26 de julho de 2016

O Estranho Caso do Homem que Foi Encontrado "Mumificado" e "Abraçado" a uma Árvore em Tomsk, na Rússia

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Por Marco Faustino

Algum tempo atrás me deparei com uma notícia muito estranha sobre o caso de um homem, que foi encontrado "mumificado" e "abraçado" a uma árvore na cidade de Tomsk, capital do centro administrativo de Tomsk Oblast ("Região de Tomsk", em português), que por sua vez fica a sudeste da Planície Siberiana Ocidental, na Rússia. A notícia começou a ser propagada por volta dos dias 5 e 6 de julho desse ano, através das versões em inglês e russo de alguns sites pertencentes a veículos de imprensa da Rússia, porém a descoberta do corpo teria acontecido quase uma semana antes, no dia 1 de julho, por um morador local chamado Pavel Petrov, que na ocasião estava na companhia de seu pai. Não havia mais do que sete ou oito parágrafos sobre isso, que evidentemente é algo incomum, ainda mais devido as declarações do serviço de resgaste que diziam, em uma análise preliminar, que o corpo estava agarrado a árvore há pelo menos 8 meses. Se formos considerar esse período, o homem teria subido naquela árvore por volta dos meses de novembro e dezembro do ano passado, ou seja, em pleno inverno russo, onde a temperatura média na região, durante o dia, gira em torno de -12ºC a -19ºC (sendo que as mínimas podem facilmente chegar a -50ºC).

Nas redes sociais, assim como em diversos fóruns de discussão, muitas pessoas começaram a especular as razões pelas quais aquele homem teria subido na árvore, e permanecido ali praticamente para congelar. Existem alguns detalhes bem interessantes que comentaremos ao longo dessa postagem, visto que as pessoas estranharam uma informação de que o homem provavelmente estava com muito frio, e por isso subiu na árvore, onde acabou não resistindo, e morreu de hipotermia. Parece uma atitude irracional, não é mesmo? Porém, apesar de pouco provável, ainda mais considerando o frio extremo da região durante o inverno, isso poderia dar uma pequena chance de sobrevivência para ele. Outras pessoas mencionaram que ele poderia estar fugindo de um algum animal selvagem, ou seja, algum predador tal como o urso negro asiático, o urso pardo ou até mesmo lobos. Também citaram que o homem poderia estar sofrendo de algum tipo de transtorno mental.

Existiram, é claro, aquelas pessoas que lembraram que o local do incidente ficaria relativamente próximo a cidade "proibida" ou "fechada" de Seversk, que é "famosa" por possuir diversos reatores nucleares, e indústrias químicas para a separação, enriquecimento e reprocessamento de urânio e plutônio. A cidade é tão restrista, que para simplesmente visitá-la, a pessoa precisa conhecer algum morador da cidade, que por sua vez vai até a polícia, e faz um pedido de autorização para que você possa entrar na cidade (isso tudo para visitar uma única vez). A polícia analisa o pedido, e após cerca de mais ou menos 1 mês, eles respondem se você pode ou não visitar Seversk. Nem sempre eles autorizam, sendo que muitas vezes negam os pedidos. Se você for estrangeiro a situação é um pouco pior, porque dificilmente irá receber essa autorização. Enfim, algumas pessoas especularam que ele poderia estar fugindo de algo de origem "sobrenatural", que estivesse vindo da direção de Seversk. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Uma Participação Muito Especial Nessa Postagem!


Para nos ajudar a esclarecer melhor essa situação, e tentar compreender os possíveis motivos que levaram o homem a subir em uma árvore, e permanecer junto a mesma no rigoroso inverno russo, entramos em contato com Celso Cavallini, um renomado repórter de aventuras e apresentador de games radicais da televisão brasileira. Para vocês terem uma ideia, ele já comandou cerca de 5 programas e mais de 30 quadros ao longo de sua carreira. Trabalhou na SporTV, Band, Canal 21, Rede Globo, TV Record e Record Internacional, e mais recentemente no National Geographic Channel. Ele é especialista em sobrevivência tanto na selva, quanto em ambientes de temperaturas extremas, e possui um canal no Youtube (/Cavallini), onde ele consegue ter uma conversa mais próxima com seus seguidores.

