21 de março de 2016

Um Mistério Que Parece Não Ter Fim: Existe Algo Estranho Acontecendo nos Pontos Brilhantes de Ceres

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Por Marco Faustino

Em dezembro de 2015 escrevi uma extensa postagem (que foi publicada somente em meados de janeiro deste ano) sobre o planeta-anão Ceres, o corpo celeste com maior massa do Cinturão de Asteroides entre Marte e Júpiter (com cerca de um terço do total da massa do cinturão), que desde dezembro de 2014 havia se tornado uma espécie de "celebridade" do nosso Sistema Solar, uma vez que a sonda Dawn começou a fotografá-lo a partir de sua aproximação inicial.

Alguns meses se passaram após a aproximação inicial da sonda Dawn, e em março de 2015, as primeiras imagens revelaram, com maior proximidade, dois pontos brilhantes misteriosos em sua superfície, sendo ambos concentrados na cratera posteriormente denominada de Occator. Isso causou um verdadeiro frenesi entre cientistas e astrônomos, e também acabou gerando, é claro, diversas especulações em sites que tentam provar a existência de vida alienígena, pois muitos diziam que poderia ser uma "cidade extraterrestre" ou algum "ponto de mineração" de uma civilização avançada. Com o passar do tempo o número de pontos brilhantes detectados em Ceres se multiplicou, contando atualmente com mais de 130 regiões distintas. Além disso, muitas imagens e estudos foram divulgados ao longo do ano passado.

Mosaico mostrando os mais de 130 pontos brilhantes em Ceres. Na pequena imagem superior esquerda aparece uma névoa acima da cratera Occator enquanto a luz solar a atinge, sugerindo que cratera contém "gelo de água" abaixo da superfície. Na pequena imagem superior direita, uma espécie de névoa aparece sobre a cratera Oxo, a segunda local mais brilhante de Ceres
Recomendo fortemente que você leia essa postagem: Fim do Mistério? Astrônomos Acreditam Ter Solucionado os Pontos Brilhantes em Ceres. Ela é fundamental para você possa ter uma melhor compreensão desse recente conteúdo que estamos trazendo até vocês. Naquela postagem vocês encontrar todo um resumo do que foi descoberto no ano passado, e também toda a informação completa a respeito de uma estudo mais detalhado, coordenado por Andreas Nathues, do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, localizado na cidade universitária de Goettingen, na Alemanha.

Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar, localizado na cidade de Goettingen, na Alemanha
De acordo com Nathues e seus colegas, o material brilhante era basicamente consistente com sais hidratados, mais especificamente, sulfatos de magnésio (sulfato de magnésio hexahidratado) e também o que acreditavam ser uma parte de "gelo de água". Entretanto, preste bem atenção, não houve detecção clara de "gelo de água" em Ceres, ou seja, mais dados de alta resolução ainda seriam necessários para elucidar de vez esta questão, e isso foi informado naquela postagem. Tanto é que em outro estudo realizado pelo Instituto Nacional de Astrofísica de Roma, na Itália, apontava evidências de argilas (filossilicatos) ricas em amônia na superfície de Ceres, o que poderia indicar "gelo de amônia", visto que as moléculas de amônia poderiam permanecer estáveis se estivessem em combinação (isto é, quimicamente ligadas) com outros minerais.

Agora, em um outro estudo publicado no dia 16 de março no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, um periódico mensal da Real Sociedade Astronômica, uma renomada organização do Reino Unido, um grupo de pesquisadores identificaram uma série de ligeiras mudanças aleatórias de intensidade no brilho emitido por uma série de pontos brilhantes na cratera Occator em Ceres. Veja bem, isso não siginifica que esses pontos "pisquem" como se fosse uma laterna ou um farol, porém foram detectadas ligeiras variações da luminosidade emitida por esses pontos durante o período de rotação de Ceres (cerca de 9 horas terrestres) em observações realizadas em duas noites entre julho e agosto de 2015, mais precisamente em 31 de julho e 26-27 de agosto. Por mais "aparentemente simples" que isso possa parecer, isso gera uma série de importantes implicações. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Antes de começarmos propriamente a postagem, apesar da longa introdução que fizemos anteriormente para que você pudesse estar razoavelmente informado para compreender melhor esse novo estudo, é necessário mencionar duas notícias que foram divulgadas em janeiro desse ano.

