16 de dezembro de 2014

Conto Assombrado: O Macabro Espetáculo do Silêncio

Um circo chega a uma cidade e em questão de dias assassinatos brutais de crianças começam a acontecer. Quem será o serial killer?

“É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que falar e acabar com a dúvida.” Abraham Lincoln.

Na árvore da vida, as raízes de um silêncio germinado pela insanidade são alimentadas pelas flores que brotam do caos da mente humana. Em um lugar onde a tranquilidade paira pelo ar o mal parece não conseguir fluir de forma alguma, mas a chegada de uma maldição ou castigo do destino pode transformar o habitat natural da paz de outrora em um cenário sádico e perturbador.

- Respeitável público! Senhoras e senhores, meninos e meninas, o Circo de Ose chegou à cidade São Luís! No picadeiro teremos palhaços, acrobatas, pernas de pau, trapezistas, malabaristas, equilibristas, números de ilusionismo, truques de mágica e domadores. Ria quem puder, seja feliz quem for capaz! 

Um carro de som com mais cores que as do arco-íris e adornado por balões e girassóis de plástico tal como os rostos dos habitantes daquela região, anunciava através de seus alto-falantes velhos e estourados a chegada de um entretenimento atípico para os moradores do Desterro, um bairro localizado no Centro Histórico de São Luís do Maranhão.  Em 1977 as coisas eram bem diferentes de hoje em dia e a violência ainda se escondia através das sombras cabalísticas dos casarões coloniais da cidade, portanto era comum contemplar crianças brincando e correndo pela rua, empinando suas pipas e apostando suas bolinhas de gude. Debaixo de um céu de baunilha é possível ver as crianças correndo atrás do automóvel que avisa sobre a vinda de um circo francês que, por coincidência ou não, trazia consigo a escuridão que ainda ocultaria com sangue e dor a bela luz do fim de tarde que aquele local possuía.

Todos as crianças do bairro estavam ali acompanhando a chegada dos carros com as atrações do circo, exceto uma delas, a pequenina Dalila, uma garotinha de 7 anos e dona de cachinhos loiros da cor do nascer do sol e olhos pintados com os pigmentos das folhas secas do outono. Ela levaria uma vida calma e plena se não fosse pelo fato de uma meningite ter atacado seu sistema nervoso que como consequência lhe transformou em uma vítima de afasia, ou seja, a bela mocinha perdera sua voz e sorria do palhaço que jogava confetes e serpentinas ao ar, mas não podia expressar com palavras como estava feliz por estar ali, assistindo algo tão magnífico e inédito em sua curta vida. O pai de Dalila, o fleumático e recatado Pierrot, era um delegado que já tinha aproximadamente 35 anos e se tornara pai solteiro logo após o nascimento de sua pequenina, pois sua esposa, Colombina, fugiu com um amante e nunca mais se ouviu falar na tal mulher. Alguns rumores de vizinhos fofoqueiros apontavam que Colombina enlouqueceu e matou-se enforcada com luzes de natal - aqueles “pisca-piscas” que se colocam nas árvores no fim de ano – e seu cadáver foi encontrado junto a uma carta onde estava escrito “A mentira faz nascer o remorso, mas não mentir é um dom que o mundo não merece!”.

Era incrível o calor que ali fazia. Os artistas circenses terminavam suas apresentações com as maquiagens borradas, mas ninguém se importava muito com isso e bastava observar os olhos compenetrados da plateia que se entendia fácil como o universo do circo é cativante. A magia e o encantamento do circo representam a vida como sonhamos e gostaríamos que ela realmente fosse. Palhaços para nos arrancar boas gargalhadas, ilusionistas e seus grandes truques para nos fascinar, trapezistas para trilhar com belos saltos os batimentos acelerados de nossos corações aflitos com medo de assistir o pior acontecer e um público aplaudindo carinhosamente os acertos e até falhas, encarando-as como parte das desventuras da vida no picadeiro. Todos nós sabemos que a liberdade desses artistas se mantém somente enquanto as luzes estão acesas, sob as tendas e lonas, cercadas de cadeiras e um júbilo que se vai junto aos trailers no fim de cada temporada.

Não demorou muito para que a primeira tragédia acontecesse. Depois de uma semana toda de apresentações e casa cheia, em um cenário que lembrava o quadro A Noite Estrelada de Vincent van Gogh, uma multidão ouvia os tambores rufarem e os primeiros holofotes serem ligados, enquanto atrás do camarim, dois palhaços discutiam por disputarem o amor de uma bailarina que ali trabalhava. Os aplausos do público abafavam os gritos de Benjamim, mas não o sorriso de vingança estampado na cara de Oliver que saciava suas vontades mais macabras regadas pelas lembranças da imagem de sua amada, Emmanuelle, cavalgando nua sobre o corpo de seu companheiro de picadeiro. Benjamim correu em direção ao outro lado das cortinas enquanto Oliver partiu em direção ao bar que ficava na esquina. Assistindo o pobre palhaço ensanguentado a agonizar, a plateia sorria sem saber que na verdade, aquela cena não fazia parte do espetáculo, eles não entendiam que ali era a sexta hora onde a cidade abriria suas portas para o mal.

