6 de fevereiro de 2016

A Polêmica "Cidade do Deus Macaco": Desde sua Suposta Existência até a Recente Exploração Arqueológica


Por Marco Faustino

Antes mesmo de pensar em escrever sobre esse assunto eu fiz uma boa pesquisa em torno dessa suposta e lendária cidade perdida conhecida como "La Ciudad Blanca" ("A Cidade Branca", em português) ou "La Ciudad del Dios Mono" ("A Cidade do Deus Macaco"), e sinceramente achei esse assunto simplesmente fascinante. Muitos sites divulgaram no ano passado, baseando-se apenas em uma matéria publicada no site da National Geographic, que havia sido descoberta essa suposta cidade, que por sua vez estaria encoberta por uma densa floresta na região de La Mosquitia, em Honduras, na América Central. O maior problema é que na verdade não havia absolutamente nada provando a existência dessa suposta cidade perdida em questão, ou seja, até hoje ela nunca realmente foi encontrada. O que se tem atualmente são apenas especulações. 

Cerca de um mês atrás, no dia 6 de janeiro desse ano, o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, anunciou que uma "equipe de arqueólogos e cientistas" se encontravam em La Mosquitia, no departamento de "Gracias a Dios", preparando o que seria a escavação dos primeiros artefatos da "Cidade do Deus Macaco". Esse anúncio foi feito durante um discurso que visava a assinatura de um convênio com universidades particulares para a apoiar o Programa Nacional de Alfabetização chamado de "Honduras Aprende", na Casa Presidencial (sede do governo hondurenho). O presidente deixou claro que ele estava" abraçando" o mito de um sentimento de orgulho nacional e com grande potencial de retorno financeiro. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Como sempre tentamos fazer, e isso está quase virando uma benéfica rotina, teremos que contar a vocês sobre essa suposta essa cidade perdida. Entretanto, existe muito conteúdo sobre esse assunto, e eventualmente poderia virar até mesmo um especial com mais informações detalhadas para vocês. Assim sendo, vamos tentar limitar a informação ao "essencial". Combinado?

Um Resumo da Lenda Sobre a "Cidade Branca" ou "Cidade do Deus Macaco" em Honduras


Para ser bem sincero, tudo começa quando Cristóvão Colombo alegou em 1502, que a região costeira de Honduras possuía uma grande quantidade de pepitas de ouro e uma ilha inteira de ouro. O conquistador Hernán Cortés e o bispo Cristóbal de Pedraza (ambos espanhóis) posteriormente meio que reforçaram essa alegação.

O primeiro foi o conquistador espanhol Hernán Cortés, que em sua quinta carta enviada ao Rei Carlos V (também conhecido como Carlos I da Espanha), descreveu sua busca por uma cidade chamada Hueitapalan ou Xucutaco, uma cidade de abundante riqueza em algum lugar em Honduras. Tal como acontece com as lendas espanholas similares de "El Dorado", "A Ilha das Sete Cidades de Ouro" (derivado das míticas sete cidades cristãs de Antilla), e Quivira, a história da "Cidade do Deus Macaco" muito possivelmente seria apenas um exagero. Isso graças a poderosa combinação de crenças locais, ambições europeias, e a imposição de ideias culturais estrangeiras em territórios de nativos.

O conquistador espanhol Hernán Cortés, conhecido por ter destruído o Império Asteca de Moctezuma II
e conquistado a região central do atual território do México para a Espanha.
Pouco depois que Cortés escreveu essa carta, ouro e prata de verdade foram encontrados em Honduras, levando a uma operação de mineração por parte da Espanha, e dando credibilidade ao mito da Xucutaco. Em 1537, os nativos entraram em conflito contra os espanhóis que os tinha escravizado, e com o tempo os escravos africanos substituíram os nativos nessa função.

Duas décadas depois Cortés ter escrito a Carlos V, o bispo espanhol Cristóbal de Pedraza informou ao imperador-rei que ele tinha ouvido falar de uma princesa nativa, que pertencia a uma fabulosa civilização "além do mar", onde os nobres bebiam em copos de ouro. Todas cartas enviadas são reais, porém não fazem nenhuma menção de uma "Cidade Branca" ou uma "Cidade do Deus Macaco".

