4 de novembro de 2014

Conto Assombrado: O Servidor da Noite





Uma desilusão amorosa o fez fazer um ritual que ele encontrou em um site na internet. Arrependido, tentou para o ritual na metade, mas não existia essa possibilidade...

A moça loira na tela de TV caminhava com apreensão exagerada por um estreito corredor fracamente iluminado. À sua frente a porta entreaberta de um quarto que prometia, junto de uma sinistra música de volume crescente, presentear o espectador com uma revelação ou um grande susto. Mas antes que a cena fosse concluída a imagem da velha TV desapareceu, mostrando no lugar o reflexo de um jovem frustrado.

Um latido ecoou em algum lugar.

Jackson xingou baixinho e, sem se levantar do sofá, esticou o braço esquerdo preguiçosamente, tateando a parede até encontrar o interruptor de luz. Apertou o botão e nada aconteceu.

Sem energia, droga — disse a si mesmo, dando um longo e tedioso suspiro em seguida, voltando a encarar o próprio reflexo fracamente discernível no televisor. Encarou a si mesmo, os cabelos escuros desgrenhados e os olhos que mais pareciam dois pequenos buracos negros num rosto redondo e pálido, e então se deu conta do inevitável: O filme não o estava agradando mesmo, era apenas uma tentativa de fuga, de distrair seus próprios pensamentos, e aquela queda de energia era como se a vida estivesse lhe dizendo que não adiantava tentar escapar, a realidade o alcançaria mais cedo ou mais tarde, então que a encarasse agora. Afinal, ele a havia perdido, sabia disso. Por mais que tivesse lutado para mostrar o quando a amava e o quanto estava disposto a ceder e sofre por ela, nada adiantou. "Você é alguém muito importante pra mim, Jack, mas eu não acho que posso corresponder o que você espera de mim", ela disse da última vez, após aquele beijo estranho, um beijo por obrigação. Ela estaria com aquela maldita pessoa agora? Bem provável. enquanto ele, Jackson, estava ali, solitário no escuro, um brinquedo descartado.

E havia feito tanto por ela, até mesmo...

Novamente os latidos na rua e mais nenhum som, como se toda a cidade tivesse desaparecido junto com a energia, deixando para trás apenas a sua casa e um cachorro vagabundo qualquer do lado de fora.

Ele andou até a janela da sala e olhou para a rua. Sim, pelo jeito o bairro todo estava às escuras; apenas a fraca iluminação de uma lua minguante dava contornos aos telhados e muros, e a um robusto cachorro preto sentado sobre as patas traseiras diante de seu portão. Os olhos luminosos do bicho causou-lhe um súbito arrepio.

Jackson se afastou da janela e voltou para o sofá, dominado por presságios.

Um cachorro. Lembrava-se de um cachorro na ilustração daquele site. Será que... não, era apenas mais um desses sites idiotas feito para idiotas, e mais idiota ainda fora ele por recorrer a meios tão desesperadamente patéticos. Mas o que foi isso agora, aquele barulho no quintal? Não seja idiota, reprimiu a si mesmo em pensamentos, encarando o rosto assustado no reflexo. Estava triste, frustrado e sozinho no escuro... e com medo. Medo do quê? Da coisa que ele podia ouvir novamente caminhando pelo quintal. Passos leves e ritmados de patas.

— Apenas um site idiota — repetiu, balançando a cabeça, e, para seu total espanto, o reflexo não repetiu o mesmo movimento, ao invés disso arregalou os olhos e apontou em direção à janela. Jackson não precisou mover o olhar para onde seu reflexo apontava para saber que estava sendo observado.

Num rompante, deixou escapar um grito agudo e pulou do sofá, tropeçando e engatinhando desesperado até conseguir se levantar e correr para seu quarto, trancando a porta em seguida e indo se encolher num apertado espaço entre a lateral do guarda-roupa e a parede.

Estava ficando louco, só podia ser isso.

Barulhos novamente, vindos do local de onde ele havia acabado de fugir, como se algo tivesse saltado e aterrissado no piso da sala. E agora, que som era aquele? Algo farejando. Um objeto metálico caindo no chão.

Jackson estava imóvel enquanto escutava os ruídos, gotas de suor escorrendo-lhe pela face, a respiração lutando com dificuldade para sair de seus pulmões. E a lembrança do site lhe voltou a mente mais uma vez, mas não podia ser, era uma ideia ridícula. Ele estava pateticamente desesperado quando encontrou aquele site na internet, pois tudo o que tinha feito até então havia falhado e ele precisava de mais uma possibilidade, qualquer uma, mesmo que tivesse que apelar para o oculto. Ele nunca fora de acreditar em misticismo e em nem nada do tipo, nem mesmo acompanhava a mãe à igreja quando esta insistia, mas mesmo assim, há sete noites atrás, enquanto chorava copiosamente, vendo a grandiosa história de amor que havia imaginado lhe escapar por entre os dedos, mesmo assim ele fez o que fez: seguiu as orientações de uma página de internet que havia encontrado por acaso, pegou um toco de vela que encontrou na gaveta da cozinha, um prato e separou um generoso pedaço de carne crua da geladeira. Levou tudo isso para a esquina da rua que estava deserta naquela hora, às três da manhã, e sem se preocupar se alguém por acaso o visse ou não, Jackson deixou o prato com a carne e o toco de vela ao lado de uma árvore e leu os ridículos versos de um feitiço, desejando que as coisas fossem diferente, que Amanda mudasse de ideia e que qualquer um que ficasse entre os dois fosse destruído. Sim, destruído foi a palavra que usou. Mas não era dos versos que se lembrava e sim da ilustração de um enorme cachorro negro de olhos amarelados localizada ao lado do texto no site que dizia: "por sete noites uma oferenda é deixada ao Servidor da Noite".