O crime foi solucionado por Pierrot, pai da pequena Dalila, que prendeu Oliver ainda bêbado e jogado em uma sarjeta. O assassino confessou tudo e foi morto por outros presos dentro da cadeia. Alguns dias depois do desastre, um mímico começou a perambular pelas ruas do Desterro e ganhar uns trocados brincando com os moradores do local. Foi assim que ele se encontrou pela primeira vez com Dalila, a menina sem voz. Através de sinais eles se comunicaram e demorou poucos segundos para se afeiçoarem.

- Você também não consegue falar, moço? – Perguntou a menina por meio de sinais.

– Eu ganho a vida assim, mas não consigo falar, pois soldados do Regime Militar me torturaram e cortaram minha língua porque não entreguei os nomes de meus companheiros.

Explicou o mímico com uma expressão desgostosa em sua face que nem mesmo sua maquiagem conseguia cobrir.

- Por que esses soldados fizeram isso com você?

Questionou Dalila.

- Deixa pra lá! Isso é uma história muito longa! - Respondeu o mímico.

– Não fique triste moço! Seus pais devem morar lá no céu e terem orgulho de você. – 
Foi o que Dalila falou após ouvir aquele triste fato. Porém o seu pai, Pierrot, apareceu repentinamente e saiu arrastando a garotinha pelo braço e explicando que ela não devia falar com estranhos.

Mesmo com o crime que chocou a todos que ali viviam o Circo de Ose não parou e ainda tinha apresentações com casa cheia. Era uma tarde de domingo quando Dalila foi com seu pai ao circo, talvez por ter insistido tanto, a garotinha conseguiu arrastar seu genitor para ir até lá.  Em uma brincadeira, um mágico puxou Dalila da plateia e falou:

– Escolha uma carta, olhe o número contido nela e fale aqui neste microfone para todos ouvirem, bela garotinha! 

E a menina, sem conseguir falar, entra em pânico com a situação, mas tenta mesmo assim falar, porém só é possível ouvir alguns grunhidos que os mudos emitem ao tentar pronunciar algo. Todos começam a gargalhar do acontecimento, porém o mímico chega e antes mesmo que Pierrot faça algo, aparece e intervém na apresentação invadindo o palco e brincando com o mágico para disfarçar o constrangimento que poderia ser ainda maior. O mímico então, por meio de sinais, pede para que Dalila mostre com seus pequenos dedinhos qual o número que havia na carta que escolheu e então tudo se resolve.

Os passarinhos cantavam logo nas primeiras horas da manhã quando um grito desesperador ecoava pelos becos do Centro Histórico de São Luís. Uma mãe se deparou com o corpo de seu filho de apenas 10 anos, desmaiado e amarrado a um poste na frente do circo. Os moradores conseguem acorda-lo e logo observam que ele não conseguia falar, até que um dos moradores encontrou a língua da vítima dentro de uma garrafa de vinagre e marcada com o número 1 pintado de tinta preta. Os cidadãos, revoltados, correram até a delegacia e pediram ajuda ao delegado da região, Pierrot, e ele desconfia abertamente do mímico que vagava pelos arredores do circo. As investigações começam, mas nas noites seguintes mais duas crianças aparecem na mesma situação, com as garrafas marcadas com os números 2 e 3, respectivamente.

A população, possuída de fúria, ateia fogo no circo e todos os pais de família saem para caçar o mímico. As vítimas do crime bizarro, quando interrogadas, tentam explicar por desenhos e outras formas que quem fez aquilo com elas foi realmente um mímico, portanto não restam dúvidas que o culpado por tudo é justamente o artista forasteiro. Naquele dia ninguém conseguiu achar o criminoso, mas a loucura dos moradores era tamanha que os artistas do Circo de Ose recolheram seus pertences e foram embora no dia seguinte.

Agora a visão é ainda mais assustadora. Três crianças amarradas, fantasiadas de palhaços e as velhas garrafas de vinagres com as línguas de cada um dentro. Um grupo de pescadores que passava pelo local e que tentava prestar socorro aos meninos, avistou o mímico passando próximo ao local e, em uma perseguição, conseguem rendê-lo. Dalila, espantada com o barulho, acorda e vai até a janela e o que ela enxerga é terrível: os moradores espancavam o mímico que antes desmaiar ainda conseguiu cruzar olhares com a menina enquanto era arrastado para uma praça do bairro e, diante das portas da igreja principal do local, foi brutalmente esquartejado. Seus membros foram pendurados nos postes da rua onde Dalila morava e a cabeça, como se não bastasse, colocada bem na frente da casa da garotinha.

