6 de outubro de 2015

O Polêmico Estudo Sobre o Aumento da Vida Selvagem Na Região de Chernobyl Desde o Desastre Nuclear de 1986

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Por Marco Faustino

As pessoas foram evacuadas após o acidente de Chernobyl, mas o que aconteceu com a fauna local? Um novo estudo mostra que a vida selvagem na região onde ocorreu o desastre nuclear de Chernobyl está prosperando, indicando que a presença de seres humanos é mais prejudicial para a vida selvagem do que é contaminação radioativa.

Depois da explosão e do incêndio que destruiu a central nuclear de Chernobyl, em 1986, as pessoas foram permanentemente evacuadas, a fim de evitar os níveis de radiação que eram vinte vezes maiores do que os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki. Alguns estudos foram feitos na região, porém devido ao risco iminente de contaminação não se sabia exatamente como os animais estavam se comportando. De acordo com um estudo publicado ontem na revista "Current Biology", os cientistas relatam que a área do desastre de Chernobyl, agora é o lar de diversas espécies de animais. Vamos saber mais sobre esse assunto?

Chernobyl Foi Um Desastre Para As Pessoas, Mas E Quanto A Vida Selvagem?


Quando a usina nuclear de Chernobyl sucumbiu em 1986, mais de 116.000 pessoas foram permanentemente transferidas de uma região contaminada compreendendo um território de 4.200 km². Uma área que mais tarde foi denominada como a zona de exclusão de Chernobyl.

Entretanto, o que aconteceu com a fauna local? Estudos anteriores indicavam, que o número de animais selvagens inicialmente caiu nos meses após o acidente. No entanto, trinta anos depois, qual será o efeito da contaminação por radiação sobre a quantidade de grandes mamíferos na região de Chernobyl? Uma equipe internacional de pesquisadores, liderada por Tatiana Deryabina, da Reserva Radioecológica Estadual de Polesky (PSRER), na Bielorrússia, realizou pesquisas para descobrir justamente isso.

Imagem do Google Maps que mostra a distância da Reserva Radioecológica Estadual de Polesky (PSRER), na Bielorrússia,
em relação a cidade fantasma ucrania de Pripyat, que por sua vez fica próxima à antiga usina nuclear de Chernobyl


A PSRER é uma reserva natural na Bielorrússia, que foi criada para englobar os territórios daquele país, mais afetados pela precipitação radioativa do desastre de Chernobyl. A reserva abrange cerca de 2.165km² (metade da área total de exclusão de Chernobyl), e tem níveis de radiação semelhantes ao setor ucraniano.

Os resultados obtidos pela PSRER foram comparados com quatro reservas naturais nas proximidades, que não foram contaminadas pela acidente nuclear: a Reserva da Biosfera Berezinsky, uma reserva natural estadual que abrange cerca de 852km², o Parque Nacional dos Lagos Braslav, que abrange cerca de 645km², o Parque Nacional Puscha Belovezhskaya, que é um Património Mundial da UNESCO situado tanto na Polónia (cobrindo cerca 105km²) quanto na Bielorússia (cobrindo cerca de 1.501km²), e o Parque Nacional Narochansky, que abrange 874km². Das quatros reservas, apenas dois (o Parque Nacional Belovezhskaya Puscha e Parque Nacional Narochansky) permitem de forma limitada, a caça de animais selvagens.

A equipe testou três principais hipóteses relativas à resiliência de vida selvagem em relação ao pior acidente nuclear da história:
  • Primeira hipótese: As densidades de mamíferos foram suprimidas devido aos níveis de contaminação radioativa na zona de exclusão de Chernobyl.
  • Segunda hipótese: As densidades de grandes mamíferos foram suprimidas na PSRER em comparação com aquelas quatro reservas naturais não contaminadas na Bielorrússia.
  • Terceira hipótese: As densidades de grandes mamíferos declinaram de 1 a 10 anos após o acidente.
Em relação a primeira hipótese, em um estudo publicado em 2013, foram realizados censos rastreando pegadas na neve deixadas por animais selvagens entre os anos de 2008 e 2010, ao longo de 35 rotas permanentes, em um total de 315km de extensão. Tipos de habitats específicos da PSRER (antigas terras agrícolas, antigos vilarejos, florestas perenes e floresta estacional decidual) bem como os níveis de densidade de contaminação com césio radioativo foram mapeados utilizando GIS (Sistema de Informação Geográfico) ao longo de cada uma dessas rotas. Embora os dados do censo não deem uma informação direta sobre métricas populacionais, tais como o sucesso reprodutivo ou longevidade, um cenário no qual populações escassas em áreas altamente contaminadas sejam possíveis por um influxo rápido, e utilização do habitat de áreas menos contaminadas, parece altamente improvável.