Celso Cavallini já comandou cerca de 5 programas e mais de 30 quadros ao longo de sua carreira. Trabalhou na SporTV, Band, Canal 21, Rede Globo, TV Record e Record Internacional, e mais recentemente no National Geographic Channel
Celso Cavallini gentilmente aceitou nosso convite para participar dessa postagem sobre o assunto, porque não queríamos nos limitar apenas a esse caso especificamente, mas sim transformá-lo em utilidade pública. O "frio" apesar de ser considerado uma espécie de atrativo turístico para dezenas de cidades brasileiras, ainda mais porque moramos em um país predominantemente tropical, pode se tornar fatal principalmente em grandes centros urbanos, onde o índice de moradores de rua é maior. No mês passado, por exemplo, segundo a Arquidiocese de São Paulo, cerca de cinco moradores de rua morreram na capital paulista devido as baixas temperaturas, muito embora a prefeitura não confirmasse isso oficialmente. Portanto, aproveitamos um desprentensioso mistério ocorrido na Rússia para trazer esse debate para o blog AssombradO.com.br, assim como para o nosso canal no Youtube.

Celso Cavallini também é especialista em sobrevivência tanto na selva, quanto em ambientes de temperaturas extremas, e possui um canal no Youtube (/Cavallini), onde ele consegue ter uma conversa mais próxima com seus seguidores
Ao longo dessa postagem vocês irão conhecer as melhores formas para se lidar diante de uma situação extrema como aquele homem na Rússia provavelmente enfrentou, e inclusive como maximizar suas chances de sobrevivência se por ventura algum dia você se deparar com um predador na natureza. Evidentemente, não temos nenhuma espécie de urso que pertença a fauna brasileira, mas ter a informação de como agir em uma situação como essa, é muito importante para que nem você, e nem o animal, saiam feridos de um eventual encontro. Enfiim, vamos começar contando um pouco sobre a cidade de Tomsk, na Rússia.

Um Pouco Sobre a Cidade de Tomsk - A Cidade Russa Perdida entre o Passado e o Futuro


Conforme dissemos anteriormente, a cidade de Tomsk, é a capital do centro administrativo de Tomsk Oblast ("Região de Tomsk", em português), que por sua vez fica a sudeste da Planície Siberiana Ocidental, na Rússia. Aliás, ela é uma das cidades mais antigas da Sibéria, e segundo o último censo realizado em 2010, contava com pouco mais de 520.000 habitantes. Para vocês terem uma ideia, Tomsk fica localizada a 3.616 km de distância de Moscou, capital da Rússia, ou seja, uma viagem que pode demorar cerca de 46h de carro ou 4h de avião. O aeroporto de Tomsk chama-se Bogashyovo (Аэропорт Богашёво), sendo que ele é bem pequeno, e fica um pouco afastado, uma distância que geralmente é percorrida em 30 minutos de carro até o centro da cidade.

Imagem do Google Maps mostrando a distância de Tomsk em relação a Moscou, capital da Rússia

O aeroporto de Tomsk chama-se Bogashyovo (Аэропорт Богашёво),
sendo que ele é bem pequeno, e fica um pouco afastado da cidade


Tomsk é uma cidade muito arborizada. Quase todas as ruas e avenidas têm árvores típicas do hemisfério norte, assim como bétulas, pinheiros, carvalhos, tílias e sorbus. As ruas são bem largas, e a cidade possui muitos prédios baixos. O fato de estar no interior do país, praticamente no centro da Rússia, significa que naturalmente teria um contato muito maior com florestas e animais silvestres, principalmente ursos pardos, que vez em quando surgem no meio urbano. Contudo, os maiores problemas geralmente estão relacionados ao frio e as árvores, visto que requerem um olhar sempre muito atento por parte da prefeitura na realização de podas e na verificação das condições de saúde das mesmas, para evitar que simplesmente caiam sobre as casas, sobretudo escolas.

