15 de junho de 2016

Mulher é Acusada de Matar Duas Filhas por Asfixia em Ritual Para Evitar que Fossem Possuídas por Entidades Malignas, na Espanha (Atualizado 24/06)

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Por Marco Faustino

Confesso que trazer uma notícia como essa em tempos de tanta intolerância étnica e racial, não é uma tarefa fácil. Porém, acredito que uma parcela do nosso público, que se dispõe a usar uma parte do seu tempo para ler o que temos a dizer, é amadurecido o suficiente para compreender as nuâncias que envolvem assuntos como esse. Isso porque o caso envolve uma jovem mãe marroquina, que foi presa em dezembro de 2014 pela polícia espanhola. O motivo? Bem, quando se pensa em países árabes ou predominantemente islâmicos, muito provavelmente uma imagem relacionada a terrorismo vem a sua cabeça, não é mesmo? Embora essa seja uma visão deturpada, visto que a maior parte da população desses países são de pessoas honestas e trabalhadoras, o crime pela qual uma mulher chamada Ikram Benhaddi, na época com 27 anos, moradora do bairro Las Fuentes, na cidade de Zaragoza, na Espanha, estava sendo acusada era igualmente condenável. Ikram Benhaddi estava sendo responsabilizada pela morte de duas de suas três filhas, ainda bebês, e de tentar matar a terceira filha, que conseguiu sobreviver após a ter sido afastada da mãe pelo Serviço Social do Governo de Aragão. Vale lembrar que Aragão é uma comunidade autônoma da Espanha, na qual a cidade de Zaragoza pertence.

Diante da criminalidade que estamos acostumados a conviver, seja nas ruas ou então através de sites de notícias, jornais impressos ou então por meio de noticiários televisivos, essa poderia ser mais uma notícia comum caso acontecesse em nosso país. O único problema dessa notícia, é que em uma entrevista realizada por uma mediadora cultural, com familiares de Ikram Benhaddi, os mesmos alegaram que o apartamento onde ela morava, na rua Florián Rey nº 19, era habitado por entidades malignas que queriam se apoderar dos corpos de suas filhas. Em sua casa viveria um djinn, uma força maligna, que aparece no Alcorão, e que afetaria crianças com menos de três meses de idade através de uma "possessão demoníaca". Nesse ponto é interessante ressaltar que um djinn é o que conhecemos como "gênio". Na religião pré-islâmica e muçulmana essa seria uma entidade sobrenatural do mundo intermediário entre o angélico e o humano, e que poderia ser associada tanto para o bem quanto para o mal. Portanto, o "gênio" é concebido como um ente espiritual ou imaterial, muito próximo do ser humano, e sobre o qual exerce uma forte, cotidiana e decisiva influência. Você pode encontrar mais informações sobre essa entidade no site Sobrenatural.org. Enfim, a polícia passou a alegar que as mortes de suas filhas tinham sido ocasionadas por um ritual, supostamente praticado pela mãe, para evitar que suas filhas fossem possuídas um djinn.

Esse caso voltou à tona essa semana, porque após um ano e seis meses presa no Centro Penitenciario de Zaragoza, no município de Zuera, na Província de Zaragoza, seu julgamento acabou sendo realizado nos dias 13 e 14 desse mês, ou seja, no início dessa semana. José Luis Hedo, promotor público do caso, pediu que Ikram Benhaddi fosse condenada a 55 anos anos de prisão (20 anos por cada homicídio, e mais 15 anos pela tentativa de homicídio da terceira filha). Por outro lado, os advogados de defesa, Pedro Pascual e Eladio Mateo, argumentaram que a jovem mãe deveria ser absolvida, porque havia apenas suspeitas, e não havia nada que provasse que ela teria sido a responsável pelas mortes ou que ela tivesse essa intenção. Alternativamente, caso fosse considerada culpada, sua pena teria que ser menor, um total de 30 anos, por não ter sido algo premeditado, ou então até mesmo 8 anos, por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. Entretanto, teria sido mesmo a jovem Ikram Benhaddi a responsável pela morte de suas filhas? As supostas entidades teriam sido as responsáveis por essas tragédias? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Entenda o Caso e o que Motivou a Prisão de Ikram Benhaddi


Toda essa história começou com o nascimento da primeira filha de Ikram Benhaddi, a pequena Sara R. Benhaddi, em 2 de maio de 2011, sendo que a mesma foi internada na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, em Zaragoza, em quatro ocasiões distintas, entre 31 de maio a 29 de junho daquele mesmo ano. Apesar de sempre receber alta, a cada vez que ela dava entrada no hospital, a pequena Sara ficava entre quatro a dez dias internada.