O estudo liderado pela pesquisadora Tatiana Deryabina, tenta derrubar 3 principais hipóteses relativas à resiliência de vida selvagem em relação ao pior acidente nuclear do mundo, porém o estudo está sendo um tanto quanto questionado por alguns especialistas
Um estudo sobre pequenos mamíferos realizado por Ronald K. Chesser, entre outros pesquisadores na década de 90, não encontrou nenhuma evidência de um declínio populacional na região de Chernobyl. Entretanto, o estudo que mencionamos anterioremente, aquele de 2013, mostrou uma relação negativa entre os níveis de radiação e as densidades de mamíferos. A discrepância com os dados divulgados agora, provavelmente seria devido a área de cobertura, visto que o estudo de 2013 teoricamente abrangia uma área menor.

A hipótese 2 propõe que as densidades de grandes mamíferos são menores na PSRER do que em comparação com aquelas quatro reservas naturais não contaminadas na Bielorrússia. Segundo a equipe liderada por Tatiana Deryabina, essa hipótese não era apoiada por dados empíricos. Assim sendo, foram analisadas as pesquisas derivadas de rotas onde havia o rastreamento de pegadas, e que foram publicados pelo Ministério dos Recursos Naturais da Bielorrússia.

Agora, com a utilização de helicópteros, os pesquisadores descobriram que as densidades populacionais de alces, cervos, veados, bisões e de javalis selvagens dentro da zona de exclusão são semelhantes àquelas encontradas nas quatro reservas naturais não contaminadas na região. Segundo esse mesmo estudo o número da população de lobos é sete vezes maior do que anteriormente.

Os números de lobos são sete vezes mais elevados do que em regiões não contaminadas pela radiação de Chernobyl
Por fim, a hipótese 3 propõe que as densidades de grandes mamíferos declinaram de 1 a 10 anos após o acidente. Isso se não seria verdade, uma vez que a número de javalis entre 1987 e 1996 e de alces e veados entre 1988 e 1996, aumentou significativamente. O aumento de grandes mamíferos não-predatórios entre 1987 e 1996 foram acompanhados por um grande aumento no número de lobos, uma causa provável da redução populacional dos javalis, muito embora um surto de peste suína africana também tenha contribuído para essa redução. Antes do acidente de Chernobyl, as densidades populacionais de mamíferos provavelmente foram suprimidas devido à caça, a silvicultura e a agricultura.

Uma Explicação Mais Simplificada Do Estudo Para Uma Melhor Compreensão


O novo polêmico estudo, que tentamos explicar acima, basicamente diz que embora as taxas extremamente altas de radiação na sequência imediata do acidente tenham comprometido significativamente a saúde dos animais e suas respectivas reproduções, tudo se recuperou rapidamente e não havia nenhuma evidência de efeitos a longo prazo sobre as populações de mamíferos.

Pesquisadores dizem que alces e outros mamíferos crescem livremente perto da usina nuclear de Chernobyl.
A foto mostra alces fotografados na zona de exclusão de Chernobyl
Embora os animais possam ter sido afetados individualmente pela radiação, as populações em geral têm se beneficiado com a ausência das pessoas, da caça, da silvicultura e da agricultura, que mantinham em níveis muito baixos os números de animais selvagens antes do acidente nuclear de Chernobyl. Os linces, por exemplo, voltaram para a região, uma vez que eles não eram mais encontrados antes do acidente, enquanto os javalis estão se aproveitando de construções em fazendas abandonadas para se abrigarem e pomares como fontes de alimento.

Um dos autores do estudo, o professor de Ciências Ambientais, Jim Smith, da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, disse que o acidente nuclear teve conseqüências sociais, psicológicas e econômicas muito graves para as comunidades locais que tiveram de ser evacuadas.

"Em termos puramente ambientais, se você descartar as coisas terríveis que aconteceram com a população humana desta equação, e ao menos o quanto podemos observar até o presente momento, o acidente não gerou danos ambientais graves", disse o professor Jim Smith.

"Na verdade, foi devido a este acidente, que foi criado este tipo de reserva natural", completou.

"O território que engloba a zona de exclusão foi fragmentado pela ação do homem. Havia muitas fazendas, florestas, vilarejos e os animais eram caçados como forma de alimento", disse o Dr. Jim Beasley, da Universidade da Georgia, nos Estados Unidos.

Arminho (também conhecido como furão), Mustela erminea, fotografado na zona de exclusão de Chernobyl
"Após o acidente, independentemente da existência de quaisquer potenciais efeitos da radiação, os nossos dados mostram com bastante clareza, que as populações desses grandes mamíferos aumentaram rapidamente, uma vez que você removeu os seres humanos do território e atualmente eles estão se mantendo em um nível razoavelmente alto", completou.

