31 de maio de 2015

Os Quadros das Crianças Chorando: Dossiê Completo!

Febre nas décadas de 70 e 80, os famosos Quadros das Crianças Chorando logo caíram em desgraça quando começaram a "sobreviver" em diversos incêndios ocorridos na Inglaterra. Logo foram associados ao diabo e as pessoas começaram a destruí-lo, pois causava danos a casa e pessoas. Vamos falar toda a história dos quadros e também saímos em busca da lendária entrevista ao programa Fantástico.

No final tem um vídeo meu sobre o assunto...

Fala assombrados! Finalmente liberamos o post sobre os Quadros das Crianças Chorando. Foi preciso uma extensa pesquisa realizada pelo rusmea.com para podermos trazer informações relevantes para vocês. Muita coisa será explicada. Esperamos que gostem :)

A Lenda e suas Variações

A lenda conta que Bruno Amadio, frustrado por sua fama nula como artista, fez um pacto com o próprio diabo para que suas pinturas tivessem sucesso na sociedade. A partir de então, realizou quadros em que aparecem crianças chorando. Um deles foi um retrato de uma criança que vivia em um orfanato e uma vez finalizado o quadro, este se incendiou e teria acabado com a vida do pobre infante.

A lenda também conta que Bragolin teria se arrependido mais tarde e implorado para que todos destruíssem suas obras, que só trariam desgraças aos seus donos.

Teria confessado que algumas crianças retratadas traziam a pupila dilatada porque estavam mortas, sendo crianças reais, desaparecidas de suas famílias e encomendadas a Satã.


Também conta algumas versões da lenda, que o pintor maltratou de alguma maneira, uma ou mais crianças modelos de suas pinturas e que por isso, a alma de crianças vingativas habitariam os quadros, fazendo das pinturas, verdadeiros imãs para a desgraça.

Há ainda uma outra lenda que conta que um bombeiro ao relatar sobre incêndios ocorridos na Inglaterra, teria notado que estranhamente os quadros não se queimavam.

Dois Quadros Interessantes

Em muito locais diziam que se virasse o quadro de ponta cabeça a meia-noite veria como os meninos morreram!

Escolhi dois quadros, onde usando um pouco de imaginação, podemos ver a morte das crianças!

O conhecido quadro chamado de "O menino que chora", ao ser girado 90º para à direita, pode ser visto (com uma dose de boa vontade) um peixe comendo a cabeça da criança. 

Girar 90º para à direita, de preferência à meia noite.
Este outro quadro mostra uma menina, mas repare no seu braço. Ele na verdade foi arrancado e vemos pingos de sangue. Veja que a anatomia do braço mostra que ele foi colocado sobre seu corpo!



Mas como uma lenda urbana tomou dimensões mundiais? Vamos descobrir como começou essa história...

Disputa entre Periódicos

Em meados dos anos 1980, o THE SUN estava envolvido em uma acirrada competição com o seu rival DAILY MIRROR, assim que a história do incêndio e do quadro, chegaram em um momento em que Kelvin MacKenzie, (editor do The Sun) estava em busca de um "furo" jornalístico, uma reportagem exclusiva que nenhum de seus rivais seriam capazes de publicar em primeiro lugar. Com a assustadora notícia, os leitores ficaram com uma impressão aterradora das reproduções terem um vínculo com o sobrenatural, reforçada pelo uso de palavras como "maldição", "azar", "terror" e "horror".

Os jornalistas dirigiram-se a especialistas no campo do folclore e do ocultismo para buscar uma explicação. Quando um dos jornalistas se aproximou de um membro da Folklore Society Georgina Boyes, a entrevista fracassou quando esta sociedade de estudos folclóricos, se negou a proporcionar uma explicação "satânica" para o caso. Em consequência, os jornalistas saíram em busca de "uma bruxa" ou "alguém do ocultismo" com o qual, poderiam montar uma publicação mais adequada ao sensacionalismo que o jornal queria.

Então Roy Vickery, secretário da Sociedade de Folclore, disse que "o artista original poderia ter maltratado o modelo, ou seja, a criança de alguma maneira", e agregou: "Todos estes incêndios poderiam ser a maldição da criança, sua maneira de se vingar." Assim nasceu uma parte da lenda sobre Bruno Amadio e sua obra.

A Matéria do The Sun

Em 1985, um incêndio assolou uma casa de Yorkshire (Inglaterra), e embora o andar térreo tenha ficado muito danificado, um cópia do quadro de Bruno Amadio que estava pendurado na parede, restou são e salvo.

Foi então quando o bombeiro Peter Hall comenta que em outros incêndios de outras casas, também restaram quadros similares intactos. Foi a partir daí que o jornal THE SUN publicou a notícia com o tremendo título "A MALDIÇÃO DA CRIANÇA QUE CHORA".