Infelizmente, a pequena Sara veio a falecer pouco tempo depois, no dia 28 de julho, após dar entrada no Centro de Saúde "Las Fuentes Norte", também localizado em Zaragoza, com parada cardiorrespiratória. Esse teria sido o primeiro e suposto caso de "assassinato" cometido por Ikram Benhaddi, que na época tinha por volta de 24 anos. Aliás, embora o caso tenha sido considerado como "morte súbita", havia um forte desejo por parte dos médicos em fazer a autópsia no corpo, porém os pais da menina teriam se recusado por motivos religiosos, uma vez que são de origem mulçumana.

A pequena Sara R. Benhaddi nasceu em 2 de maio de 2011, sendo que a mesma foi internada na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, em Zaragoza, em quatro ocasiões distintas, entre 31 de maio a 29 de junho daquele ano
A situação começou a ficar estranha quando a segunda filha de Ikram Benhaddi, a pequena Riham R. Benhaddi nasceu em 5 de fevereiro de 2013, e deu entrada na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, no dia 14 de março daquele mesmo ano, e pelas mesmas razões que sua irmã Sara, falecida em 2011. A pequena Riham recebeu alta poucos dias depois, mais precisamente no dia 25, e no dia seguinte, deu entrada novamente no hospital. Sara e Riham apresentavam basicamente os mesmos sintomas: hipotonia (diminuição do tônus muscular e da força), acidose metabólica (acidez excessiva do sangue e fluidos corporais, quando o oxigênio não consegue chegar aos órgãos e o sangue se torna muito ácido), palidez, cianose peribucal (coloração azulada nos lábios e ao redor da boca), vômito, e uma pequena quantidade de sangue que saía pela boca.

Em entrevista realizada por uma mediadora cultural, com familiares de Ikram Benhaddi, os mesmos alegaram que o apartamento onde ela morava, na rua Florián Rey nº 19, era habitado por entidades malignas, e que queriam se apoderar dos corpos de suas filhas, porém essa informação só surgiria na mídia alguns anos depois.
O hospital começou a suspeitar da própria mãe, visto que enfermeiras e pediatras notavam uma atitude "de certa frieza", de indiferença da mãe, Ikram Benhaddi, com o sofrimento de sua filha, a pequena Riham. Houve um episódio que a mãe antes de oferecer a chupeta a menina, passou antes por um recipiente. O conteúdo foi analisado, porém não apresentava nenhum risco a saúde. Entretanto, a menina aparentava piorar quando estava no quarto, sozinha com sua mãe, de modo que os pediatras decidiram colocá-la na UTI, onde sua mãe só poderia permanecer por um curto espaço de tempo e sempre acompanhada por um médico ou enfermeiro. A menina parecia se recuperar bem melhor nessa ocasião, o que despertou o alerta no hospital, que imediatamente avisou as autoridades competentes.

As autoridades recomendaram para que Riham voltasse ao seu quarto, e então instalaram câmeras de segurança para monitorar o comportamento dos pais, e também do que poderia estar acontecendo no quarto da pequena Riham. Cerca de 15 policiais se revezaram, dia e noite, durante cerca de um mês, porém não observaram qualquer atitude suspeita. Mesmo assim, o Instituto Aragonês de Serviço Social resolveu não arriscar, e solicitou que fosse realizado um exame psiquiátrico em Ikram Benhaddi, retirando assim a guarda de sua filha. A pequena Riham passou a ficar sob tutela do Serviço de Proteção ao Menor do Governo de Aragão. A guarda da menina voltou para a mãe somente algum tempo depois, mais precisamente no dia 17 de julho de 2013.

Tanto Sara R. Benhaddi quanto Marwa R. Benhaddi deram entrada em duas ocasiões distintas no Centro de Saúde "Las Fuentes Norte" (na foto) e ambas faleceram devido a uma parada cardiorrespiratória


Como se tudo isso não bastasse, Ikram Benhaddi engravidou novamente, dando a luz a pequena Marwa R. Benhaddi, no dia 22 de agosto de 2014. A menininha deu entrada na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, no dia 16 de outubro daquele ano, com os mesmos sintomas das outras filhas de Ikram Benhaddi. O hospital posteriormente lhe concedeu alta, porém em 21 de novembro, a pequena Marwa deu entrada no Centro de Saúde "Las Fuentes Norte", onde infelizmente veio a falecer devido a uma parada cardiorrespiratória, em um quadro muito semelhante a que ocasionou a morte de Sara R. Benhaddi. Vale ressaltar que menininha tinha sido encontrada inconsciente pela sua avó paterna, que estava morando temporariamente no apartamento da família, desde que a pequena Marwa havia tido problemas de saúde no mês anterior.

