12 de outubro de 2015

5 Desenhos Polêmicos da História da Animação

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Por Marco Faustino

Em comemoração ao "Dia das Crianças" resolvemos lançar um especial um tanto quanto diferente do que já fizemos até hoje. Assim sendo, nesta postagem iremos conhecer alguns dos desenhos mais sombrios ou conspiratórios de todos os tempos. Não iremos repetir o que muito já se disse por nas aí matérias de outros sites, mas comentar sobre desenhos que provavelmente você nunca ouviu falar, até mesmo porque alguns são bem antigos.

Algumas teorias dificilmente você encontrará em outros lugares, exceto aqui. Reunimos um material bem interessante tanto para você que gosta de ler, quanto de assistir vídeos. Esperamos que vocês gostem do que preparamos, lembrando que são episódios que consideramos fora de uma curva, que hoje em dia não seria tolerável, porém é plenamente possível que naquela época não tivesse a visão atual que temos. O conceito de sociedade, na maioria dos casos, também evolui e uma análise mais crítica torna-se muitas vezes inevitável.

Vamos começar com um desenho, que provavelmente quase todo mundo deve conhecer. O episódio em si é um clássico, que não passa mais na TV aberta. Algumas pessoas, no entanto, ainda dizem que o assistiram não muito tempo atrás. Hora de começar com Tom & Jerry!

#05 - Tom e Jerry em "Blue Cat Blues" de 1956


O episódio "Blue Cat Blues" é 103º da série original de desenhos criados do Tom e Jerry. Ele foi lançado em 1956 pela Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), sendo dirigido e produzido por William Hanna e Joseph Barbera, com o acompanhamento musical de Scott Bradley. Sabemos que em "Tom e Jerry" eram comuns as cenas envolvendo armas, acidentes, e situações impróprias, porém sempre foi considerado normal para a época e milhões de pessoas, inclusive muitos que estão lendo esta postagem, cresceram assistindo sem o menor problema.

Existem dezenas de outros episódios que poderíamos citar, como por exemplo, "Downhearted Duckling", que pertence a série do "Tom e Jerry" onde um pintinho amarelo tenta se matar por diversas vezes por se considerar feio ao se olhar no espelho. Uma espécie de paródia sombria da fábula do "Patinho Feio". Neste episódio inclusive o Jerry salva o pintinho também por diversas vezes.

Cena inicial de "Blue Cat Blues" onde Jerry observa,
do alto de uma ponte, o desolado e deprimido Tom.
Entretanto há determinadas situações que fogem da curva proposta pelos criadores por assim dizer, e "Blue Cat Blues" é repleto dessas. De uma maneira muito incomum para um desenho de "Tom e Jerry", neste episódio o Jerry dá a sensação de "falar" e inclusive "narra" a toda história. A "dublagem" foi feita por Paul Frees. Aliás, o Paul Frees emprestou sua voz em diversas produções da MGM, Disney e Walter Lantz Productions, principalmente na Era de Ouro da Animação.

De uma maneira ou de outra, uma vez que Jerry narra o episódio através de um técnica literária chamada "monólogo interior" (técnica que trata de reproduzir os mecanismos do pensamento no texto ou de outra forma, como é o caso dessa narrativa), o episódio não quebra a "regra cardinal" de não ter Tom e Jerry fisicamente falando na tela. Entretanto, enquanto a maioria dos episódios têm histórias cômicas ou com finais felizes, este tem um sombrio e trágico final. Devido a este fator e o suícidio implícito de ambos os personagens no final, fizeram com que ele fosse raramente exibido ao redor no mundo, levando muitos a acreditarem até hoje que seja um episódio proibido.

Se você já viu esse episódio alguma vez na TV aberta ou fechada, sinta-se no rol dos "privilegiados".

O Roteiro de "Blue Cat Blues":

O desenho começa com Tom em visível estado de depressão e sentado sobre os trilhos do trem. Observando logo acima dos trilhos, sobre uma ponte, Jerry lamenta a situação do seu "velho amigo". Ele sabe que, assim que ele chegar em casa, seus próprios amigos vão questionar o porquê ele não tentou impedir o Tom de cometer suicídio. Ele teria que dizer aos amigos, que acredita ser "melhor assim, e pela primeira vez desde que Tom a conheceu, ele vai ser feliz". Assim sendo, Jerry revive "a história de um gato com um coração partido" em sua cabeça, começando a relatar os acontecimentos que levaram à depressão do Tom.

Tom fica perdidamente apaixonado por uma gata branca, por mais
que o Jerry tentasse impedir que isso acontecesse
Segundo este episódio Tom e Jerry tinham sido melhores amigos inseparáveis, até que uma linda gata branca chama a atenção de Tom. A felina inicialmente é recíproca em relação aos sentimentos dele, mas as coisas acabam tomando um rumo bem mais sombrio. Jerry menciona que Tom acabou tendo um rival, o Butch, que era muito mais rico e assim despertava um interesse maior na visão da gata. Butch acaba sendo encantado por ela também, e de forma ríspida interrompe seu encontro com Tom para dar em cima dela. A gata então se mostra ser uma oportunista, assim como Jerry havia suspeitado. Atraída pela riqueza do Butch, ela imediatamente deixa Tom e fica com ele.

Jerry relata que após ter visto quem realmente a gata era, e a forma com que ela o estava fazendo de bobo, ele tentou fazer com que Tom parasse de correr atrás dela. Ele tentou avisá-lo para deixar isso de lado, que não valia a pena todo o esforço por alguém assim, visto que ela queria ficar com o Butch. Tom ignora o aviso de Jerry e se endivida de todas as formas possíveis e inimagináveis para tentar conseguir dinheiro e impressionar a gata. Tom passa a dar flores, perfume, anel de diamante e um carro, mas a gata despreza todos os seus esforços. Isso tudo porque os presentes do Butch são muito maiores, mais caros, e escandalosamente extravagantes (incluindo um caminhão-tanque cheio de perfume, um anel com um diamante tão grande e brilhante, que ele não pode ser visto sem uma proteção para os olhos e um carro bem mais luxuoso).

Ao final do episódio, Jerry frustrado emocionalmente se coloca ao lado de Tom
enquanto o episódio termina com o apito de trem se tornando cada vez mais alto
O Tom fica sem dinheiro, endividado ao extremo e tenta afogar suas mágoas tomando leite. Jerry em certo momento salva Tom de morrer afogado após ser levado pelas águas dentro de um bueiro, mas quando nada poderia parecer pior, um carro passa em alta velocidade, jogando a água empoçada na rua em ambos. É nesse momento que Tom vê que no carro estava sua amada, que tinha acabado de se tornar esposa de Butch. Na parte traseira do carro havia uma faixa escrita de "recém-casados".

Jerry está contente na cena final, uma vez sua namorada chamada "Toots" é fiel a ele. No entanto de repente seu mundo idílico é despedaço ao vê-la em um carro, com outro rato, também com uma uma faixa de "recém-casados".

Jerry fica repentinamente deprimido e em seguida fica ao lado do Tom sobre os trilhos da ferrovia. Nos segundos finais do episódio, que tem com pouco menos de 5 minutos, apenas escuta-se o apito característico de um trem se aproximando, ficando cada vez mais alto, até que o episódio acaba.


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Curiosidades de "Blue Cat Blues":

  • Este foi o único episódio criado com um roteiro totalmente trágico;
  • Devido à natureza obscura do final do episódio, muitos fãs acreditaram que este seria o episódio final da série original;
  • É estranho como Butch é mostrado como sendo um gato rico neste episódio, já que ao longo da série, ele é frequentemente visto como um gato de rua, sem-teto, e que vive bem ao ar livre, enquanto Tom é capaz de viver em uma casa com seus donos.
Informação bônus: 

Originalmente Tom e Jerry se chamavam Jasper e Jinx respectivamente. Foram batizados é claro por William Hanna e Joseph Barbera. A primeira aparição do Tom, ainda como Jasper, foi justamente no primeiro episódio, chamado "Puss Gets the Boot" e quase ganhou um Oscar.

