9 de junho de 2016

Seres Humanos "Sintéticos"? Cientistas Propõem Ambicioso Projeto para Criar um "Genoma Humano Sintético"




Por Marco Faustino

Existe uma série de televisão canadense, basicamente de "ficção científica", chamada "Orphan Black", que é estrelada pela atriz Tatiana Maslany, na qual ela interpreta diversos personagens "idênticos", que por sua vez são clones. A série é centrada em uma personagem principal chamada Sarah Manning, uma mulher que assume a identidade de outro clone, Elizabeth Childs, depois de testemunhar o suicídio da mesma. A série levanta questões sobre as implicações morais e éticas da clonagem humana, e seus efeitos sobre questões de identidade pessoal. Caso vocês acompanhem essa série, assim como eu venho fazendo uma maratona para colocá-la em dia por aqui, entenderão sobre o que eu estou falando.

Se vocês não fazem ideia ou nunca escutaram nada a respeito dessa série, recomendo fortemente que vocês assistam a série, que atualmente está prestes a terminar a quarta temporada (cada temporada possui apenas 10 episódios de aproximadamente 45 minutos). Não darei spoilers sobre a série, porém para que você possa entender a razão pela qual eu comecei essa postagem falando sobre "Orphan Black", você precisa conhecer justamente um detalhe, que é revelado durante a sequência dos episódios. Sarah e suas irmãs são clones e possuem sequências sintéticas em seus respectivos DNAs. Isso perfaz "quase" uma espécie de "genoma sintético", o qual torna todas elas experimentos humanos, que pertencem a uma determinada empresa. Sim, isso mesmo que você leu, seus corpos pertencem a uma coorporação, porém apenas dentro do universo criado para a série. Vocês terão uma melhor noção do que estou dizendo quando forem assistir.

De qualquer forma, para entender de forma plena, a dimensão da importância dessa postagem, é necessário que você também tenha em mente o Projeto Genoma Humano (PGH). Alguém lembra dele? Pois bem, o PGH foi iniciado formalmente em 1990, sendo coordenado pelo Departamento de Energia e os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. O projeto tinha o objetivo básico de realizar o mapeamento do genoma humano (cerca de 3.2 bilhões de pares de bases e 25.000 genes), tendo o envolvimento de mais de 5.000 cientistas, de 250 diferentes laboratórios, em 17 países ao redor do mundo, a um custo bilionário.

  O PGH foi iniciado formalmente em 1990, sendo coordenado pelo Departamento de Energia e o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O projeto tinha o objetivo básico de realizar o mapeamento do genoma humano (cerca de 3.2 bilhões de pares de bases e 25.000 genes), tendo o envolvimento de mais de 5.000 cientistas, de 250 diferentes laboratórios, em 17 países ao redor do mundo.
Originalmente, era estimado que o mesmo fosse completado em 15 anos, mas o desenvolvimento da tecnologia acelerou esse processo. Em abril de 2003, através de um comunicado de imprensa foi anunciado que o projeto tinha sido "concluído" com sucesso, com o seqüenciamento de 99% do genoma humano, e uma precisão de 99,99%. No entanto, apesar do alarde, vale lembrar nem todo o material genético humano havia sido sequenciado. Durante o projeto foram levantadas questões sobre o pantenteamento de sequências descobertas por empresas privadas. A preocupação com o patenteamento foi tanta que motivou uma declaração da UNESCO em que foi reafirmado, que o genoma humano é propriedade inalienável da pessoa e patrimônio comum da humanidade.

Entrentato, no início do mês de maio desse ano, em um encontro a portas fechadas na Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, cerca de 150 cientistas, empresários e juristas, definiram planos para a síntese de genomas humanos em laboratório. Basicamente, tratava-se de escrever um "novo código de DNA" para a vida humana. O projeto era chamado de "Human Genome Project-write" ("Projeto de Escrita do Genoma Humano", em português), sendo que essa nova e ambiciosa proposta poderia ser a chave para o entendimento de um número sem precedentes de doenças humanas, além de derrubar drasticamente os custos do sequenciamento genético.