Em uma notícia publicada em 12 de janeiro pelo site Gizmodo foi informado que "havia alguma coisa estranha escondida nos misteriosos pontos brilhantes de Ceres". Isso foi algo que muitos sites, é claro, aproveitaram para distorcer o tom proposto originalmente sobre esse assunto. Aliás, foi uma notícia bem curta onde dizia que os pesquisadores não tinham certeza de que os pontos brilhantes da cratera Kupalo, em Ceres, seriam causadas pelo mesmo processo identificado na cratera Occator no fim do ano passado. A grande questão é que na notícia divulgada no ano passado, a mesma visava primordialmente apontar uma hipótese mais sólida para explicar o material, que mediante análise, seria compatível com sulfatos de magnésio. Isso se reflete pelo cuidado que tive ao escrever o título daquela postagem. Logo, preferi esperar um pouco mais para publicar um conteúdo mais substancial.

Em janeiro desse ano foi publicado que os pesquisadores não tinham certeza de que os pontos brilhantes
da cratera Kupalo (na foto), em Ceres, seriam causadas pelo mesmo processo identificado
na cratera Occator no fim do ano passado

Em outra notícia publicada em 29 de janeiro, também pelo site Gizmodo, foi informado que as novas imagens divulgadas pela NASA, mostrando o sobrevoo da sonda Dawn, poderia esconder alguma coisa em sua superfície. O questionamento central da notícia, apontava para a utilização do recurso de cores falsas, que permite "colorir" a imagem com tonalidades diferentes, independentemente das suas cores reais - por isso esse nome - de acordo com o nível de sombreamento determinado. Assim sendo, a notícia indicava que esse recurso também atuava como um "mapa de idade". As regiões mais azuladas seriam as áreas mais jovens da superfície de Ceres, enquanto as áreas mais puxadas para o cinza e o marrom seriam as mais antigas. Veja abaixo esse belíssimo vídeo divulgado pela NASA:



Como você pode ver no vídeo, estas cores estão bem misturadas ao longo da superfície. Em outras palavras, este não seria um planeta-anão "morto", mas sim um que estava ativo em um período recente ou, talvez, ainda esteja ativo. Os cientistas sabem que Ceres já teve um oceano gelado em seu núcleo, e provavelmente ainda o tem. Seria possível que a radioatividade no interior do planeta tenha derretido parte do gelo, criando um imenso lago ou um oceano? Será que a vida evoluiu abaixo da superfície? Essas são apenas algumas das inúmeras perguntas ainda sem respostas por parte dos cientistas.

Entretanto, mais descobertas vem sendo feitas em relação a Ceres e uma delas foi publicada no dia 16 de março no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, um periódico mensal da Real Sociedade Astronômica, na Inglaterra, e que chamou muita atenção dos principais sites de notícia ao redor do mundo. É claro que não deixaríamos essa importante e intrigante informação passar em branco, pois é algo que reforça outros estudos realizados até hoje sobre Ceres.

Os astrônomos utilizaram o HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher), um espectrógrafo de velocidade radial de alta precisão instalado em 2002 no telescópio de 3,6 metros do ESO (Observatório Europeu do Sul), uma organização intergovernamental de pesquisa em astronomia, composta e financiada por quinze países) no Observatório de La Silla, no Chile. Foi justamente com esse equipamento que os mesmos conseguiram detectar ligeiras variações da luminosidade, aleatórias, em intervalos de tempo tanto curtos quanto longos, sendo emitidas por uma série de pontos brilhantes localizados na cratera Occator, durante o período de rotação de Ceres (cerca de 9 horas) em observações noturnas realizadas entre julho e agosto de 2015.

Foto do HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher), um espectrógrafo de velocidade radial de alta precisão
instalado em 2002 no telescópio de 3,6 metros do ESO (Observatório Europeu do Sul)

Foto mostrando detalhes do HARPS

Foto mostrando uma visão geral do Observatório de La Silla, no Chile
Apesar de Ceres estar tão distante de nós e ter a aparência de um mero ponto de luz de quem o observar aqui da Terra, esse estudo mais aprofundado da sua luminosidade não mostra somente as variações esperadas conforme Ceres rotaciona, mas também mostra que esses pontos brilham durante o dia, assim como apontam uma série de outras variações luminosas. Estas novas e precisas observações com a ajuda do HARPS sugerem que a explicação mais provável é que o material contido nos pontos brilhantes é volátil, e evapora ao entrar em contato com calor proveniente da luz solar.

Veja abaixo um vídeo que ilustra a rotação de Ceres e como a luz refletida a partir dos pontos brilhantes localizados na cratera Occator alternam entre os tons de azul e vermelho de acordo com o movimento em relação à Terra:



"O resultado foi surpreendente. Não apenas conseguimos identificar as mudanças espectrais esperadas em relação a rotação de Ceres, mas também outras variações consideráveis de uma noite para a outra", disse Antonino Lanza, co-autor do estudo, do Observatório de Astrofísica da Catania, pertencente ao Instituto Nacional de Astrofísica, na Itália.

