19 de agosto de 2014

Conto Assombrado: Camila

Uma entediante viagem de barco muda quando ele comece uma linda mulher que faz todo o seu mundo mudar...

Uma pequena família está sentada a mesa. A mãe brinca com sua filha enquanto espera o seu jantar ficar pronto. Ela bate na mesa algumas vezes, depois bate palma, e sua filha repete os movimentos. Nota-se que ela está cantando algo, seguidos de risos que parecem alegrar mais ainda a sua filha. Mas o barulho não deixa ninguém escutar o que ela canta.

Em uma mesa próxima há duas senhoras comendo e conversando alegremente, parece falar do passado, ou de algum assunto que faz da jovem que as acompanha ficar entediada. Os olhos da moça circulam o ambiente a procura de algo que a distraia, mas nada na sala lhe agrada, se perdendo no tédio que exala de sua mesa.

Algumas pessoas sentam em bancos que circundam as mesas, cada uma com seu prato na mão, saboreando a refeição, assistindo ao jornal que passa na televisão, ou conversando com seus amigos e familiares que estão ao lado. Um garoto se levanta e passa pelo local, joga um papel no lixeiro e volta para a sua mesa. Carlos acompanha, com os seus olhos, esse rapaz.

Foi quando este sujeito passa por uma mesa que Carlos observa algo que realmente lhe interessava.

Até agora a viagem estava chata, ficava mandando algumas mensagens pelo celular enquanto observava as pessoas se alimentando na lanchonete do barco. Aquele rapaz, que passou por Carlos, sem querer, acaba tropeçando em uma cadeira. Nela havia sentada uma moça incrivelmente linda.

Logo se encantou por ela. Viu quando ela se levantou para ajudar o rapaz, criar toda aquela formalidade, pedir desculpas enquanto ouve o rapaz fazer o mesmo, cada um assumindo a culpa pelo tropeço. Pessoas que não se conhecem sempre fazem isso para demonstrar educação.

Ele observou a cena calmamente, se divertindo em alguns momentos. Observou os detalhes de seu corpo. Cabelos loiros, com algumas mechas sob o rosto, pele clara, olhos castanhos, e o óculos de grau que usava deixando-a mais encantadora.

Mas foi o sorriso dela que o deixou totalmente fascinado.

Seu celular vibrava, mas ele já não se importava com as mensagens que estavam chegando. Sua atenção estava toda voltada para aquela mulher que lhe encantou. Ele queria conhece-la, queria toca-la, queria beija-la. Ele a queria.

E nem imaginava que a teria.

O cheiro dela era profundo e ficou gravado na memoria dele de tal forma que ele ficou descontrolado. Teve a sorte de sentir o perfume quando ela passou pelo seu lado para subir a escada que dava acesso ao bar. Ele colocou o celular no bolso, esperou alguns minutos e subiu.

Procurou em cada canto do lugar por ela. Seu coração acelerou, estava ansioso, o suor escorria pela sua testa. Enfim a viu. Estava sozinha, sentada em uma cadeira olhando o rio e a floresta ao longe, em suas mãos havia um refrigerante.

Ela estava pensando nas primeiras coisas que ia fazer quando chegasse à cidade. Sua família estava se mudando, logo sua cabecinha estava cheia de planos. Pensava em cada detalhe, em como ia arrumar o quarto, que lugares iria querer conhecer primeiro, como seria sua escola nova. Seus pensamentos estavam tão profundos que acabou deixando cair um pouco de refrigerante em sua camisa. Ela olhou, sem acreditar, e quando ia brigar consigo mesma uma mão, segurando um lenço de papel, surgiu na sua frente.

Ela seguiu aqueles braços até chegar a um rapaz que sorria docilmente e tinha olhos brilhantes. Aquilo lhe chamou a atenção e, sem jeito, pegou o lenço, agradeceu e começou a se limpar.

- Posso me sentar aqui?- disse ele apontando para uma cadeira que estava ao lado dela que, no momento, estava sendo usado para guardar sua bolsa.