Curiosamente, projeto foi "formalizado" no começo desse mês em um artigo publicado na revista científica "Science" ao fornecer maiores detalhes de como tudo isso funcionará, e também definindo os objetivos dessa empreitada. Porém, isso desagadou diversos outros cientistas que se sentiram bem incomodados pela forma como essa discussão começou e levantou questões éticas sobre as eventuais consequências desse projeto. Como resultado, segundo a mídia norte-americana, o projeto poderia levar no futuro a geração de seres humanos "sintéticos", "aperfeiçoados geneticamente", e que nem mesmo tivessem "pais biológicos". Será mesmo verdade? Será que os corpos de nossos filhos e netos poderão ser de propriedade de empresas de biotecnologia? Vamos saber mais sobre esse assunto?

O que é o Genoma Humano e o Legado do "Projeto Genoma Humano"


Para que vocês não fiquem completamente perdidos nessa postagem, vamos começar informando a vocês sobre o que é o genoma humano de uma forma um pouco mais simplificada, porém tentando manter um certo nível técnico, combinado?

Cada um de nós é formado a partir das informações contidas nos genes que herdamos de nossos pais. Esses genes nada mais são do que pequenas estruturas químicas, ou seja, moléculas que reúnem quatro bases que se repetem em sequência. Essas quatro unidades ligadas umas às outras são responsáveis por tudo o que somos, por todas as proteínas do nosso corpo, estruturas que nos mantêm em pé, e nos conferem características como altura, cor dos olhos e da pele etc.

Cada um de nós é formado a partir das informações contidas nos genes que herdamos de nossos pais. Esses genes nada mais são do que pequenas estruturas químicas, ou seja, moléculas que reúnem quatro bases que se repetem em sequência
Portanto, o genoma é o conjunto de todo o material genético localizado no núcleo das células de um ser vivo. No ser humano, essas informações estão divididas em 23 cromossomos, que são formados pelo DNA, que por sua vez carrega bilhões de informações. Uma espécie de "receita" única e exclusiva de uma determinada pessoa. Essa sequência é tão grande que se fosse digitada e impressa, daria uma pilha de papel mais ou menos do tamanho de um prédio de 20 andares.

O nosso DNA é como se fossem duas "fitas" compostas por sequências de bases nitrogenadas. Essas bases nitrogenadas são identificadas pelas letras A, T, C e G (Adenina, Timina, Citosina e Guanina), formando pares que se encaixam entre si: a Adenina se encaixa com Timina, e a Citosina se encaixa com Guanina. Assim sendo, as duas "fitas" do DNA permanencem unidas dando aquele formato conhecido de "dupla hélice", o que difere do RNA, que só possui uma única hélice.

O nosso DNA é como se fosse duas fitas compostas por sequências de bases nitrogenadas. Essas bases nitrogenadas são identificadas pelas letras A, T, C e G (Adenina, Timina, Citosina e Guanina), formando pares que se encaixam entre si:
a Adenina se encaixa com Timina, Citosina se encaixa com Guanina

Os aminoácidos então são formados, e ao serem agrupados seguindo essa "receita", formam as proteínas, até chegar ao que nós somos. É importante dizer que essa é uma explicação bem resumida mesmo, certo? Existe uma infinidade de detalhes sobre esse assunto, porém preferimos que vocês tenham nesse momento apenas uma base para ficarem menos confusos sobre esse assunto. O importante a ser ressaltado aqui é que o "Projeto Genoma Humano" foi concebido apenas para "ler" nosso material genético, descobrindo assim a funcionalidade de cada parte dele, e não reescrevê-lo.

De qualquer forma seu legado é evidente nos dias de hoje, seja através dos testes genéticos, que são usados para diagnosticar e confirmar doenças (mesmo em indivíduos assintomáticos, ou seja, que não apresentam quaisquer sintomas), seja fornecendo informações sobre prognósticos da doença, com diversos graus de precisão, predizendo o risco futuro de doenças em indivíduos sadios e em seus descendentes. Além disso, temos a identificação de pessoas por meio do DNA (estabelecendo relações de paternidade ou outras relações familiares, bem como na identificação de criminosos), no cultivo de produtos de origem vegetal resistentes a doenças, insetos, secas, e até mesmo mais nutritivos (os polêmicos alimentos geneticamente modificados). Também é possível doadores que possuam órgãos compatíveis com os de receptores, estudar a origem de nossa espécie através de mutações, entre outros benefícios.