O episódio foi ao ar no dia 10 de fevereiro de 1940 mostrando um gato cinzento presunçoso chamado Jasper, que tinha um grande prazer em atormentar um pequeno rato chamado Jinx. O chefe do estúdio de animação da MGM na época pediu-lhes para explorarem outros temas, pois ele acreditava que desenhos animados de "gato e rato" eram antiquados e chatos.

O primeiro episódio de "Tom e Jerry" chamado "Puss Gets the Boot" de 1940
O primeiro episódio fez tanto sucesso que acabou gerando um segundo episódio chamado "The Midnight Snack", que foi ao ar somente em 19 de julho de 1941. No entanto este episódio sofreria uma mudança que perdura até hoje: os nome originais dos principais personagens foram trocados para "Tom e Jerry". Aliás, o nome de Tom, vem de "Thomas Cat", e o de Jerry vem de "Jerry Mouse".

Essa mudança é creditada a própria MGM, que não via popularidade nos nomes originais, e isso acabou dando margem para uma das mais famosas teorias conspiratórias dos desenhos animados. Muitos desde então ligam o desenho "Tom e Jerry" com a Segunda Guerra Mundial, uma vez que dizem que o nome Tom representaria os aliados e o nome Jerry representaria os alemães.

Segundo essa teoria conspiratória o nome Tom teria começado a ser moldado em 1794, na cidade europeia de Flandres, no auge da "Batalha de Boxtel". O Duque de Wellington estava com o seu primeiro comando, o 33º Regimento de Infantaria, que havia lutado bravamente em sangrentos combates homem a homem, quando ele se depara e se aproxima de um soldado muito ferido deitado sobre a lama. Era o soldado raso Thomas Atkins. "Está tudo bem senhor, é só mais um dia de trabalho", disse o corajoso soldado pouco antes de morrer.

Em 1815, o Duke já com 74 anos de idade, foi abordado pelo Ministério da Guerra que lhe pediu uma sugestão de um nome a ser usado para personificar o "bravo soldado britânico". O mesmo seria usado como um exemplo de nome em uma publicação chamada "Soldier’s Pocket Book" para mostrar como um soldado deveria ser. Lembrando da batalha de Boxtel, o Duke sugere "Thomas Atkins". Vale ressaltar que esta é apenas uma das explicações para a origem do termo "Tommy Atkins", usado na Segunda Guerra Mundial, para se referir a um soldado comum no exército britânico. Assim sendo Thomas ganharia seu diminutivo Tommy até chegar em Tom.

O termo Jerry era um apelido dado pelos soldados e civis das nações aliadas, aos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, em particular pelos britânicos. Esse nome pode ter surgido devido ao formato do capacete alemão que era parecido com um "penico" que na gíria inglesa era "jerry" ou também pode ter saído de "jerry-can", um galão de metal alemão de 1943, e usado pela primeira vez pelas tropas alemãs na Segunda Guerra Mundial. Detalhe que o galão era superior aos usados na época. No entanto considerando essa última hipótese, não faria sentido a teoria conspiratória, visto que o nome dos personagens foi alterado dois anos antes. A verdade é que ninguém sabe exatamente o a origem exata desses dois nomes.

Apesar da época em que era exibido e do nome aparentemente ser referente a guerra. Tom e Jerry raramente fez algum tipo de apologia à guerra. Tom e Jerry foi uma série quase inteiramente livre de comentário político. Com exceção de alguns episódios como "Yankee Doodle Mouse" de 1943 e "The Lonesome Mouse" no mesmo ano, onde Jerry desenha um bigode de Hitler em um retrato do Tom. Cada um, no entanto, é livre para pensar como quiser, deixamos apenas em aberto essa possibilidade.

Cena considerada racista no episódio nº 35 chamado
"The Truce Hurts" de Tom e Jerry
De qualquer forma "Tom e Jerry" não se viu livre de polêmicas. Pelo menos 27 episódios foram acusados de possuir cenas racistas, como quando ocorre uma explosão ou algum liquido cai no rosto de um personagem, e seu rosto fica negro, o que foi interpretado por algumas pessoas como racismo. Em consequência disso diversas cenas foram editadas e cortadas em alguns episódios.

Tudo isso devido ao "Black face", que foi uma forma de maquiagem teatral usada por artistas para representar uma pessoa negra. A prática começou por volta de 1830, durou mais de 100 anos, e ganhou mais popularidade durante o século 19. Isso contribuiu para a proliferação de estereótipos, inclusive em desenhos animados americanos das décadas de 1930 e 1940, onde muitas vezes destacavam os personagens, que após uma explosão, ficavam com o rosto negro, lábios maiores e algumas vezes com o cabelo ou orelhas com um laço na ponta, bem como outras caricaturas raciais e étnicas. Por meados do século 20, a mudança de atitude em relação ao racismo, principalmente devido ao Movimento pelos Direitos Civis dos negros nos EUA, entre 1950 e 1960, fez com que o uso proeminente da maquiagem do "rosto pintado de preto", caísse em desuso em apresentações nos EUA, e em outras partes do mundo. Sua utilização hoje em dia é bem limitada no teatro ou raramente utilizado como parte de um comentário social ou sátira.

Em 2006 "Tom e Jerry" recebeu uma forte crítica do órgão regulador do setor de comunicações do Reino Unido, a Ofcom, a partir de uma única reclamação de um espectador que não gostou de ver dois episódios que retratavam sobre o hábito de fumar. Em um boletim publicado em seu site, a Ofcom apontou "preocupações de que fumar na televisão poderia fazer com que o hábito de fumar fosse considerado normal", e disse que a empresa Turner, licenciada da Boomerang, que colocava os desenhos no ar, havia concordado em editar algumas cenas que Tom e Jerry fumavam. A Ofcom entendia que o hábito de fumar era mais aceito quando os desenhos foram produzidos, entre a década de 40 e 60, mas apontou que os limites para inclusão de tais cenas, quando a audiência é predominantemente mais jovem, deveriam ser maiores.

Em 2013, o desenho foi retirado da grade do Cartoon Network. A justificativa foi o fato da série ser considerada “politicamente incorreta”, por ter “conteúdo violento”, mais relacionado às cenas de surras entre gato e rato. Na época fãs protestaram na internet. Ainda em 2013, os fãs protestaram por outro motivo. Uma coletânea em blu-ray anunciada pela Warner cortou alguns episódios por serem conteúdo considerado racista.

Tem muita coisa para se comentar a respeito de Tom e Jerry e ficaríamos horas escrevendo por aqui, mas temos que encerrar e dar espaço ao próximo desenho da lista.


#04 - Scrappy em "The Little Pest" de 1931

O episódio "The Little Pest" (em português seria algo como "O Pestinha") foi ao ar no dia 15 de agosto de 1931, sendo estrelado por Scrappy, um personagem de desenho animado criado por Dick Huemer para o "Krazy Kat Studio" de Charles Mintz e distribuído na época pela Columbia Pictures. Em muitos lugares o personagem principal Scrappy é definido como sendo: "um menino cabeçudo que frequentemente estava envolvido em aventuras nada convencionais em sua vizinhança". É quase irônico ler isso diante do que estampava o cartaz de divulgação do desenho.

Cartaz de divulgação de "Scrappy"
O personagem na verdade era um sociopata, uma vez que possuía um comportamento impulsivo, hostil e antissocial. Visivelmente ele tinha transtorno de personalidade devido a um egocentrismo exacerbado, que o levava a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões dos outros.