"Assim que a sonda Dawn revelou os misteriosos pontos brilhantes na superfície de Ceres, imediatamente pensei a respeito dos possíveis efeitos mensuráveis a partir da Terra. Conforme Ceres rotaciona, os pontos brilhantes se aproximam da Terra e, em seguida, se afastam novamente, o que afeta o espectro da luz solar refletida que chega até a Terra", disse Paolo Molaro, principal autor do estudo, do Observatório Astronômico de Trieste, também pertencente ao Instituto Nacional de Astrofísica, na Itália.

Não entendeu nada? Bem, vamos tentar simplificar! Com a ajuda do espectrógrafo, os astrônomos não somente observaram o movimento natural dos pontos brilhantes localizados na cratera Occator, devido ao próprio movimento de rotação de Ceres em torno de seu eixo, mas também observaram variações inesperadas em seu brilho durante o dia e de uma noite para outra.

O estudo coordenado por coordenado por Andreas Nathues, do Instituto Max Planck para Pesquisa do Sistema Solar,
localizado na cidade universitária de Goettingen, na Alemanha, publicado em 9 de dezembro, descreveu que em alguns
momentos do dia, a cratera Occator (foto) e uma outra chamada Oxo, aparenta ter uma espécie de "névoa difusa"
bem próxima da superfície, e que as preenchem em suas totalidades
Os pesquisadores especulam que a explicação seja a composição do material desses pontos brilhantes. Ele deve ser volátil o suficiente para evaporar com radiação solar, criando uma névoa que reflete a luz do Sol. Com a chegada da noite, essa névoa rapidamente desaparece com o resfriamento, depositando as partículas novamente na superfície. Este efeito, no entanto, muda de noite para noite, ou seja, nunca acontecem exatamente da mesma forma.

Paolo Molaro, principal autor do estudo,
do Observatório Astronômico de Trieste, na Itália
Se essa interpretação for confirmada, então Ceres seria aparentemente diferente de Vesta e de outros asteroides pertencentes ao cinturão. Como dissemos anteriormente, Ceres é conhecido por ser rico em água, mas não está claro se isso está relacionado com os pontos brilhantes. A fonte de energia que aciona este "vazamento contínuo de material a partir da superfície" também é desconhecida.

"Tem-se observado que os pontos aparentam ser brilhantes ao amanhecer em Ceres, enquanto eles parecem desvanecer gradualmente ao anoitecer. Isso pode significar que a luz solar desempenha um papel importante, por exemplo, aquecendo o gelo logo abaixo da superfície e fazendo surgir algum tipo de pluma ou alguma outra característica", disse Paolo Molaro. De qualquer forma, estas pequenas diferenças de evaporação e condensação poderiam explicar a variação aleatória no brilho observado com o HARPS.

De acordo com Paolo Molaro, os sistemas que estão continuamente vazando material também devem estar recebendo esse o material, ou seja, sendo reabastecidos, a partir de algum lugar. Apesar de ser relativamente isolado, o planeta-anão poderia ser internamente ativo, ou seja, isso poderia apontar que Ceres seja geologicamente ativo.

"Isto poderia implicar em um vazamento a partir do interior e, consequentemente, uma fonte de aquecimento interno, que não é fácil de encontrar considerando um corpo celeste isolado", disse Paolo Molaro, em entrevista ao site Gizmodo. Fato é, que muitos estudos ainda serão necessários para confirmar se Ceres possui ou não atividade geológica.

Teremos que ser pacientes, uma vez que os cientistas atualmente estão trabalhando em busca de respostas. Por enquanto, Ceres continua a desafiar as nossas expectativas, provando que planetas anões, apesar de serem tão pequenos, podem ter uma personalidade muito maior do que imaginávamos.

Até a próxima, Assombrados!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://gizmodo.com/ceres-bright-spots-are-changing-1764777957
http://gizmodo.com/theres-something-surprising-lurking-in-ceres-mysterious-1752480994
http://gizmodo.uol.com.br/superficie-ativa-planeta-anao-ceres/
http://gizmodo.uol.com.br/tem-alguma-coisa-estranha-escondida-nos-misteriosos-pontos-brilhantes-de-ceres/
http://www.astronomy.com/news/2016/03/ceres-bright-spots-show-unexpected-changes
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3494769/The-Ceres-mystery-deepens-Enigmatic-spots-dwarf-planet-brighten-fade-day-random-bizarre-patterns.html
http://www.geek.com/science/astronomers-say-the-bright-spots-on-ceres-are-changing-1649988/
http://www.nature.com/nature/journal/v528/n7581/full/nature16172.html
http://www.universetoday.com/127897/bright-spots-ceres-blinking/
http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/espectrografo_harps.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Observatório_Europeu_do_Sul
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