- Claro, por que não?

Então sentou feliz por ter tido a oportunidade de conhecê-la. Por seu olhar periférico percebeu que o rapaz ficou a olhando por um tempo. Sentiu-se intimidada por ele estar invadindo o espaço dela com aqueles olhares, e tímida, por ter se encantado e passado aquele vexame com o refrigerante na frente daquele rapaz.

- Camila, prazer.

- Nossa como eu fui indelicado. Meu nome é Carlos. O prazer é todo meu.

Após os cumprimentos eles começaram a conversa. Ambos estavam encantados com o outro e quem os observava de fora pensava que o casal se conhecia há anos. Estavam muito à vontade.

- Gostei muito de você – disse Carlos olhando nos olhos dela.

Ela se retraiu, mal o conhecia e aquela informação vinda, assim, do nada, fez o coração dela pular. “Que loucura!” pensava. Não conseguiu responder, somente fixou seus olhos brilhando nele e demonstrou com o corpo que ansiava por um beijo. O corpo dele também correspondeu aos desejos carnais do momento. Seus olhos percorriam o rosto dela. Mas uma força que desconheciam fez recuarem, e o silencio tomou conta do ambiente por um tempo.

Foi então que perceberam que não estavam sozinhos, uma musica tocava ao fundo, vindo do bar, risos e palavras exalavam no ambiente vindo dos grupos de pessoas que se divertiam depois de algumas garrafas de cerveja.

- Você dorme cedo? – perguntou ele querendo quebrar o silencio.

- Sim, mas quando viajo de barco eu não durmo. Não consigo com o barulho desse motor.

- Entendo. Eu tenho que ir ver as minhas coisas, arrumar e pegar algo. Não quer encontrar comigo mais tarde na lanchonete?

- Mas não vai ter ninguém lá.

- Pois é, poderemos ficar a vontade.

Ouviu isso olhando o sorriso calmo que ele demonstrava. Aquilo lhe acalmou. Retribuiu o sorriso e disse:

- Tudo bem. Nos veremos lá daqui a duas horas. Pode ser?

- Perfeito.

Então se levantou, beijou o rosto dela e saiu. Ela ficou lá, olhando a paisagem, suspirando, acalmando o seu coração e pensando se não estava ficando louca.

- Carlos? Você já está aqui? – disse Camila ao entrar na área da lanchonete, que estava deserta e escura demais para ver um palmo a sua frente.

- Sim, estou sentado aqui no fim.

Foi andando devagar, esticando as mãos para não bater em nenhuma cadeira no caminho, até que sua mão encontrou a dele. A guiou até o banco e lá se sentaram.

Conversaram por alguns minutos até que Camila sentiu um leve toque em seu rosto. Era a mão de Carlos lhe acariciando. Ela fechou os olhos se entregando a sensação, simples mais prazerosa, leve mais intensa.

De repente seus lábios se tocam. Seu coração vai até a boca, o beijo é muito bom. O calor do momento é aconchegante e o leve toque na cintura força mais ainda a aproximação de seus corpos. Ela sente a mão dele subindo sua coxa, entrando no meio de suas pernas. Sua respiração fica ofegante. Ela começa a se entregar ao prazer do momento até que...

- Por que parou? – Pergunta ela, ofegante, sentindo o corpo dele se afastando. Ela não entende
o que houve.

- Tenho que fazer algo.

- O que?

Percebe que ele se levanta, mas não sabe para onde. O chama, mas não tem resposta.

Uma lagrima começa a querer sair de seu olho esquerdo enquanto fica pensando o quanto foi burra. Se entrega cada vez mais a esses pensamentos e nem percebe o movimento perto dela.

Um barulho de corrente sendo jogada no chão a traz de volta a realidade.

- O que foi isso?

