15 de julho de 2015

Autoridades da Austrália Ordenam o Cancelamento de "Tour Fantasma" na Floresta Estadual Belanglo


Por Marco Faustino

Uma empresa de turismo chamada "Goulburn Ghost Tours" tem sido acusada de estar lucrando com uma das cenas dos crimes mais horripilantes da Austrália, ao ter anunciado um "tour de extremo terror" na Floresta Estadual Belanglo, em New South Wales, na Austrália, onde o notório assassino Ivan Milat matou sete jovens inocentes.

Em seu site a "Goulburn Ghost Tours" oferecia um passeio pela Floresta Estadual Belanglo, bem como até o antigo reduto de Milat, onde ele infamemente enterrou os corpos de suas vítimas aterrorizadas. A empresa dizia que a intenção era vender o "pacote turístico" para "potenciais investigadores criminais".

Pessoas que amam sentir medo foram "convidadas" a entrar na densa floresta que fica a 130 km a sudoeste de Sidney e foram avisados, que uma vez que elas entrassem na floresta, talvez "nunca mais pudessem sair de lá".

O anúncio dizia frases como: "Venha junto conosco com investigadores paranormais experientes e qualificados para a Floresta Estadual Belanglo, onde crimes horríveis foram cometidos, e corpos foram encontrados".

"Saiba mais sobre seus crimes e usar técnicas paranormais para ajudar a resolver o assassinato de Angel, que se acredita ter sido assassinada depois de Ivan Milat foi preso!"

A empresa tentava tentar atrair os entusiastas sobre o crime para participarem do passeio, pedindo-lhes para que se sentissem como se estivessem sendo observados, como se houvesse outra vítima apenas esperando para ser encontrada. O passeio custava A$ 150,00 (em torno de R$ 350,00) e começava às 18h, geralmente aos sábados. A empresa já tinha vendido todas as vagas disponíveis para o dia 25 de julho, enquanto em outros dois passeios programados só havia seis vagas restantes. O último passeio realizado pela Goulburn Ghost Tours foi no dia 11 de julho, poucos dias atrás.

Ivan Milat, autor de uma série de assassinatos
na Floresta Estadual Belanglo, na década de 90
Milat, agora com 70 anos, foi condenado em 1996 pelo assassinato de sete mochileiros depois de uma longa investigação de extrema repercussão em toda a Austrália. Os sete jovens foram sequestrados, torturados e mortos com requintes de crueldade. As vítimas eram da própria Austrália, Inglaterra e Alemanha.

Talvez Milat só tenha sido capturado graças as evidências apontadas por Paul Onions, um viajante britânico, que tinha pedido carona a Milat, e que conseguiu pular do carro quando o mesmo apontou uma arma para ele. Onions relatou o incidente na época para a polícia. Anos mais tarde, quando viu as notícias sobre corpos encontrados em Belanglo, entrou em contato com o Alto Comissariado da Austrália, em Londres, fornecendo provas cruciais para o processo.

Não obstante, em 2010, Matthew Milat, um adolescente e "sobrinho-neto" de Ivan Milat, assassinou David Auchterlonie em seu aniversário de 18 anos, na mesma floresta, com um machado  Ele foi condenado a pelo menos 30 anos de reclusão em 2012.

No entanto toda essa publicidade em cima deste caso pela empresa "Goulburn Ghost Tours" causou a ira dos familiares das vítimas. Sandra Auchterlonie, avó de David Auchterlonie, disse que ela estava "perplexa" como alguém iria ter tanto "mau gosto" em fazer um tour fantasma naquela floresta. "Eles estão ganhando dinheiro às nossas custas", disse a Sra. Auchterlonie ao jornal Sydney Morning Herald.

Sandra Auchterlonie, avó de David Auchterlonie.
Seu neto foi assassinado na Floresta Estadual Belanglo
"Não posso impedir as pessoas de fazerem esses passeios fantasma, mas acho isso nojento. Eles estão se aproveitando da nossa dor", continuou.

Sandra Auchterlonie ainda disse que sua família estava apenas "tentando ter alguma normalidade de volta em suas vidas". "Estamos sofrendo e isso está apenas abrindo velhas feridas novamente", disse ela. "Estamos apenas tentando nos tornar pessoas normais novamente", completou.

Em nota os organizadores do passeio alegaram que estavam mantendo vivas as memórias dos mochileiros assassinados e não tinham a intenção de perturbar os familiares dos mortos.

A responsável pela empresa Ghost Tour Goulburn, Louise Edwards, disse que o tour foi feito com extrema sensibilidade. Ela disse que cada uma das vítimas de Milat foram citadas juntamente com as datas em que desapareceram.

"Muitas pessoas sabem sobre Ivan Milat, mas não sobre as pessoas que ele assassinou. Queríamos lembrar a todos, que as vítimas são pessoas reais. Eles não são apenas vítimas de Ivan Milat. Elas são bem mais do que isso", disse. "Não queremos que as pessoas se esqueçam deles", completou.

Louise Edwards disse estava pensando realizar esse tour há muitos anos: "Sabemos que algumas pessoas não estão indo para ficarem felizes com esse tour, uma vez que todo mundo tem uma opinião sobre essa terrível tragédia. Entretanto, não fomos lá para promovê-la".