Tomsk é uma cidade muito arborizada. Quase todas as ruas e avenidas têm árvores típicas do hemisfério norte, assim como bétulas, pinheiros, carvalhos, tílias e sorbus
Na maior parte do ano as temperaturas são negativas ou bem próximas de zero, sendo que o período mais frio do ano é compreendido entre os meses de novembro e dezembro. Por outro lado, o período menos frio por assim dizer, é entre maio e meados de setembro. De qualquer forma, os moradores já estão habituados com todo esse frio, ou seja, geralmente casos como o que estamos apresentando nessa postagens não são tão comuns de acontecerem. Confira um vídeo de apresentação da região de Tomsk no Youtube:

A cidade foi fundada sob o decreto do Tsar Boris Godunov em 1604. A descoberta de ouro em 1830 estimulou amplo desenvolvimento de Tomsk no século 19, sendo que em meados desse mesmo século um quinto dos moradores da cidade eram exilados. No entanto, após alguns anos, a cidade conseguiu se reinventar como centro educacional da Sibéria. Assim sendo, o progresso da cidade levou o governo soviético a criar a "região administrativa de Tomsk". Confira um vídeo de apresentação da região de Tomsk no Youtube:



A arquitetura comercial e residencial de Tomsk ilustra a diversidade da cultura siberiana na virada do século 20, e a parte mais característica do patrimônio arquitetônico da cidade está exposta em seus bairros com casas de madeira decoradas. Após a Segunda Guerra Mundial, quase 10% de todos os moradores da cidade eram estudantes, e consequentemente o grande número de instituições de ensino da cidade contribuiu para tornar Tomsk um importante centro para o setor de tecnologia da Rússia. A cidade continua a sendo um importante centro administrativo, de educação, indústria e recursos energéticos da Sibéria.

O Caso do Homem Encontrado "Mumificado" e "Abraçado" a uma Árvore


No dia 6 de julho desse ano, o site do Siberian Times, publicou uma notícia bem curta sobre um homem que foi encontrado "mumificado" e "abraçado" ao tronco de uma árvore da cidade de Tomsk, na Rússia. Os investigadores da polícia, mediante de uma autópsia preliminar, teriam confirmado que o homem havido morrido há pelo menos 8 meses, sendo que seu corpo estava a cerca de 15 metros do solo.

O corpo teria sido encontrado no dia 1 de Julho por um morador local chamado Pavel Petrov, em uma área florestal entre a rua Mostovaya (ул.Мостовой) e a Estrada Chekistsky (Чекистский тракт), aparentemente ainda dentro perímetro de Tomsk, conforme você pode ver nas imagens abaixo:

Imagem do Google Maps mostrando a região no qual o corpo mumificado
de um homem foi encontrado no alto de uma árvore

Imagem do Google Street View mostando o trecho final da rodovia Кутузова (sentido Seversk-Tomsk),
que é justamente onde começa a floresta de pinheiros, que se estende por uma grande área de Tomsk
"Fomos eu e meu pai que encontramos o corpo. Ele estava sentado em um pinheiro, a cerca de 50 metros de distância da estrada. O paramédico que retirou o corpo da árvore disse que provavelmente o homem sentiu tanto frio que decidiu subir na árvore, onde acabou falecendo de hipotermia", disse Pavel Petrov, que praticamente foi a única pessoa a tirar uma foto do que encontrou.

"O paramédico que retirou o corpo da árvore disse que provavelmente o homem sentiu tanto frio que decidiu subir na árvore, onde acabou falecendo de hipotermia", disse Pavel Petrov
O homem estava usando uma espécie de camisa listrada azul-marinho de manga comprida, um agasalho (possivelmente um moletom), calça comprida e "valenki" (botas de inverno, ainda muito populares na Rússia, que são feitas de feltro de lã de ovelha, sendo revestidas muitas vezes de couro, e utilizadas para caminhar na neve seca). Enfim, aparentemente ele não estava completamente desprotegido do frio, porém devido a distância que a foto foi tirada não dá para saber maiores detalhes de sua vestimenta, e se a mesma seria suficiente para suportar o frio da região. De acordo com o que foi descrito acima, soa totalmente insuficiente para suportar uma noite no rigoroso inverno siberiano.

Foto tirada pelo morador Pavel Petrov do corpo que encontrou em cima de uma árvore
Por fim, foi informado que o Departamento de Investigação da Região de Tomsk do Comitê Investigativo da Federação Russa estava ciente do caso, e no momento de sua morte ele estava justamente no mesmo local e na mesma posição que foi encontrado, ou seja, a cerca de 15 metros do solo e "abraçando" o tronco da árvore com as duas mãos.