O legado do "Projeto Genoma Humano" é evidente nos dias de hoje através, por exemplos, dos testes de DNA,
estabelecendo relações de paternidade ou outras relações familiares
Foi justamente com a evolução de todo esse conjunto, que atualmente é possível sequenciar um genoma humano por menos de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 3.500 pela cotação atual). Um valor irrisório considerando todo o investimento e esforço originalmente empregados. Esse é um legado considerável, que vem atrelado, é claro, a uma série de questões éticas, políticas, econômicas e legais. Por fim, vale a pena mencionar, que além do mapeamento do material genético da nossa própria espécie, os cientistas já sequenciaram o genoma de centenas de outras espécies de animais, plantas e até mesmo de vírus e bactérias (sim, alguns vírus possuem DNA ao invés do RNA).

O Encontro "Secreto" que Discutiu o Polêmico Projeto que Planeja Criar um "Genoma Humano Sintético"


No dia 10 de maio desse ano, um grupo de 150 convidados, entre eles cientistas, empresários e juristas participaram de um encontro a portas fechadas na Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Eles se reuniram para discutir se era possível, e como construir "a partir do zero" todo um genoma humano - o material genético hereditário, que na natureza é transferido dos pais para os filhos. Entretanto, muito provavelmente ninguém saberia desse encontro se não fosse pela "denúncia" de Drew Endy, professor associado de Bioengenharia na Universidade de Stanford, e de Laurie Zoloth, professora de Ética Médica e Ciências Humanas da Universidade Northwestern, ambas nos Estados Unidos.

Na véspera desse encontro, ou seja, no dia 9 de maio, Drew Endy publicou em sua conta no Twitter, o convite que havia recebido dos organizadores do evento, que contava com a presença do Dr. George Church, professor de Genética na Escola de Medicina de Harvard, principal responsável pela organização do encontro, bem como outros organizadores, tais como: Jef Boeke, diretor do Instituto para Sistemas Genéticos do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova Iorque, e Andrew Hessel, que se autodenomina um futurista, e que havia inicialmente proposto algo semelhante em 2012.

Tuite de Drew Endy, professor associado de Bioengenharia na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos
"denunciando" o encontro "secreto" de cientistas, empresários e juristas na Escola de Medicina de Harvard

No texto do "convite" é expressamente mencionado, que o encontro seria restrito somente a convidados em caráter científico, e que nenhum comunicado seria realizado. Além disso, a mídia não seria convidada para evitar que o debate fosse de alguma forma mal-interpretado. Os organizadores pediram aos convidados para não fazer nenhum contato ou mesmo publicassem algum material ou nota sobre o assuntos em suas respectivas redes sociais.

No dia 10 de maio desse ano, um grupo de 150 convidados, entre eles cientistas, empresários e juristas participaram de um encontro a portas fechadas na Escola de Medicina da Universidade de Harvard (na foto), nos Estados Unidos. Eles se reuniram para discutir se era possível, e como construir "a partir do zero" todo um genoma humano


O professor Drew Endy, no entanto, não gostou nada dessa história e resolveu anunciar publicamente esse encontro através de sua conta no Twitter com a seguinte frase: "If you need secrecy to discuss your proposed research (synthesizing a human genome) you are doing something wrong" ("Se você precisa de sigilo para discutir a sua proposta de pesquisa, a síntese de um genoma humano, então você está fazendo alguma coisa errada", em português). É bom deixar claro nesse momento, que ele foi convidado para esse encontro, mas se recusou a participar dele, visto que, segundo ele, o evento não estava aberto para que um número razoável de pessoas pudessem efetivamente debater sobre essa questão.

Drew Endy, professor associado de Bioengenharia
na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos
"As discussões sobre sintetizar, pela primeira vez um genoma humano, não devem acontecer em espaços fechados", publicou Drew Endy, na Revista Cosmos, no dia 12 de maio.

"Essa ideia é um enorme passo para a espécie humana, e não deve ser discutida apenas a portas fechadas", disse a professora Laurie Zoloth, compartilhando o mesmo pensamento de Drew Endy.

Ambos alegaram que o Dr. George Church havia previamente dito, que o evento seria "um encontro aberto, ou seja, algo de fácil acesso ao público e com muitos jornalistas envolvidos". Originalmente, era para ser apresentado um artigo revisado por pares sobre o tema, porém, segundo o próprio Dr. George Church, o periódico científico (que ele havia recusado a dizer qual era na época), queria o artigo incluísse maiores informações sobre os componentes éticos, sociais e legais de sintetizar genomas, assuntos que teriam sido discutidos durante o encontro realizado em maio.