Mas não foi assim que aconteceu, no dia seguinte a primeira oferenda Jackson se envergonhava do que havia feito, e agora ele estava ali, morrendo de medo e imaginando coisas.

Um rosnado longo fez seu sangue gelar, parecia até que seu coração havia parado de bater, principalmente quando o som de garras raspando a madeira da porta se seguiu. A porta inteira começou a ser sacudida pela coisa do outro lado e Jackson levou as mãos a cabeça e começou a gritar desesperado.

— VÁ EMBORA! EU NÃO TENHO NADA PARA VOCÊ!

Uma pancada forte e a porta se abriu num estrondo, e assim que Jackson avistou a silhueta canina no portal, fechou os olhos com força e começou a berrar feito uma criança. Sentiu que urinava nas calças e que seu coração batia tão rápido e tão forte que doía, estava ficando sem ar.

— EU NÃO TENHO NADA PARA VOCÊ! VÁ EMBORA! VÁ EMBORA!

O enorme cão rosnou, chegando tão perto que Jackson pôde sentir o bafo gelado e fétido da coisa...

Acordou sobressaltado, agarrando os lençóis com força, girando a cabeça em todas as direções. Mas aquele era apenas seu quarto e nada de incomum acontecia a sua volta. Fora apenas um pesadelo, e agora ele acordava e se deparava com a luz do sol banhando seu quarto com calor. Jackson suspirou aliviado, ainda tremendo, sentindo os lençóis encharcados de suor.

Se levantou e foi ao banheiro, e por um segundo temeu olhar o próprio reflexo no espelho da pia, mas estava tudo bem, nada de errado com o seu reflexo. "Foi só um sonho, só um sonho", ele repetia, seguindo para a cozinha e enchendo um copo d'água. Podia ouvir sua vizinha cantarolando um hino religioso no quintal ao lado, e de algum modo aquilo o tranquilizou ainda mais. Ligou a TV na sala e seguiu para a cozinha, onde preparou café, e sentou-se à mesa, bebericando numa xícara enquanto escutava os sons do programa matinal, mas sem dar muito atenção a este. Contra sua vontade o pesadelo voltou-lhe a mente, assim como a ilustração do sinistro cachorro na página de internet, e de um outro trecho do texto que dizia "uma vez iniciado, o processo deve ser cumprido até o fim, pois o Servidor da Noite sempre cobra suas oferendas".

— Esqueça isso! — exclamou, e para tentar se distrair resolveu mexer no celular, onde encontrou o alerta de três chamadas não atendidas e uma mensagem de texto, todas de Amanda. Seu coração deu um salto de alegria, a súbita explosão da esperança dos apaixonados, e, com as mãos tremendo, leu o texto na pequena tela.

"Jack, espero que me perdoe por tudo, mas não paro de repensar em tudo o que você me disse e acho que cometi um grande erro. Espero ter tempo de consertar essa merda toda. Vamos conversar, por favor. Me liga de volta."

Jackson leu a mensagem mais de três vezes como se não pudesse acreditar naquilo, e quando por fim pareceu acordar de um sonho, sustentando um sorriso de um canto a outro do rosto e lágrimas nos olhos, ele ligou para o celular dela. Chamou e chamou e nada de sua amada atender. Ligou novamente, uma, duas, cinco vezes e nada. Pro inferno aquele telefone, ele iria até ela pessoalmente. Lavou o rosto mais uma vez, ajeitou o quanto pôde o cabelo e saiu às pressas. Cruzou as calçadas e ruas quase correndo e com um sorriso infantil nos lábios, ele até mesmo cantava, praticamente não via para onde andava, os pés comandados apenas pela força de seu amor. E de repente lá estava a rua desejada e a casa de Amanda se encontrava logo atrás de um tenso grupo de pessoas que se reuni em círculo, em frente ao portão.

O sorriso de Jackson foi desaparecendo a medida que ele avançava em direção ao grupo, dando lugar a uma expressão assustada e cheia de incredibilidade.

"Minha Nossa Senhora, mas como isso aconteceu?" uma voz de mulher dizia com espanto, do meio da multidão, enquanto uma outra mulher berrava de desespero. "Ela foi encontrada assim, parecem mordidas". "Tão bonita e morrer assim...". Uma ambulância dobrava a esquina com seu agourento barulho de sirene. "Parece que foram cães de rua". "Ninguém a ouviu gritar e nem nada". Jackson teve dificuldades de avançar em meio ao grupo de pessoas, e quando por fim conseguiu se deparou com uma mãe aos prantos chorando ao lado do corpo ensanguentado de sua filha. Jackson sufocou um grito, levando as mãos à boca, reconhecendo os cabelos castanhos de Amanda, o rosto bonito sem vida, a cabeça quase separada do corpo que exibia assombrosas dilacerações.

Jackson foi andando para trás, querendo fugir daquela terrível realidade. Queria estar sonhando de novo! Queria acordar! Acabou tropeçando no nível da calçada e caiu de costas. Sua visão ficou turva e o desmaio foi inevitável, mas não antes dele virar a cabeça para o lado e ter um rápido vislumbre de um cachorro observando ao longe.

O Servidor da Noite sempre cobra suas oferendas, de um jeito ou de outro.

Conto de terror escrito por Fabio Alex, que é ilustrador. Confira seus trabalhos:
Tumblr: http://fabioalexworld.tumblr.com/
Deviant Art: http://fabioalexworld.deviantart.com/

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