14 de outubro de 2015

Conto Assombrado: Pontiac Assombrado

Vivo em bairro sujo e solitário em uma pacata cidade. No interior. Nada acontece aqui. Sério! Sinto um enorme tédio, ás vezes. Minha casa fica de frente a um posto de gasolina, onde vira e meche vou lá para conversar com um amigo que há muito, conheço. Jonas é um bom amigo. Trabalha no posto a mais de vinte anos. Gostamos de sentar no bar ao lado e beber algumas. Sempre com boas histórias para contar, faz o tempo passar rápido. Alguns dias me pego na janela de casa observando o movimento da rua e quando vejo meu amigo, ele acena e pergunta se vou beber e ter tempo para mais de suas histórias. Quando não estou trabalhando é bom sair de casa, mas quando estou atarefado, fica difícil. Respondo e digo que não vai dar. Meu amigo apenas faz um ok e volta para seu ofício diário. Às vezes, me pergunto qual o sentido real de estarmos vivos. Minha fé em Jesus, responde a maioria das coisas. No entanto, algumas temos que buscar: - - De que vale a fé, se não convertida em ação? – me pergunto. Tenho bons amigos nesta cidade. Apesar de pacata e entediante, ás vezes acontecem coisas interessantes. Lembro-me do caso do menino Lucas, filho de um casal bem conservador que mora do outro lado da rua. Ele se perdeu no meio do mato, na verdade uma espécie de parque muito grande, a duas quadras de onde moro. Todos ficaram alarmados e angustiados com o sumiço repentino do menino. Quase 5 horas depois ele volta, da mesma maneira que havia sumido. De
repente. Sem nenhum arranhão. E quando questionado a respeito do que tinha acontecido, Lucas apenas disse que o moço tinha o levado para conhecer o parque e que tinha mostrado a quantidade de brinquedos que tinha lá. As pessoas que estavam ajudando na busca e os familiares não entenderam nada. O parque havia sido desativado a quase 3 anos. Eu era jovem na época e isso me deixou bastante perturbado. Achei que ele estivesse mentindo, não acreditava muitos nessas histórias que nos assustam. Ate que um dia eu pude experimentar algo que nunca mais eu consegui esquecer:

Era uma terça-feira. A chuva e o vento pareciam uma ópera de tiros e assovios. O barulho das gotas era intensificado pela calha e fazia o som perfeito para não deixar uma pessoa dormir. O vento assoviava uma canção solitária e triste como era na maioria das vezes. O dia não tinha sido fácil. Eu tinha dificuldades para dormir por causa do trabalho em excesso e as cobranças. Muita preocupação e ansiedade estavam me matando. Percebo que a janela está entreaberta e vou lá fechar. No entanto, quando me aproximo, um clarão imenso surge na rua atravessando a faixa na contramão e indo em direção ao posto. - Um carro antigo – percebo. Era uma e meia na madrugada. - Mas pelo amor de... quem estaria andando por um lugar tão deserto a esta hora? – me perguntei. O lugar onde moro é muito longe do centro. Aqui não é acesso fácil para nenhuma outra cidade. Em outras palavras, não há razão para alguém vir aqui senão para visitar algum parente. Nunca tinha visto ninguém aparecer naquele horário. O posto de gasolina não funcionava todos os dias. Aqui não há necessidade disso. Digamos que, para ser um lugar esquecido pela civilização falta pouco. Afinal, que carro era aquele e o que estava fazendo em um posto fechado a esta hora – eu me perguntava. Algo não estava certo no que eu estava vendo. Será que eu tinha dormido e nem havia percebido? Será que estou realmente sonhando? – as perguntas surgiam à medida que a dúvida crescia. O estranho carro era um Pontiac, modelo antigo, não sei precisar o ano. O que estava me incomodando não era o carro mas quem estava nele. A luz dos faróis cortavam o escuro da noite como num misto de fumaça e sombreados fantasmagóricos. De repente, alguém abre a porta mas ninguém sai do carro. Isso mesmo. Ninguém sai da porcaria do carro. Meus olhos cada vez mais vidrados naquela cena e o barulho da chuva pareciam me hipnotizar. O vento estava ainda mais sinistro e cantarolava como nunca. Não é possível! – penso eu. Sou surpreendido por uma música que começa a tocar de dentro do carro. Era uma canção antiga de Johnny e Santo chamada sleep walk. Quem teria colocado aquela canção no carro? Mas não havia ninguém lá! – O pensamento me torturava. Eu estava começando a ficar seriamente impressionado e com medo. Da minha janela eu já havia visto de tudo: assaltos, pessoas com seus cachorros, caminhando, passando pelo posto de gasolina e por ai vai. Agora, um carro que abre a porta sozinho e toca uma música sem que ninguém esteja lá. Realmente era algo inédito pra mim. A música foi descendo de volume bem devagar e a melodia das notas deu lugar a um grito ensurdecedor. Algo que gelou minha espinha. Duvido que somente eu tenha ouvido aquilo. No entanto, comento com as pessoas e não encontro outro que tenha escutado o mesmo, ou é cagão demais para assumir que sim. Que também ouviu. O grito percorreu todo o quarteirão e era algo que iria render muitos pesadelos a mim tempos depois. “Quem estava gritando daquela forma? Alguém está naquele carro!” – minha cabeça doía. Eu queria descer e ver o que estava acontecendo, mas minhas pernas pareciam estar congeladas. Eu estava morto de medo, pra falar a verdade. Como já disse, eu não costumo acreditar em histórias de terror, pelo menos não costumava até aquele momento. O carro fechou as portas ao final do grito e seguiu viagem, saindo bem vagarosamente e tomando a estrada a um sentido que eu nunca viria a saber. Ainda prestei bem atenção para ver se enxergava alguém, mas não obtive sucesso. O carro se perdeu em meio a fumaça e a escuridão. Já comentei essa história com Jonas, mas ninguém acredita em mim, nem mesmo meu melhor amigo. De uma coisa eu tenho certeza: Nunca mais vou esquecer a angústia e terror sonoros que senti ao ver aquele carro e ao ouvir aquele grito. A chuva na calha e o vento não me deixavam dormir naquela noite, mas o som daquele grito me impediu de dormir por semanas.

FIM!

Conto de terror enviado por Bruno Tavares
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