Assim sendo, o Dr. George Church e os outros organizadores estavam diante de um dilema: ou eles deveriam manter o encontro aberto ao público, infringindo o embargo, ou então realizar o encontro a portas fechadas de modo a não infirngir o suposto embargo do periódico científico. Eles escolheram "respeitar" o embargo.

"É um dos principais periódicos científicos, não podíamos menosprezá-los. Porém, não tenho certeza se essa foi a melhor ideia", declarou o Dr. George Church, na noite do dia 12 de maio, após ver o mal-estar gerado na comunidade científica.

O Dr. George Church, professor de Genética na Escola de Medicina de Harvard,
principal responsável pela organização do encontro a portas fechadas no início de maio desse ano
Naquela época, o Dr. George Church declarou que assim que o artigo fosse publicado, e que poderia ser a qualquer momento, um vídeo mostrando tudo o que foi mencionado no encontro estaria disponível ao público. Esse artigo foi publicado no início do mês de junho na prestigiada revista científica "Science", mas o vídeo desse encontro não foi disponibilizado até o momento do fechamento dessa postagem (comentaremos sobre isso um pouco mais para frente). Ele ainda disse que o encontro não era secreto, e não tinha nada de privado ou sigiloso a respeito desse assunto, mas essa não era a opinião de alguns outros profissionais. E olha que os professores Drew Endy e Laurie Zoloth fizeram uma série de questionamentos muito pertinentes a respeito desse tema.

"Os cientistas poderiam sintetizar um genoma humano modificado, que fosse resistente a todos os vírus naturais? Provavelmente poderiam fazer isso para fins puramente benéficos, mas e se outros cientistas resolvessem sintetizar os vírus modificados, que superassem essa resistência? Será que isso poderia desencadear uma corrida armamentista de engenharia genômica? Seria certo, por exemplo, sequenciar e sintetizar o genoma de Einstein? Se sim, uma vez que muitos genomas de Einstein devem ser produzidos e inseridos em células, quem seria o responsável por fazer isso? Só porque algo se torna possível, como devemos abordar essa questão e determinar se é ético para prosseguir?", publicaram os professores Drew Endy e Laurie Zoloth, na revista Cosmos.

Marcy Darnovsky, diretora executiva do Centro de Genética e Sociedade, com sede em Berkeley, na Califórnia, nos Estados Unidos, que por sua vez consiste em uma organização politicamente progressista, e que vem tendo uma visão cética da chamada "biotecnologia", emitiu um comunicado no dia 13 maio, através do próprio site da organização. O texto basicamente dizia que a natureza "semi-secreta" do encontro era contrária aos princípios estabelecidos em dezembro do ano passado, na Cúpula Internacional sobre Edição Genética Humana. Esse grupo, que incluía cientistas, especialistas em ética, advogados especializados em patentes, reguladores, entre outros profissionais, decidiram que o trabalho clínico em fazer mudanças nos genomas humanos, que pudessem ser hereditárias, não deveria prosseguir até que houvesse um "amplo consenso social sobre a conveniência da proposta de alteração."

Marcy Darnovsky, diretora executiva do Centro de Genética e Sociedade, com sede em Berkeley, na Califórnia, nos Estados Unidos, uma organização politicamente progressista, que tem tido uma visão cética da chamada "biotecnologia"
"Se esses relatos estiverem corretos, o encontro aparenta ser um movimento de privatizar a conversa atual sobre a modificação genética hereditária", disse Marcy Darnovsky.

"Seres humanos totalmente sintéticos não é uma realidade ao nosso alcance atualmente, mas seres humanos geneticamente modificados poderiam ser. Se o próximo passo dos organizadores desse encontro em Harvard for anunciar um projeto com financiamento estritamente privado, isso iria realmente gerar um contraste gritante com a promessa de um grande consenso social", completou Marcy Darnovsky.

Esse projeto em questão foi inicialmente chamado "HGP2: The Human Genome Synthesis Project" ("HGP2: O Projeto da Síntese do Genoma Humano", em português), sendo o "HGP" referindo-se ao Projeto Genoma Humano, cuja sigla em português seria "PGH". Porém, o projeto simplesmente mudou de nome durante o encontro, e passou a se chamar "HGP-Write: Testing Large Synthetic Genomes in Cells" ("Projeto de Escrita do Genoma Humano: Testando Grandes Genomas Sintéticos em Células", em português). O convite para o encontro dizia que o objetivo principal do projeto era "sintetizar um genoma humano completo em linhagens celulares (por meio de culturas celulares em laboratório) dentro de um período de 10 anos."