O homem estava usando um colete tático de sobrevivência, um agasalho, calça comprida e "valenki"
(botas de inverno, ainda muito populares na Rússia, que são feitas de feltro de lã de ovelha,
sendo revestidas muitas vezes de couro, e utilizadas para caminhar na neve seca)
Inicialmente, eu acreditava que essa notícia fosse apenas uma espécie de "clickbait", que é um termo utilizado para definir notícias publicadas na internet, que possuem títulos sensacionalistas, contando com "imagens em miniatura" (thumbnails), que muitas vezes fogem totalmente do propósito original do texto, e que servem apenas para induzir as pessoas a clicar nos links, e consequentemente gerar receita para uma determinada página. É assim que normalmente os sites de notícias "falsas" ou que não pesquisam devidamente o conteúdo antes de publicar "ganham dinheiro" na internet. Com certeza você conhece diversos sites e até mesmo canais no Youtube que adotam essa "estratégia", mas que muitas vezes servem apenas para disseminar um conteúdo inverídico ou uma versão totalmente distorcida do que realmente pode ter acontecido.

Entretanto, ao pesquisar um pouco mais sobre esse caso, descobri que esse caso foi realmente divulgado por meio de uma notícia publicada no site do Departamento de Investigação da Região de Tomsk do Comitê Investigativo da Federação Russa (Следственное управление Следственного комитета Российской Федерации по Томской области, em russo), que por sua vez é principal autoridade em termos de investigação no âmbito federal da Rússia. Geralmente o "Sledcom" (abreviação utilizada para simplificar a nossa vida ao citar essa agência federal russa) investiga crimes envolvendo casos de corrupção e homicídios, uma vez que é muito comum que eles auxiliem a polícia local em casos onde é necessária uma investigação mais minuciosa.

O caso foi realmente divulgado por meio de uma notícia publicada no site do Departamento de Investigação da Região de Tomsk do Comitê Investigativo da Federação Russa
Basicamente, a notícia publicada apontava para as mesmas informações que acabaram sendo propagadas por dezenas de sites de notícias da Rússia. Alguns outros sites de notícias, no entanto, apontavam que Elena G. Lebedeva (Лебедева Елена Геннадьевна), assistente sênior de comunicação social da divisão do Sledcom em Tomsk, havia mencionado que eles ainda não tinham conseguido identificar quem era aquele homem, e que uma investigação mais aprofundada seria realizada. O principal foco estava nos arredores onde seu corpo foi encontrado, onde uma perícia tinha sido realizada. A polícia estava à procura de testemunhas ou conhecidos da vítima que pudessem ajudar na sua identificação, e esclarecer o que aquela pessoa realmente fazia naquele local.

Elena G. Lebedeva (Лебедева Елена Геннадьевна), assistente sênior de comunicação social da divisão do Sledcom em Tomsk, havia mencionado que eles ainda não tinham conseguido identificar quem era aquele homem,
e que uma investigação mais aprofundada seria realizada
Um correspondente do site "Sib.fm", uma espécie de revista online, obteve a informação de que o corpo não apresentava sinais de violência. Já o site de notícias "NEWSru.com" mencionou que ninguém sabia a razão pela qual o homem teria subido na árvore e permanecido nela, ainda mais naquela altura, e que toda e qualquer hipótese seria tão somente mera especulação.

Enfim, a questão é que os resultados finais da autópsia não foram divulgados até o momento do fechamento dessa postagem (26/07), ou seja, aparentemente o caso ainda está em aberto, e nada mais foi noticiado pela imprensa russa, que provavelmente considerou que tal situação não merecia uma maior atenção. Isso não nos impede, é claro, de tentarmos entender as possíveis razões pelas quais aquele homem subiu naquela árvore em pleno inverno russo, apenas a 50 metros de uma das margens da rodovia Кутузова, que é o principal acesso rodoviário a cidade "proibida" de Seversk, porém ainda dentro dos limites da cidade de Tomsk.

A Cidade "Proibida" de Seversk (Северск)


A cidade de Serversk é uma cidade "restrita" ou "proibida" da Região de Tomsk, na Rússia, localizada a cerca de apenas 15 quilômetros a noroeste de Tomsk (se formos considerar os limites entre as cidades, é claro). Segundo o último censo realizado em 2002, a cidade possuía pouco mais de 108.000 habitantes, porém visitá-la não é tão simples assim. Apesar dos moradores terem atualmente uma certa liberdade de "ir e vir", o mesmo não pode se dizer das pessoas que não moram em Serversk. Contudo, para que vocês possam entender melhor, vamos contar rapidamente um pouco da história dessa interessante cidade russa.