Rei Carlos V (também conhecido como Carlos I da Espanha)
Nada de muito relevante aconteceu até o início do século 20, quando um homem chamado Eduard Conzemius deixou registrado uma versão da lenda em "Los Indios Payas de Honduras", no "Journal de la Société des Américanistes 19" (1927). Na verdade a história de Eduard Conzemius foi contada por um seringueiro local, que alegou que tinha tropeçado nas ruínas de edifícações de cor branca em algum momento entre 1900 e 1910. "Todos os indígenas dizem que eles não sabem sobre isso, e que tudo é uma lenda", relatou Conzemius.

De alguma forma, por volta de 1958, este relato de 1927 passou a ser confundido com vôos arqueológicos de pesquisa realizados por Charles Lindbergh, nas Honduras Britânicas (agora Belize) em 1929. Assim sendo, depois de 1958, foi alegado que Lindbergh havia descoberto as ruínas da "Cidade Branca". Não existe nenhum registro disso, mas a lenda é tão forte que é replicada centenas de vezes em sites renomados e livros considerados best-sellers.

Antiga concepção artística de como poderia se parecer a lendária "Cidade do Deus Macaco"
A lenda do "Deus Macaco" foi mais ou menos criada em 1939 por alguns aventureiros americanos e, em seguida, incorporada ao mito da "Cidade Branca". Nessa versão basicamente haveria uma cidade perdida com uma imensa estátua do "Deus Macaco" sendo que alguns apontavam que ela seria inteiramente feita de ouro, porém em nenhum momento da história foi dada a localização exata da mesma. De qualquer forma, não entraremos em maiores detalhes para não alongar muito sobre essa questão, apesar de termos muito conteúdo para escrever sobre isso futuramente.

Os Escaneamentos Aéreos Realizados na Região de "La Mosquitia" em 2012


Voltando rapidamente no tempo, mais precisamente no ano de 1997, cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em Pasadena, na Califórnia, supostamente ao analisarem as imagens de satélite de um determinado vale na região de La Mosquitia, em Honduras, teriam identificado características não naturais "retilíneas e curvilíneas", porém as imagens eram muito "embaçadas e ambíguas", fora isso nenhuma expedição até então tinha conseguido alcançar o local indicado. Vale ressaltar que estamos falando de uma floresta densa, tropical, em uma região dominada pelo tráfico de drogas, e também por doenças tropicais como a malária.

Mapa de Honduras mostrando a região de La Mosquistia e a quantidade de sítios arqueológicos que já foram descobertos
naquele país. Lembrando que as coordenadas exatas onde foram feitos os escaneamentos não foram divulgadas
A ideia então era sobrevoar a área, um vale com 62 km², com um equipamento chamado LiDAR. O local foi apelidado de "Target One" ("Primeiro Alvo", em português), ou simplesmente T1, porém suas coordenadas exatas nunca foram reveladas (mesmo hoje em dia) para supostamente evitar que ocorressem "saques arqueólogicos" ou que aventureiros pudessem destruir artefatos / danificar possíveis estruturas. Posteriormente, outras regiões chamadas de T2, T3 e T4 foram mapeadas.

Local denominada como T1, na região de La Mosquitia, em Honduras


Imagem explicando o funcionamento do LiDAR em Honduras, que através do sistema de varredura por pulsos de laser,
é possível elaborar mapas tridimensionais precisos e atualizados, otimizando assim projetos e processos de construção
O LiDAR é um sensor remoto ativo, ou seja, envia sinais à superfície da Terra e registra o sinal refletido, e por esse motivo não é afetado pela falta de luminosidade, nem por outras variáveis que influenciam na qualidade da análise quando realizada por projeção perspectiva de fotografias aéreas. Os levantamentos realizados através do "Sistema de Varredura a Laser" (sendo o método mais comum o "laser pulsado") possibilitam a elaboração de mapas tridimensionais precisos e atualizados, otimizando assim projetos e processos de construção. A distância de um objeto é determinada medindo a diferença de tempo entre a emissão de um pulso laser e a detecção do sinal refletido, de forma semelhante à tecnologia do radar, que utiliza ondas de rádio.

Pequena sequência de imagens geradas pelo LiDAR em La Mosquitia, que foram divulgadas pela equipe de Steve Elkins,
onde se acredita ser uma área aberta (plaza) e existir uma pirâmide escondida sob o solo
Por uma série de motivos que não mencionaremos nessa postagem essa varredura ocorreu somente em 2012 quando uma equipe liderada por Steve Elkins e Bill Benenson, dois produtores de documentários, utilizaram o LiDAR (um equipamento de milhões de dólares) acoplado a um antigo avião Cessna 337 Skymaster.

