12 de agosto de 2014

Conto Assombrado: Chicago

Aquele casal humilde do interior agora era outro, bem sucedido, que mudara-se para Chicago. Só com o que era para ser o ápice de alegria, acabou se tornando o ápice da tristeza para um deles...

Corria o ano de 1974, um casal no cair da noite da iluminada metrópole, vai com o corretor ver o novo apartamento... Sem exitar, pois já mobiliado e bem decorado fecharam imediatamente o negócio, trocavam a pacata Janesville por Chicago, ele, um jovem e promissor programador da IBM, e ela, professora da Universidade de Illinois... Parecia um sonho! Já que em muito pouco tempo, eles viram suas contas bancárias "engordarem" como nunca antes haviam imaginado.

Era o início da éra da Informática, dos sistemas integrados de informação, a IBM, líder então no setor, inovava com o lançamento de "moderníssimos" e potentes computadores. Ela ministrava aulas de Filosofia, ganhava bem menos que o marido, porém com apenas 24 anos, aquele era o tempo... Ele recebia promoções seguidas e foi enriquecendo junto a esposa, logo o velho Ford deu espaço a dois belos Mercedes-Bens, das janelas do 30º andar, dava para ver uma imensidão de luzes, que cobriam todo o espaço, prédios menores, ruas, as grandes avenidas do "West Garfield Park", ela as veses, debruçava-se no vidro e olhava para a fluorescente Avenida Dwight Eisenhower, já a noite, os carros fervilhando pelas largas ruas, faria um ano da nova vida, eram eles sem saber, os primeiros "yuppies". Colocava no novíssimo "Hi-fi" seu disco favorito e jantava sozinha na imensa mesa de vidro da copa ouvindo o melancólico piano da canção "Color My World"... da banda Chicago (belíssima, escute no final do texto), letra essa que o personagem implora amor, um pouco de atenção da pessoa amada, evoca lembranças e pede num derradeiro sussurro para "Colorir seu mundo"... Uma banda de rock que fazia muito sucesso, nas mídias, nas críticas... Mas aquele piano dizia outras coisas à ela...

Ele voltava sempre muito tarde, ela já há muito repousava, ele, acariciava seus cabelos longos e deitava-se à seu lado... Ela saía pela manhã e ele ainda dormia... Eles não se viam, pois o tempo estava completamente incompatível com a rotina de antes... Quando ele não trabalhava, se viam aos Domingos, o que era muito bom, pois ela sentia-se muito infeliz com aquela solidão... Chicago tornara-se sua "prisão de vidro"...

Ela ia as compras no sábado e sentia um pouco de prazer em baixar a capota da Mercedes e sentir o vento, os odores, levava consigo alguns cassetes, mas "Color My Word" era presença constante... Na "Dan Ryan Expy" existem muitas lojas, e o cheiro do mar era mais evidente que no "West Garfield Park"... Voltava ela para o apartamento ao entardecer... Seu mundo era "Colorido" de luzes, perfumes, grifes, modas, mas nenhuma amizade leal fizera... A cidade grande é muito solitária para certas almas, mais sensíveis...

Pensava em engravidar... Ter um filho seria uma ótima idéia! Realizaria seu sonho de se tornar mãe e teria para sempre a "melhor das companhias"! Mas como? Se pouco via o marido, ele tornara-se um estranho... Parou com os anticoncepcionais...

E a noite, quando o sol baixava pelas vidraças até desaparecer entre os prédios menores, o disco rodava "Color My World"... Dentre uma taça ou outra de Martini, sonhava descomposta sobre o estofado italiano...
Lembrava de quando o conhecera, técnico em eletrônica, ela estudante... Do casamento humilde e da agora longínqua Jannesville... Ficava ela, mais longe de Jannesville a cada dia assim como das lembranças... Doces das caminhonetes a trafegarem ruídosas, dos doces caseiros dos vizinhos e até das "fofocas" que as velhas senhoras faziam na praça...

Na sede da IBM Illinois, ele diante do comando de um novo projeto... Maior salário... Menos tempo...
Ela, na Universidade, se apegava a qualquer olhar "amigo", mas nada sanava sua saudade e sua necessidade de conversar... Mas com quem?

Tomava "Valium" como se fossem balas... Estava claramente doente, mas ninguém percebia... Suas lágrimas caíam em vão no tapete árabe da sala de estar... Suas mãos escorregavam e marcavam os vidros, gritava, alto, muito alto, chora, quebrava objetos e depois recolhia os pedaços e tentava dormir... O Cassete Player foi então, da cozinha para sua cabeceira... Sessenta minutos gravados com a mesma música, "Color My World"... Isso a fazia dormir...

Não tinha uma religião... Na verdade clamava até para os painéis das paredes que aliviasse seu sofrimento... Mas como?

Tentaria arranjar um "amante" então... Na Universidade?

Começou a interpretar os olhares dos alunos como olhares masculinos... Era muito bela, porém em nenhuma das investidas obteve sucesso nem ao menos em encontrar um amigo compatível, pois além de mestra, sua indumentária e sua Mercedes afugentavam gente que ela pensara atraír... Observava os jovens com seus VW Beetle e seus antigos Ford Mustangs, tratavam na como mestra, tentara se enturmar com os jovens, mas foi fortemente rechaçada, numa Van cheia de estudantes, fumando baseados, a mestra chegara... Não queria ser mestra, queria voltar a sorrir... E na pintura psicodélicamente colorida lembrou da música, se virou e dirigiu-se a seu carro...

Que tipo de vida estava levando? Já não sorria e nem mais chorava, apenas ouvia a banda CHICAGO ecoar alto pelos enormes cômodos envidraçados... Queria por um fim, o amor não era suficiente para suportar aquilo, a tensão aumentava dia após dia mas como fujir e deixar tudo? Dirigir até Jannesville para encontrar o que?

Ela escolhera Chicago para sua morada, e culpava-se... Sentia medo da solidão, não mais suportava...
Sentou-se no tapete com o disco a tocar... Depois de duas ou três doses de Martini, duas ou tres cartelas de "Valium" e terminou a garrafa... a faixa do disco se repetia ela sorria sentada no tapete, chorava a fazer o delineador negro lhe borrar todo o rosto... Ninguém a ouvira, seu apelo soou mudo a todos os ouvidos da metrópole. Acariciou seu ventre, não engravidara... Não mais engravidaria. Seus sentidos foram se turvando aos poucos e desapareceram como uma luz que se apaga, já não sentia ódio, já não sentia nada, então, se entregou aquele sono que soava delicioso e reconfortante...

Nesse exato momento, seu marido diante de uma pauta de reunião, viu seu pequeno rádio ligar e tocar... O piano melancólico e a letra apelativamente dolorosa da música favorita de sua esposa, imediatamente soube que algo errado estava ocorrendo, mas a música soou por todo o prédio da IBM Illinois, nos táxis da "Bridgeport", nos rádios de todas as donas de casa, nos carros de passeio, nos alto-falantes, nos caminhões de entregas...

Toda Chicago dessa vez, ouvira seu apelo...

Amigos leitores ouçam a música que é bela e pensem nessa velha história, deixem o dia, a vida de alguém mais "Colorida", ouçam sua voz... Pois saibam que existem diversas formas de falar...

Conto de Terror enviado pelo usuário Celsinho. Envie o seu também!
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