29 de julho de 2014

Conto Assombrado: O Quinto Calafrio

Conto muito original que mostra os fantasmas explorando nossos cinco sentidos!

I: A audição

- Theo!

Ele ouviu um leve sussurro arrastado pela brisa que se esgueirava pela sala em um fim de tarde onde o sol alaranjado se despedia para a entrada de uma noite que anunciava o fim do outono. O silêncio naquela casa que ficava em frente à praia reinava de uma forma constrangedora e sombria. O crepúsculo invadia aquele ambiente para dar ênfase à melancolia deixada quando pessoas que amamos repousam a seis pés abaixo de nós.

Theo era um rapaz esguio, caucasiano e usava óculos de grau espessos e com armação tartaruga fazendo com que seus grandes olhos castanho-escuros parecessem ter o dobro de seu tamanho normal, porém a aparência do jovem não é o que interessa, todavia o que chama mesmo a atenção é aquele exíguo nó na garganta que deixa Theo um tanto quanto intrigado. Ele tem certeza de quem não há mais ninguém em casa, no entanto lhe vem uma passageira sensação de que existe mais alguém passeando entre as sombras que se aconchegam nas paredes dos cômodos de sua morada e uma inquietude paira nos pensamentos do rapaz.

- Bobagem! - Resmungou Theo. – Acho que estou ficando louco de tanto assistir filmes desse tipo! – Disse para si mesmo enquanto procurava o controle da TV perdido no sofá para poder trocar de filme. Ele estava vendo “Às vezes eles voltam” e sabia que precisava largar de ver tantos filmes que falavam sobre o além, mas a curiosidade para descobrir o que existe do outro era tamanha que deixava o rapaz praticamente obcecado por filmes desse gênero.

Theo se levanta e pensa em ir buscar um refrigerante na geladeira, mas no caminho é surpreendido por um som bem parecido com um assobio e em seguida, ouve novamente alguém chamar o seu nome e dessa vez o chamado parece estar vindo da porta da frente. Ele vai até lá e se surpreende em ver que não havia nada além das ondas do mar beijando a areia da praia e se pergunta brevemente por onde anda sua mãe – Seu pai havia deixado aquela casa para Theo e sua mãe que moravam sozinhos ali – e fica desconfiado, pois até agora ela não tinha dado nenhum sinal de vida. Refém do silêncio, cúmplice do medo e assombrado pelos sussurros que clamavam por seu nome, Theo começa a roer suas unhas e seus olhos já estão arregalados de tal maneira que mais se parecem duas grandes lanternas acessas procurando por alguém na escuridão. Os dedos dos pés se contorcem rente ao chão, o coração bate tão rápido como se quisesse rasgar o peito de Theo. Ele corre em direção ao interruptor mais próximo e tenta ligar as luzes da casa, porém, para a sua decepção, faltara luz justamente agora e para confirmar ele se depara com a televisão que está tão apagada quanto a coragem do menino Theodore.

II: O olfato

O barulho de passos subindo os degraus para o andar de cima da casa toma conta do lugar - você sabe que quando estamos a sós qualquer suspiro parece soar como um grito - e Theo decide averiguar se alguém subiu realmente para os quartos que do andar de cima, mas levando em consideração que poderia ser um ladrão, ele pega uma faca grande e afiada na cozinha e se arrasta sorrateiramente em direção à escada. Quanto mais ele se aproxima, mais o cheiro pútrido de enxofre se faz presente e o véu negro que fazia morada dentro da casa, trazido pela noite que estava chegando de vez, torna-se uma combinação perfeita para deixar tudo ainda mais súbito. Theo acende uma lanterna velha que ficava guardada em cima da geladeira para quando a luz faltasse. Ele sentia uma leve dor de cabeça, mas não era pelo odor de enxofre, talvez seja por ter dormido por toda a tarde daquele dia.

As portas corrediças de vidro da casa deixavam em evidência que a noite havia chegado completamente. A lua está cheia e com sua luz mórbida ilumina o recinto. O coração de Theo está vazio e seus batimentos soturnos escurecem uma alma atormentada pela sensação de descontrole que trafega pelos quatro cantos da casa. Fome? Dor? Não! Aquilo que Theo sentia novamente era o segundo calafrio...

III: O tato

- Que chiado é esse? – perguntou em voz alta. Theo escutou um chiado que parecia vir da sala, no andar de baixo, e até onde seu ouvido conseguia identificar, lembrava o som da TV fora do ar, mas não podia ser, pois deixou alguns interruptores ligados e se a energia da casa tivesse voltado obviamente essas luzes deveriam estar acessas.

Theo logo desiste de vasculhar os quartos e volta para descer os degraus da escada um por um, vagarosamente, rezando e pedindo para que aquele turbilhão de sensações esquisitas passe logo ou para que sua mãe chegue, porém nenhumas das duas coisas acontecem e, ao terminar o percurso, ele se depara com a TV ligada e arranca a tomada violentamente, mas não adiantou muito e o aparelho continuou funcionando e chiando como o barulho da chuva ao tocar o chão.

Como se não bastasse, o garoto sente uma mão fria tocando seu ombro e em segundos todo o sangue de seu rosto desaparece, deixando a face de Theodore ainda mais pálida do que costumava ser. Ele enfia dois socos na lanterna e quando ela volta a funcionar joga a luz para trás de forma vagarosa – e no mesmo embalo vira sua cabeça para tentar ver se realmente existe alguém atrás dele -, mas ao virar completamente não encontra nada. Somente você e eu sabemos quem observava Theo.