Steve Elkins, documentarista vem procurando pela "Cidade do Deus Macaco" há mais de 22 anos
Nesse ponto é importante ressaltar que o LiDAR tem sido usado por geólogos, urbanistas e engenheiros civis desde a década de 1980, mas só recentemente é que a tecnologia se aperfeiçoou o suficiente para ser aplicada no mapeamento arqueológico mais detalhado. Agora, com a LiDAR, milhares de acres de floresta densa podem ser finamente mapeados em poucas horas, com maior precisão do que uma verificação por terra, mesmo que cuidadosa, poderia fornecer.

Imagem divulgada pela equipe de Steve Elkins de um trecho mapeado pelo LiDAR
Essa varredura teve o apoio do "National Center for Airborne Laser Mapping" ("Centro Nacional de Mapeamento Aéreo por Laser") ou simplesmente NCALM, que era um projeto conjunto da Universidade de Houston e da Universidade da Califórnia, em Berkeley, ambas nos Estados Unidos. Três cientistas tinham vindo por parte do NCALM: Michael Sartori, o especialista em mapeamento; Juan Carlos Fernández Díaz, o controlador da missão e operador do LiDAR; e Abhinav Singhania, analista técnico de campo e de dados. Um outro homem chamado Bruce Heinicke, parceiro de longa data de Elkins e obcecado pela lenda da "Cidade Branca", também fazia parte da equipe. Notaram algum detalhe estranho nisso? Nenhum deles era arqueólogo.

Juan Carlos Fernández Díaz, o controlador da missão e operador do LiDAR em Honduras
Tem muita história interessante de como aconteceu todo o processo de varredura, que foi um tanto quanto "obscuro", porém como eu disse anteriormente quem sabe não falaremos sobre isso em um eventual especial, não é mesmo?

O que vocês precisam essencialmente saber é que em 15 de maio de 2012, Elkins e Juan Carlos Fernández Díaz (que é hondurenho), foram convocados a Casa Presidencial, em Tegucigalpa, para apresentar a descoberta em uma reunião de gabinete, que foi transmitida ao vivo para toda nação hondurenha. Ao final do dia, um comunicado de imprensa, emitido em conjunto pela equipe de Elkins e o governo hondurenho, anunciou a descoberta "do que parecia ser evidência de ruínas arqueológicas em uma área onde rumores antigos davam conta da lendária 'Cidade Branca'". Entretanto, na época, a imprensa não fez questão de dar os detalhes e apenas disse que a "Cidade Branca" havia sido descoberta.

Rosemary Joyce, uma especialista em arqueologia hondurenha denunciou o projeto como uma mera "propaganda", criticando a equipe por não ter um arqueólogo a bordo, e dizendo que essa era a quinta vez que alguém dizia ter encontrado a "Cidade Branca". Ela estava muito tendenciosa contra este grupo de pessoas, pois seriam apenas aventureiros e não arqueólogos, que estariam atrás de espetáculo. Joyce chegou a ver a imagem de uma pequena região do T1, e disse que realmente parecia um sítio arqueológico, contando com "três aglomerados de grandes estruturas, bem como uma área aberta, um espaço público, e casas".

A Notícia da "Descoberta da Lendária "Cidade do Deus Macaco" Publicada no Site da National Geographic


Em meados de junho de 2012, Christopher Fisher, um especialista sobre a cultura mesoamericana, pertencente a Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, se juntou a equipe de Steve Elkins. Durante vários anos, Fisher vinha estudando um assentamento pré-colombiano em Michoacán, México, chamado Angamuco, que data entre o século XI ao século XVI. Em 2010, Fisher utilizou o LiDAR em Angamuco, sendo que ele pode ter sido o primeiro arqueólogo a ter usado essa tecnologia no México, e teria obtido resultados muito interessantes.

Fisher passou 6 meses estudando os mapas obtidos do LiDAR em relação a Honduras. Em dezembro de 2012, ele apresentou suas descobertas a equipe de Steve Elkins, sendo que a mesma já havia "descoberto" o que eles acreditavam ser estruturas semelhantes a uma pirâmide escondida debaixo da terra e coberta pela densa vegetação. Fisher encontrou muitas evidências que apontavam para diversos sítios arqueológicos, como se fossem outras cidades menores. Ao invés de uma cidade perdida, eles tinham encontrado diversos resquicios de uma civilização antiga. Na época Fisher chegou a comentar que não tinha encontrado apenas uma "Cidade Branca", mas sim diversas "Cidades Brancas".