Frequentemente Scrappy estava acompanhado de seu irmão mais novo chamado Oopy, e tinha um relacionamento de altos e baixos, devido a constantes conflitos, com sua namorada chamada Margy. Scrappy também tinha um cão chamado Yippy.

Scrappy era na verdade um tanto quanto violento por mais que fosse a década de 30. Inclusive este episódio foi o segundo criado de uma série, que só teria um final em 1941, e foge totalmente da curva ao ter um dos finais mais sombrios da história dos desenhos animados.

O criador de Scrappy, Dick Huemer, nasceu em 1898 na cidade de Nova Iorque, nos EUA e teve uma importante participação no mundo da animação. Participou anos mais tarde da criação do histórico desenho da Disney chamado  "Fantasia" de 1940 e também foi roteirista de "Dumbo" em 1941, permanecendo na Disney até 1973, poucos anos antes de sua morte em novembro de 1979. Dick deixou um legado de inúmeros desenhos animação na Era da Ouro da Animação.

O roteiro de "The Little Pest":
Scrappy dá um forte tapa no rosto
de seu irmão Oopy.

Neste episódio Scrappy é visivelmente retratado como violento e comete uma série de abusos físicos contra o próprio irmão, chamado de Oopy, que é caracterizado como sendo um bebê. E como sabemos disso? Essa era uma das formas como crianças bem pequenas eram estereotipadas na época. Como exemplo poderíamos citar o "Gugu", o bebê de Olívia Palito do desenho animado Popeye. Fica nítida a semelhança quando se compara ambos. Assim sendo Oopy é uma criança bem pequena, praticamente um bebê e Scrappy é seu irmão mais velho, praticamente um pré-adolescente. Isso é importante, porque dessa forma conseguimos ter um parâmetro de idade entre ambos, e podemos julgar assim as atitudes cometidas pelo personagem principal.

O episódio começa mostrando Scrappy querendo ir pescar junto com seu cão, o Yippy. Seu irmão mais novo, o Oopy quer ir junto com eles, o que causa grande irritação em Scrappy. Quanto mais Oopy insiste em ir junto com eles, mais violento Scrappy se torna contra ele.

Scrappy começa com alguns empurrões de leve e o ameaça erguendo o punho no ar. De repente ele perde totalmente a paciência e dá um forte tapa com a mão direita no rosto de Oopy o que faz voar a alguns metros de distância. Scrappy abandona seu irmão na floresta e vai tranquilamente pescar, mas, em seguida, seu irmão o alcança novamente para desespero de Scrappy.

Apesar do conteúdo violento, era comum para época um estilo mais pastelão com tapas, tortas e coisas do gênero, mesmo que envolvesse um bebê. O problema com este episódio não é bem em relação a isso, mas sim em relação ao seu final.

Oopy, por não saber nadar, se debate na água e grita
por socorro, muito embora Scrappy ignore isso
Enquanto estavam pescando, os peixes que aparentemente pertenciam a um algo, cruzam os anzóis das varas de pescar de Scrappy e Oopy, fazendo com que ambos acreditem que fisgaram algum peixe. Isso culmina no fato que Scrappy acabar fisgando Oopy sem querer. Apesar da empolgação do pequena criança, seu irmão mais velho não ficou nada contente. Isso faz com que Scrappy atire seu próprio irmão, que não sabia nadar, para dentro do lago. Oopy então começa a gritar por ajuda se debatendo na água em tom desesperador enquanto Scrappy assiste da margem sem fazer absolutamente nada. Oopy então afunda nas águas do lago e Scrappy começa a assobiar, sem dar a menor importância.

O único que parece se preocupar e ver que a atitude do garoto foi totalmente errada é Yippy, seu cachorro. Scrappy demonstra um certo receio, que logo é encoberto pela raiva e vai se afastando lentamente apesar de ignorar os gritos do irmão. De repente, Scrappy decide salvar seu irmão, não porque sua consciência lhe diz para fazer isso, mas porque ele pensa imediatamente em uma cadeira elétrica.

Scrappy teme ser eletrocutado na cadeira elétrica por ter
jogado seu irmão no lago, fazendo com que se afogasse
Temendo punição por ter deixado seu irmão morrer, Scrappy volta para salvá-lo. Ele puxa Oopy para fora da água, jogando para a margem e começa a entrar em pânico porque Oopy não está respirando. Scrappy então aperta o irmão e também move sua perna para cima e para baixo de modo que grandes quantidades de água saem pela boca de Oopy.

Após vários momentos de pânico, Oopy é ressuscitado, e por um segundo Scrappy parece aliviado, até mesmo emocionado ao vermos lágrimas em seus olhos. No entanto, tão logo Oopy desperta, ele diz: "Eu quero um copo de água" fazendo com que a tendência homicida de Scrappy volte à tona e jogue o bebê de volta para a água.

Nos últimos segundos do episódio vemos apenas o bebê desaparecer na água, e assim o episódio se encerra dando a entender que Oopy teria morrido pelas mãos do próprio irmão.


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Informação bônus:

Este desenho do Scrappy é um dos primeiros desenhos animados que retrataram tão explicitamente a imagem de uma cadeira elétrica, ainda mais se considerando a década de 30. Uma talvez "coincidência" muito curiosa é que Dick Huemer nasceu nove anos depois da primeira execução de uma pessoa nos EUA justamente no estado de Nova Iorque, que também foi onde ele nasceu.

A cadeira elétrica surgiu em decorrência da "Guerra das Correntes" (também conhecida por "Batalha das Correntes"), foi uma disputa entre George Westinghouse e Thomas Edison, ocorrida nas duas últimas décadas do século XIX. Os dois tornaram-se adversários devido à campanha publicitária de Edison pela utilização da corrente contínua para distribuição de eletricidade, em contraposição à corrente alternada, defendida por George Westinghouse e Nikola Tesla.

A primeira cadeira elétrica criada por Harold P. Brown,
que serviu para eletrocutar William Kemmler em 1890
Edison realizou uma campanha para desestimular o uso da corrente alternada, inclusive divulgando notícias de acidentes fatais com corrente alternada, ao matar animais publicamente, e ao pedir votos contra o uso da corrente alternada em legislaturas estaduais. Edison ordenou que seus técnicos, principalmente Arthur Kennelly e Harold P. Brown, comandassem vários sacrifícios de animais com corrente alternada, principalmente gatos e cães de rua. Houve também sacrifícios de bois e equinos que por alguma razão não tinham mais nenhuma utilidade, seja por deficiência ou idade.

O mais emblemático dos sacrifícios realizados foi de uma elefanta chamada Topsy, em 1903, que brevemente registrado em vídeo por Thomas Edison. Esse caso gerou muita repercussão porque Topsy, supostamente teria matado três homens, incluindo um domador bêbado que lhe dava cigarros acesos para comer. Assim seus donos decidiram matá-la. A primeira ideia era enforcá-la, então Thomas Edison aproveitou a oportunidade para demonstrar os perigos da corrente alternada. Antes do eletrocutamento de Topsy, deram para ela comer cenouras recheadas com 460 gramas de cianureto de potássio. Na execução lhe aplicaram um choque de 6.600 volts de corrente alternada, que a matou em menos de um minuto. O eletrocutamento de Topsy foi presenciado por cerca de 1500 pessoas e a gravação feita por Thomas Edison foi visualizada em todo o país.

Ironicamente Edison não era a favor da pena de morte, mas seu desejo de rebaixar o sistema de corrente alternada acabou dando início a criação da cadeira elétrica. Harold P. Brown, que nessa época estava sendo pago por Edison, em segredo, construiu a primeira cadeira elétrica para o estado de Nova Iorque, a fim de promover a ideia de que a corrente alternada era mais mortal que a contínua.