Antes que tenha alguma resposta ou que levante para tentar, inutilmente, ver o que está acontecendo, algo bate em sua cabeça violentamente, fazendo-a cair no chão, totalmente tonta. Alguém puxa seu cabelo e amarra um pano em sua boca. Esta sem força para gritar e, agora amordaçada, é quase impossível. Uma mão firme pega seus braços e a algema. Fazem o mesmo com as pernas. Escuta alguém arrastando uma corrente, e algo bem pesado.

Ela começa a chorar, não tem forças para lutar contra o seu agressor. Por vários momentos procura não desmaiar. Enquanto está sendo arrastada tenta se debater, mas sua tentativa foi em vão. Ele para, prende aquela corrente nas algemas de sua perna, a segura e a levanta em seus ombros, o cheiro dele era familiar, o conhecia. Seus olhos se abriram no escuro, não para tentar ver, mas de espanto por saber quem era. Tenta se debater, novamente fracassou.

Seu coração se enche de medo ao sentir a brisa batendo em seu corpo e percebe que esta na beira do barco. Não há ninguém lá que possa salva-la. Ninguém a verá sendo arremessada, algemada e acorrentada em algo que não sabe o que é.

Suas lagrimas escorrem pelas costas daquele homem, não há o que fazer. Não tem forças, não ha como gritar nem reagir e sua cabeça lateja de dor. Simplesmente se entrega.

- Eu disse que iria fazer algo. – disse o homem antes de arremessa-la.

Ela chora, sente seu corpo flutuar enquanto é jogada pra fora do barco. O frescor da água gélida arrepia sua espinha e o peso do que está acorrentado a ela puxa-a para o fundo do rio. Todos os seus planos, toda sua vida, tudo o que desejou um dia vai se esvaindo a cada gota de água que entra em seu pulmão.

O dia amanhece e o barco atraca no porto, as pessoas saem. Carlos está saindo, cansado, carregando sua mala na costa. Pensando na noite anterior. Não conseguia parar de pensar na Camila. Queria saber o porquê ela não o esperou, o que tinha acontecido naquela noite.

Algo lhe chama a atenção. Ele olha e vê uma mulher chorando e um homem, provavelmente o marido dela, tentando acalma-la. No lado havia um jovem rapaz conversando com dois policias que estavam tomando nota do que ele falava.

Carlos se aproxima de alguém e pergunta o que estava acontecendo, e a resposta faz o mundo de Carlos cair. O homem disse que a filha daquele casal sumiu essa noite do barco.

- E você sabe o nome dela? – disse ele assustado.

- Olha, pelo que parece é Camila Nogueira.

A informação o faz ficar tonto. Coloca a mala no chão e se apoia na parede. Depois de alguns minutos respirando profundamente resolve sair de lá.

Na frente do porto ele se encosta na parede e fica pensando em tudo o que havia acontecido. Fica pensando se ela se jogou do barco ou se aconteceu alguma outra coisa. De repente nota algo estranho, um homem alto, de jaqueta, sorria para ele enquanto entrava em um táxi. A manga da roupa dele estava suja de sangue, igualmente nas costas. E o rosto dele era familiar.

O táxi dá partida e Carlos não tira os olhos daquele homem que também o encara, sorrindo maliciosamente. De repente vem um flash em sua cabeça e suas lembranças o levam de volta ao bar do navio. Se lembra de Camila, da conversa que tiveram e de quando ela ficou triste ao falar do ex-namorado. Comentou com Carlos que ele tinha um ciúme doentio, que já havia a agredido e que ele prometerá vingança. Seu coração disparou quando ele se lembrou da foto que ela mostrou desse rapaz. Não tinha como se enganar.

Aquele homem do táxi era o ex-namorado dela.

Carlos volta-se ao barco e vê a família de Camila em prantos. Ao longe vê a mãe dela sentado no chão, chorando, enquanto o filho dela tenta acalma-la. O pai está encostado na parede, igualmente choroso. Agora ele sabia o por que a Camila não o aguardou. Agora sabia o que havia acontecido.

FIM

Conto de terror enviado pelo leitor R.M. Owl. Clique aqui para enviar o seu.
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