O tempo passou e em março de 2015 o mundo ficou sabendo através de uma publicação no site da National Geographic, que "uma expedição a Honduras surgiu da selva com a dramática notícia da descoberta de uma cidade perdida, com uma cultura misteriosa, nunca antes explorada". Aliás, "a equipe tinha sido levada até uma região remota e desabitada onde havia antigos rumores de que no local havia a célebre 'Cidade Branca, também conhecida na lenda como a 'Cidade do Deus Macaco'". Impressionante, não é mesmo?

Christopher Fisher, um especialista sobre a cultura mesoamericana, pertencente a Universidade Estadual do Colorado,
nos Estados Unidos, durante sua expedição até Honduras em 2015
Isso causou um verdadeiro frenesi, porque a publicação dizia que uma "equipe de arqueólogos" liderada por Christopher Fisher, havia pesquisado e mapeado o terreno e até encontrado uma pirâmide debaixo da terra, que pertencia a uma cultura, que havia prosperado há mil anos, e depois desapareceu. Tinham sido descobertos cerca de 52 artefatos espalhados sobre o solo, incluindo assentos de pedra cerimonial, vasos decorados com animais e figuras zoomórficas, que foram documentados, mas não foram escavados.

Sobrevoo pela região de La Mosquistia

Grupo de arqueólogos sendo escoltados por soldados das Forças Especiais de Honduras

Vasos de pedra parcialmente expostos no solo, em que se acredita que eram utilizados para oferendas
Segundo o artigo, uma descoberta arqueológica não podia ser confirmada até que fosse vista de perto, em solo. A equipe de exploração em solo era composta de arqueólogos americanos e hondurenhos, um engenheiro do LiDAR, um antropólogo, um etnobotânico, documentaristas, e pessoal de apoio. Cerca de 16 soldados das Forças Especiais de Segurança de Honduras tinham sido destacados para proteger a equipe. O grupo ainda contava com alguns ex-soldados do Serviço Aéreo Especial da Grã-Bretanha (SAS) que já faziam parte da expedição. A "National Geographic Society" enviou um fotógrafo e um redator.

Cerca de 16 soldados das Forças Especiais de Segurança de Honduras foram destacados
para proteger a equipe liderada por Christopher Fisher

O grupo ainda contava com alguns ex-soldados do Serviço Aéreo Especial da Grã-Bretanha (SAS) que já faziam parte da expedição.
Nesta foto alguns deles auxiliam um piloto de helicóptero para a decolar a partir de uma zona de pouso liberado para uma equipe.
O helicóptero transportou pessoas e suprimentos.
Acampamento montado pela equipe liderada por Christopher Fisher em meio a região florestal de La Mosquitia
A expedição teria confirmado em solo "todas as características mostradas na imagem do LiDAR", e muito mais. Na verdade era uma antiga cidade. Os arqueólogos, no entanto, já não acreditavam na existência de uma única "cidade perdida" ou "Cidade Branca", conforme descrito nas lendas. Eles acreditavam que La Mosquitia abrigava muitas dessas "cidades perdidas", que em conjunto representavam algo muito mais importante, uma civilização perdida.

O local, no entanto, novamente não foi revelado para "proteger o sítio arqueológico de saqueadores". O problema é que a região não é tão "desabitada" assim quanto parece, visto que a mesma é amplamente utilizada pelo cartel de drogas, ou seja, não é exatamente o local onde ninguém nunca esteve antes conforme se quis dizer até então.

Uma efígie do que Christopher Fisher chamou de "Homem-Jaguar", provavelmente representando uma combinação
de um "animal humano" e do "espírito", sendo parte de um assento cerimonial ainda parcialmente enterrado

Anna Cohen, antropóloga da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, documentando artefatos
encontrados no solo no local denominado como T1, na região de La Mosquitia
Como se isso não fosse suficiente, o "National Geographic Channel" (NatGeo), realizou um documentário chamado "Legend of the Monkey God" ("A Lenda do Deus Macaco", em português), e o exibiu mundialmente em outubro de 2015, justamente com Steve Elkins explicando "a importância da descoberta dos mistérios de uma cultura antiga". E teoricamente isso não chamou a atenção apenas da imprensa, mas sim do presidente de Honduras, que viu nisso uma oportunidade de negócio.