Assim sendo um cidadão americano, de origem alemã, chamado William Kemmler, após ter assassinado a machadadas Tillie Ziegler, sua companheira, em 29 de março de 1889, foi condenado à morte e executado em 6 de agosto de 1890, às 7 horas da manhã, na prisão Auburn, no estado de Nova Iorque. No entanto, após 17 segundos com uma tensão de mais de 1.000 volts aplicada sobre seu corpo, William Kemmler voltou a respirar. A cadeira foi ligada novamente, mas dessa vez por 2 longos minutos, gerando uma quantidade imensa de fumaça na sala de execução, levando muitos a passarem mal, desmaiarem, vomitarem e perfazer uma gritaria generalizada. Um repórter presente descreveu a cena como "um terrível espetáculo, muito pior que enforcamento". George Westinghouse, principal rival de Thomas Edison na época fez o seguinte comentário: "Seria melhor se eles tivessem usado um machado".

Este foi apenas um breve resumo, um tanto quanto sombrio, para completar a matéria sobre "The Little Pest". Vamos dar então prosseguir para o próximo desenho animado da nossa lista e dessa vez será algo bem mais leve, não deixando de ser, é claro, no mínimo conspiratório.


#03 - "Looking for Bonnie" da série animada "Arthur" de 2010

Arthur é uma série de desenho animado educativo voltada para crianças e criada para o canal de TV americano PBS. A produção originalmente canadense, muito embora conte com colaboração americana, está no ar desde 1996. Desde então os episódios, dependendo da temporada, já foram elaborados por diversas empresas e a exibição da série já sofreu longas pausas. De qualquer forma "Arthur" vai ao ar até hoje em diversas partes do mundo e no Brasil o desenho passa na TV Cultura.

Marc Brown, autor dos livros que inspiraram
a criação da série animada "Arthur"
O desenho se passa na fictícia cidade americana de Elwood City e conta as aventuras e desventuras de um porquinho-da-terra antropomórfico de oito anos de idade, cujo maior charme é ser apenas uma criança normal. Também é relatado o dia a dia de seus amigos e família, bem como as interações sociais entre eles.

Arthur e sua turminha divertem e ensinam a garotada, além de estimularem tanto a leitura quanto a escrita. Eles criam vídeos musicais e aceitam desafios - como passar uma semana sem TV - e até visitam a Casa Branca nos EUA. A série é ganhadora de três prêmios Emmy para Animações Infantis, baseada nos livros de Marc Brown e é sucesso no mundo inteiro.

Arthur frequentemente lida com questões importantes que famílias enfrentam em seu cotidiano, como a asma, dislexia, câncer e síndrome de Asperger. Além disso, incentiva a leitura, o relacionamento com a família e os amigos, explicando que as pessoas têm diferentes personalidades e interesses.

Cada episódio de Arthur é exibido por cerca de meia hora e geralmente consistem em duas histórias completamente independentes uma da outra com duração aproximada de 11 minutos cada.

Como vocês podem ver Arthur é uma série bem educativa e voltada para a família, porém isso não a fez escapar de possuir elementos um tanto quanto conspiratórios em pelo menos dois de seus desenhos. O principal episódio que citaremos será "Looking for Bonnie", embora muitas pessoas talvez citem também um outro episódio chamado "Prunella Gets it Twice" onde aparecem uma série de elementos ocultistas como uma cruz Ankh, o "olho de Lúcifer", o "olho que tudo vê", cristais, mandalas, pentagramas, bola de cristal, pirâmides e obeliscos, mas vamos tentar nos ater somente no episódio "Looking for Bonnie".

O roteiro de "Looking for Bonnie":

"Looking for Bonnie" é o episódio 10A da 13ª temporada de "Arthur", o que seria equivalente ao episódio nº 165 da série, e foi exibido pela primeira vez em 9 de abril de 2010. Esse episódio nos conta que um famoso músico de rock chamado Dean Lomax visita a cidade de Elwood, e pede para o pai de George consertar seu violão igualmente famoso, que ele apelidou com o nome de uma mulher, Bonnie. Diz a lenda que Bonnie é mágica, e Buster e George estão convencidos de que apenas um simples dedilhar nas cordas do violão irá dar-lhes poderes especiais. Assim sendo, para que todos nós possamos compreender um pouco sobre a série, vamos apenas dizer quem são os dois personagens principais envolvidos neste episódio, Buster e George.

Os personagens principais deste episódio que se chamam
Buster (à esquerda) e George (à direita)
Buster Baxter é o melhor amigo do Arthur e estuda com ele na terceira série da Escola Primária Lakewood. Ele é um garoto que adora comer e contar piadas. É caracterizado como um coelho branco antropomórfico, que vive em um condomínio com a sua mãe divorciada, Bitzi. Buster tem asma, mas ele sempre é visto se movimentando ativamente na série.

George Lundgren é um garoto amigável e um pouco tímido. George tem dislexia, sonha acordado com frequência, é um habilidoso carpinteiro e ventríloquo. É caracterizado como um alce antropomórfico, e apesar de estudar junto com Buster e Arthur, ele fica um pouco isolado do grupo. Isso devido aos seus constantes sangramentos nasais ou simplesmente por ele ser um menino quieto.

Dean Lomax (à esquerda) chega na garagem do pai de George (à direita),
com o violão Bonnie nos braços, enrolada como uma múmia
Agora que você já conhece os dois personagens principais deste episódio, vamos ao roteiro propriamente dito. O episódio começa com Dean Lomax, um famoso músico de rock, indo de moto com seu violão até a cidade de Elwood, onde se depara com George. Dean pergunta por seu pai e quando o encontra pede para que ele conserte seu bem mais precioso, que é Bonnie, seu violão. Ironicamente Bonnie aparece enrolada em um pano como se fosse uma múmia, porém isso está longe de ser o mais estranho quando se comparado ao principal evento desse episódio.

No dia seguinte George conta para seus amigos, que Dean Lomax deixou seu violão para seu pai consertar, e todos ficam admirados com isso. Nesse momento também surge a história, contada por Buster, sobre como o violão teria surgido. Bonnie teria sido criada após um raio atingir uma árvore que Dean Lomax estava dançando em volta durante um temporal. Desse dia em diante diz a lenda que o objeto teria propriedades mágicas. Buster, mesmo sem ser convidado, aparece na casa de George com o intuito de passar a noite na casa do amigo. George sem ter muito o que fazer diante da situação, o convida então para entrar.

Buster se imagina em uma banda formada pelo seus amigos e tocam em
Stonehenge com imensas caixas de som em uma noite de lua cheia
Em determinado momento da noite ambos estão sem sono, e Buster convence George a ir na garagem do pai para ver a Bonnie, uma vez que essa poderia ser a única chance de vê-la. Chegando ao local, George é o primeiro a tocar uma nota de um violão, que eles acreditam ser Bonnie, e isso o leva a um mundo fantasioso onde acompanha o crescimento de uma árvore e de várias outras com a ajuda de seus amigos, enquanto ele apenas toca o violão em sua imaginação.

George acaba sendo despertado desse "sonho" por Buster que não resiste a tentação e diz que era a vez dele de tocar o tal instrumento. No entanto é aqui que reside a parte mais estranha do episódio, pois Buster se imagina em uma banda formada por seus amigos justamente dentro do círculo formado pelas pedras do monumento pré-histórico de Stonehenge em Wiltshire, na Inglaterra. Aliás, isso acontece em uma noite de lua cheia.

Dora Winfred, irmã de Arthur na série, aparece como baterista da banda e chega a dizer: "Esse é um lugar terrível para uma apresentação, não tem ninguém aqui". Buster, que aparece logo em seguida com Bonnie, o violão, diz: "Não sei ainda, mas assim que começarmos a tocar esse lugar vai ficar lotado".

