29 de julho de 2014

Conto Assombrado: A Casa Verde (Parte 04 de 05)

Depois de 2 anos fechada, a casa verde tem uma nova família morando nela. A família não era unida, e aproveitando disso, a entidade que vive na casa começa uma estreita relação com uma das filhas, trazendo terríveis consequências...

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Passaram- se quase dois anos e a casa verde ainda estava desocupada, os vizinhos que moravam muito próximo a casa se mudaram, diziam ter arrepios só de passarem perto e juravam sentir uma presença, uma coisa sinistra naquela casa... A imobiliária estava tendo muita dificuldade em alugá- la, os assassinatos viraram noticia e a casa ganhou fama de mal assombrada, a única possibilidade de aluguel era pra alguma família de fora da cidade, que desconhecesse o passado do lugar e foi exatamente isso que aconteceu, Emanuel era viúvo há nove anos, a esposa falecera devido a um câncer e deixou uma filha, Eliza na época com sete anos de idade, agora ela já era uma moça acabara de completar seus dezesseis anos e com tão pouca idade já era uma pessoa imensamente infeliz, cresceu sem a mãe e mal cuidada, não em questão de comida, roupas, educação... Isso Emanuel soube fazer muito bem, o que faltou foi carinho, atenção, dedicação, cuidado...Eliza cresceu se sentindo desajeitada, solitária, inferior e o fato do seu peso aumentar muito a cada ano que passava só a fazia se sentir pior, não tinha amigas e muito menos um namorado ou coisa do tipo, seu único prazer era ler, devorava um livro após outro, de todos os gêneros, mas seus preferidos eram livros sobre o sobrenatural, foi assim que começou seu interesse por ocultismo, bruxaria... Já havia realizado pequenos rituais e em pouco tempo descobriu que tinha uma sensibilidade espiritual muito aflorada. Aos 14 anos Eliza chegou a pensar que sua vida mudaria, isso foi quando o pai conheceu Marisa, uma mulher muito bonita que era divorciada e tinha uma filha de 15 anos, quando Emanuel disse à filha que pretendia se casar, Eliza pensou que agora teria a família, a mãe que sempre quis, pouco tempo depois do casamento ela percebeu que não poderia estar mais enganada, Marisa era insuportável, arrogante e mesquinha, sua filha Bárbara também não ficava atrás, Eliza odiava admitir, mas sentia tanta inveja de Bárbara que chegava a se sentir mal só de olhar para a moça, Bárbara era tudo que Eliza sempre quisera ser... Era alta, magra, loura, linda, alegre, tinha muitas amigas e os garotos rastejavam aos seus pés.

Os quatro viviam na casa de Emanuel, mas logo Marisa começou a reclamar:

-  Essa casa é muito pequena, mal nos cabe aqui dentro...E as minhas coisas? E as coisas da Bárbara? Não dá pra continuar aqui Emanuel, é impossível.


- Mas Marisa... Pra onde a gente se mudaria? Nós saímos daqui e vamos morar aonde?

-  Na verdade, não é só dessa casa que quero me mudar, quero sair dessa cidade...Quero que a Bárbara tenha oportunidades na vida, com a beleza que ela tem tenho certeza que ela chega longe... Mas não aqui nesse fim de mundo e também seria bom pra esquisitinha, ela vai conhecer pessoas diferentes, viver num lugar diferente...Quem sabe isso não a faça sair do mundinho dela. 

- Não fala assim da minha filha, Marisa.

- Tudo bem... Me desculpa, mas você não pode negar... A menina é muito esquisita.

Depois de alguma insistência e de Bárbara e Eliza concordarem, Emanuel aceitou a idéia da mudança, mas nenhuma casa parecia ser boa o suficiente para Marisa e Bárbara, sempre colocavam defeitos em todas, quando finalmente estavam em frente à casa verde, Bárbara foi a primeira a falar:

- Essa nem pensar... Olha pra essa casa, em que século ela foi construída? 

Marisa concordou com a filha, mas Emanuel tinha gostado da casa e principalmente do preço do aluguel. Enquanto discutiam, Eliza se aproximou do portão e olhava para a casa, tinha gostado dali... Percebeu então que parecia ter alguém dentro dela, viu um vulto passando devagar em frente à janela, ela se aproximou um pouco mais e viu que era um homem, ele estava parado e olhava fixamente para ela, quando Eliza se virou para chamar o pai, sentiu uma coisa estranha... Olhou novamente para a janela e soube que aquilo não era um homem... Não era humano, não foi apenas à aparência dele que a fez ter essa certeza, claro; era humanamente impossível alguém ter aquela altura, aqueles olhos...Mas ela sentiu a vibração, a força daquele ser... Soube também que não se tratava de um mero espírito...Aquilo era uma entidade e uma entidade muito poderosa. Eliza não sentiu medo e o susto inicial deu lugar a outro sentimento, ela se sentia estranhamente orgulhosa, especial. A entidade estava se mostrando para ela, permitiu que somente ela o visse. Ela ainda olhava fixamente para ele, então o homem fez um gesto como que a convidando a entrar na casa, só então se deu conta que Marisa e Bárbara estavam quase convencendo o pai a desistir da casa.