Tudo isso que descrevemos para vocês, só começou a ser contado pela mídia espanhola no início de dezembro de 2014. Antes disso, ninguém havia comentado nada sobre o possível envolvimento de Ikram Benhaddi na morte de suas filhas, praticamente recém-nascidas, visto que Sara e Marwa morreram pouco antes de completarem 3 meses de idade. A única "sobrevivente" foi a pequena Riham, que hoje tem pouco mais de 3 anos de idade.

Foi assim que o site do jornal "El Heraldo de Aragón", no dia 2 de dezembro de 2014, publicou que a Polícia Nacional havia detido uma mulher em Zaragoza pela morte de seu bebê em circunstâncias estranhas. A Divisão de Homicídos tinha aberto uma investigação depois que uma autópsia realizada pelo Instituto Médico Legal de Aragão (IMLA), no corpo de uma bebezinha de apenas 3 meses, revelou que a mesma apresentava sinais de asfixia. Assim sendo, foi solicitada a prisão preventiva da mãe. Os personagens dessa história? Ikram Benhaddi e a pequena Marwa R. Benhaddi. Na ocasião, não foram fornecidas maiores informações, porque o caso estaria correndo sob segredo de justiça, porém os "serviços sociais" estavam cientes da "situação" sobre a família.

A Polícia Nacional havia detido uma mulher em Zaragoza pela morte de seu bebê em circunstâncias estranhas.
Os personagens dessa história? Ikram Benhaddi e a pequena Marwa R. Benhaddi.
Esse suposto "segredo de justiça" caiu por terra no dia seguinte, através do site do jornal El País, que começou a divulgar maiores detalhes sobre o caso. Na ocasião, foi dito que Ikram Benhaddi acreditava que suas filhas estavam enfeitiçadas pelo espírito de um djinn, uma força maligna que, segundo ela, aparecia no Alcorão, e que afetaria crianças com menos de três meses de idade através de uma "possessão demoníaca". Teria sido assim que Ikram Benhaddi teria explicado para uma "mediadora cultural", que atuou como intérprete durante seu depoimento à polícia. Além disso, ela estaria convencida de que o apartamento da família estava enfeitiçado. Entretanto, a história não surgiu dessa forma.

O Relato de uma Mediadora Cultural Chamada "Amina Kamal"


Toda essa história começou, quando uma mediadora cultural chamada Amina Kamal, prestou um depoimento a polícia, dizendo que havia se encontrado com Ikram Benhaddi, seu marido Mimohun Rajali, e seus familiares uma determinada vez. Isso teria ocorrido quando a segunda filha do casal, Riham havia dado entrada na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, e ela tinha sido encarregada de entregar um documento dizendo que Ikram não poderia mais ficar sozinha com a menina, e que a mesma deveria passar a frequentar um psiquiatra. Segundo Amina K., ninguém disse para ela que iria obedecer o que estava sendo imposto, e que ela não tinha como permanecer como mediadora, porque não havia nenhuma colaboração por parte da família. Cada um tinha uma espécie de "desculpa diferente" para não ficar perto de Ikram Benhaddi.

A mediadora cultural chamada Amina Kamal, prestou um depoimento a polícia, dizendo que havia se encontrado com Ikram Benhaddi, seu marido Mimohun Rajali, e seus familiares uma determinada vez. Ela tinha sido encarregada de entregar um documento dizendo que Ikram não poderia mais ficar sozinha com a menina, e que a mesma deveria passar a frequentar um psiquiatra.


Segundo Amina K., a família teria explicado que a casa onde Ikram Benhaddi morava com suas filhas estava sofrendo com a presença de "entidades malignas", que seriam chamados de "djinns" na cultura árabe, e que os mesmos teriam exercido algum tipo de influência negativa nas meninas, provocando assim a morte delas. Entretanto, ninguém da família culpou Ikram Benhaddi do que havia acontecido com as meninas.

Diante dessa situação, a mediadora cultural teria sugerido que a mãe colocasse CDs que entoassem o Alcorão de forma contínua, como uma forma de "limpeza espiritual" da casa, e que ela fosse morar com sua sogra, algo que ela se recusou a fazer. Amina Kamal também disse que ouviu sobre "diversas lendas" por parte da família, mas se recusou a saber sobre os rituais que eles queriam praticar.

