26 de junho de 2015

Transplante de Cabeça: Sergio Canavero Tenta Recrutar Médicos em Recente Conferência nos EUA




Por Marco Faustino

Em uma recente conferência, o Dr. Sergio Canavero procurou recrutar cirurgiões para ajudá-lo a realizar o procedimento de transplante de cabeça, que ele mesmo já havia anunciado. "Hoje eu estou aqui para dar a todos nós uma visão", disse ele. Se você ainda não viu o especial feito sobre o transplante de cabeça, clique aqui antes de continuar lendo este post para obter mais detalhes sobre este assunto, certo?

Há cerca de 2 semanas, na tarde do dia 12 de junho, no Hotel Westin, na cidade de Annapolis, Maryland, nos EUA, juntamente com o voluntário para o primeiro transplante de cabeça humana ao seu lado, o Dr. Sergio Canavero tentou recrutar cirurgiões dispostos a ajudá-lo a realizar o procedimento com uma plateia composta por seus colegas médicos na conferência anual da Academia Americana de Cirurgiões Neurológicos e Ortopédicos (AANOS).

O evento era pequeno, talvez contando com mais ou menos 100 cirurgiões, e realizado em um hotel com uma aparência normal. A organizadora da conferência Maggie Kearney passou boa parte do dia evitando os repórteres na expectativa de uma sala lotada. Ela disse que em 15 anos, ela não consegue se lembrar de um único repórter que já estivesse presente na conferência antes.

Cerca de um quarto dos assentos foi dedicado para câmeras de vídeo, tripés para as mesmas, e para iluminação. Para chegar até o doutor, que é sempre simpático com a imprensa, um dos participantes pegou um microfone e se espremeu no meio da confusão em torno de Canavero para então escutar: "Com licença, imprensa, eu gostaria que vocês recuassem. Por favor, já é o suficiente", disse Canavero com um inglês bem rudimentar.

O tema da palestra de Canavero era sobre um procedimento que ele espera realizar nos próximos 24 meses, o qual ele chama de HEad Anatomosis VENture ou “Heaven”, nada mais sugestivo do que a palavra "paraíso" em inglês, que seria uma anastomose cefalosomática. Resumindo, um transplante de cabeça. O médico ainda acrescentou que não havia essa tal coisa da "essência do ser humano", e que o objetivo final de seu projeto era a extensão da vida.

Dr. Sergio Canavero
(imagem: REX/ZUMA Shutterstock)
Durante duas horas e meia (vale ressaltar que a apresentação estava marcada para 90 minutos) na frente de uma plateia de cirurgiões de meia-idade e em sua maioria usando ternos azuis ou cinzas, Canavero passeou de um lado para o outro da sala usando uma calça de cor creme e uma túnica marrom-avermelhada. Usava óculos, tinha a cabeça raspada, e se parecia mais um monge com roupas da última estação.

Ele passou a maior parte da primeira meia hora dizendo frases curtas, uma após outra, quase sempre encerrando em algum preceito moral, provenientes de alguns escritores os quais incluiam Kierkegaard e Arthur C. Clarke, além de outras frases que ele próprio inventou. "Se o céu é irresponsável, a natureza é ainda mais louca, e devemos dar uma pausa na natureza quando se trata do que ela nos faz por sermos criaturas deste planeta", disse ele.

Canavero revisou a literatura científica sobre lesão e regeneração medular, que rebrota de várias partes do sistema nervoso central, e o porquê alguns dos pressupostos básicos da neurocirurgia estão errados. Ao longo da palestra, ele ocasionalmente apontava para Valery Spiridonov, que estava em sua cadeira de rodas ao lado do palco e fazia uma declaração: "Os neurônios do trato proprioespinhal são a chave que vão fazê-lo andar novamente!", exclamava Canavero.

O neurocirurgião, diretor do Grupo de Neuromodulação Avançada de Turim, oscilava entre tentar inspirar seus ouvintes, dissertando de forma profunda sobre neurobiologia e incitar os profissionais médicos de cabelos brancos enfileirados a frente dele. Em certo ponto ele comparou o futuro sucesso do procedimento com o pouso na Lua, usando uma imagem de JFK na tela atrás dele. "Temos de ir à Lua para testar quem somos, para testar as nossas capacidades, para testar a nossa confiança, para ver que tipo de homens que nós somos!", exclamou. "Temos de fazer isso para testar a América! Devemos fazê-lo para ver se vocês ainda são americanos! Quando eu cresci a América era o topo do mundo".

