15 de setembro de 2015

Conto Assombrado: Amigo da Família

Seus all stars estavam sujos como de costume e ela insistia em olhar para eles. Com certeza, era bem melhor do que assistir seu namorado contando histórias de terror falsas.

Mas ela ainda podia ouvir sua voz, ele falava sobre alguma lenda sobre sextas-feiras treze. Alice detestava a data, tudo o que era relacionado ao sobrenatural sempre causava tumulto naquele dia.
Ao contrário de Jason, o namorado da menina era sempre muito crente nesse lado. Lia livros sobre o tema, assistia vídeos e filmes, tinha ótimos argumentos para comprovar o assunto que Alice batia o pé e dizia não com total convicção.

A professora de Arte não pôde ir e eles ficaram com o quarto tempo vago, então, formaram um grupo no fundo da sala e ficaram conversando sobre causos e lendas que a cidade abrigava. Enquanto a mais cética, obrigada a estar ali, ouvia o garoto moreno contar com veemência a história do maníaco que matava famílias a sangue frio, depois, deixava apenas um ente vivo e o enlouquecia (fazendo parecer que foi o próprio que dizimou os parentes).

 - Isso nem dá medo! – afirmou o melhor amigo do rapaz.

 - Não era a intenção... – deu de ombros. – Só me prometam, que se alguém ver de noite um homem alto com uma máscara branca que sorri, me contem.

 - Essa história nem é real – Alice se pronunciou pela primeira vez, revirando os olhos impacientemente por ter que ouvir tanta besteira gratuita.

 -  Você nunca vai se convencer, até acontecer com você – uma garota de cabelos curtos e com algumas mechas pintadas de vermelho falou.

 - Já aconteceu com você? – Alice perguntou com zombaria.

 - Já.

 - Claro, você tem que me responder desconsiderando o efeito das drogas que você costuma usar.
A garota se virou, ignorando o que ela disse.

 - Quando acontecer, não tente culpar nada, ou ninguém. Isso apenas vai te deixar mais insana.
Alice riu com escárnio.

 - Até mesmo porque o lobo mau vai aparecer na porta da minha casa pedindo para entrar

 - E você, obviamente, vai deixar. Do jeito que é cega, vai pensar que ele é o seu poodle.

 - Vou pensar que é você, fantasiada.

Jason, que assistia tudo apenas olhando para a descrença de Alice, suspirou.

 - Alice, pare com isso.

 - Vocês deveriam parar porque vocês são doentes falando sobre essas merdas. Nada existe. Tudo isso é a pura Ciência fazendo algum fenômeno – ela pegou a mochila, saiu empurrando a cadeira do círculo deformado e foi até outra extremidade da sala.

Pegou o celular e os fones, conectou, colocou Requiem, de Mozart – seu compositor predileto -, fechou os olhos e começou a pensar em tudo o que tinham dito na conversa.

Um ser de estatura alta, parece um humano, mas qualquer um olhando por alguns segundos a mais saberia, ele não era mais, talvez algum dia possuiu a graça de ser um humanoide, porém, em seu estado atual o que restou era apenas loucura e um desejo insaciável de sangue.

Muito mais forte que qualquer fisiculturista, poderia dobrar uma barra de ferro com uma pressão básica. Seu enigmático rosto que ninguém nunca viu era coberto por uma máscara.

A máscara era o pior. A mais perturbante que qualquer outra. Era branca, muito pálida, mais pálida que gesso, os olhos eram pintados no melhor estilo Caveira Mexicana de Terror. Tinha apenas um furinho que se podia ver a pupila do maior assassino e destruidor de famílias. A boca fina e sem expressões, só exibia um sentimento, o da carnificina. 

Rezava a lenda que, toda vez que ele matava e enlouquecia os membros de uma linhagem, a máscara se transformava e recebia um leve sorriso.

Alice abriu os olhos um pouco exaltada, a respiração se descompassou e ela teve de tirar os fones.
Jason estava do seu lado, o cabelo preto jogado para cima conquistaria qualquer garota, mas o defeito mesmo, era a obsessão por coisas assombradas. Por isso, quando ele e Alice começaram a namorar, todos não deram nem uma semana para o casal mais paradoxal de toda escola.
Para a surpresa universal, era o aniversário de namoro.

 - Você pode ir lá em casa hoje? – Jason perguntou, segurando a mão dela e brincando com os dedos.

 - Não sei – falou indiferente. – Acho que não.

 - Por quê? – ele perguntou, prolongando o som do E.

 - Porque eu vou estar muito ocupada.

 - Hoje é o dia do nosso aniversário, Alice, amanhã é sábado e não vai ter nada pra você fazer o dia todo!

 - Quer que eu seja bem franca? – ele assentiu e ela tirou a mão de perto dele, apontando para o rosto do menino. – Eu tentei ficar perto de você, naquela conversa ridícula sobre o “amigo da família”, eu já disse que odeio essas coisas, eu não acredito nem vou acreditar. Aquela sua amiga com o cabelo sujo de menstruação combina mais com você. E, sabe de mais uma coisa? Eu não sei como alguém inteligente e culto como você pode acreditar em fatos e histórias criadas pra explicar alguma coisa.