Segundo Amina K., a família teria explicado que a casa onde Ikram Benhaddi morava com suas filhas estava sofrendo com a presença de "entidades malignas", que seriam chamados de "djinns" na cultura árabe, e que os mesmos teriam exercido algum tipo de influência negativa nas meninas, provocando assim a morte delas.
O mais interessante é que a mediadora disse que "djinns" existiam, mas não matavam. Porém, eles podiam possuir e entrar na mente de uma pessoa para que a mesma matasse alguém. Também disse que havia lendas espalhadas por toda Marrocos, sendo que uma delas dizia para tampar a boca dos bebês, antes que os primeiros dentes nascessem, para impedir que os "djinns" entrassem em seus corpos. Esse seria um ritual africano de origem berbere, tido como um dos povos mais antigos do continente africano.

O site do jornal "El Heraldo de Aragón" chegou a publicar no dia 4 de dezembro de 2014, uma informação que Ikram B., havia prestado um depoimento de 45 minutos perante a juíza titular do Tribunal de Instrução nº 3 de Zaragoza. Durante esse tempo ela teria sido questionada por um promotor público se ela acreditava no "Ejkrm", que seria o nome de um "espírito maligno" que, segundo a cultura berbere, tentaria entrar através da boca dos bebês durante o período no qual eles não possuíssem dente. Para protegê-los dessa entidade, seria necessário tampar a boca deles.

Ikram Benhaddi teria dito que não acreditava nessas coisas, e negou categoricamente que teria sido a responsável pela morte de suas filhas. A juíza não acreditou em sua versão e decretou sua prisão, sem direito a fiança, sendo então conduzida para o Centro Penitenciario de Zaragoza (uma espécie de CDP - Centro de Detenção Provisória), enquanto aguardaria por um julgamento.

Ikram Benhaddi foi conduzida ao Centro Penitenciario de Zaragoza onde aguardaria o julgamento pelo
suposto assassinato de duas filhas, e pela suposta tentativa de assassinar uma terceira filha

Segundo a polícia, a prática de manter a boca fechada constantemente de bebês, provocaria uma espécie de choro contínuo, e consequentemente um enfraquecimento dos pulmões, o que poderia levar os bebês ao óbito em questão de pouco tempo. Resumindo, Ikram Benhaddi estava sendo acusada pela morte de duas filhas, e de tentar matar uma terceira por asfixia, ou seja, pela obstrução intencional das vias respiratórias dos seus bebês. Na época, a juíza ordenou que novas provas fossem coletadas para confirmar o envolvimento da mãe no suposto assassinato das suas filhas, bem como retirou novamente a guarda da pequena Riham de sua família.

Segundo a polícia, a prática de manter a boca fechada constantemente de bebês, provocaria uma espécie de choro contínuo, e consequentemente um enfraquecimento dos pulmões, o que poderia levar os bebês ao óbito em questão de pouco tempo
Também em dezembro de 2014, um blog chamado "Exorcismale" ressaltou que aquela não era a primeira vez que a crença em "djinns" havia resultado em morte. O blog citou o caso de Naila Numtaz, uma paquistanesa de 21 anos, grávida de seis meses, que foi assassinada por seu marido, Mohammed Mumtaz. A mulher teria sido asfixiada, e assim como o caso ocorrido em Zaragoza, a família acreditava que a jovem estava possuída por um "gênio" maligno. Esse caso aconteceu em Birmingham, na Inglaterra, em julho de 2009, sendo que o marido e três familiares foram condenados a prisão perpétua em setembro de 2012.

Os Comentários dos Vizinhos de Ikram Benhaddi


Ikram Benhaddi já estava morando na Espanha há cerca de 6 anos, porém falava apenas árabe com algumas poucas amigas que frequentavam a sua casa. Por essa mesma razão havia a necessidade de uma intérprete, e até mesmo de uma mediadora cultural durante os depoimentos, para que pudesse contextualizar suas declarações. Afinal, como tradutores somos passíveis de traduzir algo de outro idioma, que não expresse o real sentimento de uma pessoa, portanto, existe a necessidade desse acompanhamento para garantir a ampla defesa independentemente de quem seja a pessoa em questão.

Quando entrevistados no final de 2014, os vizinhos não se lembravam da última vez que tinham visto Ikram Benhaddi passeando pela rua. Eles diziam que ficavam entre 15 a 20 dias sem vê-la, e por mais que ela aparentasse ser uma boa mãe, eles disseram que ela não tinha nenhuma vida social, e não se relacionava com ninguém da vizinhança. O mesmo não se podia dizer do marido, Mimohun Rajali, proprietário de um estabelecimento comercial chamado "El Zapaterico", destinado ao reparo de calçados, que estava localizado a poucos metros do apartamento onde a família vivia. Os familiares do marido também reparavam calçados em um local próximo do seu apartamento. Veja um vídeo publicado no canal da Europa Press, no Youtube, naquela época (em espanhol):



"Ele é um sapateiro muito bom, barato e trabalhador. É um bom vizinho. Trabalhava cerca de 12 horas por dia, e quando muito tomava um café em um bar nas proximidades. Não consumia bebidas alcóolicas, mas também não era de fazer amizades", disse na época uma vizinha chamada Antonia, em uma declaração para o site do jornal "El País". Aliás, os mesmos vizinhos, que vieram para oferecer condolências pela morte da primeira filha, demonstraram pesar pela morte da segunda.