Não foi por menos que naqueles dias posteriores às publicações do periódico, "choveram" cartas à redação do jornal de pessoas relatando incêndios, infortúnios e até manifestações espirituais como psicofonia associados aos quadros. Relatos de casas parcialmente ou completamente destruídas por incêndios em que sempre, restavam apenas os quadros intactos.

Diferente de outras, esta imagem que estampa a publicação no jornal é de uma obra de Govanni Bragolin.
Os Bombeiros Tentam Acalmar os Ânimos

A ansiedade generalizada ante estas histórias, levou o Serviço de Bombeiros de South Yorkshire a emitir uma declaração que tinha como objetivo desacreditar a conexão entre os incêndios e os quadros. Foi assinalado que o incêndio mais recente foi iniciado por um fogão elétrico bem perto de uma cama.

O Chefe de Divisão, Oficial Mick Riley disse que um grande número de quadros haviam sido vendidos e "qualquer relação com os incêndios é pura coincidência ... os incêndios não se iniciam de imagens ou uma casualidade, senão por atos negligentes e omissões". 
Riley revelou então a própria explicação do serviço de bombeiros: "A razão pela qual, esta imagem nem sempre foi destruída pelo fogo, é porque está impressa em tábuas duras de alta densidade, que são muito difíceis de queimar."

O chefe de bombeiros Alan Wilkinson, constatou pessoalmente que havia registrado 50 incêndios em casas que possuíam "quadros de crianças chorando" em 1973, mas recusou fazer qualquer conexão com o sobrenatural, ao comprovar que a maioria dos incêndios havia sido causado por negligencia humana.

É preciso frisar que naquela época na Inglaterra, foram comercializados entre 50 mil e um quarto de milhão de cópias  dos quadros de Bruno Amadio, portanto quase todas as casas de bairros operários e afins, possuíam ao menos um em seu interior. O único denominador comum era que todos eram exemplos de impressões baratas produzidas e vendidas em grande número por lojas durante a década de 1960 e 70. O agrupamento geográfico de tantos quadros, simplesmente refletia sua popularidade entre as comunidades de classe trabalhadora na parte do Norte da Inglaterra.

Para confundir mais as coisas, alguns "quadros das crianças chorando" que haviam se salvado nos incêndios, não eram reproduções de Bruno Amadio, mas sim, outros quadros parecidos de uma série chamada de "Infância", que foram pintados pela artista escocesa Anna Zinkeisen, quem morreu em 1976.

A Grande Queima de Quadros

A notícia da queima de quadros
promovida e publicada pelo THE SUN
A declaração do Serviço de Bombeiros não teve muito efeito em sufocar as chamas que o THE SUN estava feliz atiçando. Pouco depois, chegou a notícia de uma criança gritando que havia sobrevivido a um incêndio em um restaurante italiano em Great Yarmouth.

"Já é o suficiente", disse MacKenzie, diretor do jornal, aos seus leitores: "Se você está preocupado a respeito dos quadros de Bruno Amadio pendurando em seu lar, envie-nos imediatamente. Vamos destruir qualquer maldição para você ."

Os leitores preocupados, entraram em contato com o jornal para perguntar se eles deveriam se desfazer de seus quadros para evitar a queima de suas casas. "Claro", respondeu Mackenzie. "Mande para nós que faremos o trabalho por você. Os quadros das "crianças chorando" logo estavam empilhados na sala de redação, em montes de 3.7 metros de altura. Removeram armários para dar espaço e utilizaram uma sala de entrevistas pouco usada para armazenar os quadros.

Ao final de seis semanas de campanha, o editor do THE SUN teve que inventar uma maneira adequada do que fazer com 2.500 quadros que os leitores haviam mandado para o seu plano inicial de queimá-los no teto dos escritórios.

O plano foi vetado pela prefeitura de Londres e pelo corpo de bombeiros do Vale do Tâmisa, que se negaram a cooperar e denunciaram toda a campanha "como um truque publicitário barato". Soube-se que o serviço de bombeiros a nível nacional havia sido alvo centenas de telefonemas e visitas dos proprietários de quadros que pensavam que as obras estavam malditas, ou que foram feitos de um material inflamável perigoso.

Finalmente os quadros foram queimados em um caricaturesco evento, em uma fogueira no dia de Bonfire Night. Misteriosamente, em março do ano seguinte, o grupo empresarial proprietário do THE SUN sofreu uma violenta crise interna seguida de greves e outros infortúnios econômicos.

A queima dos quadros promovida pelo THE SUN. A moça na foto segura um quadro de Bruno Amadio, mas na pilha já em chamas, se pode ver os quadros de Anna Zinkeisen.
Por que os Quadros não Queimam?