 - Alice...

 - Parece que você prefere crendices a mim, só fala nessas merdas o dia todo. Irrita demais, Jason.

 - Alice...

 - Esse tal de “amigo da família”, nunca existiu! Deve ter sido alguma história inventada em um acampamento e levada a sério depois que um assassino maluco matou uma família toda e não conseguiram explicar. Isto é, se aconteceu!

 - Alice! Me escuta, caramba!! – ele gritou, assustando a garota de sua frente e fazendo parar todas as conversas e risadas da sala. A atenção total se voltou à eles. – EU acredito nessas merdas. EU vi acontecendo e tenho certeza absoluta que nenhum físico poderia explicar o que aconteceu. EU tenho essa fé. EU sou assim. Eu nem sei porque você aceitou namorar comigo, nossas opiniões são tão distintas quanto azul e vermelho.

 - Não precisava gritar, Jason querido. Todo esse discurso e vexame pra falar que quer terminar comigo? Pois bem, está terminado, não precisa mais me fazer acreditar que uma velhinha falando palavrões te seguiu e era a Desgraça em carne e osso. EU não quero mais isso. Quero alguém que fique comigo no nosso aniversário de um ano, não um cara que prefira ficar comentando com os amigos sobre os acontecimentos da sexta-feira treze. Agora, volte a falar sobre fadas e seu reino encantado com seus amigos chapados e me deixe aqui.

Alice praticamente cuspiu as palavras no rosto de Jason, zombou dele e ainda o fez passar vergonha na frente de todo mundo. Mas para ela estava tudo bem, pois só se defendeu. Sua consciência estava carregando um pesinho pequeno que, horas mais tarde, se tornaria uma bigorna.

Todo mundo estava comentando sobre o término. As fofoqueiras da sala haviam passado, por meio de grupos de mensagem instantânea, a notícia para a escola toda.

Alice saiu da escola com o crepúsculo laranja do dia caindo sobre a cidade, algumas nuvens carregadas de chuva se formavam no céu, com pretensão de chover mais tarde. Ela colocou os fones e ouviu mais Mozart, precisava relaxar e ouvia as músicas do compositor para fazê-lo.

Conseguiu ver Jason de relance ele não exibia sorrisos, nem nada do gênero, apenas estava sério e falava o necessário com os amigos. Ele não precisava ter dito tudo aquilo, pelo menos, não na concepção da menina.

Ele só conseguiu ser rude com ela, aquilo que ela tinha lhe dito não mudava coisa alguma.
Depois de ter virado a esquina da rua de sua casa, que se localizava a duas quadras da escola, as lágrimas foram permitidas, ela tentava limpar desesperadamente, sem soluçar, porém, só obteve mais e mais lágrimas.

Ao se aproximar da casa teve que se recompor, sua mãe já tinha chegado em casa e seu pai estava prestes a chegar, seu irmão mais velho estaria na casa da namorada e voltaria só mais tarde, então, poderia entrar no quarto e chorar o quanto pudesse.

Entrando no portão, ainda com os fones, sentiu algo estranho. Como se alguém estivesse a observando. Ela olhou para trás, mas não havia nada além do alto muro da vizinha.

Balançou a cabeça e adentrou a casa. Ao chegar no quarto, jogou a mochila em um canto e se jogou na cama. Pegou o celular, desligou a música e o deixou de lado.

Jason ainda nem tinha ido pedir desculpas, nem ter ofertado xingamentos, nem nada. Ela precisava de qualquer coisa, nem que fosse um ‘sua vadia, nunca mais quero te ver’.

O silêncio estava a matando por dentro, ela estava muito cansada de tudo, seus olhos pesaram e ela acabou adormecendo.

Acordou com um estridente grito, seus olhos quase saíram do lugar ao constatar que era um grito agudo de sua mãe.

Suas costas doíam por ter dormido de mal jeito. Quantas horas tinham se passado? Três? Quatro? Só sabia que estava tudo escuro, apenas uma fraca luz vindo do lado da sua cama.

Ao recobrar todos os sentidos, se sentiu zonza demais para ficar de pé. Seus olhos tremiam, apesar de não estar tão iluminado, o seu quarto parecia possuir um gás ácido.

Seu corpo estava em estado dormente, mas conseguia sentir as molas do colchão rentes à barriga. A luz do abajur estava ligada. Quem diabos teria ligado aquela maldita luz amarela fraca?

Estava chovendo forte, as gotas grossas batiam na janela e os raios e trovões iluminavam o seu quarto de vez em quando.

Levou as mãos para tomar impulso e se levantar da cama, quando o fez, suas pernas ameaçaram fraquejar e ela quase caiu, tendo que se segurar na cama.