- Papai, por favor...Vamos morar nessa casa. Eu gostei muito daqui, por favor.

- Ah! Mas é claro que a monstrinha ia gostar da casa, é feia, sem graça e esquisita como ela. – disse com Bárbara com deboche.

- Papai, eu nunca te pedi nada, mas agora eu te peço...Por favor!

- Nem pensar, - disse Marisa - Não quero morar aqui, parece que esse lugar todo foi abandonado, parece que as outras casas estão vazias também, nem vizinhos vamos ter.

Emanuel viu o olhar suplicante da filha e era verdade, Eliza nunca pedia nada a ele.

- Marisa, eu sempre faço todas as suas vontades, mas dessa vez não. Eu também gostei da casa e o aluguel dela é muito em conta, é uma casa grande, espaçosa e o bairro também é muito bom, depois nós podemos fazer alguns reparos, você decora ao seu gosto... mas nós vamos ficar com ela.

Emanuel falou com uma firmeza que ele raramente usava, Marisa percebeu que não adiantaria argumentar.
Poucos dias depois eles se mudaram, mal o quarto de Eliza estava pronto e ela já se trancou lá dentro, pegou alguns livros, acendeu velas e colocou seu tabuleiro ouija sob a mesa, se preparava para iniciar um ritual, quando sentiu a presença da entidade ao seu lado, o cheiro dele nunca esteve tão forte, chegava a ser sufocante. Tanto que Marisa e Bárbara sentiram o odor mesmo estando no quarto ao lado.

- Mas que fedor é esse, mãe? 

- Acho que está vindo do quarto daquela baleia, a monstrinha deve ter acendido aqueles incensos horrorosos dela.

No quarto, Eliza ia se acostumando ao cheiro, o coração tão acelerado que teve medo de passar mal, já tinha visto o homem de longe, mas agora... ele tão perto, ao seu lado...ela não pode deixar de sentir medo, aqueles olhos pareciam hipnotizá- la, chamando para que ela caísse naquele abismo...veias muito finas e azuis se espalhavam no rosto dele, ela parecia ter um terço da altura do homem...

- Você não precisa disso pra me chamar.

O homem falou tão inesperadamente que Eliza quase deu um pulo de susto.

- E você também não precisa ter medo de mim, menina. Eu te convidei á entrar na casa, lembra? Eu queria você aqui.

Eliza precisou reunir toda a sua força para controlar o medo, ainda mais depois de ter ficado observando os dentes do homem enquanto ele falava, ele parecia ter apenas caninos... todos os dentes eram caninos, afiados e compridos.

- Você é muito especial, menina. Tem um dom maravilhoso. Sabe quantas pessoas gostariam de ter esse dom? São tantas pessoas que tentam contato com o mundo espiritual, que tentam uma aproximação com seres como eu...E você não precisa de esforço algum, seu dom é natural.

- Eu... Eu sempre ouvi, vi coisas... mas nunca assim... nada igual a você.

- O seu dom vai aumentar cada vez mais, isso é só o começo. Como já disse, você é muito especial. É uma pena que você tenha uma família como essa, eu estive observando... essa gente te menospreza, te humilha... 
Mal sabem eles que você é melhor, superior a todos eles.

- Não... eu não sou melhor que a Bárbara, não chego aos pés dela... Ela é linda, magra, é...

- Ela é só uma insignificante e só tem algum valor para outros como ela. Se ela fosse tão especial quanto você pensa, eu estaria no quarto dela agora e não no seu. Para mim, ela é menos que nada.

Eliza se sentiu radiante, sublime, em deleite... Era a primeira vez que ouvia ser melhor que Bárbara... melhor que todos, superior a todos eles...

Quando viu a expressão do rosto de Eliza, o homem percebeu que tinha conseguido o que queria, em pouco tempo ela estaria pronta...

- E por falar...eles estão vindo pra cá e nenhum deles é digno de me ver.

E dizendo isso o homem desapareceu tão rápido que Eliza nem teve tempo de dizer nada, no mesmo instante Marisa esmurrava a porta do quarto e exigia que ela abrisse a porta, Eliza tentava esconder os livros, o tabuleiro, apagar as velas, só quando ouviu a voz do pai foi que ela abriu.

- Eliza, esse cheiro estava vindo do seu quarto? O que você estava fazendo aí com a porta trancada?

- Nada, pai... eu só estava lendo e...

Marisa empurrou Eliza e entrou de uma vez no quarto, viu as velas espalhadas, algumas ainda acesas.

- Era só o que me faltava... Olha pra isso Emanuel, eu te falo que essa menina é esquisita. Agora eu acho que ela ta pensando que é algum tipo de bruxa, feiticeira, macumbeira, sei lá...