Imagem do Google Maps mostrando a localização da cidade de Seversk
A história moderna dessa cidade começou com a fundação, no ano de 1949, da denominada "Instalação Caixa Postal nº 5", o codinome do que atualmente se conhece como o "Siberian Group of Chemical Enterprises (SGCE)" ("Grupo Siberiano de Empresas Químicas", em português). Qual o motivo de esconder o nome verdadeiro dessa instalação? Bem, a mesma é um verdadeiro complexo de indústrias químicas para a separação, enriquecimento e reprocessamento de urânio e plutônio.

Para vocês terem uma ideia, o SGCE conta com diversos reatores nucleares, sendo que armas nucleares já foram produzidas na época da Guerra Fria para a então URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas). Esse gigantesco complexo industrial ficou responsável por todos os serviços necessários para que pudesse entrar em operação, como por exemplo: a construção de casas para os trabalhadores, escolas para seus filhos, desenvolvimento do comércio, serviço de água e esgoto, energia elétrica etc. Enfim, uma espécie de comunidade foi criada ao redor desse grande complexo, que foi apelidada informalmente de Pyaty Pochtovy (Пя́тый Почто́вый) até 1954.

A história moderna dessa cidade começou com a fundação no ano de 1949 da denominada "Instalação Caixa Postal nº 5", o codinome do que atualmente se conhece como o "Siberian Group of Chemical Enterprises (SGCE)" ("Grupo Siberiano de Empresas Químicas", em português)
Em 1954, a cidade foi criada por decreto federal com o nome de Tomsk-7 (Томск-7). Conforme a cidade crescia, o SGCE começou a repassar a responsabilidade de algumas funções (o gerenciamento e a administração urbana) para a prefeitura da cidade (um processo que continua até hoje). Vale ressaltar nesse ponto, que "Томск-7" era apenas o nome de um código postal da Rússia, e a cidade nem mesmo aparecia no mapa. Sim, esse foi mais um codinome dessa cidade secreta da URSS na época da Guerra Fria.

Imagem do Google Earth mostrando a cidade de Seversk e o complexo nuclear
do Grupo Siberiano de Empresas Químicas, localizado na parte superior direta da imagem
Tudo mudou em 1992 com decreto de Boris Yeltsin (o primeiro presidente da Federação Russa), que permitia a essas "cidades secretas" a voltarem a utilizar os seus antigos nomes. Foi assim que Seversk (Се́верск) começou a aparecer no mapa.

Apesar de toda essa história, Seversk é uma cidade bem parecida como qualquer outra pequena cidade tipicamente russa, porém ela existe tão somente devido ao SGCE. Segundo o site oficial da cidade, o SGCE é uma das maiores indústrias do setor nuclear do mundo, e "nada no mundo se compara ao singular complexo de indústias que eles possuem". Ainda de acordo com o site, o SGCE emprega cerca de 15.000 cientistas, engenheiros e especialistas, ou seja, a cidade gira realmente em torno desse complexo industrial. Portanto, o comércio local atende basicamente as necessidades de quem mora e trabalha na cidade.

No próprio site oficial da cidade são citados os "procedimentos para a visitação de turistas", mas conforme dissemos anteriormente, não é um processo simples. Para entrar na cidade você precisa ser convidado por um morador local, e o processo de análise do seu pedido demorar 45 dias (muitas vezes demora bem mais do que isso), visto que requer a aprovação formal da Agência Russa de Energia Atômica. E não pense que "dá para entrar com jeitinho", porque você precisaria passar por cerca de seis postos de verificação ao longo da rodovia de acesso à cidade.

