobyl. Um apartamento de apenas um quarto na cidade custa aproximadamente 12.000 dólares (aproximadamente R$ 40.000).

Curiosamente, as pessoas não se preocupam muito em relação ao nível de radiação. Existem dosímetros espalhados pela cidade, porém nem sempre funcionam, e quando funcionam apontam que há uma certa radioatividade, mas não é preocupante. Existe uma vida florescendo no local, com o qual os moradores estão acostumados a viver. As pessoas até mesmo bebem água da torneira, sendo absolutamente seguro.

Depois do acidente nuclear, a família Sergei Sharshun recebeu um apartamento em Kiev,
mas depois eles se mudaram para Slavutych
A vida noturna também é bem comum em relação as demais cidades, sendo que a maioria das pessoas se reúnem nas cafeterias, durante as noites de sexta-feira. Slavutych também possui uma ciclovia onde as pessoas podem realizar caminhadas ou andar de bicicleta. Resumindo, é uma vida bem comum do interior, porém com condições nitidamente bem mais confortáveis do que outras cidades do mesmo porte.

Como é Trabalhar em Chernobyl?


Sergei Sharshun conta que as atividades não foram interrompidas após o acidente nuclear.

"Até 2006, trabalhávamos aqui para vender eletricidade. A usina nuclear está atualmente fora de serviço, e está sendo construída uma cobertura para a quarta unidade, no formato de um arco, que é popularmente conhecido como sarcófago. O fechamento definitivo do complexo está sendo planejado para 2060", contou Sergei.

Foto do novo sarcófago (em primeiro plano), que está sendo construído para abrigar
o antigo sarcófago (em segundo plano) sobre o reator nº 4
Ao chegar na estação de trem da cidade, por volta de 7h20 da manhã, a maioria das pessoas está segurando um copo de café em uma das mãos. Não é necessário comprar passagens, visto que o transporte é gratuito para funcionários de Chernobyl.

Todos que embarcam se conhecem, e geralmente entram nos mesmos vagões. Sergei geralmente embarca no terceiro vagão de um trem, que parte as 7h40, sendo que pessoas de fora são imediatamente identificadas. Assista ao vídeo abaixo que mostra muito bem como é essa rotina (o vídeo está parcialmente em russo, porém vale a pena conferir):



São aproximadamente 40 minutos até a estação de Semihody, um terminal de trem fundamental para ter acesso a Usina Nuclear de Chernobyl. Ao chegar, as pessoas passam por um posto de controle, tal como pontos de controle sanitário. Posteriormente, trocam de roupa e se encaminham para seus respectivos trabalhos. Todos possuem um dosímetro especial pendurado no pescoço. Os dados são processados e determinam a dose de radiação que a pessoa tenha recebido durante um dia de trabalho.

Todas as estações de trem são cuidadosamente monitoradas, caso alguma pessoa carregue consigo um "excesso de radiação",
a mesma não será liberada até que o problema seja resolvido
O escritório de Sergei Sharshun fica localizado no prédio administrativo do complexo. Ele é o chefe do Departamento de Proteção Radiológica da Usina Nuclear de Chernobyl, ou seja, monitora o nível de radiação emitido pela usina nuclear. Aliás, seu escritório fica entre 600 a 800 metros do reator nº 4, local onde ocorreu o acidente.

Ele também foi questionado se tinha medo de voltar a trabalhar no complexo após tudo o que aconteceu.

"Não entendo a razão pela qual me perguntam se eu tenho medo de trabalhar novamente em Chernobyl após o acidente. Eu sei pelo que esperar, não é meu primeiro dia aqui, e me desculpe, mas estou aqui há 35 anos. As pessoas, eventualmente, se acostumam com tudo. Se você estiver com medo, é melhor ir embora, porém se você quer ficar, que fique e viva da melhor forma possível", disse Sergei.

Segundo Sergei, um trabalhador recebe, em média, entre 14 e 20 millisieverts de radiação por ano, sendo que o normal em qualquer outro local seria entre 1 e 10 millisieverts por ano.

Memorial em homenagem a Valery Hodemchuk (Валерию Ходемчуку), operador sênior da unidade do reator nº 4,
cujo corpo não foi encontrado após o acidente nuclear
"Nós controlamos para que as pessoas não excedam essa taxa anual. Eles recebem cerca 13 millisieverts de radiação externa e 1 millisievert interna. A dosagem é fiscalizada pelo Ministério da Saúde", continuou. Dentro da usina nuclear existem determinadas áreas, que só entram pessoas trajando macacões, sapatos brancos, máscaras e autorizações especiais. Porém, a maioria dos trabalhadores utilizam roupas acinzentadas e sapatos pretos.

Ao longo do caminho é necessário se submeter a diversas verificações de radiação. Existe um equipamento especial, onde se coloca as mãos em uma placa, e aguarda por alguns segundos. Se aparecer a luz verde, você pode seguir em frente, se acender a luz vermelha, você precisa passar por uma avaliação médica e verificar onde a radiação ficou acumulada. Se ficou na mão, por exemplo, eles a lavam meticulosamente para que não haja maiores problemas.

Foto do interior da segunda unidade de geração de energia de Chernobyl
Sergei Sharshun diz que possui condições muito confortáveis para se trabalhar. Primeiramente, ele possui transporte para ir e voltar do trabalho, e em segundo lugar, ele recebe férias de 50 dias, bem mais que o habitual. Aliás, quase que o dobro.

O salário em Chernobyl varia entre 275 a 400 dólares (entre R$ 880 e R$ 1.280), sendo que trabalho dessas pessoas é muito valorizado. Por mais que isso soe estranho e até mesmo uma piada, as pessoas têm medo de perder o emprego na usina nuclear. Pode demorar um pouco, mais isso um dia vai acontecer.

Foto da sala de controle da unidade nº 2 da Usina Nuclear de Chernobyl
O salário em Chernobyl varia entre 275 a 400 dólares (entre R$ 880 e R$ 1.280)

Sergei Sharshun diz que possui condições muito confortáveis para se trabalhar. Primeiramente, ele possui transporte para ir e voltar do trabalho, e em segundo lugar, ele recebe férias de 50 dias, bem mais que o habitual.
Apesar do acidente, o posicionamento de Sergei em relação à energia nuclear é favorável a mesma. Ele disse que muitos de seus colegas estão trabalhando na construção de uma usina nuclear na Bielorrússia, mais precisamente em Ostrovets. Apesar de ser um pouco irônico - o país mais afetado pelo desastre ainda querer investir em uma usina nuclear - Sergei entende isso como um processo natural da vida, e que ele sente muito orgulho da profissão que possui.

A Usina Nuclear de Chernobyl se tornou parte de uma vida da qual Sergei Sharshun
não consegue deixar para trás
No caminho de volta para casa, Sergei mostrou a foto de duas filhas e um neto. Dentro do vagão havia um grupo de poloneses, turistas que voltavam após terem visitado Chernobyl. No lado de fora, uma paisagem pantanosa mostrava que a vida dava um jeito de seguir em frente por todos os cantos onde se olhava. Para trás ficou tão somente um monumento da União Soviética, que permanece até hoje, simbolizando o período no qual foi erguido. Um filho, ainda que bastardo, mas que Sergei não consegue deixar para trás.

Até a próxima, AssombradOs!

Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://news.tut.by/society/493178.html

http://www.neimagazine.com/news/newscompromise-over-closure-of-chernobyl
https://www.youtube.com/watch?v=4RBgTW_rLbE
https://www.youtube.com/watch?v=cv25MpcHDuU

https://www.youtube.com/watch?v=bWbXnry9trU
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