Prometendo uma alta remuneração e apoio de "bilionários americanos", Canavero disse à plateia: "Eu vim por vocês. Eu aceitei com prazer este convite para vir humildemente diante de vocês para apontar as razões de que isso é possível". Entretanto, a humildade não era uma qualidade que o público parecia notar em Canavero. Ele disse também que pretende realizar o procedimento nos EUA ou na China.

Valery Spiridonov entrando na sala para a palestra
do Dr. Sergio Canavero (imagem: Erika Engelhaupt)
"Você, entre todas as outras pessoas, possui uma essência definida sobre si mesmo", disse o primeiro médico a fazer uma pergunta na sessão de perguntas e respostas. "Qual é a essência do paciente? A do novo corpo ou daquele com que ele sofre?", completou. "Pergunte a ele mesmo", respondeu Canavero apontando em direção a Valery Spiridonov.

Valery Spiridonov, o homem que se ofereceu para se submeter ao procedimento, falava pouco na conferência, mas ele foi uma figura que roubou a cena. Spiridonov tem a doença de Werdnig-Hoffmann ou atrofia muscular espinhal. É uma condição debilitante, eventualmente fatal, que tinha visivelmente tinha tomado conta de boa parte do corpo do russo de 30 anos de idade. Spiridonov inesperadamente mandou um email para Canavero quando o projeto do médico começou a receber a atenção da imprensa.

Spiridonov, que havia voado desta vez diretamente da Rússia, parecia incrivelmente pequeno. Havia chegado ao local completamente vestido de branco, desde a sua camisa branca de botões brancos até as meias brancas nos pés, nas extremidades das calças brancas e um cobertor branco.

Spiridonov então respondeu a pergunta. "Eu acredito que meu corpo é apenas algo mecânico que eu quero que seja removido", disse ele.

Outros médicos, disse Canavero, têm me questionado se a alta taxa de rejeição de transplantes de órgãos e membros pode significar que um paciente que passa por um transplante de corpo inteiro possa vir a enlouquecer. Canavero disse para eles se imaginarem no lugar de Spiridonov. "Você acredita que sua condição atual poderia levá-lo a insanidade, a loucura?", perguntou Canavero a Spiridonov, que respondeu em seguida: "Sim, todo dia".

"Tenho certeza que a terapia genética e as células-tronco um dia vão cumprir o seu papel no futuro", disse Canavero, que completou: "mas para este homem, isso virá tarde demais".

PEG-3350 (a esquerda) ou Macrogol 3350 (a direita).
Uma das inúmeras variações do PEG, que neste caso é usado como laxante osmótico.
A outra questão, é claro, é se a operação seria ou não possível. Canavero destacou os transplantes de cabeça em ratos realizados com sucesso na China, e disse que o polietilenoglicol (PEG) - que é muitas vezes usado como um laxante osmótico (PEG 3350), mas que se descobriu ter aplicações em pacientes com lesão da coluna vertebral - poderia essencialmente "colar" os centros motores da medula espinhal, unindo-os com sucesso depois de terem sido cortados.

Para que vocês tenham uma melhor noção a respeito do PEG, em sua utilização como laxante, é importante ressaltar que ele é vendido aqui no Brasil com o nome de macrogol 3350.

O macrogol é uma denominação comum internacional (DCI), ou seja, o nome oficial não comercial ou genérico do polietilenoglicol. No entanto existem muitas outras variantes do PEG, tais como o PEG 400, PEG 2000, PEG 8000 e muitas dessas variantes possuem estudos apontando os mais diversos benefícios. O PEG é ainda muito comum em cosméticos, pastas de dente, entre outros produtos do nosso cotidiano. Aqui exemplificamos apenas um deles para ficar de acordo com a fonte que estamos citando, visto que Canavero não dá mais detalhes sobre isso.

Um médico interrompeu Canavero no meio de sua palestra para salientar que, como um cirurgião vascular, ele estava preocupado, entre outras coisas, sobre a artéria espinhal anterior. "Você irá fazer um corte justamente atravessando-a", disse ele. Canavero o convidou para se juntar a seu grupo de trabalho, dizendo que ele tinha feito a sua parte e que agora era hora de eles seguirem o mesmo caminho. Em certo momento, o cirurgião disse que reconectar a espinha de Spiridonov exigiria a criação de um bisturi com uma nano-lâmina bem afiada com a capacidade de cortar através de fibras nervosas sem danificá-las.

Canavero disse também que cortaria um pouco mais abaixo do que o necessário na medula espinhal de Spiridonov e um pouco mais acima no corpo a ser transplantado antes de dar-lhes um segundo corte em um último instante. Ele disse que iria ajudar a minimizar a morte das células nas extremidades cortadas, de acordo com a National Geographic.

