31 de agosto de 2015

Estudo Preliminar Diz Que Dez Minutos de Contato Visual Podem Resultar Em Alucinações e Avistamentos de Monstros


Por Marco Faustino
 
Você já conheceu alguém que fica olhando em seus olhos por um longo período de tempo quando você está conversando? Estranho, não é? Bem, pode ficar ainda mais estranho, segundo uma pesquisa publicada pela revista Psychiatry Research. Vamos saber um pouco mais sobre isso?

Um psicólogo e cientista italiano chamado Giovanni B. Caputo, da Universidade de Urbino, na Itália, diz ter encontrado uma maneira simples de induzir um estado de consciência alterada em pessoas saudáveis. Para isso basta fazer com que dois indivíduos olhem nos olhos um do outro enquanto estiverem sentados, durante 10 minutos, em um ambiente com baixa luminosidade. As sensações decorrentes se assemelham a uma leve "dissociação", que é um um termo psicológico bastante vago utilizado quando as pessoas perdem sua conexão normal com a realidade. Isso pode incluir a sensação de que o mundo é irreal, perda de memória e experiências perceptivas estranhas, como ver o mundo em preto e branco.

Giovanni Caputo recrutou 20 jovens adultos (5 homens e 15 mulheres) para formar pares. Cada par sentou-se em cadeiras, uma de frente para a outra, a um metro de distância, em uma grande sala com baixa luminosidade. Especificamente, o nível de iluminação foi de 0,8 lx. Caputo diz que essas condições "permitiam a percepção detalhada dos traços faciais, porém gerava uma percepção da cor atenuada". A tarefa dos participantes era simplesmente olhar nos olhos uns dos outros durante 10 minutos, mantendo ao mesmo tempo uma expressão facial neutra. Um grupo de mais 20 participantes de controle também sentou-se no mesmo ambiente de baixa luminosidade em pares, mas suas cadeiras estavam viradas para parede e tinham que permanecer olhando para a parede. Ambos os grupos foram informados previamente, que o estudo iria envolver uma "experiência de meditação com os olhos abertos".

Após 10 minutos os participantes preencheram três questionários: o primeiro foi um teste de 18 itens de estados dissociativos, já um outro fez perguntas sobre a experiência deles em relação ao rosto da outra pessoa ou seus próprios rostos se estivessem no grupo controle. A notícia não informou qual seria o terceiro questionário.

O estudo realizado por Giovanni Caputo gerou alguns interessantes resultados,
porém deve ser considerado como preliminar
Os participantes do grupo, que tinham que olhar nos olhos uns dos outros, disseram ter tido uma experiência um tanto quanto intimidadora e diferente de tudo que havia sentido antes. Eles também pontuaram mais alto em todos os três questionários do que o grupo controle. No teste de estados dissociativos eles deram avaliações mais altas para itens relacionados à redução da intensidade da cor, sons parecendo mais silenciosos ou mais altos do que o esperado, parecendo que era espaçados e também a sensação de que o tempo parecia se arrastar.

Entretanto, no questionário sobre a experiência deles em relação ao rosto da outra pessoa, cerca de 90% desse grupo disse ter visto alguns traços faciais deformados, 75% disse que tinham visto um monstro, 50% disse que viram os aspectos de seu próprio rosto, no rosto de seu parceiro, e 15% disse que viram o rosto de um parente.

Caputo acredita que os alucinações faciais são uma espécie de efeito rebote, uma vez que os participantes do grupo que tinham que olhar uns para os outros, voltaram a "realidade" depois de uma dissociação induzida pela privação sensorial. Isto seria apenas uma especulação, e ele admite que o estudo deve ser considerado preliminar.

Christian Jarrett, um neurocientista cognitivo, que se tornou escritor científico, e editor do blog da Sociedade Britânica de Psicologia, questionou algumas coisas sobre esse estudo em seu artigo publicado no dia 18 de agosto deste ano. Ele disse que embora fosse verdade que o grupo dos que tiveram que olhar uns para os outros obtiveram pontuações maiores nos testes dissociativos em relação ao grupo de controle, eles não marcaram nenhum dos itens em uma escala superior a 2.45, isso em média, em uma escala que ia de 0 a 5 (onde 0 é "nem um pouco" e 5 é "extremo").