Steve Punt, um escritor e comediante, investigou a maldição dos quadros para um programa de rádio da BBC 4, chamado de PI Punt. Embora o programa seja de natureza cômica, Punt pesquisou a história dos "quadros das crianças chorando".

A conclusão do programa, após testes na sala de pesquisa de edifício, é que as impressões foram tratadas com um tipo de verniz contendo um repelente de fogo, e que o cordão que segura a pintura na parede seria o primeiro a queimar e arrebentar em um eventual incêndio, resultando que o quadro despenque de "bruços" no chão e portanto, sendo melhor protegido das chamas.

Assista o vídeo onde tentam queimar um desses quadros:


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Bruno Amadio ou Giovanni Bragolin



Imagem que sustentou a existência e a
suposta adesão de Bruno Amadio ao fascismo.
A autoria desta obra é duvidosa.
Mas afinal,  quem foi Bruno Amadio, mais conhecido como Giovanni Bragolin?

Ainda não existem estudos definitivos e detalhados sobre sua vida e obra, mas a seguir mostramos as informações de maior relevância que encontramos sobre o artista:

Bruno Amadio foi um pintor que nasceu em Veneza (Itália) em 1911. Estudou as artes plásticas de maneira acadêmica, embora posteriormente desenvolveria uma técnica, pincelada e estilo próprios.

Por volta da década de 1930, Amadio teria aderido ao movimento mussoliniano se tornando um ardente fã do fascismo.

Dessa época artística de Bruno Amadio, se conseguiu recuperar a imagem de uma obra sua que retrata uma bela e gloriosa mulher disparando uma flecha com um arco, que segundo os dados disponibilizados inicialmente pelo site silentconsort, parece ter sido pintada em 1941.

Mas vale frisar que na época da publicação do referido site, a imagem era de baixa resolução e praticamente a única na internet e serviu de fonte base para inúmeras publicações e programas de televisão sobre o pintor.

Uma nova pesquisa agora em 2015, descobrimos que se trata da capa do livro "Italian Fascism and the Female Body: Sport, Submissive Women and Strong Mothers" por Gigliola Gori.

Se a obra na capa do livro foi mesmo pintada por Bruno Amadio, nós no momento não conseguimos descobrir.

Capa do livro de Gigliola Gori
(Nota do tradutor: Se a imagem da arqueira acima não for mesmo uma obra de Bruno Amadio, o argumento que sustenta que ele seria um ardente seguidor de Mussolini e que teria participado da Segunda Guerra Mundial é seriamente comprometido e por conseguinte, reduz de forma importante à mera especulação, que os modelos dos quadros teriam sido órfãos ou vítimas de guerra. Suprimindo esta referência usada até mesmo por grande revistas, canais de televisão e sites, não restaria quase nada do seu esboço de biografia.)

Após a Segunda Guerra Mundial, seu rastro se perde novamente, para ele ser encontrado pintando em Sevilla, na Espanha. Talvez por isso, abundem informações de que Bruno Amadio seria espanhol, quando na verdade ele era Italiano nato. Posteriormente teria passado a residir em Madri. Bruno Amadio utilizaria um pseudônimo para assinar os seus quadros: "Giovanni Bragolin".

É nesta nova época de sua vida onde começaria a pintar uma série de quadros hoje conhecidos como "As crianças chorando", que mostram imagens de meninos e meninas em primeiro plano de rosto e busto, de fisionomia triste com grandes e visíveis lágrimas escorrendo pelas faces.

Estes quadros foram posteriormente reproduzidos em lâminas de papel e tábuas compostas de serragem e resina, sendo amplamente comercializados por numerosos países do mundo principalmente durante a década de 1970 e 80. Atualmente, ainda são vendidas algumas reproduções.

Bruno Amadio voltou para à Itália na década de 1970 e se instalou em uma vila da cidade de Pádua. Há quem afirme que durante algum tempo, Amadio pintou quadros para turistas nessa cidade e também em Florência.

Em 1979 continuava pintando, segundo alguns depoimentos e teria falecido de câncer de esôfago em Pádua no ano de 1981.

Ele pintou entre 1000 e 2000 quadros durante sua vida! Claro que os mais famosos são os Quadros das Crianças Chorando, mas ele também pintou objetos, paisagens, cotidiano e cenas históricas.