Alice caminhou até a porta, estava muito cansada e com algumas fortes dores no corpo, com a causa totalmente desconhecida. Abriu a porta e as luzes estavam todas apagadas.

Uma música muito conhecida tocava no andar de baixo, ela sabia qual era, tinha até escutado mais cedo antes da discussão com o ex namorado, porém não era agradável, era perturbador.
A casa estava fria, como se alguém tivesse ajustado o termostato para o mais gelado possível, foi andando até as escadas, onde concluiu que estava escuro também.

O cenário estava muito mais macabro com as luzes dos relâmpagos, que entravam nos cômodos através das janelas.

Alice foi até o fim dos lances da escada e não encontrou nada. A arquitetura da casa era simples e comum, havia um hall de entrada na reta da escada, para o lado direito a sala e cozinha (nessa ordem), separadas por um balcão, e do lado esquerdo, tinha as outras coisas, como o lavabo, área de serviço e dispensa.

 - Mãe? Pai? Otávio? – chamou e sua voz saiu em um tom agoniado.

Foi apenas falar, que a música começou a ficar alta, o volume ia subindo aos poucos, mas, naquela altura da música, já daria para as casas vizinhas ouvirem claramente. Ela olhou em direção a sala, onde se encontrava o aparelho de reprodução de música, não havia ninguém lá, apenas a luz vermelha do visor, indicando a música, que estava ligada.

Alice se desesperou e correu até o lugar, indo diretamente para o interruptor, que ficava perto da janela, do lado esquerdo. Tentava ligar todas as luzes, mas nenhuma acendia.

Até que o som parou misteriosamente e ela paralisou.

Tinha mais alguém na sala, bem atrás de Alice. Sua respiração estava ofegante, ela não conseguia disfarçar, podia ouvir o som da respiração dela e da pessoa. Parecia que o indivíduo estava respirando dentro de algo, não abertamente e normalmente, pois quando ele inspirava, fazia o som de algo parecido com uma flauta aterrorizante.

 - Otávio, não tem graça – ela disse com toda coragem que conseguiu reunir. – Não faça isso, ou eu vou chamar a mãe.

Deu tempo apenas de ouvir um passo, indo em direção da cozinha, Alice engoliu em seco e se virou. Não notando nada de diferente nem a presença de ninguém.

Seus instintos gritavam para ela correr, porém, suas pernas pareciam ser fabricadas de chumbo.

 - Otávio? Jason? Seja lá quem for, pode parar, eu já me assustei, tá bom? Pode parar com essa brincadeira de mal gosto.

Ela estava em alerta, olhando para todos os lugares que seu campo de visão alcançava. Se fosse uma pegadinha, tinha ido longe demais.

A música começou a soar, mas era diferente, algo que ela nunca tinha ouvido falar, uma música clássica dos anos oitenta, parecia uma cantiga infantil e ela nem reconhecera.

Se virou e tentou os interruptores novamente, um por um, com seus dedos escorregando por causa do suor abundante, conseguia ouvir os batimentos cardíacos dela mesma.

Até tudo parar. Seus movimentos se retardaram no momento em que sentiu a respiração de flauta ao seu lado.

À alguns metros de distância, sua visão periférica captou um ser monstruoso. Algo que era maior que um armário de grande estatura, podendo medir até dois metros de comprimento.

Virou a cabeça e viu o ser todo vestido de preto, com luvas também pretas ensopadas de um liquido viscoso. O pior era o rosto.

O rosto que ela nem chegou a ver. Era apenas a máscara branca com pintura mexicana. Todos os pelos do corpo de Alice se levantaram e ela arregalou os olhos de uma maneira imaginável.

 - Eu já estava ficando preocupado - a voz tão grossa que nem chegava a ser masculina, parecia mais um monstro de filmes de terror. – Pensei que não tinha sobrado ninguém.

A sala aderiu um cheiro forte de açougue, de sangue, então, ela olhou mais para o lado e encontrou seus pais e irmão, a mãe com uma facada no estômago, o pai com um risco no pescoço, de onde ainda espirrava sangue, Otávio (o único que possuía os olhos fechados) estava com um buraco fundo no pescoço.

 - Por que eu? Por que eles? – seus olhos marejados transbordavam o medo, ela sabia, se a tal lenda fosse real, não iria acontecer nada com a garota. Apenas a loucura e solidão.

 - Você nunca iria se convencer, até acontecer com você – o timbre da coisa a fez estremecer.
Todos com semblantes de horror e de puro pavor, sua família estava morta e ela enlouquecendo ao passar dos segundos. O carpete de madeira tinha uma possa de sangue espessa e vermelha, a cor chegava a ser tão forte que ela conseguia enxergar com a pouca luz. Lentamente se aproximou de sua mãe, sujou todo o uniforme com o sangue que apenas aumentava juntamente com o som que estava lhe dando náuseas.

Ajoelhada, olhou para o homenzarrão a sua frente que ostentava um leve sorriso.

FIM!

Conto escrito por Ana Luiza Vieira.
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