"Pensamos sobre isso por um longo tempo antes de colocarmos em prática. Nós queríamos ter certeza de que seria algo sutil. Nós realmente não queremos perturbar ninguém. Isso não era nossa intenção", finalizou.

Robyn Cotterell-Jones, chefe-executiva da Liga de Assistência
a Vítimas de Crimes de New South Wales, Austrália
Robyn Cotterell-Jones, chefe-executiva da Liga de Assistência a Vítimas de Crimes de New South Wales, disse que o tour em Belanglo teria um impacto muito maior sobre as famílias das vítimas.

"Isso seria recebido com repulsa e nojo pelas pessoas que gostariam de um pouco mais de respeito pelo seu próprio sofrimento", disse ela.

"Enquanto os seres humanos parecem ser fascinados pelo macabro e o assustador, para as famílias das vítimas, o impacto da morte de seus entes queridos nunca termina. Para eles, ouvir que as pessoas estão usando os locais de tal horror para sua diversão e lucro é, obviamente, fazer com que suas cicatrizes abram novamente", completou.

Howard Brown, vice-presidente do mesmo grupo, disse que algumas pessoas, que podem ter sido mortas naquela floresta, ainda estão classificadas como desaparecidas. "Para as famílias estas são áreas muito sagradas", disse.

"É completamente inadequado que pessoas façam lucro com a infelicidade das outras pessoas, e no meu ponto de vista isso é macabro", completou.

Clive Small, o chefe da força-tarefa que conduziu a investigação sobre o assassinato dos mochileiros na época, disse que podia compreender as preocupações dos familiares das vítimas e a curiosidade das pessoas sobre o lugar. "Acho que realmente depende de como o tour é realizado", disse ele. "Posso entender o interesse público sobre o assunto e, em certo sentido, a curiosidade do público que ainda existe", continuou.

"Entretanto, isso tem que ser tratado com sensibilidade, uma vez que deve se ter em conta as famílias das vítimas e outras vítimas de assassinato que seriam lembradas de sua dor", finalizou.

A polêmica em torno da realização desse passeio parecia ter terminado, ao menos por enquanto, visto que autoridades na Austrália ordenaram que as atividades da Ghost Tour Goulburn na Floresta Estadual Belanglo fossem interrompidas. Um porta-voz do Coorporação Florestal de New South Wales disse que não estava ciente dos passeios, e que não tenha emitido uma autorização para eles.

"Assim que os passeios foram trazidos à nossa atenção, a Corporação Florestal tentou entrar em contato com os organizadores para saber mais sobre a atividade e aconselhá-los sobre a exigência de solicitar uma autorização", disse ontem (14) o porta-voz.

Ontem mesmo, Niall Blair, Ministro de "Terras e Águas" de New South Wales disse: "Passeios como este na Floresta Estadual Belanglo são doentios e desrespeitosos". "Vou me certificar que, mesmo que esta empresa tente solicitar uma autorização, estes passeios não irão adiante", completou.

Mike Baird, premier de New South Wales, disse que ficou surpreso ao ouvir sobre o passeio e o descreveu como "horrendo". "É completamente e totalmente ultrajante", disse ele.

"Fui informado que eles ainda não solicitaram uma licença, mas se o fizerem, eles não vão recebê-la, e se eles operarem ilegalmente, eles terão de enfrentar toda a força da lei. Não é apenas de mau gosto, é terrível. horrendo", completou.
Louise Edwards, responsável pela empresa de turismo
chamada de "Ghost Tour Goulburn", na Austrália

Devido a repercussão negativa, Louise Edwards, responsável pela Ghost Tour Goulburn confirmou na noite de ontem que a empresa deixaria de realizar o tour fantasma na Floresta Estadual Belanglo. "De agora em diante, não vamos mais realizar passeios em Belanglo", disse ela para o Canal 10 da Austrália.

Na segunda-feira (13), a Fairfax Media, responsável pelo jornal Sydney Morning Herald, convocou o Sr. Stuart Ayres, ministro do Turismo, para falar sobre o assunto, mas ele preferiu não comentar sobre o caso.

A página do Facebook da Ghost Tour Goulburn foi fechada. Segundo informações do Google Plus a empresa está fechada hoje e não há mais nenhuma outra informação no site oficial. De qualquer forma essa é uma situação delicada e se questiona agora na Austrália se passeios desta natureza deveriam ou não serem feitos. A linha que separa a investigação do entretenimento nunca esteve tão tênue.

Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://www.smh.com.au/nsw/belanglo-state-forest-extreme-terror-tour-angers-families-of-murder-victims-20150713-giadmu
http://www.smh.com.au/nsw/state-vows-to-shut-down-belanglo-extreme-terror-tour-20150714-gibule.html
http://www.abc.net.au/news/2015-07-14/goulburn-ghost-tours-volunteer-louise-edwards/6619488
http://www.bbc.com/news/world-australia-33532470 
http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/australiaandthepacific/australia/11740594/Australian-company-ordered-to-stop-horrendous-backpacker-serial-killer-tours.html
http://www.dailymail.co.uk/news/article-3159155/Is-tasteless-tourist-attraction-Families-backpackers-murdered-serial-killer-Ivan-Milat-outraged-company-offers-tours-forest-butchered-victims.html
http://www.theguardian.com/australia-news/2015/jul/14/anger-over-australian-forest-tours-glorifying-backpacker-murders
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