Não pense que "dá para entrar com jeitinho", porque você precisaria passar por cerca de seis postos de verificação
ao longo da rodovia de acesso à cidade.
Para entrar na cidade você precisa ser convidado por um morador local, e o processo de análise do seu pedido demorar 45 dias (muitas vezes demora bem mais do que isso), visto que requer a aprovação formal da Agência Russa de Energia Atômica

Foto do posto principal de verificação da cidade de Serversk,
e consequentemente é considerada a principal porta de entrada da cidade
Um relato interessante é do blogueiro Luciano Aguiar, responsável pelo blog "Um Brasileiro na Rússia", que em uma de suas postagens disse que havia muitos segredos sobre o SGCE, e ninguém sabe exatamente o que acontece por lá, exceto as pessoas que trabalham no complexo industrial, que evidentemente não comentam absolutamente nada sobre o assunto. Ele também menciona o comentário de uma aluna de sua esposa, dizendo que a radiação exala do SGCE, e acaba sendo levada pelo vento. De acordo com ele, a cidade de Tomsk sofre mais com esse vento radioativo do que a própria Seversk. As correntes eólicas levam esse ar poluído para o sul, mas para o lado onde fica Tomsk, não para Seversk.

Apesar de todo esse mistério e burocracia, a cidade de Seversk aparentemente não tem nada demais. Segundo Luciano Aguiar, a cidade inclusive tem um zoológico, algo que a cidade de Tomsk não possui. Muitos de seus habitantes, principalmente jovens, estudam e até mesmo trabalham em Tomsk.

Ninguém sabe exatamente o que acontece dentro do complexo nuclear, exceto as pessoas que trabalham no complexo industrial, que evidentemente não comentam absolutamente nada sobre o assunto. Fora isso seus moradores vivem normalmente assim como seria em qualquer outra cidade russa de pequeno porte

Foto de uma das avenidas da cidade de Seversk

Apesar de todo esse mistério e burocracia, a cidade de Seversk aparentemente não tem nada demais, a cidade inclusive tem um zoológico, algo que a cidade de Tomsk não possui.

Você também pode conferir um passeio de carro por Seversk, em um vídeo publicado no Youtube, no canal de uma usuária chamada "Katerina Abat":



E até mesmo ter uma visão panorâmica da cidade a partir de um drone, em um vídeo que foi publicado por um canal chamado "Nova Cs", também no Youtube:



Quando se trata da Rússia, no entanto, quase nada é simplesmente comum. Nesse caso, Seversk tem um histórico bem preocupante em relação ao SGCE. Isso porque em 6 de abril de 1993 houve um acidente nuclear no "Complexo de Reprocessamento Tomsk-7". Naquele dia, os trabalhadores estavam despejando ácido nítrico em um tanque, com o objetivo de realizar a separação do plutônio do combustível nuclear exaurido. Não ficou claro se o acidente foi causado por um erro técnico ou humano, mas acredita-se que a falta de ar comprimido fez com que a mistura de ácido nítrico, urânio e o plutônio sobreaquecesse e atingisse temperaturas críticas em poucos minutos.

A explosão que se seguiu derrubou paredes em dois andares do complexo, começou um incêndio, e lançou cerca de 250 m³ de gás radioativo, 8,7 kg de urânio e 500 g de plutônio para o meio ambiente. Uma área de 1.500 m² ao redor do complexo foi seriamente contaminado, enquanto a nuvem radioativa cobriu uma área total de 120 km² (região no qual o aumento dos níveis de radioatividade ainda podia ser detectado). A revista Time chegou a mencionar esse incidente como um dos 10 piores acidentes nucleares do mundo.

Em 6 de abril de 1993 houve um acidente nuclear no "Complexo de Reprocessamento Tomsk-7". A explosão que se seguiu derrubou paredes em dois andares do complexo, começou um incêndio, e lançou cerca de 250 m³ de gás radioativo, 8,7 kg de urânio e 500 g de plutônio para o meio ambiente
Essa explosão foi classificada como nível 4 na Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (sigla em inglês, INES), que por sua vez é utilizada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para explicar ao público leigo e à mídia, a gravidade de acidentes nucleares, assim como o ocorrido na usina nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão, após o terremoto e o tsunami de 11 de março de 2011. Abaixo você pode conferir um infográfico sobre essa classificação e alguns exemplos mencionados naquela época:

Infográfico relacionado a alguns eventos segundo a Escala Internacional de Eventos Nucleares e Radiológicos (sigla em inglês, INES)
Os vilarejos de Georgievka and Nadezhda foram os que mais sofreram pela precipitação nuclear, visto que a neve radioativa que caía sobre esses locais possuíam um nível de radição 100 vezes maior do que o normal. As áreas afetadas pela precipitação radioativa mostraram um aumento dos níveis de isótopos de vida longa tais como o césio-137 (que pode causar câncer e anomalias genéticas em descendentes quando inalado ou ingerido através de alimentos ou água), e o estrôncio-90 (que pode causar câncer nos ossos ou leucemia). Com a ajuda de especialistas estrangeiros, as operações de descontaminação conseguiram recolher e remover cerca de 577 g de plutônio nos arredores do Complexo de Reprocessamento Tomsk-7. Curiosamente, apenas cerca de 450 g de plutônio estavam presentes no tanque antes da explosão, o que sugere vazamentos anteriores, que obviamente não foram declarados.

