1 de julho de 2014

Conto Assombrado: A Volta de Al-Lat

Conto que narra a vingança de Al-Lat, divindade feminina da península arábica, teve seu templo destruído sob as ordens do próprio Profeta Muhammad.

Muhammad Ibn Abbas, típico comerciante da região de Najeed, passava com sua caravana, com destino à Mekka, quando uma tempestade de areia surgiu no entardecer do deserto, já perto da hora de assentar a caravana para o descanso. Seria algo normal, se quando ao fim da tempestade não fosse notado o cadáver devorado, deixado apenas aos ossos, de um dos camelos de Abbas. O comerciante e seus ajudantes, assustados, partiram em retirada e enfrentaram parte da escuridão do deserto em busca de abrigo.

O silêncio dos aterrorizados foi quebrado quando Abdul El Malik, filho de um antigo saher (feiticeiro) da região, cochichou para quem estava perto, sem a aparente intenção de dirigir a palavra a alguém em específico:

- Al-Lat, Al-Lat, é a sua vingança.

Al-Lat, antiga divindade feminina da península arábica, teve seu templo destruído sob as ordens do próprio Profeta Muhammad. É a divindade que habitava na Kaaba e teve seu ídolo destruído. Para espanto de todos, Abu Khaled, um dos empregados da caravana, decidiu enfrentar o misterioso comentário:

- Auzubillahi![1] Não diga tolice! Os ídolos foram destruídos, a adoração às falsas divindades também. Não há o que temer. O que ocorreu foi o ataque de algum animal selvagem, que se aproveitou da tempestade para atacar e devorar o animal. – disse o piedoso muçulmano, mas que em seu íntimo sabia que a hipótese de uma beste fera não era capaz de explicar o ocorrido.

Os homens tentaram esquecer o ocorrido e evitar comentários, pois sabiam que tanto o pânico como a troca de acusações de feitiçaria eram prováveis caso o assunto voltasse a correr.

Depois da refeição e do chá, todos foram para o descanso nas tendas, exceto AbadallahIbn El Harb e Abu Khaled que se reuniram em volta de uma fogueira para conversar. Cochichando, Abu Khaled foi o primeiro a dizer:

- Eu sabia que não demoraria a ocorrer. Ela está vindo, acompanhada de sua antiga horda. Não há saída, todos vamos morrer. 

- Sempre há uma saída, meu bom homem. Allaah não abandona seus crentes, o que ocorreu foi apenas uma das traquinagens de Shaitan, não há motivo para desespero. – disse o confiante Abdallah, descendente de Abu Soufyan, o homem que destruiu a estátua de Al-Lat na cidade de Tarf, a mando do próprio Profeta Muhammad.

- Você não acha que é muita coincidência a presença de tantos descendentes daquela batalha nesta caravana? Nada é por acaso neste mundo e não pense que você sabe dos desejos de Allahh. Não foi do desejo de Allaah proteger Abel nem os profetas perseguidos - falou de forma irritada Abu Khaled, que jogou  o resto de chá na fogueira, interrompeu a conversa e se retirou para sua tenda.

A madrugada corria normalmente quando, já perto do nascer do sol, uma nova tempestade de areia passou pelo deserto. Desta vez, ao fim da tempestade, um grito de pavor tomou conta do assentamento. Todos correram em direção ao grito, que vinha de uma das tendas. E, para o terror de todos, estava a ossada de um dos empregados, sem qualquer vestígio de sangue, pele ou vísceras. Ao seu lado, estava Abdallah, até então confiante num fenômeno natural ou na ajuda de Allaah, em estado de choque.

Sem conseguir dizer uma palavra, foi retirado da tenta e uma sallat foi feita para o morto, enterrado ali mesmo no deserto. Desesperados, os homens foram cobrar uma posição de Abbas, o dono da caravana. Todos foram reunidos em torno do assentamento e ele se pronunciou:

- As-salamaleikum. Homens, não temam! Saibam que tudo faz parte dos planos de Allaah e nada acontece sem Seu consentimento. Partiremos para Mekka agora mesmo e faremos de tudo para chegar lá no mais rápido tempo, pois os sábios saberão como nos ajudar. Teremos auxílio e uma explicação para os males que ocorreram, basta que confiem em Allaah e não se desesperem. 

Assustados e em silêncio, os homens partiram com a caravana em fila. A paranoia e o medo tomavam conta de todos, ao menor vento o pavor tomava conta das faces, o frio na barriga e a sensação de alguma desgraça por vir tomavam conta de todos. A sensação era a pior possível, já que apenas o deserto era visto, na frente e atrás. Cercados pela areia, cobertos pelo sol e pelo medo, os homens da caravana de Abbas evitavam o menor descanso, deixar aquele caminho com cheiro de morte era o único desejo de todos.

Mas uma outra tempestade de areia surgiu. Alguns correram, outros se jogaram no chão, buscando o máximo de cobertura. Gritos da Ta`awwudh[2] foram ouvidos, diversos clamores a Allaah foram feitos durante a tempestade. Após o fim da tempestade, os homens foram se levantando e se agrupando, para conferir a caravana. O grito de pavor foi novamente inevitável: desta vez duas ossadas foram encontradas, de dois condutores, novamente reduzidos a ossos sem qualquer vestígio de sangue, pele ou vísceras. O terror foi geral, homens exigiam que as mercadorias fossem deixadas no deserto, para que o destino em Mekka fosse alcançado mais rapidamente. Abu Khaled, com ar fatalista, tomou a palavra:

- Estamos condenados, ela veio vingar sua profanação e o sacrifício de seus filhos. 