Além dos "quadros das crianças chorando", Bruno Amadio pintou naturezas mortas de estilo acadêmico. Do resto de sua obra, infelizmente, há pouquíssima informação.
Uma outra obra supostamente de Bruno Amadio, à venda no Ebay.
A maioria de casas do mundo onde se encontram quadros de "crianças chorando" o que possuem é uma reprodução, uma impressão. A localização dos originais hoje em dia não está esclarecida do todo, no entanto, é possível ver na rede alguns leilões de quadros originais do pintor. Até o ano de 2009, esteve em exposição na casa de vendas norte-americana "Marshalls Brocante" um autêntico óleo sobre tela de Giovanni Bragolin pela quantidade de 3.800 dólares.
Screen shot da página de leilões online onde aparecem as obras aparentemente legítimas de Giovanni Bragolin.
Quem Foram as Crianças dos Quadros?

Apesar das lendas urbanas contarem que Bruno Amadio teria usado como modelos, crianças mortas ou órfãs, isso é apenas parcialmente verdade já que, as crianças que teriam inspirado suas obras, puderam estar diante de seus olhos durante a Guerra.

Bruno Amadio teria servido como soldado no exército italiano durante a Segunda Guerra Mundial e teria sido durante essa experiência que viu o sofrimento das crianças de diversas aldeias e cidades por causa do conflito. Essa angustiosa imagem teria ferido a sensibilidade do artista e posteriormente marcado de forma significativa a sua obra.

Tendo em vista que as crianças retratadas aparecem quase sempre maltrapilhas, sujas ou ante locais em ruínas, esta hipóteses aventada por várias fontes, nos pareceu bastante plausível. Mas o certo é que a pouquíssima informação obtida nesta pesquisa sobre Bruno Amadio, levantaram muito mais incógnitas do respostas definitivas.

Os Quadros das Crianças que Choram

Dificilmente Bruno Amadio teria recebido royalties pelas reproduções feitas a partir de sua obra. A maioria dessas foram vendidas principalmente na Holanda, Alemanha e Escandinávia.

Abaixo seguem as imagens dos "quadros das crianças chorando", apontadas como sendo do misterioso pintor:








As Falsificações

Um fato curioso que lança luz sobre o tema, é que originalmente teriam sido 27 pinturas "das crianças chorando" realizadas por Bruno Amadio, no entanto, existem muitas pinturas mais atribuídas a ele. Isso se deve às falsificações.

Abaixo segue algumas imagens de pinturas falsificadas, a maioria com a assinatura de "G. Brugolim"



Imitadores

Naturalmente que não podíamos deixar de mostrar as imagens de pinturas por vezes atribuídas a Bruno Amadio, mas que na verdade foram realizadas por outros notórios artistas e imitadores:

Dallas Simpson

 Jacqueline Fontanges

Francisco Masseria

Carlo Parisi

Origem Desconhecida

Outros muito conhecidos que, por incrível que pareça, também não são de Bruno Amadio segundo o site bragolin.weebly:



Segundo o site bragolin.weebly, a pintura que aparece quase intacta na foto acima, não é de autoria de Bruno Amadio.
Curiosidade: O Quadro da Criança Sorrindo

Bragolin fez uma pintura de uma criança sorrindo! É a única conhecida até o momento :)

Esta é uma única pintura de Bragolin que retrata uma criança sorrindo!
A Lendária Entrevista ao Fantástico

Como parte da célebre lenda urbana que circula pelo Brasil há décadas, o pintor teria dado uma entrevista ao programa de televisão Fantástico da rede Globo, onde Bruno Amadio se mostraria arrependido e teria pedido aos proprietários dos quadros que se desfizessem deles.

De fato, o referido programa de televisão realmente fez matérias sobre os quadros e o que estava acontecendo na Inglaterra em meados da década de 1980, no entanto, procuramos exaustivamente algum registro de que tal entrevista tenha realmente sido levada a cabo e não encontramos absolutamente nada, nos levando a crer que esta nunca aconteceu. 

(Se algum leitor possuir alguma reprodução em vídeo dessa tal entrevista com o Fantástico, por favor, entre em contato.)

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Pesquisa/Tradução/Adaptação: rusmea.com & Mateus Fornazari

Fontes (acessadas em 27/05/2015):
- Brasolin Weeblu
- MessBesast.com: THE CRYING BOY CURSE MYTH
- eBay: MEADOS SÉCULO MODERNA BRUNO AMADIO GIOVANNI BRAGOLIN AQUARELA SAN FRANCISCO 1960
- Barnes & Noble: Italian Fascism and the Female Body: Sport Submissive Women and Strong Mothers (Sport in Global Society Series)
- The Slightly Warped Web: CURSED PAINTINGS
- People.su: КАРТИНА, НЕСУЩАЯ СМЕРТЬ - РАЗОБЛАЧЕНИЕ
- The fortean Atheist: The Curse of the Crying Boy(s)
- BBC.co.uk: Your Paintings
- The Spoils of War: WN and Fascism, Anarchism and the Wonderful Wussy World of lefty, ‘do-gooder’ radio/podcasts
- HubPages: The Curse of the Crying Boy
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