Giovanni Caputo diz que a "contemplação interpessoal" tem um efeito
dissociativo mais poderoso que olhar em um espelho
Christian também ressalta que outra questão vital é que não se sabe quais foram os elementos cruciais, em relação ao movimento que dos olhos que os participantes fizeram, para induzir os efeitos descritos (nem mesmo o porquê eles tiveram estes efeitos). Segundo ele pode-se constatar que a baixa iluminação não foi o único elemento relevante, porque o grupo controle sentou-se na mesma sala escura. No entanto, o grupo de controle era livre para movimentar os olhos pela parede, ao contrário do outro grupo que tinham que manter o olhar nos olhos do seu parceiro.

Outras pistas vêm de pesquisas anteriores realizadas por Caputo e outras pessoas. Esses estudos descobriram que simplesmente olhando para um ponto na parede por um período prolongado de tempo, poderia induzir a estados semelhantes aos dissociativos, assim como olhar para o próprio rosto no espelho (conhecido como "ilusão de um rosto estranho no espelho"). Entretanto, olhar nos olhos de outra pessoa pode ser um exercício de indução de dissociação ainda mais eficaz. Comparando as pontuações do questionário do estudo atual com os relatados em sua pesquisa anterior, Caputo diz, que o que ele chama de "contemplação interpessoal", tem um efeito dissociativo mais poderoso do que olhar em um espelho.

Para Caputo, ainda que de forma preliminar, este fenômeno pode explicar projeções psicodinâmicas do inconsciente de um indivíduo no rosto de outra pessoa. Em outras palavras, conforme a pessoa volta a realidade, as coisas que estão escondidas no fundo de nosso inconsciente podem ser projetadas no rosto de outra pessoa.

Um Breve Comentário Sobre Esse Assunto


Ao ler essa matéria e também os comentários das pessoas em alguns sites sobre este estudo preliminar, vi que muitos diziam que Caputo não tinha descoberto nada além do que vem sendo praticado ao longo dos séculos, como no caso do tratak, um método de meditação que envolve concentração em um único ponto, como um pequeno objeto, ponto preto ou chama de uma vela. É utilizado em algumas vertentes da yoga como uma forma de desenvolver a concentração, fortalecimento dos olhos e estimulação do chakra Ajna (também conhecido por frontal, sexto chakra ou "terceiro olho"). Esse método de meditação é supostamente realizado para desenvolver poderes psíquicos.

Isso me lembra muito as histórias de olhar para a chama de uma vela no escuro durante um certo tempo, e em seguida olhar no espelho para "observar o outro mundo", assim como as bruxas da antiguidade olhavam seus próprios reflexos em um lago. E todo misticismo acaba levando a simples brincadeiras como ver uma imagem colorida após olhar fixamente para um ponto preto em meio uma folha branca.

Seria interessante que pesquisas desse tipo pudessem de fato serem mais completas, mais fundamentadas, e inclusive com propostas mais claras e amplas, para que pudessem estudar mais o funcionamento do cérebro quando há privação dos sentidos. Isso ajudaria até mesmo no âmbito da evolução da espécie humana e seus diferentes comportamentos, que colaboraram para a sobrevivência do homem nos mais diversos ambientes em nosso planeta. Não irei entrar no mérito da yoga e seus ensinamentos, tão pouco seria sensato contradizer por mero conhecimento de textos repletos de simbolismos, que um estudo não é válido. Porém há certas coincidências em tudo isso e elas são inegáveis. Apesar de todo simbolismo e crença envolvida, a bússola sempre aponta para dentro de nós mesmos, nossa capacidade intelectual e que nos eventualmente nos une, embora um lago não mostre mais quem realmente nos tornamos.

Criação/Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://www.cnet.com/news/ten-minutes-of-eye-contact-leads-to-hallucinations-monster-sightings/
http://digest.bps.org.uk/2015/08/weird-things-start-to-happen-when-you.html
http://www.psy-journal.com/article/S0165-1781(15)00321-2/fulltext
https://www.researchgate.net/researcher/44888550_Giovanni_B_Caputo
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