28 de agosto de 2015

Conto Assombrado: O Azul

Apertou a extremidade da caneta e o bico contundente desceu com a tinta azul.

"Esse sonho foi muito perturbador, creio que um dos piores pesadelos que tive desde a infância, pra ser totalmente franco.

Nele eu estava em uma sala de paredes cinzas, era um cubículo bem pequeno e a única coisa que estava ali era uma televisão de tubo estática. Era uma coisa que me fazia sentir um sentimento de vazio tão grande, era uma coisa que me dava medo de verdade. Eu sei que eu vivia naquele cárcere com o ruído e o chiado da televisão constante que não iluminava nada, senão a parede e, vez ou outra, quando ousava levantar-me, lançava sombras na superfície atrás de mim.

Eles as vezes apareciam pra me dar comida e água, eu não sei porque me mantinham vivo e respirando. A noção de tempo era muito distorcida, às vezes o intervalo das horas era tão curto que as entregas pareciam acontecer quase que instaneamente, uma após a outra, em outros casos eu pensava terem passado semanas. Mas a única coisa que eu sentia era essa mesma sensação horrível.

Era algo pior que estar simplesmente morrendo, era ser esquecido. Por que ninguém ia atrás de mim? 
Por que era eu preso e sozinho ali?

Não sei quanto tempo eu passei ali no quartinho odioso.

Até que um dia eles pararam de vir. Não traziam mais água ou comida. Não ouvia passos ou barulho algum atrás de uma porta pesada. 

Eu tentei sair, mas ela só podia ser aberta por fora.

Eu estava com frio, lembro-me muito bem disso. Foi quando ouvi um barulho ruim, arrastado e pesado, um tanto abafado também. A porta foi aberta rápidamente e do lado de fora irrompeu uma luz forte, meus olhos doeram por um momento, eu notei pouco tempo depois que elas delineavam uma figura grande.

Eu demorei pra começar a perceber os detalhes da coisa que impedia a luz de iluminar o resto do quarto, e o que vi me fez sentir pior.

Eu olhei nos olhos dele e eles olharam de volta.

Era tanto maior que eu, é verdade. Estava com as costas curvadas um pouco e os joelhos dobrados, as mãos tinham dedos  longos escorridos e com a direita ele levantava um pendulo com uma corrente e o balançava constemente.Parecia um relógio, pendendo da mão peluda.

O pior de tudo era a cara daquela coisa. Era grande, redonda e larga, pálida. Eu via os olhos vidrados e azuis mortos que jamais piscavam, ele me olhava, me encarava no fundo da alma. Os olhos azuis ficavam balançando junto da cabeça de um lado para outro.

Ele não saia dali, eu tenho certeza de que passei muitos dias naquele canto do quarto, abraçando minhas pernas contra meu peito. A única coisa que me separava da saída iluminada era ele.
Eu podia me levantar e encarar ele e sair, mas não conseguia, estava paralisado.

Eu passei a perceber que preferia estar sozinho que com aquela criatura dividindo o lugar comigo. Eu preferia estar sozinho.

Foi quando eu acordei, quando cai no fundo dos olhos inflexíveis da coisa."

O sonhador ainda estava meio assustado por reviver o pesadelo. Pegou mais água.

"Calma." Disse em voz alta para ouvir a própria voz assim que terminou de anotar seu sonho. Pegou seu celular e viu as horas, duas horas para o sol nascer. "Você está sozinho agora, calma."

De forma arrastada e gutural veio a resposta.

"Não.”

FIM!

Conto assombrado enviado pelo leitor Fábio Martins. Envie o seu também!
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