19 de agosto de 2015

Conto Assombrado: O Lamento da Lua

Eu sempre achei que a casa da minha vizinha tinha um cheiro podre, mas ontem isso já estava em um nível insuportável, ao ponto que nem os gatos gostavam de se aproximar de lá, se bem que podia ser pelos dois cachorros que ela tem.

Era um exagero de casarão. Com dois portões de ferro clássicos de um filme de terror, já a casa, propriamente dita, ficava alguns metros a frente e o caminho até a porta era regado com folhas secas das árvores melancólicas do jardim.

Eu e meu amigo, T., tínhamos muito medo de lá. Havia um boato de que a velha era uma bruxa, e isso se espalhou entre as crianças do bairro com uma facilidade tremenda. Nunca soube o motivo real de essa história ter começado, mas acho que foi porque era comum ver ela sempre sozinha e que pela noite ouvíamos ela cantar coisas em uma língua estranha. Meu pai dizia que ela louvava os deuses do país dela, e que eles eram negros também (Só pode ser bruxaria então, todo mundo sabe que só existe um Deus, e que ele não é negro).

Ontem a noite, meus pais saíram, então chamei o T. para vir para cá, passar a noite. Nós tivemos a ideia de ir até lá, colocar um fim nessa história e, provavelmente, sermos as primeiras crianças do bairro a falar com a velha.

Em pouco tempo, já estávamos com medo saindo da minha casa e cruzando o portão, no percurso até a casa ao lado. T. falou:

“É um matadouro, tenho certeza”

“Aposto que ela tem um pacto com aqueles demônios! Ou vai ver ela que nem a garota daquele filme que seu irmão viu.”

Foi quando estancamos. Chegamos em frente ao portão de ferro, e nos lembramos que a velha tinha dois cachorros, mesmo não ouvindo eles latirem, ficamos com medo de nosso plano ir todo pelo ralo. Me senti como se realmente participasse de uma gangue, quando fomos buscar umas pedras para poder afugentar eles ou tirar a atenção das bestas caninas.

Conseguimos pular o portão sem maiores dificuldades, foi fácil apoiar os pés entre os ferros para eles servirem de apoio. A adrenalina tomava conta de nós dois. Estávamos invadindo uma casa. Estávamos invadindo a casa de uma bruxa.

A caminhada até a porta deve ter durado cerca de dois minutos, mas pareceram durar horas. Eu sentia que meu peito ia explodir, sempre que pisávamos em uma folha quebradiça ou quando o vento soprava mensagens em nossos ouvidos.

A outra surpresa foi quando chegamos à porta de madeira, e pensamos como iríamos abrir ela, não pensamos em nada antes de sair de casa, que droga.

“Vamos voltar?” Perguntei, torcendo que a resposta fosse um “sim”.

“Não...” Retrucou “Talvez esteja aberta...” Ele tentou falar confiante, mas eu sabia que estava mentindo, estava com tanto medo quanto eu.

Talvez o próprio diabo estivesse se divertindo as nossas custas, eu pensei. Mal sabia a verdade.
Meu pensamento provava-se cada vez mais verdade, quando T. empurrou a madeira e a porta abriu pesadamente.

Provavelmente a única coisa mais antiga que a proprietária era a própria morada, já que as dobradiças choraram quando foram forçadas a trabalhar. E o choro levou um arrepio até minha nuca que transformou-se em um grito que parou nos meus dentes cerrados.

A noite já engolia tudo e, como se desafiando a Criação, o interior da casa era ainda mais escuro que o céu. O cheiro que se projetava lá de dentro era insuportável, insinuando-se para nós dois como um alerta do que estávamos procurando.

Subi a camisa para evitar o mau-cheiro e vi T. à minha direita fazendo o mesmo, logo sua mão apertou meu ombro, para que não nos separássemos de forma alguma.

Optamos por deixar a porta aberta para a lua, nossa única amiga, que nos iluminava com seu sorriso sádico.

Com o auxílio da luz que vinha de fora, conseguíamos enxergar melhor como era a casa da velha bruxa.

Estávamos em uma sala com três sofás, empoeirados em praticamente todos os lugares, exceto por um canto em que ela devia sentar-se frequentemente, sozinha. Havia uma mesinha no meio dos sofás com um vaso com flores mortas, talvez pela falta de luz, de água ou pelo cheiro ruim. Tenho certeza de que poderia sentir o cheiro de mofo, caso estivéssemos em condições normais, mas não estávamos.

O outro cômodo era uma cozinha, com muito lixo amontoado, provavelmente era dali que vinha o odor desagradável, sacos e mais sacos de lixo estavam jogados a esmo em um canto e restos de comida estavam na pia. As vasilhas dos cachorros também estavam ali, vazias. As baratas não faziam cerimônia subindo as paredes, correndo por cima do lixo ou se banhando a imundice que era aquele cômodo.

Do outro lado, a escada em espiral para o próximo andar.

Não nos restava mais nada, a não ser subi-la para continuar nossa busca. Nesse ponto eu já estava morrendo de medo, queria voltar para casa. Mas se T. continuava, eu também tinha que ir. Que tipo de pessoa eu seria se meu amigo fosse até lá ver a bruxa e eu não?

A cada passo tímido e seco que dava, imaginava que a velha apareceria para nos pegar. Ela iria vir com sua barriga gorda em nossa direção com as mãos estendidas e os cabelos grisalhos volumosos e soltos.

Estávamos quase chegando ao andar de cima, quando para nosso alívio, ou terror, nos demos conta que ouvíamos a voz de alguém. Não identifiquei as palavras, mas ouvia dizer alguma coisa. Quando íamos subindo, me dei conta que era uma televisão, que a voz vinha de uma forma diferente, com um pouco de eco.

“Alguém?” Eu tentei falar, mas minha própria boca fez com que o som não saísse.
Rompendo o último degrau, vimos um quarto com a porta aberta e com uma fonte de luz. A velha devia estar lá. E Estava.

Agora as palavras da televisão passavam a fazer sentido e eu entendia um apresentador de jornal dando as notícias.

“...12% ao ano. E a polícia ainda investiga a série de assassinatos que parecem estar sem solução alguma...”

Infeliz coincidência. Pois quando entramos no quarto, vimos um quadro horroroso.
A velha estava em decomposição e os cachorros deviam ter tentado comer pedaços dela, mas estavam mortos próximos da velha. Ela estava caída perto da cama, como se puxada ao se levantar.
A televisão projetava nossas sombras como gigantes, nas paredes. Como colossos em um ensaio de dança, que se moviam de acordo com a luz, sempre fugindo dela.

Algo estava no escuro, nos esperando. Nós dois já havíamos conversado sobre isso. Que temos essa sensação, às vezes, quando acordamos de madrugada. Que preferimos ficar de olhos fechados para não ver o que quer que seja que está nos encarando. Como se o fato de não podermos ver isso, impedisse isso de nos ver.

Algo estava no escuro. Esperando a gente se virar, esperando apagarem a luz, esperando você piscar.
A lua já não mais sorria para nós. Nossa amiga chorava, vestindo-se de preto.
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