A Polêmica em Torno da Suposta "Cidade do Deus Macaco" e o Anúncio do Presidente de Honduras


Desde o artigo publicado no site da National Geographic sobre a suposta descoberta da "Cidade do Deus Macaco" ou "Cidade Branca" como estamos comumente nos referindo a lendária cidade hondurenha nesta postagem, isso tem gerado muita polêmica em Honduras.

Dois dias depois daquele artigo, no dia 4 de março de 2015, o jornal La Prensa publicou uma notícia chamada "Ciudad Blanca es un mito para arqueólogos hondureños" ("Cidade Branca é uma lenda para arqueólogos hondurenhos", em português), que dizia que uma eventual confirmação da "Cidade Branca" seria a descoberta mais importante do século 21 (pelo menos em Honduras). Especialistas recomendavam que o governo formasse uma comissão de alto nível, mesclando profissionais do próprio país, bem como do exterior para estudar a região e fazer um trabalho científico sério.

Diversos pétroglifos (representações gravadas pelo homem em pedra ou em rochas)
já foram encontrados na região La Mosquistia muito antes de 2012
Ricardo Agurcia, renomado arqueólogo hondurenho, questionou a possível descoberta amplamente divulgada para todo o mundo, porque a equipe de investigação que havia sido composta não era sólida, não se conhecia os interesses das instituições envolvidas e ninguém sabia realmente se havia especialistas hondurenhos envolvidos.

"Até onde eu sei, isso tem pouco critério científico. Também acho estranho que uma notícia como essa tenha sido publicada primeiro no exterior do que em Honduras", disse Ricardo, observando ainda que o que foi mostrado pela National Geographic não possuía as características do que a lenda mencionava. Aliás, nunca foi segredo algum que existiam muitos sítios arqueológicos na região de La Mosquitia.

Ricardo Agurcia, renomado arqueólogo hondurenho
"O que eles encontraram foi uma cidade? Uma cidade se define arqueologicamente como um sítio de ocupação humana com uma população maior do que 10.000 habitantes. Isso é verificado com arqueologia de campo e registros de casas. São brancas? Em nenhuma das imagens se vê isso", continuou.

"Na lenda da Cidade Branca que eu conheço, deveria existir uma estátua de macaco feita de ouro. Se esta é a Cidade Branca, onde está esse macaco? Eu vejo muitas nuances de aventura, um filme de Hollywood como o de Indiana Jones. Isso não é ciência", completou.

A arqueóloga hondurenha Eva Martinez concordou com Ricardo Agurcia, que aquilo não tinha sido uma descoberta e a "Cidade Branca" continuava a ser apenas uma lenda.

"La Mosquitia foi estudada por arqueólogos durante décadas. O lugar mencionado pela National Geographic pode ser um dos sítios arqueológicos já previamente registrados no Instituto Hondurenho de Antropologia e História (IHAH). Qualquer sítio arqueológico em La Mosquitia poderia receber esse nome. A Cidade Branca é um mito, uma lenda. A publicação não é uma pesquisa acadêmica e dá uma ideia errada do trabalho de arqueologia", disse Eva.

Cerca de uma semana depois, no dia 11 de março, o jornal britânico "The Guardian" publicou uma notícia dizendo que mais de duas dezenas de arqueólogos e antropólogos estavam condenando a atitude do National Geographic sobre as alegações sobre as "cidades perdidas" de Honduras. Em uma espécie de carta aberta os mesmos protestavam contra a "espetacularização" dos sítios arqueológicos do país.

O Dr. John Henderson, respeitado antropólogo
da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, nos Estados Unidos
John Hoopes, um dos signatários e professor de antropologia da Universidade de Kansas, nos Estados Unidos, disse que a National Geographic tinha demonstrado "um desrespeito para com o conhecimento indígena, e que se tratava de um discurso colonialista".

Christopher Fisher, no entanto, tratou logo de se defender de eventuais acusações.

"Nós nunca dissemos que era a "Cidade Branca" ou a cidade perdida do Deus Macaco. Os artigos não são artigos científicos, mas não negamos que a população local possa ter conhecimento desses sítios. Entretanto, a região estava inabitada e relativamente intacta depois de todos esses séculos", disse Christopher Fisher, que como sabemos pertence a equipe de Steve Elkins.