"Um suposto genoma sintético poderia então ser testado em um laboratório através da substituição do genoma existente dentro de uma célula humana. Tudo isso ainda estaria muito longe para fazer um ser humano sintético. No entanto, a possibilidade de fazer uma célula humana, cujo genoma é fabricado a partir de informação digital e matéria bruta, deve desencadear considerações mais amplas", publicaram os professores Drew Endy e Laurie Zoloth, na revista Cosmos.

Laurie Zoloth, professora de Ética Médica e Ciências Humanas da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos
Por exemplo, um projeto que produziu o vírus da poliomielite, a partir do zero no ano de 2002, gerou tal medo que o financiamento público para melhorar as ferramentas de síntese de DNA foi cancelado, involuntariamente prejudicando a pesquisa em diversos e não relacionados campos, enquanto os políticos se esforçavam para imaginar como tais ferramentas poderiam ser controladas.

Ainda de acordo com o que foi publicado na revista Cosmos, a síntese total de um genoma humano está se tornando possível a um ritmo acelerado. Graças ad novas técnicas de produção desenvolvidas desde 2003 o custo da "montagem do material genético", mais precisamente da sintetização dos genes, os "blocos de construção" da vida, diminuiu de US$ 4,00 (cerca de R$ 14,00)  para apenas US$ 0,03 (cerca de R$ 0,10) por letra individual, ou "pares de bases" do ácido desoxirribonucléico (DNA). Como resultado, o custo inicial caiu US$ 12 bilhões (cerca de R$ 42 bilhões) para US$ 90 milhões (R$ 315 milhões). Se a redução de custos continuar nesse ritmo, então o preço poderia cair para apenas US$ 100.000 (R$ 350.000) em apenas e tão somente 20 anos.

Atualmente é possível sequenciar um genoma humano por menos de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 3.500 pela cotação atual). Um valor irrisório considerando todo o investimento e esforço originalmente empregados
De qualquer forma, a mídia norte-americana se mostrou preocupada com essa questão.

"Algo nos diz que essa não é a última vez que iremos falar sobre humanoides sintéticos", declarou o jornalista Joel Achenbach, em sua publicação para o jornal "The Washington Post", que estampava uma imagem de "bonecos do Drácula e do Frankenstein."

"A perspectiva está estimulando intrigas e preocupações na comunidade científica, porque pode ser possível, através de clonagem, usar um genoma sintético para criar seres humanos sem a necessidade de pais biológicos", disse o jornalista Andrew Pollack, em seu artigo no jornal "The New York Times".

Entretanto, o Dr. George Church disse que houve um mal-entendido. O projeto não visava a criação de pessoas sintéticas, apenas células, e não seria restrito ao genoma humano. Pelo contrário, teria como finalidade melhorar a capacidade de sintetizar o DNA em geral, o que poderia ser aplicado a diversos animais, plantas e microorganismos. Atualmente, os cientistas e as empresas podem alterar o DNA em células, por exemplo, adicionando outros genes ou mudando as letras nos genes existentes. Esta técnica é utilizada rotineiramente para fazer medicamentos, tais como insulina para o controle da diabetes, no interior de células geneticamente modificadas, bem como em plantações geneticamente modificadas.

Insulina humana é produzida utilizando tecnologia genética ou por métodos semi-sintéticos. A engenharia genética envolve a inserção de genes humanos que produzem insulina em uma levedura de célula ou bactérias. Desta forma leveduras de células ou bactérias são aliciadas para produzir insulina em vez das suas próprias proteínas.
Como exemplo, temos algumas empresas que estão usando organismos semelhantes a "levedura" para fazer produtos químicos complexos, como aromas e fragrâncias. Isto requer a adição de não apenas um gene a levedura, tal como para produzir insulina, mas numerosos genes com o objetivo de criar todo um processo de produção química dentro da célula. Esse processo seria mais simples se o DNA fosse sintetizado a partir do zero. Entretanto, atualmente a síntese de DNA é um processo difícil e propenso a erros. Além disso, o genoma humano é mais de 250 vezes maior do que da levedura, e não estava claro se tal síntese seria viável.