Então Buster começa a cantar a seguinte canção:

"Pessoas de todo o mundo vêm e ouvem a nossa música
Sim, pessoas de todo o mundo vêm e cantam junto
Pessoas de todo, as pessoas de todo, as pessoas de todo..."

Disco voador aparece no centro de Stonehenge e um alienígena desce
para então interagir com Buster.
Durante a canção as pessoas começam a chegar em Stonehenge, porém não somente pessoas, pois a canção é interrompida por um enorme disco voador que paira sobre o centro de Stonehenge. Durante a aproximação Buster muda a canção dizendo: "Aliens do espaço sideral pousam, mas não sobre mim. Aliens do espaço sideral...". A canção é interrompida e Buster se esconde.

Logo desce um alienígena com uma arma, que pouco tempo depois vemos que possui cordas e emite um som similar a Bonnie. Assim Buster toca brevemente junto com o alienígena, antes de serem interrompidos pela mãe do ser extraterreste que o chama. Buster parece compreender dizendo: "Deixe-me adivinhar, é a sua mãe, e você está atrasado para o jantar?". O alienígena acena que sim e vai embora. A cena termina com Buster sendo chamado por George e ambos aparecem novamente na garagem.

Ambos descobre que se trancaram na garagem e no dia seguinte são acordados pelo pai de George e Dean Lomax. Eles explicam que tudo que eles queriam era ver a Bonnie, e Dean mostra que eles estavam olhando para o lugar errado, pois o violão estava em outro lugar. Buster estranha, mas ainda questiona se o violão era mesmo mágico. Dean explica que não, que o comprou em Chicago no ano de 1963, mas que a música era algo diferente. Dean então diz: "A música pode inspirá-lo a fazer quase qualquer coisa. Tal como conhecer uma cultura completamente diferente". Um flashback de Buster cantando com o alienígena é exibido rapidamente.

Por fim Dean se despede de George, seu pai e Buster que o convida para sempre voltar a cidade de Elwood. Um episódio tanto quanto curioso esse, não é? Agora vamos as informações bônus que fazem esse episódio ser tão interessante ao ponto de fazer parte dessa lista.


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Informação bônus:

Monumento megalítico de Stonehenge atualmente
Stonehenge é certamente o maior ícone arqueológico da Grã-Bretanha. O local nos faz pensar em mistérios, força energética e resistência a ação do tempo. Seu propósito original tem sido motivo de especulação até os dias atuais.

Alguns dizem que era um templo feito para a adoração de divindades antigas da terra. Outros dizem que Stonehenge seria um observatório astronômico para a marcação de eventos significativos no calendário pré-histórico.

Existe também outra corrente que afirma que era um local sagrado para o enterro de cidadãos de alto escalão das sociedades que habitavam a região.  Já outras pessoas também dizem que o local seria uma espécie de interposto para que seres alienígenas pudessem pousar na região para os mais diversos fins.

O desenvolvimento de Stonehenge pode ser dividido em várias fases. A mais antiga evidência arqueológica indica que o início de Stonehenge tenha sido a mais de 8.000 a.C, quando abriram uma clareira meio de uma floresta que havia no local, e também fizeram uma espécie de caminho que leva até um rio próximo a cidade de Amesbury.

As pedras que vemos hoje representam as ruínas de Stonehenge. Muitas das pedras originais caíram ou foram removidas pelas gerações anteriores para a construção de casas ou para reparar as estradas. Houve sérios danos a algumas pedras menores chamadas de "bluestones". Isso foi resultado do contato próximo de visitantes ao local, que é proibido desde 1978. As esculturas pré-históricas sobre as pedras maiores também mostram visíveis sinais de desgaste.

Stonehenge seria composto basicamente por dois tipos de pedras. As maiores seriam as chamadas "pedras de Sarsen", um tipo de arenito, e as menores seriam as chamadas pedras azuis de Preseli, que seria um tipo de dolerito, que quando cortado ou molhado aparece sua cor azul, também possuindo manchas brancas.

Carn Menyn, localizado nas Colinas de Preseli, ao norte
de Pembrokeshire, no País de Gales
As pedras azuis de Preseli são assim chamadas, porque são encontradas em um local chamado Carn Menyn, nas Colinas de Preseli, em Pembrokeshire, no País de Gales, a mais de 260 km de distância de Stonehenge. Acredita-se que elas possuem propriedades curativas e fazem uma forte conexão com o passado e com o futuro. Isso facilitaria a comunicação tanto com outras dimensões, quanto com outras pessoas. Lembrando que isso são crenças locais dos habitantes que moram em cidades próximas a Stonehenge.

Em dezembro de 2013 foi divulgado um estudo piloto conduzido pelo Dr. Paul Devereux e o Dr. Jon Wozencroft da Faculdade Real de Artes de Londres. Nesse estudo foram descobertas extraordinárias propriedades sonoras nas pedras azuis de Preseli, que poderiam ser a razão de terem sido utilizadas em Stonehenge. Após testarem mais de 1.000 pedras em diversos pontos de Carn Menyn, eles descobriram que, em média, entre 5 a 10% das rochas vibravam como um sino quando impactadas. Em determinados lugares essa taxa subia para 15 a 20% e em outros pontos bem específicos chegava até a dobrar novamente esse percentual.

Os doutores Devereux e Wozencroft explicaram que: "Ao serem impactadas, algumas pedras alcançavam um espectro sonoro metálico, que vai desde tons puros como os de um sino, passando por um som como se fosse uma bateria de lata, e indo mais fundo como se gongos ressoassem".

Não sabemos mais resultados sobre esse pesquisa, mas o que se pretendia demonstrar é que talvez as pedras azuis pudessem servir como uma espécie de instrumento de grandes proporções para ser utilizado talvez em cerimônias ou invocações. Curiosamente no desenho "Looking for Bonnie", enormes caixas de som fazem com que a música de Buster ressoe dentro de Stonehenge. Será que a vibração das pedras chamou a atenção dos alienígenas em uma frequência que não conseguimos escutar?

Stonehenge é cercado de mistério, avistamento de OVNIs e até mesmo misteriosos círculos em plantações próximas a ele, que muitos acreditam quesão obras de uma raça extraterreste. Entretanto podemos completar esse pequeno resumo com mais um curioso detalhe.

Em 1963, o Dr. Gerald Hawkins escreveu sobre Stonehenge na revista científica britânica Nature. Baseando-se pelas medições de um novo computador que possuía, ele calculou os solstícios de verão e os horários em que a Lua nascia a cerca de 1500 a.C. Assim sendo ele propôs que Stonehenge deveria ter sido uma espécie de calendário astronômico. Ele explicou também como Stonehenge poderia ter sido usado como um "computador" para prever eclipses com exatidão. Vale lembrar que coincidência ou não, o nosso músico "Dean Lomax" do episódio "Looking for Bonnie" tinha comprado o violão dele em Chicago, ano de 1963. Coincidência ou apenas um aviso?


#02 - Pato Donald em "Family Planning" de 1968

O desenho "Family Planning" (ou Planejamento Familiar em português) foi produzido pela Walt Disney em 1968, supostamente na época para o Conselho de Família dos EUA (hoje em dia é chamado de Federação Americana de Planejamento Familiar ou P.P.F.A), um afiliado da Federação Internacional de Planejamento Familiar (I.P.P.F). Aliás, essa informação aparece logo nas primeiras cenas do desenho.

Esse desenho basicamente diz a respeito do controverso controle de natalidade, que eufemisticamente é chamado de "planejamento familiar". O planejamento familiar significa que, sem afetar as relações normais entre um homem e uma mulher, você pode decidir com antecedência o número de crianças que você vai ter, e quando você vai tê-los. É exatamente isso que diz o desenho.