Após a palestra a maioria dos repórteres na sala pareciam cansados, e um pouco confusos sobre tudo aquilo, mas não eram somente eles que estavam assim.

"Eu não sei", disse Oscar Tuazon, um cirurgião estabelecido na cidade vizinha de Alexandria. "Em nós seres humanos, a principal coisa é a cabeça! O corpo é apenas como a moldura de um quadro ou uma concha. Portanto, é a cabeça que é importante. Digamos se alguém for importante, como Einstein, talvez você possa preservá-lo."

Sergio Canavero respondendo a algumas questões de repórteres
que compareceram a AANOS 2015 (imagem: Erika Engelhaupt)
Oscar participou da conferência com Edith Tuazon, sua esposa de 44 anos, que é enfermeira, porém ela não estava convencida. "Eu sinto que ele vai muito além", disse ela. "Suponha que você tenha um transplante de cabeça de alguém que é um artista e o coloque no corpo de alguém que não é um artista. Essa pessoa será capaz de fazer com que os braços e as mãos ainda desenhem? Será que a mão ainda pensa? Será que ele vai pensar do mesmo jeito que fazia antes? Como todas essas funções vão trabalhar juntas novamente?"

Canavero tinha a resposta para essa pergunta na apresentação: "Você corta o espaguete, aplica o PEG, e boom".

Outros neurocirurgiões na conferência responderam com cautela a proposta. "A cirurgia pode ser possível algum dia, mas é realmente uma situação delicada", disse Kazem Fathie, ex-presidente do conselho da AANOS.

Craig Clark, um neurocirurgião de Greenwood, Mississippi, chamou a idéia de Canavero de "muito provocante". “Ao longo dos anos têm havido muitos estudos demonstrando a regeneração, mas por uma razão ou outra, eles não têm obtido sucesso quando aplicados clinicamente”, disse ele.

"Há um monte de questões éticas sobre isso", disse o neurocirurgião Quirico Torres, de Abilene, Texas. Mas Torres pensa que poderia ser ético permitir que voluntários façam a cirurgia, e um dia poderíamos considerar isso normal. "Lembre-se que anos atrás, as pessoas estavam questionando Bill Gates sobre o motivo de precisarmos de um computador. E agora nós não podemos viver sem ele".

Além do resumo do trabalho anterior sobre lesão medular, muito do que Canavero disse sobre a cirurgia foi bem semelhante ao que ele já havia dito antes. Ele apoiou seus argumentos em elementos individuais de um transplante de cabeça (ou de corpo, se você preferir), mas não revelou qualquer nova demonstração de todos os procedimentos cirúrgicos para realizá-lo em uma pessoa ou um animal.

Entretanto Canavero não perdeu a confiança. Como citado anteriormente ele diz que quer fazer a cirurgia nos EUA, o que implica a Itália não teria condições suficientes para acolher um projeto de ponta como este.

Valery Spiridonov respondendo as perguntas de jornalistas
(imagem: ZUMA/REX Shutterstock)
Após a palestra Spiridonov se retirou em direção a um espaço para descansar. Quando ele voltou, ele respondeu as perguntas para as equipes de TV, e parecia um pouco cansado de responder as mesmas perguntas que haviam feito a ele antes. "O que vai acontecer com você se você não fizer essa cirurgia?", um repórter perguntou. "Minha vida será muito sombria", disse ele. "Meus músculos estão ficando cada vez mais fracos. É muito assustador". Enfim, ele parecia cansado.

Durante a entrevista, Erika Engelhaupt, da National Geographic, se afastou para falar com os anfitriões de Spiridonov em Annapolis, que são amigos de um amigo da família Spiridonov. "Ele é brilhante, ele está feliz, ele é engraçado", disse Briana Alessi. "Se ele vier a passar por cirurgia e se tudo der certo, vai dar a ele uma vida. É uma mudança de vida. Ele vai ser capaz de fazer as coisas que ele só poderia sonhar." E se não for? "Ele está tendo uma chance de qualquer forma", disse ela.

A pergunta final direcionada a ele foi: O que você diria para as pessoas que dizem que esta cirurgia não deve ser feita? A resposta de Spiridonov foi curta e enfática: "Talvez eles devessem se imaginar em meu lugar."

Tradução/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://aanos.org/meetings/past-meetings/
http://www.theguardian.com/science/2015/jun/13/neurosurgeon-first-head-transplant-america-sergio-canavero
http://phenomena.nationalgeographic.com/2015/06/12/surgeon-reveals-head-transplant-plan-but-patient-steals-the-show/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-3122757/Sergio-Canavero-said-needs-America-s-help-transplant-Valery-Spiridonov-s-head.html
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