A National Geographic tentou se defender dizendo que sua cobertura havia sido imparcial e que não dava créditos a declarações fantasiosas do passado em relação as lendas locais.

O Dr. John Henderson, respeitado antropólogo da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, que não assinou a carta, mas também não fez parte da expedição a Honduras, disse que a acusação de retórica colonialista "lhe parecia politicamente correta".

"A parte mais ofensiva é que existe muita coisa que é conhecida, que a National Geographic deixou de fora. A região é tão rica em sítios arqueológicosm que se você apontar o LiDAR em praticamente qualquer lugar do vale, você vai encontrar o que esses rapazes encontraram", disse John Henderson.

"Entretanto, o que eles fizeram é modesto em comparação com o que Chris Begley fez lá por todos esses anos", completou John, trazendo à tona o antropólogo da Universidade da Transilvânia, em Kentucky, nos Estados Unidos, muito elogiado por seus colegas de profissão devido aos seus mais de 24 anos de trabalho naquela região de Honduras.

Entre as diversas declarações dadas por Chris Begley, estava uma onde ele dizia que ao invés de ser uma cidadela isolada em uma selva ou alguma civilização misteriosa esquecida no tempo, na região de La Mosquitia quase todo vale de rio possui algum achado arqueológico. Conhecer a cultura local, bem como o povo Pech teria muito mais importância e valor arqueológico do que qualquer escaneamento aéreo, muito embora ele reconhecesse a relevância da tecnologia. A região teria abrigado diferentes culturas que se mesclaram ao longo do tempo, não apenas somente uma.

Chris Begley (à esquerda), antropólogo da Universidade da Transilvânia, em Kentucky, nos Estados Unidos
De qualquer forma, como dissemos anteriormente, a National Geographic realizou o documentário, o divulgou, exibiu e isso não passou desapercebido, ao menos não para um homem chamado Juan Orlando Hernández, o presidente de Honduras.

No começo desse ano, ele declarou que cerca de 60 milhões de pessoas, em mais de 15 idiomas, viram o documentário da National Geographic, e que Honduras nunca antes havia tido tamanha exposição. Apontou ainda que em termos turísticos eles não possuem apenas sol e praias, mas que tinham que se preparar para "pessoas que gostam de pássaros e ouví-los cantar".

Ele destacou ainda a questão sobre o ecoturismo e o turismo científico, que eram setores muito importantes em sua concepção. Assim sendo, a "descoberta" da "Cidade Branca" contextualizava em relação a uma nova "infraestrutura", que estariam construindo em termos de estradas, aeroportos e portos, pois tinham que preparar o país aproveitar esta grande oportunidade. Assista como foi o anúncio do presidente Juan Orlando Hernández:



Em meados de janeiro, Hernández desceu de helicóptero no local, que havia sido visitado anteriormente por "arqueólogos" com uma equipe da National Geographic. Hernández observou os artefatos descobertos no local e disse aos repórteres que o país foi obrigado a proteger seu "patrimônio nacional" - tanto para o turismo, quanto para a história.Veja como foi:



Assista também:



Em uma recente notícia do "The Guardian", Geoffrey McCafferty, professor de arqueologia da Universidade de Calgary, no Canadá, que atualmente está fazendo pesquisas na Nicarágua, disse que existem centenas de sítios semelhantes na região, a maioria entre 1.000 e 1.500 d.C e que foram construídos por pessoas que não eram do povo maia, mas os artefatos mostrados até agora não são incomuns.

O presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, e um arqueólogo "desembrulham" um artefato durante uma cerimônia oficial
na base aérea de "El Aguacate", em Catacamas, Honduras.
"Toda essa empreitada me parece um verdadeiro 'elefante branco'. Se alguma informação arqueológica for obtida, será ótimo. Entretanto, isso não vai reescrever a história", disse Geoffrey McCafferty.

O Instituto Hondurenho de Antropologia e História (INAH) não respondeu a perguntas sobre o futuro do sítio arqueológico. Entretanto, Darío Euraque, um historiador da Faculdade Trinity em Connecticut, nos Estados Unidos, e ex-chefe do IHAH, desconsiderou completamente a expedição: "É irrelevante. É publicidade".