A abertura do desenho é um tanto quanto irônica em relação ao que viria pela frente, pois a mesma deixo claro que: "as caracterizações e situações usadas neste filme talvez não se apliquem diretamente a sua comunidade, mas os problemas básicos apresentados são objetos de preocupação para as pessoas de todos os lugares".

Triângulo vermelho invertido usado durante
o Holocausto nazista na II Guerra Mundial
Entretanto a perturbadora abertura do desenho mostra uma típica família composta por mãe, pai, um filho e uma filha dentro de um triângulo vermelho de cabeça para baixo. Parece algo comum, mas não é bem assim. Para quem não sabe o triângulo vermelho invertido foi usado durante o holocausto nazista para identificar dissidentes políticos, incluindo comunistas, sociais-democratas, liberais, anarquistas e maçons quando mandados para trabalhar em alguma fábrica ou no ir e vir entre as cidades.

Existem alegações e grande material disponível que apontam Walter Elias Disney, fundador da Disney, como um simpatizante e participante de organizações anti-semitas. No entanto, em 1 de janeiro de 1943, foi produzido um outro desenho do Pato Donald chamado de "Der Fuehrer's Face" (originalmente chamado de Donald Duck in Nutzi Land). O desenho em que o Pato Donald aparece como nazista, tinha a premissa de ser uma "propaganda anti-nazista" em relação ao esforço americano na Segunda Guerra Mundial. O filme ganhou o Oscar de Melhor Curta de Animação em 1943 e foi o único desenho animado do Pato Donald a ganhar um Oscar.

Sem dúvida alguma esse pequeno elemento inserido no desenho é objeto para uma longa e calorosa discussão, assim como um outro desenho do Pato Donald chamado "Soup's On", de 1948. Esse outro desenho retrata uma cena do Pato Donald e seus sobrinhos em uma mesa de jantar para comerem uma ave, que foi previamente assada no forno. Espera um pouco, mas o Pato Donald não é uma ave? Canibalismo? Também há elementos de canibalismo na tirinha chamada "Fethry Duck in The Retriever", originalmente publicada em uma revista italiana de "humor" chamada Topolino de 1964. Essa tirinha foi republicada na edição especial de 75 anos de aniversário da Disney chamada "Walt Disney Treasures: Disney Comics 75 Years of Innovation". Fethry Duck é nome americano do personagem da Disney que conhecemos como "Peninha", e essa tirinha é muito polêmica, pois revela uma face "serial killer" e "canibal" do personagem. Tem muitos detalhes sombrios, que dariam um espacial a parte. Vamos tentar nos ater somente no desenho "Family Planning", por mais que seja bem difícil não citar os exemplos acima.

O roteiro de "Family Planning":

Seguindo no desenho "Family Planning" vemos que o narrador cita diversas etnias de homens para juntá-las e formar apenas um. Coincidentemente o resultado dessa miscigenação dá origem a um homem muito semelhante a um hispânico. Sua esposa aparece logo depois aparentando ter origem indiana.

Ao longo do vídeo é exibido um cenário de tristeza e sofrimento quando o casal começa ter mais filhos, mostrando uma mãe triste e amargurada, bem como chegando ao extremo de usar dois de seus filhos para puxar um arado como se fossem bois.

Casal do desenho "Family Planning" de 1968, uma união
que muito se assemelha a de um hispânico com uma indiana.
Usando as tintas o Pato Donald ilustra o rápido crescimento populacional e consequente fome. "O mundo está superpovoado", o narrador declara. "A cada geração, a população está crescendo muito rápido... Vamos dizer que no momento em que este casal vai ter mais filhos... A mãe é infeliz, fraca e doente. As crianças vão ser doentes também... Mas esta situação pode mudar", diz o narrador.

É no meio desse caos que surge o Pato Donald, que se transforma de um pintor para um médico, e então oferece uma solução para evitar esse trágico cenário. Ele abre sua maleta de pintura, que agora se tornou um maleta médica. Erguendo para o alto uma imensa chave dourada simbolizando o "planejamento familiar" como a salvação, ele diz: "A ciência nos dá a chave para uma nova liberdade individual: planejamento familiar".

No decorrer do vídeo o casal é instruído sobre como fazer para controlar e evitar que tenham muitos bebês. A ideia do vídeo é restaurar o “equilíbrio da população”, simbolizado por uma balança entre o número de nascimentos e mortes ao redor do mundo, o que foi comprometido porque, como o narrador diz, a medicina moderna, o aumento do saneamento básico e a maior disponibilidade de alimentos daquela época havia salvado muitas crianças da morte.

Uma boa iniciativa educacional? Enfim, o vídeo na verdade não era direcionado a todos os americanos, mas sim aos latinos e outros imigrantes que moravam lá nos EUA na época, com o objetivo de "prevenir" o aumento populacional desses povos. Um detalhe interessante é que o vídeo soa ser destinado muito mais para homens, uma vez que sua esposa não tem voz ativa no desenho. Ela simplesmente sussura como se fosse uma coruja no ombro dele, usando seu próprio marido como um intermediário para fazer perguntas sobre a sua própria saúde.

Será que a Disney considerou como as crianças iriam reagir tendo em vista que pato favorito declamava sobre os perigos da superpopulação? Quantas crianças já se sentiram culpadas quando souberam que elas e seus irmãos foram a causa de suas mães estarem "doentes e tristes" ou cresceram pensando que elas podiam "morrer de fome" e suas famílias podiam crescer "empobrecidas"?

Donald Duck wants you? Personagem infantil da Disney assemelha-se muito
com o icônico "Tio Sam", a famosa simbologia do governo americano.
No final do desenho o narrador diz: "... e em larga escala se mais casais adotarem o planejamento familiar o equilíbrio da balança será restaurado, mas desta vez, de uma maneira melhor, os casais têm a oportunidade de construir uma vida melhor não somente para si mesmos, mas para as pessoas em todos os lugares. Todos nós somos responsáveis pela humanidade, incluindo você".

É exatamente nesta hora que o Pato Donald aponta para a pessoa que está assistindo ao vídeo, de uma forma muito parecida com o icônico poster criado por James Montgomery Flagg em 1917 chamado "Uncle Sam" (Tio Sam em português), que de acordo com o que se diz é a personificação nacional comum do governo americano ou dos EUA em geral. O poster foi inspirado por um cartaz de recrutamento britânico mostrando o Lord Kitchener em uma pose semelhante em 1914. Diga-se de passagem o poster foi utilizado para o recrutamento de soldados para a Primeira e Segunda Guerra Mundial. Isso leva a pensar que isso seria realmente uma campanha educativa ou uma guerra contra a imigração em uma espécie de racismo malthusiano, que levam tantos eugenistas a temer que iriam, algum dia, estar "em desvantagem" perante outras raças e culturas?

Patty Gadomski, que pertencia ao Departamento de Produções Educacionais da Disney (Disney Educational Productions), confirmou em 1999 que havia sido mesmo criado um desenho do Pato Donald denominado "Family Planning". Ela disse que vendeu bem em países do "Terceiro Mundo", mas foi descontinuado em 1988, devido à diminuição da procura.



Informação bônus:

Segundo informações do "Population Research Institute",  a promoção por parte da Disney a respeito do "planejamento familiar" não terminou com a descontinuação do vídeo Pato Donald. O episódio 59, chamado de "Populations" de "Science Guy", apresentado por Bill Nye foi produzido pela Disney Educational Productions em 1996. Durante 26 minutos é transmitida uma experiência de um aluno em relação crescimento exponencial das plantas de forma análoga aplicada a população humana. "Populações costumam manter outras populações sob controle", explica a criança. No entanto, a população humana continua a crescer exponencialmente.