"Ele estava muito chateado pela morte da primeira filha. Ele queria provas, embora ele dissesse que não era nada genético. Ele não perdia a segunda menina de vista. Porém, é claro, ele trabalhava por longas horas", disse Francisca, uma outra vizinha do mesmo andar que Mimohun Rajali. Na época da prisão da esposa, Mimohun Rajali se mudou para a casa de sua mãe, em um bairro próximo, com a única filha viva que lhe havia restado. Os vizinhos ainda apontavam que a mãe, Ikram Benhaddi, ficou por muito tempo de luto devido a morte de sua primeira filha e o pai, Mimohun Rajali, muitas vezes era visto cabisbaixo, entristecido, porém sempre cumprimentava os vizinhos.

O Julgamento de Ikram Benhaddi Finalmente Começa em 13 de Junho de 2016


O julgamento de Ikram Benhaddi começou na última segunda-feira (13). Evidentemente, ela negou as acusações que teria asfixiado suas próprias filhas, e disse que não havia praticado nenhum tipo de ritual nesse sentido, porque não acreditava nisso. Porém, ela disse que já tinha ouvido falar sobre "lendas de espíritos que atacavam as crianças".

"Impossível, eu quero a minha filha. Como é que eu iria fazer isso? Eu suportei a gravidez durante nove meses, com vômitos, desmaios, hemorragias nasais. Eu jamais faria isso", declarou Ikram Benhaddi.

O julgamento de Ikram Benhaddi começou nessa última segunda-feira (13). Evidentemente, ela negou as acusações que teria asfixiado suas próprias filhas, e disse que não havia praticado nenhum tipo de ritual nesse sentido, porque não acreditava nisso.
Com a ajuda de um intérprete, ela explicou que em algumas ocasiões ela estava sozinha quando as meninas começaram a passar mal (apresentando vômitos, palidez, lábios roxos etc.), mas em outras ocasiões ela estava acompanhada da sua sogra ou da sua cunhada. Ela também afirmou, que assim que suas filhas passavam mal, ela imediatamente procurava por ajuda médica, e que diante da morte de sua primeira filha, ela não se recusou que fizessem a autópsia, porque ela queria saber o que havia acontecido com Sara. Tudo não teria passado de uma falha na comunicação entre a família e os médicos.

Maria Paz Ruiz-Echarri, uma das pediatras que atenderam duas das três filhas de Ikram Benhaddi, na Unidade Pediátrica do Hospital Miguel Servet, declarou que ambas tinham os mesmos sintomas de asfixia assim que deram entrada no hospital, porém ela disse que nunca observou nenhuma marca no corpo das meninas. Assista a reportagem publicada no canal do Youtube, do site de notícias Aragón Digital, no dia 13 de junho (em espanhol):



O marido, Mimohun Rajali, reconheceu, chorando, que havia dito as pediatras que tinha receio de deixar a esposa sozinha com as meninas. Porém, disse que havia dito isso "para que as meninas pudessem ficar mais tempo no hospital, por medo que voltassem a ficar doentes". Ele não acreditava que a esposa pudesse fazer nenhum mal as meninas, e que em algumas ocasiões que elas adoeciam, ele estava junto com ela, e nunca presenciou ninguém de sua família tampando a boca de suas filhas ou ouviu sua esposa falar que ela tinha um "ventre demoníaco".

Ontem, terça-feira (14), Ikram Benhaddi voltou a dizer que era inocente, e suas últimas palavras foram: "Eu não fiz nada. Eu juro. Dói muito quando dizem que eu as matei, é impossível que tenha feito isso". Durante a audiência ela disse que tinha feito de tudo por suas filhas, que estava sendo acusada injustamente, e que voltaria a ter filhos novamente.

José Luis Hedo, promotor público responsável pelo caso, manteve seu pedido para que Ikram Benhaddi fosse condenada a cumprir 55 anos de prisão pela morte de suas duas filhas (20 anos para cada homicídio) e pela tentativa de assassinar uma terceira filha (15 anos pela tentativa de homicídio).

"Temos de aplicar o Código Penal, e não se pode ser permitir que meninas sejam mortas dessa maneira. Nunca poderemos compreender algo assim, sejam quais forem as questões culturais", disse José Luis Hedo, lembrando o compromisso da Organização das Nações Unidas (ONU) para acabar com o infanticídio contra meninas recém-nascidas.