- Não! Não é nada disso, eu só estava lendo pai, só isso.

- E essas velas minha filha? Pra que isso?

- Era...eu... essas velas são aromáticas, pai... eu senti um cheiro estranho e... e acendi as velas pra perfumar o quarto.

- Deixa de mentirosa, se aquele fedor horrível estava vindo justamente do seu quarto, oras! Você dá um jeito nisso Emanuel, dá um jeito nessa sua filha maluca, não quero saber dessas coisas de macumba na minha casa e você Eliza deixa de ser ridícula, você já é esquisita o bastante, não precisa dessas coisas para piorar a sua situação. É por isso que você é assim, sozinha... não tem amigos, não tem namorado... Por que ninguém nunca quer se aproximar de gente doida, para de agir feito maluca, entendeu?

- E já que você pensa que é bruxa –disse Bárbara aos risos -  Por que você não faz um feitiço pra deixar de ser feia e gorda?

- JÁ CHEGA! –o grito de Emanuel surpreendeu a todas- Não vou admitir que vocês falem assim com a minha filha, quero falar com vocês duas na sala agora, andem as duas.

Eliza se trancou no quarto novamente e chorou o resto do dia, como ela odiava aquelas duas. Os próximos dias também não foram fáceis para ela, apesar do sermão que Emanuel fez a Marisa e Bárbara, as duas não perdiam uma oportunidade de ridicularizar Eliza, sempre uma piadinha, um comentário maldoso. Pra ela quase já não valia a pena sair do quarto, passava quase o tempo todo trancada lá, estava de férias na escola e não tinha nada pra fazer, ficava o tempo todo lendo e chamando pela entidade, chamava todos os dias e quase uma semana depois ela o viu novamente.

- Eu... eu chamei tanto por você, eu...

- Eu sei, eu ouvi.

- Mas então... por que você não veio? Por que você não pareceu?

- Por que eu estava te observando, esperando a hora certa. Me diz uma coisa menina, até quando você vai permitir que isso aconteça?

- Isso o que?

- Sua família... até quando você vai agüentar? Sabe... você não precisa aturar mais isso. Vou repetir o que te disse da outra vez, você é superior a todos eles. 

- Mas eu não posso fazer nada... não sei como, não sei o que fazer pra elas pararem com isso.

- Você não pode fazer nada... mas eu posso! Você só precisa me pedir, menina.

- Mas eu não sei o que eu poderia fazer, não sei o que...

- A sua madrasta, por exemplo...ela sempre te chama de louca, diz que você é esquisita, que é maluca, ela nem sabe o que isso significa, você deveria fazer com que ela provasse do próprio veneno, sentir na pele o que diz de você.

Eliza parecia em dúvida, o homem se aproximou ainda mais dela.

- Vamos menina, você sabe que ela merece. Ela te humilha, te ridiculariza, te ofende o tempo todo há anos, ela não merece a sua compaixão.

- Você tem razão, ela merece um castigo. Mas...você poderia fazer isso?

O homem riu alto, uma risada tão fria e sinistra que fez Eliza se arrepiar.

- Menina... eu posso fazer coisas que você nem imagina.

Neste exato momento Marisa estava no quarto com a filha, sentiu uma dor tão forte na cabeça que a fez gritar, Bárbara desceu gritando por Emanuel, quando voltaram ao quarto Marisa estava caída se contorcendo de dor, as mãos apertando a cabeça com força, Emanuel tentou levantá- la, mas o corpo da esposa estava com um peso incrível, ele mal conseguia movê- la, a dor era tão forte que fez Marisa vomitar, Eliza ouviu os gritos e correu para o quarto para ver o que estava acontecendo, de repente Marisa começou a ter espasmos, se debatia, se contorcia, teve uma convulsão violenta, começou a babar e parecia não conseguir respirar, foi ficando cada vez mais roxa, os lábios estavam quase negros, seus olhos reviraram a ponto da íris e pupilas sumirem, ficaram completamente brancos, a baba grossa escorrendo pelos lábios e foi com essa aparência que Marisa parou de mexer, se sentou lentamente e disse numa voz totalmente infantil:

- Ah! São vocês que moram aqui agora? Eu também já morei aqui...ou melhor, minha mamãe morou aqui e eu estava dentro da barriga dela.

Nessa hora Bárbara desmaiou, Emanuel deu dois passos para trás e Eliza não conseguia se mover, não conseguia piscar. A voz que saia da boca da madrasta era infantil demais ate para uma criança, parecia mais um bebê quando aprende a falar... e a voz continuou:

- Mas agora a mamãe não mora mais aqui não, ela ta doente... Ela ainda pensa que eu to na barriga dela...mas o papai ficou aqui comigo. O papai e eu ainda moramos aqui –a voz se tornou um sussurro - Com vocês!

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