O programa "Science Guy", que foi exibido no Brasil
pela Rede Globo com o nome de "Eureka" na década de 90.
"À medida que a população humana começa a crescer", diz Bill Nye "nós estamos tomando cada vez mais espaço, o espaço de outras populações, estamos destruindo seus habitats... Para evitar que isso aconteça, temos de respeitar outras populações. Eles vivem aqui também, não é mesmo?".

O vídeo termina com uma observação apocalíptica: "Temos que encontrar uma maneira de restringir a taxa de crescimento da população humana. Caso contrário, ela vai ficar fora de controle. Não, não será suficiente para que todos possam comer. Vai ser difícil para todos".  O episódio "Populations" foi feito para uso em escolas públicas americanas, em colaboração com a Fundação Nacional de Ciência dos EUA, Rabbit Ears Productions e KCTS 9 Public Television, do estado americano de Seattle.

No Brasil o programa foi exibido brevemente pela Rede Globo com o título "Eureka" na metade dos anos 90. O personagem e apresentador do programa era interpretado como já foi citado anteriormente por Bill Nye, que fazia um cientista alto e magro vestindo um jaleco azul e uma gravata borboleta. No total foram foram gravados 100 episódios.

É sabido que a Disney mantinha ou ainda mantém uma política de conceder licenciamento para fabricação de produtos, principalmente roupas, para empresas em alguns países do mundo, tais como: China, Bangladesh, Haiti entre outros. As fábricas são conhecidos por serem "sweatshops", que é um termo pejorativo para um local de trabalho que tem condições de trabalho socialmente inaceitáveis. O trabalho pode ser difícil, perigoso ou mal pago. Os trabalhadores em "sweatshops" podem trabalhar longas horas por salários baixos, independentemente de leis que obrigam pagamento de horas extras ou um salário mínimo; leis de trabalho infantil também pode ser violada.

Aliás, em janeiro de 1996 foi divulgado um relatório pelo "Comitê Nacional do Trabalho" (NLC), nos EUA, que é uma organização sem fins lucrativos, uma ONG, que investiga abusos contra os direitos humanos e trabalhistas cometidas por grandes empresas multinacionais que produzem bens no mundo em desenvolvimento sobre a exploração norte-americana no Haiti. Esse relatório foi conduzido principalmente pelo pesquisador Eric Verhoogen (atualmente professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade de Columbia, EUA), que tinha viajado ao Haiti em agosto de 1995 justamente para investigar a situação. Esse relatório teve o suporte internacional de algumas instituições e ativistas no Haiti e ao redor do mundo.

O relatório citava as condições de trabalho nas fábricas, por exemplo, da empresa Quality Garments S.A. do ramo têxtil e de vestuário, que se localizava na Parque Industrial SONAPI em Porto Príncipe e que fabricava, por exemplo, pijamas do "Mickey" e da "Pocahontas" licenciados legalmente. Os trabalhadores ganhavam 11 centavos de dólar por hora e cada pijama produzido acabava saindo com um custo de 7 centavos de dólar para ser vendido em lojas de departamentos nos EUA em torno de 12 dólares. Este é somente um exemplo.

Anita Roddick, fundadora da "The Body Shop", faleceu em
2007, mas atuou em vida na defesa dos direitos humanos
O documento é muito extenso e não é o foco deste, porém esse serviu como base para uma denúncia feita por Anita Roddick, uma empresária britânica, ativista dos direitos humanos e ativista ambiental, mais conhecida como a fundadora da "The Body Shop", uma empresa de produtora de cosméticos e revendedora de produtos de beleza que moldaram o consumismo ético.

A empresa foi uma das primeiras a proibir a utilização de ingredientes testados em animais e uma das primeiras a promover o comércio justo com os países do "Terceiro Mundo". Anita faleceu em 10 de setembro de 2007, porém ela deixou um legado hoje presente em mais de 61 países. Houve muitas contravérsias a respeito da "The Body Shop", porém uma coisa ligada a este assunto de controle populacional que o desenho "Family Planning" aborda chama atenção quando houve uma denúncia feita por Anita Roddick.

Alegações de contracepção forçada em funcionárias de fábricas haitianas, terceirizadas ou licenciadas pela Disney, foram citadas por Anita Roddick durante uma apresentação no dia 2 de fevereiro de 1999, no canal americano de TV a cabo chamado C-SPAN. Ela disse que eram colocadas em filas e forçadas a tomarem pílulas contraceptivas ou então injeções de "Depo-Provera" para evitar a gravidez. Estranho, não é? Talvez isso fizesse parte de outra denúncia feita pelo relatório onde apontava que 17% de um universo de 300.000 trabalhadores do sexo feminino que trabalhavam sob condições precárias em Porto Príncipe, declararam terem sido forçadas a terem relações sexuais com seus chefes, sob pena de serem demitidas caso elas se recusassem, ou seja, os chefes não queriam as funcionárias engravidassem.

Infelizmente não consegui acesso a gravação dessa apresentação da Anita Roddick, a mais próxima disponível é do dia 10 de fevereiro de 1999, no acervo histórico do canal C-SPAN, porém só há o vídeo, não há áudio. De qualquer forma é importante citar este estranho e sombrio adendo a uma histórica polêmica que talvez tenha começado com um simples desenho.


#01 - "Balloon Land" (The Pincushion Man) de 1935

Em 30 de setembro de 1935 seria lançado pela Celebrity Pictures, um dos desenhos animados mais controversos e sombrios de todos os tempos. O desenho animado conta basicamente a história de um lugar chamado Terra dos Balões, cujos moradores (incluindo ícones do entretenimento popular da época, como o "Gordo e o Magro" e Charlie Chaplin) são feitos inteiramente de balões. O vilão no desenho animado é o "The Pincushion Man" (ou Homem-Alfineteiro em português), um personagem que vive ao redor da Terra dos Balões estourando os seus habitantes mais distraídos com alfinetes. O criador do desenho era ninguém mais, ninguém menos do que Ub Iwerks.

Provavelmente você não deve conhecer Ub Iwerks, então vamos contar um pouco sobre quem ele foi.

Ub Iwerks, co-criador do Mickey Mouse
Ubbe Eert "Ub" Iwerks foi um animador americano, cartunista, designer de personagens, inventor, técnico de efeitos especiais, e que co-criou "Oswald the Lucky Rabbit" e o "Mickey Mouse" junto com Walt Disney. As obras produzidas por Iwerks e Disney ganharam diversos prêmios, inclusive alguns premiações da Academia Americana de Cinema. Iwerks foi considerado por muitos como um velho amigo de Walt Disney, e passou a maior parte de sua carreira trabalhando com ele.

Iwerks nasceu em Kansas City, no Missouri, EUA. Seu pai, Eert Ubbe Iwerks, emigrou para os EUA em 1869 a partir de um povoado chamado Uttum na Frísia Oriental (noroeste da Alemanha, hoje parte da cidade de Krummhörn). Vários anos mais tarde, ele simplificou seu nome para "Ub Iwerks", escrito às vezes como "U. B. Iwerks".

Ele foi responsável pelo estilo característico dos primeiros desenhos animados da Disney, e também foi um dos responsáveis pela criação do Mickey. Os primeiros desenhos do Mickey eram animados quase inteiramente por Iwerks, incluindo "Steamboat Willie", que é justamente primeiro desenho do Mickey e "Skeleton Dance".

Agora que você já sabe quem é "Ub Iwerks" vamos voltar ao assunto principal, o desenho "Balloon Land".

Por alguma razão Iwerks criou "Balloon Land" que foge totalmente a curva do contexto dos desenhos criados na época. Muitos acreditam que o desenho mostra o outro lado do criador, um lado sombrio talvez, e as pessoas de fato têm alguns motivos para acreditarem nisso como veremos a seguir.