Os advogados de defesa de Ikram Benhaddi disseram que não concordavam com esse pedido da Promotoria, visto que, segundo eles, ninguém que tivesse uma intenção homicida ou assassina iria provocar uma situação de asfixia e levar em seguida para um centro de saúde. Se alguém quisesse realmente matar, assim faria, ainda mais tendo as possibilidades que Ikram Benhaddi teve em suas viagens ao Marrocos. Assista a reportagem publicada no canal do Youtube, do site de notícias Aragón Digital, no dia 14 de junho (em espanhol):



Durante a audiência realizada ontem, quatro médicos legistas foram ouvidos, dois convocados pela Promotoria e dois convocados pelos advogados de defesa. Salvador Baena e Eduardo Cantón representaram o Instituto Médico Legal de Aragão, a pedido da acusação, e deram seus depoimentos em relação a autópsia realizada no corpo de Marwa, que havia falecido em novembro de 2014. Eles não comentaram sobre a intencionalidade de sua morte, e nem mesmo sobre as causas da morte de Sara, a primeira filha de Ikram Benhaddi, visto que não havia sido realizada nenhuma autópsia em seu corpo.

Salvador Baena e Eduardo Cantón disseram que a pequena Marwa "agonizou" e lutou pela vida", enquanto supostamente a impediram de respirar. Eles disseram que a menininha já estava morta quando deu entrada no Centro de Saúde "Las Fuentes Norte". Também descreveram diversas lesões, principalmente ao redor de suas cavidades nasais, que denotavam "asfixia mecânica", citando um detalhe um tanto quanto assustador: os pequenos pulmões de Marwa tinham marcado as suas costelas, ou seja, seus pulmões tinham se expandido para tentar desesperadamente sobreviver. Uma vez que a menina já estava morta ao chegar no hospital, eles descartaram a hipótese que as marcas poderiam ter sido originadas a partir de procedimentos médicos para reanimá-la.

Durante a audiência realizada ontem, quatro médicos legistas foram ouvidos, dois convocados pela Promotoria e dois convocados pelos advogados de defesa. Salvador Baena e Eduardo Cantón representaram o Instituto Médico Legal de Aragão, a pedido da acusação
Esse caso é tão polêmico que o site do jornal "El Heraldo de Aragón" apontou que Salvador Baena e Eduardo Cantón teriam afirmado que as mortes teriam sido de natureza homicida, e teriam sido causadas por "asfixia mecânica" ao cobrir a boca e o nariz das meninas enquanto elas eram pressionadas na região do tórax, embora nunca houvesse sido realizada a autópsia no corpo de Sara. De qualquer forma, foi mencionada a possibilidade de que Marwa tivesse sido pressionada, de forma intencional ou não, contra o seio de Ikram Benhadd. Dessa forma, o site "El Periódico de Aragón", mencionou que Salvador Baena cogitou a hipótese que isso poderia ter acontecido durante a amamentação de Marwa.

"O seio da mãe é um tecido macio e adaptado para amamentação. Com um pouco de pressão poderia facilitar a asfixia do bebê", disse o médico legista Salvador Baena.

Santiago Delgado e Enrique Fernández, os médicos legistas convocados pela defesa, se mostraram um tanto quanto surpresos com essa hipótese, e ressaltaram que não havia nenhuma prova que indicasse que as meninas teriam morrido devido a um comportamento "homicida" por parte da própria mãe, e que as marcas citadas eram decorrentes das técnicas de reanimação utilizadas em Marwa. Enfim, depois de muita discussão, Santiago Delgado e Enrique Fernández também teriam concluído que a morte das meninas teria sido em decorrência de asfixia, porém não por uma ação violenta e deliberada.

Após serem descartados exames toxicológicos, genéticos, metabólicos e psicológicos, foi aventada a hipótese das mortes serem decorrentes de um processo inadequado de amamentar as meninas, visto que Ikram Benhaddi seria uma "mãe inexperiente". A defesa também levou ao julgamento dois especialistas na religião islâmica, José Luis Mateo e Ivan Jimenez. Ambos tentaram explicar o "fenômeno" dos "djinns", e a relação deles com a morte de crianças na África. Eles não confirmaram a existência de rituais envolvendo o "ato de cobrir a boca de bebês", mas que as formas mais comuns de proteção contra "djinns" envolviam tão somente amuletos.

O veredito sobre o caso envolvendo Ikram Benhaddi deverá ser conhecido em breve, visto que todas as fases do processo foram concluídas na Justiça espanhola. Assim que for divulgado, nós atualizaremos vocês por meio dessa postagem, combinado? E vocês, AssombradOs, o que acharam dessa caso? Complicado não, é mesmo? Vocês condenariam ou absolveriam Ikram Benhaddi?