Um sentimento esquisito que lembra bastante quando uma garota passa a língua em seu pescoço ou quando seu gatinho se arrasta entre suas pernas surge, os pelos do corpo se levantam e a coluna se ergue plenamente, todavia desta vez o sentimento que suscita arrepios não é o prazer ou o carinho, mas sim o medo. O garoto alimentava um pavor enorme de algum dia se deparar de frente com um uma alma penada, mas quando você quer fugir das suas fobias, para se libertar, muitas vezes precisa ter que abraçá-las e não sobrou alternativa que não fosse continuar tentando descobrir o que estava acontecendo por ali.

O vento sopra espalhando o frio, o vento anuncia que as criaturas da noite estão à solta. Um leve mal-estar ou seria mais um calafrio?

IV: O paladar

Um pesadelo! Theo se imaginava dentro de um sonho ruim, escravo de um labirinto que possivelmente sua mente criou. Ele escuta um barulho como se alguém estivesse em prantos n’um dos quartos acima, era um soluçar tão dolorido que despertava dó em qualquer um que ouvisse. Respirou fundo, subiu para o andar de cima e se deparou com um corredor obscuro, deitado sob as trevas. Portas de um lado e de outro para dar acesso aos quartos e, ao fim do caminho, uma porta vermelha que parecia convidá-lo a entrar e esquecer totalmente as outras. Caminhando cuidadosamente e tateando as paredes na dúvida de dar um passo errado e tropeçar, ele foi em direção ao quarto de sua mãe, pois o barulho parece mesmo vir de lá. Sua mão repousava sobre a maçaneta da porta e a próxima ação seria adentrar o quarto se não fosse por um vulto que atravessara o corredor justamente nessa hora. Theo olhou tudo de soslaio, mas conseguiu interpretar que algo se movimentava por trás dele, porém, toda vez que se virava não conseguia pegar o vulto em flagrante.

Um adolescente curioso e cheio de incertezas não pensou em outra: decidiu abrir as outras portas para tentar achar o que estava a vagar por aquele corredor. Perambulou por todos os quartos – exceto o de sua mãe – para tentar achar o tal do vulto e parece que a atitude atiçou ainda mais a criatura que estava ali. Foi questão de segundos para Theo entrar em transe vendo as portas abrindo e fechando sozinhas. Ele ouvia gritos que não sabia se saíam dos quartos ou de dentro de sua cabeça, mas tinha a certeza que perturbavam ainda mais a sua consciência.

Um espasmo de loucura, o descontrole total chegou até o chão da mente do menino Theodore que saiu correndo para descer as escadas, mas ele não conseguiu descê-las, não do jeito que queria, pois ao pisar no primeiro degrau em direção ao andar de baixo um clarão de luz salta aos seus olhos e o menino tropeça. Se debatendo ao escorregar pelos degraus Theo parece ver tudo em uma espécie de câmera lenta e, de repente, desmaia de vez.

O jovem acorda e sente o gosto de sangue se espalhando pelos cantos de sua boca, mas ele não está machucado e muito menos sentido dores pela queda. O que bagunça ainda mais a mente de Theo é que ele não está caído ou debruçado no final da escada, ele está sentado no sofá e “Às Vezes Eles Voltam” ainda está passando. Olha para o lado de fora através da janela e percebe que o por do sol ainda está acontecendo e a ainda nem anoiteceu. Seria tudo apenas um sonho ruim? A extensão dos nossos medos são os limites dos nossos sonhos, mas o limite maior da vida era uma sensação incômoda e constrangedora que pairava no ar. Não seria um deja vu e nem uma premonição, era apenas um quarto calafrio.

V: A visão

Um som parecido com um disparo de tiro vem de um dos quartos. O menino Theo corre desesperadamente deixando seus ouvidos lhe guiarem rumo ao local de onde veio o barulho, porém o caminho reservava uma descoberta sórdida para o jovem: Theo se ver diante do seu próprio corpo estirado de frente a escada de acesso para a parte de cima da casa, mas mesmo assim vai correndo ao quarto de sua mãe, pois tinha certeza que era de lá que vinha o barulho do tiro.

Theo estava desorientado com tudo aquilo, mas o pior de seus pesadelos nasce quando ele empurra a porta do quarto: o menino encontra sua mãe morta e o sangue dela colorindo de vermelho as paredes brancas daquele cômodo. Havia um revolver por cima da cama e também fotos de seu pai que havia morrido dias antes em um acidente no edifício Andralls.

O garoto que estava em prantos ouve uma voz sutil que reverberava por todo o quarto dizendo:

- Nós sabíamos que você se juntaria a nós! Estávamos esperando por você, Theo!

Theodore se encontrava ajoelhado ao lado do corpo da mãe chorando nesse momento, mas se levanta e olha os espíritos de sua mãe e pai, de mãos dadas, sorrindo para ele. Theo sabia naquele momento que estava morto, mas o medo havia passado e todos aquelas sensações ruins tinham ido embora, porém ao se aproximar e dar as mãos aos espíritos de seus pais sente algo que os mortos não costumam sentir. Talvez fosse a última reação da alma que desencarnava do seu corpo. Talvez fosse apenas um quinto calafrio...

FIM!

Conto de Terror enviado por André Nadler. Envie o seu também!
André Nadler já enviou outros dois contos para o blog, que fizeram enorme suceso:
- Conto Assombrado: O Sacrifício Maldito (Nasce um novo Serial Killer!!!)
- Conto Assombrado: Beastrider - Um Pesadelo Em Duas Rodas!

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