De acordo com a Fundação Bellona, a mais poderosa ONG em defesa do meio-ambiente da Noruega, cerca de 30 acidentes graves ocorreram no complexo nuclear ao longo de sua história, liberando cerca de 10 g de plutônio na atmosfera a cada ano. Em 2008, um estudo constatou um aumento dos níveis de plutônio e de césio-137 em amostras de água e do solo, sugerindo novos vazamentos. Alguns reatores foram desligados em junho daquele mesmo ano, para dar sequência ao acordo firmado entre a Rússia e os EUA, no ano de 2003, relativo à eliminação da produção de plutônio para evitar a proliferação de armas nucleares, porém não pense que isso impediu novas situações de risco.

De acordo com a Fundação Bellona, a mais poderosa ONG em defesa do meio-ambiente da Noruega, cerca de 30 acidentes graves ocorreram no complexo nuclear, liberando cerca de 10 g de plutônio na atmosfera a cada ano
No ano passado, o site do "Siberian Times publicou uma notícia sobre uma "pequena explosão" ocorrida na tarde do dia 1 de fevereiro, no complexo nuclear de Seversk. Na época, as autoridades se apressaram para minimizar a situação, visto que o pânico estava se espalhando entre a população. Oficialmente, foi declarado que houve uma "perda de pressurização" em um tanque de urânio empobrecido, o que causou em um "pequeno princípio de incêndio".

As autoridades também disseram que não era motivo para pânico, porque não teria havido nenhum vazamento de radição nos arredores do complexo nuclear, que estava sendo monitorado por equipamentos especiais. Contudo, um blogueiro local chamado Ivan Khomeev disse que, por questão de segurança, os moradores locais não deveriam abrir as janelas e nem as portas ou ficar por muito tempo na rua.

As autoridades também disseram que não era motivo para pânico, porque não teria havido nenhum vazamento de radição nos arredores do complexo nuclear, porém um blogueiro local chamado Ivan Khomeev disse que, por questão de segurança, os moradores locais não deveriam abrir as portas e nem as janelas ou ficar por muito tempo na rua
O "Siberian Times" também ressaltou que o SGCE possuía cerca de 4 unidades industriais, e uma de suas principais tarefas continuava sendo fornecer urânio para abastecer as centrais nucleares. No entanto, acreditava-se que todas as unidades fossem muito antigas, com mais de 40 anos de atividades. Em nota, as autoridades disseram que o complexo nuclear não possuía quaisquer problemas tecnológicos, e operava normalmente. Enfim, acho que já ouvimos essa história em algum outro lugar, não é mesmo?

Com tantos mistérios que envolvem a cidade, não é difícil imaginar que surgiria uma teoria conspiratória dizendo que algo "sobrenatural" pudesse ter perseguido aquele homem encontrado na árvore, porém essa teoria não faz muito sentido, visto que teríamos outras ocorrências ou anormalidades sendo registradas pelas câmeras e celulares de curiosos da região.

A Opinião de Celso Cavallini e Como Tentar Reduzir o Risco de Ser Atacado por Animais Selvagens


Apesar da vertente conspiratória ter estado em alta em fóruns de discussão da Rússia, fomos atrás de uma opinião mais séria e mais centrada sobre esse assunto. Nessa jornada em busca de entender o que pode ter acontecido, tivemos a colaboração de Celso Cavallini, um renomado repórter de aventuras e apresentador de programas, inclusive na TV aberta brasileira, citado logo no início de nossa postagem.

Segundo Celso Cavallini, ursos provavelmente estariam hibernando no inverno e eles não possuem o hábito de perseguir os seres humanos. Caso perseguissem, no entanto, provavelmente eles matariam uma pessoa, visto que correm a cerca de 60 km/h. Portanto, não daria tempo de uma pessoa subir em uma árvore. É interessante ressaltar também que grandes ursos pardos não sobem em árvores, apenas filhotes.