Vale ressaltar que o Dr. George Church vem dizendo nos últimos meses que o método de "ajuste genético" chamado de "CRISPR/Cas9", que ele mesmo ajudou a desenvolver alguns anos atrás, se tornará "obsoleto" em breve, porque ao invés de alterarmos os genomas já existentes, poderíamos criar um a partir do zero. É importante dizer que o método "CRISPR/Cas9" é o responsável por recentes avanços na modificação de embriões humanos, e da própria criação de uma levedura para a produção de insulina.

A Publicação do Artigo Sobre o Polêmico Encontro na Revista Científica "Science"


Cerca de três semanas após o polêmico encontro na Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mais precisamente no dia 2 de junho desse ano, foi um publicado um artigo no site da renomada revista científica "Science", fornecendo novos detalhes sobre o projeto de criar pela primeira vez um genoma humano sintético. Tão logo ele veio a público, não faltaram novas críticas ao projeto.

No dia 2 de junho desse ano, foi um publicado um artigo no site da renomada revista científica "Science", fornecendo novos detalhes sobre o projeto de criar pela primeira vez um genoma humano sintético

Evidentemente, não iremos transcrever todo o artigo, uma vez que ficaria extremamente longo e cansativo para qualquer um ler, porém vamos fazer uma "síntese", para que vocês saibam os principais pontos e a repercussão que isso teve no meio científico, combinado?

"O objetivo do projeto é reduzir os custos de engenharia e testes de grandes genomas, incluindo o genoma humano, em linhagens celulares em mais de 1.000 vezes dentro de um período de dez anos, durante o desenvolvimento de novas tecnologias e um quadro ético para a engenharia em escala genômica, bem como em relação a aplicações médicas transformadoras", dizia uma espécie de rascunho de um comunicado obtido com exclusividade pelo jornal "The Washington Post".

Ainda de acordo com o texto, o projeto seria administrado por uma organização sem fins lucrativos chamada de "Center of Excellence for Engineering Biology" ("Centro de Excelência de Engenharia Biológica", em português).

O projeto, no entanto, provocou uma resposta negativa por parte do Dr. Francis Collins, principal responsável pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, que havia conduzido os trabalhos no começo do "Projeto Genoma Humano". Por meio de um comunicado, Francis Collins disse que a iniciativa era um tanto quanto prematura.

O Dr. Francis S. Collins, principal responsável pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, disse que a iniciativa de escrever um genoma humano sintético era prematura, e que não financiaria tal projeto, ao menos não nesse momento
"O NIH não considera que esse seja o momento certo para o financiamento do um projeto em larga escala envolvendo a escrita do genoma humano, tal como foi proposto na revista Science. Não existem tantas preocupações éticas envolvendo a síntese de segmentos de DNA em experimentos de laboratório. Porém, de todo um genoma, e de projetos envolvendo a síntese de todo um organismo, se estendem muito além das capacidades científicas atuais, e imediatamente levantam inúmeras bandeiras éticas e filosóficas", disse Francis Collins.

O Dr. George Church insistiu em dizer que ninguém estava falando sobre a criação de seres humanos a partir do zero, e uma aplicação da síntese do genoma a um custo mais baixo seria a de criar células que são resistentes a vírus. Não seriam células utilizadas diretamente em terapias humanas, mas sim em linhagens celulares cultivadas pela indústria farmacêutica para o desenvolvimento de medicamentos, visto que tais processos são atualmente vulneráveis à contaminação viral.

"Se você estiver desenvolvendo ou testando medicamentos humanos em células de mamíferos, e ocorrer uma contaminação, você pode perder dois anos de trabalho, sendo que isso já aconteceu no passado", disse o Dr. George Church.

O artigo assinado por 25 pesquisadores e publicado na revista Science também forneceu uma série de exemplos do que poderia acontecer a partir da sintetização de genomas a um custo mais baixo, tais como: a cultura de órgãos humanos para transplante, a resistência a vírus e ao câncer em linhagens celulares, a aceleração na produção de vacinas mais eficientes a custo-benefício melhor, entre outros.

Pequena tabela mostrando que o desafio em sintetizar o genoma humano ainda tem um longo caminho pela frente
Entretanto, o artigo voltou a receber críticas de Drew Endy, professor associado de Bioengenharia na Universidade de Stanford, um dos responsáveis por chamar atenção da imprensa para o encontro que foi realizado no dia 10 de maio desse ano. Ele disse que o artigo publicado na revista Science não abordava quaisquer questões éticas. Disseram que vão lidar com as questões éticas que forem surgindo, mas segundo ele, parecia uma "tentativa descarada para antecipar uma revisão ética independente".