Uma visão aérea do sítio arqueológico de Kaha Kamasa ("Cidade Branca", na língua Pech)
Acessível apenas por helicóptero ou através de árdua caminhada através de uma selva dominada por traficantes de drogas, o local da escavação perfaz uma atração improvável. Darío Euraque não acredita que Hernández irá investir milhões para manter o processo de escavação, tão pouco conseguir conquistar novamente a confiança de arqueólogos e construir estradas seguras até o sítio arqueológico.

A Masta, uma organização de índíos Miskito, denunciou a missão por uma série de razões, incluindo por falar de cidades lendárias e a ideia de que os sítios poderiam ser "oficialmente descobertos". Eles inclusive fizeram isso por meio de uma carta aberta.

"Estamos totalmente em desacordo com a decisão arbitrária e unilateral do governo de explorar, escavar e transportar ilegalmente peças arqueológicas. Também exigimos o respeito pelos nomes de nossos antepassados que deram este local sagrado para o nosso povo", disse a Masta.

Um nativo de Honduras da tribo Miskito carrega um barco de pesca com botijões de gás
no cais no Porto de Lempira, a principal cidade de La Mosquitia, em Honduras
Entretanto, de acordo com o antropólogo Chris Begley e geógrafo Mark Bonta, que tanto trabalharam extensivamente na região, os mais prováveis descendentes das pessoas que construíram essas pequenas cidades são um povo nativo chamado Pech (segundo o último censo realizado em 2005, existiam apenas uma população de 3.800 pessoas).

"Há uma enorme quantidade patrimonial que está à espera de ser recuperada, mas a maioria dos Pech que eu conheço não acredita que as pessoas que criaram esses lugares sejam seus antepassados", disse Bonta, acrescentando ainda que a maioria nunca foi ensinada sobre povos, sem ser os maias, que teriam cruzado a região.

"Imagine gregos que nunca tivessem ouvido falar do Parthenon. Esta é a maneira como você tira a terra do povo: dizendo que não podem ser o povo que construiu tudo aquilo, ainda mais usando o jargão 'Cidade Branca'", continuou Bonta, se referindo claramente ao tom de pele dos nativos em relação a de descendentes europeus.

O povo Pech já perdeu enormes extensões de terra devido ao desmatamento por criadores de gado e mineração ilegal de ouro. E, apesar da segurança ter melhorado no ano passado, a região ainda está repleta de traficantes de drogas, caçadores e saqueadores de antiguidades.

"O turismo é a grande esperança, porque traz dinheiro, e em grande proporção o turismo é realmente benéfico. Vastas áreas do país poderiam ser escavadas, podendo apoiar pequenas comunidades, e isso poderia melhorar a imagem global do país. Porém, se o passado é um indicador do futuro, me desculpe, nada vai acontecer", completou Mark Bonta.

Presidente de Honduras Anuncia "Novas" Descobertas na "Cidade do Deus Macaco"


Pouco mais de uma semana atrás, mais precisamente no dia 29 de janeiro, o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, realizou uma segunda visita a "Kaha Kamasa" para acompanhar o progresso na escavação de artefatos, anunciando novas descobertas e também comentou sobre os preparativos para expor tais objetos em Honduras, bem como no exterior. Vale ressaltar nesse ponto que "Kaha Kamasa" é o nome pelo qual o governo hondurenho está chamando o que seria a suposta e lendária "Cidade Branca" ou "Cidade do Deus Macaco", talvez em uma tentativa de amenizar o impacto sobre os nativos da região de "La Mosquitia".

No dia 29 de janeiro, o presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, realizou uma segunda visita a "Kaha Kamasa"
para acompanhar o progresso na escavação de artefatos
"Estamos impressionados com o que foi encontrado em apenas 18 metros quadrados da Cidade Branca", disse o presidente em referência ao progresso que está sendo realizado em Kaha Kamasa. O presidente de Honduras visitou o local com uma equipe da "The Explorer´s Network", uma produtora francesa que atualmente está produzindo um documentário sobre a civilização maia e também sobre a região de La Mosquistia, que será posteriormente exibido na França e nos demais países da Europa, em diferentes idiomas.

A Base Aérea de El Aguacate, no município de Catacamas, foi o local escolhido para abrigar o que o presidente chamou de um verdadeiro centro de investigações em relação ao que vem sendo encontrado na região onde supostamente estaria "enterrada" a lendária cidade. A primeira-dama, Ana Garcia Hernández, o ex-presidente Ricardo Maduro, e a ministra adjunta de Estratégia e Comunicação, Hilda Hernández, acompanharam o presidente nesta segunda visita.