A paz parece voltar, mas o sossego durou exatos três dias. Outra criança apareceu com a língua arrancada e dessa vez o assassino foi além, após retirar a língua da vítima ele a esfaqueou até a morte. O número 7 pintado de sangue em sua camisa branca e sua boca costurada, como pode alguém fazer tal atrocidade numa crianças indefesa e inocente? Acidade entra em pânico com a sequencia dos casos e a essa altura ninguém sabe o que está acontecendo, pois o suposto culpado havia já havia sido morto.

É chegada a véspera do Natal. Luzes coloridas e o céu nublado tomam conta do local, mas o cheiro da morte ainda paira no ar. Dalila e seu pai não tinham outros familiares para se juntarem durante a celebração, sendo assim nunca comemoravam o Natal e na maioria das vezes compravam pizza, assistiam a um filme e encerravam tudo com uma boa noite de sono. Aquele ano não seria diferente e tudo ocorreu como o planejado, porém, quando o relógio apontava 3:00 da manhã, Dalila acordou desesperada por causa de um pesadelo e crianças quando se assustam por sonhos ruins correm sempre para os braços de seus pais. Ela saiu em disparada procurando Pierrot por toda a casa, não o achou e começou a chorar.

– Pai, onde o senhor se meteu?

 Era a única coisa que passava na cabeça da menina, mas ao chegar no segundo andar da casa, se esbarra de frente com o seu pai entrando pela janela de um dos quartos. Os olhos de Dalila estão com o dobro do tamanho normal, suas mãos e pernas tremem mais que os galhos secos de uma árvore durante uma ventania. Talvez fosse melhor que ela fosse cega ao invés de muda para que nunca enxergasse a visão macabra e frustrante daquele momento: Pierrot estava vestido com a mesma roupa do mímico e carregando a cabeça de mais uma vítima do labirinto de sua mente psicopata. Ele estava disfarçado e jurava que sua filha estaria dormindo tranquilamente, mas ao passar o corpo pela janela deu de cara com Dalila e, mesmo nervoso, conseguiu falar:

 – Minha pequena, eu posso explicar! Eu sei que posso! Ouça... 

Pierrot revela ali o porquê de ter se tornado o assassino em série mais enigmático daquele lugar. A maioria das pessoas é incapaz de entender como uma personalidade antissocial e criminosa, tal como a de um serial killer, é possível ser desencadeada entre nós. Às vezes as pessoas não entendem a diferença entre motivo e razão, há situações onde a sede por vingança nos faz beber do cálice da insanidade e nos transformam em criaturas bestiais para a sociedade, mas deuses intocáveis para as almas que ali habitam.

Dalila agora vai se se afastando, dando passos curto para trás, enquanto Pierrot - batizado pelo sangue das crianças inocentes que morreram para cicatrizar a ferida aberta pelos seus pais quando zombaram do fato de Dalila ser muda e não conseguir participar de um simples quadro de mágica no Circo de Ose - caminha vagarosamente rumo ao corredor que sua filha se encontra e com sua voz rouca e trêmula relata:

– Eu estou fazendo isso por você, filha! Não suportei ver todas aquelas pessoas no circo sorrindo e desdenhando por você não conseguir falar e prometi a mim mesmo que haveria vingança, olho por olho, dente por dente. 

Dalila começa a chorar e segura fortemente a mão da boneca de pano que era a única lembrança que tinha de sua mãe, mas Pierrot continua:

 – Filha minha, a punição nascida da dor de um pai honra, a punição do carrasco envergonha. Também sou um artista, igual o trapezista, a bailarina, o mágico e o palhaço, mas a minha arte é perpetuar o remorso e arrependimento nos corações daqueles que se julgam superiores. Se eles sorriram do fato de você não falar, cortei as línguas de seus filhos para que todos nós fôssemos iguais. Agora todas as crianças vivas e mortas nesse bairro são iguais a você, sabia? –
Pierrot abre os braços esperando receber um abraço caloroso da filha, todavia acontece algo que existe somente entre o real e o imaginário. Dalila consegue gritar:

– Socorro! 

Algumas vozes sussurram aos ouvidos de Pierrot e ele já sabe o que deve ser feito. Seus olhos agora estão revirados e ele saca sua Colt 2000 da cintura e diante de sua pequena Dalila, ele fala suas últimas palavras:

- O que os olhos não veem a paranoia inventa...

O cano da arma está na boca do assassino que calou várias crianças e atormentou os dias tranquilos de uma comunidade tipicamente comum. Tudo parece estar em câmera lenta naquela situação, exceto a bala que atravessa a cabeça de Pierrot, vinda direto de sua própria arma e disparada pelos seus próprios dedos. Existem coisas na vida pelas quais vale à pena lutar até o fim, e para aquele homem, a honra e respeito pela sua filha, era um bom motivo.

Um show de horrores que nenhum circo não poderia apresentar, um macabro espetáculo do silêncio.

Conto de Terror enviado por André Nadler Serra, que é vocalista e guitarrista da banda JackDevil. Envie o seu também!
Toda terça-feira tem conto de terror publicado aqui no blog.
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