"Antes de lançar em um projeto tão importante, as perguntas precisam ser feitas. Os autores não abordam as questões essenciais. Na verdade, na proposta, eles não conseguem abordar quaisquer questões", disse Drew Endy, em entrevista para o site MIT Technology Review.

Apesar de muitos cientistas terem criticado a forma como essa discussão começou e também pela carência de maiores detalhes sobre questões éticas, muitos outros cientistas estão animados com as possibilidades que o aprofundamento dos estudos sobre genomas sintéticos podem trazer.

Peter Carr, especialista em Biologia Sintética do Lincoln Labs
"A possibilidade de escrever o genoma, basicamente digitando-o em um computador, seria revolucionário. Se fosse possível, pode ser utilizado para muitas aplicações de engenharia - a partir de microorganismos capazes de produzir compostos químicos e biológicos industrialmente relevantes para a geração de células humanas modificadas para aplicações terapêuticas, tais como no tratamento do câncer e da regeneração de tecidos", disse o Dr. Kris Saha, professor assistente de Engenharia Biomédica da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.

"Eles deixaram claro que eles vão inserir em células de mamíferos em laboratório. Porém, onde essa história vai parar depois disso? Obviamente, parte de toda essa empolgação é que poderia haver seres humanos com genomas sintéticos. No fundo de tudo isso existe um sonho. Será que poderíamos fazer os seres humanos serem imunes a vírus?", disse Peter Carr, especialista em Biologia Sintética do Lincoln Labs, e que esteve presente no encontro realizado na Escola de Medicina de Harvard, no mês passado.

Os organizadores do projeto esperam arrecadar cerca de US$ 100 milhões (cerca de R$ 350 milhões) até o final deste ano, com um objetivo final de arrecadar um total de US$ 3 bilhões (cerca de R$ 10 bilhões) para essa empreitada. Os autores do artigo da Science chegaram a escrever que uma parte do dinheiro, que será angariado deveria ser direcionado para abordar as questões éticas, legais e sociais relacionadas as novas tecnologias de engenharia genética que serão utilizadas. O Dr. George Church disse que os pesquisadores já estavam sintetizando trechos de código genético, mas apenas em pequenos pedaços. O obstáculo à aplicação generalizada e aos testes de genomas sintéticos se davam principalmente pelo custo elevado de todo o processo.

Em seu livro lançado em 2012, o Dr. George Church descreve
que o "clímax" da biologia sintética será a produção de seres
humanos com genomas fabricados em laboratório
Apesar do Dr. George Church negar que o objetivo do projeto seja criar "seres humanos sintéticos", em seu livro intitulado "Regenesis: How Synthetic Biology Will Reinvent Nature and Ourselves" ("Regênesis: Como Biologia Sintética Reinventará a Natureza e a Nós Mesmos", em português), lançado em 2012, descreve que o "clímax" da biologia sintética será a "produção de seres humanos com genomas fabricados em laboratório que serão imunes a todos os vírus, incluindo o HIV e a herpes."

De qualquer forma, outros dois organizadores que estão envolvidos diretamente no projeto, Nancy Kelley, descrita como uma das principais executivas por trás do projeto, e Andrew Hessel, já trabalham com biologia sintética. Eles disseram recentemente que a "produção de seres humanos" não faz parte dos seus planos. Será verdade?

John Ward, especialista em Biologia Sintética na UCL (University College London), na Inglaterra, concedeu uma entrevista por email para o site Genetic Expert News Service (GENeS). Na entrevista, John Ward disse que a equipe que pretendia escrever o genoma humano sintético iria receber a mesma desconfiança dos cientistas que idealizaram o "Projeto Genoma Humano" no passado.

Entretanto, o PGH abriu as portas para novos tratamentos médicos em relação a doenças genéticas, sendo que iremos colher os benefícios do PGH nas próximas décadas. Disse também que era importante ver a ciência avançando e alcançando novos patamares, mas que era importante que tudo isso acontecesse de forma transparente. As pessoas deveriam ver claramente "o que está por vir", caso contrário não confiariam nos cientistas. Ainda segundo ele, em um mundo onde predomina a desinformação, a última coisa que eles precisavam é que as pessoas tivessem medo da ciência e dos seus cientistas.