No caso de lobos, bom a situação muda totalmente de figura, visto que uma pessoa poderia escutar o som da alcateia, e então subir em uma árvore para previnir um ataque. Assim sendo, essa hipótese seria um pouco mais provável, visto que os lobos nos enxergam como presas. Logo, aquele homem encontrado mumificado em uma árvore poderia estar fugindo do ataque de lobos.

Celso Cavallini
Existiria ainda uma pequena chance de ter sido motivado pelo avistamento de um tigre siberiano, porém como dissemos, essa chance é muito pequena. Primeiramente, porque a região é uma floresta urbana, e em segundo lugar os tigres siberianos estão praticamente extintos. Além disso, a pessoa praticamente só perceberia que seria atacada por um tigre, quando ele estivesse muito próximo dela, ou seja, não teria tempo de reação.

Outra questão abordada seria como tentar previnir esse tipo de ataque. De acordo com Celso Cavallini, não há como mencionar métodos totalmente eficazes para previnir esses ataques, porém, via de regra, ursos não atacam se não forem surpreendidos, ou seja, você poderia evitar um ataque fazendo barulho. Sobre os lobos, bem, os lobos também são mais rápidos e mais resistentes que um ser humano, então subir em uma árvore seria uma alternativa viável. Portanto, dentre as possibilidades, essa seria a mais coerente.

Questionamos também sobre o "frio", e se mesmo aqui no Brasil ele poderia ser considerado como um "inimigo". Celso Cavallini disse que sim, ele é um inimigo. Ele contou que esteve na Floresta Amazônica em pleno verão, e durante a noite ele sentiu frio, mas não era uma questão de vida ou morte. Em outras localidades, no entanto, uma pessoa morrer devido a ação do frio em menos de 3 horas, inclusive no Brasil. Para que vocês tenham uma ideia, uma pessoa pode morrer de sede em questão de 3 dias, de fome em questão de 3 semanas, e de frio em questão de apenas 3 horas.

O ideal para evitar a morte devido ao frio seria a utilização de roupas em camadas, ou seja, exatamente o oposto do que russo estava utilizando. E qual a razão para utilizar roupas dessa forma ao invés de um único casaco um pouco mais grosso? Bem, no caso de um único casaco mais grosso acontece algo indesejável em uma situação como essa: você fica com calor e acaba tirando o casaco, e ao tirar acaba ficando com frio. O problema é que se você começar a suar, esse suor vai congelar muito rapidamente, e acaba se tornando um grande inimigo no frio. Para exemplificar isso, você poderia estar escalando uma montanha, e começar a suar sem perceber. Ao chegar no topo ou em uma base de apoio, esse suor congelado causaria sérios problemas para você. Resumindo? Para combater o frio, o mais eficaz seria a utilização de roupas em camadas.

Chegamos a questioná-lo rapidamente sobre um outro aspecto um tanto quanto interessante. Esse caso envolve um homem, provavelmente um morador da região, sem roupa adequada para encarar o rigoroso inverno russo (por mais que tivesse habituado ao frio intenso), em uma floresta praticamente urbana, e a 50 metros da rodovia mais próxima, onde poderia pedir ajuda (dependendo do horário, é claro). Ainda assim, ele decidiu subir a 15 metros de altura em uma árvore. Ele realmente estaria fugindo de algo ou poderia estar desorientado e perdido? Segundo Celso Cavallini o homem poderia estar tentando localizar a rodovia, e por isso subiu na árvore. Porém, ao subir o vento pode ter piorado a sensação térmica.

E quanto a vocês? O que acham que aconteceu com aquele homem? Ele estava fugindo de algum predador? Estava fugindo de alguma outra pessoa? Estava desorientado e subiu em uma árvore para tentar se localizar? Tinha problemas mentais? Estava fugindo de algo "sobrenatural" vindo da cidade proibida de Seversk?

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://kapital-rus.ru/news/327382-v_tomske_s_dereva_snyali_mujskuu_mumiu_v_telnyashke_i_valenkah/
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0114-no-cause-for-concern-over-nuclear-explosion-in-closed-city-say-officials/
http://siberiantimes.com/other/others/news/n0693-a-mummy-of-a-man-hugging-a-tree-trunk-found-in-tomsk/
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