Balões em formato fálico na abertura do desenho "Balloon land"
Logo no primeiros segundos nós podemos ver o título do desenho com uma imagem de fundo que compõe basicamente a Terra dos Balões. Esse lugar é onde os moradores, que possuem formatos de balões, residem.

É justamente nesta cena que começam os elementos estranhos na paisagem, e que muitos consideram que não é uma mera coincidência, mas que Iwerks expôs uma personalidade diferente ao trabalhar em um projeto solo. Como vocês podem notar há certos balões que são diferentes dos outros, aparentando uma simbologia fálica. Estranho, não é mesmo?

A posição da letra "A" e mais a direita a marcação bem definida logo abaixo da ponta de um dos balões não parece fazer referência somente a meros balões de gás (ou bexigas como você preferir). É esse ponto que dá a base para deduzirem que toda a históra do desenho, bem como o personagem do "Homem-Alfineteiro", não eram como qualqueis outros, mas sim uma espécie de alusão a pedofilia. Vamos conhecer a história?

O roteiro de "Balloon Land" (The Pincushion Man):

A Terra dos Balões é supostamente um mundo povoado por pessoas em formato de balões. A história começa com as pessoas extraindo látex de uma árvore, que tem vida própria, e se espreme toda para preencher baldes que não param de chegar a todo instante. Esse látex serve para fabricar bolas de borracha, que mais para frente iremos descobrir que são usadas como armas. Serve também para alimentar uma máquina que fabrica "pessoas". No caso do desenho "nascem" um menino e uma menina, ou seja, crianças, mas ambos em formato de balão.

Curiosamente na Terra dos Balões também aparecem ilustres personagens do entretenimento da época como "Charles Chaplin" e também "Laurel and Hardy", que no Brasil ficou mais conhecido como "O Gordo e o Magro". Ambos aparecem dançando logo no início do desenho.

Personagens populares do entretenimento da época aparecem caracterizados dentre os habitantes da "Terra dos Balões".
Entretanto, o clima festivo da cidade começaria lentamente a mudar quando, em menos de cinco segundos após o surgimento das duas crianças, elas são advertidas por um homem, através de uma canção, que caso resolvam ir para a floresta, eles vão se deparar com uma criatura que vai "arrancar a pele" deles. Ambas as crianças evocam rapidamente uma postura de co-dependência, uma vez o rapaz insiste em atravessar o muro da cidade, e a menina mesmo aos prantos se curva à sua vontade.

Assim sendo ao pularem o muro, seus caminhos se cruzam com algo monstruoso, que lembra o bestiário perverso de Hieronymus Bosch. Seu nome é "Homem-Alfineteiro".

Surpreendentemente, o agulha mais afiada no arsenal do vilão está localizada entre as pernas, mas parece que Iwerks não sabia bem o que fazer com a enorme haste de metal saliente de seu quadril. Será que ele julgou ser apropriado fazer com que o vilão puxasse-o para frente, segurando-o, praticamente alisando, na frente de crianças pequenas? Isso acontece basicamente em dois momentos e de uma forma bem rápida até mesmo para se capturar um bom frame da cena.

O "Homem Alfineteiro" exibindo a parte mais afiada de seu corpo
para as crianças e destaque para os pés com formato de  ponta de seta
Será que Iwerks realmente introduziu de forma intencional um elemento fálico para fazer uma alusão a pedofilia? Vale lembrar uma passagem de Lita Grey, que foi a segunda esposa de Chaplin. A primeira vez que seus caminhos se cruzaram foi quando ela tinha apenas 8 anos em uma cafeteria de Hollywood. O primeiro trabalho com ele foi aos 12 anos, depois novamente aos 15 anos quando ela então engravidou de Chaplin, que na época tinha 35 anos. Como ele poderia ser preso por ter relações sexuais com uma menor, eles se casaram em novembro de 1924, em segredo, na cidade de Empalme, no México, para evitar um escândalo.

Voltando ao desenho, o lado polêmico não parou por aí. Vamos dar uma olhada com mais atenção ao "Homem-Alfineiteiro", conseguem reparar em mais algum detalhe do personagem? Pois bem, os pés do vilão são curvados sendo que as pontas é no formato de uma seta. Esse simbolismo aplicada ao desenho refere-se ao próprio demônio. Basta ver como as ilustrações de demônios são representadas, muitas vezes existe um rabo e a ponta dele é em formato de seta também. O seu chapéu lembra muito o utilizado por Chaplin. Será que o "Homem Alfineteiro" teria sido uma alusão a um dos maiores ícones do cinema mudo?

Estereótipo racial ou apenas uma mera coincidência?
É importante ressaltar que o vilão acaba demonstrado um lado totalmente psicopata e também que engana as pessoas. Assim tudo leva a crer que o "Homem Alfineteiro" será a representação de um demônio no desenho.

Continuando, as duas crianças, inocentes como recém-nascidos, incapazes de compreender plenamente a depravação do homem louco que avança, ainda possuem um instinto natural para fugirem tão rápido quanto podem.

Como se isso não bastasse há algumas passagens que sugerem um estereótipo racial, quando um dos habitantes aparente ter alguma deficiência mental, no cargo de "porteiro" da Terra dos Balões. O rosto dele é um tom escuro, bem diferente dos demais. Outro balão com um tom mais escuro aparece depois e soa ter uma aparência de um adulto de boa condição social. Seria apenas uma coincidência ou não?

Assim que o "porteiro" é ludibriado o "Homem-Alfineteiro" entra na cidade, as crianças disparam o alarme ele sai cometendo atrocidades. Primeiro mata o próprio porteiro, depois uma espécie de centopeia que vê seu corpo pouco a pouco sendo estourado ao mesmo tempo que o lunático ri de uma forma sombria. Apenas sua cabeça permanece em um ato claro de reconhecimento de sua própria mortalidade.

Cena final de "Balloon Land"
As crianças conseguem avisar a autoridade-mor da Terra dos Balões e o mesmo ordena que seus soldados, que começam a ser inflados um a um, formem batalhões para combaterem a ameaça. Bem próximo do final do desenho os soldados descobrem que podem causar algum dano no "Homem-Alfineteiro", quando jogam borracha em estado bruto em cima dele. Isso acaba o envolvendo em uma espécie de bola compacta de borracha e ele é jogado para fora da Terra dos Balões, caindo na imensidão do céu até desaparecer. Simbólico, não?

O episódio termina com as crianças sorrindo ao ver toda sua transitoriedade restaurada. Quaisquer lições sobre a fragilidade de suas existências são esquecidas a medida que a população volta a ser feliz. O terror lentamente vai desaparecendo assim como a chama de uma vela lentamente se apaga, tendo em vista o preço do conhecimento. "Balloon Land" se torna quase um espelho da vida, é a vida neste caso é um pesadelo.

Informação bônus:

Em 1994 foi lançado um livro chamado "The 50 Greatest Cartoons: As Selected by 1,000 Animation Professionals", que seria um basicamente composto de uma seleção dos 50 melhores desenhos animados de todos os tempos segundo a ótica e a livre escolha de 1.000 profissionais da indústria da animação. Os desenhos precisavam ter uma duração inferior a 30 minutos e terem sido desenhados a mão, quadro a quadro. "Ballon Land" não ficou entre os 50 melhores, porém no livro há uma lista paralela de recomendações. Entre essas recomendações consta o então polêmico desenho "Ballon Land" de 1935.


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Vamos encerrando por aqui este especial. Se você gostou e deseja que façamos mais matérias e especial sobre desenhos animados sombrios ou conspiratórios, deixe seu "like" e também um comentário sobre o que você quer que façamos. Atenderemos aos pedidos na medida do possível.

Até a próxima, Assombrados!

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
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https://en.wikipedia.org/wiki/Blue_Cat_Blues
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