Durante sua segunda visita a "Kaha Kamasa" o presidente de Honduras revelou "novas descobertas"
"Estamos vendo peças com um acabamento bem detalhado, o que significa que levaram muito tempo para produzí-las, mas também que possuíam uma grande importância para fossem produzidas. Estamos diante de algo que vai demorar muitos anos para descobrir cada um desses detalhes, mas é preciso promovê-las para que o mundo possa conhecê-las e compartilhar esse conhecimento", disse o presidente.

"Estamos preparando as primeiras exposições em Tegucigalpa para podermos dizer ao mundo científico, estudantes e pessoas em geral, o que encontramos em Kaha Kamasa", continuou. Ele também ressaltou que agora havia a possibilidade de criar réplicas idênticas as peças originais, e que estas também poderiam ser levadas até outros países (museus) ao redor do mundo, como por exemplo, aos Estados Unidos.

"Estamos diante de algo que vai demorar muitos anos para descobrir cada um desses detalhes, mas é preciso promovê-las e que o mundo possa conhecê-las e compartilhe esse conhecimento", disse o presidente
Disse ainda que em sua visita a Alemanha em 2015, o prefeito de Berlim, disse que sabia sobre a "Cidade Branca", e que assim que as primeiras peças fossem escavadas, ele estaria a disposição para realizar e promover uma exposição na capital alemã. Aliás, o presidente revelou que entraram em contato com "The Explorer's Network" durante a Cúpula do Clima em Paris, no final do ano passado, e que assinaram um acordo para que o documentário sobre a "Cidade Branca" pudesse ser produzido com o intuito de promover o orgulho nacional, as exportações, os investimentos, o turismo, entre outros objetivos.

A primeira-dama, Ana Garcia Hernández, ainda ressaltou na ocasião, que a "Cidade Branca" era um "patrimônio mundial", bem como do próprio país, além de possuir um enorme potencial turístico e acadêmico. Será mesmo?

Pois é, Assombrados, a "Cidade Branca" ou "Cidade do Deus Macaco" não é apenas uma cidade lendária, mas um complicado quebra-cabeça sociocultural e político. De um lado temos arqueólogos que trabalham há décadas na região e tem algo realmente a dizer, do outros temos documentaristas, tecnologia e um arqueológo americano que se viu isolado em sua própria crença e de sua respectiva equipe. Temos ainda diversos outros lados: o financeiro, o indígena, o político em razão de uma séries de denúncias de corrupção no governo hondurenho, entre outros.

Fato é que ao contrário do que foi amplamente divulgado, a "Cidade Branca" ou "Cidade do Deus Macaco" ainda não foi descoberta. O que temos são sítios arqueológicos assim como centenas de outros em Honduras e na América Central, que outrora foram construídos por povos que não eram os maias, mas que passaram pela região ao longo dos séculos. Muito provavelmente seus descendentes, ao menos na região de La Mosquitia, em Honduras são os Pech e nada além disso. Não vimos nenhuma estátua gigante de macaco feita de ouro. A imprensa vendeu bem o assunto, não é mesmo?

Enfim, quem sabe uma hora não fazemos um especial contando todos os detalhes sobre a lendária "Cidade do Deus Macaco"? De qualquer forma, agora você está bem mais informado sobre a realidade por trás de toda essa história.

Até a próxima, Assombrados!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://www.theguardian.com/world/2016/jan/17/honduras-lost-city-president-hernandez-doubts-archaeology
http://www.theguardian.com/world/2015/mar/11/honduras-lost-cities-open-letter-national-geographic-report
http://www.jasoncolavito.com/blog/honduran-president-embraces-white-city-myth-in-push-for-tourist-cash
http://www.laprensa.hn/honduras/917222-410/arqueólogos-preparan-excavación-de-piezas-de-ciudad-blanca
http://www.laprensa.hn/honduras/886502-410/national-geographic-estrena-la-leyenda-del-dios-mono-en-honduras
http://www.laprensa.hn/honduras/816926-410/ciudad-blanca-es-un-mito-para-arqueólogos-hondureños

http://www.latribuna.hn/2016/01/30/presidente-hernandez-anuncia-nuevos-hall­azgos-en-kaha-kamasa-o-ciudad-blanca/
http://www.ancient-origins.net/news-history-archaeology/honduras-begin-investigations-ancient-jungle-ruins-believed-be-legendary-020694
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