Alguns outros professores também elogiaram a iniciativa do novo estudo.

"Há muito tempo existem rumores de que a região de Chernobyl tem uma vida selvagem abundante, incluindo carnívoros. Dessa forma fico feliz por esse trabalho", disse Tim Coulson, professor de Zoologia da Universidade de Oxford, que não participou do estudo, mas ressaltou que devido ao terreno contaminado, não é fácil estudar a vida selvagem mais de perto, por isso quando há algum material confiável de pesquisa é importante que seja valorizado.

"Este estudo é um avanço muito positivo na realização de pesquisas sobre os potenciais impactos na saúde e também ambientais relacionados a acidentes nucleares", disse Timothy Mousseau, professor no Departamento de Biologia da Universidade da Carolina do Sul, nos Estados Unidos, que também não fez parte deste estudo.

"Aplaudo os autores por seus esforços em trazerem dados científicos difícies de serem sustentados sobre a questão dos impactos para a vida selvagem nas regiões atingidas da Ucrânia e da Bielorrússia. Muito mais pesquisas relacionadas sobre esta questão e tantas outras são absolutamente necessárias", completou.

Entretanto, ainda existe muito questionamento a ser feito sobre esse estudo.

Os Questionamentos Sobre O Polêmico Estudo


"Nós não estamos dizendo que a radiação é boa para os animais, mas o desenvolvimento humano e à exploração dos recursos naturais é ainda pior", disse o professor Jim Smith.

Um co-autor do estudo chamado Tom Hinton, do Instituto de Radioatividade Ambiental da Universidade de Fukushima, no Japão, reconhece que o estudo não se aprofundou em saber como a radioatividade tem afetado a saúde dos animais.

"Sem nenhuma dúvida os animais próximos de Chernobyl e da usina nuclear de Fukushima, no Japão - onde três reatores sucumbiram em março de 2011 devido a um terremoto e um tsunami - sofreram danos genéticos", disse Tom Hinton.

"A pergunta do milhão de dólares é: 'Qual é a importância disso?' De fato não sabemos", completou Tom.

Javali selvagem caminhando sobre a neve na zona de exclusão de Chernobyl
Ron Chesser, biólogo da Universidade de Tecnologia do Texas, em Lubbock, nos Estados Unidos disse que o estudo coincide com o seu próprio trabalho, ao constatou que pequenos mamíferos eram abundantes e diversificados na região em torno de Chernobyl, na década de 90.

"Os dados deles são muito mais completos e aprofundados do que os nossos. Eles devem ser elogiados pelo esforço hercúleo para finalmente por um ponto final nesse debate", disse Ron, por meio de um email enviado a Science Magazine.

Entretanto, alguns especialistas insistem que o debate ainda não acabou. Lembram do estudo realizado em 2013? Pois bem, um dos autores daquele estudo, Anders Møller, ecologista da Universidade de Paris-Sud em Orsay, na França, diz ter encontrado efeitos contundentes da radiação nos animais em Chernobyl, como um tamanho menor do cérebro dos pássaros. O estudo relacionado a esta revelante questão foi publicado dois anos antes, ou seja em 2011, na revista PLoS One.

Casa abandonada na zona de exclusão de Chernobyl
Em um estudo realizado em 2009, no lado ucraniano da zona de exclusão, Møller descobriu que a abundância de mamíferos diminuiu à medida que os níveis de radiação aumentaram. Møller também questionou a confiabilidade dos dados provenientes da Bielorrússia, fazendo uma grave denúncia.

"Muitos dos meus colegas da Bielorrússia foram colocados em prisão domiciliar por vários anos, porque eles publicaram resultados negativos. Seria bem melhor se essas descobertas fossem verificadas de forma independente", disse Møller.

De qualquer forma o professor Jim Smith diz que está "plenamente confiante" na integridade dos resultados.

"Tenho trabalhado em uma estreita colaboração com cientistas da Bielorrússia por mais de 20 anos e minha experiência com eles em termos de integridade tem sido tão positiva quanto com cientistas ocidentais", disse Jim Smith, em um email enviado para a Science Magazine.

E vocês Assombrados, em quem preferem acreditar?

Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://news.sciencemag.org/biology/2015/10/humans-are-worse-radiation-chernobyl-animals-study-finds
http://www.theguardian.com/science/grrlscientist/2015/oct/05/what-happened-to-wildlife-when-chernobyl-drove-humans-out-it-thrived
http://touch.latimes.com/#section/-1/article/p2p-84610716/

http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-3260583/Chernobyl-wildlife-PARADISE-Wolves-lynx-elk-boar-thrived-humans-abandoned-nuclear-disaster-zone.html
http://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(15)00988-4
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