- Astaghfirullah[3]! Não diga sandices! Isso só pode ser obra humana! Há algum assassino entre os nossos! – exclamou Abbas, pensando que a hipótese de um assassino seria mais tranquilizante que a da fúria de uma divindade pagã.

- Meu bom Abbas, com todo respeito que tenho ao senhor, permita-me dizer que a obra humana neste caso é impossível. Qual entre nós teria a capacidade de separar a carne e os órgãos de um corpo sem deixar a menor sujeira? – disse o filho do saher, o resignado Khaled.

O silêncio tomou conta da caravana, todos abaixaram a cabeça e, entre o terror e a dúvida, pensavam o que ocorreria dali para frente. Foi decidido, contra os desejos de Abbas, deixar para trás as mercadorias. A caravana foi rapidamente agrupada e todos partiram rumo à Mekka novamente.

Não demorou muito e algo foi notado: a experiente caravana esta andando em círculos. Como seria possível? A caravana era experiente, o caminho seguido era o mesmo de sempre. Teria a tempestade confundido a todos? Quando caíram na armadilha? Como era possível voltar ao mesmo pontos após a certeza de que todos estavam caminhando no mesmo caminho de sempre?

O pânico novamente tomou conta de todos, alguns começaram a trocar chingos e empurrões, e logo escolheram um culpado: Abbas. Os empregados acusavam a ganância de Abbas como a responsável, pois sua insistência em prosseguir com as mercadorias causou o atraso e a chance da tempestade de Al-Lat alcançar a todos. Foi então que Khaled, surgindo como um dos líderes da revolta, proclamou:

- Só há uma saída! Devemos oferecer o sangue e as cinzas daquele que é o motivo da fúria de Al-Lat e seus mortos. – e apontou o dedo para Abdallah, o descendente de Abu Soufyan, aquele que destruiu o ídolo e matou seus adoradores.

Desesperado, Abdallah tentou fugir, mas logo foi capturado. Não houve tempo nem para uma coordenação ou ritual. Caído de costas, Abdallah foi logo degolado, seu sangue esparramado pela areia e seu corpo queimado entre gritos, algazarra e uma fúria insana. Suas vísceras foram esparramadas, seu sangue corria pelo deserto e seus olhos foram arrancados e oferecidos para Al-Lat em pedidos de clemência.

Mas por onde andava Abbas? Não tentou impedir o sacrifício de Abdallah, nem estava mais presente, nem em carne, nem ossos. Fugiu, desesperado, com medo da insana caça ao culpado pela fúria de Al-Lat.
Depois do sacrifício de Abdallah, Khaled ria com satisfação e acalmava os agora seus seguidores. E então, já com olhar irreconhecível e com a voz alterada, falou:

- As-salamaleikum, meus irmãos! Agora que a fúria de Al-Lat foi aplicada, podemos seguir nosso caminho. Não temam, aquele que foi responsável pela maldição já foi oferecido como sacrifício. Que a fúria de Allaah, dos gênios e dos al-asnam[4] nos protejam!

Khaled tornou-se então o condutor da caravana. Após uma breve caminhada, escureceu e chegou o frio do deserto. Khaled ordenou que os homens se agasalhassem, vencessem o cansaço e continuassem a caminhada por mais umas horas. Poucas horas depois, a caravana parou em um ponto não conhecido do deserto. Khaled ordenou a parada e, com o mesmo olhar que ordenou o sacrifício de Abdallah, começou a cavar. Para espanto de todos, foi retirada uma estátua de Al-Lat. Khaled começou a entoar antigas orações e cânticos, enquanto os homens esperavam suas ordens, confiantes que aquilo fazia parte da proteção que estavam recebendo contra a tempestade de areia. Pouco depois do fim dos cânticos, a tempestade de areia voltou. Dessa vez mais furiosa. Apenas Khaled continuava em pé. Os outros homens corriam, se jogavam no chão, mas dessa vez a força da areia era muito grande. A tempestade foi acabando. As carcaças devoradas surgiram em meio ao deserto e Khaled entre elas, impassível. Com de ar de vitória, celebrava a derrota daqueles que descendiam dos algozes de seus antepassados.

O local foi abandonado, nunca mais ouviram de Khaled, nem de Abbas, dono da caravana. Até os dias de hoje, o local é evitado pelas caravanas. Alguns testemunharam aparições do próprio Khaled, desenterrando e enterrando a estátua de Al-Lat.

[1] “Busco refúgio em Allaah”.
[2] A expressão “Busco refúgio em Allaah contra Shaitan o amaldiçoado”.
[3] “Peço perdão a Allah”.
[4] Os ídolos.

Conto assombrado enviado por Rafael Daher. Envio o seu também!
Toda terça-feira tem conto de terror publicado aqui no blog.

CLIQUE AQUI para ler "Djinn: O Gênio do Fogo"
Comentários