De qualquer forma, esse projeto em questão ainda não visa a criação de seres humanos sintéticos, muito embora essa seja a estação final dessa locomotiva científica. É questão de ficarmos de olho nessa história.

Comentários Finais


Apesar dos cientistas envolvidos nesse ambicioso projeto denominado "Human Genome Project-write" ("Projeto de Escrita do Genoma Humano", em português) não quererem mencionar onde tudo isso irá parar, daqui algumas décadas, se olharmos com carinho para o futuro da humanidade, essa mesma "tecnologia" poderia ser utilizada para simplesmente "criar" novos microorganismos e até mesmo "novos animais". Imagine, por exemplo, bactérias que possam consumir o plástico jogado de forma indiscriminada em nossos oceanos ou ajudar na limpeza de vazamentos tóxicos ou radioativos devido ao egoísmo e a ganância da nossa própria espécie. Os especialistas em biologia sintética seriam literalmente capazes de criar o que a natureza, teoricamente, não pode fazer por conta própria. Os avanços nessa área também poderiam ser utilizados para criar "seres humanos customizados", da mesma forma como você monta uma mera pizza, sendo que os pais poderão escolher praticamente como seus filhos ou filhas deverão ser, incluindo suas aptidões e características físicas. Isso sem contar, é claro, os "seres humanos completamente sintéticos", com a pretensão de não possuir qualquer tipo de vínculo familiar. Seria essa a melhor mão do pôker científico, um "Royal Straight Flush" contra todas as nossas crenças e nossas religiões ou tudo isso não passará de um blefe diante das implicações éticas e legais?

Atualmente, soa assustador que os cientistas estejam tentando manipular os dados jogados pela casa chamada "Mãe Natureza", controlando a roleta diante de crupiês aterrorizados dentro de um jogo de azar, sendo que o próprio ser humano parece até então ter sido fruto de uma mera vitória diante uma probabilidade praticamente pitoresca. Por outro lado, é inegável que a ciência deve e precisa avançar para evitar que a vida de nossos entes queridos, mesmos aqueles que vivem uma vida saudável, mas que infelizmente foram acometidos por uma doença considerada incurável ou de difícil tratamento, seja ceifada precocemente. Nossa existência nesse mundo é muito curta, e qualquer atitude para fazer com quem as pessoas estejam próximas a quem amam, ainda que seja apenas por mais alguns anos, deve ser levado em consideração. Como dizer para uma mãe que seu filho não deve ser curado, porque cientistas mal-intencionados poderiam criar seres humanos sintéticos e eventualmente patentiá-los? Por isso é necessário um amplo debate ético e legal, para que haja um efetivo controle governamental de modo que o ímpeto científico possa ter liberdade, mas não acabe resultando em tragédias muito maiores do que já enfrentamos atualmente. A desculpa chamada "em nome da ciência" perdeu o sentido faz algum tempo.

Devemos considerar também que somos apenas um pequeno ponto em todo o nosso Universo. E se não sofrermos uma extinção em massa devido a algo que venha dos céus, não podemos nos esquecer que nosso próprio planeta tem seu modo um tanto quanto peculiar de resetar toda uma civilização, tal como as espécies que abriga. Por mais estranho que isso possa parecer, e por mais que seja extremamente necessário que preservemos o local onde vivemos, e nos preocupemos com o bem-estar em cada canto do planeta, a Terra também sabe se cuidar e muitas vezes bem melhor do que nós. Mesmo que sejamos extintos é muito provável que o nosso planeta continue "vivo", mesmo que um pouco diferente. Será apenas uma questão de tempo até que alguma espécie domine, evolua e tome conta novamente da terra que um dia deixamos para trás. Jogar contra a natureza requer paciência, coragem, determinação e sabedoria. Sinceramente, não sei se haverá vencedores nesse duelo. De um lado temos a força primitiva de bilhões de anos de evolução, e do outro temos a audácia da criatura tentando ser a própria natureza. Girem a roleta, mas não se esqueçam: a casa sempre ganha.

Até a próxima, AssombradOs!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://geneticexperts.org/human-genome-project-write-experts-propose-building-synthetic-human-genome/
http://gizmodo.com/new-details-emerge-about-the-plan-to-build-an-artificia-1780161008
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