Atualização #1 - 24/06 as 17h50


A sentença de Ikram Benhaddi, 31 anos, saiu na tarde dessa sexta-feira (24), em Zaragoza, na Espanha. Ela foi condenada a 18 anos de prisão tão somente pelo assassinato de sua filha Marwa, em 2014, enquanto amamentava. Os juízes da Primeira Seção do Tribunal Provincial de Zaragoza ainda a absolveram de um crime de homicídio, em relação a primeira filha, Sara, e do crime de uma suposta tentativa de homicídio contra a segunda filha, Riham. A sentença assinada pelo juiz Juan Alberto Belloch, considerou que a ré, Ikram B., decidiu acabar com a vida de uma de suas filhas (Marwa), em 2014, "por razões não esclarecidas". O objetivo foi alcançado enquanto a amamentava, tampando-lhe a boca e o nariz - comprimindo o tórax do bebê - "impedindo" sua respiração, e sua reação natural em largar o seio da mãe, na ausência de oxigênio.

Uma hora
depois de sua morte por "asfixia", a mesma foi levada para um centro de saúde, porém mais nada podia ser feito para salvar sua vida. O bebê tinha quase três meses de idade. De acordo com a sentença, a acusada foi condenada pelo crime de "homicídio com premeditação por abuso de influência"; ou seja, "implica que o agente tira proveito de uma situação especial de desamparo da vítima, que impede qualquer reação defensiva", segundo o Código Penal local. Em relação a Sara, primeira filha de Ikram B., a Justiça de Zaragoza não viu indícios de quaisquer crimes cometidos por parte da acusada. Já em relação a Riham, sua segunda filha, foi entendido que Ikram B. "se comportou como era o esperado de uma mãe", atuando em todos os momentos de "forma adequada e satisfatória", enquanto estava sendo vigiada por câmeras de segurança. O tribunal entendeu que
"não ficou comprovado que as crises sofridas por Riham correspondessem a sucessivas tentativas por parte de sua mãe em matá-la". 

Na sentença foi rejeitada a tese de que a acusada estivesse sob influência de uma "possessão demoníaca" (de espíritos malignos, tais como djinns), que supostamente teria a obrigado a fazer "coisas ruins". O país de origem da acusada (Marrocos), a posição social da família e as declarações da própria acusada "excluíam essa possibilidade". De qualquer forma, os advogados de Ikram B., Pedro Pascual e Eladio Mateo, já anunciaram que vão recorrer da decisão.

Comentários Finais


Provavelmente, essa é uma das postagens, que fiz questão de trazer para vocês, que mais geram especulações em torno de uma mesma pergunta: Ikram Benhaddi teria asfixiado suas duas filhas recém-nascidas, e teria tentado cometer esse mesmo ato vil e covarde contra outra? Uma verdadeira batalha foi travada nas trincheiras do poder Judiciário na cidade de Zaragoza, na Espanha. De um lado temos todo um fator sociocultural e até mesmo religioso envolvido, diante de supostos procedimentos, que poderiam ter sido adotados pela mãe para garantir o bem-estar de suas filhas, e evitar que as mesmas caíssem nas mãos de seres pretensamente malignos dentro de sua cultura. De outro lado temos a morte de duas menininhas inocentes, cujas vidas foram ceifadas com menos de três meses de vida, não somente por culpa de Ikram Benhaddi, mas pela demora das autoridades de Zaragoza em reconhecer um problema, em perceber que havia algo errado, ou seja, em investigar mais a fundo esse caso. Entretanto, criar uma pressão em torno de uma família mulçumana na Europa se tornou um motivo de discórdia. Temos todo um conjunto que perfaz uma das maiores crises migratórias que o mundo moderno já viu, e muitos europeus pregam pela aceitação de estrangeiros e compreensão de suas crenças.

Colocar a culpa em "gênios da lâmpada" seria a pior resposta que qualquer cidade, estado ou país poderia dar a sua população em relação aos crimes que são cometidos. Porém, se Ikram Benhaddi alega veementemente sua inocência, quem teria provocado a morte de suas filhas? Sinceramente, senti falta de mais declarações do pai das meninas, da mãe do pai das meninas, da irmã do pai das meninas. Espera, onde estão os familiares de Ikram? Pois é, até agora estou tentando encontrar a família de Ikram, e simplesmente ela parece não existir. Não vou dizer que a mídia cobriu de forma incorreta esse caso, porém onde está a família de Ikram Benhaddi? O que temos são depoimentos de vizinhos, de familiares por parte de pai, de pediatras, médicos legistas, e de uma mediadora cultural que apontam o dedo em direção aquela mulher. Não estou dizendo que ela não seja culpada, porém, considerando a repressão e a cobrança, que geralmente uma mulher sofre em uma família mulçumana, fico extramemente desconfortável em apontar o dedo em sua direção. Será que ela realmente sabia cuidar de suas filhas? Ela foi preparada para isso? Quem a orientou? Quem cuidou dela durante as gestações? Se ela tivesse concebido um menino, será que ele teria esse mesmo destino? São eternos pontos de interrogação que nunca teremos respostas, e não podem ser apagados com uma simples borracha.

É triste saber que Marwa muito provavelmente lutou para viver, e que seu corpo tentou de todas as formas respirar o mais fundo que podia, mais foi impedido por algo ou alguém, que não queria ela vivesse, tendo o mesmo destino que sua irmã mais velha, que ela nunca conheceu, chamada Sara. Riham sobreviveu, mas em uma situação que nenhuma criança mereceria passar, pois ao crescer poderá ter que conviver com o fardo de ver uma mãe atrás das grades, por ter supostamente assassinado suas duas irmãs. E nisso temos uma melancólia história sobre três irmãs, e um "gênio da lâmpada". Fico pensando se esse gênio realmente existisse, em qual seria o desejo de cada uma delas. Duas delas não tinham a exata consciência do que estava sendo feito contra elas, porém Riham está viva e saudável, e dificilmente sua boca conseguirá ser calada novamente. O véu que cobrirá sua cabeça, não será o mesmo que tampará sua boca, e seu sofrimento não terá sido em vão. No final das contas, não importa o veredito. Se Ikram Benhaddi for realmente culpada será sufocada pelo remorso pelo resto de sua vida. Se ela for realmente inocente, viverá eternamente sobre a mordaça cultural, que lhe fará aceitar que fez o certo para defender suas filhas. Quem sabe um menino não tivesse uma sorte melhor, conseguindo um tapete mágico para voar até as estrelas, e perguntar as suas irmãs para quem elas olharam pela última vez antes de dar um último suspiro. Infelizmente, essa lâmpada será esfregada mais uma vez por alguém, que a encontrará novamente, não em meio as areias do deserto em Marrocos, mas em meio a falta de amor e a falta compaixão.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://politica.elpais.com/politica/2014/12/03/actualidad/1417643629_018906.html
http://www.aragondigital.es/movil/noticia.asp?notid=145736&secid=8
http://www.aragonliberal.es/noticias/noticia.asp?notid=98940
http://www.aragonliberal.es/noticias/noticia.asp?notid=98970
http://www.elmundo.es/espana/2014/12/03/547ec14a268e3e71668b456c.html
http://www.elperiodicodearagon.com/noticias/aragon/acusada-asfixiar-sus-hijas-rito-bereber-califica-barbaridad_1118697.html
http://www.elperiodicodearagon.com/noticias/aragon/infanticida-no-habria-matado-nacerle-ninas_998242.html
http://www.elperiodicodearagon.com/noticias/aragon/la-hija-ikram-agonizo-lucho-vivir-mientras-era-asfixiada_1118960.html
http://www.heraldo.es/noticias/aragon/2016/06/14/el-fiscal-mantiene-que-ikram-asesino-dos-sus-hijas-intento-con-una-tercera-911278-300.html
http://www.heraldo.es/noticias/aragon/zaragoza-provincia/zaragoza/2016/05/15/la-acusada-asfixiar-sus-hijas-para-librarles-espiritu-enfrenta-anos-carcel-859578-301.html
http://www.heraldo.es/noticias/aragon/zaragoza-provincia/zaragoza/2016/06/12/una-mujer-enfrenta-anos-prision-por-asesinato-dos-hijas-906598-301.html
http://www.heraldo.es/noticias/aragon/zaragoza_provincia/zaragoza/2014/12/02/detienen_una_mujer_zaragoza_por_muerte_bebe_extranas_circunstancias_325397_301.html
http://www.heraldo.es/noticias/aragon/zaragoza_provincia/zaragoza/2014/12/04/la_policia_cree_que_madre_mato_sus_dos_bebes_practicarles_ritual_bereber_325858_301.html
https://exorcismale.wordpress.com/2014/12/10/mujer-mata-a-sus-dos-hijas-por-creerlas-poseidas-por-un-djinn/https://www.rt.com/news/211935-woman-accussed-killing-babies/
https://www.youtube.com/watch?v=3XP6GxoXOe0
https://www.youtube.com/watch?v=OwHwTBqXgaA

http://www.aragondigital.es/noticia.asp?notid=146124
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